( Pe. Ignácio dos Padres
escolápios)
DISTINÇÕES
PRÉVIAS: Católicos e gregos
distinguem entre livros canônicos(também protocanônicos), deuterocanônicos
e apócrifos, referidos aos escritos sagrados. Os canônicos são
todos os aceitos como autênticos sempre, e dentro do AT também tidos como
Escritura, tanto por judeus como por evangélicos. Os deuterocanônicos
(segundo cânon) são livros do AT tidos como escritura pelos gregos da diáspora
e como tais aceitos na Igreja mas que não formaram o cânon judaico escrito em
hebraico e sim no grego da Septuaginta.
Os judeus do concílio de Jâmnia(90DC) os identificaram como fora do
cânon autêntico. O Talmud [= recopilação das tradições da Mishná(2a
lei, ou seja a não escrita) e Guemará (tradições orais) judaicas] os consideram
como Sefarim Hizonim (livros estranhos). No concílio de Trento em que
definitivamente a 8 de abril de 1546 foi declarada canônica a Vulgata(=
tradução latina usada na Igreja ocidental), esses livros entraram para formar
parte da Escritura, admitida como autêntica pela Igreja Católica. Os tais
foram: Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Macabeus I e II e
partes de livros já admitidos como canônicos como Baruc, Daniel e Ester. Estes
textos e livros são denominados deuterocanônicos pelos católicos e
recebem o nome de apócrifos pelos evangélicos. Do Novo Testamento temos
como deuterocanônicos a carta aos Hebreus, atribuída a Paulo, mas escrita após
a morte dele, a carta de Tiago, a segunda de Pedro, II e III de João, a de
Judas e o Apocalipse. Houve dúvidas na antiguidade, mas hoje todos eles estão
incluídos como canônicos na Igreja católica e como tal admitidos na Igreja
Oriental e na maioria dos evangélicos. Isto
apesar de que alguns deles só foram admitidos catolicamente no século V.
Um exemplo: a Bíblia da Sociedade Bíblica do Brasil traz todos eles. Estes
livros são adotados pela maioria das diversas igrejas cristãs.
APÓCRIFOS
DO AT: Do AT existem muitos
livros que os judeus denominam apócrifos (escritos ocultos,
literalmente) que outrora chamaram de pseudo-epígrafos (escritos
espúrios) entre os quais a Ascensão de Isaias, a Assunção de Moisés, a Vida de
Adão e Eva, o Testamento dos doze Patriarcas, etc.
APÓCRIFOS
DO NT: No vocabulário da
Igreja romana esta palavra tem um significado particular. O primeiro que usou a
palavra foi S. Jerônimo (+420). Outros os chamam de antilegoumena
(=disputados). Parece que a distinção entre antilegoumena e apócrifos é que
estes últimos foram escritos por hereges e contêm doutrinas contrárias às da
Igreja. Vejamos alguns exemplos.
A Estichometria de Nicéforo teve origem em
Jerusalém talvez no século IV. Seu nome alude à quantidade das linhas ( um
esticho é um verso de 15-16 sílabas, escrito numa única linha)e cada escrito
tem suas linhas numeradas. Traz como duvidosos os Apocalises de João, e de
Pedro, a Epístola de Barnabé e o Evangelho segundo os hebreus. Como apócrifos
ou espúrios os chamados períodos de Pedro, João e Tomás, o evangelho de
Tomás, a Dídaque dos apóstolos, as cartas de Clemente, de Ignácio e de
Policarpo e o Pastor de Hermas.
O
chamado Decreto Gelasiano (inícios do século VI)tem uma lista de 61 livros,
entre eles os evangelhos de Pedro, Tiago e Tomás conservados até hoje, e umas
cartas entre Abgar e Jesus que ultimamente tem sido muito divulgadas.
Também do século VI temos uma lista de
Timóteo, presbítero, de livros de origem maniqueista: O Evangelho da vida, os
Atos dos apóstolos de André, e o Evangelho de Filipe.
OS
EVANGELHOS APÓCRIFOS (Século II )
EVANGELHO
DOS HEBREUS: A conclusão dos
expertos é que existia na metade do século II e talvez em data anterior que não
ultrapassa a metade do século I. A língua foi o aramáico, escrito em caracteres
hebraicos, segundo S. Jerônimo. O autor ou autores eram judeus-cristãos que se
refugiaram em Péla, na margem oriental do Jordão, hoje identificada com Hirbet
Fahil na antiga Decápolis e situada ao sul das duas cidades de Hipos e Gádara e
em frente de Escitópolis. Embora não seja mencionada na Escritura, é lugar
conhecido desde o século XIV aC pelas histórias profanas. Não deve confundir-se
com a Péla de Alexandre Magno da Macedônia, lugar onde nasceu o conquistador.
