4º) AS CRUZADAS ESQUECIDAS.  SÉCULO XI

PRELIMINARES: Noções prévias

Berbere: O nome berbere deriva do francês berbere que por sua vez reproduz a palavra barbar que por sua vez deriva da palavra greco-romana bárbaro. Salústio chama a língua Líbia de bárbara. Eram os gétuli população do Norte da África que compreende os territórios atuais da Algéria a do Marrocos. Na época romana formavam ao norte a Numídia [província romana, entre a África Proconsular (atual Tunísia) e a província da Mauritânia (parte ocidental da costa da Argélia). Ao leste eram limitados pelos Garamanti (do reino na região de Fezzan (atual Líbia) potência regional, de 500 aC a 500 dC. Mouro: derivado de Mauritânia seu original era mauros, de onde derivam o espanhol moro e o português mouro. Muladi: A palavra procede do árabe Muwalladi que quer dizer adaptado ou mestiço. Empregava-se para duas acepções: 1.-O cristão que abandonava o cristianismo, se convertia ao Islã e vivia entre muçulmanos. Diferenciava-se do Mozárabe em que este último conservava sua religião cristã em áreas de domínio muçulmano. 2.- O filho(a) de um matrimônio misto, cristão/muçulmano em que um dos cônjuges era de religião muçulmana.  Árabe: além da etnia que procede principalmente do Yêmene na península arábica, é o nome da língua em que foi escrito o Al Corão. Como língua clássica em que foi escrito o livro sagrado, é empregada na escrita e no rádio e TV. Como língua popular é falada em 22 países. Nem sempre entre os diversos dialetos é possível a compreensão. Aqui interessa mais a etnia do que a língua. Eslavos: Slovo significa palavra, conversa e slava glória ou elogio. Os movimentos migratórios são do século V e VI. No século VII o nobre franco Samo, que apoiou os eslavos na guerra contra seus dominadores ávaros, tornou-se o governante do primeiro estado eslavo na Europa Central. A Caríntia, situada onde hoje estão Áustria e Eslovênia era um estado eslavo. Os eslavos foram submetidos e escravizados pelos muçulmanos de modo que eslavo se transformou em escravo.

O ISLÃ:Suas divisões

Divide-se em três grandes grupos: 1º) SUNITA: Os sunitas recebem seu nome devido à importância que dão à Sunna, coleção de ditos e fatos atribuídos a Maomé e transmitidos via oral. Ou seja, que não só se fundamentam no Al Corão mas também na Sunna [a tradição] o que permite adaptar o livro às exigências da época. O islã Sunita compreende atualmente perto de 90% de todos os muçulmanos. Divide-se em 4 escolas de jurisprudência [madhabs] que interpretam a lei islâmica de modo diferente. Entre elas a maliquita presente no norte da África e no Andaluz (Andaluzia). As quatro atuais grandes escolas da ortodoxia sunita (Maliquita, Hanafita, Chafita, e a Hanbalita, precursora do Wahhabismo), constituiram-se no século III da Hégira, no primórdio da Era Abassida. 2º) XIITA: Ali, primo de Muhammad ou Maomé, casado com Fátima, filha de Maomé e portanto genro do profeta também, na morte de Otman (656) era o próximo califa [chefe dos crentes] mas foi assinado numa guerra civil em 661 por Muawiyah, primo de Otman que fundou a dinastia Omíada. Porém o conflito entre os dois campos continua. Em 680 Hussein, filho de Ali é massacrado pelas tropas de Yazid, filho de Muawiya. O martírio de Hussein é comemorado todos os anos em Kerbala  [Iraque] com procissões e penitências, convertido em símbolo da luta contra a injustiça. Os partidários de Ali [shiat Ali, ou shiitas] acreditam que os três primeiros califas (Aba Bakr, Omar e Otman) foram usurpadores que retiraram a Ali o seu direito legítimo à liderança. O muçulmanos xiitas acreditam que o líder da comunidade muçulmana - o imã - deve ser um descendente de Ali e de sua esposa Fátima. Os Xiitas reconhecem os cinco pilares do Islã, e o Al Coão. A Sunna seguida através da família de Maomé, e suas divergências com os sunies são: o imanato, o esoterismo e o clero. O imã refere-se ao chefe supremo da comunidade [ou o califa para os sunies]. Como não há profeta após a morte de Maomé, é necessário um guia espiritual que garanta a veracidade da religião e seja o chefe da comunidade: o imã. Este tem uma investidura sobrenatural outorgada pelo profeta e pelo imã precedente. O imã é infalível [uma espécie de Papa islâmico]. Recordemos Khomeini. O imanato encarna os poderes temporal e espiritual. Para isso, se serve do fenômeno chamado gayba [ocultação]. O sétimo imã desapareceu e uma parte da comunidade considerou que tinha se ocultado por meios sobrenaturais e não morto, pelo qual seguiria vivo até seu regresso ao final dos tempos; por esta razão  ninguém poderia ser seu sucessor. Os xiitas que aceitaram essa ocultação formam os chamados de septimanos [número do imã desaparecido] ou ismailies [nome desse imã, Ismail]. O resto da comunidade que considerou morto Ismail, seguiu reconhecendo como imãs seus descendentes pelo qual são chamados imamies.  Esoterismo: O Al Corão tem um sentido literal que pode ser interpretado por qualquer fiel, mas além disso tem outros sentidos ocultos, cifrados ou esotéricos [até sete, segundo alguns]. A mensagem última só é conhecida pelo Imã. A origem do esoterismo xiita deve ser buscada nas características das regiões em que foi divulgado inicialmente: Irã e a região de Sham [Damasco] onde crenças preexistentes como neoplatonismo e mazdeismo influenciaram a nova doutrina. O clero: Dado que existe uma mensagem invisível e quem conhece o imã oculto, sabe que está vivo, mas oculto, é necessário um corpo de intérpretes capazes de captar os sinais enviados pelo imã oculto. Os intérpretes são ou ulemas, [sábio] chamados mais freqüentemente mulás, organizados hierarquicamente segundo o degrau de sua iniciação. Finalmente temos 3º) os KHARIJITAS. Estes consideram que qualquer homem, independente de sua origem familiar, poderia ser líder da comunidade islâmica, opondo-se às polêmicas de sucessão entre sunitas e xiitas. São conhecidos pelo nome de ibaditas. E vivem hoje em Omã.

