1º DOMINGO DA QUARESMA C
Tema do 1º Domingo da Quaresma
No início da Quaresma, a Palavra
de Deus apela a repensar as nossas opções de vida e a tomar consciência dessas
“tentações” que nos impedem de renascer para a vida nova, para a vida de Deus.
A primeira leitura convida-nos a
eliminar os falsos deuses em quem às vezes apostamos tudo e a fazer de Deus a
nossa referência fundamental. Alerta-nos, na mesma lógica, contra a tentação do
orgulho e da auto-suficiência, que nos levam a caminhos de egoísmo e de
desumanidade, de desgraça e de morte.
O Evangelho apresenta-nos uma
catequese sobre as opções de Jesus. Lucas sugere que Jesus recusou radicalmente
um caminho de materialismo, de poder, de êxito fácil, pois o plano de Deus não
passava pelo egoísmo, mas pela partilha; não passava pelo autoritarismo, mas
pelo serviço; não passava por manifestações espectaculares que impressionam as massas, mas por uma proposta de vida plena, apresentada com
simplicidade e amor. É claro que é esse caminho que é sugerido aos que seguem
Jesus.
A segunda leitura convida-nos a
prescindir de uma atitude arrogante e auto-suficiente em relação à salvação que
Deus nos oferece: a salvação não é uma conquista nossa, mas um dom gratuito de
Deus. É preciso, pois, “converter-se” a Jesus, isto é, reconhecê-l’O
como o “Senhor” e acolher no coração a salvação que, em Jesus, Deus nos propõe.
LEITURA I – Deut 26,4-10
Leitura do livro do Deuteronómio
Moisés falou ao povo, dizendo:
«O sacerdote receberá da tua mão
as primícias dos frutos da terra
e colocá-las-ás diante do altar do Senhor teu Deus.
E diante do Senhor teu Deus,
dirás as seguintes palavras:
‘Meu pai era um arameu errante,
que desceu ao Egipto com poucas pessoas,
e aí
viveu como estrangeiro
até se
tornar uma nação grande, forte e numerosa.
Mas os egípcios maltrataram-nos,
oprimiram-nos
e sujeitaram-nos a dura escravidão.
Então invocámos o Senhor Deus dos nossos pais
e o
Senhor ouviu a nossa voz,
viu a
nossa miséria, o nosso sofrimento
e a
opressão que nos dominava.
O Senhor fez-nos sair do Egipto
com mão
poderosa e braço estendido,
espalhando um grande terror e realizando sinais e prodígios.
Conduziu-nos a este lugar e
deu-nos esta terra,
uma terra onde corre leite e mel.
E agora venho trazer-Vos as
primícias dos frutos da terra
que me
destes, Senhor’.
Então colocarás diante do Senhor
teu Deus
as primícias dos frutos da terra
e te
prostrarás diante do Senhor teu Deus.
AMBIENTE
O livro do Deuteronómio – do qual é retirada a primeira leitura de hoje – é aquele “livro da Lei” ou
“livro da Aliança” descoberto no Templo de Jerusalém no 18º ano do reinado de Josias (
622
a
. C.) (cf. 2 Re 22). Neste
livro os teólogos deuteronomistas – originários do
norte mas, entretanto, refugiados no sul, em
Jerusalém, após as derrotas dos reis do norte (Israel) frente aos assírios –
apresentam os dados fundamentais da sua teologia: há um só Deus, que deve ser
adorado por todo o Povo num único local de culto (Jerusalém); esse Deus amou e
elegeu Israel e fez com ele uma aliança eterna; e o Povo de Deus deve ser um
povo único, unido, a propriedade pessoal de Jahwéh (portanto, não têm qualquer sentido as divisões históricas que levaram o Povo
de Deus à divisão política e religiosa, após a morte do rei Salomão).
O livro apresenta-se,
literariamente, como um conjunto de discursos de Moisés, pronunciados nas
planícies de Moab: antes de entrar na Terra
Prometida, Moisés lembra ao Povo os seus compromissos para com Deus e convida
os israelitas a renovar a sua aliança com Jahwéh.
Em concreto, o texto que hoje nos
é apresentado faz parte de um bloco (cf. Dt 12-26)
que apresenta “as leis e os costumes” que o Povo da aliança devia pôr em
prática nessa terra da qual iria, em breve, tomar posse. Uma dessas leis pedia
que fossem oferecidos ao Senhor os primeiros frutos da terra e que o israelita
fiel proclamasse, nesse contexto, a sua “confissão de fé”. Provavelmente, o
costume é de inspiração cananeia: cada ano, por ocasião
da recolha dos produtos da terra, o cananeu celebrava
uma festa em honra de Baal, divindade da fecundidade
e da vegetação, agradecendo-lhe os dons da terra. Israel, no entanto, sabia que
não era a Baal mas a Jahwéh que devia agradecer tudo; a sua confissão de fé
centrava-se, então, na acção de Deus em favor do seu
Povo, sublinhando sobretudo a libertação do Egipto,
os acontecimentos da marcha pelo deserto, a eleição e o dom da Terra.