Pompeio (c75 aC ) formou a federação das dez cidades ou Decápolis, em cujo
território Péla chegou a ser famosa pelas fontes de sua comarca. Para ela
fugiram os cristãos para evitar as calamidades da destruição de Jerusalém no
ano 70, segundo relato de Eusébio(+339). Foi importante núcleo de cristãos,
pois temos listas de seus bispos dos séculos V e VI dC e se encontraram
interessantes vestígios cristãos em suas ruínas: uma basílica e um mosteiro.
Nela se deu a batalha em que os árabes conquistaram a Palestina dos bizantinos
no século VIII. Hoje é uma miserável aldeia da Jordânia, uma de tantas aldeias
árabes como abundam no Oriente Próximo.
LÍNGUA: Segundo S. Jerônimo(+419), o evangelho estava escrito em
caracteres hebraicos, mas a língua era o aramaico, ainda hoje usado em remotas
aldeias do Líbano. Ele teve um exemplar nas mãos e o traduziu ao grego e latim.
ORIGEM: S. Jerônimo fala dos Nazarenos de
Berea(Aleppo) perto do Eufrates. Ele diz que na biblioteca de Cesareia se
conservava o texto em hebraico e que comumente é chamado de Mateus autêntico, o
qual é afirmado também por S. Epifânio(+ 403). Não eram heréticos como os
Ebionitas, a quem também se atribui a autoria deste evangelho, mas seguiam
ainda os ritos judaicos. Orígenes(+254) dá a entender que o tal evangelho não
era herético como o dos Doze Apóstolos. A opinião dos modernos é que constituía
um Targum(= tradução livre) de Mateus. Um exemplo: Há pouco me tomou minha
mãe, o Espírito Santo, por um de meus cabelos e me levou ao monte sublime do
Tabor. Explica-se que chame de mãe ao Espírito Santo porque em hebraico a
palavra Ruah (=Espírito)é feminina.
Uma outra passagem é sobre a parábola dos talentos. Distingue três
servos: Um que tinha procedido de modo a multiplicar o dinheiro. Um outro que
enterrou o mesmo e um terceiro que o dissipou com meretrizes e flautistas. O
primeiro foi bem recebido, o segundo unicamente admoestado e o terceiro foi
jogado no xadrez.
Uma
frase que não está nos evangelhos: Nunca estareis contentes senão quando
olhardes a vosso irmão com amor.
É o evangelho que claramente narra a aparição
a Santiago. Após dar o lençol ao servo do sacerdote, foi a Tiago e apareceu
a ele. Trazei a mesa e o pão, disse. E na continuação tomou um pouco de
pão, abençoou o mesmo, o partiu e o deu a Tiago, o justo, dizendo: Meu irmão, come teu pão, porque o Filho do Homem
ressuscitou dos mortos.
No Pai nosso, no lugar de pão de cada dia
traz a palavra mahar que significa de amanhã. E fica assim o versículo: Dá-nos
hoje o pão do amanhã ou seja o pão que nos darás no teu reino.
De Barrabás diz que seu nome significa Bar-rabban
ou seja filho do mestre.
O véu do templo não se rasgou mas foi a arquitrave do mesmo que se
partiu.
Na ressurreição Jesus disse: não sou um
demônio sem corpo no lugar de um fantasma.
Entre os crimes maiores está ter causado
tristeza à alma de teu irmão.
Quando cita o AT usa o texto hebraico,
conhecido e usado por S. Jerônimo para a tradução latina de sua Vulgata, e não
o texto dos setenta dos evangelhos canônicos em geral.
INTRODUÇÃO: O evangelho apócrifo antes estudado era mais
ou menos ortodoxo, mas agora vamos estudar algumas heresias e os evangelhos
redigidos para seus adeptos. Antes de analisar o conteúdo desses evangelhos
vamos estudar os primeiros gnósticos cristãos. Pois é de sua doutrina que se
derivam algumas das afirmações dos ditos evangelhos.
O GNOSTICISMO: É a doutrina da salvação
por meio do conhecimento. Deriva de Gnosis, que é conhecimento e gnostikós, bom
de conhecimento. Tanto o judaísmo como o cristianismo afirmam que a salvação
depende do Supremo Poder, que exige fé e obediência aos seus mandatos. O
gnoticismo a estabelece num conhecimento quase intuitivo dos mistérios do
Universo e em fórmulas mágicas, expressivas de tal saber e ciência. O gnóstico
( o sábio, diríamos) por sua ciência especial pertence a uma classe à parte e
superior entre os outros seres: um em mil e dois em quatro mil, afirmam eles.
Podemos definir gnosticismo como nome coletivo para um grande número de seitas
panteístas e eruditas que floresceram desde tempos anteriores a Cristo até o
século V dC. Tomando diversas noções da filosofia platônica e de doutrinas
maniqueístas defendiam a perversidade da matéria como uma decadência do
espírito e afirmavam que o Universo era uma degeneração da deidade para esperar
a regeneração da matéria num retorno ao Pai-Espírito mediante um salvador
enviado por Deus. Muitos estudiosos porém, asseguram que não pode existir uma
definição comum e abrangente do gnosticismo. Só podemos afirmar que existem
pontos comuns numa série de heresias que aparecem nos séculos II, III e
IV, pretendendo reduzir o Cristianismo
da fé a uma religião de ciência esotérica. Estudaremos alguns dos principais
heresiarcas.