MOVIMENTOS RECENTES

OS WAHHABIS OU SALAFITAS

Um movimento recente no Islã Sunita é o dos WAHHABIS, assim denominados por pessoas exteriores ao grupo [os Wahhabis preferem ser conhecidos como Salafis]. O Wahhabismo é um movimento fundado por Muhammad ibn Abd al Wahhab (1703-1792), naquilo que hoje é a Arábia Saudita. Pregam o que se denomina "Salaf as-Salih", que significa "a forma correta de atuar em função dos ensinamentos de pios predecessores”. Os Wahhabis consideram-se sunitas. O Wahhabismo é hoje a religião oficial da Arábia Saudita. Destaca por seu rigorismo na aplicação das leis islâmicas e por um constante desejo de expansão. Para isso utilizam suas instituições de formação, às quais recorrem estudantes de todos os países, especialmente sunitas. Os recursos econômicos que lhes proporciona a dinastia reinante na Arábia Saudita que são empregados na criação de mesquitas e centros de estudo em diversos países do mundo. A teologia wahhabi é puritana e legalista em matérias de fé e práticas religiosas. Eles se consideram defensores do Islã com o rol de restaurar a pureza da religião islâmica, contaminada por inovações, superstições, desvios, heresias e idolatria. Por exemplo, consideram como contrárias ao Islã invocar o nome do profeta, santo ou anjo nas rezas. Somente o nome de Deus deve ser invocado. Suplicar diante das tumbas de santos ou profetas. Usar qualquer forma de talismã e buscar em magos ou bruxos as fontes de cura. Inovações na religião. Monumentos nas tumbas. Proíbem o cinema e até fotografias. O Islã, que é religião, moral, um sistema social de economia e política, é uma realidade que encontra a sua expressão no conceito de Umma (comunidade integradora e integrada, sobreposta às idéias de Nação, Estado e Pátria). Todavia, não consideram que haja um mundo muçulmano (Dar al-Islam) homogêneo.  Este regresso ao passado, pela recusa da modernidade, reveste-se de um purismo com vista a eliminar o que é “estrangeiro”, cristão, hinduísta, budista, pretendendo recriar uma sociedade como a dos primeiros tempos do Islã pelo qual, pontualmente, recorre à xenofobia cultural e política, como elemento adjuvante na pesquisa do autêntico. Isto explica muitas coisas dentro da violência de Bin Laden.

OS MALIQUITAS

A escola Maliquita é importante porque foi o Islã do Norte da África e consequentemente  importado em Al Andaluz (Andaluzia) através de diversas invasões num total de quatro. A escola Maliquita foi fundada pelo autor da obra intitulada Mowata, Mâlik ibn Annas que morreu em 795. Esta madhab [escola religiosa de jurisprudência] admite as fontes tradicionais do Direito Islâmico: o Alcorão, a “Sunna” [Tradição], o “Qiyas” [Julgamento Analógico] e o “Ijma” [Consenso Comunitário]. Atualmente é a escola dominante na África do Norte e na costa ocidental até o Golfo da Guiné. Cada vez que uma escola se tornava fundamental, primeiro conquistava o Atlas e daí se dirigia a Al Andaluz, onde encontrava taifas [pequenos reinos até 39 em que se dividiu o califato em 1031 ou posteriormente após o debilitamento dos almorávides em 1144] que devia conquistar antes de lutar como Yihad contra os cristãos do norte.

