Uma Visão católica da Ortodoxia
por Frei Aidan Nichols OP
traduzido do inglês por
Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior
Neste
artigo eu farei um apanhado geral em quatro partes. Primeiro, eu irei analisar
porque os católicos não só deveriam mostrar um pouco de interesse pelo
ecumenismo com a Ortodoxia, mas também, tratar os ortodoxos como seus
interlocutores ecumênicos privilegiados ou prioritários.
Em segundo lugar, eu irei
investigar por que aconteceu o cisma entre as igrejas católicas e ortodoxas,
focalizando a atenção nos “pontos históricos divergentes” em que esta divisão
se concretizou.
Em terceiro lugar, irei avaliar o
estado atual das relações católico-ortodoxas, dando uma especial atenção ao
problema dos “uniatas”, ou seja, as igrejas católicas orientais.
Em quarto e último lugar, tendo
sido muito favorável e respeitoso ao longo de todo o artigo para com os
ortodoxos, concluirei mostrando aquilo que, em meu parecer, há de errado na
igreja ortodoxa e por que ela necessita do catolicismo para (humanamente
falando) sua própria salvação.
Primeiro, então, por que deveriam
os católicos tomar os ortodoxos não só como um parceiro ecumênico, mas como
parceiro ecumênico por excelência? Há três tipos de razões: histórica,
teológica e prática – das quais, na maioria das discussões, somente a histórica
e teológica são mencionadas. O que eu chamo de “prática” nos leva a áreas de
controvérsia potencial entre os próprios católicos ocidentais.
As razões históricas para preferir
os ortodoxos a todas as outras comunhões separadas se resumem no fato de que o
cisma entre a igreja romana e as antigas igrejas
calcedonianas do oriente é a mais trágica e penosa das divisões na cristandade
histórica se levarmos em conta uma perspectiva universal e não meramente
regional.
Embora a Grande Igreja tenha
perdido parte da Igreja dos Padres, com a saída da unidade católica das igrejas
assírias (nestorianas) e ortodoxas orientais (monofisitas), depois dos
concílios de Éfeso (431) e Calcedônia (451) respectivamente, os cristãos que
representavam as duas culturas principais da bacia mediterrânea onde o
evangelho teve seu maior florescimento - a cultura grega e a latina - viveram
em paz e unidade entre si, apesar de agitações ocasionais e de algumas
dificuldades locais até o final da época da patrística.
Essa época teve o seu clímax com o
sétimo concílio ecumênico, o Niceno II, em 787, o último concílio que os
católicos e os ortodoxos tiveram em comum, concílio que, em seus ensinamentos
sobre a iconografia, e notavelmente sobre os ícones de Cristo, trouxe um final
triunfante à série de definições conciliares acerca da fé cristológica da
Igreja, que havia sido iniciada com o concílio de Nicéia, em 325.
A iconografia, a vida litúrgica, o
credo e os dogmas da Igreja antiga chegam até nós numa forma que, ao mesmo
tempo, é ocidental e oriental; e foi esta rica comunhão da cultura patrística,
expressão da fé da comunidade apostólica, que foi quebrada
com o cisma entre católicos e ortodoxos, cisma este nunca (tão distante
de ser) reparado.
Gostaria, porém, de lembrar que a
história de Igreja nos dá pouquíssimos exemplos de cismas históricos superados.
Assim, se tivermos a história como nossa mestra, nós não temos nenhum
fundamento para confiar ou ser otimistas que o mais catastrófico de todos os
cismas será superado. “Catastrófico” porque, historicamente, como o nosso papa
apontou, utilizando uma metáfora criada por um eclesiólogo francês, o falecido
Cardeal Yves Congar, cada Igreja, tanto a ocidental como a oriental, desde
então, passaria a respirar apenas com um pulmão.
Nenhuma Igreja poderia reivindicar
agora a totalidade do patrimônio cultural do calcedonismo oriental e ocidental
- quer dizer, a correta interpretação cristológica, e, conseqüentemente,
trinitária e soteriológica do Evangelho. O resultado da conseqüente rivalidade
e conflito foi a criação de uma invisível linha
divisória no meio da Europa. E as conseqüências históricas
disso, nós as conhecemos suficientemente bem ao olharmos para a situação
atual da ex-Iugoslávia.
Depois da razão histórica, temos a
teológica. A segunda razão para dar prioridade às relações ecumênicas com os
ortodoxos é teológica. Se o ponto principal do ecumenismo, ou trabalho para a
restauração da unidade da Igreja, fosse simplesmente reparar males históricos e
esquecer causas historicamente geradoras de conflito, então nós poderíamos
supor que nós deveríamos estar igualmente – ou talvez até mesmo mais –
interessados em nos voltarmos para o
cisma católico-protestante.
