AS MÁRTIRES DE COMPIÈGNE
O texto que se vai ler foi tirado do apêndice histórico da edição brasileira da obra de Gertrud von le Fort (A Última ao Cadafalso, trad. de Roberto Furquim, Quadrante, São Paulo, 1998), e tem por base o livro de Bruno de Jesus Maria, O.C.D, Le Sang du Carmel ou la véritable passion des seize carmelites de Compiègne, Plon, Paris, 1954 e o informe do Secretariatus pro monialibus, Curia Generalis O.C.D., As Bem-aventuradas mártires de Compiègne, Roma, S.d. As citações entre aspas, exceto quando é indicado o contrário, provêm dos manuscritos da Irmã Maria da Encarnação.
Praça do Trono, 17 de Julho de
1794
São cerca de oito horas da
tarde. É verão e o céu ainda está claro. A multidão comprime-se em volta da
guilhotina, erguida no centro da antiga Place du Thrône, atual Barrière de
Vincennes. Junto dos degraus que conduzem ao cadafalso, o carrasco,
Charles-Henri Sanson, espera respeitosamente de pé, flanqueado por dois
ajudantes. Há quarenta anos vem prestando esse serviço ao governo, com
inalterável resignação. O calor é opressivo, e em toda a praça reina um odor
mefítico de sangue.
Vindos da cidade, despontam os carroções.
Hoje são dois, e vêm bastante cheios: ao todo, serão quarenta vítimas.
Recebem-nas as exclamações e ameaças habituais, mas o barulho logo se abafa em
murmúrios de espanto. Acontece que, entre os condenados, se vêem diversas
mulheres de capa branca: são as dezesseis carmelitas do convento de Compiègne.
Ao contrário dos seus companheiros de infortúnio, não deixam pender a cabeça
nem choram ou gritam; trazem o rosto erguido, e a linha firme do corpo é
sublinhada pelas mãos amarradas às costas. E cantam: aos ouvidos de todos,
ressoam as notas esquecidas da Salve Rainha em latim e do Te Deum. Até para o
mais empedernido dos basbaques presentes, é um espetáculo inaudito.
Quando os carroções param ao pé
do cadafalso, o burburinho faz-se silêncio absoluto. Até essas mulheres
histéricas, as chamadas "fúrias da guilhotina", que sempre estão na
primeira fila dos espectadores, emudecem.
As primeiras a descer são as
carmelitas. Uma delas, a priora, Madre Teresa de Santo Agostinho, aproxima-se
do carrasco e pede-lhe que lhes conceda uns minutos para poderem renovar os
seus votos e que a deixe ser a última a sofrer a execução, para que possa
animar cada uma das suas filhas até o fim. Sanson, alma delicada, concorda de
bom grado.
Todas juntas, cantam o Veni Creator
Spiritus. A seguir, renovam os seus votos religiosos. Enquanto rezam, uma voz
de mulher sussurra na multidão: "Essas boas almas, vejam se não parecem
anjos! Pela minha fé, se essas mulheres não forem diretas ao paraíso, é porque
o paraíso não existe!"
A priora recua até a base da
escada. Tem nas mãos uma estatueta de cerâmica da Virgem Maria com o Menino
Jesus ao colo. A primeira a ser chamada, a mais jovem de todas, é a noviça
Constança. Ajoelha-se diante da Madre e pede-lhe a benção. Segundo uma testemunha,
ter-se-ia também acusado nesse momento de não haver terminado o ofício do dia.
Com um sorriso a Madre diz-lhe: "Vai, minha filha, confiança! Acabarás de
rezá-lo no Céu"... e dá-lhe a beijar a imagem.
Contança sobe rapidamente os
degraus, entoando o salmo Laudate Dominum omnes gentes, "Louvai o Senhor,
todos os povos". "Ia alegre, como se se dirigisse para uma
festa". O carrasco e seus ajudantes, com gesto profissional, dispõem-na
debaixo da guilhotina. Ouve-se o golpe surdo do contrapeso, o ruído seco da
lâmina que cai, o baque da cabeça recolhida num saco de couro. Sem solução de
continuidade, o corpo é lançado ao carroção funerário.
Uma por uma, as freiras
ajoelham-se diante da priora e pedem-lhe a benção e permissão para morrer.
Cantam o hino iniciado por Constança. Quando chega a vez da Irmã de Jesus
Crucificado, que tem 78 anos, os jovens ajudantes do carrasco têm de descer
para ajudá-la a vencer os degraus. Ela diz-lhes afavelmente: "Meus amigos,
eu vos perdôo de todo o coração, tal como desejo que Deus me perdoe".
Só falta a Madre. Com gesto
simples e firme, beija a estatuinha e confia-a à primeira pessoa que tem ao
lado. Tem 41 anos, um rosto expressivo, nem muito bonito nem feio; o porte é,
mais do que altivo, descontraído. Os olhos castanhos, sofridos mas irradiando
bondade, procuram os do pe. Lamarche, que as confessara no dia anterior na
prisão e que se encontra entre a multidão. Como quem tem pressa em concluir uma
tarefa urgente, sobe por sua vez os degraus.