 

 

 

HISTÓRIA DO SÉCULO XI:

 a) OS ÁRABES:

Morto o grande inimigo dos reinos cristãos, Almanzor, rapidamente o califato cordobês se derruba. O Califa Hixam II é obrigado a abdicar em 1009.  Em 1010 a  fitna ou guerra civil se desencadeou pelo trono entre os  partidários do último califa legítimo Hixán II, e os sucessores de seu primeiro ministro o hayib Almanzor. No fundo encontravam-se também problemas como a asfixiante pressão fiscal necessária para financiar o custo dos esforços bélicos. Até a abolição formal do califato em 1031 se sucedem no trono de Córdoba nove califas das dinastias omeya e hamudi, no meio de uma anarquia total que reflete a abundância dos taifas [facções], como reinos independentes(ver mapa). Vemos que os de maior território são os de Zaragoza, Toledo. Badajoz e Valência. Quando o califa Hixam III é deposto, a república é proclamada em Córdoba e todas as coras [províncias] de Al Andaluz que ainda não tinham independência, auto Reinos de Taifas en la península Ibérica hacia 1030proclamam-se independentes, regidas pelos clãs mais importantes : árabes, berberes ou escravos. No fundo havia problemas mais profundos. As lutas pelo trono califal, reproduziam as lutas internas por causas raciais (árabes, berberes, muladies e eslavos, estes libertos de origem centro-europeia ou do norte peninsular). Também influíam a maior ou menor presença de população mozárabe e também a sufocante pressão fiscal necessária para financiar o custo dos esforços bélicos. Um exército de 100 mil soldados, que ao terminar as razias de Almanzor não tinha como se sustentar.  Cada Taifa se identificou com  uma família, clã ou dinastia. Valência para os Amiries de Almanzor, em Zaragoza os tuyibies , os aftasies em Badajoz, abadies em Sevilha e ziries em Granada. Durante o apogeu (século XI até metade do XII) os reinos taifas competiram entre si não só militarmente senão sobretudo em prestígio, patrocinando para isso os mais prestigiosos poetas e artesãos. Carecendo de tropas necessárias os taifas contrataram mercenários tanto para lutar com seus vizinhos como contra os reinos cristãos. Guerreiros cristãos como o Cid Campeador serviram os reis muçulmanos, lutando inclusive contra outros reis cristãos. Os reinos cristãos aproveitaram a divisão muçulmana e a fraqueza de cada taifa individual para submetê-las, forçando-as a pagar um tributo anual: as parias [do latim pariare, igualar ou pagar uma conta]. Porém a conquista de Toledo em 1085 por Afonso VI de Castela, mostrou que a  ameaça cristã podia acabar com os reinos muçulmanos da península. Daí que os taifas pediram ajuda ao sultão almorávide do norte da África Yusef Bem Tashfin que atravessou o estreito e derrotou o rei castelhano na batalha de Zalaca (1086) e que conquistou sucessivamente todas as taifas, existentes até a data.                                                                                  

 

b) OS REINOS CRISTÃOS.

REINO DE LEÃO:

Perdeu sua independência em 1037 quando o rei Bermudo III foi derrotado e morto por Fernando I de Castela que assumiu com o novo reino o título de Fernando Magno. Foi Fernando, o segundo rei de Castela por herança, como reino, do condado castelhano por parte de seu pai Sancho III Garcés, mais conhecido como Sancho o Maior , rei de Navarra (1004-1035), conde de Aragão e rei de Castela como Sancho I (1029-1035), que escolheu como insígnia a águia negra ou arrana beltza, da qual dizem provém a águia de Castela, e se intitulou Rex Hispanorum regum [rei dos reis hispanos]. Leão retornou como reino independente após a morte de Fernando (1065) que entregou Leão a seu filho Afonso, Galícia a Garcia e Sancho ficou com Castela. Após lutas fratricidas, Afonso VI de Leão acabou por dominar os outros dois reinos de Castela e Galícia. E se proclamou Imperator totius Hispaniae.

