OS
PRIMEIROS CONCÍLIOS
(Pe.
Ignácio, dos padres Escolápios)
INTRODUÇÃO: Vivemos num mundo em que são tantas as mentiras que é difícil conhecer a
verdade. Isso pode ser também afirmado da verdade religiosa, de modo que, ou admitimos
que cada um tem sua verdade, e daí a confusão e multiplicação das crenças, ou
se admitimos que a verdade é una ou única, temos a obrigação de buscá-la até a
encontrar. No caso anterior, a tolerância deve ser a primeira conseqüência, e a
intolerância a última e ilógica conclusão. No segundo caso, entraríamos na
teoria das probabilidades para deixar uma porta aberta a outras escolhas e de
um modo especial, vista a subjetividade individual em que se transforma a busca
e a posse da verdade universal, também estaríamos obrigados à tolerância. Esta,
pois, deve ser a base da religião atual, qualquer que sejam suas premissas.
Porém nem sempre foi a
tolerância o motor das relações religiosas, nem podemos afirmar que ela o seja
hoje em todas elas. De fato, a diversidade religiosa foi outrora tratada como
um mal a combater, como se a intolerância fosse uma virtude e não um defeito,
um dever e não uma conduta viciosa e errada.
Ao intentar escrever
sobre os primeiros Concílios da Igreja, veremos como não é questão de
disciplina ou norma de vida o que neles essencialmente se discutia, mas é a
natureza de Deus, especialmente a sua natureza trinitária e na sua relação com
o homem, ou seja a salvação do mesmo.
ECUMÊNICO: A palavra provém do grego (oikumene=terra habitada) e em termos
modernos significa universal. Muitos admitem o Concílio de Nicéia(325)como o
primeiro concílio ecumênico, mas outros pensam que o primeiro digno desse nome,
foi o concílio de Jerusalém(43), celebrado este em vida dos apóstolos. Como em todos
os concílios, em Jerusalém temos duas partes bem diferentes: a principal é a
verdade teológica(respeito a Deus) a ser aplicada e representada em termos
humanos e portanto analógicos e imperfeitos, embora filosóficos e científicos,
que chamamos de teológicos. Por serem científicos têm o carimbo de serem
absolutos e irrefutáveis. Eles constituem a base da crença ou da fé. A segunda
corresponde aos cânones ( normas ou regras) a serem observados na vida prática.
Estes parecem mais moldáveis e cambiantes, segundo os costumes particulares de
cada época. Se os primeiros constituem o credo comum, os últimos formaram a
base do que se tem chamado Direito . Ambas as partes podem ser encontradas no
Concílio de Jerusalém.
O PROBLEMA TEOLÓGICO: Alguns cristãos dos chamados judaizantes, ensinavam: "Se não vos
circuncidais, segundo a prática de Moisés, não podereis ser salvos(At 15,1).
Aparentemente era um erro ou desvio de conduta. Na realidade como Paulo
demonstra em Gal 2 e 3, era um erro doutrinal. Pois se a circuncisão fosse
necessária, a cruz de Cristo(=redenção) seria inútil. Admitir a necessidade da
circuncisão era esvaziar a cruz de Cristo. Por isso no Concílio a resposta foi
dada de modo pleno e satisfatório por Pedro: "Cremos que somos salvos pela
graça do Senhor Jesus, tanto os judeus como os pagãos"(At 15,11).
Ou seja, a salvação, para todos, tem como causa e origem a obra gratuita e
amorosa de Jesus(Xaris em grego).
OS CÂNONES: como em todos os concílios ecumênicos, após a determinação de uma
particular verdade teológica, hoje chamada de dogma, procura-se resolver
problemas de conduta, muitas vezes desordenada por não dizer pecaminosa. Se os
gentios não estavam obrigados à circuncisão, qual deveria ser sua conduta em
termos relativos aos ídolos, e comidas e relações matrimoniais que implicavam
impurezas, contraídas segundo a lei, e portanto afastamento de Deus, segundo
pensar comum na época? De todas as inúmeras formas de impureza contaminantes
que impediam a convivência com os judeus, Tiago só pede três abstenções, que
constituíam a lei chamada dos filhos de Noé e que eram propostas aos pagãos
conversos que freqüentavam a sinagoga. A impureza de contaminação provinha dos
idolotitos, as carnes compradas nos açougues e que eram parte dos animais
sacrificados aos ídolos; a impureza da fornicação que os modernos entendem de
contrair matrimônio com pessoas consangüíneas, e que talvez poderia ser em
parte a de usar o matrimônio durante a menstruação, e finalmente a impureza de
comer ou beber sangue de animais, em cujo caso entrava a comida de animas
sufocados, dos quais o sangue não foi retirado antes da morte. Compreende-se
que a convivência de judeus e pagãos era difícil nos primeiros momentos do
cristianismo e que aqueles, acostumados a uma série de complicadas leis de
pureza que faziam insuportável a vida, como diz o Senhor(Mt 23, 4), tivessem
reparos em aceitar os novos irmãos dentro de suas reuniões.
CONCLUSÃO: O primeiro problema, o da circuncisão, demorou muito tempo em ser
resolvido e constituiu a grande cruz de Paulo( talvez em parte se refira a isso
dizendo que estava sofrendo o que faltava à cruz de Cristo). Mas também foi a
base de sua doutrina sobre a liberdade da lei, nas suas cartas aos Gálatas,
Romanos e Efésios. Hoje é um problema completamente resolvido e esquecido.
Enquanto aos cânones, como norma de conduta cristã, sabemos que estavam
vigentes no século II pelas palavras dos mártires de Lião; mas desapareceram
com o tempo desde que o convívio com os judeus não foi mais necessário, e não
constituem hoje em dia objeto de legislação eclesiástica alguma.
O CONCÍLIO DE NICÉIAI: A
PARTE DOGMÁTICA
CONCÍLIO: A palavra concílio (do latim concilium) significa convenção, reunião. A
convocação dos mesmos não tem origem eclesiástica nos quatro primeiros, até o
de Calcedônia inclusive (451); mas foram convocados pelos imperadores de
Constantinopla. Devemos distinguir entre concílios e sínodos, estes últimos
restringidos a lugares e casos mais particulares, embora a palavra concílio
fosse usada também para sínodos locais. Os concílios são designados pelos nomes
das cidades onde teve lugar a reunião. Caso de haver mais de um concílio na
mesma cidade, recebe um numeral distintivo, como por exemplo Nicéia II ou
Constantinopla IV. Tanto os católicos como os gregos ortodoxos e algumas
denominações evangélicas aceitam como válidos os oito primeiros concílios até o
Constantinopolitano IV (869) antes da excisão entre as dois grandes ramas da
Igreja em oriental e ocidental. Vamos nos deter no primeiro concílio ecumênico,
o de Nicéia I em 325. Houve um outro concílio em Nicéia em 787(Nicéia II) que
condenou os iconoclastas ou aqueles que queimavam imagens e que logicamente
certos evangélicos não consideram como ecumênico.
CONCÍLIO DE NICÉIA I: Junto com o Constantinopolitano I determinou a base da crença na
Trindade, pela qual os que somos cristãos nos distinguimos dos judeus e dos
maometanos, professando uma fé num Deus único, mas ao mesmo tempo trino em
pessoas que nos distingue das outra religiões que entram na denominação de religiões
do "livro". Os outros dois concílios que determinam a Encarnação,
Éfeso e Calcedônia, entram dentro dos quatro admitidos hoje por todos os
cristãos. Diante da autonomia do Bispo local, considerado como representante
dos apóstolos, o concílio é a única possibilidade de dar expressão à unidade da
Igreja. A partir de Constantino, as normas eclesiásticas que acompanham as
definições dogmáticas dos concílios ecumênicos, constituem decisões que tem
efeito civil de leis imperiais.
CONVOCAÇÃO DO CONCÍLIO: Foi o próprio Constantino que o convocou, embora pensou inicialmente em
Ancira(centro da Anatólia ou Ásia Menor atual), porque o bispo do lugar era
contrário aos arianos, contra os quais se queria combater. Mas depois se
inclinou por Nicéia, no momento capital do império. Foi um gesto favorável aos
arianos tanto porque o bispo local, Teógnides, como também o
metropolitano(bispo da região, Eusébio de Nicomedia, se mostravam benévolos aos
mesmos. O programa de Constantino, que já encontrava um Oriente quase totalmente
cristão, era realizar uma pacificação geral da Igreja e uma nova organização da
mesma, porque, como instituição, se tornara fundamental para a convivência
dentro do império romano, neste caso no Oriente. Pretendia assim mesmo, por fim
ao cisma originado em Antioquia desde o ano 268 com a condenação do antioqueno
Paulo de Samosata.