Afinal de contas, não houve,
verdadeiramente, nenhuma guerra de religião – como tal – entre católicos e
ortodoxos, ao contrário do que ocorreu entre católicos e protestantes no século
XVI, na França, ou no século XVII, com o Sacro Império Romano. Mas,
teologicamente, não há dúvida que a Igreja católica deva dar mais importância
ao dialogo com os ortodoxos, do que às conversações com qualquer grupo
protestante.
Pois as igrejas ortodoxas são
igrejas na sucessão apostólica; elas são portadoras da Tradição apostólica,
testemunhas da fé apostólica, do culto e da ordem – embora elas também estejam,
ao mesmo tempo, infelizmente separadas da prima
sedes, a primeira sé.
Seus Padres e outros escritores
eclesiásticos, seus textos e práticas litúrgicas, sua tradição iconográfica,
permanecem loci theologici – fontes
autênticas – para as quais o teólogo católico pode e deve se voltar em sua
compreensão do cristianismo católico. Não se pode dizer a mesma coisa do
patrimônio anglicano, luterano, reformado ou de qualquer outro tipo de
protestantismo.
Para dizer a mesma coisa de outra
forma: as comunidades ocidentais separadas têm tradições cristãs – no plural,
com um “t” minúsculo – que podem ser merecedoras do interesse e respeito do
teólogo católico. Mas só os ortodoxos são, juntamente com a Igreja católica,
portadores de santa Tradição – no singular, com um “T” maiúsculo, isto é, do
evangelho em sua transmissão orgânica e plena através da totalidade da vida
doutrinal, doxológica e ética – da Igreja de Cristo.
Há, para os católicos, então, um
imperativo teológico de restabelecer a unidade com os
ortodoxos, imperativo que não existe em nossa abordagem do protestantismo
– embora eu não gostaria de ser mal-interpretado, como se estivesse dizendo que
não há nenhuma base teológica para o impulso de aproximação católico-protestante
porque nós encontramos esta base na oração de nosso Senhor, na Última Ceia,
para “que todos sejam um”.
Eu estou enfatizando que nós
deveríamos dar uma maior prioridade para as relações com os ortodoxos, porque
eu não acredito nas afirmações otimistas de muitos especialistas em ecumenismo,
de que todos os diálogos bilaterais – cada uma das negociações com as comunhões
separadas –favoreçam uns aos outros de forma positiva e sem problemas.
Seria agradável pensar que um passo
em direção a um grupo separado de cristãos nunca significasse um passo para
longe de um outro, mas a freqüência com que esta piedosa reivindicação é
repetida não faz com que ela se torne mais plausível. A questão da ordenação de
mulheres, tomando um exemplo particularmente claro, é evidentemente um tópico
que nos aproximaria do mundo protestante, e que nos afastaria dos ortodoxos
como um todo – e vice-versa.
Isto me leva à
terceira razão para defender a relação ecumênica com os ortodoxos: suas
vantagens práticas. Atualmente, a Igreja católica, em muitas partes do mundo,
está passando por uma das crises mais sérias de sua história, uma crise que é o
resultado de um encontro desorientador com a cultura secularista e agravado por
uma perda do discernimento cristão por parte de muitas pessoas durante os
últimos vinte e cinco anos – desde a mais alta hierarquia até o fiel comum.
Esta crise abrange muitos aspectos
da vida da Igreja, mas, principalmente a teologia e a catequese, a liturgia e a
espiritualidade, a vida religiosa e a ética cristã em geral. Em todas estas
áreas, ou ao menos na maioria delas, os ortodoxos possuem uma boa postura capaz
de estabilizar o catolicismo.
Se nós nos perguntássemos, numa
abordagem simplesmente empírica e fenomenológica, como é a Igreja ortodoxa, nós
poderíamos descrevê-la como uma Igreja dogmática, litúrgica, contemplativa e
monástica – fornecendo, em todos estes aspectos, um contrapeso útil, capaz de
equilibrar certas características do atual catolicismo ocidental.
Assim, em primeiro lugar, a Igreja
ortodoxa é uma Igreja dogmática. Ela vive da plenitude da verdade
impressa pelo Espírito nas mentes dos apóstolos no primeiro Pentecostes, uma
plenitude que transformou a percepção dos apóstolos e que tornou possível o
tipo de pensamento especificamente cristão que chamamos de pensamento
dogmático.