 

 

REINO DE NAVARRA

 

 

SANCHO GARCÊS III: Entrando no século XI encontramos como rei de Navarra, Sancho Garcês III (1000-1035) de apodo o Maior. Ao morrer Galindo, o conde de Aragão, Sancho ocupou o condado. Ampliou as fronteiras meridionais, conquistando a Rioja alta e fez de Nájera a capital de seu reino. Durante seu reinado cunhou moeda, sendo o primeiro rei cristão a fazê-lo. O centro político do mundo cristão estava em Nájera. Seus domínios eram também os condados de Sobrarbe, Ribagorza(1018) e Castela (1029) (ver mapa). Também na morte do duque de Gascuña em 1032 estendeu sua autoridade na região ultrapirenaica compreendida entre os montes Pirinéus e o rio Garona. Os nacionalistas vascos dizem dele ser o primeiro rei Vasco, porém esquecem que quis ser enterrado no mosteiro de S. Salvador de Oña (Burgos), sob o título de Sanctius, Gratia Dei, Hispaniarum Rex. Do ponto de vista religioso, a ele se deve o traçado definitivo do Caminho de Santiago ao livrar de incursões muçulmanas a zona entre o Pirinéus e Nájera, aproveitando a antiga via romana. Também, influído pelo norte do seu reino trouxe os monges cluniacenses para se instalar nesse caminho, assim substituindo o rito visigótico pelo romano.  Entregou aos cluniacenses o mosteiro de S Salvador de Oña, que tinha sido fundado em 1011 pelo conde Sancho Garcia como cenóbio misto, e os mosteiros de Leire,  que já existia em 848 e foi visitado por S Eulógio de Córdoba como mosteiro visigótico, e Juan de la Peña fundado por ermitãos visigodos e transformado em mosteriro em 920 pelo conde Galindo Arnáez de Aragão, no mesmo lugar dos ermitãos e dedicado aos santos Julião e Basilisa. Neste mosteiro, Sancho Ramírez, segundo rei de Aragão, começou a construção da igreja alta e em 1071 se celebrou por última vez o rito hispano-visigótico, introduzindo-se o rito romano dos cluniacenses. Sucedeu-lhe no trono Garcia Sanchez IV o de Nájera, famoso mosteiro que fundou em 1052. Unido a seu irmão, Fernado derrotou o cunhado deste, o último rei de Leão, Bermudo III, na batalha de Tamarón (1037). Fernando se apoderou de Leão, e Garcia dos territórios vascos até Santander. Aproveitando a debilidade dos reinos de Taifas, se dedicou a aumentar seus domínios logrando conquistar Calahorra em 1045. Depois, em disputas com seu irmão Fernando de Castela, morreu na batalha de Atapuerca (1054) perdendo parte dos territórios de Castela. Os condados de Aragão,se transformam em reino com o filho bastardo de Sancho o Maior, Ramiro I, mas voltarão a formar parte de Navarra em 1076, até 1134.

 

A MARCA HISPÂNICA OU CONDADO CATALÃO:

Desde a criação dos condados catalães pelos reis francos, o condado de Barcelona teve o papel de líder, depois que o conde Guilfredo I [ou Wilfredo] de Barcelona, denominado el Velloso [o Piloso] de linhagem hispano-goda, filho do conde de Urgel. Foi conde sucessivamente de Urgel e da Cerdanha (desde 870) de Barcelona, e Gerona (desde 878), e de Osona  (desde 897). No lugar da antiga Ausona, destruída pelos muçulmanos, edificou o vicus [vecinsário em latim] de onde se deriva Vic a cidade atual. Na planície de Vic restaurou o antigo bispado de Ausona, que se se tornou independente do bispado de Narbona. Como todos os reis cristãos, para ajudar o repovoamento, fundou os mosteiros de Santa Maria de Ripoll (880) para homens e de S João das Abadesas para as mulheres, recebendo ambos terras e privilégios jurídicos, declarados isentos de tributos e da jurisdição de tribunais em matérias como homicídios, raptos e outros delitos.  Em 947 o conde Borrel II de Barcelona, se tornou independente dos reis francos, no caso Luis IV de França. Assim, sem nenhuma subordinação de vassalagem, o conde adquire categoria real. Destacaremos no século X o conde  Borrell II (c. 946-c.992), que em 970 viajou a Roma  para intentar reorganizar a administração religiosa, restaurando o arcebispado de Tarragona. E invitou ao monge Gerbert de Aurillac [futuro papa Silvestre II] a residir no condado para ampliar seus estudos. A independência foi oficializada pelo conde Borrel II em 987 ao não prestar juramento ao primeiro monarca dos Capetos. Nestes anos de formação se criou uma sociedade onde predominavam pequenos proprietários livres, os aloers [alodiales, livres de cargas tributais], enquadrados numa sociedade agrária onde cada núcleo familiar produzia o que consumia, gerando pouquíssimos excedentes. Já no século XI os aloers se transforma em vassalos dos senhores feudais, por meio de uma guerra social virulenta, onde a violência senhorial desbaratou os camponeses com novas táticas militares, usando a cavalaria dos  mercenários bem armados. Este processo debilitou o poder dos condes e com o tempo o condado, transformado em Estado feudal, com complexas fidelidades e dependências no alto do qual estavam os condes de Barcelona, especialmente o conde Ramóm Berenguer I (1076-1082), que dominou os outros condes. Por tanto, ao não ficar para o conde de Barcelona nenhuma subordinação de vassalagem respeito a outra pessoa, seu título condal adquire uma categoria equivalente ao de rei a eeitos práticos, e assim o consideravam seus súditos e vassalos, como fica documentado em documentos de diferentes épocas. No fim do século era conde de Barcelona Ramón Berenguer III,  apelidado o Grande (1082-1131), casado em primeiras núncias com Maria, filha do Cid Campeador. Com seu sucessor, Ramon Berenguer IV, o Santo (1131-1162), a casa de Aragão toma conta do condado de Barcelona ao casar com Petronila [esta com a idade de 2 anos] e toma o título de princeps [primus inter pares] com o título de Dominus. Seu filho Afonso II o Casto [porque não se conheciam filhos fora do matrimônio] foi ao mesmo tempo rei de Aragão e conde de Bacelona. Segundo o contrato matrimonial, o conde de Barcelona aceita ser filho adotivo, renunciando a seu linhagem e por tanto se convertendo em estirpe de Aragão, pois assim o declara o documento: Toda minha vida me terás como a pai e senhor.