VIDA: É o mais antigo dos gnósticos alexandrinos, florescendo
durante os reinados de Adriano e Antonino Pio (120-140). Teve um filho Isidoro,
continuador da obra do pai. Basílides inventou profetas que falavam em seu nome
como Barcabbas e Barcof, e ele mesmo se declarou discípulo de Glaucias, este
por sua vez de Simão Pedro. Dizia que recebia mensagens de Matias, o apóstolo.
DOUTRINA: Só a conhecemos pelos testemunhos de S. Ireneu (c 170) de S. Clemente
de Alexandria (208-210) e Hipólito de Roma(225). Segundo Ireneu, Basílides era
dualista (dois princípios: o do bem e o do mal) e emanantista (os seres saem
diretamente da divindade por emanação). Para Hipólito ele era panteísta (tudo é
deus) e evolucionista (a diferença da emanação de um princípio único, o
progresso, por vezes degeneração, se dá por novas qualidades adquiridas entre as diferentes criaturas). Segundo
Ireneu, Basílides ensinava que a Mente (Nous) foi o primeiro ser que nasceu do
não nascido (eterno?) Pai que receberá o nome de Abrasax, porque, segundo a
gematria, a suma dos números de suas letras é 365, tanto quanto é o número dos
céus ou dos dias do ano. Para Hipólito, Basílides dirá deste deus único que é
como o Pansperma (semente total, ou melhor todo semente). Da Mente
nasceu o Logos (razão), do Logos a Frônesis (prudência), desta a
Sofia(sabedoria) e a Dínamis (força), e destas últimas, as Virtudes,
Principados e Arcanjos, que são espíritos de alta qualidade e por meio dos
quais o mais alto céu foi feito, que parece recebeu o nome de Plêroma.
Os descendentes dessas potências superiores construíram outros céus inferiores
até o número 365, céus que recebem o nome de Eons, segundo a interpretação de
Ireneu. Esta emanação é uma degeneração em poder e substância, cada vez
mostrando-se mais fraca, com menos energia. O último céu, que é o mundo dos
homens, foi feito da matéria eterna pelos anjos. Estes últimos o ornaram com
todas as coisas que vemos. Os anjos dividiram entre si os diversos povos e
etnias como se fossem seus chefes. Porém um dos anjos, o mais poderoso, se
tornou o deus dos judeus e como tal quis subjugar outras nações. A lei foi dada
por esse anjo-chefe que livrou os judeus do faraó. Por isso enfrentou-se as
outras potências angélicas; daí a aversão dos povos contra os judeus. Vendo
isso o Pai, Abrasax, enviou seu primogênito, o Nous (logo chamado Cristo, mas
que tem o nome mágico de Caulacau) para libertar seus crentes do poder das
potências angélicas que tinham construído o mundo. Para os homens, Cristo
parecia um homem que obrava milagres. No momento de ser crucificado ele trocou
seu corpo com o de Simão de Cirene, de modo que foi este último o morto como
Jesus, enquanto o verdadeiro Jesus, o Cristo, ficou livre sob a figura do
Cirineu, até seu retorno ao Pai. Pelo conhecimento de Cristo as almas são
salvas porém os corpos perecem.
ÉTICA:Parece que discípulos de Basílides admitiram a promiscuidade e a
poligamia. Também uma conduta relaxa com respeito aos idolotitos (comidas
oferecidas aos ídolos) porque deus não se interessa nessas minudências. De fato
Isidoro, o filho, aconselha a livre satisfação dos desejos carnais para que a
alma possa encontrar paz nas suas preces. Justino, na sua primeira apologia (150-155), sugere que os crimes de que
eram acusados os cristãos como imoralidade e magia eram propriamente práticas
gnósticas, citando como responsáveis Simão, Menandro e Marcion, coisa que
também afirma Ireneu, dizendo que usavam imagens, e se serviam de conjuros e
encantamentos. É interessante observar como os escritores cristãos rejeitam as
doutrinas gnósticas por não se conformar com a tradição da Igreja, mas sendo
interpretadas individualmente. Isto muitos antes do concílio de Trento.
VALENTIN OU VALENTINO(circa 150)
HISTÓRIA: Valentino nasceu no Egito, segundo
Epifânio de Salamis ou Constância, a metrópole de Chipre(+403), Foi educado na
ciência helenística em Alexandria. Como outros hereges, veio à Roma durante o
pontificado de Higínio(138-40).e alí permaneceu até o pontificado de
Aniceto(155-166). Seus erros levaram-no à excomunhão. Por isso fugiu para
Chipre, onde, como professor, morou até sua morte em 160 ou 61. Valentino
proclamava que ele tinha aprendido suas doutrinas de Theodas ou Theudas,
discípulo de S. Paulo, mas evidentemente seu sistema é um amálgama das mais fantásticas idéias gregas e
orientais com pensamentos cristãos. Especialmente sua filosofia depende de
Platão. Dele tomou o conceito paralelo entre o mundo das idéias(pleroma) e o
mundo dos fenômenos (kenoma).
