História da Igreja Antiga
(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)
CONSTANTINO(285-337)
VIDA E HISTÓRIA: Naceu de uma mãe,
S. Helena, filha de um hospedeiro na
região da Dalmácia, hoje Yugoslávia, em 285. Foi educado na corte de
Diocleciano em Nicomedia. Em 305, ano da renúncia dos dois augustos, e sob o
domínio de Galério, viaja de forma
novelesca para reunir-se com seu pai, agora augusto, na Bretanha. Na fuga foi
ajudado pela prometida Fausta, filha de Maximiano, que lhe entregou uma
ferradura de cavalo de ouro como sinal de sorte. No caminho manda cortar o
nervo dos cavalos de posta, uma vez usados, para não ser alcançado pelos
emissários do sogro. Ao se reunir com seu pai o encontra enfermo, quando se
dispunha a castigar os pictos da antiga Caledônia, hoje Escócia. Os
pictos eram povos da Escócia em parte celtas, vizinhos pelo norte da Bretanha
romana, que coincidia com a Inglaterra atual.
306, ao morrer o pai , Constâncio
Cloro em York, é declarado augusto pelas legiões em solo
inglês. Sua nomeação é aceita por Galério,
o augusto das províncias da Asia Menor, que o reconhece só como César.
Luta em Colônia contra os reis germanos Axarico e Ragásio que, derrotados, foram entregues às feras.
307 Casa com Fausta,
filha de Maximiano, o antigo augusto do Ocidente. Este pretende matá-lo.
Mas Fausta delata o pai ao marido e no lugar de Constantino um servo dorme sob
os cobertores. Quando o assassino sai do quarto com a espada coberta de sangue
gritando: Fausta, o tirano está morto, Constantino aparece e Maximiano é
encerrado numa prisão onde pouco depois apareceu enforcado.
311 Mortos Valério e Galério, Licínio
ocupa a Grécia e Governa o Oriente
junto com Maximinino Daza. O
Ocidente está sob o comando de Maxêncio (filho de Maximiano) e
Constantino.
312 Na primaveira,
Constantino deixa o Reno, após fazer uma aliança com Licínio a quem promete a
mão de sua irmã Constança, e enfrenta na Itália Maxêncio. Tinha 40 mil homens
escassos, galos, germânicos e bretãos
contra os 100 mil, especialmente africanos, de Maxêncio. No 27 de outubro desse ano chega às portas de Roma após ter
infringido 3 derrotas consecutivas a seu inimigo no norte da Itália.
BATALHA DA PONTE MILVIO: Constantino, que três anos antes afirmava haver tido uma aparição de Apolo e que
invocava o Sol Invictus, teve antes da batalha uma visão, vista por todo o
exército. Como era costume, cada general invocou a seu deus propício. Maxêncio
consultou os livros sibilinos que lhe disseram que o inimigo dos romanos
pereceria. Constantino invocou o Deus dos cristãos, Cristo; e, em pleno dia,
pelo lado do poente, viu no céu uma cruz luminosa com estas palavras em grego touto nika, com isto vence. Nessa mesma
noite Cristo apareceu em sonhos e mandou que fizesse um estandarte com o sinal
da cruz. Esta insígnia foi o Labarum, estandarte imperial em forma de
cruz que os soldados de Constantino portaram desde então. .Os escudos de seus
soldados foram pintados com o X e P gregos entrelaçados que são as iniciais da
palavra XPistós, Cristo. No dia seguinte a batalha é uma derrota
completa de Maxêncio que perdeu a vida na ponte de barcas, ao querer fugir da
derrota. Constantino entrou triunfante em Roma.
313 De janeiro a março deste ano encontra-se com Licínio
em Milão. Este toma como esposa a
Constança, irmã de Constantino e entre os dois se comprometem a dar liberdade
aos cristãos. Temos algumas cartas entre os dois augustos com alguns
pactos e o decreto de Licínio, após a
derrota e morte de Maximino em 13 de junho deste ano, que se inicia com as
palavras : Quando Constantino Augusto e eu, Licínio Augusto... O edito
reduz tudo a uma só regra: a liberdade de religião. “Queremos que, qualquer
que deseje seguir a religião cristã, possa fazê-lo sem o temor de ser
perseguido. Os cristãos tem plena liberdade de seguir sua religião...Cada um
tem o direito de escolher e de seguir o culto que prefira sem ser molestado em
sua honra ou em suas convicções. Está nisso a tranqüilidade de nosso tempo”.
Ë o que se tem chamado de EDITO DE MILÃO. O Papa Milcíades obteve da emperatriz Fausta
o palácio de Latrão que se transformou em Basílica e residência dos
papas (a catedral de Roma), até o século 14. Como construções religiosas,
apareceram as basílicas: espaços cobertos de tetos planos, com 3 ou 5 naves e
ao redor do altar tinham o apsis (=concha) da qual se deriva o ábside,
espaço semicircular que rodeia o altar. .Junto à igreja estava o baptistérium,
ou capela batismal, a única coisa que se conserva do original de S.João de
Latrão, embora reformado.
314 Numa guerra contra seu
cunhado Licínio, Constantino se apoderou da Grécia, Ilíria(Yugoslávia) e
Macedônia, ficando Licínio com a parte da Ásia. Isto deu ocasião para que
Licínio perseguisse o cristianismo e até houve algumas execuções de cristãos
nos seus domínios.
317 O Labarum, com o monograma de Cristo, é obrigatório em todos
os exércitos e as moedas acunhadas terão o mesmo numa de suas faces. Até houve
alguma com o símbolo da cruz.
324 A raiz de um incidente de
fronteira, Constantino decidiu-se a aniquilar seu cunhado e aproveitou a
perseguição religiosa deste para se apresentar como campeão da fé, e defensor
da liberdade de consciência. Licínio foi derrotado perto de Adrianópolis (este
de Constantinopla) e suas 300 galeras afundadas na entrada dos Dardanelos
(Bósforo). Foi obrigado a se render. Constância, a esposa que era irmã de
Constantino, obteve deste a vida de Licínio. Seis meses depois sob pretexto de
conspiração, foi estrangulado por ordem de Constantino.
325 Diante da questão da
natureza e essência do Logos ao qual Jesus estava unido, celebrou-se em Nicea
o chamado primeiro concílio ecumênico (de toda a ecumene ou do império
habitado) com a presença de Constantino e de 300 bispos, a maioria do Oriente,
sendo que estavam como representantes do Papa Silvestre dois presbíteros
Vito e Vicente e dirigia como presidente Osio, o bispo de Córdova,
confessor ele, do período das perseguições.