A Trindade Santa, o Deus-homem, a
Mãe de Deus e os santos, a Igreja como o mistério do Reino expresso em uma vida
comum na terra, os sacramentos como meios para a deificação
da humanidade – nossa participação na vida incriada do próprio Deus –
estas são as verdades entre as quais os ortodoxos vivem, se movem e têm seu
ser.
A teologia ortodoxa, em todas suas
formas, é um chamado à renovação de nossas mentes em Cristo, tal renovação não
tem como regra a pura razão ou a cultura secular, mas na pregação apostólica
atestada pelos Santos Padres, em conformidade com os principais dogmas de fé
que foram resumidos nos concílios ecumênicos da Igreja[1].
Em segundo lugar, a Igreja ortodoxa
é uma Igreja litúrgica. É uma Igreja que recebe da liturgia toda uma
atmosfera expressa em poesia, música e iconografia, texto e gestualidade, e o
traço característico desta vida litúrgica não é a capacidade de a liturgia
expressar as preocupações contemporâneas (por legítimas que sejam tais
preocupações em seu próprio contexto), mas, para ser bem claro, seu traço
característico é a capacidade de a liturgia agir como um veículo do Reino: ela
é nossa entrada antecipada, aqui e agora, na vida divina.
Em terceiro lugar, a Igreja ortodoxa
é uma Igreja contemplativa. Embora certamente não ignore os chamados à
atividade missionária e à caridade prática, essenciais ao evangelho e à
comunidade do evangelho como tais, a Igreja ortodoxa põe ênfase na vida de
oração como condição absolutamente necessária de todo cristianismo que mereça
este nome.
Na tradição dos Padres do deserto,
e da maioria dos grandes teólogos místicos, como os Padres capadócios, São
Maximo Confessor e São Gregório Palamas, tal como seu pensamento está contido
na Filocalia (a antologia da espiritualidade cristã oriental), os ortodoxos dão
testemunho da primazia daquele que o próprio Salvador chamou de primeiro e
maior mandamento: amar ao Senhor Deus com todo o coração, alma, mente e força. É com a luz deste mandamento – com seu
apelo a um processo teocêntrico de conversão e santificação pessoal em Deus –
que os nossos esforços por viver o mandamento correlativo de amar o próximo e a
nós mesmos devem ser guiados.
Em quarto lugar, a Igreja ortodoxa
é uma Igreja monástica, uma Igreja com um coração monástico onde os monastérios
fornecem os padres espirituais de bispos, os conselheiros dos leigos e o
exemplo de radicalidade cristã. Uma Igreja sem um monaquismo florescente, sem o
“martírio vivo” de um asceticismo inspirado pelo mistério pascal da cruz do
Senhor e pela ressurreição, dificilmente seria uma Igreja de acordo com o
pensamento do Cristo dos evangelhos, pois o monaquismo, dentre todos os modos
de vida dos cristãos, é o que mais claramente, e publicamente, tudo abandona por
causa do Reino.
Para falar de forma prática, a volta desta Igreja dogmática, litúrgica, contemplativa e
monástica à unidade católica, só poderia ter o efeito de estabilizar e
fortalecer esses aspectos do catolicismo ocidental que hoje estão mais ameaçados
pelo securalismo e pelo liberalismo teológico corrosivos.
Volto agora à verdadeira origem do
cisma de um ponto de vista católico, juntamente com um relato –
necessariamente resumido e simples – dos
quatro “pontos históricos divergentes”: as questões
disputadas, que os historiadores mostraram ter preocupado muito os
orientais, quando olham para o desenvolvimento da Igreja latina, e que
constituiu a pauta das discussões dos concílios de Lyon II, em 1274 e Florença
em 1439.
Este é, sem dúvida, um assunto
enorme e que requereria um relato da maior parte da história da Igreja no
primeiro milênio para ser bem desenvolvido. Aqui eu só posso dar uma indicação
breve e indicar aos interessados em maiores detalhes históricos – e certamente
o fascinante material disponível não falta – a minha obra Roma e as Igrejas Orientais: Um Estudo do Cisma[2].
O desenvolvimento do cisma entre o
oriente grego e o ocidente latino foi provocado, essencialmente, por três
fatores. O primeiro destes é a distância cultural crescente, e assim o
estranhamento, a suspeita e, eventualmente, a hostilidade que contrapôs, um
contra o outro, os bizantinos e os latinos da bacia mediterrânea, assim como
áreas da Europa distantes umas das outras – especialmente a Rússia por um lado,
e o mundo germânico no outro, evangelizadas, como foram, respectivamente, pelas
Igrejas mães grega romana.