Agora tudo terminou. Pode-se
cortar o silêncio como se fosse um queijo. Muitos dos assistentes choram
baixinho. Anos mais tarde, encontrar-se-ão — registrados em cartas pessoais,
diários íntimos e memoriais — os ecos da emoção que experimentaram e dos
efeitos que ela lhes causou: muitos sentiram a necessidade de mudar de vida, de
retomar a prática dos sacramentos, um ou outro de ingressar num convento... Um
deles, um menino que presenciara a cena das janelas de um prédio situado em
frente da guilhotina, guardou dela uma impressão tão profunda que, anos mais
tarde, quando fazia o serviço militar, carregava sempre consigo as obras de
Santa Teresa de Ávila e acabou por fazer-se sacerdote. "O amor vence
sempre", costumava dizer a Madre priora; "o amor vence tudo".
Os corpos foram levados às
pressas para o antigo convento dos agostinianos do Faubourg de Picpus. Lá foram
lançados na fossa comum e cobertos de cal viva. Hoje há ali um gramado cercado
de ciprestes, com uma simples cruz de ferro. É um lugar de silêncio e oração.
[...]
Céu de Chumbo [4 anos antes]
A 13 de fevereiro de 1790, a
Assembléia suprimia, de uma penada, todas as Congregações religiosas que não
estivessem dedicadas ao ensino e aos hospitais. É curioso ler, nas atas das
sessões anteriores, os grandes argumentos em defesa dessa medida: os religiosos
contemplativos já não exerciam, segundo os deputados, nenhuma função útil, uma
vez que "as terras de cultivo já tinham sido desbravadas (!) e os pobres
constituíam uma dívida pública que cabia à sociedade inteira resgatar".
Por que então roubar à agricultura e à indústria, à economia nacional, todos
esses braços que poderiam ser tão úteis se não tivessem permanentemente as mãos
postas para orar? Nada mais lógico, pois, do que descartar dessas Ordens e
atribuir aos seus membros alguma ocupação "proveitosa".
Evidentemente, as resoluções
tomadas em Paris tardavam algum tempo a ser postas em prática na província.
Assim, as carmelitas puderam ainda desfrutar de quase seis meses sem serem
perturbadas. A secularização dos bens do clero estava já em pleno andamento, e
fazia uns quinze dias que tinham tido a dolorosa notícia de que fora aprovada a
Constituição Civil do Clero, quando os membros do Diretório local de Compiègne
se apresentaram no convento, no dia 4 de agosto, de papel e pena na mão, a fim
de fazer o inventário do mobiliário, títulos e papéis. Tudo parece ter corrido
sem maiores incidentes; as relações ainda eram cordiais, uma vez que todos no
vilarejo conheciam e queriam bem às carmelitas. Terminado o levantamento, o
Diretório encarregou oficialmente as "cidadãs" residentes no
convento, agora pertencente à municipalidade, de administrarem esses bens em
nome do poder público.
No dia 5, porém, voltaram à
carga, desta vez para perguntar a cada uma as religiosas se preferia permanecer
ou abandonar o convento. Tratava-se ainda de uma dessas tarefas burocráticas
desagradáveis, mas de que, enfim, era preciso desincumbir-se. O notário
escrevinhava ansiosamente enquanto as religiosas compareciam uma por uma diante
dos membros do Diretório para registrarem a sua resposta.
O inventário dessas declarações,
unânimes na sua completa fidelidade, é todo um testemunho. A anciã Irmã de
Jesus Crucificado afirmou que, "carmelita há cinqüenta e seis anos, a
única coisa que quereria, por tudo no mundo, seria dispor ainda do mesmo número
de anos para consagrá-los ao Senhor"; a Irmã Eufrásia, beligerante,
exprimiu "a firme decisão de conservar o seu hábito, mesmo que tivesse de
conquistar essa felicidade ao preço do seu sangue"; a Madre Croissy
declarou com nobreza que "assumira os seus compromissos para a vida
inteira, e era com pressa que agarrava essa ocasião de renová-los"; a
analfabeta Irmã São Francisco Xavier respondeu belamente que "uma esposa
bem-nascida permanece unida ao seu esposo, e nada neste mundo seria capaz de
fazê-la abandonar o seu divino esposo, Nosso Senhor Jesus Cristo"; e
assim, todas e cada uma.
No entanto, e não há nada mais
natural, um certo nervosismo tomou conta da comunidade. "Coragem,
animava-as a priora, nada de temores pusilânimes, que seriam uma ofensa ao
poder e à bondade de um Pai em cujo seio devemos lançar-nos com a mais terna e
a mais firme confiança".
Em nome de todos os Carmelos
franceses, a priora do mosteiro de Grenelle enviou por esses dias um Memorial à
Assembléia Nacional, assinado também pelas prioras dos outros três Carmelos de
Paris. "As riquezas das Carmelitas", diz o texto, "nunca foram
objeto de cobiça. A nossa fortuna consiste nessa pobreza evangélica que, mesmo
depois de quitadas todas as dívidas para com a sociedade, ainda assim encontra
meios para ajudar os necessitados e socorrer a pátria e em todas as
circunstâncias nos torna felizes com as privações que passamos. A liberdade
mais completa preside aos nossos votos; a igualdade mais perfeita reina nas
nossas casas; entre nós, não há ricas nem nobres [...]. No mundo, comprazem-se
em publicar que os mosteiros só encerram vítimas que se vão consumindo
lentamente pelos seus sofrimentos; mas nós declaramos diante de Deus que, se há
na terra autêntica felicidade, nós desfrutamos dela [...]. Depois de terdes
proclamado com tanta solenidade que o homem é livre, querereis obrigar-nos a
pensar que já não o somos?"