326 Visitando Roma, Constantino
não foi bem recebido pelos cidadãos e a pedido de Fausta, sua mulher, mandou
matar Crispo o filho, acusado de querer tomar a madastra e usurpar os outros
filhos. Helena, a mãe, reprovou seu filho pelo crime cometido em seu neto, o
preferido. Constantino viu sua segunda
esposa, Fausta, como culpável e mandou
matá-la no momento do banho. Não foram estas, as únicas violências de
Constantino. Com verdadeiro desprezo da vida humana, entregou às feras os
chefes germanos derrotados, torturou até a morte 6 mil prisioneiros suevos, e
foram empregados em trabalhos forçados 49 mil cativos godos para a construção
de Constantinopla no lugar de Bizâncio, cidade consagrada à Lua. Precisamente
um raio de lua salvou-a de um ataque macedônico. Os bizantinos puderam assim ver os preparativos dos
assaltantes. A cidade gravou nas moedas a meia lua que os turcos conservaram
como emblema ao apoderar-se dela.
330 Constantinopla.
Iniciadas a obras seis anos antes no dia 11 de maio de 330 inaugurava-se a
cidade, que seria a nova Roma. Após as missas cantadas nas basílicas, uma
procissão cantando o Kyrie eleison
precedia a estátua de Constantino coberta de ouro e em cuja coroa os raios
estavam formados com os pregos da santa cruz; cruz que tinha sido encontrada
por Helena sua mãe, em Jerusalém(327) como resultado de uma peregrinação para
pagar os crimes do filho( ver ano 326).
337 Morte. Dispunha-se a lutar
contra o persa Sapor II; mas sentiu-se enfermo. Encamado e prestes a morrer,
pediu o batismo, que nesse instante
supremo era garantia de absoluto perdão para passar da terra ao céu (crença no
purgatório). Ordenou que lhe tirassem a púrpura e o vestissem com a alba branca
dos neófitos(recém batizados) e exclamou: Eis o dia pelo que tanto tempo
desejava, eis a hora da salvação de Deus esperada. Neste dia sou
verdadeiramente feliz. Vejo a luz divina. Morreu como cristão quem teve a
alma como tal, mas o cérebro de um pagão.
SUAS RELAÇÕES COM A IGREJA.
Após a sua conversão na véspera da batalha da ponte
Mílvio, Constantino se auto-definiu, como mais tarde afirmou em Niceia, o bispo
de fora. Para entender isto devemos conhecer o significado primitivo da
palavra bispo (episcopos = supervisor ou vigilante).. Aquele que cuida para que
tudo esteja bem e corra bem. Dentro da Igreja estavam os bispos, mas fora
Constantino vigiava para que os conflitos não gerassem em violências e
heresias.
A RELIGIÃO : Se as conversas e
decisões de Milão em 313 estabeleceram a igualdade entre Cirstianismo e
Paganismo, nesse quarto de século em que reinou só sobre o império,
Constantino, além de assumir o lábaro de Cristo como estandarte de suas tropas,
favoreceu o cristianismo com diversas decisões: eximiu de cargas municipais os
sacerdotes, proibiu os judeus de lapidar os que queriam se converter ao
cristianismo, deu licença de fazer testamentos em favor da Igreja, e outorgou a
concessão de jurisdição civil aos bispos. Porém em contra, conservou o título
de Pontifex Maximus. Restaurou em Roma alguns templos pagãos. Em 319 num edito sobre a arte
adivinhatória proibiu a magia, mas
permitiu certas atividades dos arúspices.. Em 335 uma lei confirmou na África
os privilégios dos flâmines (sacerdotes de Jupiter=diales, de
Marte=martiales e de Rômulo=quirinales principalmente). E quando construiu em
Bizâncio a sua cidade de Constantinopla, deixou ali edificar templos pagãos a
Ceres( = deusa da agricultura),Rea, a mãe dos deuses e aos Tyxes, gênios
titulares das cidades. Sem dúvida admitia que para muitos de seus súditos esses
antigos deuses serviam como protetores. Como entender isto? Os antigos semitas
dos quais temos muitos exemplos na História, quando tomavam uma cidade, destruíam
o templo do deus protetor da mesma e os seus sacerdotes, com o qual pensavam
estar livres da influência negativa ou maldição, e colocavam na cidade outros
deuses, os próprios, que os protegeriam. Mas com os romanos a coisa era
diferente. Conta a História que diante dos muros de uma cidade, o Imperator
(=general romano) mandou os arúspices (sacerdotes que examinavam
as entranhas para fazer presságios) perguntar qual era o momento oportuno para
assaltá-la. E imediatamente depois mandou rezar uma oração ao deus titular da
mesma dizendo que prometia, se a cidade caísse em suas mãos, edificar um templo
em Roma para nele ser venerado e assim estar livre de sua maldição, o que
geralmente se cumpria. Talvez isso explique a atitude ambígua de Constantino.
Seu Deus particular era o Cristo da cruz como o tinha visto perto de Roma. Por
isso ele fez construir um oratório com um único ornamento que era uma cruz,
ante a qual gostava de orar largamente. Dirigiu certas cerimônias como um hierofante
(= sacerdote de cultos gregos que era mestre de cerimônias) e até
compôs uma oração que ordenou aprendessem os seus soldados. Sua devoção pela
cruz desbordou quando sua mãe Helena a descobriu em Jerusalém. Mandou que se
edificassem com os melhores materiais as três igrejas, da Paixão, da Cruz e da
Ressurreição, um conjunto de monumentos
dignos de tanta maravilha, escrevendo que a razão desfalece e o divino supera
todo o humano.
OUTROS DECRETOS CRISTÃOS: Sem ferir os sentimentos dos pagãos mandou que o Domingo , antigo dies
solis (dia do sol) fosse, como sinal da ressurreição, dia de descanso. Proibiu
o suplício da cruz, e que se marcassem os condenados com ferro candente, pois a
face do homem está feita à semelhança da beleza divina. Reorganizou a família e
diminuiu o poder pátrio, absoluto segundo as antigas leis. Mandou socorrer os
meninos abandonados e melhorou a sorte dos escravos, cuja igualdade moral reconheceu. Houve medidas contra o
adultério, contra o concubinato mantido por homens casados, contra o rapto de
mulheres, contra a prostituição. As leis de costumes foram acompanhadas por
terríveis castigos, de modo que reservou para os adúlteros, os corruptores, os
proxenetas (mediador nos amores ilícitos) os suplícios admitidos para ladrões e
bandidos. Exemplos: a ama-de-leite, cúmplice do rapto de uma jovem, teria a
boca cheia de chumbo fundido; devia ser queimado vivo o raptor de uma virgem.
