Aos oito
anos, foi nomeado sucessor de Abderramão III, seu filho Al-Hakam. Porém só
se tornou califa aos 47 anos após a morte de seu pai. Era loiro, como a maioria
de todos os Omeyas, quase ruivo, com grandes olhos pretos, nariz afiado, de
pernas curtas e hóspede de todos os males, só escapando do mais comum na Córdoba
de então: o alcoolismo. É muito provável que se dedicasse primordialmente
aos efebos [como vimos fez Abderramão com S. Pelayo], segundo costume muçulmano
dessa e de outras épocas. Durante seu reinado, o Califato conheceu uma época
de grande esplendor. Homem culto nas letras e nas ciências, era um erudito
e bibliófilo que fundou em Córdoba a maior biblioteca do Ocidente medieval,
estimada em 400 mil volumes, estabelecendo, como se fazia nos mosteiros, um
talher de copistas, miniaturistas e encadernadores. Criou escolas gratuitas
e foi grande impulsor da Universidade de Córdoba, na qual se formou Almanzor,
o sucessor do Califato na sua morte. No seu tempo, os intelectuais assumiram
os postulados da filosofia clássica, tanto grega como latina, destacando entre
eles no século seguinte Averroes [Abu-l Walid Muhammad ibn Rusd] e o judeu
Maimônides [ o segundo Moisés]. Mas principalmente foram a medicina, as matemáticas
e a astronomia, as ciências em que houve um maior desenvolvimento. Manteve a política centralizada de seu
pai e também a política externa. Teve paz com os reinos cristãos do Norte,
que como reinos vassalos pagavam grandes impostos, com a exceção da insubmissa
Castela. Advogou pela via diplomática antes do que pela militar. Deu ordens
a seus walies [governadores] para evitar que a população fosse oprimida ou
as tropas se entregassem a cruéis matanças. O êxito foi tão contundente que
já não se recorreu às armas enquanto viveu Al Hakem, com a exceção de Fernán
González, preso quando o califa chegou ao poder e que foi libertado por intercessão
de Garcia de Navarra e de sua mãe Toda, sogra do conde castelhano, o qual
não deixou de atacar as fronteiras dos domínios muçulmanos quanto pode. Quando
em 970 morreu Fernán, o califa
pensou descansar por fim dos cristãos e assim foi em geral. Unicamente o conde
de Castela, filho do anterior se mostrou beligerante. Esta paz seria alterada
pelos ataques normandos nas costas portuguesas em 966 e 971. Daneses e vikingos
se retiraram ao conhecer que os árabes estavam no seu encalço por terra e
mar. Confiou em excesso nos funcionários, especialmente no chambelão al-Mushafi,
o visir Ibn Abi Amir [futuro Almanzor] e o general Galib, que lutaram pelo
poder na morte do califa. Teve que lutar contra as revoltas do Magreb devido
às continuas ambições dos fatimies [do califato de Egito]. Depois do fracasso
e morte do seu general Bem Tumlus, enviou o próprio Galib com tanta liberdade
para subornar como para combater. Mas este gastou tanto e de forma tão incontrolada
que o califa enviou a Ibn abi-Amir [futuro Almanzor] para controlar as contas.
Era a primeira vez que Almanzor soube realmente o que era um exército. Quando
Galib voltou triunfante da África, em 974, Al Hakem sofreu um ataque de hemiplegia
do qual nunca se recuperou. Seu primogênito tinha morrido em 970 e por isso
fez jurar seus ministros que aceitariam
seu filho Hixem como sucessor. Dedicou-se a preparar sua morte, emancipando
uma centena de escravos e rebaixando uma sexta parte dos impostos, garantindo
a existência dos professores das 25 escolas para meninos pobres que tinha
criado em Córdoba. Durante sua vida como Califa finalizou as obras de Medina
Azara e ampliou a Mesquita de Córdoba construindo um novo Mihrab [nicho
no meio da qibla ou parede que indica a direção da mesquita de Medina]
como se fosse uma habitação octogonal com a portada adornada por belos mosaicos
realizados por mestres bizantinos. A moeda de ouro cordovesa era a mais importante
da época, sendo copiada pelo Império Carolíngio. Este esplendor durou pouco; na prática
terminou em 1010 com a fitna ou guerra civil entre os partidários do
califa legítimo e os sucessores de seu hayib [primeiro ministro] Almanzor.