DOUTRINA: No pensamento neoplatônico eón é cada uma das
potências ou hipóstases eternas emanadas do Uno, o ser primigênio (Bythos) que
após períodos de silêncio e contemplação originou outros seres por um processo
de emanação. A primeira série de criaturas eram trinta em número, representando
os quinze syzzygios (par) ou pares sexuais complementares. O primeiro par era o
abismo e o silêncio( Ver Gênesis) Deles derivam mente e verdade, que por sua
vez geraram palavra(logos) e vida(João no prólogo).Pela fraqueza e pecado do 13oeon,
a Sofia (sabedoria), que quis penetrar no abismo, gerou-se uma grande desordem
dentro do pleroma(domínio divino). De um dos eons inferiores, teve origem o
mundo inferior sujeito à matéria. O ser humano, o mais excelente ser do mundo
inferior, participa de ambos componentes: o psíquico (espiritual) e o
hílico (da matéria). A redenção
consiste em liberar o superior, espiritual, da servidão do inferior (material).
Este foi o trabalho e missão de Cristo e do Espírito Santo.
MARCION
(85-160 dC)
Marcião a figura principal entre os hereges gnósticos. Dele diz-se
que é uma das figuras mais influentes na História da Igreja e um dos hereges
mais combatidos de todos os tempos. Vamos pois, conhecer sua história, seus
postulados, antes de ver sua influência e os apócrifos escritos na base de sua
heresia.
HISTÓRIA: Nasceu em Sinope, pequena península do Ponto, Ásia
Menor, às margens do mar Negro no ano de 85. Seu pai era bispo cristão da
cidade. Parece que era Nautes ou Nauclerus, dono portanto de um barco. S.
Epifânio( escreve 40 anos após sua morte) dirá dele que na sua juventude fez
voto de castidade, mas que ao ter relações com uma jovem seu pai o expulsou da
Igreja. Ele implorou perdão ao seu pai, mas este recusou e, levado pela
vergonha e o desprezo de seus coetâneos, secretamente deixou Sinope e viajou a
Roma. Roma estava então, sede vacante, após a morte de Higino(140). Dizem que
Marcião era bispo, o que contradiz o relato anterior e foi com esse título que
os seus discípulos o veneraram. Título, aliás,
que nenhum dos seus adversários negou. Imediatamente após a sua chegada
em Roma doou à igreja 200 mil sextércios (7 mil dólares), soma que lhe foi
devolvida após sua ruptura com a Igreja. Esta separação parece deu-se ao que
parece no ano 144 fazendo causa comum com Cerdão, gnóstico de origem síria, que
tinha vindo a Roma em tempos do Papa Higíno(136-140). Cerdão opunha o Deus
Justo(Jahveh) do AT ao Deus Bom do NT e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. É
propriamente o que constituiu o gnosticismo judeu-cristão. Existe uma anedota
sobre Marcião quando da visita em Roma de S. Policarpo no ano de 150, relatada
por S. Ireneu: Marcião pergunta a Policarpo se o conhecia. A resposta do santo
foi: “Te conheço como o primogênito de Satanás”. Tertuliano, que escreve em 207
diz que Marcion se arrependeu e recebeu como condição de sua readmissão na
Igreja trazer de volta aqueles que ele tinha separado. Sua morte prematura
impediu que isso acontecesse.
DOUTRINA: Nos anos 70-140 o número de seitas dentro da Igreja foi enorme. Basta
recordar as dos ebonitas, satornilos, alobianos, severianos, apotácticos,
sacóforos e hidropasianos entre outras.
Quase todas elas tinham como base intelectual o gnosticismo dualista(dois
princípios vitais) e esotérico ( nem todos os ensinamentos de Jesus foram
transmitidos, mas houve uma tradição oculta, privilegiada a uns poucos
discípulos); e como ética o desprezo da matéria (especialmente do vinho e do
sexo). Muitos afimam que Marcião não foi gnóstico no sentido verdadeiro da
palavra. Para Marcião interessava acabar com o judaísmo como antecessor do
cristianismo, porque o AT era um escândalo para os crentes e um obstáculo
intransponível para os cultos pagãos por sua dureza e crueldade. Por isso, para
remover estes obstáculos, ele admitia uma deidade secundária para o AT, um
demiurgo que era deus em certo sentido mas não o Supremo Deus: era justo até o extremo,
tinha ótimas qualidades, mas não era o Deus bom, que foi o Pai de nosso Senhor
Jesus Cristo. Para isso ele suprimiu todos os textos que eram contrários ao seu
dogma. De fato ele criou um NT consistente num Lucas mutilado e no que ele
chamava de Apostolikon, com dez epístolas paulinas. S. Justino contemporâneo
(+165) dirá: Com a ajuda do diabo, Marcião tem contribuído em todos os países a
blasfemar e recusar o Criador de todo o orbe como Deus. Marcião reconhece um
outro deus e, porque ele é essencialmente maior, tem feito coisas muito
melhores que o antigo. É o Supremo Deus, o Bom, o Justo e Íntegro. O Bom Deus é
todo amor, enquanto o deus inferior é dominado por uma furiosa cólera. O
criador tem sua esfera própria e não é oposto ao Bom Deus, como Ormuz(bom) e
Arimam(mau), os dois princípios do maniqueísmo. Mas o Bom Deus, sozinho, é quem
intervêm em favor dos homens e ama mais a misericórdia que o castigo. Todos os
homens são criados pelo demiurgo mas esse deus do AT escolheu os judeus como
próprios e assim se tornou seu Deus.