Nasceram também no lugar das festas pagãs as festividades da Páscoa, Natal, e
Pentecostes. E edificaram-se numerosas igrejas que hoje recebem o nome de
basílicas constantinianas. Das ruas das cidades desapareceram os velhos deuses
e no seu lugar apareceram os oratórios dos santos mártires. Os nomes próprios
também cederam lugar a nomes de mártires e santos. Porém nem tudo estava correndo
bem na Igreja. Desaparecidas as causas externas de perseguição apareceram os
cismas e as heresias como veremos a
continuação.
OS GNÓSTICOS: Daniel Rops escreve uma frase
feliz: “O próprio das heresias é magnificar os elementos autênticos do
dogma, da tradição, ou da moral até o ponto de falseá-los totalmente”. Pela
sua implicância na História da Igreja e as citações que dela se fazem hoje,
vamos falar da GNOSIS. A palavra significa conhecimento. Em si era o
esforço do homem para entender o divino. Só que se esquecia que a mente humana
é limitada e tudo o que escrevamos ou digamos sobre Deus, se não tem um dado
revelado (jamais foi visto pelo homem, Jo 6,46), estará falseado em grande
parte por nossa elocubração. Um pequeno exemplo: falamos do amor de Deus. Ele é
produtivo em si mesmo dando como origem em si, interno, o Espírito Santo, e
como obra extra, o mundo e, dentro dele, o incompreensível mistério da
Encarnação. Em parte compreendemos e em parte nada entendemos como diria
Paulo(1 Co 13,12). O esforço por entender tudo leva a buscar soluções no êxtase
intelectual, como eram as soluções gnósticas, ou em comunicações mediúnicas,
como são as espíritas de nossos tempos. A crítica, ou descobre contradições, ou
observa fantasias e especulações que são fantasmas de uma realidade
inalcançável.Mas vejamos o GNOSTICISMO antigo: Ele buscava um
conhecimento mais profundo que completasse a revelação dos mistérios e até com
revelações dadas a indivíduos particulares, por meio de sua poderosa inteligência.
Com o qual se anulava o papel indispensável de Cristo e de sua Igreja. Era a
heresia do conhecimento. Os problemas que o gnosticismo queria resolver eram os
dois grandes problemas da humanidade: As origens da matéria e da vida. Como um
Deus que se diz perfeito poderia criar obras tão imperfeitas? Por isso
separavam Deus das obras da criação. Entre Ele e estas havia uma série de seres
intermediários: os EONES. Cálculos numéricos esotéricos permitiam
dividir em 365 classes estes seres cujo
conjunto formava o pleroma (=carga completa de um navio, que logo
se usou para descrever a totalidade). No meio da série um eón cometeu um pecado
tentando se igualar a Deus; mas foi lançado fora do mundo espiritual e teve que
viver com sua descendência no universo intermediário e em sua rebeldia criou o
mundo material, marcado pelo pecado. Alguns o identificaram com o demiurgo
(=literalmente artesão, ou primeiro magistrado) outros com o Javé
criador da Bíblia. O homem tinha uma faisca divina. Havia três classes entre
eles: os materiais rigorosamente perdidos, os psíquicos (=de
psiqué, alma) que por meio da gnosis podiam adquirir a salvação, e os espirituais,
almas elevadas que estavam salvos. Podemos ver certa relação com os cátaros
do século 11 e os espíritas, como o Livro de Baruch, o evangelho de S.Tomás, o
evangelho de Judas. Entre seus adeptos está Valentin que morou em Roma
de 135 a 165 e Marcion, filho de um bispo de Sínope às margens do mar
Negro, que se mostrou tão indisciplinado, que seu próprio pai o excomungou.
Policarpo o santo, o chamou primogênito de Satanás. Em Roma deu uma soma
considerável de 200 mil sextércios com o qual ganhou a consideração dos chefes
da Igreja, mas em 144, declarada sua heresia, foi excomungado devolvendo-lhe o
dinheiro. E ele então fundou uma contra-igreja. Em seu livro Antítesis, para
solucionar o problema do mal, distingue dois deuses: o demiurgo que identifica
com o Deus do AT, criador e justiceiro e o outro, o Deus do NT, o Deus do amor
com quem deveríamos identificar-nos para obter a salvação. Rejeitou os textos
sagrados e unicamente adotou Lucas e Paulo como revelados, expurgando em parte
os mesmos, coisa que também fizeram alguns reformadores do século16.Após a sua
morte em 160 praticamente a sua seita se dissolveu ou se confundiu com o Montanismo.
MANIQUEÍSMO: A Pérsia era uma
região que no ocidente estava sob o domínio dos Medos e no oriente sob o
domínio dos persas, ambos de etnia ário-índiana, formada pelo grupo de povos
que habitou nas estepes da Ásia central e Rússia meridional. O poder dos medos
foi abatido por Ciro, verdadeiro fundador do Império persa em 599 aC. Os seus
sucessores foram engrandecendo os limites do império e com Dario I chegou a
ameaçar a Grécia.(491), o que originou as chamadas guerras médicas. Célebre é a
batalha de Maratón em que os gregos chefiados por Melciades obtiveram uma
grande vitória. Diomedón, o soldado grego que levou a notícia da vitória a
Atenas, distante 42 km de donde haviam desembarcado as tropas persas e a
batalha teve lugar, morreu pelo esforço. Daí a corrida maratoniana dos jogos
olímpicos modernos. Alexandre Magno derrotou o rei persa Dario III (330 aC) e
terminou com o império. Aos Selêucidas (dinastia grega) sucederam em 246 os partos (povo do Irão)
que dominaram até 226 aC. Neste ano a dinastia Sassânida se apoderou do trono
que manteve até o 652 dC, ano em que a Pérsia foi conquistada pelos árabes,
transformando-se numa nação islâmica. A doutrina teve como religião básica
estas circunstâncias históricas. Fundada por Mani e recebeu grande influência
de ZOROASTRO. Conhecido também por Zaratustra, foi o fundador, talvez
mítico, talvez real (660-583 a C) da religião Mazdeista , que deu origem à
coleção de livros chamada de Zendavesta, segundo a qual coexistem dois
princípios eternos, Ormuz ou Ormazd, deus ou gênio supremo do bem, oposto a
Ahriman, gênio do mal e destrutor.
