AS CRUZADAS ESQUECIDAS
(sobre a história da península
Ibérica)
Pe Ignácio dos padres
escolápios
INTRODUÇÃO: Geralmente se afirma que são 8 as cruzadas e só se
estendem à liberação da Terra Santa. Mas do ponto de vista religioso, o que é o
que distingue essas guerras das que por exemplo se davam nas mesmas épocas na
Europa? Que significava para um cruzado participar nessas guerras especiais
dirigidas contra o Islã? Vamos ver algumas guerras realizadas em território
europeu que têm os mesmos motivos e as mesmas prerrogativas que as 8
convencionalmente admitidas como tais. Estudaremos a História do ponto de vista
religioso para se ter uma idéia de como viviam os cristãos submetidos ou
fronteiriços a um Islã que era tolerante ou perseguidor mas nunca amigo e
compreensivo.
INVASÃO
ÁRABE DA ESPANHA: Em 711 Tarik entra na
Espanha com 7 mil homens, usando barcos alugados pelo conde de Ceuta. Antes da
batalha em que derrotará o rei godo Rodrigo, ele chama 5 mil berberes e com sua
ajuda vence na batalha de Guadalete. A aristocracia do exército invasor é
formada por árabes do norte e árabes do
sul ou yemenies [chamados estes de tuyibies]. Toledo é conquistada no mesmo ano
e em 714 Zaragoza é ocupadas pelo muçulmanos e recebe o nome de Saracusta
Albaida [a branca]. Em 718 era dominado todo o vale do Ebro. Os
conquistados se dividem em: Muladies [literalmente gerados de mãe não-árabe] entre
os quais foi célebre a etnia dos Banu Qasi [banu =filhos e Qasi do conde Casius
de Tudela] um de cujos descendentes [Muza bem Fortun] se intitulou 30
rei de Espanha. Mozárabes, cristãos submetidos a fortes tributos; mas com sua
organização eclesiástica e jurídica própria. E muçulmanos, entre os quais havia
berberes, sírios, yemenies e eslavos. Nem sempre se respeitaram as regras do
jogo. Vamos fazer um breve resumo do que foi considerado como Reconquista.
SÉCULO VIII:
OS
NÚCLEOS CRISTÃOS. Podemos dividir os núcleos cristãos de enfretamento
aos muçulmanos em três: NÚCLEO
ASTURIANO/LEONÉS que começou em Covadonga (722) com uma pequena
escaramuça [segundo cronistas árabes]
na qual Pelayo vence os árabes e funda, com base na aristocracia goda, o
reino, asturiano de origem. Pelayo que esteve como refém em Córdova e era filho do
duque Fáfila, conheceu Covadonga [cova dominica =cova da Senhora] quando
perseguiu um criminoso até a cova em que habitava um eremita, que custodiava
uma imagem de Nossa Senhora. Cedendo às instâncias deste último, teve que
perdoar o inimigo. Como os astures se negassem a pagar os tributos, a pedido de Pelayo, o emir [chefe supremo
político/militar] enviou Alqama um berbere para cobrá-los e tomar reféns que
servissem de garantia. Alqama perseguiu os cristãos e entrou no vale, onde foi
derrotado e morto. A derrota parece que foi importante porque o Váli da região
fugiu ao sul, mas foi derrotado e morto no vale de Olalies, hoje Proaza [20 Km
ao sudoeste de Oviedo]. Pelayo não obteve o título de rei que foi dado a
Alfonso I (739-757) casado com sua neta Fáfila; mas fundou o santuário de
Covadonga com o nome da Virgem das Batalhas. Hoje todo asturiano chama-a com o
carinhoso nome de La Santina[a santinha]. Com
Afonso I, chamado o católico, realizaram-se várias campanhas contra os
muçulmanos, trazendo muitos mozárabes [literalmente influenciados pelos árabes]
cristãos que moravam em territórios dominados pelos mouros e despovoando a
região do Douro por cem anos, de modo a ser chamada deserto do Douro. Neste
século existiam no território cristão 20 mosteiros, todos de origem visigótica
e rito toledano, ou mozárabe. Dizem que Alfonso VI (1040/1065-85) decidiu impor
a unificação ritual no seu reino com o rito romano, ou gregoriano dos
cluniacenses. Mas a resistência encontrada entre o povo decidiu que a questão
fosse julgada pelo juízo de Deus. O guerreiro defensor do rito mozárabe,
Juan Ruiz de las Matanzas, foi o vencedor. Mas o rei relutou; e de novo se
submeteu a um outro juízo em que dois missais [livros de missa] foram lançados