Já que um idioma comum, uma
organização política comum, uma estrutura social comum, e um universo teológico
comum, no final da patrística e no início do período medieval, se tornaram
coisa do passado, os cristãos orientais e ocidentais deixaram de se sentir
partes de uma comunidade – e isto encontrou uma brutal expressão no saque de
Constantinopla pelo exército cruzado, em 1204.
O segundo fator principal que contribuiu
para o cisma foi a rivalidade entre os imperadores
bizantinos e os papas romanos, considerados como dirigentes da comunidade
cristã, responsáveis pela sua direção global e para o ajuste de seus problemas
organizacionais ou conflitos internos. Constantino, o Grande, não somente
herdou a ideologia imperial dos governantes da res publica romana, mas também permitiu – talvez encorajou – a
transformação desta ideologia em uma amadurecida teologia imperial, por meio de
figuras como Eusébio de Cesaréia[3].
O
imperador cristão, embora não pretendesse ter o poder de determinar os dogmas,
reivindicou um direito global de supervisão da vida pública e externa das
igrejas. Mas esta era exatamente a posição que os ocidentais desejavam dar ao
Papa, apoiando-se na teologia em
desenvolvimento do único ministério “petrino” do bispo de Roma. No primeiro
milênio, de uma forma geral, não havia
acordo eclesiológico sobre o primado de Roma. Encontra-se seja
latinos que tomaram uma visão minimalista, seja gregos que tomaram uma
visão maximalista.
Mas, em geral, é claro que os
ocidentais vieram a favorecer uma alta teologia da Igreja e do bispo de Roma,
enquanto os orientais olhavam tal doutrina teológica com um mau pressentimento,
vendo-o como um afastamento do ethos da
Pentarquia (a idéia da concórdia
necessária dos cinco patriarcados de Roma, Constantinopla, Alexandria,
Antioquia e Jerusalém – que, ao menos, por volta do oitavo século deveria ser
tida como a visão bizantina normal do que comportava especificamente o poder
episcopal).
O terceiro e último fator no
desenvolvimento das tensões em um verdadeiro cisma foi o aparecimento das
quatro questões disputadas que serviram como lentes que concentraram o calor
emitido nestas tensões crônicas ou estruturais, até que ele se tornasse
explosivo.
Seguindo a ordem do seu
aparecimento histórico, os tópicos ou questões são: o Filioque, a
natureza do primado romano, o uso de pães ázimos ou não fermentados na missa
ocidental, e a doutrina do purgatório, especialmente a representação de o
estágio intermediário ser um fogo purificador.
Em todos estes pontos (até mesmo o
dos ázimos que poderia ser considerado um assunto singularmente improdutivo ou
pelo menos periférico para o pensamento cristão) idéias teológicas de grande
interesse foram levadas à frente por ambos os lados, embora hoje,
provavelmente, só o Filioque e a questão do primado sejam consideradas
como “pontos de divisão”.
Com relação ao Filioque – a
processão do Espírito Santo, conforme a versão latina emendada do credo niceno-constantinopolitano,
não somente do Pai, mas também do Filho –, creio eu que, se pudéssemos
contar com um mínimo de boa vontade, nós seríamos capazes, sem dano para a
integridade doutrinal de nossas duas comunhões, solucionar este questão técnica
de teologia trinitária: técnica, mas também crucial para nossa forma de ver o
Espírito em sua relação com o Filho, e assim como as suas respectivas economias
relacionadas com nossas vidas. O problema do primado romano é menos facilmente
resolvido, e eu retornarei a ele ao final de minha exposição.
Isto nos basta – muito
esquematicamente, e inadequadamente – no que tange à gênese histórica do cisma
e seus quatro pontos de conflagração doutrinal, a ação dos três fatores (o
estranhamento cultural mútuo, as expectativas contraditórias sobre os papéis do
imperador e do papa, e as questões teológicas especificamente) significou que,
por volta de 1450, a igreja bizantina, rejeitando a união
florentina de 1439, definitivamente rompeu a comunhão com a sé romana,
situação esta que foi gradualmente se estendendo de um modo bastante desigual
para o resto do mundo ortodoxo no decorrer dos séculos XVI e XVII, havendo
alguns exemplos de communicatio in sacris
- por exemplo, do costume do clero latino, principalmente jesuítas, de pregar e
ouvir as confissões dos fiéis ortodoxos gregos – em alguns lugares, em data tão
recente quanto a primeira metade do século XVIII.
