FLÁVIO TEODÓSIO I, O GRANDE (346<380-395>)

 

2A PARTE: SUA POLÍTICA RELIGIOSA

 

(Pe Ignácio dos padres escolápios)

 

SEU CARÁCTER: Descrevem-no como virtuoso, sóbrio, trabalhador, rico e liberal que socorreu com seus conselhos e fortuna seus compatriotas. Tinha porém um temperamento colérico e precisava de muito esforço para dominar seus primeiros impulsos. Cristão de coração e piedoso, só foi batizado por causa de uma doença . Porém só quis recebê-lo de um bispo católico. Quando S. Ásculo se ofereceu para administrá-lo Teodósio pediu a ele uma profissão de fé nicena. Poucos dias após ter recebido o batismo, o Imperador ficou livre da sua doença.  Da sua piedade temos o fato de que quando Máximo se apoderou de todo o Império Ocidental expulsando Valentiniano, Teodósio esteve na dúvida de se devia declarar a guerra ao usurpador. Então mandou consultar S. João de Egito, famoso anacoreta que vivia na Tebaida e cuja fama se alastrava pelo Oriente. O santo assegurou ao imperador que ele triunfaria nessa guerra justa e com pouco derramamento de sangue. Apesar da inferioridade numérica, Teodósio enfrentou seu rival. Várias batalhas, mas bem escaramuças, se sucederam, e em cada uma delas algumas legiões desertavam do campo de Máximo, unindo-se ao verdadeiro Imperador. Máximo, abandonado e despojado de suas insígnias reais, foi decapitado pelos soldados. De Teodósio se diz que costumava dizer: Frente a um problema concreto, busca uma solução concreta, se existe. E resolverá o problema. Se a solução não existe, então do que não existe não faças um problema

 

OS JUDEUS: Com Constantino as restrições foram poucas: Era um delito passar do cristianismo ao judaísmo, se proibia aos judeus circuncidar seus escravos cristãos e protegia os conversos ao cristianismo da vingança de seus correligionários e somente aos rabinos tinha proibido certos ofícios públicos. Constâncio acrescentou uma nova lei : pena de morte para matrimônios entre judeus e cristãos. Juliano os favoreceu querendo tê-los como colaboradores na Mesopotâmia na guerra contra os persas e decretou a reconstrução do templo de Jerusalém que foi impedida por uns fogos que apareceram no local. Sob Graciano e Teodósio encontraram a proteção do trono.

 

OS HEREGES: Teodósio, filho de uma família cristã ocidental professava a fé do Homousios nicena, ao contrário dos soberanos orientais de tendências arianas. Em 380 junto com Graciano e Valentiniano II publicou o famoso decreto, ordenando seus súditos professar a religião cristã, a fé que era ensinada pelos dois bispos católicos da época: o pontífice(!) de Roma [S Damaso]  e o bispo de Alexandria, porque o bispo de Constantinopla era ariano. (Por isso temos uma razão par afirmar que o bispo oriental de Bizâncio não pode ser considerado como coluna da Igreja). Eis o decreto ou Constitutio CUNCTOS POPULOS de 380 que traduzimos:  Queremos que todos os povos aos  quais rege a moderação de nossa clemência, se incumbam em tal religião que declara que o santo Pedro trouxe a Roma, religião por ele instituída,  que seguem Dâmaso o Pontífice (!)e Pedro de Alexandria bispo, varão de apostólica santidade. Isto é: que segundo a disciplina apostólica e  doutrina evangélica creiamos na única deidade do Pai do Filho e do Espírito Santo, sob uma igual majestade e uma piedosa trindade. Seguindo esta norma, mandamos que se dê o nome de cristãos católicos aos seguidores da mesma , julgando aos restantes loucos e insensatos os que mantêm a infâmia de dogma herético, primeiro por defesa divina e depois por impulso nosso, que recebemos da vontade de Deus. Saibam todos que não deve aparecer ocasião alguma para os heréticos de lugar de seus mistérios nem de exercitar loucura de sua demência, (...) celebre-se em todas partes o único nome do sumo Deus e sempre seja mantida a fé nicena pouco antes pelos antepassados entregue (325) (...) Esta afirmação de fé nicena e o verdadeiro culto da religião católica devem ser admitidos (..)da qual corretamente com a palavra ousia  se diz pelos crentes.(...) Proibimos como ilícitas todas as congregações heréticas dentro das cidade;s se alguma broteja facciosa for intentada, mandamos que sejam dos muros das cidades rejeitados, para que em todas partes existam bispos ortodoxos que mantenham a fé nicena. Seguindo o decreto antes mencionado, tão pronto como chegou a Constantinopla expulsou os arianos da cidade entre eles o bispo Demófilo e colocou no seu lugar S. Gregório de Nazianza. Já em janeiro de 381 o prefeito da cidade tinha fechado todas as igrejas arianas e expulsado seus ministros, decretos que Teodósio estendeu aos maniqueus.e outros heréticos. Sozomenos diz que as severas penas de suas leis eram mais para amedrontar do que para punir. Nesse mesmo ano celebrou-se o Concílio de Constantinopla I como uma base de reconciliação entre arianos e católicos, mas sem resultados positivos