MANI: Também foi chamado de Manés.
Havia habitado na Pérsia (Hoje Irã) ao redor do ano 215 dC durante o império
dos Sassânidas. Inteligente e bem dotado para as línguas, era filho de um
judeu-cristão da seita dos Hellcassitas discípulos de certo Elkesai,
quem sob o império de Trajano (98-117), pretendeu ter recebido de um anjo de
100km de altura a revelação de uma rara doutrina, na qual se misturavam
observâncias judaicas, dogmas cristãos e práticas mágicas. Segundo a tradição
de seus discípulos, Mani, na idade de 24 anos, recebeu de Deus especiais
revelações e afirmou ser o encarregado de apresentar aos homens a religião
definitiva que suplantaria todas as outras. Então em viagem missionária visitou
a China, a Índia, o Turquestán e o
Tibet. O rei persa Sapor II (241), que no início o protegeu, mudou de
idéia e o perseguiu. Mani fugiu ao Turquestán. À morte de Sapor (272) voltou;
mas por poucos anos, pois teve que manter uma disputa com os sábios do reino
que o venceram e foi condenado à morte. Segundo alguns desfolhado vivo, segundo
outros na cruz. Sua pele foi enchida de palha para que servisse de troféu num
templo irânico(276).
SUA DOUTRINA: A base de seu sistema é a luta entre o bem (Ormuz)
e o mal (Ahrimán) ou entre a luz e as trevas .Os cinco elementos de Ahrimán,
trevas, barro, vento fogo e fumo, revoltam-se. Então Ormuz produz uma força
nova que se desenvolve no homem primitivo, armado com os cinco elementos puros dominados
pela luz e água que lutam contra o poder das trevas. No mundo, uma parte da luz
está misturada com as trevas: é o Jesus patibilis(passível). E outra
partes da luz não o está, como o sol e a lua: é o Jesus impatibilis
(impassícel). Daí que o Jesus impatibilis toma forma aparente (docetismo) e
ensina como se libertar das trevas: é a redenção. Porém seus apóstolos
entenderam mal a sua doutrina. Por isso Cristo envia o Paráclito prometido que
aparece na pessoa de Mani com o fim de purificar a religião. A doutrina de
Mani foi uma tentativa de esclarecer os
mistérios metafísicos (especialmente a origem do mal) em que a razão humana
percebe oposições sem solução. À semelhança dos modernos espíritas que não
encontraram solução para os problemas metapsíquicos e tiveram que multiplicar
espíritos, também Mani usa divindades e princípios opostos para solucionar a
coexistência do bem e do mal, do eterno e do transitório, do perfeito e do
imperfeito, do espírito e da matéria. A solução simplista é a coexistência
desde a eternidade de duas divindades, sempre em luta e antagonismo: Bem e Mal,
luz e trevas, Deus e diabo.
ANTROPOLOGIA: Inicia-se desde a
criação com um homem, divino e luminoso pela alma, mas opaco e inclinado ao mal
pelo corpo. A estória de Adão e Eva é contada como uma luta entre a luz do
varão que desejava obedecer a deus, e a mulher, impura, que o tentou. Por isso
ele fala das filhas das trevas opostas aos filhos de deus como em Gn 6,2, de
germens seminais caídos nos abismos celestes, de abortos que brotam das
entranhas da terra. Era um aparato científico, misturado com astrologia,
esoterismo e espiritismo, no qual também teve sua parte o panteísmo indú que
pode impressionar no seu tempo. A
história do mundo era a da luta do deus do mal , o poder das trevas, para
invadir o reino da luz. Toda a criação era o lugar deste combate, sendo ela
mesma a mistura do bem e do mal, da luz e das trevas em perpétuo conflito. O
próprio homem era divino e luminoso pela alma, mas opaco e inclinado ao mal
pelo corpo. A história d Adào e Eva era um episódio dessa luta O varão desejou
obedecer a Deus mas a mulher, impura, encarnou a tentação.
ÉTICA: A moral maniqueísta é uma
conseqüência lógica de suas afirmações. Todas as religiões anteriores, por não
discernir a dualidade de princípios, não souberam fixar umas regras absolutas
de conduta, Com Mani tudo foi mais simples: Segundo afirmavam os antigos
sacerdotes persas deve-se ajudar o Bem contra o Mal, isto é, afastar de si tudo
o que é material e diabólico, e evitar ofender a parte luminosa e divina que
existe no mudo. O canon moral consiste nos três selos que o homem virtuoso deve
aplicar sobre sua mão, seus lábios e seu seio. Pelo selo da mão se proíbe ferir
a vida, matar, fazer a guerra, o trabalho servil e fazer dano aos animais e
plantas (budismo). Pelo selo da boca estamos obrigados a dizer a verdade e
nunca comer carne ou alimento impuro, nem beber vinho. Pelo selo do seio é
proibida a obra da carne, o sexo, que cria a matéria e prolonga a existência da
vida corrompida. O matrimônio é proibido mas não a relação sexual. Quando todo
o Universo obedeça à lei dos três selos, quando de existência em existência, o
homem se tenha purificado, o deus do bem e da luz triunfaria e então viria o
fim do mundo e uma prodigiosa incandescência. Somente os perfeitos ou puros
estão obrigados aos três selos. Assim se aproximavam, no seu tempo, dos
essênios, e mais tarde dos bogomilos e
cátaros. O resto da humanidade era formada pelos ouvintes, que se aproveitavam
de uma tolerância que podia chegar a limites extremos, especialmente na vida
carnal.
CRISTOLOGIA: Mani proclamou Cristo como deus. Viu nele um
mensageiro da luz, uma força divina enviada pela Potência perfeita, para
combater contra o mal. Era a mesma luz que se tinha encarnado pela primeira vez
no homem primitivo, Adão. Agora se manifestava pela segunda vez em Jesus e
seria vista como última manifestação no fim do mundo. Porém rejeitavam o Jesus
da carne e, como os docetas, ensinavam a aparência como base de sua morte e
sofrimentos. Como Marcion rejeitavam o AT em bloco e viam no deus judaico,
Javé, um deus tenebroso.
HIERARQUIA: Copiando a hierarquia
da Igreja Católica Mani organizou a sua seita formando primeiro os doze
apóstolos, cujos sucessores deviam dirigir a sua igreja como mestres, mandando
sobre os sessenta e dois bispos e uma
multidão de sacerdotes e diáconos. Conservou do cristianismo o Batismo e a
Eucaristia e uma espécie de extrema unção com o perdão dos pecados na hora da morte
(Ver cátaros). Seus ritos eram extremamente simples, reduzidos a cantos,
orações e cerimônias ao ar livre. Havia uma festa especial no início da
primavera em honra da memória de Mani, uma vez morto este.