Mas essas palavras, belas e
nobres, caíam em ouvidos ensurdecidos pela algazarra da rua e dos debates
parlamentares. Os representantes da Liberdade continuarão a apertar, volta
sobre volta, o torniquete com que pretendiam estrangular aqueles que cometiam o
horroroso crime de orar e de oferecer-se em sacrifício por eles. "Ó Liberdade,
quantos crimes se cometem agora em teu nome!", teria suspirado Mme. Roland
— aliás em parte "eminência parda" na elaboração dessas leis — quando
a carroça que a levava à guilhotina passou diante de uma estátua da
"deusa".
No dia 11 de Janeiro de 1791, os
oficiais municipais voltaram a apresentar-se no convento para acompanhar e
supervisionar as eleições da priora e da ecônoma; "Mme Lidoine" — já
não era politicamente correto usar o nome de religiosa, Madre Teresa de Santo
Agostinho — foi reeleita por unanimidade e "Mme. Croissy", Madre
Henriqueta de Jesus, foi eleita ecônoma. A seguir, fixaram-lhes uma pensão no
valor de 7425 libras anuais, aproximadamente meio salário mínimo por cabeça.
No mês seguinte, começaram os
preparativos para a instalação local da Igreja constitucional. O bispo de
Beauvais, diocese a que pertencia Compiègne, foi obrigado a retirar-se;
tratava-se do ancião mons. de Rochefoucauld, homem de grande santidade, que em
setembro deste ano estaria entre os Mártires do Carmo de Paris, por puro ódio à
santidade, pois já não exercia qualquer função pastoral. Substituiu-o o antigo
pároco de Cergy, Jean-Baptiste Massieu, eleito bispo constitucional.
Passou-se mais de um ano em
angustiosa expectativa, sob um aguaceiro contínuo de más notícias que não
cessavam de piorar. "O bispo [juramentado] é o maior objeto das nossas
angústias; não temos intenção de reconhecê-lo. Cada dia nos traz uma calamidade
nova; estamos, como a senhora, oprimidas sob o peso da cruz e da dor"
[Carta de uma religiosa de Sentis à Madre Teresa de Santo Agostinho]. O breve
com que o Papa condenou a Constituição Civil foi muito mal recebido em Paris.
Por toda a parte, só se ouvia falar de desordens, tumultos, violências contra
os católicos fiéis.
Sob um céu carregado, sem perspectivas
de melhora, as carmelitas de Compiègne esmeravam-se na sua vida de entrega e
sacrifício. Ofereciam as suas penitências, a Missa, a oração. O pe. Courouble,
que se recusou a prestar o juramento, continuava ainda a atendê-las
regularmente com a maior discrição possível.
O Sacrifício
Na Páscoa de 1792,
enquanto lêem no recreio umas crônicas antigas do convento, deparam com o
relato de um sonho que tivera uma antiga freira, falecida lá pelos idos de
1720. Contava ela que, nesse sonho, vira a comunidade inteira subir ao Céu:
"Vi a glória que as religiosas deste convento terão ali. E vi também o
Cordeiro de Deus imolado pelos pecados do mundo; os seus olhos dirigiam-se para
nós cheios de ternura". Durante algum tempo, este passa a ser o tema mais
freqüente das suas conversas. Teria Deus preparado para elas a glória do
martírio? Que alegria se pudessem ir todas juntas para o Céu!
Nessa época, a priora sofre
pesadamente com as responsabilidades que o seu cargo lhe impõe em
circunstâncias tão dolorosas. Que fazer? Que decisão tomas? A sua saúde
ressente-se. No entanto, se chegar a vergar sob o peso, não quebra. Ainda
encontra energias suficientes no seu interior para compor uns versos que
refletem bem a sua disposição combativa.
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Ici-bas notre partage Est la croix, l'adversité, Mais elles nous sont le gage D'une hereuse eternité [...] Armons-nous donc de courage Comme de braves soldats Le grand Roi qui nous engage A bravé bien de combats. [...] |
Aqui em baixo, a nossa parte É a cruz, a adversidade Mas são elas o penhor Da feliz eternidade [...] Armemo-nos pois de coragem Como bravos soldados. O grande Rei que nos recruta Já enfrentou muitos
combates... |
Nessa época, um sacerdote cujo
nome desconhecemos — porque já era demasiado perigoso assinar as cartas — toma
a seu cargo a direção espiritual da comunidade. Alguns supõe tratar-se do pe.