Passo agora à terceira parte de meu
artigo que concerne à situação atual das relações católico-ortodoxas. Depois de
uma fase preparatória de contatos iniciais, conhecida
como o “diálogo da caridade”, o diálogo teológico católico-ortodoxo foi
oficialmente estabelecido em 1979, com a “declaração comum” feita pelo
Patriarca Ecumênico Dimítrio I e pelo Papa João Paulo II na conclusão da visita
ao Fanar, a sede patriarcal em Istambul, em novembro daquele ano.
Neste
contexto, a situação entre ortodoxos e católicos era em certos aspectos mais
otimista do que, por assim dizer, no tempo do concílio de Florença, mas, em outros
aspectos, ela era menos promissora. Era
mais promissora por causa da participação dos ortodoxos no Movimento Ecumênico
desde a década 1920, que levou a que se acostumassem à idéia de trabalhar para
unidade cristã – embora uma minoria forte e barulhenta sempre tenha expressado
reservas para com esta política como que para confirmar o que os católicos
chamariam de “indiferentismo”.
Se
em suas origens, o Movimento Ecumênico era uma idéia principalmente pan-protestante, a entrada dos ortodoxos em seus objetivos
pressionou o movimento, contudo, em uma direção que tornou possível para a
Igreja católica o seu ingresso, quase quarenta anos depois, na véspera do
Concílio Vaticano II. Os ortodoxos tiveram este efeito saudável no qual a sua
voz – combinada com a dos anglicanos de mentalidade neo-patrística (então um
grupo mais numeroso do que hoje) – conseguiu dispersar a sensação de que o
ecumenismo seria basicamente um movimento que preparava para uma união de
cristãos puramente moral e sentimental – ao invés uma união doutrinal e
sacramental.
Assim, por meio destas linhas
gerais, as igrejas ortodoxas funcionaram de forma construtiva dentro do
Movimento Ecumênico até os anos 80, embora ainda não se possa dizer se elas
poderão continuar fazendo o mesmo no futuro no contexto do Conselho Mundial de
Igrejas – considerando que este conselho foi capturado por um programa de
trabalho bastante secular.
A este luminoso relato sobre o
ecumenismo ortodoxo deve ser anexado um caveat importante. É possível
superestimar o componente teológico do papel de Ortodoxia no Movimento
Ecumênico do século XX, se negligenciarmos o fato que o desejo de muitos
ortodoxos de uma maior interação com comunhões ocidentais era em parte um
desejo pragmático e até mesmo político.
Com o colapso da Rússia tsarista em
1917, não havia mais o poderoso protetor das igrejas ortodoxas, e comunidades
ortodoxas em estados hostis como a Rússia bolchevique ou a Turquia kemalista,
ou em estados ortodoxos confessionais relativamente fracos como a Bulgária e Grécia,
precisavam do apoio de uma consciência política cristã que ainda sobrevivia nas
grandes potências da primeira metade deste século como a Inglaterra e os
Estados Unidos.
Esta precaução realista sobre os
motivos de algum ecumenismo ortodoxo me leva às características menos
esperançosas do que a situação que cercou a abertura de diálogo oficial no
início dos anos 80.
No mais de quinhentos anos de
falência da união florentina, ortodoxos e católicos tiveram tempo para ensaiar
ainda mais polêmicas um contra o outro, desgastar as imagens um do outro, e
também acrescentar (especialmente do lado ortodoxo) novas questões de
controvérsia doutrinal embora em um caso, a definição em 1870 da jurisdição
universal e infalibilidade doutrinal do bispo de Roma, a consternação dos
ortodoxos fosse, é claro, completamente previsível, como fora indicado por
vários bispos católicos orientais no Concílio Vaticano I.
Nós achamos pensadores ortodoxos
tão influentes como, por exemplo, o teólogo grego leigo João Romanides que
ataca a doutrina ocidental do pecado original como herética,
fazendo o dogma latino mariano da imaculada conceição – a justificação
original de Maria – supérfluo, senão absurdo. Ou novamente, e este poderia ser
um ponto que ocupou os responsáveis pelo diálogo oficial dos últimos quinze
anos, algum ortodoxo gostaria agora de considerar a prática pastoral através da
qual muitas igrejas locais no ocidente latino adiam a confirmação (ou
crismação) de crianças até depois da sua primeira santa comunhão como baseada em
um grave erro de apreciação da doutrina sacramental.
