AS CRUZADAS ESQUECIDAS - 2º parte
SÉCULO
X. AL-ANDALUS:
Mapa do início do século X em que vemos os condados cristãos do nordeste, como são Aragão, Sobrarbe Ribagorza e pallars e a Marca hispânica com os diversos condados que ainda não tinham se reunido no único de Barcelona.

ABD-ALLAH (844/888-912) chega ao trono assasinando seu irmão Almondir. Mas teve que iniciar uma verdadeira guerra civil contra Omar ibn Hasuf [o rebelde cristão de Bobastro, em Ronda, ao Norte de Málaga] dono de um território que compreendia as atuais províncias de Granada Jaén e Málaga por uma parte, e os chefes árabes de Sevilla os banu Hayyay e Toledo. Outros rebeldes eram muladies das montanhas cordobesas de Jaén e berberes como os banu Jali de Cañete [perto de Ronda]. Omar chegou até às porta de Córdoba; mas foi derrotado e seus 4 mil mozárabes cristãos foram convidados a escolher entre a morte ou a conversão ao Islã. Com poucas exceções, a imensa maioria preferiu a morte. Ao morrer Abd-allah no ano de 912 praticamente só tinha o poder sobre Córdoba e seus subúrbios. Compreendendo a situação delicada em que se encontrava o emirato, Abd-Alah quis deixar os destinos de Al-Andalus nas mãos do príncipe mais capacitado; e uma vez que tinha mandado matar os dois filhos que se sublevaram contra ele, pulando a ordem hierárquica, transpassou o poder para seu neto Abd-al-Rahman por sua inteligência, perspicácia e tenacidade.
Mapa no início do Califato em que vemos os diveros reinos cristãos do norte
e prinicpalmente o reino de Omar ibn Hafsun que terminaria conquistado por
Abderramão em 928.

ABD-AL-RAHMÃO III (891/
912-961): Três
semanas após seu nascimento
(janeiro 891) seu pai, Mohammed, foi assassinado por ordem do Emir Abd-Allah,
usando como assassino material o sobrinho do assassinado e filho do Emir de
nome Motarrif. Naqueles anos do final do século IX o culto ao homicídio igualava
cristãos e muçulmanos, árabes e berberes, yemenies e eslavos. Conta-se de
um Emir que tinha num baú as cabeças de seus inimigos que tinha mandado matar
e como avaro não de moedas mas de ódio, todas as noites abria o cofre e se
deleitava com as cabeças cortadas nele apinhadas. Após o assassinato do irmão,
Abd-allah se arrependeu e adotou e educou como filho Abderramão, que era filho
de um dos príncipes omeyas {Mohammed] do palácio e de uma concubina navarra
de nome Muzna e neto de uma princesa da mesma região. Abderramão
teve também como sua favorita uma cristã, Marchán
a grande Senhora, cristã, mãe de Al-Hakam e que foi a preferida do califa;
dela fala o cronista Ibn Hayán louvando sua inteireza de caráter, sua esquisita
circunspeção, boas maneiras, que pela doçura, formosura física, a palavra
refinada, elegantes gestos e fortaleza física excedia qualquer outra mulher,
causando inveja entre suas companheiras, já que por tudo isso era venerada
pelos cordobeses. Não é de se estranhar que Abderramão também casasse
seu filho Al-Hakam II com uma princesa navarra, Aurora [Sobeya ou Subh em
árabe]. Abderramão falava árabe e romance e estava interessado nas ciências
do seu tempo como a Filosofia, a medicina, e a Astronomia. Não era muito religioso
de modo a não seguir os preceitos do Al Korão respeito ao vinho e à carne
de porco. Diz-se que no lugar de porco comia-se porca na sua mesa com o qual
cumpria a letra do livro sagrado. O
SOLDADO: de complexão robusta e de meia estatura, era ruivo e de
olhos azuis escuros pelo qual tingia o cabelo e só se deixava ver na penumbra.
Aos 21 anos sucede seu avô como emir de Córdoba, e desde o principio mostrou
uma firme decisão e uma constante tenacidade para acabar com os rebeldes do
interior. A primeira coisa que fez foi atacar Omar ibn HafsúnAbdalach (888-912).