Lamarche, que acompanhará as carmelitas até ao pé do cadafalso. Seja como for,
é um homem de intensa vida interior, que conduz a priora e as suas filhas pelo
caminho do abandono nas mãos de Deus: "Consolai-vos, minha filha,
consolai-vos: é o próprio Pai das misericórdias quem usa desta linguagem para
convosco; já não tenhais medo, amai-O acima de todas as outras coisas, entregai
o vosso coração ao Deus que o inflama [...] Nunca mais essa tristeza que abate,
nunca mais esse medo que enfraquece, numa mais essas dúvidas, essas ansiedades
que esgotam; Amor divino, só Vós, sim, só Vós sereis o grande, o único objeto
dos meus desejos" [carta do diretor desconhecido à priora, 11/05/1792]
Mas a triste situação da Igreja
e da Nação pesam sobre a Madre. "Ó minhas irmãs em Cristo!", exclama
ela diante de todas, "ajudai-me a pedir esta graça ao Senhor. É com este
fim que Ele nos reuniu aqui, esta é a nossa vocação, esta a nossa tarefa":
expiar o pecado que domina o mundo, abrir essas trevas à graça de Deus. Por
fim, entre junho e agosto de 1792, a priora conta às irmãs que "ao fazer a
sua meditação, tinha-lhe vindo ao pensamento fazer um ato de consagração
mediante o qual a comunidade se ofereceria em holocausto para aplacar a cólera
divina, e para que fosse concedida à Igreja e ao Estado essa paz que o seu
Filho amado tinha vindo trazer ao mundo". Quando lhes lê essas palavras,
todas concordam e prometem unir-se a ela.
Apenas as duas mais velhas, a
Irmã de Jesus Crucificado e a Irmã Carlota da Ressurreição, ambas com 76 anos
na ocasião, não conseguem deixar de exprimir o horror que experimentam ante a
idéia de terminarem os seus dias na guilhotina. "Minhas queridas irmãs",
responde-lhes a priora, "não pretendo impor-vos a obrigação de pronunciar
este ato, e crede que teria evitado até falar-vos dele se tivesse previsto o
efeito que a sua leitura produziria em vós. Meu pensamento dirigia-se
inteiramente para os motivos que levaram a nossa santa Madre (Teresa de Jesus)
a fundar a sua Reforma: fazer cessar os males que afligiam a Igreja e o Estado
do reino de França. Se esta Santa teve tanto zelo em orar por uma pátria que
não era a sua, com quanto maior razão não devemos fazê-lo nós, tratando-se do
nosso próprio reino?" As duas retiram-se para a cela, de onde não voltam a
sair durante todo aquele dia; mas à noite vêm procurar a Madre, comovidas e
humilhadas, e pedem-lhe que lhes permita reparar o "escândalo" que
causaram e tomar parte também nesse ato de consagração.
A inspiração da priora era quase
profética: poucos dias depois, a 2 de setembro, inicia-se o período negro dos
massacres e perseguições, enquanto saraivam os decretos raivosos da Assembléia.
Suprimem-se também as Ordens dedicadas ao ensino e aos hospitais, e, diante
disso, as autoridades de Compiègne fariam má figura se continuassem a tolerar
por mais tempo um convento de freiras contemplativas. O Comitê de Vigilância
Revolucionária local vem avisá-las de que terão de deixar a clausura.
No dia 14 de setembro, festa da
Exaltação da Santa Cruz, as religiosas deixam o convento, vestidas de roupas
civis. Distribuem-se em quatro grupos, acolhidos em casas de família
relativamente próximas umas das outras, no bairro de Saint-Antoine. Antes de
despedir-se, comentam entre si "que o Senhor, por meio desse sacrifício
que lhes exigia ou permitia nessa data, haveria de enriquecê-las com uma porção
mais forte de sua Cruz".
Mas as vexações não param por
aí. Exige-se delas que prestem o novo juramento de fidelidade à Revolução,
chamado de "liberdade, igualdade": "Juro que serei fiel à Nação
e manterei a liberdade, a igualdade ou morrerei em sua defesa". Embora
lhes repugnasse mais pelo contexto do que pela fórmula, submetem-se a essa imposição
a conselho do superior, o pe. Rigaud. Durante o seu processo em Paris, o
promotor público Fouquier-Tinville acusá-la-ia de não o terem prestado. O mais
provável é que, ao tomarem conhecimento de que a Sagrada Congregação
encarregada dos assuntos franceses tinha considerado ilícito também esse
juramento, a 1o. de abril de 1794, elas se tenham retratado publicamente; Maria
da Encarnaçào afirma ter visto, em 1795, o texto da retratação com as
assinaturas das freiras.
É impressionante observar que,
nessas circunstâncias em que teriam todos os motivos para ceder ao desânimo,
essas mulheres souberam manter-se fiéis à Regra da sua Ordem. Como as casas
eram próximas e costumava haver, nos vilarejos, portas de comunicação entre os
jardins, podiam reunir-se de tempos a tempos sem dar muito nas vistas. "O
profundo consenso que havia entre todas as irmãs fazia com que nenhuma delas se
desviasse das suas obrigações; podia-se dizer que praticavam a obediência com
toda a exatidão do convento".