O NOVO TESTAMENTO: Marcião rejeita as passagens de Lucas sobre o
batismo de Jesus nas quais o Batista anuncia seu messiado. Também repudia a
história das tentações no deserto. Elimina os capítulos I e II por seguirem
tradições hebraicas em demasia: a perícope 4,1-3 por sua referência ao
Deuteronômio e 4, 16-30 do discurso da sinagoga em que Jesus afirma que seu
ministério é completar o Velho Testamento. Das epístolas paulinas, únicas
admitidas, elimina trechos
inconvenientes para sua doutrina, como os capítulos 9-11 e todo o que segue ao
14,23 da epístola aos romanos. Não admite outros livros do NT. Às vezes
interpreta “modo peculiari’ passagens claramente por todos admitidas. Um
exemplo óbvio: no lugar de “venha o teu reino”, ele traduz “venha o Espírito
Santo sobre nós e nos purifique”. Ao que parece, o reino era um termo
errôneo do AT.
MATRIMÔNIO E SEXO: Marcião e seus seguidores eram ascetas rígidos.
Pregavam um rigorismo estrito, negavam o direito ao matrimônio e formulavam
normas muito austeras para o jejum. Durante os séculos II e III muitos grupos
heréticos afirmavam que o matrimônio era satânico e similar à fornicação. Seus
seguidores falavam do corpo como se fosse um ninho de pecados. É lógico pensar
que essa idéia de Marcião sobre uma abstinência sexual contribuiu muito para a
desaparição da seita.
REAÇÃO CRISTÃ: Para os Padres Apostólicos e para as
diversas igrejas a eles unidas, a heresia de Marcião era o desvio mais violento
da verdade apostólica. Ele negava a inspiração do AT e e a continuidade do Deus
Criador com o Deus Salvador, Pai de Jesus. Por isso foi expulso -excomungado –
da Igreja de Roma que devolveu o dinheiro em 144. Com o dinheiro devolvido,
Marcião foi capaz de iniciar um movimento missionário, fundando novas igrejas
em todo a margem do Mediterrâneo. Sua obra continuou durante 150 anos até a
metade do século IV.
RESULTADOS: 1o) O estabelecimento de um canon do NT como foi o de
Muratori ( perto do ano 150).Entendendo o canon como o conjunto de escritos em
que a inspiração está presente, Marcião foi o primeiro a delimitar seu número a
uns poucos, bem determinados. A Igreja então aceitou como válidos os outros
três evangelhos sem que prevalecesse o critério de distinguir ente o que era AT
e o que era revelação nova do NT. Todos os apóstolos foram admitidos com o
mesmo critério.
2o)Admissão do judaísmo dentro do
cristianismo como base fundamental, da qual somos herdeiros. Porém a Igreja
compreendeu que o cristianismo não era uma revelação oposta e separada do
judaísmo, ou que existisse uma contradição total entre o evangelho e a Torá .O
cristianismo era o cumprimento das promessas do judaísmo. Foi preciso a
destruição do mesmo por Tito para os cristãos se tornarem independentes da
antiga lei dos sacrifícios. Paulo vivia e sentia a história de Israel e o
templo continuava para ele como o lugar da presença de Deus com seu povo. Só
que agora era um povo diferente, que em Cristo tinha fundamento e na cruz
alcançava sua máxima expressão.
3o) Uma maior dependência e valorização
da tradição apostólica, como verdadeira intérprete dos livros inspirados e
autêntica leitura do sentido de suas diversas partes. O conhecimento secreto ,
a gnosis de Marcião, encontrou um muro intransponível na tradição apostólica: o
que ela não afirmava não estava em parte alguma e não era reconhecido como
inspirado. Também Valentin apoiava-se no conhecimento secreto. Mas a Igreja não
admitiu outro conhecimento além do público da tradição apostólica. Qualquer
revelação particular não tem o carimbo da autenticidade que é o passo prévio
para a verdade.
4o)A Igreja sempre se opôs à
fornicação e principalmente ao adultério; mas também afirmou claramente que o
matrimônio era lícito e que o sexo dentro do mesmo era moralmente um ato de
amor, honesto e necessário.