Em 917 morre Omar e 11 anos depois seu filho Hafz se rende e (928)
acaba o reino cristão de Bobastro. De volta, desde o ano 929, unificada
Al-Ándalus, se proclama CALIFA independente de
Bagdad e dos Fatimies de Kairoun,
tomando o título de al-Násir li-din Allah (o que defende a religião
de Deus). Nesse mesmo ano se
torna dono do Magreb [Marrocos] apoderando-se de praças costeiras tão importantes
como Tanger, Ceuta e Melilla. Então dirige suas tropas contra os cristãos
do norte. Vence os navarros em Valdejunquera (932) ao sul de Pamplona
e quatro anos mais tarde assolará o reino Navarro conquistando Pamplona. No
saque consequente se cita expressamente a destruição da igreja. O seu exército
era constituído por árabes, berberes, sírios e mercenários entre os quais
se encontravam numerosos escravos ou eslavos. Eslavos era uma palavra na qual
estavam incluídos cristãos do norte, como galegos e leoneses, francos de diversa
alcunha, germanos e normandos, daneses e chipriotas, e os propriamente eslavos
da Panônia romana. Era o nome com o qual se designava os profissionais das
armas que lutavam em todas as frentes e exércitos. Após dois anos de sitio
conquista Toledo pela fome. Depois de anos de lutas parece que conseguiu dominar
os cristãos do norte não sem uma derrota (939) em Simancas [perto de
Valladolid] que quase lhe custou a vida devido à imperícia de seu general
Najda de origem eslava. Como era costume nas lutas da baixa Idade Média, a batalha se prolongou durante vários dias
Seguindo táticas da Idade Média, os combates sempre se faziam durante o dia,
em cargas seguidas de bruscas retiradas até descobrir o franco mais vulnerável
dol oponente. E Ramiro II pode dar-se conta de que o centro do califa, sua
força de choque mais importante, combatia frouxamente, de tal maneira que
era por onde tinha que lutar com decisão e com força, e foi esta determinação
de carga decidida e contundente que obrigou a força árabe a replegar-se e
a batir-se em retirada para um fosso que previamente os cristãos tinham cavado
perto, e que lhes impedia a retirada total; assim os metia numa armadilha.
Fala-se de que o próprio califa conseguiu fugir «mas com enorme dificuldade
e deixando no campo sua couraça de malhas de ouro e um Alcorão de valor inestimável
que carregava consigo sempre que saía de Córdoba» Segundo o geógrafo mouro
Al-Munin al-Himyari, nesta batalha pereceram mais de cinquenta mil muçulmanos.
Desde essa batalha Abderramão que sempre esteve na frente de suas tropas em
25 ocasiões, se retirou a sua capital de Córdoba e nunca mais comandou suas
milícias.Ele pessoalmente tinha combatido em mais de 25 expedições militares.
E desde o ano 934 tinha despregado o estandarte da Águia que ele tinha inventado
pois nenhum emir anteriormente o usou. Certos
autores dizem que a origem dos Votos de Santiago teve origem nesta batalha
de Simancas, porém o certo é que nela teve origem o voto a S. Millán, porque
vendo o conde Fernán Gonçález que os reis de Leão e com ânimo cristão de tributo
a Santiago tinham oferecido seu reino como tributário do Apóstolo, a imitação
sua quis que os castelhanos tivessem a mesma veneração e entrega ao glorioso
S. Millán, tomando-o como padroeiro de Castela. O santo segundo a tradição
apareceu três vezes aos exércitos duas delas no século X nas batalhas de Hacinas
e Simancas. A partir de 940 as expedições
contra os cristãos de quem tomou em definitivo as praças fortes de S Estevão
de Gormaz (Sória) e Calahorra (Logroño) são episódios menores de seus exércitos.