 

PRÉ-CRUZADA(1063-64): A) PRELIMINARES

 O território da atual autonomia de Aragão foi escassamente romanizado e menos ainda na região pirenaica. Os únicos núcleos urbanos estavam no vale do Ebro e poucos deles ressistiram aos ataques dos bárbaros no século V. No século VIII os muçulmanos encontraram muito pouca resistência e instalaram diversas guarnições estratégicas. A partir do século IX, se formaram os primeiros núcleos cristãos independentes nos Pirinéus que  contaram com o apoio dos francos até o nascimento do condado de Aragão. A partir do século IX, se formaram os primeiros núcleos cristãos independentes nos Pirinéus que contaram com o apoio dos francos [franceses da Aquitânia] até o nascimento do condado de Aragão. Os condes [nome derivado do comes latino, cujo significado de origem é companheiro, mas que no Baixo Império Romano eram os vices dos magistrados e dai a palavra CONDE ou seja a pessoa ao mando dos efetivos militares de uma Marca ou território fronteiriço, semi-independente, como era a Marca Hispânica do norte da atual Catalônia e os condados de Aragão, Ribagorza e Sobrarbe. No final do século VIII a comarca era governada pelo condado de Tolosa. No século IX os condes de Sobrabe caíram na órbita do condado de Aragão e no início do século X Sobrarbe foi incorporado a Ribagorza. Sobrarbe está ao Ocidente e se estende desde a fronteira com a França nos Pirinéus até o Somontano na província de Huesca. Já Ribagorza está no oriente e pertence à provínvia de Lérida. Na região dominada pelos mouros estavam as três Marcas: Superior que abrangia o Alto e Baixo Aragão, parte de Navarra  e Rioja; a Marca Meia de Guadalajara até Extremadura ; finalmente a  Marca Inferior que termina em Portugal. À frente de cada uma havia um vali, governador diretamente nomeado pelo emir ou chefe superior. A Marca Superior compreendia os territórios limítrofes desde o Mediterrâneo até as cabeceiras dos rios Douro e Tejo. Por sua situação mais distante de Córdova a Marca Superior foi também chamada de Marca extrema. Incluía distrito como Tarragona, Lérida Huesca, Tudela, Zaragoza e Calatayud. Sua capital era Zaragoza. A população estava formada por hispanos e os recém chegados conquistadores, árabes e beréberes. Os árabes eram maioritários na bacia do Ebro. Dentro dos árabes se distinguia entre os yemenitas, do sul, e os árabes do norte. Entre eles existiam constantes enfrentamentos assim como com os bereberes, que eram minoritários. Entre os hispanos havia muitos muladies ou conversos ao Islã que tinham como linhagem ou Mawla o nome Banu [plural de filho em árabe], especialmente os Banu Amrus e Banu Qasi.  