AS FONTES: A fonte mais importante sobre o Concílio não é direta, como podem ser
as atas do mesmo, que não existem no caso, mas os relatos de dois dos
protagonistas, nunca enfrentados com outros mais independentes. São eles
Eusébio, bispo de Cesaréia, de tendências pro-arianas, e Atanásio, mais tarde
patriarca de Alexandria, que na época era diácono e acompanhava o seu bispo
Alexandro,o metropolita da região. Se os bispos eram os sucessores dos
apóstolos, que presidiam as igrejas particulares geralmente nas cidades
importantes, os metropolitanos eram os bispos de uma capital regional, ou
província do Império que não tinham outro poder senão o moral de convicção e o
de convocar sínodos chamados provinciais. Alguns destes metropolitanos,
situados em lugares de suma importância, receberam mais tarde no Concílio de
Calcedônia(451) o título de Patriarcas. Eram cinco os patriarcas: Roma,
Alexandria, Antioquia, Jerusalém e Constantinopla.
EUSÉBIO DE
CESARÉIA(265-340): Era bispo de Cesaréia na
orla mediterrânea da Palestina. De caráter contemporizador e diplomático, era
simpatizante das idéias arianas. Suas duas obras principais eram a Crônica da
História Universal e a História Eclesiástica. São também notáveis Os mártires
da Palestina na perseguição de Diocleciano(303-310) e a Vida de Constantino.
S.ATANÁSIO(295-373): Manteve uma luta incessante para defender a fé de Nicéia, pelo que foi
desterrado cinco vezes, tendo que sofrer inúmeras perseguições de toda classe.
Inflexível contra os hereges, demonstrou compreensão para com os pecadores
frente à intransigência de Lucifer bispo de Cagliari na Itália. Suas obras mais
importantes são De Incarnatione et contra Arrianos, como obra dogmática e
apologética, e a Vida de S Antônio o abade da Tebaida, como história.
ÓSIO DE CÓRDOBA(257-358): Um dos mais veneráveis bispos da antiguidade, confessor, ou seja que
havia sofrido tormentos pela fé; em 294 residia em Roma onde conheceu
Constantino e foi presidente do Concílio de Nicéia para mais tarde presidir o
Sínodo ou concílio de Sárdica, cujos cânones ou sentenças ele escreveu. Morreu
com 101 anos de idade, caso quase único para aqueles tempos.
ECUMÊNICO:O imperador, queria que o maior número possível de bispos assistisse ao
concílio para o que pos à disposição dos mesmos todo o aparato estatal. A
Anatólia(hoje Turquia asiática) a Palestina e Cartago eram praticamente
cristãs. A influência do cristianismo era grande em Alexandria, parte da península
ibérica, sul francês e em grandes regiões da Itália atual, junto com o delta do
Nilo. Podemos afirmar que do Oriente a participação foi majoritária. Do
Ocidente é certa a participação de Ósio e dos dois delegados do papa de Roma,
os presbíteros Vito e Vicente, sendo discutida a de dois bispos latinos. Tanto
Eusébio como Atanásio consideraram o concílio, vistas as circunstâncias, em que
o cristianismo se desenvolvia, como universal e como um novo Pentecostes. Foi
sem dúvida de caráter ecumênico, ou mais propriamente irênico(de reconciliação
e paz) pois foram convidados tanto grupos opostos como expoentes cismáticos.
Como ecumênico o designaram Eusébio e Atanásio, máxime se o consideramos em
oposição aos sínodos arianos celebrados em Oriente.
OS 318 PADRES: O número de bispos assistentes oscila entre os 250 de Eusébio e os 300
de Constantino e Atanásio. Posteriormente falou-se de 318 número que
representava os servidores de Abraão de Gn 14,14. Por isso desde a segunda
metade do século IV o Concílio de Nicéia será denominado geralmente como o
Concílio dos 318 padres. Dentre eles somente Ósio de Córdoba, Cecílio de Cartago, Marco de
Calábria, Nicásio de Dijon, Dono de Estridão na Panônia e os dois presbíteros
Victor e Vicente, representativos do Papa, eram ocidentais
HOMOOUSIOS: Este termo é sem dúvida o que melhor expressa a igualdade de natureza
entre o Pai e o Filho. Era um vocábulo novo; tratava-se de um termo
controvertido por não existir na literatura bíblica, ou escriturística como se
dizia na época. Havia mais outras razões para não admiti-lo: Em primeiro lugar,
o perigo de uma concepção materialista da divindade como se o Pai e o Filho
fossem porções separáveis de uma mesma substância. Em segundo lugar, existia a
suspeita de modalismo ou sabelianismo. O Modalismo, negando a distinção de
pessoas, afirmava que o Filho e o Espírito santo eram unicamente modos ou
atributos do Pai. Daí o nome de Modalismo. Sabelius, heresiarca originário da
Líbia(norte da África), identifica o Pai e o Filho, sendo o Espírito Santo um
modo(ou forma) da identidade entre Pai-Filho. Foi condenado em Roma pelo papa
Calixto I no ano 275. Em terceiro e último lugar, existia o caso de ter sido
condenada a palavra Homoousios no sínodo de Antioquia (268) contra Paulo de
Samosata que negava a divindade de Cristo. A principal razão era sem dúvida que
não era um termo escriturístico. Os ortodoxos(os não hereges) resolveram a
questão dizendo que também a eles lhes teria gostado usar termos bíblicos; mas
isto não era possível pela ambigüidade dos mesmos tal e como eram usados pelos
arianos. Além disso, embora não apareça na Escritura, a palavra reflete
claramente o sentido da mesma. Hoje diríamos que a Escritura usa uma linguagem
popular e que homoousios traduz as idéias da Escritura em termos filosóficos,
bem delimitados e concretos. Com respeito à condenação do homoousios no sínodo
antioquino, foi devido a uma concepção materialista da divindade. Afastada esta
idéia, a palavra mais apta para definir a unicidade de natureza em Deus não podia
ser outra diferente. Foi precisamente o Imperador Constantino quem afirmou que
o uso desta palavra não deveria ser entendido em sentido material, conforme
sucede com os corpos, pois as realidades visadas pelo símbolo, não eram
corporais, mas espirituais. Por isso a geração do Filho pelo Pai não produziu
excisão ou divisão alguma na divindade. Assim, afirmava Eusébio, que
consubstancial ( tradução do homoousios)ao Pai, indica que o Filho de Deus não
tem nenhuma semelhança com as criaturas mas que é em tudo semelhante ao Pai que
o gerou , sem que se derive de outra natureza, ou substância(hypóstase), além
da do Pai. A palavra em termos filosóficos tinha sido usada pelos
neoplatônicos, especialmente Plotino e Porfírio na metade do século III, .a
propósito de seres que pertencem à mesma classe e compartem os mesmos
conteúdos. No âmbito cristão o termo procedia da literatura gnóstica indicando
semelhança no ser. Por outra parte ainda não existia uma clara distinção entre
hypóstase e ousia, confusão que só seria aclarada no Concílio de
Calcedônia(451).