A Madre Teresa de Santo
Agostinho levou consigo as duas freiras mais velhas, a Irmã conversa Santa
Marta, adoentada, e a mais velha das duas porteiras, Therèse Soiron. A fim de
preparar e fortalecer as suas filhas, pedia-lhes com muito tato que rezassem
todos os dias o oferecimento de suas vidas que ela lhes tinha posto por
escrito. Era cada vez mais difícil conseguir quem lhes celebrasse a Santa
Missa, pois em novembro o capelão, o pe. Courouble, foi denunciado como
contestatário por dez "cidadãos ativos" da cidade e condenado ao
exílio, na Bélgica. Mas elas mantiveram absoluta regularidade na recitação do
Ofício e nas horas de oração.
"Não estamos nem em tempo
nem em lugar de satisfações -- escrevia a priora à Irmã Teresa do Coração de
Maria, que se encontrava em um dos outros grupos; renunciar a elas para sempre
e não ater-nos senão à ajuda caritativa do próximo por amor a Deus, a quem
devemos sempre ver em tudo, este deve ser o nosso exercício diário [...]
Bendigo de todo o coração a resolução que tomamos de pôr mais ordem no nosso
horário, do qual tivemos necessariamente de afastar-nos nestes últimos tempos,
e certamente sem que isso desgostasse Aquele cujos desígnios sempre adoráveis e
santos permitiram as tristes circunstâncias que levaram a esta desordem. [...]
Na medida do possível, renovemos pois o recolhimento, a oração, o silêncio nas
mesmas horas em que costumávamos observá-los, e igualmente as leituras (do
Ofício divino). Muitas pessoas não duvidam de que continuamos a observar esses
exercícios, e comovem-me os cuidados que têm para não nos perturbarem [...]
Façamos, pois, tudo o que é possível, enquanto pudermos e sem o menor
escrúpulo, já que a nossa situação atual comporta exceções que um coração reto
deve reconhecer, mas das quais um coração fiel não abusa. [...] No coração de
Jesus encontrareis o de uma terna mãe" [Carta da priora à Irmã Teresa do
Coração de Maria, 1/10/1792]
Foram vinte e um meses desse
"petit-martyre", desse "pequeno martírio" oculto.
Esperar por uma ameaça que não se sabe bem qual será, sem prazos nem esperanças
de alívio, numa situação de provisoreidade que se prolonga indefinidamente...
não é pequena tortura. Em contrapartida, contavam com a fidelidade de muitos
católicos, e os membros da confraria do escapulário do Carmo visitavam-nas com
freqüência.
Enquanto isso, as autoridades de
Compiègne dançavam segundo a música de Paris, estimuladas pela presença de dois
"representantes do povo em missão", membros da Convenção, Em Paris
caçavam-se os "fanáticos"? Pois, em Compiègne, também o fariam! O
clube jacobino, transformado em Sociedade dos Amigos da República e presidido
por um certo Bertrand Quinquet, elaborará zelosamente uma lista de 64 suspeitos
e os deixará à disposição de 36 "cidadãos patriotas". Em Paris
fechavam-se as igrejas e celebrava-se o culto da Razão? Compiègne não lhe
ficaria atrás! A 16 de maio, o Comitê diretivo local pode permitir-se um ufano
relatório das suas atividades descristianizadoras, adornado com as mais belas
flores da retórica revolucionária-burocrático-servil-aduladora:
"Cidadãos representantes
[...] vós vos queixais de que o fanatismo se agita nesta comuna, e exigis de
nós uma prestação de contas das medidas que tomamos para reprimir a audácia
daqueles que, sob pretexto da liberdade de Cultos, teriam ousado fomentar
agitações e estimular movimentos.
"Eis as contas que podemos
prestar-vos, e estas contas são sinceras e verdadeiras. Fundadas nos fatos,
elas vos provarão que Compiègne não deve ser confundida com certas comunas dos
arredores, que ainda não estão à altura dos princípios revolucionários.
"Desde o mês de vendimiário
(setembro-outubro de 1793), os fanáticos desta comuna foram presos e recluidos.
"No começo de brumário
(meados de outubro), as ex-igrejas foram fechadas e todas as futilidades do fanatismo
queimadas.
"Durante esse mesmo mês, o
templo principal da localidade foi solenemente dedicado à Razão.
"Desde então, em todos os décadis
(décimos dias), ao som do sino da Casa Comunal, os cidadãos reúnem-se nesse
templo e a li escutam com satisfação discursos de moral, sermões patrióticos, a
leitura dos decretos etc [...].
"Aqui, Cidadãos
representantes, o fanatismo foi esmagado, triturado, aniquilado. Cortamos a
última cabeça desta temível desordem e não permitiremos que esse monstro abominável
renasça das cinzas [...] Viva a República: Viva a Convenção: Viva a
Montanha!".
Infelizmente, a vigilante
Sociedade dos Amigos da República não parece ter compartilhado as opiniões da
administração. Num informe datado de pouco antes, do dia "3 de floreal do
ano II" (22 de abril de 1794), Bertrand Quinquet queixava-se diretamente
ao Comitê Geral de Segurança de Paris: "Os dias chamados de páscoa no
estilo fanático são os do furor da superstição [...] Com viva dor, sou obrigado
a informá-los de que, nestes dois últimos décadis (20 dias), a chama da
Razão se apaga e a lâmpada da superstição se reanima. Não tenho senão a voz da
representação, e faltam-me os meios repressivos; se não me ajudardes com as
vossas ordens, o espírito público evaporar-se-á pouco a pouco".