SÉCULO XI: Em 1031, poucos anos após o desmoronamento do poder califal com a morte de Almanzor (1002), os notáveis de Córdoba declaram a dissolução do califato e surge a primeira época dos reinos Taifas [=facção]. Foram um total de 31 no momento de máxima divisão do Califato. Com o debilitamento do poder muçulmano, os reis cristãos são poderosos para dominar ou conquistar diversos reis mouros dos chamados Taifas. Porém, no lugar da conquista de um território ou cidade, era melhor pedir os tributos, chamados parias [de pariare, igualar ou pagar uma conta] porque não existiam habitantes para o repovoamento. É a nobreza feudal a que obtém os maiores benefícios ao construir os castelos dos quais dependiam a vida e alimentos dos protegidos no feudo. É nesta época que nos encontramos com a verdadeira Reconquista. Dentro dela vamos relatar a cruzada ou pré-cruzada de Barbastro.

B) OS PROTAGONISTAS

BARBASTRO: É atualmente uma cidade de economia agrícola com 15 mil habitantes, situada ao sul dos montes pirenaicos [região sulmontana ou Somontano].  Com a invasão árabe a população se transformou numa das capitais da Marca superior, junto com Zaragoza, Huesca, Lérida e Tufela. No século IX Jalf ibn Rasid fundou ou reconstruiu Barbastro, como uma fortaleza para defender a zona dos cristãos, dotando-a de uma estrutura peculiar com duas ruas que se cruzavam perpendicularmente das quais nasciam outras de traçado retilíneo. Era uma cidade fortificada, um baluarte que foi chamado de Castrum Alqueçaris, reconquistada definitivamente por Pedro I de Aragão em 1101. Junto com Graus era o bastião defensivo do rei de Zaragoza contra as forças cristãs de Aragão. Como nota curiosa sabemos que em 1063 houve uma batalha em Graus (Huesca) onde as forças castelhanas de Sancho II, cujo alferes era o Cid Campeador, em defesa das parias do rei de Zaragoza, derrotam as forças de Aragão e matam seu rei.  Por iso seu nome foi o de  Al-quézar [Al-Qasr árabe sendo o Qasr uma fortaleza, ou melhor uma vila fortificada, de onde se origina a palavra castelhana de alcázar] e era um enclave árabe defensivo, como temos dito fundado pelos Beni Qasin de Zaragoza, frente aos núcleos de resistência pirenaicos cristãos; no caso, o condado autóctone de Sobrarbe. A cidade ficou definida como um acampamento militar, capital da Barbitâniya. Na medida em que o processo da Reconquista avança em direção às terras baixas, se transforma de fortaleza militar em instituição religiosa e comercial da comarca, conhecida como Priorado Alquezarense. Hoje é conhecida como berço do fundador do Opus Dei e em cujas terras está o santuário de Torreciudad [aproximadamente 18 km ao nordeste de Barbastro] onde se venera a antiga imagem românica de Maria do século XI, que tem o nome de Torreciudad, sem dúvida em relação com Al-quézar nome árabe de Barbastro que em tradução ao castelhano significaria Torreciudad ou cidade torre. Isso para distingui-la de al-kasab  ou  alcaçaba que era um pátio retangular rodeado de um muro com 4  torreões nos ângulos.

ALEXANDRO II: (1061-1073) Nascido em território milanês com o nome de Anselmo de Lucca, era partidário da reforma do clero; foi o fundador da Pataria [do antigo milanês patee, que significa mendigo] na diocese de Milão, movimento religioso prevalentemente laical e popular, nascido na cidade no século XI, contra a simonia e o concubinato de grande parte do clero. Mais tarde, no século XII, derivou num movimento herético. Com o favor pontifício e como visitador, Anselmo, [futuro Alexandro II], se opôs ao Arcebispo Guido da Velate em 1045 junto com Hildebrando de Soana [futuro Gregório VII]. Guido enviou Anselmo à Alemanha, como rebelde. Mas com resultado contrário ao previsto; pois foi nomeado em 1057 pelo Imperador como bispo de Lucca. [Na época os imperadores tinham o domínio da Lombardia, norte da Itália, no vale do Pó]. Outro dos amigos de Anselmo foi S. Pedro Damião. Os três juntos conseguiram que o Sumo Pontífice Nicolau II, por decreto (1059), declarasse que o Papa devia ser eleito só pelos cardeais. À morte de Nicolau II (1061) o candidato dos reformistas ou Hildebrandistas era o bispo de Lucca [perto de Pisa], nosso Anselmo, que outros dizem de Baggio e conseguiram que  fosse eleito com o nome de Alexandro II. Em 1062, recém-eleito,  o novo Papa concede o perdão a quem combater os muçulmanos. Esta e não outra é a causa essencial de uma cruzada. No entanto, uma assembleia de nobres romanos, furiosos por sua eliminação como fator dominante na eleição do Papa, junto com representantes do episcopado anti-reformista de Lombardia [inimigos da Pateria] se dirigiram à corte alemã para solicitar a sanção real [non placet] para a recente eleição. A imperatriz Agnes [Inês de Poitiers], como regente por seu filho de 10 anos, Hnrique IV [o futuro inimigo do papa Gregório VII], convocou uma assembléia de magnatas, clérigos e laicos em Basle e ali, sem nenhum direito legal, e sem a presença de nenhum cardeal, o bispo de Parma foi declarado Papa com o nome de Honório II (28 de outubro). Na luta pela sua causa, o Papa Alexandro II foi respaldado pela opinião pública que exigia as reformas, pela ajuda dos normandos, seus aliados do sul da Itália e a assistência de damas ilustres como Matilde de Toscana (1046-1114); esta última, defensora também de Gregório VII, em cujo castelo de Canosa pediu perdão Henrique IV. Porém, mesmo na Alemanha, as coisas deram um giro a favor de Alexandro, quando Anno de Colônia assumiu a regência e a imperatriz, arrependida, se retirou a um convento. Na nova dieta de Ausburgo em 1062 decidiu-se que o Bispo de Halberstadt deveria dirigir-se a Roma e depois investigar minuciosamente a eleição de Alexandro. O parecer do bispo foi completamente favorável a Alexandre, o qual, num concílio realizado em Mântova em 1064, foi reconhecido formalmente como Papa.