O SÍMBOLO: No Palácio Imperial de Nicéia, na sala régia, os Padres conciliares
deram a máxima importância à tradição que também era invocada pelo heresiarca
Ário. Daí que ao elaborar um símbolo, todos recorressem aos símbolos recitados
e tidos como normas de fé nas respectivas igrejas locais. Esta fé foi exposta
em três artigos principais: Pai, Filho e Espírito Santo. Estes três pólos
tinham como base as instruções do Ressuscitado a seus discípulos em Mt 28,19: "Anunciai
o evangelho a todas as gentes, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do
Espírito santo". Este texto servia como base para a profissão de fé no
batismo nas diversas igrejas locais. Parece que o símbolo, tomado como modelo,
era o Jerosolimitano-antioquino pelas semelhanças e analogias com os
apresentados por S. Epifânio de Chipre (315-403), que oferece em seu Anacoratus
2 símbolos de fé, e S. Cirilo de Jerusalém(313-385), que em suas 24 Catequeses
explica o símbolo de fé do batismo. Geralmente se dá como fato admitido
a formulação de um símbolo, o Niceno, que outros afirmam ser o
Jerosolimitano-antioqueno. Segundo a Catholic Encyclopedia eis a fórmula do
mesmo: "Cremos em um único Deus, o Pai todo-poderoso , criador de todas as
coisas, visíveis e invisíveis; e num único Senhor, Jesus Cristo, o único Filho
gerado do Pai, isto é, da substância (ek tes ousias)do Pai, Deus de Deus, luz
da luz, verdadeiro Deus do Deus verdadeiro, gerado não feito, da mesma
substância com o Pai (homoousios to Patri), através do qual todas as coisas
foram feitas tanto no céu como na terra; que por nós homens e por nossa
salvação desceu, se encarnou e foi feito homem, sofreu e ressuscitou de novo ao
terceiro dia, ascendeu ao céu e virá a julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito
Santo" E logo acrescenta o anátema: "Aqueles que dizem: Houve um
tempo quando Ele não existia, e Ele não era antes de ser gerado; e que Ele foi
feito da nada(ex ouk onton); ou que afirmam que Ele é de outra hypóstasis ou de
outra substância(que o Pai),ou que o Filho de Deus é criado, ou mutável ou
sujeito a mudanças, a eles a Igreja Católica anatematiza".
FORMULAS ESPECÍFICAS: As chamadas interpolações ou inserções antiarianas são estas: 1a)
"Isto é, da essência (ousias em grego)do Pai". Os arianos afirmavam
que o Logos( a palavra, ou Filho)era criado da nada e não existia nenhuma
comunhão ontológica(de ser) entre Pai e Filho 2a) "Deus
verdadeiro(alethinon) de Deus verdadeiro". Os arianos afirmavam que o Pai
era verdadeiro Deus, enquanto o Filho era(simplesmente) deus 3a)
"Gerado(gennetheta), não criado( poiethenta)".Com estas fórmulas
desaparecia a duvidosa de "Filho de Deus".. Também os judeus se
consideravam filhos de Deus(Jo 8,42).
A ADESÃO: Em geral foi geral e entusiasta. Todos os bispos, a exceção de cinco,
se declararam dispostos a subscrever esta fórmula, convencidos de que ela
continha a antiga fé dos apóstolos. Os oponentes reduziram pronto a dois:
Theodas de Marmárica e Segundo de Ptolemais que foram exilados e
anatematizados. Ário e seus escritos foram anatematizados e seus livros jogados
ao fogo e ele exilado a Ilíria. A lista dos que firmaram tem chegado a nós
mutilada e desfigurada pelas cópias imperfeitas dos copistas, porém não se pode
negar de sua autenticidade. Em total são 232 ou 237 nomes.
CONCLUSÃO TEOLÓGICA: Temos visto como a ciência teológica se abriu passo a passo às
apalpadelas sobre questões que hoje nos parecem tão simples e normais e das
quais não existiam conceitos claros nos primeiros séculos. Por outra parte a
tradição sempre teve um papel importante nas definições dogmáticas como nos
cânones limitadores dos abusos disciplinares como veremos em novo informe. A
tradição foi uma constante de todas as igrejas primitivas, já que a transmissão
era da palavra muito mais do que da escrita, cujo cânon foi tardiamente
elaborado. Duas idéias são importantes de toda esta disputa
ariana: primeiro a unicidade do dogma ou de fé que quer ser mantida dentro duma
Igreja que a si mesma se denomina CATÓLICA e que expulsa como anatematizados os
que a esse dogma trinitário e cristológico não se aderem. Segundo: a constante
recurso tanto dos católicos como dos arianos à tradição. Estamos no século IV e
portanto 300 anos após a morte de Cristo. Existiam documentos escritos como os
evangelhos, tantas vezes citados pelos escritores e bispos da Igreja e nã
obstante é a tradição a que leva a palma e dita a fé. Nihil innovetur nisi quod
traditum est, dirá o papa a uma consulta sobre o batismo; e esta parece ser a
atitude de uma Igreja que segue perfeitamente o proceder de Paulo: "Eu vos
transmiti, em primeiro lugar, o que eu mesmo recebera"(I Co 15,3) A morte
de Cristo, o enterro, a ressurreição. Tudo foi conforme as escrituras, um
testemunho profético em que a palavra divina precede a realidade histórica. Mas
as aparições, o testemunho, são atos de tradição que todos proclamam e no que
os de Corinto acreditam porque têm fé(idem 11)
IIA PARTE: OS CÂNONES DO
CONCÍLIO
OS CÂNONES: Como em todo concílio esta é a parte disciplinar. São 20 cânones ou
normas. A palavra cânon significava cana ou regra de medir . São normas com
respeito às ordenações presbiterais e eleições dos bispos, os lapsi(caídos) nas
perseguições, e jurisdição de patriarcas. Deles ressaltamos o cânon 3: Proíbe
estritamente todo bispo, presbítero, diácono, ou qualquer do clero a ter uma
subintroducta(mulher alheia) morando com ele, exceto mãe, ou irmã, ou tia, ou
uma pessoa que esteja fora de qualquer suspeita. Cânon 6: Sobre jurisdição dos
patriarcas à semelhança do Bispo de Roma, o de Alexandria terá certa jurisdição
sobre os sucedâneos de Egito, Líbia e Pentápolis, de modo que não poderá ser
ordenado bispo dentro de seu território sem o consenso do Metropolitano. O que
serve também para o Metropolitano de Antioquia. Cânon 9: Somente um homem sem
culpa pode ser ordenado presbítero. Cânon 15: Bispos, presbíteros e diáconos
não devem passar de uma igreja a outra. Nada existe sobre a separação entre
evangelhos canônicos e apócrifos como relata Roberto C. P. Júnior que a si
mesmo se intitula escritor. Mas disto falaremos em próximo artigo.
ALGUMAS OBSERVAÇÕES SOBRE
O CÂNON IV:. Muitos comentaristas
consideram este cânon como o mais importante dos vinte aprovados pelo Concílio.
Ele diz: "Prevaleça o antigo costume no Egito, Líbia e Pentápolis de modo
que o bispo de Alexandria tenha jurisdição em todos eles, posto que o mesmo é
costumeiro para o Bispo de Roma também....E isto é entendido de modo geral de
forma que, se qualquer um é feito bispo sem o consenso do Metropolitano, o
grande Sínodo há declarado que tal pessoa não é bispo..." A primeira
tradução latina deste cânon, a chamada Prisca(antiga), modifica o texto grego e
diz: "É de antigo costume que o bispo da cidade de Roma tenha um Primado
de modo que governe, com seus cuidados, os lugares suburbicários e toda sua
própria Província". Os comentaristas gregos do século XII disseram
bastante explicitamente que este sexto cânon confirma os direitos do Bispo de
Roma como Patriarca sobre todo o Ocidente. Em fins do século IV havia 120
metropolitas em 120 províncias. O Império Romano havia anteriormente instituído
a diocese civil para agrupar as províncias. A diocese era dirigida por um
vicarius; a Igreja adotou igual organização. No Oriente havia cinco dioceses.
Teria portanto 5 dioceses religiosas. Em cada parte do Império Romano se
reconhecia a autoridade superior de uma igreja- Antioquia para Síria e regiões
vizinhas; Éfeso para a Ásia Menor; Alexandria para o Egito; Cesaréia para a
Pérsia.; Constantinopla para a Grécia; Esse sistema não foi adotado nem na
Gália, nem na Espanha, nem na Itália onde o papel do Bispo de Roma era bem
diferente.Daí as discussões geradas por este cânon. Posteriormente surgiram os
Patriarcados e com eles certos antagonismos e certos particularismos foram
introduzidos na Igreja. Segundo a versão árabe, ao parecer anterior ao Concílio
de Constantinopla(381) nos tempos de Teodósio, "o Patriarca deve ter
cuidado sobre os bispos e arcebispos de seu patriarcado. A primazia do Bispo de
Roma cabe sobre todos....Embora o arcebispo seja entre os bispos o irmão mais
velho, que cuida de seus irmãos e os mantenha em obediência porque tem
autoridade sobre eles, o patriarca está acima de todos eles. Do mesmo modo o
que ocupa a sede de Roma é a cabeça e o príncipe de todos os Patriarcas, pois que
é o primeiro, como foi Pedro, a quem foi dado o poder sobre todos os príncipes
cristãos, sobre todos os povos, sendo o Vigário de Cristo Nosso Senhor sobre
todos os povos e sobre toda a Igreja Católica. Quem contradizer isto, seja
excomungado pelo Sínodo". Seguindo esta mesma versão, teremos um cânon 35
que diz: "Deve haver somente quatro Patriarcas em todo o mundo, como há
quatro evangelhos e quatro rios.. E deve haver um príncipe e chefe deles, o
Senhor da sede do sublime Pedro de Roma, como ordenaram os apóstolos. Após ele,
o Senhor da grande Alexandria, que foi a sede de Marcos. O terceiro, o Senhor
de Éfeso, que foi a sede do sublime João que disse coisas divinas. E o quarto e
último é o meu Senhor de Antioquia , que é a outra sede de Pedro. Os bispos
sejam divididos pelas mãos destes quatro patriarcas. Os bispos das pequenas
cidades que estão sob a autoridade de grandes cidades fiquem sob autoridade dos
respectivos metropolitas. Cada metropolita das grandes cidades designe os
bispos das províncias, mas nenhum bispo os designe, pois que o metropolita é
maior do que os bispos". Vamos explicar alguns termos.