DIFUSÃO E RAMIFICAÇÕES: O velho dualismo satisfazia
de modo lógico e simples os desejos humanos de uma explicação metafísica da
origem do mal. Sincretizava todas as heresias cristãs e por isso a todas
respondia de modo lógico. Pensava fundir o ocidente de Cristo com o oriente de
Zoroastro. Morto em 276, suas idéias se difundiram em Roma, de tal modo que em
290 Diocleciano mandou queimar vivos os chefes de suas comunidades. A fogueira
não foi pois, invenção da inquisição. A
ética maniqueísta provocou sempre os
poderes públicos a se defender em todos os países em que sua influência foi
suficientemente importante, pois se transformou num anarquismo espiritual
próprio para desagregar os mais sólidos princípios da ética e da vida social
obrigando seus seguidores a se desligar de toda responsabilidade, deixados a seus instintos materiais. Como
compaginar uma norma que declarava igualmente abominável o ato de matar e o ato
de gerar? Como seus bispos e profetas tivessem um zelo comparável aos dos
missionários cristãos, a Igreja combateu o maniqueísmo com todas as forças. No
século V o Papa Leão o condenou. No século VII na Trácia foram chamados de
Bogomilos e no século XII deu origem
aos cátaros ou albigenses na França meridional
ÁRIO.- BIOGRAFIA: Nascido
na Líbia aderiu-se ao cisma de Melécio. Na perseguição de Diocleciano (302-05),
o bispo Pedro de Alexandria (Egito) ausentou-se da diocese, enquanto outros
bispos haviam sido encarcerados. Melécio, bispo de Licópolis, aproveitando a
confusão geral devida às ausências por desterro ou prisão dos outros bispos, tomou então posse da diocese de Alexandria.
Terminada a perseguição, Pedro ocupou a diocese, e através de um sínodo em 305
depôs o usurpador Melécio. Uma nova perseguição enviou Melécio ao desterro,
enquanto Pedro morria mártir da mesma. Porém Melécio após a paz, manteve sua
oposição até que no concílio de Nicéia terminou de fato seu cisma. Os que não
se conformaram, aderiram ao arianismo. Ário
se reconciliou com a Igreja e já na sua velhice, foi ordenado diácono
(308) e logo presbítero (310). No ano
de 313 estava encarregado da igreja de Baucalis, um dos bairros de Alexandria.
Era um ancião de 60 anos, quando estourou a crise de sua heresia em 321. Tinha,
como diz Rops, essa inextricável mistura de qualidades e defeitos fundidos no
seu orgulho, que sempre se encontra nos grandes heresiarcas. Nada nele era
insignificante: nem a inteligência, nem
o caráter, nem a violência nem a ambição. Tinha um bonito rosto de
asceta, um ar de modesta austeridade, uma serena e vibrante severidade de
palavra. Tudo nele estava feito para seduzir; e assim eram muitas as virgens
que o rodeavam. Era certamente um sábio e estava dotado para a dialética;
virtuoso e duro para si mesmo, entregado à penitência e ascese, estava
aureolado de dignidade e santidade. Nenhum dos seus adversários formulou contra
ele críticas na ordem moral. Semelhante homem exigiu ser combatido unicamente
no plano das idéias. No grande porto egípcio correu a voz de que o pároco de
Baucalis, maravilhoso como orador,
atraía multidões, aportando em matéria de dogma, idéias novas. O bispo
de Alexandria, Alexandro, chegou a inquietar-se. Em 321, à instância de fiéis
que delataram Baucalis como foco de heresias, Alexandro resolveu intervir, e
convidou as duas partes, Ario e seus adversários, a dar explicações num sínodo
em que se reuniram 100 bispos do Egito e Líbia. A exceção de dois ou três
bispos, todos os demais votaram por Alexandro e contra Ario. No momento em que
Ario disse que Cristo, sendo pura criatura
poderia ter caído e pecar, a assembléia lançou um grito de repulsa. Ário
e os poucos clérigos, seus partidários, foram condenados. Recebeu ordem formal
de submeter-se e demitir. Então saiu do Egito e foi para Cesaréia, na
Palestina, onde o bispo Eusébio, o historiador da Igreja, tinha idéias próximas às suas teses. Desde
sua nova residência, informou ao bispo de Nicomedia, então a capital do império
sob Constantino, do sucedido em Alexandria. Eusébio de Nicomedia o chamou a seu
lado. Alexandre, seu antigo bispo, protestou e o que era um assunto local se
tornou uma disputa que ameaçou a Igreja oriental. Durante o inverno 323-24 a disputa se transformou em batalha
ideológica. Usando expressões de duplo sentido, equívocos e anfibologias,
escreve um livro Thalia, (banquete), metade versos e cantos, para difundir suas
idéias. Constantino pensou ser necessária sua intervenção. Assim enviou seu
conselheiro Ósio, bispo de Córdova (Espanha), confessor da fé, de setenta anos,
mas que morreu com mais de cem, para tomar conhecimento do problema. Ósio, após
visitar Alexandria, deu a razão a Alexandre, o bispo, e condenou as doutrinas
de Ário. Ósio voltou a Nicomedia e o imperador castigou Ário e seus partidários
a pagar duas vezes o imposto de capitação (pessoal). Para acabar finalmente com
a divisão dentro da Igreja, Constantino convoca um concílio universal. Em
Niceia, próxima de Nicomedia, se reuniram 250 ou 300 bispos com uma pequena
participação dos latinos e dois representantes do papa Silvestre que por sua
idade viu-se impedido de fazê-lo. No concílio saiu uma nova fórmula ou melhor
alguns textos que esclareceram o texto do símbolo apostólico que chamamos de
credo. A palavra principal foi HOMOUSIOS,
(=da mesma substância), invenção segundo se diz, do próprio Ósio, presidente do
Concílio. Somente dois bispos não quiseram concordar e foram desterrados pelo
imperador, junto com Ário às montanhas ilíricas(Yugoslávia). Meses mais tarde
Eusébio de Nicomendia voltou do desterro das Gálias e com suas intrigas minou a
ortodoxia de Constantino. Num gesto de conciliação, mandou este que Ário fosse
admitido à comunhão da Igreja pelo bispo de Constantinopla, ao se rebelar o
povo em Alexandria contra o recebimento
do heresiarca. Quando Ário estava a ponto de triunfar, achou-se seu cadáver na
latrina, com as vísceras fora do ventre por rotura de uma hérnia e banhado no
seu próprio sangue (336). Muitos não deixaram de pensar na morte de Judas.