ao fogo. O missal mozárabe pulou fora das chamas intacto e o de rito romano foi
totalmente consumido. O rei então ditou que o rito mozárabe
fosse respeitado em Toledo e o rito romano imposto no resto do reino. Deste
fato se deriva o provérbio: Lá vão leis do querem reis. NÚCLEO NAVARRO/ARAGONÉS: Os muçulmanos acharam escassa resistência em Aragão no
século VIII, e instalaram diversas guarnições estratégicas. Ao se repartir o
país os berberes submeteram Aragão e Navarra, fora das montanhas. Muitas
cidades e aldeias se submeteram sem condições ao vencedor; mas alguns
habitantes se refugiaram nas montanhas dos Pirineus. Os moradores dessas
montanhas eram escassos, na maioria judeus e idólatras, exceto os de alguns
conventos e eremitas cristãos. Os berberes ocuparam Pamplona e a Vascônia
francesa [Gascunha] e se apoderaram das terras planas do norte dos Pirineus.
Arde Burdeus que conquistam, queimando-a. O Váli [Wuali ou Guali que significa
governador] Abd al Rahman Ben abd al-Gafiqui foi derrotado e morto em 732 na
batalha de Poitiers, bem no interior da França, pelos francos de Carlos
Martel. Mas os árabes conseguiram
durante muito tempo se manter nas planícies de um e outro lado dos Pirineus.
No fim do século se consolida o reino de Navarra com o seu primeiro rei,
Iñigo Arista(770-852). Morto o pai, a mãe de Iñigo casou com o Banu Qasi Muza
ibn Fortun de Tudela. Com a ajuda de seus genros, Muza e Garcia o Malo de Jaca,
Iñigo lutou contra os condes enviados por Ludovico Pio do norte e os soberanos
de Córdoba do sul, se tornando independente. Ao leste, com núcleo em Jaca, um
chefe desconhecido chamado Aznar, que depois se intitulou conde de Aragão. Pela
parte de Sobrarbe, no oriente, Bernardo, o filho do conde franco Ramón, se
apoderou dos territórios de Sobrarbe e Ribagorza intitulando-se conde da mesma.
Todos uniram poder e religião e desse tempo temos os santuários de San Salvador
de Leire, S. Pedro de Liresa, S. Juan de la Peña. Os santuários eram erigidos
como lugares em que as tumbas reais e dos nobres pudessem repousar como
cemitérios sagrados, acompanhados dos cantos, rezas e missas dos monges. As
lendas religiosas abundam acompanhando os fatos de armas desses primeiros
tempos. NÚCLEO CATALÃO:
Aragão e Catalunha dependem do condado de
Aquitânia. Com efeito, após a batalha de Poitiers (732) a vascônia francesa de
Eudóni se liberou dos muçulmanos. Com Carlos
Magno se iniciou uma reconquista das planícies do norte dos
Pirineus. Um exemplo é o acontecido em Lourdes. Tanto os romanos como os
bárbaros e os mouros fortificaram a rocha de Lourdes onde está seu castelo. Uma
lendária tradição diz que em 778 Carlos Magno sitiou o castelo, na época em
mãos do mouro Mirat. Apesar dos assaltos e da fome, o castelo resistia
impugnável. De repente uma águia aparece no horizonte. Voa sobre o castelo e
deixa cair de seu bico uma enorme truta aos pés de Mirat. Este,
inteligentemente, pegou a truta e deu-a de presente a Carlos Magno assim dizendo:
temos suficiente comida. Carlos estava a ponto de levantar o sítio quando
Turpin, bispo do Puy-en-Velay teve uma inspiração e pediu licença para falar
com Mirat. Ele sugeriu a Mirat que devia se render, não a Carlo Magno mas à
Rainha do céu. O Mouro aceitou a idéia e entregou suas armas aos pés da Negra
Virgem do Puy e se batizou, adotando o nome de Lorus de onde deriva o
nome da cidade de Lourdes. Com Carlos Magno se estabeleceu uma fronteira na
vertente meridional dos Pirineus e com o apoio dos autóctonos. O domínio franco
foi efetivo com a conquista de Gerona (785) e Barcelona(801) O teritório ganho
dos muçulmanos receveu o nome de Marca Hispânica integrada entre os condados
dependentes dos Carolíngios AS MARCAS ÁRABES: Os árabes dividiram as zonas geográficas fronteiriças
em Marcas com as dominadas pelos cristãos; tais denominações indicavam
sua relativa posição escalonada em sucessão, de este a oeste. A organização de