Ele já não está presente; porém os caminhos são seguros e triunfa a paz que
faz crescer as sementes da prosperidade. Uma vez seguradas as fronteiras do
norte se erigiu em árbitro das disputas internas dos reinos cristãos, convertidos em
seus tributários desde o ano 960. No
ano 940 ninguém discutia sua autoridade em Al-Andalus e pois como canta o
poeta "juiz dos inimigos de Allah,
flui a morte do fio de sua espada" (955) Construiu
uma frota formidável fundeado em Sevilla, Málaga e Almeria. Esta cidade
foi elevada à categoria de Medina [cidade] construindo a Alcazaba [cidadela]
como defesa da mesma sobre as ruínas de uma fortaleza anterior e transformando
a nova cidade no porto mais importante de Al-Andalus, como quartel general
da frota omeya e de seu almirantazgo, podendo construir grandes navios de
guerra sem sofrer o escárnio dos piratas , vikingos em especial, que assolavam
as costas mediterrâneas. Tomou a bandeira [lakbah] dos califas e mandou
fazer em seus estados a oração pública [jothba].Foi o primeiro em levar
um estandarte com a figura da águia. 940-960: estende suas conquistas
pelo norte da África. Não foi difícil convencer os berberes de que ele era
o Al-Nazir o predestinado, mas teve que combater duramente até conquistar
e saquear Túnez. O trabalho conjunto das tropas de Ramiro II de Leão, Fernán
González de Castela e da rainha
Toda de Navarra frearam esta força nas fronteiras do norte. Os reinos cristãos, foram convertidos
em seus tributários desde o ano 960. ÁRBITRO
DOS REIS CRISTÃOS:
Nas
contínuas discórdias entre Sancho I o Crasso (955-958 e960-965) apoiado por
sua avó a rainha de Navarra Toda e Ordoño o Malo apoiado por Fernán González
conde de Castela, terminou por converter Abderramão em árbitro dos destinos
cristãos em suas disputas internas, convertidos em tributários seus, desde
960. Um exemplo: o de Sancho I de Leão, que era tão gordo que não podia montar
nem usar uma espada, tendo até ser ajudado para andar. No ano de 958 o conde
Fernán González, outrora aliado, conspirou contra Sancho que se refugiou
com Toda Aznar e seu tio Garcia Sanchez I em Pamplona. Estes pactuaram com
Abderramão e foram a Córdoba. O califa deu-lhes um médico árabe que tratou
Sancho de modo a perder os quilos e transformá-lo num homem ágil e forte.
Uma vez curado e com a ajuda dos árabes, obrigou a Ordoño IV a fugir e em
960 Leão estava de novo sob o domínio de Sancho. Este morre ao ser envenenado
em 965. O
CONSTRUTOR: Por isso se dedicou a uma obra
gigantesca como era a da construção de MEDINAT AL-ZAHRA [cidade da
flor], a 8 Km de Córdoba, quando
fez da mesma a flor branca e pura de seu reinado. Queria desafiar o tempo.
Segundo alguns, a ofereceu a sua preferida Zahr [flor] ou segundo outros a
Venus, deusa do amor, cuja imagem em pedra recebia amável os visitantes na
porta principal da cidade. Demonstravam-no o azul celeste e o rosa das mais
de 4 mil colunas de mármore. Começou a construção em 936 e demorou 25 anos,
sendo terminada em 956-57. Menos
de um século durou o esplendor da sua cidade. Mas não pensavam assim os místicos
sufíes. Para eles tudo se transforma em vivo espelho da luz de Deus, seja
por sua grandeza, sua bondade, sua beleza, sua justiça....até os 99 nomes
de Allah que carregam o selo divino. Os sucessores de Abderramão a ampliaram
e embeleceram sua
ornamentação e seus jardins. Mas no ano 1010, contando só 74 anos de vida,
foi destruída e saqueada pelos berberes almorávides. Em 1236, ao ser conquistada
Córdoba por Fernando III o Santo, não restava de Medina nada, exceto a recordação
e os materiais em ruína que serviram para construir palácios, igrejas e conventos. Com
planta retangular está construída em três terraços escalonados, separados
por amplos muros. A parte superior estava ocupada por palácios;
a zona intermediária por hortas e jardins, e na parte baixa a mesquita
maior, vivendas e dependências. Era uma maravilha que encerrava dentro de
seus muros 6 mil e 300 concubinas e 3 mil e 750 escravos. Suas ruas chegaram
a se unir com os arraiais de Córdoba.
Tinha um corpo de funcionários de 20 mil, entre guardas, oficiais e famílias.
