Carlos d’Áustria. Quem tem medo do beato?
Dr. Rafael Vitola Brodbeck
Pressionado por Napoleão, o
Imperador Francisco II de Habsburgo abdicou do trono
do Sacro Império Romano Germânico, o que fez surgir os Estados alemães
setentrionais independentes, logo reagrupados na Confederação do Reno e, mais
tarde, no Império Alemão, o II Reich do Kaiser e de Bismarck. A Áustria, terra
natal da Casa de Habsburgo,
converteu-se, com o apoio do sul da Alemanha e das possessões italianas
e balcânicas do antigo Sacro Império, na sucessora deste. O novel Império
Austríaco erigia-se em continuador da história e das
tradições daquele que o laicismo napoleônico pretendia destruir.
Como do Império de Carlos Magno
broto o de Otão I – governado, a partir de 1438,
pelos austríacos Habsburgo –, do último, fragmentado,
nasceu o que viria a encarnar, como os precedentes, os valores cristãos e
humanistas, e, apesar dos percalços, dos absolutismos, e dos erros comuns a
qualquer agrupamento social, o passado de glórias medievais. O Sacro Império e
o Império Austríaco, ambos sob os Habsburgo, seriam
símbolos da ordem celeste no campo secular.
Exatamente por isso, as mesmas
forças revolucionárias – Napoleão foi o responsável pela internacionalização do
laicismo francês de 1789 – que destruíram o Sacro Império, mancomunaram-se,
finda a I Grande Guerra, para a supressão do Império Austríaco, que lhe tomou o
lugar. O ódio à Áustria tradicional era herdeiro da aversão ao I Reich
inaugurado por Otão.
Na realidade, o combate mais profundo se travava contra a Fé Católica, protegida primeiro pelo Sacro Império, depois, com a queda deste,
pelo Austríaco. Aproveitaram-se os laicistas
das culpas do governo (não do Estado) contra as minorias eslavas para decretar
o fim de uma dinastia.
Ressaltando o papel do último
Imperador da Áustria, João Paulo II o beatificou em 2004. Carlos
I de Habsburgo, católico fidelíssimo ao Papa, de
vigorosa vida de oração e senso de apostolado, não só cultivou heroicamente as
virtudes em um tempo dos mais confusos e decisivos para a Cristandade – em que
ruíram, além do católico Império Austríaco, o protestante Império Alemão
(sucessor da Alemanha desunida por ocasião da queda do Sacro Império), e o
ortodoxo Império Russo dos czares –, como se impôs contra os desmandos e abusos
de seus ministros. Estes, interessados em continuar a aliança com a
Alemanha e a guerra contra o restante do Ocidente para alargar seu sufocante
despotismo sobre a Europa, isolaram Carlos, seu monarca, por influência de
Bento XV, Papa da época, desejava cessar os combates. Percebeu o Imperador que
os motivos da luta não eram justos e sua consciência cristã, formada aos pés do
Santíssimo Sacramento, tencionou, de um modo que, ao mesmo, não sacrificasse
sua soberania e fosse o mais prudente possível, acabar com a I Guerra Mundial.
Na prática, os opositores, que ocupavam o governo de seu próprio país, o
apeariam do trono, aliando-se aos liberais, que não toleravam uma Áustria sacral, pujante e militantemente católica. O fim do Império
dos Habsburgo tornou-se, assim, um duro golpe nos
direitos da Igreja e da paz, e um decisivo passo para, abatida a fiel casa
dinástica, popularizar-se a cartilha iluminista na Europa do pós-guerra.
Os que forçaram a queda do Sacro
Império e explodiram a Áustria monárquica são hoje os adversários da futura
canonização de Carlos I, inventando legendas negras e atribuindo-lhe a pecha de
belicista, autoritário e culpado pela deflagração
mundial. Nada mais equivocado – é o que afirmam historiadores sérios e descomprometidos
com as ideologias da moda, como Giuseppe Dalla Torre,
reitor da Universidade Maria Ssma. Assunta,
de Roma, que atribui à opinião pública anticlerical a
orquestração contra a santidade do Imperador: “uma opinião pública”,
acrescenta, “que foi substancialmente a mesma que impediu Carlos de levar a
cabo seus projetos de paz do exterior e de reformas dentro do império
austro-húngaro, e que o conduziu à perda do trono.” (Zenit,
7/1/05)
A oposição à beatificação de
Carlos I é resultado do ódio à fé e à Europa profunda, da ação laicista e anticristã contra o Estado católico por
excelência que era a Áustria, o qual é urgente que seja restaurado (pela
evangelização da sociedade e recuperação dos valores próprios e naturais de seu
povo). A santidade também pode ser alcançada pelos soberanos, e os Estados, se
desejam representar, com legitimidade, as sociedades que neles se inserem, não
devem se furtar à benéfica influência da fé popular. É a isso
que os inimigos dos Habsburgo e do Beato
Carlos, ontem como hoje, tanto se opõem.