OUTRAS HETERODOXIAS DO SÉCULO II:
Como
temos visto Marcião foi a cabeça de uma heresia que teve grande aceitação no
Egito. Encontramos aí a mesma com o nome de Encratitas. A igreja dos encratitas
separou-se da igreja oficial, chamada Católica, na metade do século II e até
que pode se remontar aos tempos apostólicos, para se prolongar até o fim do
século IV. O nome deriva de um termo grego que significa comedido ou moderado.
Proibiam a carne e o vinho nas comidas e eram opostos ao matrimônio. Para
justificar suas teses serviam-se das passagens do NT que recomendavam
temperança isolando-as do contexto, interpretando-as unilateralmente e até
alterando-as. São seus apócrifos: os Atos de Paulo, João e Pedro. Seus
precursores foram os Alobianos, (entre os sármatas, povos nômades de origem
iraniana que se uniram aos escytas e que no século II aC estavam nas margens do
mar Negro). Deste grupo parece formar parte por seu nascimento Marcião. Já nos
inícios, o cristianismo egípcio deu origem a heterodoxos, grandemente influídos
pelo gnosticismo. Somente na segunda metade do século II a igreja egípcia
integrou-se na Grande Igreja e esta integração se realizou fundamentalmente em
Alexandria onde no século III destaca a enorme tarefa de S. Clemente e de Orígenes.
No restante do país parece que seguiram sua evolução autônoma com o surgimento
de outras correntes cristãs paralelas de caráter mais ou menos heterodoxo. O
fato de que a língua predominante fosse o copta, (forma evolucionada do antigo
egípcio) frente ao grego dominante em Alexandria, foi um fator que facilitou
esse desenvolvimento,. oposto ao cristianismo oficial que tinha aceito e
assimilado valores urbanos. O copta
assume atitudes ascéticas de ruptura total com o mundo para se dedicar a uma
vida de anakhoresis (separação, fuga, retiro), termo com o qual se designava um
fenômeno político-administrativo
formado pela fuga dos camponeses de sua aldeia de origem a outra, a um
templo ou ao deserto para escapar à opressão fiscal, ao serviço militar ou outras
obrigações. Na época imperial romana está amplamente testemunhada esta fuga de
desarraigados, devedores, bandidos ou descontentes. Era uma forma de protesto e
a única saída que tinham estes desarraigados. Na anakhoresis cristã (daí vem a
palavra anacoreta) buscam um contato direto com Deus sem nenhum intermediário
eclesial, unicamente tendo como norma a recomendação evangélica. Muitos seguem
as palavras “vende quanto tens e dá aos pobres e vem e segue-me” como um
mandato supremo. O fenômeno foi maciço e o número de monges anacoretas chegou a
se contar por milhares no século IV. Neste ambiente nasceu esta seita.
EVANGELHOS DE ORIGEM HERÉTICA
EVANGELHO
DOS EBIONITAS (Século II).
INTRODUÇÃO:
Desde os primeiros anos do
cristianismo houve heresias. As principais delas derivadas de uma interpretação
filosófica errada e de práticas judaicas ultrapassadas. À parte os judaizantes,
que Paulo tanto combateu, temos três heresias, nascidas no judaísmo: DOCETAS (ou doketas). Admitiam que Jesus não
era o Cristo mas uma aparência de corpo, provavelmente guiados pelo gnosticismo
de seus fundadores, já que uma das doutrinas básicas gnósticas é seu
maniqueísmo (= dualidade entre bem e mal) em que a matéria é vista como origem
do mal. Daí provém sua rejeição absoluta à matéria. A segunda é a dos EBIONITAS
judeus-cristãos que na sua rama de heterodoxos admitiam os princípios gnósticos
nos séculos II e III, tendo seu centro em Alepo, no norte da Síria. Rejeitavam
a divindade de Jesus, reduzindo-o a um demiurgo, entidade que ordena a matéria
segundo o exemplar das idéias, e assim configura os entes (Filosofia platônica).
É a terceira hipóstase detrás do Uno e do Nous segundo Plotino. Finalmente
temos os KASAITAS, também judeus-cristãos que misturam a gnosis com elementos
da astrologia dos caldeus, antigos descendentes dos sumérios na região baixa da
Mesopotâmia.
EVANGELHO. É também chamado de evangelho dos Doze. É
um livro heterodoxo em que os chefes da seita, além de querer impor os costumes
legais judaicos aos cristãos provenientes do paganismo, rejeitando a divindade
de Jesus, usavam seu evangelho próprio no qual os apóstolos narram os fatos e
Mateus escreve essas narrações. Daí o nome dos DOZE com o qual também é
conhecido. O nome de ebionitas deriva de Ebionim (em grego Ptoxoi, e em latim
pauperes que podemos traduzir por mendigos); refere-se à pobreza que professavam.