 

C) PRÉ-CRUZADA DE BARBASTRO.

Temos visto como os hispanos eram minoritários nas partes mais abruptas dos Pirinéus. Foi talvez por isso que para lutar contra os maometanos foram chamados os cristãos de outros países. Nos incessantes combates dos reinos cristãos hispanos contra os muçulmanos de Al Ándalus há circunstâncias que convertem a guerra peninsular num claro antecedente da primeira cruzada. Foi muito habitual a participação de cavaleiros procedentes de outros países da Europa nas  batalhas da reconquista. Mas faltavam duas coisas para uma verdadeira cruzada: o chamado do Papa e o perdão em forma de indulgência para os combatentes. E foi precisamente o chamado do Papa Alexanfro II que transformou o auxílio eventual em verdadeira cruzada. Ao chamado do Papa Alexandro II, se formou um pequeno exército, para ajudar o rei de Aragão, Sancho Ramírez. Nesse exército, Guilherme de Montreuil (gonfaloniere ou porta estandarte do Papa), dirige italianos-normandos na Pré-Cruzada [melhor Cruzada] de Barbastro e Robert Crespin, pequeno senhor da Nomadia francesa, dirige um dos bandos de aventureiros normandos na mesma. Gui-Geoffroi, duque de Aquitania e Gasconha, comanda uma das duas colunas cristãs. Atravessa Pirinéus pela rota de Somport, que une Huesca [Espanha] com Pau [Francia]. Guillaume de Montreuil comanda a outra coluna por um passo mais ao leste. O normando Guilherme de Montreuil toma Barbastro em agosto de 1064 apos um mês de cerco, obtendo um imenso botim. Segundo as normas em uso, as tropas se dedicaram ao saque e incêndio e destruição do que não podiam roubar, colheitas e árvores incluídos. O assaltante estava no direito de saquear e massacrar , caso resultasse vencedor. Somente os cavaleiros eram poupados e também os que podiam pagar resgate. O resto, mulheres e crianças incluídas, eram massacradas caso houvesse qualquer dificuldade de mantimentos ou razões logísticas. Isto serve para entender certos comportamentos dos cruzados que hoje se anatematizam de modo absoluto. Até tal ponto havia uma diferença entre as classes que a balestra ou besta foi proibida sob pena de excomunhão porque perfurava armaduras e era um risco de morte para um cavaleiro, de modo a poder ser morto por um simples camponês. Outro exemplo para entender o medievalismo. Os cruzados se retiraram, deixando como senhor do mesmo a Robert Crepin, que a manterá até o mês de abril do ano 1065, quando volveu a ser recuperada para o islã pelo rei taifa de Zaragoza, Al Muktadir, em cujas tropas estava de novo o Cid, a quem atribuem a reconquista. Esta experiência – um chamado pontifício em auxílio de um rei cristão - sentou precedentes que anos mais tarde se manifestaria novamente ao surgir de uma consciência solidária em favor dos irmãos do Oriente, que começaram a sofrer toda classe de tropelias por meio dos invasores turcos. Além disso, uma série de fatos propiciaram que em novembro de 1095 o Papa urbano II lançasse um chamado em língua d’oil, seu romance natal que era a falada ao norte do Loire, diante de uma multidão imensa reunida numa esplanada extramuros da cidade de Clerm. Neste caso teremos evidentemente os termos de cruzado juridicamente definidos. Em 1087 vemos lutando como cruzados na Espanha vários cavaleiros francos ao que parece, respondendo ao chamado do Papa Urbano II ( o mesmo de Clermont da 1ª Cruzada no Oriente). Entre eles Raimundo de Saint Gilles (+115) o posterior conde de Tolosa, chefe de um dos quatro exércitos da 1ª Cruzada. Raimundo lutou no tempo de Alfonso VI de Castela (1072-1109). O borgonhês chegou à época da reconquista, - ele era um cavaleiro, e chegou a essa parte da Europa para lutar contra os seguidores do Islão - e em um período de excesso populacional em França - o que permite-nos perceber as razões que o levaram até lá, sendo que a intervenção na Península era um meio desses filhos segundos obterem vantagens, sendo que no caso de Raimundo ele conseguiu aquilo que objetivava: ter um senhorio próprio. Raimundo tem o seu casamento com a única filha legitima do Imperador Afonso VI, Urraca, negociado no ano de 1087, sendo ela a única filha legitima e herdeira do soberano espanhol. Vale citar que era comum a união matrimonial entre príncipes franceses e ibéricos, como o que aconteceu com Raimundo e Urraca, por exemplo, e que já ocorriam desde antes da união dos dois, inclusive tendo o sogro do borgonhês e outros membros da família deste aderido a matrimônios com franceses: Alfonso VI casou sua filha Urraca com Raimundo de Saint-Gilles, irmão do conde Guillermo IV de Tolosa (razão pela qual também é conhecido como Raimundo de Borgonha).O conde Guillermo IV de Tolosa cedeu seu condado a seu irmão Raimundo de Saint-Gilles, que passou a ser o conde Raimundo IV de Tolosa. Na realidade levava já cinco anos governando o território. Com ele veio seu primo e depois seu cunhado Enrique, que foi o primeiro conde de Portucale, dando origem mais tarde ao reino de Portugal. Morta Urraca, Raimundo casou com Elvira, filha natural do castelhano. A razão dos borgonheses, como eram chamados os do lado norte dos Pirineus era o surto demográfico que acontecia principalmente em França, onde havia a facilidade de recrutar-se mercenários, e também, devido a esse aumento populacional, os filhos segundos enfrentavam problemas, como o de não possuir direitos à terras da família como herança. Caso viessem a colocar as mãos em parte da herança, provavelmente nunca seria a melhor parte, a mais rendosa. A segunda Cruzada em território hispano foi por ocasião da terceira invasão islâmica, a dos almohades, que terminou com a batalha das Navas de Tolosa (1212), como veremos em próximo artigo.