uma Marca estava em relação com sua função ofensiva/defensiva e lhe conferia um
caráter peculiar que forçava muitas vezes o poder central a reconhecer-lhe uma
amplia autonomia. A Marca Superior que é o objeto de nosso estudo, compreendia
em geral territórios limítrofes desde o Mediterrâneo até o início da Marca
Média nas cabeceiras dos rios Douro e Tejo, que por seu diferente regime
fluvial determinaram, segundo os geógrafos árabes, duas zonas na península:
Levante e Poente. A capital da Marca superior era Zaragoza, qualificada como
metrópole e de lá se controlavam os diversos distritos. Entre os árabes do
norte e os de Iémene existiam numerosos enfrentamentos, como ocorria entre os
diversos reis cristãos. Assim a população era constituída por árabes, a elite
que era maioria na Marca Superior em relação aos berberes. Logo o domínio passou
aos autóctones muladies que aceitaram convertir-se ao Islã e foram os grandes
colaboradores da implantação do estado muçulmano. Seu número, ao que parece foi
considerável, e constituíram uma linhagem árabe [mawla] com nomes como Banu
[filhos] que tiveram um destacado rol na história do Aragão muçulmano. Entre
eles é de notar os Banu Qasi dos quais temos falado. Um deles, Muza Ben Fortun
teve tanto poder que se intitulou o terceiro rei da Espanha. Autóctones eram
também os mozárabes [cristãos que moravam em territórios muçulmanos] e os
judeus que mantinham sua religião
embora tinham como língua o árabe e os costumes fossem bastante islamízados.
RONCESVALLES:
Por sua importância, mais literária que militar, vamos narrar um fato em que as
forças de Carlos Magno foram derrotadas e houve uma parada na reconquista pelos
francos do norte espanhol. Em 777 Carlos Magno recebe a visita de Sulayman
Ibinalarabi Váli de Zaragoza, que lhe propõe um pacto: dar-lhe-á as cidades de
Barcelona, Zaragoza e Jaca a câmbio de ser ajudado para conquistar o Emirato,
derrotando Abderramão I. Carlos reúne um enorme exército que divide em duas
colunas: pelo oriente entra na Catalunha e pelo ocidente em território de
Navarra, que ele pessoalmente comandava. Sua esposa Hildebranda e as mulheres
ficam em Aquitânia, recém-conquistada pelo francês. Carlos encabeça o exército
de Navarra. Passado o território dos vascões, Carlos é bem recebido pelos
muçulmanos. Todos se rendem sem combate e o cobrem de presentes. Pamplona,
então está mas mãos dos berberes, uma das três etnias mouras da península,
sendo as outras duas árabes do norte e árabes do sul. A cidade abre suas
portas. O exército segue o curso do Ebro e chega a Zaragoza. Mas o Váli Al
Hussayn embora inimigo de Abderramão, nega-se a entregar a cidade. O sítio se
prolonga por meses mas os muros da cidade são fortes e Carlos deve dar ordem de
retirada. Tomando Suleyman e os notáveis como refém, o exército franco, na sua
volta através do Pirineus, destrói tudo: queima campinas, saqueia as cidades e
especialmente destroi os muros de Pamplona para se assegurar a retirada. O
exército franco tem quase o dobro de gente e enorme butim. Como sempre, na
retirada, a retaguarda é ocupada pelos guerreiros mais valentes. No caso Roldão
e os doze pares. Em Valcarlos ao norte de Navarra num lugar chamado
Rocesvalles, a retaguarda foi atacada e destruída em 15 de agosto de 778. O
fato deu lugar ao famoso cantar de Roldão, atribuído ao arcebispo Turpin. São
20 mil os mortos. Quem foram exatamente os vencedores? Há três opiniões: os
árabes liderados por Aizon e Matru filhos de Suleyman que lograram resgatar seu
pai. Uma segunda, é uma combinação de vascões e muçulmanos; e a terceira, só os
vascões de um e outro lado dos Pirineus. Carlos, ameaçado pelos saxões do norte
francês, abandonou suas aventuras hispânicas. Porém 3 anos após essa derrota em
781 fundou para seu filho, Ludovico Pio, o reino de Aquitânia, até então
ducado; e este se apoderou de ambas
vascônias, dominando Pamplona e conquistando Tudela(802). Logo se apoderou de
Barcelona.