CÓRDOBA: Nos últimos 21 anos de
Abderramão se dedicou a engrandecer Córdoba. Era a cidade mais populosa da
Europa com exceção de Bizâncio. Tinha mais de 500 mil habitantes quando Aquisgrâo
nos tempos de Calos Magno só tinha 2 mil habitantes. O califa criou um sistema
tributário de singular eficácia, baseado na delação, que garantia que ninguém
pudesse se livrar do pago de impostos. Os ingressos recebidos foram divididos
em três partes: Uma para construir , outra para destruir [orçamento militar]
e a terceira para conservar e em previsão de imprevistos. O nível de vida
de Al-Andalus era nessa época três vezes superior ao da Europa Cristã. Até
o cultivo da vide era 25 vezes
superior ao dos reinos cristãos [e isso que eram muçulmanos]. Quando Abderramão
morre Córdoba tinha 113 mil casas com 300 banhos e 700 mesquitas. A Universidade
cordobesa, muitas de cujas classes se davam na Mesquita, transformada em Madrasta
[escola superior entre os muçulmanos] era um verdadeiro centro do saber universal.
Chegavam os escritos de Platão e Aristóteles e os velhos textos gregos se
traduziam ao árabe ou. Mas o lado selvagem de Abderramão também deve ser notado.
A uma escrava que o rejeitou lhe queimou o rosto.Na luta contra os cristãos
conquistou Burgos e degolou os duzentos monges do mosteiro de S. Pedro de
Cardeña. A corte encheu-se de serventes e escravos que
teriam grande influência, pois o protocolo se tornou extremamente complexo
e era dominado por eles. A MEZQUITA: [lugar de prosternação] é o lugar
onde os muçulmanos oram, e praticam suas cerimônias religiosas, muitas vezes
é também o lugar de suas madrazas. A construção foi iniciada em 785 por ordem
de Abderramão I e sobre a planta da catedral visigótica de S. Vicente, mudando
de orientação o eixo da mesma. Possuía onze naves ordenadas do norte ao sul,
sendo a nave central um pouco mais larga que as outras. Os capitéis mostram
uma extraordinária variedade: jônicos, coríntios e compostos; quase todos
eles são de criação romana e bizantina, como procedentes da antiga basílica
de S. Vicente. No ano 833 Abderramão II ampliou a mesquita em direção sul
e construiu um novo mera [nicho que marca a direção da oração numa
mesquita no meio da qibla, parede que está na direção da Meca]. A parte
mais bela foi acrescentada por Al Hakam II em 961. Almanzor a completou em
direção este, incluindo nesta ampliação o pátio das Laranjas, compreendendo
8 naves. Em 1236 foi convertida em catedral por S. Fernado III. A CORTE: Calcula-se
que em 961, no ano de sua morte, havia na corte 6300 concubinas. Comparado
com Ramsés II do Egito, que tinha 200 concubinas e teve 97 filhos e 60 filhas
em 70 anos de reinado, parece um exagero. Carlos Magno, o rei franco chegou
a ter 4 esposas, 5 concubinas e 18 filhos. Havia também 14 mil escravos em
Córdoba, a maioria de origem eslava, dai o nome de escavo, e sua influência
na corte era bastante grande, especialmente quando eram eunucos. Abderramão
também era muito cuidadoso com os vestidos. Dizem que nunca vestiu duas vezes
a mesma túnica. Já sabemos que sua couraça era de ouro puro. Abderramão era
um homem culto, bom conhecedor das línguas árabe e romance [filho de uma navarra].
Era apaixonado pelo canto, a música e as mulheres e quis emular o protocolo
e a pompa dos califas de Bagdag. O escritor Ibn Arabi
conta que os embaixadores francos foram ver o Califa. As amostras que
viram de seu poder os deixaram espantados. Tinha feito alfombrar o caminho
desde a porta de Córdoba até a de Medina [6 Km] e colocado homens armados
com alfanges a um e outro lado do caminho de modo que as armas se cruzavam
no meio como se fossem os nervos de uma abóbada e mandou que os embaixadores
andassem entre eles como se caminhassem na sombra no meio de uma galeria coberta.
Chegados à porta de Medina o chão estava forrado com um tapete de brocado
de seda e ouro, desde a porta até o trono. Tinha colocado em lugares estratégicos
criados que pareciam reis pelos trajes de seda sentados em cadeiras que pareciam
tronos. Quando chegavam a eles se prosternavam crendo que fosse o califa.