No fundo, existiam problemas como a sufocante pressão fiscal para manter um
exército permanente de 100 mil homens. Oficialmente o Califato seguiu existindo
até o ano 1031 em que foi abolido dando lugar aos reinos conhecidos como Taifas
[facção ou bando]. O grande erro de Al- Hakam seria não nomear um sucessor
capacitado e eficaz. Sua concubina Subh de Navarra deu-lhe um filho quando
o monarca era bastante velho sendo nomeado seu sucessor. Esta nomeação de
Hisham II como califa provocou a luta entre os poderosos funcionários para
ocupar o poder na morte de Al-Hakam em 976, acontecida em 1 de outubro de
976 nos braços de seus eunucos favoritos: Fagil e Djahad. Antes de terminar
vamos narrar um sucesso que consideramos mais do que um detalhe. A visita
de Ordoño IV, rei de Leão. Deixamos o narrador árabe contar os fatos: Próximos
já ao palácio Ordoño IV teve que seguir um caminho a cujos lados estava formada
a infantaria colocada em ordem tão admirável que os olhos ficavam assombrados
por tanta uniformidade. Tal era o brilhantismo de suas couraças e armas que
os cristãos estavam estupefatos do que viam. Com a cabeça baixa, as pálpebras
entornadas e os olhos semicerrados
pelo estupor, chegaram à porta exterior de Medina Azahara. Tendo escutado
a voz de avante, Ordoño o fez devagar no meio das duas fileiras de soldados.
Quando se encontrou na frente do Califa, se prostrou no chão, permanecendo
alguns instantes. Levantou-se e prostrou-se de novo, repetindo a homenagem
várias vezes até que chegou perto do califa. Tomou e beijou a mão e retirou-se
sem dar as costas até chegar a um assento coberto com tela de ouro que tinha
sido preparado para ele. Os condes de seu séquito, aos que tinham permitido
a entrada , avançaram e prostram-se repetidas vezes como fizera Ordoño, para
depois de beijar a mão se retirar ao lado do seu rei. O Cadi ou juiz dos cristãos
de Córdoba atuou de intérprete. Al-Hakam disse: Bem-vindo sejas a nossa corte
Ordoño. Oxalá vejas cumpridos teus desejos e realizadas tuas esperanças. Encontras
em nós o melhor conselho e a mais cordial acolhida e muito mais do que esperas.
Ordoño permaneceu em Córdoba até que morreu exilado em 962.
Como vemos existe uma grande diferença entre Pai e filho ao receber
embaixadores que aquele considerava inimigos e este, mesmo sendo cristãos,
trata-os como vassalos amigos.
AL-
HISHAM II: Segundo
a tradição na noite de setembro de 976 um meteoro incandescente apareceu sobre
os céus de AL-Andalus. Essa noite uma angina de peito acabou com a vida do
príncipe dos crentes, o Califa Al-Hakam II. Durante os longos meses que durou
sua agonia, sua única preocupação foi o problema sucessório. Hisham, o filho
de sua favorita Subh, era ainda um menino e embora o pai exigisse juramento
de fidelidade ao menino, a situação do jovem príncipe era bastante delicada.
Com só 11 anos, Hisham não cumpria os requisitos para aceder ao poder que,
segundo a lei islâmica, podia reivindicar qualquer dos Qurayshitas [tribu
do profeta] de cuja família derivavam os Omeya [rama dos Abderramão], sempre
que fosse um adulto.