SECULO IX:
OS ÁRABES: Começa o século com a subida
como emir ao trono de Córdoba de Al-hakam I (796-822) cuja ferocidade foi
conhecida com a jornada do fosso (797). Chamou os notáveis toledanos que não
admitiam sua autoridade. Uma vez no castelo, foram decapitados um a um e seus
corpos lançados a um fosso. Foi uma premonição da famosa campana[sino] de
Huesca de Ramiro, o Monge. OS MÁRTIRES: Grandes martÍrios ocorreram
de 824 a 931. Especialmente rigorosa foi a perseguição durante o reinado de
sucessor de Al-hakam I, Ab-al-Ramão II (818-852), que não permitia ir à missa
sem que os cristãos pagassem cada vez um imposto especial e castigava com pena
de morte quem falasse em público de Jesus Cristo. 850-859 foi especialmente a época de cruenta perseguição,
primeiro com Abderramão II e logo com Muhammad I (852-886). Com motivo do
assassinato de um sacerdote e logo de um comerciante cristãos (850), os mais
fervorosos entre os cristãos protestaram ante o Váli da cidade por estas injustiças
e como afirmassem que Jesus, e não Maomé, era seu líder religioso, foram
torturados e degolados. Morreram jovens e velhos em grande número. EULÓGIO: Nestas circunstâncias, foi o grande doutor
da Igreja mozárabe e o encarregado de animar os mártires. Seu avô lhe ensinou
desde pequeno que cada vez que o relógio tocava as horas diria uma pequena
oração: Meu Deus, vinde em meu auxílio! Senhor, vinde depressa a
socorrer-me! Quando jovem era
discípulo de Speraindeo seu mestre espiritual que lhe disse: Se desejas que
tua oração voe a Deus põe duas asas nela:o jejum e a esmola. Parece que
essa foi durante séculos a norma dos eremitas cristãos, frequentes nestes
séculos que viviam sós, assim como os monges moravam nos diferentes mosteiros,
dos quais conhecemos Leyre (Navarra) e Siresa(Aragão). Estes mosterios eram as
bibliotecas e universidades do tempo. Eulógio, após dez anos preso sai em busca
de seus irmãos que tinham ido a Alemanha e em Zaragoza se inteira de que
estavam bem. Visita os mosterios de Navarra e Aragão de onde traz diversas
cópias manuscritas de atores antigos tanto romanos[Horácio, Virgílio] como
cristãos[Agostinho]. Uma vez em Córdoba se une ao grupo de sacerdotes de S
Zoilo. Por mediação de Eulógio uma jovem filha de um muçulmano, Lucrecia, se
converte ao cristianismo. Foi preso e condenado a morte. Um soldado
esbofeteou-o na face direita e o santo apresentou a esquerda que novamente foi
atingida. Eulógio foi degolado e pouco depois Lucrecia. Era o ano 859. MÁRTIRES DE BOBASTRO: Em 871 os Banu-Qasi de
Zaragoza se levantam contra o emir Muhamad I filho de Abd-al-Ramão. Mais importante foi o levantamento do muladi
em Bobastro [perto de Málaga] Umar [ou Omar] ibn Hafsun (880) formando um reino
cristão até o ano de 928. Desta luta só nos interessa os sucessos religiosos.
