O Santo Graal, realidade ou ficção?
Janice Bennett fala
sobre a legendária taça da Última Ceia
LITTLETON, Colorado, 24 de
novembro de 2004 (ZENIT.org).- A história do Santo Graal inspirou vários livros
de ficção e imaginação, incluindo filmes muito populares. A verdade sobre a
atual localização da taça é menos clara.
Uma pesquisadora, Janice Bennett,
autora do livro publicado nos Estados Unidos “St Laurence and the Holy Grail”
(Ignatius.com) crê que a história da taça pode ser seguida desde a viagem de
São Pedro a Roma, até São Lourenço no século III, e logo sua localização
definitiva na Espanha.
Bennett possui um mestrado em
Literatura espanhola pela Universidade de Colorado e um certificado de
“Advanced Bible Sudies” da Escola Católica Bíblica de Denver. É membro do
centro espanhol de Sindonologia, com sede em Valência, Espanha.
Compartilhou com ZENIT suas
razões para crer que o Santo Cálice que se venera em Valência é a taça usada
por Jesus na Última Ceia.
--O que é exatamente o Santo
Graal? Como responde a quem diz que é só uma lenda?
--Bennett: Para os cristãos, o
Santo Graal é e sempre foi a taça usada por Jesus para
consagrar o vinho na Última Ceia, o autêntico receptáculo que recebeu o sangue
de Cristo no apenas instituído sacramento da Eucaristia.
Foi tido em grande estima como um
objeto autêntico historicamente falando, que foi usado pelo próprio Jesus, uma
relíquia de singular importância para a cristandade porque é um símbolo do Pão
da Vida.
O povo de todos os tempos ficou
um pouco perplexo de que esta preciosa relíquia tenha originado um importante
número de histórias fantásticas sobre guerreiros, monges e reis que se
embarcaram em sua busca.
Isto foi assim não só para o povo
medieval, mas para pessoas de nosso tempo, dada a atual popularidade das lendas
sobre o Santo Graal e filmes tais como “Indiana Jones e a Última Cruzada”, no
qual Indiana Jones descobre um grande número de possíveis graals na
inverossímil localização de Petra, Jordânia.
Lamentavelmente, o graal que
Indiana diz ser autêntico é o menos provável, historicamente falando, porque
está feito de madeira, um material poroso que estava proibido na celebração da
Páscoa judaica.
É inegável que Jesus utilizou uma
taça para a consagração e que esta taça é um objeto histórico, não um mito.
Talvez por causa do mistério e fantasia que rodearam esta relíquia por
excelência, alguns pesquisadores atuais criaram um cenário pelo qual o Santo
Graal poderia estar relacionado com temas que vão desde o Santo Sudário até
Maria Madalena.
Outros definem o Graal como nada
mais que um questionamento pessoal ou uma exploração do ser, ou o relacionam
com toda sorte de antigas lendas e ritos da fertilidade, conduzindo a uma
grande confusão como a que temos atualmente.
--Por que chegou
a interessar-lhe sua existência e paradeiro?
--Bennett: Meu marido e eu
visitamos a Capela do Santo Graal na catedral de Valência no princípio dos anos
90. Pensei que era muito estranho que disseram ter a taça usada por Jesus na
Última Ceia, porque nunca ouvi nada parecido nos
Estados Unidos.
A única informação disponível era
um pequeno folheto, não muito bem traduzido ao inglês, que mencionava o Papa
Sisto II, confiando a taça a São Lourenço no ano 258 depois de Cristo, e que
São Lourenço a enviou para a Espanha nas mãos de um soldado espanhol. Também
oferecia uma breve história da relíquia na Espanha. Anos mais tarde, quando
pesquisava sobre relíquias na Biblioteca Nacional de Madri, recordei aquele
folheto. Busquei informação sobre São Lourenço e encontrei uma tradução muito
interessante de um documento que se diz escrito por São Donato, no século XI,
que não só contém uma biografia dos primeiros anos de São Lourenço, mas que
confirma que esta mudança aconteceu.
Ao mesmo tempo, encontrei um
livro, escrito pelo sacerdote responsável por cuidar a relíquia, no princípio
da guerra civil espanhola de 1936. Quando examinei as fotos de onde havia sido
escondida durante o conflito --dentro das espumas do sofá, no compartimento
secreto de um armário e atrás de uma parede de pedra--, fiquei verdadeiramente surpresa
das dificuldades que a relíquia sofreu através dos séculos.
Imediatamente me dei conta de que
tinha de pesquisar a história desta taça em profundidade. O Santo Cálice de
Valência não só reivindica sua autenticidade mas tem detrás uma longa tradição
e uma história fascinante que apóiam completamente esta afirmação.
--Que se pensa que sucedeu ao
Santo Graal imediatamente depois da Última Ceia?
--Bennett: Muitos estudiosos
crêem que o Cenáculo --a casa na qual aconteceu a
Última Ceia-- , e o Santo Cálice eram propriedade da família de São Marcos, o
evangelista, que se fez de intérprete de São Pedro em Roma.
São Marcos e São Pedro viviam em
relação estreita e parece ter sentido que São Marcos desse a Santa Taça a São
Pedro, pela simples razão de que era muito importante para os primeiros
cristãos usar relíquias na liturgia, e Pedro era a cabeça da Igreja.