 

COMENTÁRIO:Vemos como por causa das conversões em massa ao cristianismo se proíbe primeiro o uso de outras religiões não cristãs. Segundo, que são tratados como heréticos os que não seguem a fé nicena. Terceiro, que o decreto não provém de Teodósio como geralmente se afirma, mas antes dele estão os nomes de Graciano e Valentiniano, sendo um decreto comum aos três augustos. Finalmente é de notar que Dâmaso não é um bispo qualquer mas PONTÍCICE. Deve se comparar o decreto com afirmações como: Teodósio endureceu as penas contra os hereges, proibiu os oráculos, os sacrifícios e os templos. Porém, vejamos: Constantino proíbe a magia. E trata os adúlteros como ladrões com gravíssimas penas. Impõe o descanso domincal. Juliano impõe o paganismo como religião de Estado. Os cristãos são expulsos do exército. Igrejas são queimadas em Damasco e Beirute , bispos são desterrados e Baco foi instalado em algumas basílicas cristãs. Valentiniano em 372 proíbe os maniqueus de se reunirem em Roma sob pena de morte, exílio e confiscação de bens. Em 372 condena os bispos donatistas. Proíbe sob pena de morte matrimônios mistos entre romanos e germanos. Valente: Como ariano persegue os católicos. A tradição atribui a ele a morte de 80 mártires afogados no mar (370). Desterra Atanásio, o bispo católico de Alexandria. Graciano confisca os bens das Vestais e dos templos de Roma.. Retira do senado da cúria a estátua da Dea Victória.. É co-autor junto com Valentiniano e Teodósio do decreto Cunctos Populos, contra arianos e pagãos..

 

OS PAGÃOS: Sob Graciano e Teodósio os cidadãos romanos se converteram em massa ao cristianismo. Muitos talvez só para evitar prejuízos; porém os filhos destes conversos de conveniência receberam uma educação cristã e eram católicos sinceros. O arianismo decaiu rapidamente. Alguns arianos se tornaram católicos, outros adotaram religiões menos perseguidas, especialmente o maniqueísmo e outros decidiram abandonar o império e pregar o arianismo ente os germanos. Por isso, aceitando o cristianismo pregado pelo bispo Ulfila, os godos aceitaram a versão ariana do cristianismo porque era mais fácil para a sua mentalidade conceber um Cristo como um líder tribal humano no lugar de um deus, ao contrário dos romanos acostumados a adorar deuses de carne e osso na figura do imperador. Em 391 proclama uma sentença mortal contra o paganismo: proíbe visitar os templos, venerar as estátuas, acender lamparinas aos penates [deuses do lar] e qualquer tipo de sacrifício aos deuses até os domésticos. Toda casa em que tenha ardido o incenso será considerada propriedade do fisco. As condenações contemplam diversas penas segundo a consideração do sacrilégio por elas contemplado. Ordena os curiais [funcionários subalternos da justiça] denunciar qualquer tipo de prática pagã que observassem, castigando inclusive sua falta de zelo com multas. Simmaco, Flaviano e todos os pagãos que durante seu enfrentamento com Ambrósio tinham gozado de cargos e dignidades, foram despojados dos mesmos. O paganismo estava sentenciado e o Império reduzia suas fronteiras, porém Teodósio parecia mais preocupado por impor a religião cristã de grado ou por força do que assegurar a paz tanto interior como exterior do Império. O nome de Teodósio está ligado a uma das grandes basílicas de Roma, a de S. Paulo Extramuros, que historiadores têm como totalmente obra de Teodósio e de seus filhos, filha e neto. Teodósio rodeia-se de uma corte de parentes hispânicos em Constantinopla, cujo personagem central era seu tio Materno que teve um poder quase total. Ocupado Teodósio na guerra contra os persas, deixou em Materno a execução da política religiosa. Foi nomeado prefeito do Pretório de Oriente, uma espécie de lugar-tenente das províncias orientais.Tendo sua residência no Egito ordenou, animado por sua esposa Acantia, a destruição dos templos de Edessa e Apamea (norte da Síria) assim como bom número de capelas e santuários no Egito. Nesta época de novo houve um conflito entre a comunidade cristã e os pagãos do Museion. Em 389 o templo de Serapis [o Zeus supremo dos egípcios após a conquista dos gregos, muito relacionado com a magia e talvez seja esta uma se não a razão principal de sua supressão] em Canopo (Abau-Qir) ruiu. Os sentimentos chegaram a um máximo em 391 quando Teodósio decretou a destruição do templo de Serapis em Alexandria,o último refúgio pagão onde estes resistiram um assédio de várias semanas.. Foi o bispo Teófulo que com um machado rachou a estátua de madeira do Serapião da qual se dizia que se era tocada um temível tremor de terra destruiria a cidade. Mas do ídolo só saiu um batalhão de ratos. Este formava parte do palácio de Alexandro mandado construir por Tolomeo II em Alexandria onde estava a famosa biblioteca, cópia da ateniense de nome Mouseion de onde recebeu o nome a famosa biblioteca  de Alexandrina com mais de 500 mil manuscritos. Afirmava-se que não havia manuscrito no mundo em qualquer biblioteca que não pudesse ser achado também no Mousion. Era além disso um centro de investigações e ensino, um santuário e um albergue de eruditos. Na verdade, mais que os oficiais do Estado contribuíram a estas perseguições bispos e monges exaltados. Por isso 14 anos mais tarde foi assassinado o matemático Hypatia , último mestre a lecionar no Mouseion pagão. Os monges eram mais fanáticos do que os oficiais imperiais como vemos na disputa entre Teodósio e Ambrósio narrada acima no ano 388. Como nota curiosa podemos narrar que o corpo de Materno foi levado num cortejo  fúnebre acompanhado a pé por sua viúva Acantia desde Constantinopla até a Espanha.