Contrariamente ao que se diz que as comunidades viviam em paz vamos relatar
alguns fatos contrários. Em 888 o emir Al Mundhir (886-888) de Córdoba na
guerra contra Bobastro conquista Archidona. Perdoa os muçulmanos,
principalmente berberes e os mil soldados cristãos ou melhor muzárabes são
obrigados entre apostatar ou morrer. Um só apostatou e o resto foi degolado,
com a exceção do chefe que foi crucificado entre um cachorro e um porco. MÁRTIRES
ARAGONESES: Um outro fato: quando Abderramão I quis reforçar sua autoridade
nas terras aragonesas, organizou duas razias uma delas contra os de Sobrarbe no
ano 781. Queimavam e destruíam centros populacionais inteiros, matando sua
gente, incluídas mulheres e crianças. Perto da famosa ermida da Virgem da
Nuez[Noz], numa cova foram achados
ossos humanos com predomínio de mulheres e crianças que foram encerrados vivos
e emparedados. A imagem da Virgem foi escondida num tronco de uma nogueira. Este
relato pode ser um exemplo de como muitas imagens de Nossa Senhora foram
encontradas por pastores nos diversos territórios hispânicos. ALMANZOR: É conhecida a incursão de
Almanzor a Compostela em 997. Destruiu o templo mas respeitou o sepulcro do apóstolo
e com alguns milhares de prisioneiros levou os sinos menores nos ombros dos
mesmos até Córdoba, onde serviram como lâmpadas na mesquita. Conquistada
Córdoba, os cristãos obrigaram os árabes a refazer o mesmo caminho; mas desta
vez nos ombros de muçulmanos. O próprio Almanzor na sua última das 57
incursões, chegou até S Millán de Suso e incendiou a ermida. Na sua retirada
parece que os cristãos atacaram a retaguarda em Hacinas, perto de Burgos, donde
pela primeira vez a tradição diz que se invocou S Millán e foi visto num cavalo
com estandarte branco ajudando os cristãos, coisa que seria vista em Clavijo
contra os Banu Qasi, aparecendo juntos Santiago e S Millán [ou só Santiago].
Como os mouros atacavam gritando o nome de Maomé, os cristãos revidavam com Tiago
e cierra Espanha [cierre de cerrar=embestir, acometer]. Dessas duas ações
guerreiras brotou a lenda do cavalo branco de Santiago. Desta razia Almanzor,
enfermo, morre aos 64 anos em Calatañazor (1002) e surge o dito Em
Catalañazor perdeu Almanzor o seu atambor [atambor = tambor], que na época
significava o instrumento de chamada para a guerra e de alegria pelo triunfo.
OS REINOS CRISTÃOS. ASTÚRIAS/GALÍCIA: Se
o século X corresponde à época de maior resplendor de Al-Andalus ou seja da Espanha muçulmana, o velho núcleo
asturiano se converteu no poderoso reino de Leão com Alfonso III, o Magno. Com
este rei que alguns denominam como o Imperador por seu domínio sobre reis
vizinhos, o Douro desde o Atlântico até seu nascimento seria o limite do reino astur/leonés,
incluindo cidades portuguesas como Coimbra e Porto. A repovoação foi feita por
galegos, cântabros, vascões e mozárabes.
CASTELA: Em 960 nasce o novo reino de Castela assim chamado pelos
castelos que serviam para se defender dos mouros. Exatamente como Catalunha que
também tem a mesma origem gramatical. Dependendo do reino astur/leonés e para
evitar as incursões pelo vale do Ebro se criou o condado de Castela. À morte de
Ramiro II no ano 951 o conde Fernán González logra a independência do condado
que se unirá a Leão com Fernando I em 1037.