Mas lhes advertiam: Levantai vossas cabeças. Este é só um dos seus escravos.
Por fim chegaram a um pátio com o chão de areia, em cujo centro estava sentado
o Califa com vestes raspadas e desbotadas parecendo um mendigo. Permanecia
sentado no chão com a cabeça baixa, e tinha na frente um AlCorão, um alfange
e uma fogueira. Eis o califa. Então se prostraram e ele, levantando a cabeça,
lhes disse: Deus nos ordenou que vos invitemos a isto ( e assinalou
o El Corão, o livro). Si recusais, tereis isto (apontou
o alfange) e quando vos tiremos a vida, vosso destino será isto(
e apontou a fogueira). Ordenou que saíssem sem que pudessem dizer uma palavra
e firmaram a paz com ele nas condições que ele queria impor. ARABIZAÇÃO: Durante
este último período terminou a tolerância religiosa enquanto se desenvolveu
a cultura árabe. A tolerância muçulmana com os mozárabes e judeus era mais
formal que real. Na realidade limitava-se a uma coexistência cheia de tensões
e ignorância mútua. Isso não impedia que Abderramão tivesse relações com os
imperadores germânico e bizantino e com os reis da Inglaterra, França e Itália.
De fato o embaixador enviado ao imperador da Germânia foi o bispo de Elvira
[Granada] Recemundo que completamente arabizado em seu nome Rabi Ben Zayd
era empregado na chancelaria por seu conhecimento do latim. No caminho para
Francfort em 955 onde encontrou-se com o prelado lombardo Luitprando [ou Liutprando]
que dedicou ao nosso bispo a Antapodosis, história sobre sua viagem como embaixador
de Oton I a Constantinopla onde visitou o Basileos Nicéforos. Não existiu
perseguição como nos anos 850-895 com 53 mártires, como Eulogio e algumas
monjas, [Paloma e Eusebia] que tiveram que abandonar os conventos para viver
mais desapercebidas na cidade. Como queriam violá-las, as monjas cortaram
seu nariz para evitá-lo. Graças a isto, os muçulmanos fugiram do mosteiro.
Mas Eusébia foi morta. Numa igreja de Marselle são conhecidas como as freiras
do nariz na mão. Mas houve alguns mártires como o adolescente Pelayo Após
a batalha de Valdejunquera (932), o bispo de Tuy, de nome Hermógio, foi levado
como prisioneiro a Córdoba. Era o tio de Pelayo [Pelagius ou marinheiro],
rapaz que só tinha 10 anos. O Califa exigiu um resgate para libertar o eclesiástico.
Os pais não puderam reunir o dinheiro e deixaram como refém o pequeno Pelayo.
Passaram-se 4 anos. Parece que o tio morreu na viagem de volta, e Pelayo,
um jovem adolescente, suscitou os desejos do Califa que quis abusar de sua
inicência. Pelayo sabia que os altos cargos se compravam com a prostituição
das consciências. Renegar da religião cristã era requisito para obter casas,
palácios e escravos, ouro e terras. Abderramão sabia que quem renegava de
seu Deus era o instrumento mais útil para ser manoseado e se prestar aos mais
infames serviços. Porém como o rapaz se negasse a seus desejao, Abderramão
mandou torturá-lo e depois lançar o corpo por meio de uma catapulta longe
do pátio do alcázar ao outro lado do rio. Um guarda preto, quando ainda estava
vivo cortou-lhe a cabeça.