 

A IGREJA CATÓLICA: Favorecida com muitos privilégios fiscais e judiciais encontrou-se por cima do direito comum. Os clérigos se beneficiaram com a dispensa de impostos. A jurisdição dos bispos em matéria civil estendeu-se consideravelmente. As igrejas gozaram do direito de asilo, exceto para os devedores do fisco. E no penal e judicial os sacerdotes e clérigos tinham seus juizes próprios. Os hereges foram sancionados em 395 com a privação de direitos civis. A tarefa empreendida por Constantino de introduzir no direito os princípios evangélicos como leis foi continuada por Teodósio contra delação, difamação, usura, tráfico de crianças abandonadas, e vícios contra natura. O conjunto constitui o código Teodosiano mais tarde chamado de Legislação Áurea. Também houve medidas generosas como a proibição de executar condenados durante a quaresma e a anistia pascal. O nome de Teodósio está ligado à construção de uma das grandes basílicas de Roma, a de S. Paulo Extramuros, que historiadores dizem ser totalmente obra de Teodósio e de seus filhos e netos.

 

AELIA FLACCÍLIA: Era o nome da esposa de Teodósio, segundo tradição, filha de Claudio Antonino, prefeito das Gálias e cônsul em 382. Casou com Teodósio em 376, e foi mãe de Arcádio e Honório futuros imperadores e de Pulquéria que morreu com tenra idade pouco antes da mãe. Era, como seu esposo, zelosa promotora da fé nicena. No trono ela foi um exemplo vivo de virtudes cristãs, especialmente de caridade. S. Ambrósio  fala dela como uma verdadeira alma de Deus. No seu panegírico S. Gregório de Niza a descreveu como uma parceira para toda obra boa, ornamento do império, líder da justiça e imagem da beneficência, uma coluna da fé e uma mãe para os indigentes. Ela cuidava pessoalmente dos aleijados e diz-se dela que afirmava: O dinheiro que eu distribuo pertence à dignidade do Estado, mas eu ofereço para a dignidade do Estado meus serviços pessoais  ao Dador..Na igreja grega ela é venerada como santa, sendo sua festa o 14 de setembro.

 

AS ESTÁTUAS: Em 387 um imposto extraordinário ensangüentou as ruas de Antioquia(Síria). A cúria foi assaltada, o prefeito arrastado e maltratado e destruídas entre gritos selvagens as estátuas do imperador, da imperatriz e dos seus filhos. Em Constantinopla todos falavam de incendiar a cidade que Teodósio rejeitou mas mandou investigar e proceder com rigor ao castigo.  Muitos dos rebeldes procuram refúgio nas igrejas enquanto outros fogem da cidade. O Patriarca Flaviano dirige-se à corte demandando perdão. O povo está aterrado.É então que Crisóstomo durante vinte dias se dirige ao povo exortando-o à penitência e a se defender contra as insinuações criminosas dos agitadores. Como Crisóstomo caísse enfermo, é um magistrado pagão que durante dois dias acalma as turbas. No seu primeiro discurso após a doença, Crisóstomo recrimina o povo: ¨Tenho vergonha ao pensar que foi necessária a palavra de um pagão para reanimar a esperança de um povo cristão¨. Flaviano retorna com o perdão completo.