PRINCÍPIO BÁSICO: Como todas as heresias, a de Ário partia de uma idéia correta de Deus:
Ele era único, eterno, incriado e incomunicável; portanto Deus é o absoluto do
ser, poder e eternidade. Até aqui tudo bem. Mas Ário tira uma conseqüência
errada: Deus é incomunicável. Se entendemos que sua substância não é repetível
fora dEle, tudo bem. Mas sem se repetir a substância fora dele, dentro dEle
existe a comunicação pessoal. Existe uma trindade de pessoas numa única
substância ou natureza. Esta distinção e solução, não a encontrou a sutil mente
de Ário. Assim a sua lógica o levou a
outra radical conclusão como era a de dizer que o Logos (Verbo) não era
Deus mas simples criatura. Jesus, o Logos encarnado, não era propriamente Filho
de Deus, não tinha a essência divina como um composto de sua personalidade. O
Logos, o Filho, foi criado não por necessidade, mas por libérrima vontade do
Pai, para que o servisse como instrumento para a criação do mundo. O Logos ou
Verbo é por sua natureza mutável e suscetível de pecado. Apesar disto, Ário
porém, tem sobre o Verbo um conceito excelente: primogênito de toda
criatura(Col 1,15) foi elevado a uma verdadeira impecabilidade e chega a um
grau de sublimidade que merece o título de Deus, podendo chamá-lo de Deus por catacrese
ou abuso e extensão da palavra.
A ESCRITURA: Deixando textos claros como “o verbo era Deus” (Jo 1.1), Ário reduz seu
conhecimento bíblico a textos escuros, interpretados segundo o critério
precedente de quem quer demonstrar sua tese. Tais eram O Pai é maior do que
eu (Jo 14, 28). Ninguém conhece o dia ...nem o Filho, mas somente o Pai (Mt
24,36) e até de mui duvidosa aplicação como Quem oprime o indefeso ultraja a
quem o criou,(Pr 14,31) sendo que esse indefeso é o Cristo.
CONSEQÜENCIAS:
Destruía o mistério da Trindade e deixava a
razão como árbitro da escritura, produzindo um Summus Deus mui à gosto
dos filósofos, mas que deixava os teólogos com a redenção e todo o evangelho em
pedaços. Cristo não era um Deus convertido em homem, como afirma Paulo em
Filipenses 2, 6; mas um homem divinizado à semelhança dos grandes heróis
greco-romanos. Esta linha de pensamento, pela sua concordância com o jogo da
razão humana, teve ampla difusão em determinados ambientes e entre povos
bárbaros que, na época, começavam a se associar com o império, como os
visigodos.
CRITÉRIO FINAL: Como temos visto, não era só a razão filosófica que constituía a base da
doutrina de Ário, mas também entrava a Escritura. Como definir de maneira exata
uma e interpretar corretamente a outra? Por isso pela primeira vez depois do
Concílio de Jerusalém em que os apóstolos e os anciãos(At 15,23) decidiram
sobre o problema da admissão dos gentios, a Igreja universal se reuniu num
concílio para tratar de definir termos de compreensão e explicação humana ao
mistério fundamental de Cristo: Ele era Deus pre-existente, encarnado, ou era
uma criatura escolhida pelo único Deus e única pessoa, chamada de Pai, para se
relacionar com os homens? A tradição é a única forma de interpretar
corretamente a Escritura. Se essa interpretação é pessoal, o erro será
individual, podendo ser múltiplo, como são as pessoas e os indivíduos. Porém,
se é coletiva, o erro será de todos e não é lógico pensar que esse erro possa
se transformar em verdade. É muito mais lógico opinar que é a voz comum do
Espírito Santo que fala como mestre interior nos membros do corpo de Cristo que
é a Igreja. Pregar um Deus razoável é se ajustar a um modo humano de pensar;
mas nada tem a ver com um Deus revelado em que a razão está totalmente
subordinada e ultrapassada, porque jamais poderia pensar nessa verdade que
permaneceu oculta a sua luz. Um exemplo: O relato joaneo da ressurreição de Lázaro é
tão original e pitoresco por não dizer esquisito, que alguns duvidam ser um
fato real e o atribuem mais bem a um apanhado ou midrash (=parábola) do
evangelista para provar que Jesus é a vida e a ressurreição de seus seguidores
aos que ama, substituindo relatos reais como a ressurreição da filha de Jairo,
e a do filho da viúva em Naim
CONCÍLIO DE NICÉIA
(325): DISTINÇÃO ENTRE CONCÍLIO E SÍNODO: Vamos fazer uma
distinção entre Concílio e Sínodo. Concílio provém do latim cum (com) e
cieo(mover) significando reunião. Sínodo é palavra grega de sin (com) e odos
(caminho). Em termos reais atuais, o sínodo é uma reunião de eclesiásticos, que
também recebe o nome de concílio provincial e que tem os mesmos fundamentos
teológicos dos grandes concílios.(ver Mt 18,20). Porém os temas tratados, ou
não são universais, ou não abrangem a igreja total, ou são temas não
dogmáticos, como ritos, disciplina, adaptação às circunstâncias mais ou menos
locais. Entre os sínodos atuais destaca-se o sínodo universal dos bispos em
Roma, realizado periódicamente, com
temas especializados. Atualmente, no sínodo de Roma, o mais universal, 15 % dos membros são nomeados pelo Papa, há
membros determinados pelo cargo, e outros eleitos pelos bispos ou conferências
episcopais. O último foi sobre os bispos, celebrado no ano passado. Para as
reuniões das conferências nacionais dos bispos se reserva o nome de assembléia
ou conferência. Já o Concílio é uma assembléia universal quando é ecumênico
(=de todos, ou melhor, “da terra habitada”), assembléia que atualmente só pode
ser convocada pelo Papa e cujas conclusões são aprovadas por ele. Não é
possível um concílio ecumênico sem sua presença.
NICÉIA: Geralmente se admite que o primeiro concílio foi o de Jerusalém no ano
49 com a presença dos apóstolos, que dirimiram a questão dos incircuncisos como
aptos a ser batizados e formar parte do novo povo de Deus em Cristo.(At 15,3+).