Mas quem governava era o todo-poderoso ministro Yafar al-Mushafi. Assim o nome mais cotizado foi o de seu
tio al-Mughira. As somas ingentes de dinheiro que sua mãe Subh utilizou para
atrair a seu lado as famílias mais notáveis do Califato e sobretudo o assassinato
de Al-Mughira, dissuadiu o resto dos omeyas de reivindicar o trono e inclinou
a balança em favor do partido do príncipe. Após uma longa cerimônia, o pequeno Hisham
se converteu no décimo senhor de Al-Andalus com o sobrenome de al Muayyad
bi-Lah [quem recebe o apoio de Deus]. Então alguns juraram ter
visto uma coluna de luz verde tragar o meteoro incandescente que desde a morte
do Califa ameaçava a península. Ele não podia ser apresentado como campeão
da Jihad [guerra santa]. Por isso, outra pessoa devia levar o peso que emanava
da Jihad. O jovem califa tinha nomeado Hajid [chambelão] ao chefe de seus
partidários Yafar al Mushafi.
MAPA DA PENÍNSULA IBÉRICA NOS TEMPOS DE ALMANZOR

ALMANZOR(940/978-1002) Abu Amir
Muhaammad bem Abi Amir Almaafiri, o futuro Almanzor, nasce em 940 de uma família
aristocrática árabe na região de Algeciras. Muito jovem foi para Córdova para
estudar leis e literatura, matérias que lhe permitiriam ser juiz ou possuir
um alto cargo nas províncias. Conhecido como Abi Amir iniciou sua carreira
política como escrivão do cadi [juiz] Ibn al-Salim. As atitudes administrativas
de Almanzor motivaram que fosse recomendado ao chambelão Al-Mushafi quem o
nomeou primeiro, administrador da sultana Subh e logo, tutor do jovem Hisham,
de quem foi intendente e administrador dos bens em fevereiro de 967, quando
o menino tinha só um ano de idade. Almanzor tinha só 26 anos de idade. Em
questão de poucos anos galgou os mais altos cargos públicos de modo que na
morte de Al Hakan II em 976 estava bem situado e protegido pela sua amante
Subh. Como tutor do novo califa, menino de 11 anos, na prática ele era o regente e visir
[primeiro ministro] do novo califa. Desta maneira Abi Amir estreitava seus
laços com a família governante, e foi o encarregado de subornar os notáveis
por ordem de Subh e de fazer assassinar seu rival, al-Mughira. Entre 976 e
981 teria que lutar como oponentes a dois prestigiosos personagens: o político
Al Mushafi e o militar Galeb. Era este um general muito apreciado chefe da
marca média que de escravo tinha ascendido ao posto máximo. Abu Amir casou
com uma das filhas do general. Al Mushafi e Abi Amir foram os co-regentes
inaugurando uma espécie de duunvirato até que o novo califa alcançasse a maioridade.
Por isso tudo, ele e al-Mushafi começaram a enfrentrar-se. Quando em 977 grupos de cristãos se internaram
em território muçulmano, aproveitando o momento de transição política andalusi,
e constatando que o hajid al-Musshafi não reagia, Almanzor, que já era general,
apelou à Jihad [guerra santa], dado que o Califa menino não podia fazê-lo,
e acaudilhou a guerra, numa expedição perto de Cáceres. Seus primeiros êxitos,
embora modestos, proporcionaram-lhe o cargo de general supremo das tropas
da capital e da direção de toda expedição junto com o famoso general Galib
das tropas fronteiriças, com cuja filha casou. De volta a Córdoba no ano de
978, al-Mushafi foi arrestado, e Almanzor ocupou seu posto, como único regente.
Como Al Mushafi não falecesse de morte natural, ordenou finalmente seu assassinato.