"Marchemos para a
Conquista"
Em junho de 1794, com a
suspensão de todas as garantias individuais previstas na Constituição, o Terror
chegou ao seu paroxismo. Em Compiègne, o Comitê, inquieto e precisando
urgentemente "mostrar serviço", lembrou-se de que havia nos seus
arquivos uma denúncia contra as carmelitas porque "continuavam a viver em
comunidade; mantinham-se ainda submetidas ao regime fanático do seu claustro;
podia haver entre elas e os fanáticos de Paris uma correspondência criminosa; e
suspeitava-se que celebravam entre elas reuniões dirigidas pelo
fanatismo". Bem a tempo!
Em março de 1794, a Irmã Maria
da Encarnação viajara a Paris. Na sexta-feira, 13 de junho, a instâncias do Pe.
Rigaud, também a Madre priora teve de dirigir-se à capital para visitar a sua
mãe, já anciã, que tinha enviuvado tempos atrás e precisava da assinatura da
filha para liquidar a sucessão do marido. Ao voltar de diligência para
Compiègne, no entardecer do dia 21 de junho, foi recebida por algumas das suas
filhas, que a informaram de que naquele mesmo dia o Comitê viera revistar as
casas em que moravam e estava apreendendo tudo o que encontrava.
No dia seguinte, continuou a
busca e apreensão. Encontrou-se em poder das irmãs amplo material
"subversivo", que seria exaustivamente listado na infinita papelada
burocrática em que se envolveu este episódio burlesco e sangrento. À tarde, as
religiosas receberam voz de prisão e foram levadas ao antigo convento da
Visitação de Santa Maria. Na ala vizinha, estavam presas as beneditinas
inglesas de Cambrai, detidas desde outubro de 1793 por serem estrangeirais;
estas freiras contribuiriam mais tarde para difundir a fama de santidade das
carmelitas.
O cativeiro foi duríssimo: um
pouco de pão tresamanhecido, impossível de comer, e de água em péssimas
condições para as que estavam doentes, como a Irmã Carlota e a Madre
Henriqueta. Uma ex-meretriz cuidava delas mediante pagamento. Foram mantidas
incomunicadas, e a abadessa das beneditinas só pôde trocar umas poucas palavras
com as carmelitas em duas ocasiões durante esse período, que durou pouco menos
de três semanas.
Já no terceiro dia (25), o
Comitê de Vigilância enviou a Paris o expediente em que as irmãs eram acusadas
de atividades contra-revolucionárias. Acrescentaram também uma carta ao Comitê
de Salvação Pública: "Fazia já muito tempo que suspeitávamos que as
antigas religiosas carmelitas desta comuna, embora alojadas em diversas casas,
ainda viviam em comunidade, submetidas às regras do seu antigo convento. As
nossas suspeitas não foram vãs, pois, no decorrer de diversas visitas rigorosas
que lhes foram feitas, descobrimos uma correspondência a mais criminosa
possível. Não somente impediam o progresso do espírito público, recebendo nas
suas casas pessoas que admitiam numa confraria chamada do escapulário (do
Carmo), mas ainda continuavam a desejar, elas próprias, a contra-revolução.
[...] Podereis julgar vós mesmos a partir dos documentos que vos
enviamos".
E segue a lista do corpus
delicti: um retrato do "tirano" (era uma dessas imagens impressas
em série do rei, já decapitado a essas alturas, e representado na forma
tradicional, debaixo do Espírito Santo e entre os corações de Jesus e de
Maria), inúmeras cartas que "transpiravam fanatismo" (a familiares e
parentes, e sobretudo as do diretor espiritual), e, horror dos horrores!, uns
versinhos sarcásticos em que se dizia que "o frio acabará por comer os
insetos e toda a espécie de jacobinos" [*]... Eis tudo.
No dia 10 de julho, o Comitê
Geral de Segurança de Paris mandou que se enviassem as carmelitas,
"culpadas e acusadas de cumplicidade diante do tribunal
revolucionário", à Conciergerie de Paris, a parte medieval do
antigo Palácio de Justiça, que servia de prisão. No dia 12, três membros do
Comitê de Compiègne apresentaram-se na Visitação, intimando-as a partir
imediatamente. Como as carretas destinadas ao transporte já tinham chegado, não
lhes permitiram nem tomar uma refeição nem lavar as suas roupas, e
aparentemente foi nesse momento que voltaram a vestir os seus hábitos
religiosos ou, pelo menos, as capas brancas. Enquanto subiam, com as mãos
amarradas às costas, "um grande número de mulheres, a quem a comunidade
tinha ajudado de mil maneiras, as insultava, agitando os braços e gritando:
"Está muito bem! Acabem com elas, com essas bocas inúteis! Bravo, muito
bem!".