Porém muitos afirmam que o primeiro concílio foi o de Nicéia. O convocante,
através de cartas, que segundo Eusébio de Cesaréia eram muito respeitosas, foi
Constantino. Sua idéia era a de governar uma Igreja unida como estava o Império
em suas mãos, à raiz da derrota de Licínio. Diocleciano já tinha interferido
contra seitas heréticas,como as dos maniqueus em 290, mandando queimar vivos
seus chefes em Roma, 8 anos antes da sua perseguição contra os cristãos. O
próprio Constantino de 317 a 321 teve
que recorrer à força para combater os donatistas do norte da
África que através de bandidos chamados saqueadores (circumcelliones)
assaltavam os cristãos de ritos diferentes. Um bispo donatista e um pequeno
grupo de fiéis da mesma igreja foram executados pelos soldados do imperador, o
“gendarme da Igreja” como chama Rops a Constantino. Na segunda metade de seu
reinado também ditou editos conta os pagãos como a proibição dos oráculos de
Apolo, que iniciaram a perseguição contra os cristãos de Diocleciano, a
proibição de certos cultos orientais em que a moral resultava muito ofendida, e
a destruição dos livros de Porfírio (234-305) o polemista anti-cristão.
INTERVENÇÃO: Compreende-se, pois, que à vista dos distúrbios eclesiásticos,
promovidos pela heresia de Ário, Constantino pensasse numa assembléia geral
para retornar à unidade e paz, para ele muito mais úteis e preciosas que a
verdade teológica da doutrina eclesiástica. Nas suas cartas comprometia-se a
pagar a viagem e estadia a todos os bispos que quisessem participar no
concílio. Inicialmente se pensou em Ancyra, atual Ankara capital da Turquia,
situada no planalto de Anatólia. Mas as comunicações e o clima suave da
primavera fizeram com que se adotasse Nicéia, (Iznit atual) perto do Bósforo e
na época capital do império romano, após a derrota de Licínio. Parece que era a
antiga Nicomedia, destruída pelo fogo, ou estava muito próximo dela. O lugar da
reunião era o palácio imperial. Assistiram ao concílio um total de 250 bispos
ou 318 segundo Atanásio. Praticamente todos os orientais. Do ocidente Ósio,
bispo de Córdoba na Espanha, que foi o presidente, o bispo de Cartago, um bispo
das Gálias outro de Calábria, e um da Panônia (Iugoslavia atual). Como o Papa
Silvestre I estava muito velho e doente, mandou dois presbíteros Victor e
Vicente, que em seu nome assistiram ao concílio.
BISPOS CÉLEBRES: SANTA CLAUS: Entre as personagens ilustres que assistiram ao concílio, temos Nicolau
ou Nicolás Bispo de Mira na Anatólia, Turquia atual, também chamado Nicolás de
Bari, na Itália. Era um defensor da fé (tinha sido encarcerado em tempos de
Diocleciano), liberto por Constantino. Ao mesmo tempo um taumaturgo (fazedor de
milagres). A tradição, misturada com a
lenda, conta que nasceu em Patras, no Peloponeso da Grécia, de uma família rica
e que sendo bebê, não aceitava o peito nos dias da semana que os cristãos da
época jejuavam a não ser uma vez por dia (Final do século III).Muito
caritativo, se conta dele que havia uma
família com três filhas adultas que o pai enfermo não podia casar por falta de
dote. Então o pai as persuadiu a por um pano vermelho na janela (símbolo de
casa pública). As donzelas não queriam isso. Aquela noite não entrou homem
algum, mas uma bolsa foi lançada com 50 moedas de ouro. Valor para casar uma
das três. Na noite seguinte mais uma bolsa. Na terceira noite espiaram o doador
e resultou ser o Sr Nicolás um dos mais ricos cidadãos de Pátara ou Patras,
cidade da Lícia que se servia de sua imensa fortuna para fazer o bem a seus
semelhantes. Socorria os enfermos, libertava os escravos e ajudava os vizinhos
em extremas situações. Ajudava os
navegantes, ressuscitou alguns mortos. Era o primeiro a entrar na igreja. Por
tudo isso foi nomeado bispo de Mira. Como tal assistiu ao concílio, onde teve
uma séria controvérsia com Ário ao qual esbofeteou. Por causa disso Constantino
o despojou de sua dignidade e o encarcerou. Porém o bispo apareceu em sonho ao
imperador dizendo-lhe como também três generais estavam no xadrez de forma
injusta, pois eram inocentes. Constantino então se retificou. Faleceu em Mira
no ano de 343. Diz a lendária tradição que em seu sepulcro brotou um azeite que
operava milagres, era o oposto do azeite da deusa Diana que o diabo fabricou
para envenená-lo. Sua fama lendária foi tal que chegou a ser o padroeiro da
Grécia e da Rússia. e em sua homenagem foram erigidas milhares de igrejas na
Europa medieval. Pois cientes da fama do santo bispo em 1083, uns mercadores italianos resgataram seu
corpo do poder muçulmano e o levaram para Bari no sul da Itália, onde tem uma
magnífica basílica e onde os peregrinos buscam o santo óleo que seus ossos destilam,
em busca de remédio para males e doenças. A sua fama de milagreiro e
distribuidor de presentes foi levada por colonos holandeses à América do Norte,
onde sua figura se transformou no bondoso velhinho de Santa Claus, pois na
cultura bizantina era apresentado como o sucessor de Deus (pela bondade) quando
este envelhecesse. Na América e nos paises do Norte sua festa, 6 de dezembro e
o dia dos presentes que se tornou famosa no dia de Natal em outros. Ainda em
alguns países aparece com mitra como bispo. Em outros tem perdido essa prenda e
no lugar do cavalo tem como montaria renas do polo norte.
ÓSIO: Um outro bispo famoso foi
Ósio de Córdoba, na Espanha. Na realidade ele foi o secretário e conselheiro do
imperador e o presidente do concílio. Era também um confessor dos tempos das
perseguições. Segundo muitos foi o autor do HOMOUSIOS (consubstancial)
da fórmula final do concílio. Tinha na época mais de setenta anos e de tão
vigorosa saúde que parece que morreu com mais de cem anos. Era verdadeiramente
um homem de Deus. Em tempos de Constâncio presidiu o concílio de Sárdica,
sendo Papa Júlio I (343). Este concílio
se limitou a reafirmar o de Nicéia e declarar que Atanásio e Marcelo eram
verdadeiros bispos de suas respectivas sedes, pois tinham sido depostos.