Eram vegetarianos e consequentemente modificavam algumas passagens evangélicas,
como aquela em que João, o Batista (sem citar as lagostas porque eram animais),
só comia mel selvagem, cujo gosto era como pão empapado em azeite.(Mt 3, 4-7)
Uma outra passagem modificada ou tergiversada
é o acréscimo às palavras do batismo de Jesus: Além do “Tu és meu Filho amado’,
a voz diz: “Eu hoje te gerei” .Está clara a finalidade da tendência
gnóstica de ver em Jesus uma criatura, não eterna como o Pai. Contra essa heresia foi precisamente escrito
o prólogo de João, o evangelista.
Uma outra passagem interessante a encontramos
em Mt 5,17 quando Jesus afirma que não veio abolir a lei e acrescentam : “Vim
abolir os sacrifícios e se não deixardes de sacrificar não se afastará de vós a
minha ira”. Pela mesma razão de não comer carne Jesus perguntará: “É que
eu tenho desejado comer CARNE convosco nesta Páscoa? A interrogação muda
completamente o sentido da frase.
Ao comentar: “muitos por dentro são lobos
rapazes”(Mt 7,15) o evangelho ebionita lamenta aqueles que vivendo entre
riquezas e luxúrias não davam nada aos pobres e os recrimina porque teriam que dar conta de não ter-se
compadecido daqueles que deviam ter amado como a si mesmos, embora os vissem
sumidos na pobreza.
Como vemos são só algumas frases heréticas
que indicam o evangelho ser seguido em quase a sua totalidade. Porém tendo seus
pontos conflituosos em que a ideologia substituía a verdade transmitida. Em
tempos mais recentes haverá quem fixe seu pensamento numa frase única para
modificar todo um ensinamento ou toda uma tradição. Em termos morais é como se
se condenasse toda uma vida por um só ato pecaminoso.
.
EVANGELHO DOS EGÍPCIOS (Sec II).
EVANGELHO: O chamado evangelho dos egípcios nasce dentro
desse ambiente. Por egípcios devemos entender os habitantes da Tebaida e da
Líbia e não os grecofalantes de Alexandria como temos visto antes. É posterior
ao ano 150 mas sem dúvida o mais antigo dos evangelhos apócrifos heréticos.
Suas raízes heterodoxas têm como base os erros encratistas: condenação do matrimônio; gnósticos
sobre a alma, atribuídas aos naassenos, isto é, dos cultuadores da
serpente (Naas em hebraico
quer dizer serpente); trinitários
dos sabelianos.(de Sabelio, heresiarca condenado por Calixto
I[217-222]) que embora não negasse a distinção das pessoas na Trindade, a
reduzia. Esta doutrina recebeu vários nomes como modalismo(o Filho e o
Espírito eram modos de se apresentar a figura do Pai) ou monarquismo no
final do século II(nome dado por Tertuliano), aos que afirmavam que em Deus não existe mais do que uma pessoa. Na
sua rama adocionista admite que Jesus , puro homem, recebeu uma parte da
divindade no batismo ao ser adotado pelo Pai. O principal defensor desta
heresia foi Paulo de Samosata, bispo de Antioquia, destituído em 268. O
apócrifo evangelho de São Tomé foi utilizado principalmente pela seita gnóstica
dos Naassenos.
EVANGELHO DE TOMÉ (séc II)
DESCOBERTA: Em dezembro de 1945, pero da vila de Nag
Hammadi no alto Egito, um camponês árabe que cavava ao redor de uma grande
pedra em busca de fertilizantes para seus campos, encontrou uma velha ânfora de
cerâmica. Pensava fosse um tesouro escondido; rompeu a jarra com seu pico e
encontrou dentro mais de uma dúzia de códices de papiro envoltos em couro. Eram
textos manuscritos depositados na jarra provavelmente perto do ano 390 por
monges do próximo mosteiro de S. Pacômio
para escapar da destruição ordenada pela igreja ortodoxa em destruição
de toda heterodoxia e heresia. Os manuscritos contêm 52 textos correspondentes aos evangelhos gnósticos dos quais a ortodoxia cristã
percebeu ser a mais perigosa e insidiosa das heresias, incluindo um grande
número de escritos gnósticos, que se pensava fossem destruídos durante as
primeiras lutas para definir a ortodoxia das escrituras. Entre elas estão os
evangelhos de Tomé, de Filipe e o Evangelho da Verdade. Pelas características
de linguagem parece terem origem na Síria numa comunidade judeu-cristã. Parte
de suas logia (=ditos) foram encontrados nos fragmentos de papiros de
Oxyrhynchus datados estes últimos do século III.
LUGAR E TEMPO: O
Evangelho de Tomé é da metade do século II como original. O códice mais antigo (séc IV) forma parte do
grupo de Nag Hammadi, que como temos explicado foi encontrado em 1945.
CONTEÚDO: Não é um evangelho, pois falta a parte narrativa
e sim um conjunto de logia entre as quais podemos contar algumas parábolas tão
breves, que podem ser contadas como logia. O número das mesmas é de 144 das
quais 21 têm uma correspondência muito próxima nos sinópticos. Outras
parecem-se com as existentes nos dois evangelhos dos Hebreus e dos Egípcios. A
imensa maioria começa com disse Jesus.