No início do século os mozárabes se queixam das cargas impositivas
e inclusive se levantam. Mas também o fizeram os berberes, os abassies e até
os muladies. A SOCIEDADE: Os árabes
eram a raça privilegiada da Espanha muçulmana. Eles ocupavam as terras mais
férteis de cada vale, possuíam as mehors casas de cada cidade e detectavam
os principais postos do governo. Porém, desde o momento em que entraram na
península ibérica, começaram a contrair matrimônio com as mulheres da região,
de modo que a população se tornou cada vez mais mista. Certamente não houve
demasiados árabes na Espanha. Os berberes, por exemplo, eram muito mais numerosos,
pois eles tinham formado o grosso dos exércitos invasores. Os berberes eram
islamizados, mas não falavam árabe. Houve uma época em que Al Hakam I após
a revolta do Arrabal, como temos narrado, em 818, os perseguiu. Nesta ocasião
20 mil famílias tiveram que fugir ao Marrocos. Na época de Abderramão tanto
os berberes como os mozárabes foram arabizados. As mulheres podiam
ter uma grande influência sobre seus amos e maridos, embora se encontrassem
em situação de inferioridade frente aos homens. A vida da maioria das mulheres
estava centrada no harém, a parte da casa destinada a elas. Lá moravam rodeadas
de todas as demais mulheres e de seus filhos. Porém elas desfrutavam na Espanha
de muita maior liberdade do que na maioria dos países muçulmanos. Mas o trato
que recebiam dependia basicamente das leis corânicas e isso era devido a que
a religião era o mais importante para os muçulmanos. Das 4 mil palavras que
entraram no vocabulário espanhol, muitas tinham como origem comidas e utensílios
de cozinha, sem dúvida devido ao seu uso pelas mulheres árabes ou mozárabes
arabizadas. Os mozárabes: Eram os dimmies [literalmente protegodos]
mas na realidade eram os que estavam sujeitos ao tributo pessoal ou capitatio,
e sua religião nem sempre foi respeitada, podiam conservar sua fé e suas instituições,
embora as manifestações públicas do seu culto fossem proibidas. Um exemplo
á parte a capitaio foi o imposto imposto [haray] pelo Emir Abraão I
aos mozárabes de Elvira [Granada] entre ees 10 mil cavalos e outros tantos
burros mil aramduras e 10 mil onças de ouro
outras tantas de prata além de outras coisas pelo espaçao de 5 anos.
Na Córdoba califal estavam organizados sob a chefia de um comes [conde].
O encaregado de cobrar os impostos de capitação era o exceptor [arrecadador]
e tinham um cadi al nasura [juiz dos cristãos ] como administrador
da justiça. modo que quando Afonso
IV de Leão conquistou, ou melhor, destruiu a fortaleza de Madrid se calcula
que 10 mil mozárabes com ele se dirigiram ao norte para habitar nas novas
terras do rio Douro. Sabemos que Abderramão III arrasou Burgos e degolou os
200 monges de S Pedro de Cardeña. O mito da convivência pacífica entre as
três religiões se esvai como vemos neste caso e outros, através da história,
especialmente após o século IX. Sabemos que no tempo do Califa existiam 15
mosteiros, a maioria de varões perto de Córdoba. E vermos mais tarde o exemplo
de Recemundo o bispo de Elvira. Os escravos: No extremo da escala social
estavam os escravos. A fonte principal para os conseguir era a guerra. Os
prisioneiros eram propriedade do vencedor e este podia trocá-los por um resgate,
matá-los ou vendê-los. Entre os escravos um lugar à parte merece o estudo
dos eunucos. Ibn Hakal dirá que todos os eunucos da superfície da terra procedem
de Al-Andalus. Sabemos que em Lucena [perto de Córdoba] existia uma importante
comunidade judaica que er uma autêntica manufatura de eunucos. Asfrequentes
aceifas contra os estados cristãos na época califal eram uma importante fonte
de scravos e reféns, de modo que quando outro general dirigiu as ceifas os
comerciantes exclamaram:morreu quem nos proporcinava escravos, refere=indo-se
a Almamzor. Vamos falar do tributo das cem donzelas. Eram os tempos de Ramiro
I (+850). Segundo a tradição entre os tributos pagos pelos astures era a entrega
anual de cem donzelas. Sabemos que a entrega de mulheres da família real como
esposas e concubinas dos emires e califas e as fontes muçulmanas falam de
um ativo comércio de escravas entre os reinos cristãos e Córdoba. Na batalha
de Clavijo [perto de Lgroño]o rei teve um sono em que o apóstolo Santiago
lhe diz que com sua ajuda venceriam os moros e que usassem Deus ajude e Santiago.
Vencidos os mouros, nunca mais os cristãos tiveram que recorrer a semelhante
tributo. Os judeus: Durante o período visigótico com Sisebuto no ano
616, os judeus foram obrigados a converter-se, fato que S Isidoro criticou.
