Cristeros

 

(extrato de "Lendas Negras da Igreja")

 

 Vittorio Messori

(Recolhido pelo Prof. Dr. Rafael Vitola)

 

 

Lê-se (e se escuta) todo tipo de coisas sobre o Quinto Centenário do descobrimento da América.

 

O aniversário gerou um rio de palavras, no qual se mesclam verdades e lendas, intuições profundas e ordens superficiais. O que mais entristece é a atitude de certos religiosos -sobretudo do hemisfério norte, europeu e americano- que, apesar da queda repentina daquele marxismo que tinham abraçado com entusiasmo de conversos, seguem aplicando suas falaciosos e desastrosas categorias interpretativas. Até há frades e monjas que publicamente criticam os missionários cristãos por terem destruído essas bonitas idolatrias precolombianas, esses fetichismos ferozes que -é o caso dos astecas- tinham como base indispensável o sacrifício humano coletivo. Em sua opinião, possivelmente, teria sido muito melhor que estes povos não tivessem entrado nunca em contato com essa mania perigosa de seus irmãos de então de considerar importante o anúncio de Cristo e do Evangelho.

 

Mas no conjunto do insosso, falso e não cristão (embora defendido por quem se apresenta como «cristão», e mais que qualquer outro, pois se chama a si mesmo «defensor dos oprimidos»), destacam algumas publicações que merecem nossa atenção.

 

Entre outras, a tradução, publicada por Are, da obra do Alberto Caturelli, eminente professor de Filosofia na universidade argentina de Córdoba. O livro -com o título O novo mundo redescoberto- é uma extraordinária mescla de metafísica, história e teologia: o resultado é uma obtida e esclarecedora reflexão, porque analisa o que aconteceu as Américas em sintonia com uma «teologia da história», da qual carecem os crentes há muito tempo, com o resultado de fazê-los insignificantes.

 

É um destino frente ao qual Jean Dumont também tenta reagir, com seu pequeno, denso e nervoso livro, provocativamente «católico» já no título: O Evangelho nas Américas. Da barbárie à civilização. A tradução italiana é de Edizioni Edieffe, a mesma editora que publicou a atrevida tradução do panfleto sobre a Revolução Francesa do mesmo Dumont (de que falaremos mais adiante), e o implacável O genocídio francês de Reynald Secher.

 

É Jean Dumont quem recorda o caso do México, muitas vezes esquecido, aos «novos» católicos em veia masoquista, a esses crentes que julgam a epopéia do anúncio da fé em terras americanas só como uma guerra de massacre e conquista, disfarçada de pseudo-evangelização.

 

Trata-se de acontecimentos recentes, de uns decênios atrás, que entretanto parecem enterrados sob uma cortina de esquecimento e silêncio. Aqui estão padres e frades nos contando pela enésima vez as atrocidades, cerstas ou presumidas, dos conquistadores do século XVI, e discretamente, ao mesmo tempo, de maneira obstinada, o silêncio quanto aos cristeros do século XX. Um silêncio não casual, porque precisamente os cristeros, com sua multidão de mártires indígenas, desmontam o esquema que dá por forçada e superficial a evangelização da América Latina.

 

Tratemos, pois, de refrescar um pouco a memória. Como já recordamos em capítulos dedicados à «lenda negra» antiespanhola, nos princípios do século XIX a burguesia criolla, i.e., de origem européia, lutou para libertar-se da Coroa espanhola e da Igreja, e ter assim as mãos livres para explorar os índios, já sem o estorvo dos governadores de Madrid e dos religiosos. É um «movimento de libertação» (mas só para os brancos privilegiados) reunido ao redor das lojas maçônicas locais, sustentadas pelos «irmãos franco-maçons» da América anglo-saxã do Norte, que precisamente a partir de agora começa seu desumano processo de colonização do Sul «latino» (Veja-se «8. Lenda negra/7», pp. 48 e ss.).