Três anos mais tarde, obtém que Hisham lhe conceda publicamente os poderes
absolutos do governo, dedicando-se o Califa à vida piedosa. A ambos, Almanzor
e Subh, deixando à margem a relação amorosa que se atribui a eles, unia um
comum interesse: Hisham devia seguir sendo Califa e nisso poriam todo seu
empenho. Com o poder público nas mãos, a força militar se resistia pois estava
nas mãos de Galib, especialmente apoiado este pelos reinos cristãos. Abi-Amir
fez chegar da África um outro general com tropas berberes [20 mil] para converte-las
em sua guarda pessoal, e apojado por esta –um
verdadeiro exército–, provocou o enfrentamento com Galib do qual se desfez
para apoderar-se do mando militar. Galib saiu
derrotado e Abi-Amir recebia a seu regresso a Córdova o título de al-Mansur
bi-Allah, de onde procede o nome de Al-Mansur [Victorioso] que
seria o novo nome de Muhammad Ibn Abi Amir, a quem os cristãos chamariam de
Almanzor, começando deste momento um poder absoluto durante 20 anos em Al-
Andalus e uma guerra e perseguição dos reinos cristãos que duraria até sua
morte. Entretanto, Hisham levava uma vida cada vez mais retirada e inclusive
existia o rumor de que tinha decidido entregar-se ao serviço de Deus. Para
sair do palácio vestia-se como uma mulher que ocultasse seu sexo sob a burka
[vestido longo com capucha que cobre totalmente a mulher]. Para salvaguardar
seus interesses, Almanzor manteve intactos os sinais externos da soberania
de Hisham, ao que atribuía toda decisão política. Mas em Córdoba se comentava
que o califa era uma marionete nas mãos do hajid [Almanzor], situação da qual
alguns intentaram por remédio. No final de 978 um grupo de notáveis decidiu
destronar o menino califa e substitui-lo por um Omeya adulto. A conspiração
foi abortada e por indicação do casal Subh-Almanzor se impôs um castigo exemplar
aos culpáveis. Em 981decidiu afastar Subh e seu filho, construindo para si
uma cidade onde estavam todas as dependências administrativas: era Medinat
Azáhira [Cidade resplandecente], oposta á Medinat Azahara [cidade da flor]
de Abderramão III onde estava a sultana e seu filho. Como sua vida fosse mal
vista pelos muçulmanos piedosos, para reforçar sua posição, Almanzor, intentou
atrair-se o favor dos alfaquies [ulemas ou doutores e sábios na lei
ou sharia muçulmana]. Purgou a biblioteca de al-Hakam, destruindo toda
obra dedicada a disciplinas mal vistas pelos alfaquies como Lógica, Filosofia
e Astrologia. Também fez tudo o possível para que nenhum Omeya desejara ser
candidato a califa. E em Córdova começou uma perseguição dos cristãos que
fugiram para o norte, quando sua vida se tornou impossível. Assim conseguiu
reforçar seu poder político. Exigiu o beija-mãos para ele e seus filhos e
a emissão de disposições em seu próprio nome. E até consultou os alfaquies
para ver se ele podia ser nomeado califa. A arrogância de Almanzor enfureceu
a Subh, pois além de afasta-la do poder estava claro que Almanzor anteporia
seus interesses aos do califato. Reformou tanto a administração civil como
a militar, juntando um exército permanente de 100 mil homens, alguns deles
mercenários cristãos com os quais logrou enfrentar os reinos do norte. No
intenso programa de construções ampliou a mesquita de Córdova e edificou para
si um novo palácio chamado de Medinat Al Zahira donde trasladou a administração
para evitar que Hasham tivesse tentações de dirigir o governo. De seu programa
militar as crônicas falam de 57 razzias ou expedições vitoriosas, duas
por ano, na primavera e em agosto e até três em alguns anos, com as que conseguiu
dominar os príncipes cristãos, impondo fortes tributos aos reis de Navarra
e Leão. Inclusive forçou estes últimos à entrega de suas filhas como reféns para impor a paz. Dele se diz que além
das quatro mulheres permitidas pela sharia, tinha numerosas concubinas entre
elas Abda, filha do rei pamplonês Sancho Abarca, da qual teve um filho
Sanchuelo. Entre suas tropas estavam como mercenários, mais de uma centena
de cavaleiros com seus dois mil seguidores. Os chefes eram condes cristãos,
Gonzalo, primo do rei Bermudo II de Leão, Diego Sanchez, irmão do rei Garcia
de Navarra e Gerome de Burgos. Eram estes cavaleiros como reféns, garantes
da paz. Em 985 chegou até Barcelona, que tomou e incendiou,assim como os mosteiros
próximos. Atacou Coimbra (987), os mosteiros leoneses de Sahagún e Eslonza
(988), Santiago de Compostela (997) e Pamplona. No ano 1000 teve uma batalha
que quase perdeu contra os monarcas cristãos em Cervera (ver mapa). Atacou
o mosteiro de S. Millán de la Cogolla (1002) e de regresso a Córdova parece
que sua retaguarda foi derrotada, falecendo nas cercanias de Medinacelli.