.Metropolita: Significa
cidade mãe em grego; é o bispo que na antiguidade tinha uma primazia ( lugar
preferente) e poder de jurisdição (mandato) sobre outras sedes episcopais em
suas vizinhanças. A primazia tinha como símbolo o pálio, que era um dossel
mantido como um pano sobre a cabeça do metropolita por 4 ou mais varas seguras
por portadores. Hoje, no Ocidente a palavra metropolita designa o arcebispo de
uma província eclesiástica que tem sobre os bispos das sedes sucedâneas
unicamente uma preferência puramente honorífica. O pálio atual é uma faixa
branca com cruzes pretas que o Papa e alguns metropolitas levam como estolas.
Patriarca: Titulo dos doze
chefes das tribos de Israel. No NT título dado aos bispos que desciam
diretamente de Pedro como Antioquia e Roma, sendo que Alexandria foi escolhida
por ser fundada diretamente por Marcos, discípulo de Pedro. No Concílio de
Nicéia, Jerusalém teve também o título de Patriarca; e mais tarde
Constantinopla porque era a nova Roma. Nos tempos modernos temos o patriarca de
Veneza e o patriarca das índias ocidentais entre outros.
Província : Desde o século
IV à semelhança da administração civil, a eclesiástica adotou o mesmo tipo de
organização, tendo o bispo chamado metropolita, hoje arcebispo, um conjunto de
dioceses sobre as quais presidia.
Primado: O bispo que pela
antiguidade de sua igreja tem o lugar preferente numa determinada nação ou
região, como é o arcebispo de Salvador no Brasil.
CONCÍLIO DE NICÉIA IIIa
PARTE
O CONCÍLIO VISTO PELOS
DISSIDENTES NÃO CATÓLICOS. (APOLOGÉTICA)
"Em 313 D.C. com o
grande avanço da Religião do Carpinteiro o imperador Constantino Magno enfrenta
problemas com o povo romano e necessitava de uma nova religião para controlar
as massas.(1).Aproveitando-se da grande difusão do Cristianismo, apoderou-se
dessa Religião e modificou-a, conforme seus interesses.(2) Alguns anos depois,
em 325 D.C.,no Concílio de Nicéia, é fundada, oficialmente, a Igreja
Católica..(3) o Concílio de Nicéia .., presidido por Constantino era
composto pelos Bispos que eram nomeados pelo Imperador e por outros que
eram nomeados por líderes Religiosos das diversas comunidades(4). Tal Concílio
consagrou oficialmente a designação "Católica", aplicada à Igreja
organizada por Constantino: "Creio na igreja una, santa, católica e
apostólica".(5) Poderíamos dizer que Constantino foi seu primeiro Papa.
Como se vê claramente, a Igreja católica não foi fundada por Pedro e está longe
de ser a Igreja primitiva dos Apóstolos"(6)...
Esta citação é parte do
artigo firmado por Roberto C.P. Junior em março de 1997, e que parece citado
por Jefferson S.B., aparentemente um espírita. Que há de verdade em tudo isso?
Temos numerado os
parágrafos para poder mais facilmente refutá-los sem necessidade de citá-los
por extenso. Vejamos o 1o ponto: (Constantino) apoderou-se
dessa religião e modificou-a conforme seus interesses. A religião cristã em
tempos de Constantino era majoritária unicamente no Oriente. No Ocidente era
ainda minoritária, especialmente entre os pagos, vilas rústicas. Daí o nome de
pagãos para os gentios. Uma exceção era a região de Cartago ou Túnez. Não era o
povo romano, mas o Oriente que, com as idéias de Ário que negava a divindade de
Jesus, estava dividido. Constantino viu nessa divisão um perigo para a
sociedade majoritariamente cristã no Oriente onde ele morava. Pensava podia se
repetir o caso dos donatistas como veremos mais adiante. De fato só 5 bispos
ocidentais, e dois presbíteros, pertencentes ao Metropolita de Roma, o Papa,
estiveram presentes entre os quase 300 bispos do Concílio. A heresia de Ário
era praticamente desconhecida no Ocidente.Desde 313 até 324, doze anos,
Constantino não influiu na religião cristã do Oriente. Mais: Licínio, que era o
imperador do Oriente perseguiu os cristãos, apesar do decreto de Milano em 313
e que ele próprio promulgou pouco mais tarde em Nicomedia, a capital de seu
império. Um decênio durou esta perseguição, de modo que no ano 321 todo o
Oriente ardia em perseguição. Foi por isso que Constantino, de coração cristão,
embora só se batizasse na hora da morte, querendo conservar a paz religiosa,
lutou contra ele e o derrotou na batalha de Andrianópolis em 323. Em 324
decapitou Licínio, seu cunhado, como réu de alta traição e ficou dono de todo o
império. Como fosse recebido em Roma após dez anos de ausência de modo hostil,
e, visto o entusiasmo com que era aclamado no Oriente praticamente cristão,
Constantino levantou uma nova Roma em Constantinopla que inaugurou em 330,
dividindo o império em 4 prefeituras (Oriente, Ilírico, Itália, e Gália) com 14
dioceses e 116 províncias, base das divisões eclesiásticas. A experiência do
donatismo no norte da África, cujo extremismo e violências chegaram a perturbar
a província e até todo o norte do continente na época (313) sobre o domínio de
Constantino, foi decisiva para posteriores atuações do imperador. Foi para
aplacar os ânimos e a violência suscitada pelos donatistas, que pela primeira
vez ele interveio em problemas eclesiásticos. Reuniu em Roma um sínodo, tendo
como presidente o Papa Milciades, 15 bispos italianos, 3 galos, e 10 de cada
facção(donatistas e contrários). O sínodo de Roma foi contrário aos donatistas
que apelaram de novo; e em Arlés, um outro sínodo de caráter mais universal, de
novo condenou as bases donatistas. Por fim Constantino decidiu-se a atuar com
energia. Mas não deu certo. Os donatistas formaram sus exércitos de agonistici(lutadores)
e que foram chamados vulgarmente de circumcelliones(merodeadores). Imperadores
posteriores intentaram acalmar os ânimos e a luta chegou até os tempos de S.
Agostinho que tentou solucionar a licitude da supressão violenta da heresia por
parte da autoridade em seus escritos. As palavras de Agostinho serviram de base
para a instituição da Inquisição contra os albigenses, que alteravam a ordem
social do modo que o faziam os donatistas.. A entrada dos vândalos na África,
oprimindo juntamente hereges e católicos, acabou com o donatismo.
O 2o ponto que vamos estudar diz: "Alguns anos depois, em 325 D.C. no
Concílio de Nicéia, é fundada, oficialmente, a Igreja Católica ".Vamos
estudar o que há de verdade nesta afirmação. Tomaremos como referência
histórica a Britannica, a Catholic Encyclopedia, a História da Igreja, Volume I
da BAC e a Patrística de Johannes Quasten. Katholikos, do grego, significa
universal, palavra que, segundo os autores eclesiásticos da 2a
centúria, distinguia a Igreja cristã em geral, das comunidades locais; e também
servia para distingui-la de seitas heréticas ou cismáticas. No primeiro sentido
o adjetivo foi usado por Aristóteles e Políbio entre outros clássicos. Justino,
mártir(+ 165) fala da católica ressurreição, Tertuliano(+220) escreve sobre a
católica bondade divina e S. Ireneu (+202) sobre os quatro ventos católicos.