Porém, nada disto impediu a
Comissão Internacional Comum para o Diálogo Teológico entre a Igreja Católica
Romana e a Igreja Ortodoxa – para usar o seu título prolixo – de produzir
vários (três, para ser preciso) documentos muito úteis para uma compreensão
comum (na Grande Igreja da qual a ortodoxia e o catolicismo são as duas
expressões) do mistério da própria Igreja, em sua estrutura sacramental e
especialmente eucarística, visto em relação com o mistério do Deus unitrino, a
realidade fundamental de nossa fé. Estas declarações são conhecidas pelo lugar
e data de sua origem: Munique 1982, Bari 1987, e Válamo (na Finlândia) 1988[4].
Uma sombra lançada mais
recentemente, era em 1979 apenas uma nuvem no horizonte,
uma nuvem, como nos confrontos de Elias com Acab no Primeiro Livro de Reis,
não maior que a mão de um homem. E esta é a ameaça feita ao diálogo pelo
revigoramento das igrejas uniatas então suprimidas pelos comunistas, ou seja,
as igrejas católicas orientais, especialmente as da Ucrânia e da Transilvânia,
durante o final dos anos 80 e da década de 90.
A existência de comunidades de rito
bizantino em união com a Santa Sé já era um importante incômodo para os
ortodoxos, apesar de algumas destas comunidades, por exemplo
na Itália Meridional e Sicília, terem gozado de uma história sem ruptura de
união e não tenham sido de forma alguma resultado de proselitismo ou trapaça
política.
O que os
ortodoxos bastante natural e justamente objetam é o uniatismo como método
de separar dioceses ortodoxas e paróquias de suas igrejas mães com o princípio
de divide et impera. Nem todas as uniões parciais com os ortodoxos
bizantinos podem ser julgadas historicamente sob este título, pois algumas, como uma união com parte do patriarcado antioqueno que
produziu a atual igreja melquita, é principalmente o resultado da
iniciativa oriental, e não ocidental.
É
certamente uma das ironias da história da Igreja que o mesmo Papa (João Paulo
II) que conduziu o início do diálogo católico-ortodoxo seja também o Papa que
protagonizou a destruição do comunismo. O fim da hegemonia marxista-leninista,
a desintegração interna da União soviética, as rebeliões emuladas contra a
nomenklatura nacional comunista em países como a Romênia, fez com que fosse
possível o re-aparecimento de igrejas católicas orientais, outrora
violentamente re-unificadas com as ortodoxas pelo Comintern de Stalin nas
repercussões do pós-guerra.
O
processo foi suficiente para colocar em dificuldade o projeto de reunião católico-ortodoxa
que é a grande meta da política eclesiástica, enquanto distinta da política
meramente pública, mais querida ao coração deste eslavo extraordinário que é
bispo de Roma.
Assim em junho de 1990, na reunião
plenária da Comissão em Freising na Baviera, os ortodoxos recusaram continuar
com o programa de trabalho oficial discutindo “Conciliaridade e autoridade: as
conseqüências eclesiológicas e canônicas da estrutura sacramental da Igreja”
até que um documento possa ser redigido sobre as igrejas católicas de rito
bizantino, um documento que foi depois produzido em Balamand no Líbano em 1993
e que, lamentavelmente, tanto não satisfez muitos ortodoxos, como ainda
enfureceu muitos católicos orientais[5].
Isto me traz à
quarta e última seção de minha “visão de conjunto” onde, como mencionei no
início, irei individuar um aspecto negativo da ortodoxia para fazer um
comentário, assim espero, caridoso e pacífico de como, em minha opinião, os
ortodoxos necessitam da comunhão católica da mesma forma que – por razões
bastante diferentes já esboçadas – os católicos precisam (neste momento
histórico, sobretudo) da igreja ortodoxa.
A animosidade, na verdade a fúria mal-disfarçada, com que muitos ortodoxos reagem ao tema do
uniatismo quase não é tem explicação. A não ser em termos de um
difundido e não prontamente defensável sentimento ortodoxo sobre a relação
entre a nação e a Igreja.
Na verdade, deve haver algum fator
de psicologia social ou ideologia incorporada que complicam este tema. Tenha-se
em mente que os ortodoxos não tiveram dificuldade alguma neste século de criar
formas de ortodoxia de rito ocidental, como por exemplo, na França debaixo da
égide do patriarcado romeno ou, mais recentemente, nos Estados Unidos debaixo
da jurisdição de um exarca do patriarca de Antioquia. E o que são estas
entidades se não uniatismo ortodoxo – contra o qual a Igreja católica, porém,
não fez alguma objeção.