Mas será com o reinado de Égica (+702) que o concílio XVII de Toledo em 694
reduziu os judeus a escravos, sendo todos os seus bens confiscados. Não é
de estranhar que os judeus recebessem os árabes como libertadores e que ante
a sua inferioridade com respeito aos autóctonos, os árabes usassem os judeus
como guardiães dos lugares mais importantes por eles conquistados como Sevilla,
Córdoba e Toledo, dedicando-se por sua parte ao comércio e artesanato, morando
junto dos muros das cidades fortificadas. Granada e Tarragona eram designadas
pelos cronistass árabes como cidades judaicas. Na corte do Califa eram funcionários
do Estado, chegando a serem considerados cortesãos do mesmo. Um desses judeus,
Hasay ibn Saprut, foi médico da corte, diplomático e finaceiro. O saber judaico
foi transferido da Babilônia ao Al-Andalus, de modo que em 948 os grandes
rabis geonim [a palavra gaom, plural geonim, significava um mestre excelenta
da Torah] Mosseh e Hannoch, criaram o sanedrin de Medina, substituindo o saber
do Cairo e Bagdá da aljama de Sura. Os gaonim destas últimas cidades embarcaram
com o objetivo de fundar uma nova academia no lugar mais próspero. Nas costas
italianas foram apresados pelo almirante Ebn-Rumahis. De volta a Córdoba,
o almirante se enamorou da esposa do rabi Mosé Hannoch. A esposa fiel às suas
leis, consultou o marido se os que morriam no mar conseguiam, também eles
a ressurreição da carne. O gaon disse que sim e a bela mulher se lançou ao
mar mártir de sua fidelidade ao marido. Chegados a Córdoba foram resgatados
pela comunidade judaica que deste modo conseguiu a supremacia intelectual
sobre o judaísmo do mundo conhecido.
Assim o saber judaico passou das academia da Babilônia à Córdoba muçulmana.
De uma população de 5 milhões podemos calcular que no exílio em 1492 eram
300 ou 400 mil judeus. Isso equivale a 6% da população total. Há autores que
dizem que no século X os judeus formavam 10 e até 20 % da população de Al-Andalus.
Aos 70 anos de vida e 50 aproximadamente de reinado morre Abderramão declarando
no seu testamento: Em toda minha vida não tenho gozado mais do que 14 dias
sem preocupações de nenhuma classe. ATALAYAS E CASTELOS: Com Ramiro
II de Leão a fronteira ocidental cristã passou a ser o rio Douro. Não havia
entre Al-Andalus e os reinos cristãos um território desabitado e portanto
a fronteira devia ser protegida por ambos os lados com fortalezas[castelos
ou almudenas] e com torres de vigia [atalayas]. Uma delas foi Madrid edificada
no século IX pelo Emir Muhammad I(850-866) que foi conhecida com o nome de
al-Mudaina. A finalidade destas torres era conhecer o avanço
das tropas inimigas com suficiente preparação que servisse de freio a ataques
repentinos sem suficiente preparação. Por isso se comunicavam mediante fumaças
de dia e com fogueiras à noite. Sabemos pela toponímia que eram muito numerosas:
Alameda, Torelodones, Mirabel, Valdetorres, Venturada entre outros. Madrid
era mais do que uma torre pois seu nome al-Mudaina a pequena cidade fortificada
[dai o nome da Virgem madrilenha: Almudena] indica que era mais do que um
pequeno castelo. Havia uma população civil que servia de logística para a
tropa e que morava dentro dos muros bem mais amplos que os que poderiam proteger
um simples castelo. Era pois uma pequena cidade fortificada. Temos dado este
exemplo para indicar como estavam fortificadas as fronteiras das marcas superior
e central em ambos os lados. Num mapa da fronteira entre os árabes e o reino
de Navarra no século X temos 5 cidades fortificadas e 8 torres vigia. Os cristãos
por sua vez 2 cidades [Pamplona e Logroño] e mais de 40 torres. Isso indica
a proporção de habitantes e soldados em ambas fronteiras. Eram tão numerosos
estes castelos nas Marcas[fronteiras] hispânicas, que os nomes Castela e Catalônia
derivam da existência dos mesmos, significando terra de castelos.