São palavras que hoje traduziríamos por ressurreição universal, absoluta
bondade divina e quatro ventos principais. Mas a combinação de Igreja Católica
é encontrada pela primeira vez em S. Ignácio de Antioquia(+107) na sua carta
aos de Esmirna(8): "Onde o bispo está, esteja também o povo, como onde
está Jesus, aí esta a Igreja CATÓLICA". Segundo alguns autores a palavra
deve interpretar-se como a única e só Igreja. A Britannica interpreta católica
como universal, única e a mesma, onde quer que haja uma congregação cristã. O
cânon de Muratori (c180) fala que certos escritos heréticos não podem ser
recebidos na Igreja Católica. Clemente de Alexandria(+220) declara: "Nós
dizemos que tanto em substância como em aparência, tanto em origem como em
desenvolvimento, a primitiva e Igreja Católica é a única , em concordância,
como ela faz, com a unidade da única fé"(Stromata 7,17).
Destes escritos se deduz
logicamente que o termo católico era usado tecnicamente no início da terceira
centúria(um século antes de Nicéia) para designar uma doutrina sã como oposta à
HERESIA, e uma unidade de organização como oposta ao ESQUISMA ou divisão das
seitas. Terminamos com S. Cipriano(c252). Sua obra mais extensa é Sobre a
unicidade da Igreja Católica e freqüentemente encontramos em suas obras frases
como fé católica, unidade católica, regra católica, referidas a uma ortodoxia
como oposta à heresia. Kattenbusch, professor evangélico de Giessen (Alemanha
central), não duvida em admitir que, para Cipriano, Católico e Romano são
termos intercambiáveis. Mais: a palavra católica algumas vezes foi usada como
substantivo para substituir seu equivalente Igreja Católica, como no fragmento
Muratoriano e em Tertuliano. Terminamos com palavras de S Cirilo de Jerusalém
(c. 347): "Se por acaso tens que pernoitar numa cidade, pergunta não só
onde está a casa do Senhor, - porque as seitas também chamam seus tugúrios casa
do Senhor- não só onde está a igreja, mas onde está a Igreja Católica. Porque
este é o nome peculiar do santo corpo, mãe de todos nós". Para terminar em
suas catequeses: "A Igreja é chamada católica na base de sua extensão
universal, sua completa doutrina, sua adaptação a todas as necessidades dos
homens de toda classe, e de sua perfeição moral e espiritual".
Igreja Católica em
Nicéia: O Credo, atribuído ao Concílio, rejeita os erros arianos sobre a
temporalidade do Filho e a diferença de essência do Pai, e termina com estas
palavras: "a todos eles a Católica e Apostólica igreja anatematiza".
Se estas palavras podem ser consideradas uma adição posterior, não podemos
dizer o mesmo do cânon 8, em que referindo-se àqueles que a si mesmos se
consideram Cataros(limpos), quando retornarem à Católica e Apostólica
Igreja...deverão professar por escrito que observarão e seguirão os dogmas da
Católica e Apostólica Igreja. E fala não só dos dogmas da Igreja Católica, mas
também dos bispos ou presbíteros da Igreja Católica. Com estes exemplos basta
para que o leitor tenha uma idéia clara do assunto. Caso queira ver mais
detalhes, pode consultar em advent/org e catholic encyclopedia o artigo
Catholic.
3O) PONTO: "O Concílio de Nicéia...presidido por Constantino era composto
pelos bispos, que eram nomeados pelo Imperador e por outros que eram nomeados
por líderes religiosos das diversas comunidades". Que existe de
verdade nesta afirmação? Já temos visto como Constantino só foi dono do Oriente
no ano 324, ano anterior ao Concílio. O Oriente, do qual procediam a maioria
dos bispos, acabava de sofrer uma perseguição sob Licínio, originada em 320,
sendo esta uma das causas da guerra entre os dois cunhados, que terminou com a
batalha de Andrianópolis e no ano seguinte com a morte de Licínio e seu filho
em Tessalônica. Do Ocidente, em que reinava Constantino na época, só 5 bispos
estiveram presentes. Tudo isso é completamente contrário à afirmação que
tentamos refutar.
Presidido por
Constantino: É verdade que foi Constantino quem chamou os bispos para um
concílio por medo que surgisse uma "contenda não nascida de algum mandato
importante da lei". Por isso chamou em carta Ário e Alexandro(seu bispo em
Alexandria) a ter o mesmo sentimento, e uma mesma comunhão, pois é indecoroso e
contra lei que um povo tão numeroso , povo de Deus, seja governado por seu bel
prazer, comportando-se ambos como êmulos que disputam por picuinhas e minúcias.
Constantino tinha uma experiência desagradável com os donatistas do norte da
África, e daí seu interesse em ter a paz e a concórdia. Também é verdade que
esteve presente na aula inaugural; que ele dirigiu um apelo aos bispos para
encontrar a unidade. Mas os debates e as conclusões do concílio foram feitos
pelos bispos de maneira livre, pois Constantino não votou nem usou qualquer
força para dirigir os votos dos padres consulares. Dos 300 bispos em números
redondos reunidos, 17 não estavam conformes em aceitar o credo. Mas finalmente
só três se negaram. A razão foi a palavra Homoousios, apresentada por
Constantino, devido à sua novidade e à interpretação dada por Paulo de
Samosata, tão materialista que tornava o Filho em essência igual ao Pai, com
parte da natureza comum, como um filho se assemelha ao seu pai terreno. A
natureza divina estaria dividida em duas: parte era do pai e parte era do Filho.
Vencidas as duas dificuldades, a maioria aprovou o credo. É verdade que
Constantino desterrou dois bispos à Ilíria(Iugoslávia) junto com Ário e que os
livros deste último foram proibidos e mandados queimar por ordem do Imperador.
Alguns anos após o Concílio, Ário descobriu uma nova forma de interpretar o
Homoousios e apelou ao imperador. Pediu para ser readmitido na comunhão da
Igreja, mas esta última recusou. Seu apelo chegou ao imperador a quem sua irmã
Constância, moribunda no leito de morte, pediu por Ário e por isso Constantino
quis impor à Igreja uma readmissão de Ário, marcando uma data. Enquanto
esperava por essa reconciliação, forçada pelo imperador, Ário sofreu uma
indisposição e no reservado morreu por uma ruptura dos intestinos. Grande parte
desta História foi narrada por Eusébio, filo-ariano.
Mas vejamos o que diz
Atanásio na História dos Monges em 358: "Quando uma decisão da Igreja
recebeu sua autoridade do Imperador?" e "nunca os padres buscaram o
consenso do Imperador, nem o Imperador esteve ocupado com a Igreja". Foram
os heréticos os que se apoiaram no Imperador. Podemos dizer, como conclusão,
que a igreja estava desejosa de aceitar a ajuda do Imperador, de ouvir o que
ele tinha a dizer, porém não podia aceitar o rol do imperador em matéria de fé.
Devemos lembrar que o critério sobre o credo que foi chamado de católico, não
foi o pensamento do Imperador, mas o que a maioria pensava que era tradicional,
a fé dos apóstolos transmitida e pela qual muitos deles tinham dado seu sangue
(eram "confessores" das perseguições anteriores) e estavam dispostos
a dar a sua vida pela sua fé.
Com os artigos anteriores
temos visto que a Igreja não foi chamada pela primeira vez de católica, nem
fundada por Constantino, nem seus bispos eram nomeados diretamente pelo
imperador. Mas vejamos outras peregrinas afirmações para saber a verdade. Por
internet em geocitie.yahoo.com.br/luizahpbr/frases-Nticer/nic.html encontramos
nove páginas das quais pretendo refutar algumas afirmações. "O concílio
reconhece a deidade (sic) do homem da Galiléia, embora essa conclusão não tenha
sido unânime. Os bispos que discordaram, foram simplesmente perseguidos pelo
Imperador Constantino". Como temos visto, dos 300 bispos(números redondos)
só dois não concordaram. A afirmação "os bispos que discordaram, foram
simplesmente perseguidos pelo imperador Constantino" é uma meia-verdade.