Nem as igrejas não-calcedonianas
como os assírios (no Iraque e Irã), o jacobitas (na Síria) ou os cristãos
siro-malabares de sul da Índia, reagem deste modo diante da idéia de que
algumas das suas comunidades possam estar em paz e comunhão com a irmã mais
velha Roma. Uma exceção parcial – e significativa – entre tais igrejas
ortodoxas não-calcedonianas são os copta do Egito –
justamente por causa da noção de que o patriarca copta é pai de toda nação
copta. Em outras palavras, entrou aqui o que nós podemos chamar um fator
político – dando à palavra “político” seu possível significado mais largo.
É o vínculo íntimo entre Igreja e
consciência nacional, consciência patriótica que faz o uniatismo tão
absolutamente inaceitável em tais países como a Grécia e Romênia e é este
fenômeno de nacionalismo ortodoxo que eu acho a característica menos atraente
da ortodoxia hoje.
Um exemplo extremo é a filosofia
difundida na Igreja de Sérvia que passa pelo nome de São Sava, rei sérvio da
idade média – conseqüentemente Svetosavlje, “São-Sava-nismo”. Esta criação do
famoso bispo Nikolay Velimirovich, que morreu em 1956, argumenta que o povo
sérvio é, pela sua história de martírio, uma nação eleita, até mesmo entre os
ortodoxos, portadora sem igual de sofrimento salvífico, um povo
incomparavelmente santo, em contraposição especialmente aos seus vizinhos
ocidentais que são apenas pseudocristãos, que crêem na humanidade sem divindade[6].
E se as origens de tais atitudes
ortodoxas se encontram nas tentativas de nacionalistas do século dezenove de
mobilizar o potencial político dos camponeses ortodoxos contra os governantes
islâmicos e católicos, que eu não vacilaria em chamar de profundamente não
cristãs, estas forças podem contrariar até mesmo os interesses da ortodoxia –
como nós estamos vendo hoje na embaraçosa campanha no Sagrado Monte Athos de
desalojar os monges não-gregos e desencorajar os peregrinos não-gregos,
totalmente contra o espírito da república monástica atonita que,
historicamente, é um testemunho vivo da inter-racialidade ortodoxa,
internacionalismo ortodoxo.
Para uma mente católica, a Igreja
de Pentecostes é uma Igreja de todas as nações no sentido de ecclesia ex
gentibus, uma Igreja tomada de todas as nações e reunida – é claro que
também com seus próprios talentos espirituais e humanos – em uma comunidade
universal à imagem da divina Triunidade onde a diferença entre o Pai, Filho e
Espírito somente serve às suas relações de comunhão.
A Igreja de Pentecostes não é uma ecclesia
in gentibus, uma Igreja distribuída entre as nações, no sentido de dividida
entre elas, se acomodando completamente às suas estruturas, e deixando o seu
sentido de identidade autônoma imperturbado.
Falando como alguém que cresceu em
uma Igreja nacional, a Igreja da Inglaterra, embora eu seja feliz por me
considerar perfeitamente inglês, eu também considero como uma bênção da
catolicidade me sentir livre do particularismo, na vida mais espaçosa de uma
Igreja que cresceu para ser um sinal para todas as nações, uma Igreja onde toda
raça, cor e cultura podem se sentir em casa, na casa do Pai.
É nesta perspectiva final que se
deveria considerar o papel do bispo de Roma como um “primado universal” no
serviço da comunhão global das igrejas. Um dos mais amados títulos do bispo de
Roma para o ocidente medieval era o de papa universalis, e enquanto não
se possa nem se deva resumir todos os aspectos de
eclesiologia latina no período da alta Idade Média, para um cristão católico a
comunhão universal das igrejas locais em sua variedade múltipla precisa de um
pai no Papa, da mesma maneira que como a própria igreja local, com suas
congregações variadas, ministérios e atividades, precisa de um pai na pessoa do
bispo.
É dito freqüentemente que tal um
eclesiologia do serviço papal é irremediavelmente ocidental e latina, e incapaz
de tradução em condições orientais. Eu acredito que tal declaração é injusta.
Da mesma maneira que um patriarca, como um primaz regional, é responsável pelo
funcionamento devido das igrejas locais de sua região, sob o seu governo
episcopal, assim um primado universal é responsável pelo funcionamento da ordem
e das obrigações de todo o episcopado, e assim para todas as igrejas em uma
escala mundial.