NAVARRA:Situada entre os passos pirenáicos e o
Ebro, após uma primeira fase de domínio vascão e dos muladies aragoneses, a
família dos Jimena instaura no século X uma monarquia feudal cuja máxima
expansão sucede no início do século XI. Como história eclesiástica temos a
fundação no sudeste, do Mosteiro de Leire, peça do pré-românico
correspondente ao ano 848, que conjuga a paisagem natural e semi-montanhosa com
sua serenidade e austeridade. Na sua história, transcorre tanto a da Espanha
como a da França, que manteve uma grande influência sobre Navarra. É típica a lenda em Leire do abade
Virila. Tinha dúvidas sobre a eternidade: como era possível estar feliz tanto e
tão longo tempo? E achou sua resposta ao escutar um canto de um passarinho, tão
bonito e variado, que ficou extasiado. Quando voltou em si, quis entrar no
mosteiro. Mas encontrou-se com que ninguém o conhecia. Seu êxtase tinha
demorado 300 anos! S. MILLÁN: Vamos fazer um pequeno parêntese, falando do santo de
maior nome na época: S Millán ou Emiliano. SUA VIDA: Segundo
Meniot [em o Diabo na vida de S Millán], c´est un dês saints lês plus grands,
lê plus célèbres, lês plus veneres, lês plus anciens de la península ibérique.
Sua memória foi conservada por Bráulio de Zaragoza (século VII) e Berceo no
XIII. Millán nasce por volta de de 474
em Berceo (Rioja) filho de uma família camponesa de origem
hispano-romana e se torna pastor de ovelhas. Aos vinte anos um anjo lhe indica
o caminho de um eremita de nome Félix, que se torna seu mestre, na
religiosidade visigótica-cristã. Terminado seu tirocínio foi ordenado sacerdote
por Dídimo de Tarazona,passando a fazer parte do clero de Berceo. E como usasse
o patrimônio eclesiástico para fazer esmolas, acabou por levar à insatisfação o
restante do clero e seu posterior desligamento do clero secular. Voltou a sua
vida eremítica dedicando-se à cristianização dos vales circundantes, reunindo
durante 40 anos muitos seguidores, que formaram um grupo que continou sua vida
eremítica, mesmo sob domínio muçulmano. A vida ascética tinha entre os godos um
exemplo no famoso Prisciliano, que alguns consideram como herege e outros um exaltado. Morre com 101 anos.
O MOSTEIRO DE SUSO: Sobre a antiga ermida de S Millán de la Cogolla de
Suso do ano 574, ano da morte do santo, foi edificado o novo mosteiro de estilo
repovoação. Houve uma comunidade mozárabe e o mosteiro foi objeto de rivalidades entre Navarra, o
condado de Castela e os árabes. A igreja foi consagrada em 984, chamada da
Cogolla pelo perfil que se parecia com a coculla [capa que cobria o corpo de um
monge]. Neste mosteiro, no final do século, escreveu-se o códice Aemilianensis
60 em cujas margens [glosas] existem as primeiras palavras escritas em castelhano
e em euskera[Vasco]. O cronista traduz: adjubante Domino Nostro Jesu Christo
cui est ... deste modo: con o ajutório de nuestro dueno Chirsto dueno
Salbatore. Isto sucedia no século X
embora alguns críticos o atrasem até o início do século XI. S. Millán é de
interesse na reconquista porque os cristãos, segundo Gonzalo de Berceo em sua
vida de S Millán, contra os votos de parte de Ramiro II de Leão a Santiago e de
Fernán González a S. Millán, pediram que ambos fossem invocados na batalha e ambos os patronos aparecem na ação de
Hacinas em que a retaguarda de Almanzor foi atacada ao sul de Burgos; deste
combate saiu derrotado o emir árabe. A piedade popular exigiu um testemunho
pictórico em que aparece S Millán montado num cavalo branco, tal como Santiago,
com um estandarte branco e uma espada flamejante, pisando os mouros derrotados.
Nota: Nesta época
vemos com surgem nomes que depois terão um uso comum: DUQUE: do francês duc [porvavelmente do
latim dux] general de um exército que era o mais alto degrau da nobreza. No
tempo de Constantino, como os governadores não tinham poderes militares, estes
eram comandados pelos dux ou duces. MARQUÊS: Pessoa ao mando de uma Marca. O
comando militar era próprio do marquês. CONDE: mandavam nos condados ou seja o
que hoje poderíamos chamar de províncias.(continua)