Pela frase parece serem muitos os discordantes e que a perseguição foi uma
constante. Na realidade só dois bispos foram punidos. A perseguição foi um
exílio que na morte de Constança( irmã de Constantino), poucos anos após o
Concílio e vista uma nova interpretação de Ário (Ário morre em 336),
Constantino quer readmitir o heresiarca. Outra afirmação é: " poderíamos
dizer que Constantino foi seu primeiro Papa. Como se vê claramente a Igreja
Católica não foi fundada por Pedro e está longe de ser a Igreja primitiva dos
Apóstolos". Porém sabemos que os papas sempre foram bispos de Roma e
Constantino era, na época de Nicéia, o Imperador residente no Oriente e cuja capital
foi transferida de Nicéia para Constantinopla. no ano de 330..Por outra parte
temos os nomes dos bispos de Roma desde Pedro até Milciades, papa no tempo do
Concílio de Nicéia. São no total 35 papas divididos por séculos em 4+ 9+ 15+4,
dos quais dois mártires e um antipapa (Hipólito).
Eis uma outra afirmação
que pretendemos rebater. Cito textualmente : "Os quatro evangelhos
canônicos, que se acredita terem sido inspirados pelo espírito Santo,
não eram aceitos como tais no início da igreja. O bispo de Lyon, Irineu,
explica os pitorescos critérios utilizados na escolha dos quatro evangelhos (reparem
na fragilidade dos argumentos...): "O evangelho é a coluna da Igreja,
a Igreja está espalhada por todo o mundo, o mundo tem quatro regiões, e convém,
portanto, que haja também quatro evangelhos. O evangelho é o sopro do vento
divino da vida para os homens, e pois, como há quatro ventos cardeais, daí a
necessidade de quatro evangelhos. (...) O Verbo criador do Universo reina e
brilha sobre os querubins, os querubins têm quatro formas, eis porque o Verbo
nos obsequiou com quatro evangelhos". A cita é textual, com os erros de
gramática correspondentes.
Ainda temos mais uma
outra versão pitoresca, mas do lado espírita: "As versões sobre como se
deu a separação entre os evangelhos canônicos e apócrifos, durante o Concílio
de Nicéia no ano 325 D.C, são também singulares. Uma das versões diz que
estando os bispos em oração, os evangelhos inspirados foram depositar-se no
altar por si só!!!...Uma outra versão informa que todos os evangelhos foram
colocados por sobre o altar, e os apócrifos caíram no chão...Uma terceira
versão afirma que o Espírito santo entrou no recinto do Concílio em forma de
pomba, através de uma vidraça(sem quebrá-la), e foi pousando no ombro direito
de cada bispo, cochichando nos ouvidos deles os evangelhos
inspirados..."Vamos refutar estas afirmações estudando a formação do
cânon tanto do AT como do NT.
LIVROS INSPIRADOS. O
CANON
O CANON: Como se formou a lista dos livros sagrados? A palavra cânon significava
em grego junco ou caniço. As varas desse material eram usadas como réguas para
medir e portanto a palavra veio significar régua ou fixação de uma determinada
matéria. Como se formou o cânon ou se fixou os números dos escritos do Velho e
Novo Testamento?. Não entraremos com os livros do AT por eles não serem
enumerados no artigo que estamos refutando. Quem quiser ver a matéria pode
clicar em newadvent.org/ na enciclopédia católica no artigo cânon. Vamos
intentar averiguar a fonte de semelhantes afirmações. Parece seja Voltaire no
seu Dictionnaire Philosophique na seção Conciles. Era o mesmo homem que
afirmou: mente que algo fica. Mas vejamos os fatos verdadeiros.
Tendo, pois, a palavra
cânon o significado de lista dos livros sagrados, escritos sob a inspiração do
Espírito Santo, vamos, através dos documentos históricos, ver quais e quantos
são esses livros, especialmente os do NT.
LIVROS INSPIRADOS:
O primeiro a reconhecer a
inspiração é o próprio Jesus segundo o que lemos em Mateus 4,4. Jesus usa o
termo técnico judaico da época: Gegraptai(está escrito) Não só de pão vive o
homem...de Dt 8,3. Na mesma passagem vemos outras citações: Salmos e de novo
Deuteronômio. Seguindo esta tradição estudaremos os primeiros escritos dos
padres apostólicos.
A DIDAQUÉ. (90-120) -Da
crença nos livros que podemos chamar de Sagrados, está a frase da Didaque em
XVI 7, (os errethe) como "foi dito": O Senhor virá e todos os santos
com Ele de Zac 14,5 para imediatamente seguir com uma alusão a Mt 26, 64: Então
o mundo virá o Senhor vindo sobre as nuvens do céu.
S. IGNÁCIO DE ANTIOQUIA(+
107).- Fala de "Os gegraptai" como está escrito; e cita uma frase dos
Pr 18,17: O justo é acusador de si mesmo. Tem também uma citação de Mt 10, 16
quando recomenda ser prudente como a serpente e sem falsidade(simples) como a
pomba.
CLEMENTE. (+ 120) -Também
Clemente Romano com Gregaptai(está escrito) ou Legei gar e grafé (diz pois a
Escritura), afirma a crença na inspiração. Um exemplo: Miríades e miríades
estão junto dele; milhares e milhares estão ao seu serviço. E eles gritam:
Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos! Toda a criação está cheia de sua
glória.( Is 6,3). Clemente fala de Escrituras Sagradas da verdade, as do
Espírito Santo e de Ta lógia tou Theou (as palavras de Deus).
EPÍSTOLA DE
BARNABÉ(100-130).- O Autor da mesma afirma que o Senhor em certa ocasião diz:
Que me importa a multidão de vossos sacrifícios? Estou farto dos holocaustos de
carneiros...(Is 1, 11). Falando do salmo 33,13 e do Êxodo 15,26 os cita
dizendo: o Espírito do Senhor profetiza.
CONCLUSÃO: A crença em livros inspirados era comum entre os cristãos do primeiro
século da Igreja; era uma verdade admitida como verdade de fé.
QUAIS ERAM ESSES LIVROS?
Do AT se admitiram todos
os 24 livros(tantos quantas as letras gregas do abecedário) que em Jamnia (100
dC), sob a direção de rabi Akiba eram só 22 tantos quantos os caracteres do
alfabeto hebraico, porque dois dos livros foram divididos ou separados ( Rute
dos Juizes e Lamentações de Jeremias), para completar as 24 letras do alfabeto
grego. Segundo Flávio Josefo desses 22 cinco correspondem a Moisés(Torah),
treze aos profetas(Nebuim) e quatro são livros de louvor(Meguiloth). Nos tempos
de Jesus a Escritura era conhecida com o nome de Lei e Profetas.(nomos kai profetai).O
Talmud(=doutrina) babilônico confirma a seleção feita em Jamnia. Este cânon de
Jamnia refletia uma opinião muito anterior ao sínodo, como o confirma o fato
dos setenta ser uma tradução grega dos livros sagrados terminada perto do ano
130 a C que continha os 24 livros aprovados por Jamnia e outros sete mais:
Sabedoria, Eclesiástico, Judite, Tobias, no códice Vaticano; mais 1 e 2
Macabeus nos outros dois códices mais respeitados, como são o Sinaítico e
Alexandrino. A estes últimos deu-se o nome de deuterocanônicos (os novos
canônicos) para distingui-los dos protocanônicos.(os primeiros canônicos). Os
livros deuterocanônicos estão misturados com os outros livros como se o cânon
não fizesse distinção entre um e outros. Pois a Igreja apostólica recebeu esses
livros com a mesma devoção que os protocanônicos, de modo que o cânon dos
judeus alexandrinos formou parte do cânon da Igreja. Tenhamos em conta que a
linguagem da Igreja era o grego. Portanto foi a sessenta e conseqüentemente o
cânon alexandrino o que foi a setenta, a bíblia grega do cânon alexandrino, o
texto usado pelos primitivos cristãos, pelos evangelistas e pelos padres
apostólicos como conjunto de livros inspirados. Exemplo: das trezentas e
cinqüenta citações do AT no NT trezentas são tomadas do texto grego dos
setenta.. O texto hebraico só foi fixado definitivamente nos séculos VI a X dC
pelos masoretas (a palavra masora significa tradição). Devido à falta de vogais
e separação entre palavras o texto hebraico resultava difícil e até duvidoso;
até tal ponto que o texto grego dos setenta aparece mais antigo e confiável do
que o texto masorético. Por isso os livros dos setenta em seu texto grego são
considerados como os verdadeiramente inspirados e sagrados pelos teólogos
modernos.