Nem é necessário dizer: este
serviço serve para a construção, não para a destruição, de toda
ordem episcopal, fundada em última instância no testamento do desejo do
Redentor, ao estabelecer a missão
apostólica, e mais tarde depurada pela Tradição na instituição de patriarcados
e outros primados nesta ou naquela porção do todo eclesial. Mas, ao mesmo
tempo, se o ministério de um bispo primaz verdadeiramente é satisfazer as
necessidades da Igreja universal, isso o levará, às vezes, a ter de tomar
decisões que são duras ou impopulares em algumas comunidades locais.
Para que as Igrejas ortodoxas e
católicas se tornem uma só, algumas reformas da estrutura do primado romano
seriam não menos necessárias, especialmente no nível da cúria romana. A
congregação para as Igrejas Orientais se tornaria um secretariado no serviço
dos apocrisários permanentes (enviados) dos patriarcas e outros primazes.
A grande maioria dos outros
dicastérios seria redefinida como órgãos do patriarca ocidental, ao invés do
sumo pontífice. E tal primazia não seria meramente um carimbar com o selo da
cúria romana as decisões das igrejas locais ou regionais, para que estas
tivessem valor; isso pareceria algo pouco realístico.
Assim o Papa, como primaz universal, precisaria manter:
primeiro, um órgão doutrinal para a coordenação do ensinamento da Igreja, e, em
segundo lugar, algum tipo de “secretariado apostólico”, substituindo a presente
mal-nomeada “Secretaria de Estado”, para uma harmonização dos princípios de
ação pastoral. A tudo isso, pode-se acrescentar, em terceiro lugar, algum dos
“novos organismos curiais” que lidam com os que estão fora da casa de fé que se
possa julgar como útil, e finalmente, um permanente “Conselho para os Negócios
Públicos da Igreja”, para a defesa da liberdade das igrejas (e dos direitos
humanos) diante do poder Estatal.
A
utilidade do quarto destes itens para os Ortodoxos é óbvia. Para o restante
(dos quais somente os dois primeiros são de importância crucial), eles só
deveriam funcionar nas raras ocasiões de “crise de administração” como
instrumentos de ação papal nas igrejas orientais. Normalmente, eles deveriam
funcionar, na verdade, como canais por meio dos quais os impulsos das igrejas
orientais – impulsos dogmáticos, litúrgicos, contemplativos, monásticos – que
poderiam atingir, através do papa, de forma mais abrangente, a Igreja e mundo.
Para
este propósito os apocrisários dos patriarcas, juntamente com os prefeitos dos
dicastérios ocidentais, precisariam constituir seus comitês administrativos,
sob a presidência papal. Isso aconteceria sem a necessidade de se dizer que as
igrejas orientais desfrutariam naturalmente de total paridade com a igreja
latina por todo o mundo, e não simplesmente em suas pátrias – que é a prática
católica atual[7].
Os ortodoxos têm que perguntar a si
mesmos (como o já fazem!) se tais instrumentos de comunhão universal (que
limitam e libertam) talvez não valham a pena. Ou os prazeres da particularidade
têm que vir primeiro?
Este
texto foi apresentado em um encontro da Pro Scandiae Populis, sobre as relações
de católicos e ortodoxos, em Turku (Aabo), Finlândia, no dia 21 de abril de
1995. A seção que esboça uma possível reforma da cúria romana foi inserida
neste contexto com o objetivo de esclarecer a um pedido tácito de clarificação
do Bispo Ambrósio de Joensuu da Igreja ortodoxa da Finlândia.
[1] Cf. A. Nichols, O. P., Light
from the East. Authors and Themes in Orthodox Theology (
[2]
[3] J.-M. Sansterre, 'Eusebe de Césarée et la
naissance de la théorie "cesaropapiste"', Byzantion 42 (1972),
pp. 131-195; 532-594.
[4] Convenientemente coligidos em P. McPartlan
(ed.), One in 2000? Towards
Catholic-Orthodox Unity (Middlegreen, Slough,
1993).
[5] Publicado em
inglês in One in Christ XXX 1 (1994), pp. 74-82.
[6] Cf. T.
Bremer, Ekklesiale Struktur and Ekklesiologie in der Serbischen Orthodoxen
Kirche im 19. and 20. Jahrhundert (Würzburg
1992).
[7] Uma causa justificável de ira entre os
católicos orientais de hoje: cf. T. E. Bird, 'The
Vatican Decree on the Eastern Catholic Churches Thirty Years Later', Sophia
21, 4 (1994), pp. 23-29.