O cortejo, escoltado por um
gendarme e dez dragões da cavalaria, só se deteve em Senlis, no meio da noite,
para troca de cavalos e rendição da guarda. Chegaram a Paris no domingo, 13 de
julho, por volta das três ou quatro da tarde. No pátio da Conciergerie,
fizeram-nas descer aos empurrões, pois continuavam a ter as mãos atadas. A Irmã
Carlota da Ressurreição que, aos seus 78 anos, só podia andar de muletas, foi
simplesmente lançada para fora da carroça. Depois de uns minutos de
imobilidade, conseguiu levantar-se, som o rosto todo ensangüentado, e disse aos
guardas: "Creiam-me, não lhes guardo rancor por isso. pelo contrário,
agradeço-lhes que não me tenham matado, porque se tivesse morrido às vossas mãos,
não teria a dita e a glória de chegar ao martírio".
"A Conciergerie não
se assemelhava em nada às restantes prisões de Paris", escreve o
historiador Gustave Lenôtre. "Ali não se vive, apenas se passa. Ali se
desafiam os juízes, os verdugos, a morte; já nada intimida. É um tumulto
contínuo, um estado febril, uma agitação perpétua; os recém-chegados cruzam-se,
nos corredores, com os que saem para o cadafalso.
"No setor das mulheres, há
mais calma, mas nem por isso se deixa de rondar a morte. O local é infecto; um
labirinto de corredores tortuosos; uma grade sólida a cada vinte passos;
escadas de pedra subindo em caracol por entre a espessura das paredes; abóbadas
em ogiva; e, por todo o lado, camas, enxergões de palha lançados sobre as
pedras. Nada de refeitório: apenas umas mesas toscas aqui e ali".
Foi nesse "depósito de
cadáveres" que as carmelitas passaram quatro dias à espera do julgamento.
Um companheiro de prisão, o católico Blot, que exercia diversos pequenos
ofícios e por isso dispunha de uma certa liberdade de ir e vir dentro do
prédio, conta que as ouvia rezar os ofícios todas as noites, por volta das duas
da manhã. Foi ele também que conseguiu passar um pedaço de papel e um pouco de
carvão à irmã Luísa de Jesus, na véspera da festa de Nossa Senhora do Carmo. A
religiosa usou-os para escrever um comovente plágio da Marselhesa, hino da
revolução:
Entreguemo-nos à alegria
que o dia da glória chegou.
Longe de nós toda a covardia
ao vermos o estandarte que
chegou.
Preparemo-nos para a vitória,
marchemos todas para a conquista
sob as bandeiras de um Deus
moribundo...
No dia 17 de julho, às nove da
manhã, foram conduzidas à Sala da Liberdade, onde deviam ser julgadas
juntamente com outros 19 acusados de diversas procedências. O Tribunal Revolucionário
compunha-se de três juízes e nove jurados. O promotor público,
significativamente chamado "acusador", era Fouquier-Tinville, célebre
pela sua eficiência em obter condenações à morte, pois atuava em diversos
processos simultâneos nas Salas da Liberdade e da Igualdade. Quando chegasse o
momento de as acusadas se defenderem, Tinville se ausentaria para a sala ao
lado: afinal de contas, tudo não passava mesmo de uma simples pantomima. A ata
da acusação e da condenação eram pré-impressas, e o escrivão não costumava
dar-se a grandes trabalhos para corrigir o que lá constava; aliás, não se ouviu
nenhuma testemunha nem nenhum advogado. Em suma, é como diz o provérbio:
"A hipocrisia é o tributo que o vício presta à virtude".
"Comenta-se — escreve a
Irmã Maria da Encarnação — que quando as nossas madres foram introduzidas no
Tribunal, a Irmã Maria Henriqueta (da Providência) Pelras, ao ouvir que o
acusador público lhes chamava de fanáticas, disse-lhe: "Poderia dizer-nos,
cidadão, que entendeis por essa palavra, fanático?" O promotor, irritado,
respondeu-lhe com uma torrente de insultos. A nossa irmã, nem um pouco
desconcertada, disse-lhe num tom digno e firme: "Cidadão, é vosso dever
responder e dizer-nos o que entendeis pela palavra fanático".
"Entendo por essa palavra — respondeu Fouquier-Tinville — o vosso apego a
crenças pueris, às vossas sórdidas práticas religiosas". A Irmã
Henriqueta, depois de lhe ter agradecido, voltou-se para a Madre priora:
"Minha querida Madre e minhas irmãs, acabais de ouvir o acusador.
Felicitemo-nos, alegremo-nos com a alegria do Senhor por morrermos pela causa
da nossa santa religião, da nossa fé, da nossa confiança na santa Igreja
Católica e Romana".
O longo e tedioso libelo de
acusação repetia o que já conhecemos. Terminava assim: "Quanto às
ex-religiosas carmelitas Lidoine, Touret etc., constituem tão somente um
conjunto de rebeldes sediciosas, que alimentam nos seus corações o desejo e a
esperança criminosas de ver o povo francês posto novamente a ferros sob o jugo
dos seus tiranos e submetido à escravidão dos padres sanguinários e
impostores."
Pelo visto, o regime da
liberdade de consciência não tolerava nem "desejos" nem
"esperanças", mesmo que fossem apenas "alimentadas nos
corações".