EXCURSUS: OBRIGAÇÕES E PRIVILÉGIOS DO CRUZADO: Antes de 1095 não existia uma doutrina bem definida do chamado voto do cruzado, nem de suas obrigações. Em 1140 o Monge camaldulense Graciano de Bolônia  em seu Decretum Gratiani, um compêndio de normas de Direito eclesiástico, dedica ao voto, sua natureza e suas obrigações, a causa 17, e nela define o voto afirmando que, por ter sido contraído perante Deus, criava uma obrigação que requeria uma absolvição para ser dissolvido ou anulado. Talvez seja útil recordar que para alguns canonistas o voto de um cruzado era considerado superior ao do matrimônio. Os privilégios espirituais unidos a este voto, podem ser resumidos assim: Indulgência ou remissão das penas temporais dos pecados, remissão de censuras eclesiásticas, possibilidade de viver com excomungados sem incorrer em censuras canônicas, gozar de administrações eclesiásticas durante os interditos [privação de sacramentos e ritos eclesiásticos em regiões ou cidades determinadas], absolvições de irregularidades canônicas, privilégio de eleição de um confessor pessoal, remissão de outros votos contraídos com anterioridade [como era o do matrimônio que sem dar licença para novo casamento anulava total ou parcialmente o compromisso de vida comum] e benefícios espirituais dimanados das orações da Igreja pelos cruzados. A estes privilégios espirituais devemos unir os temporais, quer fossem jurisdicionais,  quer econômicos, ou disciplinares especiais que tornavam particularmente atrativo o voto para um cruzado. Entre eles o direito a ser julgado por um tribunal eclesiástico, diferir os procedimentos jurídicos iniciados contra ele, dispor livremente da propriedade de modo que pudesse hipotecar seus feudos, alienar e hipotecar bens seculares e até benefícios eclesiásticos [as rendas], possibilidade de usar rendas eclesiásticas para financiar seus gastos, privilégio de moratória nas dívidas, exceção de pago de interesses, taxas, subsídios, etc. E desde o século XII possibilidade de obtenção de subsídios econômicos para a equipe, gastos de viagem, e manutenção. A família do cruzado estava sob a segurança que fornecia a trégua e paz de Deus. Quem atentasse contra os familiares ou as terras e casa do cruzado na sua ausência estava incurso em excomunhão.