AUTOR: Não é Tomé o discípulo incrédulo de que fala o
evangelho de João. Por isso dirá S. Cirilo de Jerusalém no fim do século IV: Que
ninguém leia o evangelho de Tomé, pois não é um dos 12 apósotlos mas um dos
três discípulos pérfidos de |Manes.
CARÁTER: Embora a maioria dos logia possa ser entendida de
modo canônico, existe um substrato maniqueu. Exemplo a 77: Disse Jesus Eu
sou a luz que está sobre todos eles. Eu sou o universo: o universo surgiu de
mim e tem chegado até mim. Parti um madeiro e ai estou eu, levantai uma pedra e
ai me encontrarei. Outra a 144: Simão Pedro lhes disse: Que se afaste
Mariam de nós, pois as mulheres não são dignas da vida. Disse Jesus: Olha eu me encarregarei de de
torn[a-la macho de modo que também ela se transforme em espírito vivente,
idêntico a nós os homens, pois toda mulher que se torne hpmem entrará no reino
do céu.
EVANGELHO DE FILIPE (séc II)
LUGAR E TEMPO: O evangelho teve origem no final do século
II e estava no grupo de códices de Nag Hammadi. O apóstolo Filipe é o preferido
pelos gnósticos para difundir sua doutrina esotérica (oculta e reservada).
CONTEÚDO: São 127 sentenças ao estilo do evangelho de
Tomé, espécie de pensamentos de fundo gnóstico-valentiniano que constituem um
testemunho original da gnosis cristã do século II, especialmente em seu aspecto
soteriológico (salvação por Cristo) O ideal do gnóstico é a conjunção da
imagem(= sêmen espiritual ou alma do pneumático como elemento feminino) com seu
anjo ( elemento masculino), como corresponde ao matrimônio entre Cristo e o
Espírito Santo ou entre o Salvador e a Sofia interior no plano superior; ou
entre Jesus e Maria Madalena na esfera terrena. Esta união entre sementes
pneumáticas e seus anjos se contrai no sacramento da câmara nupcial como
símbolo dos escolhidos no Pleroma.
OS SACRAMENTOS: São denominados mistéria. Na
sentença 68 enumeram-se cinco sacramentos: batismo, unção, eucaristia, redenção
e matrimônio. Não sabemos qual é o sacramento da redenção que pode ser a unção
dos enfermos ou o sacramento da penitência. De todos os modos vemos como estes
estavam em vigor muito antes de serem desprezados pelos evangélicos antes de
Trento.
EXEMPLOS: 52.-Um asno, dando voltas ao redor de uma pedra
de moinho caminhou 100 milhas.e quando o desataram encontrava-se no mesmo
lugar. Há homens que caminham muito sem adiantar um passo em direção alguma. Ao
terminar o dia não tem visto nem cidades, nem vilas, nem criação alguma, nem
natureza, nem potências, nem anjos. Esforçaram-se em vão! 53 : A Eucaristia é
Jesus, pois a este se denomina em siriaco Pharisata, que quer dizer aquele que
está estendido (=crucificado). pois Jesus veio crucificar o mundo.- 55: A
Sofia. Chamada estéril, é a mãe dos anjo, a companheira de Cristo é a Madalena.
O Senhor amava–a mais do que a todos os discípulos e a beijou na boca...72:
Jesus tinha corpo perfeito, uma carne verdadeira ao ser ressuscitado. Nossa
carne não é autêntica mas uma imagem da verdadeira [contra os modernos que
supõem que a ressurreição é espiritual]. 110: Quem possui o conhecimento
(gnosis) da verdade é livre e quem é livre não peca, pois quem peca é escravo
do pecado.
EVANGELHO DA VIDA
Não é um evangelho nem tampouco logia ou ditos de Jesus
mas uma longa disquisição de fundo gnóstico em que se fala do Pai( o sem
limites e inconcebível), do Todo, do Logos(o primeiro a brotar do Pai), de Jesus a quem num de seus parágrafos chama
de Mãe, e do Espírito Santo que é o seio do Pai, da Verdade como sendo a boca
do Pai cuja língua é o Espírito Santo. Os espaços são as emanações do Pai. Cita
também o Pleroma e fala dos Eons como coisas conhecidas, sem explicar os significados
das mesmas. Parece que é o filho do Pai o que aparece em forma de carne. O
número 100 significa o Pai. O Pleroma é o lugar do descanso, mas por outra
parte todas as emanações saídas do pai são Pleromas.É difícil e fatigoso ler
semelhante sermão sem unidade e com numerosas repetições nem sempre
concordantes.
CONCLUSÃO
Os apócrifos praticamente não acrescentam nada aos
evangelhos e parecem ser bem mais
comentários gnósticos de verdades evangélicas misturadas com filosofias
neoplatônicas. Não existe uma unidade de idéias, e a confusão é a base de sua
inverosimilitude ou falsidade. A ortodoxia os combateu com o recurso à tradição
apostólica.Terminamos assim um resumo das heresias e dos evangelhos não
canônicos escritos no século II.