Logicamente os historiadores árabes nada dizem sobre a derrota, e os modernos
acreditam mais nos árabes que nos escritos cristãos. A seu modo, Almanzor
era crente exemplar que memorizou e escreveu de própria mão o Al Corão , embora
dizem que para calar as vozes discrepantes dos alfaquies, mas não o impediu
ser muito permissivo com os costumes de sua Córdova adotiva, onde reinava
o epicurismo mais refinado. Até certo ponto foi tolerante com os que pela
sua liberdade religiosa podiam se permitir a mesma com os impostos governamentais.
De fato por instigação dos alfaquies fez de Córdova um lugar quase impossível
para os mosteiros de modo que no seu governo os quinze ou mais que existiam
foram abandonados assim como as igrejas e só ficaram alguns eremitas nos montes
e ermos circundantes. Junto com seu exército profissional o acompanhava um
séquito de poetas e jograis. Pela
sua atuação bastante infausta para os cristãos teremos que relatar pelo menos
uma de suas razias mais famosas Eram
incursões rápidas e devastadoras, realizadas durante os meses de primavera
e verão que tinham como objetivo semear o terror entre os habitantes cristãos
do norte peninsular. Foi a destruição de Santiago de Compostela, para impedir
as peregrinações cristãs no verão de 997, depois
que o bispo Pedro de Mendoza evacuara a cidade. Queimou o templo pré-románico,
dedicado ao apóstolo, como era costume quando da conquista de uma cidade,
mas respeitou o sepulcro. Isso permitiu a continuidade do Caminho de Santiago.
Os dez mil prisioneiros cristãos feitos na expedição foram obrigados a carregar
os sinos do templo até Córdova que foram dois séculos mais tarde devolvidos
por prisioneiros muçulmanos quando da conquista de Córdova pelos cristãos.
Os sinos foram usados como lâmpadas na mesquita e as duas folhas da porta
da catedral como teto para a mesma. Cinco anos mais tarde, de regresso
de uma expedição contra S Millán de la Cogolla, enfermou e morreu em Medinacoeli
(ver mapa) em agosto de 1002. Vamos relatar essa sua última aventura que foi
causa de sua morte. CALATAÑAZOR: As recordações de seus desventurados
amores de cujas desventuras culpava os rumies[romanos ou cristãos]
e suas fanáticas idéias que os alfaquies animavam e o desejo de assegurar-se
com suas vitórias o afeto dos muçulmanos, foram os motivos que inflamaram
sua raiva contra os cristãos e resolveu outra nova expedição contra eles.