A HEXAPLA: Como as divergências entre o texto hebraico e a
tradução dos setenta, além das alterações de outras transmissões eram pretextos
para os judeus não aceitarem os comentários das profecias do NT, Orígenes entre
240-245 dC dispôs em seis colunas os diversos textos, como eram o hebraico, o
mesmo em letras gregas, e as versões gregas de Áquila(130-140), Simmaco(200),
os setenta e Teodocião (180). Daí o nome de hexapla(seis colunas). Interessante
nas Héxaplas é a quinta coluna que reflete o texto dos setenta muito semelhante
ao códice Vaticano. Hoje só temos fragmentos dessa imensa obra de Orígenes que
provavelmente tinha mais de 6 mil fólios(vide postera).
CÓDICES ATUAIS: A palavra códice significa um manuscrito escrito
em forma de livro, no início composto por tabuinhas de madeira, cobertas de
cera, sobre a qual se escrevia com punção; mais tarde substituídas por folhas
de pergaminho, com o nome de fólios(= folha). O fólio tinha 33 cm de
comprimento, por 25 cm de largura como uma página de um missal, ou uma folha de
formato A4 com mais três centímetros de comprimento e largura. O material do
pergaminho era a pele de vitela (vaca ou terneira, especialmente de fetos) ou
ovelha, adobada(curtida), rasurada e esticada para poder escrever. As capas de
certos livros antigos eram forradas de pergaminho, que pode hoje ser imitado
com papel envolto numa capa de gordura. Para um códice de 300 páginas eram
necessárias 70 ovelhas, a razão de 4 páginas por ovelha, o que resultava
caríssimo. Por isso eram mais comuns os papiros em forma de rolos, cujo
material, semelhante ao papel grosso, era feito de uma planta muito comum nas
margens do Nilo. Os papiros, por sua fragilidade, não se conservam ou são
extremamente fragmentários. Daí o valor dos códices como testemunhas dos textos
mais antigos. Dentre estes últimos vamos falar dos códices unciais. Uncial é o
tipo de letra maiúscula, imitadora das letras usadas nas lápides e inscrições
de pedra e mármore, do tamanho de uma polegada(2,5 cm), usado na escrita até o
século VII, em que se começou a usar a letra cursiva ou minúscula, imitando a
escrita a mão. O mais antigo dos códices conservados é o Vaticano conhecido
pela letra B.
CÓDICE VATICANO: É do primeiro terço do século IV, contemporâneo,
pois do concilio de Nicéia, chamado assim porque hoje está guardado na
Biblioteca Vaticana. É um códice uncial (escrito com letras maiúsculas) que
contém o AT e o NT. (Os códices mais antigos dos autores clássicos, para se ter
uma idéia clara, não são anteriores ao século IX). As palavras não estão separadas,
nem existem sinais ortográficos, mas empregam os copistas a colometria e a
esticometria. A colometria era o estilo chamado de comma et commata. Os termos
colon e comma são quase idênticos e assim significava que se escrevia uma frase
mais ou menos breve em cada linha que tivesse um sentido relativamente
completo. A esticometria era o sistema de escrever por esticos de modo que cada
linha devia ter tantas sílabas como um hexâmetro (estico) isto é de 15 a 16
sílabas com 36 letras por linha. Neste sistema não se tem em conta o sentido,
mas o número de sílabas, com o fim de pagar os copistas ou calígrafos, Esta
forma foi comum nos copista bíblicos desde o século VI. Nos códices antigos
encontram-se muitas abreviaturas, especialmente nos nomes sagrados. Exemplo: IC
por Jesus Cristo. A divisão atual por capítulos foi feita por Estevão Langton
(+1228), arcebispo de Canterbury e os versículos por Santes Pagnino (+1541) no
AT e Robero Stéfano para o NT(1551). Enquanto os papiros eram escritos com o
talho da mesma planta(o papiro), cortado na ponta de modo a parecer um pincel.
Os pergaminhos eram escritos com o cálamo(assim eram as chamadas, vulgarmente,
penas), ou seja o talho de algumas gramíneas dividido em dois por um corte,
como eram as antigas penas, quando se escrevia com tinta. Os talhos foram
posteriormente substituídos por penas de ganso, daí o nome de pena de escrever.
RESUMO: Temos visto como se formou o cânon do AT. No tempo
do Concílio de Nicéia (325) todo o Oriente era majoritariamente cristão. Somente
Cartago e sua vizinhança podia dizer outro tanto. dentro da oikumene, ou terra
do império conhecida. Roma estava isolada e a maior parte do Ocidente era ainda
pagã, sendo que os cristãos ocupavam alguma seção das grandes cidades. Isso
refletia na Liturgia e nas escolas teológicas. A linguagem da Igreja era o
grego, que no tempo se denominava koiné, comum. Por isso temos unicamente até o
século IV códices escritos nessa língua. Como exemplo deste predomínio do grego
no império e em Roma em particular, podemos citar as duas cartas mais
importantes dirigidas aos romanos: a de Paulo no ano 57, e a carta de Ignácio
de Antioquia aos mesmos, pouco antes de sua morte como mártir em 107. De Roma
também Clemente, Papa(+97), dirige uma carta aos de Corinto também em grego. Um
último exemplo: o Pastor de Hermas (150) também está em grego e escrito na
própria Roma. Até S Cipriano (+258) não temos uma literatura própria em latim,
a língua do império ocidental. Será no tempo de Ambrósio(340-397) bispo de
Milão que a língua latina substituirá o grego na liturgia. A bíblia em latim
era a "vetus latina" (= antiga [versão] latina) da que pouco
conhecemos a exceção do NT que não foi retocado por S. Jerônimo (342-420) na
sua revisão dos quatro evangelhos e do saltério em 383 por ordem do Papa Dâmaso
(366-384), de modo que os Atos e as epístolas pertencem a essa vetus latina.
Jerônimo traduziu do hebraico o AT e retocando a vetus latina dos evangelhos do
NT, formou e consolidou a Vulgata que será a Bíblia oficial do Ocidente durante
cinco séculos e a declarada oficial na Igreja Romana. Até o final do século III
os romanos cultos tinham predileção pelo grego, de modo que Juvenal (55-125)
comenta ironicamente esse costume. O imperador Adriano, no comando de 117 até
138, provocado pela ironia do Senado que ridicularizava sua pronúncia
provinciana de origem hispânica, do latim, após tentar corrigi-la, e após sua
visita à Grécia em 135 não mais quis falar a língua do Lácio e preferiu a de
Homero e Heródoto. No fim do século III temos duas versões latinas: a africana
de Cartago usada por S. Cipriano e a chamada ítala, a que teve origem em Milão
e foi usada por S. Ambrósio e S. Agostinho(354-430), que sendo professor de
retórica não quis se aprimorar na língua grega. Porém parece que o texto
original do qual as versões latinas são literalmente traduzidas, é o texto
chamado neutro do Vaticano e do Sinaítico, os dois códices do século IV que
hoje conservamos.
CONCLUSÃO: No que diz respeito ao AT vemos que os cristãos,
pelas citações do NT, escolheram o texto grego e o cânon grego tal e como o
conhecemos pelos textos dos setenta, nos códices escritos na comunidade judaica
de Alexandria. Assim os livros deutero-canônicos entraram a formar parte do
"está escrito" desde o tempo dos mesmos apóstolos. Nada existe de um
cânon escolhido ao azar ou por meio de um fato extraordinário como quer provar
o autor do artigo que estamos debatendo, Roberto C.P. Junior. Falta por estudar
a seleção que a Igreja fez dos numerosos textos do NT e como foram rejeitados
os livros heréticos e apócrifos(= oculto, secreto) com o significado de não
autênticos ou fora do cânon da Igreja, dos quais hoje temos fragmentos em vinte
evangelhos diferentes, dos quase cinqüenta títulos que tem chegado ao nosso
conhecimento. (continua)
O CANON DO NOVO
TESTAMENTO:
À parte as citações dos
escritos patrísticos, temos alguns documentos escritos desde o século segundo
como , os escritos de Papias, o cânon de Muratori e o Pastor de Hermas. Deles
vamos falar.