Passou-se à "defesa",
isto é, ao interrogatório das acusadas pelo presidente do Tribunal
Revolucionário. A líder das "rebeldes sediciosas sedentas de sangue"
ainda procurou assumir sozinha a responsabilidade por todos os pontos de que
eram acusadas e livrar as suas irmãs.
— Sois acusadas de ter escondido
no vosso convento armas para os emigrados — disparou o presidente do tribunal.
A priora tirou um crucifixo que
trazia sobre o peito:
— Estas são as únicas armas que
tivemos na nossa casa, e nunca poderei provar que tenhamos tido outras.
— Mantivestes correspondência
com os emigrados e fazíeis chegar-lhes dinheiro.
— As cartas que recebemos eram
do capelão da nossa casa, condenado pelas vossas leis à deportação. Essas
cartas não contêm senão conselhos espirituais. Além disso, se essas cartas
constituem um delito para vós, esse delito recai unicamente sobre mim, e de
forma nenhuma sobre a comunidade, à qual a nossa Regra proíbe qualquer tipo de
correspondência, mesmo com os parentes mais próximos, sem permissão da
superiora. Sou, portanto, a única a quem deveis aplicar a pena: as minhas irmãs
são inocentes.
— Elas são tuas cúmplices.
— Se elas são minhas cúmplices,
de que podeis acusar as nossas duas porteiras?
— De que? Não são elas mandadas
tuas para levar as cartas ao correio?
— Mas, se elas ignoravam o
conteúdo das cartas e não sabiam para onde eram enviadas? Além do mais, a sua
condição de assalariadas obrigava-as a fazer o que lhe mandavam.
— Cala-te!d Era dever delas
prevenir a Nação.
E assim por diante. Finalmente,
o júri delibera durante uns minutos e manda ler a ata de condenação:
"Estão convictas de se
terem feito Inimigas do Povo e de terem conspirado contra a sua soberania, a
saber: [após os nomes de cinco outras pessoas, com os motivos de condenação,
enumeram-se os das religiosas:] as senhoritas Croisy, Trézelle, Hanisset,
Lidoine, Pellerat, Thouret, Piedcourt, Brideau, Brard, Chrétien, Dufou,
Roussel, Vézotal, Meunier, Catherine Soiron, Therèse Soiron [**], todas
religiosas carmelitas, por realizarem reuniões e conciliábulos
contra-revolucionários, manterem correspondências fana'ticas, conservarem
escritos liberticidas; [seguem-se os nomes de outros nove condenados]. O
Tribunal, depois de ter ouvido o Acusador Público no que diz respeito à
aplicação da lei, condena à pena de morte todos os acima mencionados. [...]
Esta sentença será executada no prazo de vinte e quatro horas na praça pública
desta cidade, chamada Barrière de Vincennes".
Eram 17 horas. A terrível
pressão de um dia inteiro passado sob tensão, as esperas intermináveis em
corredores e ante-salas, o calor abafado e opressivo, sem um momento para tomar
alguma coisa, tudo isso pareceu cair-lhes das costas, substituído pela
cristalina certeza das decisões definitivas. As dezesseis — conta Maria da Encarnação
— escutaram a leitura da sentença "com serenidade e alegria nos seus
corações". Somente Therèse Soiron teve um desfalecimento, e a Madre pediu
um copo de água para reanimá-la.
A Madre — mãe — lembrou-se de
vender a um dos carcereiros um velho abrigo de uma delas e, com esse dinheiro,
conseguiu que trouxessem uma xícara de chocolate quente para cada uma.
Despediram-se do seu amigo Blot
"com os rostos radiantes de alegria". Ao ver que chorava,
disseram-lhe: "Que vos acontece, querido senhor, para chorardes assim?
Deveríeis antes sentir-vos feliz por ver-nos
chegar ao termo dos nossos males. Rezai muito por nós ao Senhor e à Santíssima
Virgem, para que Eles se dignem assistir-nos nestes últimos momentos da nossa
vida; e nós prometemos orar por vós assim que tivermos a alegria de chegar ao
céu."
Num canto do pátio, a Madre
cuida de preparar as suas irmãs para a guilhotina, não seja que os carrascos
tenham de fazê-lo: tira-lhes a touca que cobre a cabeça, deixando o pescoço
exposto, e puxa-lhes as vestes para trás. Blot ainda insiste em abraçá-las uma
por uma enquanto sobem, com as mãos atadas às costas, às duas carretas que
devem conduzi-las a Vincennes, junto com os outros 24 condenados nesse dia. Por
volta das dezoito horas, os carroções saem com grande estrépito pelos portões
do pátio, rumo à Praça do Trono.
[*] "Le froid mangera
les insectes, des jacobins toutes les sectes", etc. Esses versos
estavam incluídos numa carta dirigida à Irmã Eufrásia por um certo Mulot de la
Menardière, um tipo originalíssimo que participara inicialmente de umas
manifestações anticatólicas, mas acabara por converter-se. Suspeito de ser um
sacerdote refratário, foi processado e executado junto com as carmelitas. No
início, revoltou-se contra Deus, mas, já no carroção que os conduzia a todos a
Paris, a priora Lidoine acalmou-o e preparou-o para bem morrer.
[**] Como se vê, vários nomes
estão errados por faltas ortográficas do notário.