Constâncio o imperador, era favorável aos arianos. Como Ósio se opusera, este o
chamou a Milão onde quis dobrar a sua vontade. Osio lhe escreve: “A ti Deus te deu o Império, a nós a Igreja.
Quem te roubasse o império opor-se-ia à vontade divina; do mesmo modo guarda-te
de incorrer no horrendo crime de te apropriar o que é só da Igreja”. Em vez
de aceitar o reproche, Constâncio, ferido em seu orgulho, pretende
dobrar o ancião e o desterra a Sírmio e
durante um ano o submete ao mais terrível desterro. Os arianos espalharam a
história de que Ósio foi forçado a admitir a culpa de Atanásio admitindo a
doutrina ariana. Um caso parecido foi o do papa Libério também desterrado a Berea da Trácia. Voltou após aparentemente
admitir a 3a fórmula de Sirmio, que pode ser interpretada em sentido
católico ortodoxo.
SÍMBOLO: a palavra em grego significa sinal. Da antiga igreja
temos recebido três símbolos de fé ou conjuntos de verdades que devem ser
aceitas pelos que formam parte de seu credo ou crenças legítimas. São pois
fórmulas de fé: O símbolo apostólico, o de Nicéia, e o de Constantinopla que
completou o de Niceia sobre a atuação e essência do Espírito Santo. Vamos falar
dos dois primeiros.
SÍMBOLO
APÓSTÓLICO: Sem dúvida que a primeira fórmula de
fé foi Jesus-Cristo. Como as línguas semíticas carecem do verbo ser, a palavra
é uma afirmação mais do que um nome composto, e teria o significado de Jesus é
Cristo, Jesus é Messias.. Logo, os primitivos cristãos, de origem pagã,
aderiram a uma fórmula mais elaborada: Jesus vive e é Senhor. O etíope que foi
batizado por Filipe teve uma fórmula simples e primitiva: Eu creio que Jesus é
o Filho de Deus. Paulo em I Co 15, 3-7 nos oferece um credo que formula desta maneira: “Cristo morreu por
nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado; logo apareceu a Cefas,
depois aos doze, e em seguida a mais de quinhentos irmãos”. Segundo se
acredita, os dados essenciais da fé foram reunidos muito cedo num texto único
que servia de ensino para os catecúmenos, e que foi denominado Símbolo dos
Apóstolos. Não há dúvida que o símbolo foi redigido na maioria das grandes
comunidades cristãs, diferindo ente si em pequenos detalhes. O texto atual é da
versão romana do século IV nas Gálias (França), de onde recebeu o nome de versão galicana, do tempo de S. Cesáreo
de Arlés. Eis o texto: (1)Creio em Deus Pai todo-poderoso{criador do céu e da terra}(2)e
em Jesus Cristo seu único Filho, nosso Senhor(3) que foi concebido{pelo poder}
do Espírito Santo; (4)nasceu da Virgem
Maria (5) {padeceu}sob Pôncio Pilatos
foi crucificado{morto} e
sepultado(6)desceu à mansão dos mortos(7) e ao terceiro dia ressuscitou de
entre os mortos(8)subiu aos céus, está sentado à direita do Deus{Pai}
Todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos.(9) {Creio} no Espírito Santo(10) na santa
Igreja Católica {na comunhão dos santos}(11)
no perdão dos pecados(12)na ressurreição da carne { na vida eterna} Amém
SÍMBOLO DE
NICÉIA: O credo anterior, de 12
artículos(atribuídos segundo uma tradição lendária um a cada apóstolo) é
recitado aos domingos nas missas com os únicos acréscimos dos colchetes. Em Nicéia definiu-se a consubstancialidade
do Filho com o Pai. A palavra, que com toda probabilidade, foi inventada pelo
seu presidente Ósio, era Homousios (homós igual e ousía, substância), que em
latim foi traduzida por consubstancial. O credo resultante foi completado no
Concílio de Constantinopla I (381). O novo símbolo de Nicéia declara: “Creio em
um só Deus, Pai todo-poderoso, criador {do céu e da terrra}, de
todas as coisas visíveis e invisíveis; E num só Senhor Jesus Cristo, Filho de
Deus, gerado unigênito do Pai, isto é da essência do Pai,{antes de todos
os séculos} Deus de Deus {luz da luz} Deus verdadeiro de Deus verdadeiro. Gerado não feito,
consubstancial ao Pai, pelo qual todas as coisas foram feitas. Que por nós os
homens e por nossa salvação desceu {dos céus }se encarnou{por obra do Espírito
santo de Maria Virgem}se fez homem.{Que foi crucificado também por nós }
padeceu{sob Pôncio Pilatos e foi sepultado}E ressuscitou ao terceiro dia
{segundo as escrituras}E subiu aos céus: {está sentado à direita do Pai.}E de
novo há de vir {de novo em sua glória}a julgar os vivos e os mortos{cujo reino
não terá fim} E creio no Espírio Santo”. Os colchetes foram acréscimos ou do
Concílio de Constantinopla ou como explicações que hoje recitamos no texto
dominical mais longo. O resto do credo que trata da essência e atuação do
Espírito Santo foi acrescentado no Concílio de
Constantinopla I sob Teodósio I (381), de onde vem o Credo
Niceno-constantinopolitano, o mais longo dos dois da missa dos domingos.
OUTROS DECRETOS: É interessante saber que foi neste primeiro concílio
universal que se tratou do celibato do clero. No concílio hispânico de Elvira
(305?,canon 33) declarou-se que os sacerdotes deviam ser celibatários,
proposição que foi acolhida em todo ocidente. Esta mesma proposta foi levada ao
concílio de Nicéia, propondo que se estendesse a prática a toda a Igreja. Houve
uma discussão, até que a intervenção do Bispo Pafnúcio, ele mesmo célibe,
dirimiu a questão para o Oriente (só 5 dos bispos presentes eram ocidentais).
Permitiu aos clérigos o uso do matrimônio contraído antes de receber o
sacerdócio. Mas proibiu que tivessem em suas casas uma companheira, permitindo,
porém, a mãe, irmã, ou uma mulher fora de toda suspeita. Justiniano I (525-565)
tratou de impor o celibato, mas sem éxito, e no sínodo Quinisexto {entre o
quinto e o sexto} (692) determinou-se que só os bispos estão obrigados ao
celibato, mas se proíbem as segundas núpcias aos clérigos.( para maor informação
sobre Nicéia ver em www.presbíteros.com.br no apartado de História da
Igreja, o artigo”Os primeiros
concílios”)