PAPIAS: Foi bispo de Hierápolis na Ásia Menor e escreveu cinco livros sob o
título de Explicação das sentenças do Senhor. Seu interesse era saber o que
tinha dito o Senhor através de seus discípulos diretos como André, Pedro,
Filipe, Tomás ou Tiago, João ou Mateus. A eles acrescenta Aristião e o ancião
João, também discípulos do Senhor, pois pensava que os livros pudessem ser de
tanto proveito como a palavra viva e permanente. Aqui temos o princípio básico
da tradição. Ele fala de Marcos como intérprete de Pedro. Marcos escreveu nem sempre
ordenadamente o que recordava (de Pedro) sem omitir nada, nem mentir
absolutamente. Fala também sobre o evangelho de Mateus: Ordenou em língua
hebraica as sentenças de Jesus; e cada um as interpretou (traduziu ao
grego)segundo sua capacidade.
MURATORI: Luigi ou Ludovico (segundo a Britannica e outros autores) Antonio
Muratori (1672-1750) era um dos grandes eruditos de seu tempo. Nascido de uma
família pobre em Vignola no distrito de Módena(Itália), foi aluno dos jesuítas
e estudou leis, Filosofia, e Teologia na Universidade de Módena, donde
destacou-se especialmente em Literatura e História. Ordenado sacerdote foi
chamado a Milão para a Biblioteca Ambrosiana onde imediatamente começou a
recopilar antigos manuscritos ainda não publicados. Publicou diversos livros e
foi nomeado arquivista e bibliotecário da biblioteca de Módena donde trabalhou
até sua morte. Uma das obras históricas em 6 volumes é "Antiquitates
italicae medii aevi". No terceiro volume aparece o cânon que foi chamado
de Muratori. Como sacerdote foi exemplar, caridoso com os pobres, e diligente
em visitar abandonados e presos.
O CÂNON: O Cânon de Muratori é o documento mais antigo que se tem a respeito do
cânon bíblico do NT, por ter sido escrito por volta do ano 150, uma vez que
cita o nome de Pio, bispo de Roma de 143 à 155, irmão do Hermas, autor de
"O Pastor". Trata-se de um manuscrito do séc. VIII, cópia do
original, descoberto pelo nosso Ludovico no seu trabalho como bibliotecário e
arquivista. O manuscrito encontra-se mutilado no princípio e no fim, mas
permite distinguir quatro espécie de livros: 1.-Os que são lidos publicamente
na Igreja. 2.-Os que algumas pessoas querem que sejam lidos publicamente na
Igreja.-3 Os que são lidos particularmente.4.-Os que devem ser desprezados. O
testemunho inicia-se com o evangelho de Marcos ao qual se referem estas
palavras: ..."aos quais esteve presente e assim o fez". pois sabemos
por outros testemunhos que "esse aos quais esteve presente", eram os
sermões de Pedro. Do evangelho de Lucas diz: "O terceiro evangelho é o de
Lucas".... Do evangelho de João diz: "O quarto evangelho é de João,
um dos discípulos".... Como comentário podemos ler: "Assim, ainda que
pareça que ensinem coisas distintas nestes distintos evangelhos, a fé dos fiéis
não difere, já que o mesmo Espírito inspira para que todos se contentem sobre o
nascimento, paixão e ressurreição"[de Cristo]. Enumera como livros
sagrados os Atos e as epístolas de Paulo, excetuando as dirigidas aos
Laodicenses e aos Alexandrinos que favoreciam a heresia de Marcião. Dos dois
Apocalipses João e Pedro, diz deste último: "alguns não querem seja lido
na Igreja". O Pastor deve ser lido ainda que não seja publicamente. (*)
COMENTÁRIO: Vemos como a teoria de serem os livros sagrados escolhidos por um golpe
de mágica ao caírem os falsos do altar, não tem cabimento nesta simples
narração feita duzentos anos antes. Eram considerados sagrados porque eram
lidos publicamente na Igreja, tal e como atualmente é feito na parte dedicada à
Palavra. Vemos como eram quatro os evangelhos, dois dos quais recebem o nome de
seus autores. Nisto o manuscrito segue a tradição de Papias .
. FORMAÇÃO
DO CÂNON DO NT
S JUSTINO, MÁRTIR:
(100-165). É uma testemunha crucial da situação do corpo bíblico do NT no
século II mencionando três dos evangelhos: Mateus, Marcos e Lucas, e citando e
parafraseando as letras de S Paulo e a I de Pedro. É também o primeiro em citar
os Atos.
TACIANO(120-173): É o autor do
DIATESSARON(=desde os quatro) uma versão dos quatro evangelistas numa única e contínua
narrativa que em sua forma síria serviu como evangelho fundamental para a
Igreja síria até ser substituído pelos quatro evangelhos no século V. Fundou a
seita dos Encratitas, seita que integrava um severo ascetismo com elementos da
filosofia estóica.
IRINEU(+ 155): Combatendo o herege
Marcion que negava o antigo Testamento, ou a Bíblia Judaica, e ajudou a
estabelecer o cânon das escrituras. Admite tanto o AT como o NT ambos provindo
do mesmo Deus. No NT Irineu admite os quatro evangelhos, as epístolas de Paulo,
os Atos dos apóstolos, as epístolas de S. João , o Apocalipse, a primeira carta
de Pedro mas não a epístola aos Hebreus. E admite também como grafé(escrita) o
Pastor de Hermas, livro de recente composição em Roma. Sobre os evangelhos diz:
Entre os hebreus e em sua língua, Mateus publicou uma espécie de evangelho
escrito, enquanto Pedro e Paulo predicavam em Roma e fundavam a Igreja. Depois
de sua morte, Marcos, o discípulo e intérprete de Pedro, nos transmitiu também
por escrito o que Pedro tinha pregado. Assim mesmo Lucas, o companheiro de
Paulo, consignou num livro o evangelho pregado por este. Mais tarde João, o
discípulo do Senhor, o mesmo que tinha se recostado sobre seu peito, também ele
publicou o evangelho durante sua moradia em Éfeso. E explica que não é possível
que existam mais de quatro evangelhos nem menos. São quatro as regiões do mundo
em que vivemos, quatro os ventos e quatro os pontos cardinais. Porque por outra
parte a Igreja está difundida por toda a terra e a coluna e o fundamento da
Igreja é o evangelho e o Espírito(sopro) de vida. É pois, natural que tenha
quatro colunas que de todos os ângulos soprem incorruptibilidade e reavivem nos
homens o fogo da vida. Por tudo isso é evidente que o fazedor de todas as
coisas, o Verbo, que está sentado sobre os querubins e sustém o Universo,
quando se manifestou aos homens deu-nos seu evangelho sob quatro formas, mas
sustentadas por um só Espírito.
Como vemos existe uma diferença entre o texto total
e o parcial citado por nosso amigo, Roberto C. P. Junior, que afirma coisas que
Irineu não escreveu como as quatro formas dos querubins. O argumento do nosso
santo é simples: Deus construiu um mundo material sobre quatro fundamentos, tal
e como se acreditava na antigüidade. Esse mundo era uma cópia do mundo
espiritual (crença comum na época) que também encontra Ireneu construído sobre
quatro pilares (os quatro evangelhos) tendo como vento ou espírito, Jesus. Esta
é a comparação que Irineu encontra para dizer que os outros evangelhos novos, especialmente
os que provinham dos gnósticos, cujo chefe era Marcião, não tinham cabida num
mundo projetado pela sabedoria de Deus sobre quatro pilares básicos.
CRITÉRIOS DE CANONICIDADE: O cânon
de Muratori, resposta provável ao cânon de Marcion restritivo e redutivo, já
declarava o critério para aceitar um livro como sagrado: Distingue entre quatro
espécies de livros: a) Os que são lidos publicamente na Igreja .-b) Os que
algumas pessoas querem que sejam lidos publicamente na Igreja .-c) os que são
lidos particularmente. -d) Os que devem ser desprezados. Os primeiros (grupo a)
são os livros que hoje chamamos de canônicos. À parte de Muratori , podemos
afirmar com a Britânica que os critérios essenciais foram: 1o)a
apostolicidade: se o livro em questão era dos tempos apostólicos.2o)
a regula fidei ou seja se o livro não continha elementos heréticos ou erros de
doutrina .3o) finalmente a sua catolicidade, ou seja se era lido em
todas as igrejas e dirigido a todas as igrejas, como endereçado a todos os
eleitos, especialmente falando das cartas chamadas apostólicas..