 

TESSALÔNICA: No ano 388 quando na primeira missa, ao entrar vitorioso da guerra contra Máximo, sendo Ambrósio bispo de Milão, Teodósio intentou sentar-se no presbitério, como era costume em Constantinopla. Ambrósio o expulsou do mesmo. Mas o que se considera máxima humilhação do poder imperial e triunfo da igreja, deu-se com motivo do caso da matança de Tessalônica. Teodósio tinha publicado um decreto que condenava à morte os vícios contra natura (homossexuais). A homossexualidade e a pederastia eram vícios que de antigo estavam admitidos na sociedade grega. Os guerreiros espartanos podiam casar-se ao cumprir os 30 anos de idade, mas não tinham o direito a dormir em seus lares com suas esposas e por isso dormiam com os guerreiros mais jovens até a idade de sua licença. A pederastia era considerada como o melhor exemplo de companheirismo entre guerreiros, pois transmitia valor e coragem. Daí seu nome de amor grego, que se dava entre um adulto maduro o erastés [amante] e um adolescente entre 15 e 18 anos, o erômeno [amado]. Dos romanos sabemos como Adriano, o imperador, teve como amante Antinoo a quem, depois de matá-lo, sangrando-o, mutilou e dedicou um templo no Egito.  Aplicando a lei, o chefe da infantaria, Buterico, um godo, encarcerou em Tessalônica (Grecia) um auriga (condutor de quadrigas de cavalo) do circo que gozava de grande popularidade e ganhava tanto como os melhores futebolistas atuais. Houve uma revolta popular e, durante a mesma e em virtude do ódio aos soldados bárbaros, foi morto o general Buterico. Ao ter conhecimento disso, Teodósio, no momento em Milão, ordenou um massacre do povo quando estivesse reunido para o circo. É verdade que revogou a ordem, mas esta chegou tarde e, na repressão, morreram 300 pessoas segundo alguns ou  3 mil que outros elevam a 7 mil. Pela mesma época o imperador Valentiniano I fazia queimar ante ele os cortesãos que caiam em desgraça ou os jogava como comida para suas duas ursas favoritas, Migalha de Ouro e Inocência. Ambrósio apartou da comunhão a Teodósio o único imperador cristão, batizado antes de morrer. Durante 8 meses a tensão se manteve, até que Teodósio, durante o Natal desse ano, vestido com um saco de penitência, foi perdoado.  Teodósio afirmará mais tarde: sem dúvida, Ambrósio me fez compreender pela primeira vez o que deve ser um Bispo. Desde então o poder eclesiástico de julgar os poderes públicos, não só em questões dogmáticas mas também por seus erros públicos, prevaleceu até os tempos modernos. Se critica Teodósio por dar uma ordem brutal, mas vejamos alguns exemplos de imperadores e chefes que não são criticados tão duramente. Alexandre magno afogou cm suas próprias mãos seu irmão Clito porque este criticou o fato de Alexandre querer ser adorado como Deus. O cônsul Mário(+86 aC) após a sublevação dos escravos na Sicília crucificou 20 mil deles como escarmento para a população. Cear e Pompeio dizimaram na guerra civil o senado, de modo que tiveram que admitir os eqüestres como senadores. Cláudio, que não foi apontado como especialmente cruel em pouco mais de 10 anos condenou à morte 30 senadores e 300 equestres acusados de traição.São um exemplo dentre os mais respeitados líderes do tempo. Ricardo I o Coração de Leão mandou degolar 3 mil prisioneiros sarracenos entre eles mulheres e criançasapós a toma de Acre, porque Saladino se demoravaempagar o resgate dos mesmos. E ninguém o reprovou por isso.

 

NA MORTE: Parece que a causa foi uma hidropisia. Tomando conhecimento de seu delicado estado de saúde Ambrósio acorreu junto a seu leito de morte. O Imperador agradeceu-lhe tudo quanto havia feito por ele e pediu que continuasse a fazer o mesmo por seus filhos, os quais confiou a seus cuidados. O santo respondeu: Senhor, espero que Deus lhes dará, como deu a vós, um espírito reto e um coração dócil;recebo com prazer o encargo que me impondes, e vós respondo não só pela instrução desses queridos filhos, como também pela sua eterna salvação. Teodósio morreu em 17 de fevereiro de 395 murmurando pidosamente as primeiras palavras do salmo 116: Dilexi quoniam audies Domine vocem deprecationis meae Amei Senhor porque ouves a voz de minha súplica.