 

As novas castas no poder nas antigas províncias espanholas levam a cabo uma legislação anticatólica, enfrentando-se com a resistência popular, constituída em sua maioria por aqueles índios ou mestiços que -segundo o esquema atual- teriam sido batizados à força e desejariam voltar para seus cultos sangrentos. No México as leis «jacobinas» e a primeira insurreição católica são do período entre 1858 e 1862.

 

No início de nosso século o jacobinismo liberal se faz aliado do socialismo e do marxismo locais, de maneira que «entre 1914 e 1915 os bispos foram detidos ou expulsos, todos os sacerdotes encarcerados, as monjas expulsas de seus conventos, o culto religioso proibido, as escolas religiosas fechadas, as propriedades eclesiásticas confiscadas. A Constituição de 1917 legalizou o ataque à Igreja e o radicalizou de maneira intolerável» (Félix Zubillaga).

 

Cabe assinalar que aquela Constituição (ainda em vigor, ao menos formalmente: em suas viagens ao México, as autoridades chamaram João Paulo II sempre e só señor Woityla) não foi submetida à aprovação do povo. Que não somente não a teria aprovado, mas sim em seguida deu a conhecer sua posição: primeiro mediante a resistência passiva e logo com as armas, em nome da doutrina católica tradicional, segundo a qual é lícito resistir com a força a uma tirania insuportável.

 

Começava assim a epopéia dos cristeros, assim chamados, com desdém, porque diante do pelotão de fuzilamento morriam gritando: Viva Cristo Rei! Viva Cristo e Nossa Senhora do Guadalupe! Os insurrectos, que (igual a seus irmãos da Vendée) militavam sob as bandeiras com o Sagrado Coração, chegaram a desdobrar 200.000 homens armados, apoiados pelas Brigadas Bonitas, as brigadas femininas para a sanidade, a subsistência e as comunicações.

 

A guerra foi travada entre 1926 e 1929. E se ao final o governo se viu obrigado a aceitar um compromisso (e os bandoleros católicos, não obstante os êxitos, tiveram que obedecer, contra sua vontade, à ordem da Santa Sede e depor as armas), foi porque a resistência à descristianização tinha penetrado até o fundo em todas as classes sociais: estudantes e operários, donas de casa e camponeses. Melhor dizendo, em palavras de um historiador imparcial, «não houve um só camponês que, direta ou indiretamente, não desse apoio aos cristeros».

 

Ao contrário das revoluções marxistas, que em nenhuma parte do mundo e nunca nem sequer na América Latina puderam realmente chegar ao povo (isto foi evidente, por exemplo, no Nicarágua, quando foi dado voz ao povo), a Cristiada mexicana foi um movimento popular, profundo e autêntico. Centenares de homens e mulheres de todas as classes sociais se deixaram massacrar para não ter que renunciar a Cristo Rei e à devoção pela gloriosa Virgem do Guadalupe, mãe de toda a América Latina. Morreu fuzilado, entre outros, aquele padre Miguel Agustín Pró, ao que o Papa beatificou em 1988.

 

A resistência mais heróica se deu precisamente entre os índios do México central, que tinha sido berço dos astecas e de seus cultos negros; enquanto que a casta dos «sem Deus», no governo, vinha das regiões do norte, escassamente cristianizadas por causa da supressão, no século XVII, das missões jesuítas.

 

A luta dos cristeros em defesa da fé foi uma das mais heróicas da história, e chegou, embora em formas não tão cruentas, até nossos dias. Apesar da Constituição atéia vigente no México desde 1917, possivelmente em nenhum outro lugar João Paulo II teve uma acolhida de massas mais sincera e festiva. E nenhum santuário do mundo é tão visitado como o do Guadalupe.

 

Como explicam esta fidelidade os que nos querem convencer de que houve uma evangelização forçada, que se impôs a fé usando o crucifixo como um porrete?