Mandou vir da África grandes forças de cavalaria que não eram já necessárias
naquela província por tê-la pacificado seu filho Abd al-Malik. Chegadas estas,
saiu de Córdova na primavera de 1002. Em Toledo incorporou novas forças e
se dirigiu ao rio Doiro pela parte que confinava com Leão e Castela. O atravessou
e devastando na margem direita o oriente de Castela, chegou a Osma. Os cristãos
uniram suas forças. O conde de Castela Sancho Garcés, o rei de Leão Alfonso
V e o rei de Navarra Sancho Garcia o Maior uniram seus cavaleiros e infantes[tropa
de apé]. Nos últimos dias de julho ou primeiros de agosto, ao pé de Calatañazor
[castelo dos abutres] se deu a batalha. A crônica diz que os cristãos se prepararam
para a batalha assistindo à Missa e os árabes rezando a salá [oração
da manhã]. Os cristãos cobertos de aço, tanto cavalos como cavaleiros. Almanzor
alentou seus guerreiros recordando os deleites e venturas prometidas pelo
profeta aos que morrem na guerra santa. O rei Sancho e o conde Sancho Garcia
exortaram os seus a morrer como valentes pela fé e pela pátria, a salvação
desta estando em sua coragem (era ou não cruzada?). Dado o sinal e ressoando
as trompetes, atabales[tambores] e añafiles [trompete mourisca]
os cristãos avançaram ao grito de Santiago, e os mouros ao de
Allah achar [Deus é grande] clamor que se tornava maior pelos
relinchos dos cavalos. A luta foi terrível pois se os mouros pelejavam pela
sua fé, os cristãos sabiam que, esgotados os recursos nesse último esforço,
não ficava outra barreira que opor às forças dos infiéis e não aguardavam
a suas pátrias e famílias outro fim que ruínas, sangue e pranto. Ajudou os
cristãos um turbilhão de ar e poeira quer cegou os mouros. A batalha durou
até à noite sem declarar-se a vitória. Almanzor, ferido, aguardava seus capitães
e alcaides para consultar com eles a ação do próximo dia. Como aparecessem
poucos, pois a maioria estava morta ou ferida, soube que haviam perecido até
70 mil de a pé e 40 mil cavaleiros [exagero dos cronistas], não quis esperar
o novo dia para não ser completamente derrotado e mandou a retirada. Ao amanhecer,
os cristãos viram os reais de Almanzor desertos e cheios de cadáveres. Seguros da vitória, concertaram que o
conde Sancho com o grosso da tropa perseguisse o fugitivo e o resto se ocupou
em despojar a bagagem e manatimentos que na sua fuga precipitada tinham abandonado
os infiéis. O conde Sancho alcançou a hoste de Almanzor de modo que só puderam
escapar as taifas [bandos]da cavalaria com o caudilho que ia na cabeça.
Os autores árabes dizem que não existiu tal matança porque os cristãos estavam
cansados e tinham muitos mortos também. Conta-se que um humilde pescador recitava
em som lúgubre nas ribeiras do Guadalquivir uma moaxaha [poesia árabe na qual
os dois últimos versos são um pareado em romance chamado harka, que
passou à literatura árabe posterior] na qual se cantava nos dois últimos versos:
Em Catalañazor perdeu seu atabal Almanzor [atabal é tambor]. Dizem
que Almanzor se sentiu com tanta vergonha pela derrota que não quis provar
bocado e teve uma dor de estômago e não
podendo montar no cavalo por suas feridas, foi conduzido numa liteira
até Borg al-Qurasy [torre de Qurasy, nome com o qual era reconhecida a família
de Almanzor , como descendente de Mohamed que era qurasy, embora a família
de Almanzor fosse Amir e dai os amiries] onde seu filho, Abd al-Malik o encontrou
moribundo, morrendo a 6 de agosto de 1002 aos sessenta e quatro anos de idade.
A crônica cristã diz: Mortuus est Almanzor et sepultus est in inferno [morto
está Almanzor e sepultado está no infeno]. Seu filho mandou colocar o corpo
numa cadeira de madeira e foi levado à Medinaceli [Medina,ciudade, selim,
paz, ou segundo outros coeli do céu], acompanhado de toda a tropa com pompa
de guerra. Enterraram-lhe com seus próprios vestidos e o cobriram com o pó
que tinha recolhido em suas 57 gazúas [correrias]. Morreu como um guerreiro
e com a satisfação de acabar sua vida na jihad como tinha pedido a
Allah por crer que assim morria mártir e com merecimento para alcançar o paraíso.
Pouco mais tarde morria Subh e Hishan estremeceu-se ao ver-se privado de uma
princesa e de um ministro de tanta valia. Os historiadores modernos dão mais
valia aos relatos árabes e pensam que esta narração de um século posterior
aos fatos é mais legendária que histórica. Porém indica que existia já no
tempo do grande caudilho um sentimento de cruzada por parte cristã como, sem
dúvida, existia um ardor de Jihad por parte muçulmana. Almanzor freou a Reconquista
e até fez retroceder os territórios conquistados anos antes. No próximo artigo
veremos como estava a cristiandade entre os muçulmanos de Al- Andalus e dentro
dos reinos cristãos.