A tradição espanhola afirma que
São Pedro levou o Santo Cálice consigo para Roma, onde o passou para seus
sucessores até a perseguição de Valeriano, no ano 258. Devido ao grave perigo
de que a preciosa relíquia caísse em mãos dos romanos, São Sisto II, sabendo
que logo seria martirizado, confiou a taça a seu tesoureiro e diácono, São
Lourenço. Este, por sua vez, deu-a a um soldado espanhol, pedindo-lhe que a
levasse para Huesca, Espanha, onde sabia que sua família se faria cargo dela.
Esta muito antiga tradição se apóia em muitos fatores: o cânon romano da Missa,
o fato de que a taça não se menciona em Roma até o século III, vários
documentos, e a presença tradicional e histórica do Santo Cálice na Espanha.
--Qual é sua teoria sobre a
história do Santo Gral e a atual localização?
--Bennett: Muita gente crê que há
centenas de possibilidades sobre o autêntico Santo Graal, na linha do velho
dito de que se se reunissem os pedaços da Verdadeira Cruz estendidos pelo
mundo, haveria madeira suficiente para uma dúzia de cruzes. Não é este o caso.
É verdade que no século XVI havia
umas 20 taças que reivindicavam a honra de ser a autêntica usada por Jesus na
Última Ceia. Mas hoje nenhuma delas é considerada autêntica, com a exceção do
Santo Cálice de Valência e a taça de Antioquia.
A taça de prata de Antioquia tem
uma capacidade para dois litros e é demasiado grande para poder passar de mão
em mão, em torno à mesa da Última Ceia, durante a comunhão eucarística. O
interessante, contudo, é o fato de que São Jerônimo mencionasse que havia duas
taças sobre a mesa da Última Ceia, uma taça de prata que continha o vinho para
a ceia, e uma de pedra que foi usada para a instituição da Eucaristia.
Só o Santo Cálice de Valência,
com a parte superior de pedra de ágata, responde à descrição de São Jerônimo
acerca da taça usada por Cristo na consagração. Quando se examina sua tradição
e história em detalhe, é completamente evidente que tudo concorda. Não creio
que alguém possa desautorizar a teoria de que o Santo Graal é, com efeito, o
Santo Cálice de Valência, Espanha.
--Que fábulas modernas
equivocadas detectaram os modernos estudiosos sobre o Santo Graal e sobre quem
esteve envolvido em seu traslado?
--Bennett: Quando falamos do
Santo Cálice de Valência, um dos problemas foi uma lacuna de informação
substancial e sobre os fatos que vão mais além da tradição de São Lourenço, e
outra foi a afirmação errônea de que há muitos graals
que reclamam ser o que o Papa Sisto II deu a São Lourenço. Os fatos com
freqüência se mesclam com afirmações falsas e material legendário, de tal
maneira que fazem duvidar sobre a possibilidade de chegar alguma vez a saber a
verdade. Um sério rival da tradição de São Lourenço, ao menos na opinião
popular, é a lenda de que São José de Arimatéia, do poeta Robert de Boron, que
confirma a lenda apócrifa de Nicodemos, acrescentando que José de Arimatéia
levou o Graal a Glastonbury, para unir a cristandade aos ossos do legendário
Artur, que se supunha estar enterrados ali.
Narra que José de Arimatéia
recolheu o sangue de Cristo em uma vasilha que foi usada como bandeja para o
pão e o cordeiro pascal na Última Ceia, e logo a entregou ao deus celta Bron,
que a levou ao Ocidente como um talismã de imortalidade.
Não é difícil ver que esta lenda
não se baseia em nada jamais provado e o graal neste caso não é uma taça
histórica, mas uma bandeja que não existiu na realidade. Este é um exemplo
perfeito de mescla de fantasia e realidade, literatura e lenda que permite
muitas discussões sobre o Santo Graal.
--Por que o Santo Graal deveria
interessar aos cristãos na atualidade?
--Bennett: O Santo Graal deveria
interessar aos cristãos de hoje pela mesma razão pela qual sempre foi venerado,
através dos séculos, como a taça usada por Cristo para instituir a Eucaristia.
É muito apropriado que esta
última “descoberta” sobre o Santo Graal coincida com o Ano da Eucaristia, que
foi proclamado pelo Papa João Paulo II, na festa de Corpus Christi em junho e
começou em outubro. Na celebração deste sacramento, tão
central à fé, ao longo de todo o ano, os católicos estão chamados a
honrar a Eucaristia para recebê-la com mais fé e refletir mais profundamente
seu significado em suas vidas e na vida da Igreja.
A história do Santo Cálice de
Valência é uma maravilhosa recordação da importância deste sacramento na vida
da Igreja, tão evidente no cuidado por conservar através dos séculos o
recipiente usado por Cristo na instituição da Eucaristia.
A história inicia com São Pedro,
primeira cabeça da Igreja, que levou a taça sagrada a Roma para usá-la na
liturgia da Missa. Segue com os santos Sisto e Lourenço, ambos martirizados por
recusar entregá-lo aos romanos.
A Igreja da Espanha protegeu a
taça da invasão muçulmana no século VIII e anos mais tarde vemos o mesmo
respeito e heróico valor em quem salvou a taça da destruição durante a Guerra
de Independência e a Guerra Civil espanholas.
Graças a seu desejo pessoal, em
1982 o Santo Padre foi o primeiro Papa a celebrar a Missa com a relíquia desde
São Sisto II, no século III, e hoje os cristãos de todo o mundo podem venerar
esta taça tão especial.
Este é um milagre de nossos dias
que pode dar-nos ocasião para profundas reflexões sobre a importância da
Eucaristia em nossa vida diária, de maneira que podemos publicamente proclamar
que o sacrifício de Cristo é para a salvação do mundo inteiro, como deseja o
Santo Padre.
ZP04112430