MENSAGEM
O gesto de oferecer os primeiros
produtos da terra era, portanto, acompanhado de uma “confissão de fé”. No
fundo, todo este “credo” que recapitula as antigas intervenções do Senhor em
favor do seu Povo (eleição dos patriarcas, êxodo, dom da terra) tem como objectivo último afirmar e reconhecer que essa Terra Boa onde
Israel construiu a sua existência é um dom de Deus; e não só a terra, mas tudo
o que cresce sobre ela, é produto do amor de Deus em favor do seu Povo. É isso
que significavam e simbolizavam as primícias que o israelita depositava sobre o
altar, por meio do sacerdote.
Estas profissões de fé que os
israelitas estavam obrigados a pronunciar periodicamente na liturgia faziam
parte da pedagogia divina, que queria prevenir o Povo contra a tentação da
idolatria. Por um lado, Israel era convidado a reconhecer quem era o seu Senhor
e que tudo era um dom do amor de Jahwéh – não de
outros deuses; por outro lado, Israel era convidado a libertar-se do orgulho,
do egoísmo, da auto-suficiência e a reconhecer que tudo o que era e que tinha
não era fruto das conquistas humanas, mas provinha de Jahwéh.
Israel era, assim, convidado a reconhecer que só no amor e na acção de Deus encontrava a vida e a felicidade.
ACTUALIZAÇÃO
Para reflexão, considerar os
seguintes pontos:
• Uma das tentações frequentes na vida do homem moderno é colocar a sua vida, a
sua esperança e a sua segurança nas mãos dos falsos deuses: o dinheiro, o
poder, o êxito social ou profissional, a ciência ou a técnica, os partidos, os
líderes e as ideologias ocupam com frequência nas
nossas vidas o lugar de Deus. Quais são os deuses diante dos quais o mundo se
prostra? Quais são os deuses que, tantas vezes, impedem que Deus ocupe, na
minha vida, o primeiro lugar?
• O orgulho, o egoísmo, a
auto-suficiência também levam o homem a prescindir de Deus. Os êxitos e as
realizações são atribuídas exclusivamente ao esforço e
ao génio humano, como se o homem se bastasse a si
próprio… Deus chega mesmo a ser visto, não como a referência última da nossa
história e da nossa vida, mas como um estorvo que impede o homem de ser livre e
de seguir o seu caminho de busca de felicidade. Onde nos leva um mundo que
prescinde de Deus? Os caminhos que o homem constrói longe de Deus são caminhos
onde encontramos mais humanidade, mais alegria, mais amor,
mais liberdade, mais respeito pela justiça e pela dignidade do homem? Porquê?
• Tudo o que recebemos é de Deus
e não nosso. Somos apenas administradores dos dons que Deus colocou à
disposição de todos os homens. A nossa relação com os bens – mesmo os mais
fundamentais – não pode, pois, ser uma relação fechada e egoísta: tudo pertence
a Deus, o Pai de todos os homens e deve, portanto, ser partilhado. Como nos
situamos face a isto? Os bens que Deus colocou à nossa
disposição servem apenas para nosso benefício exclusivo, ou são vistos como
dons de Deus para todos?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 90
(91)
Refrão: Estai comigo, Senhor, no
meio da adversidade.
Tu que habitas sob a protecção do Altíssimo
e moras
à sombra do Omnipotente,
Diz ao Senhor: «Sois o meu
refúgio e a minha cidadela:
meu Deus, em Vós confio».
Nenhum mal te acontecerá
nem a
desgraça se aproximará da tua tenda,
porque Ele mandará aos seus Anjos
que te
guardem em todos os teus caminhos.
Na palma das mãos te levarão,
para que
não tropeces em alguma pedra.
Poderás andar sobre víboras e
serpentes,
calcar aos pés o leão e o dragão.
Porque em Mim confiou, hei-de salvá-lo;
hei-de protegê-lo, pois conheceu o meu nome.
Quando Me invocar, hei-de atendê-lo,
estarei com ele na tribulação,
hei-de libertá-lo e dar-lhe glória.
LEITURA II – Rom 10,8-13
Leitura da Epístola do apóstolo
São Paulo aos Romanos
Irmãos:
Que diz a Escritura?
«A palavra está perto de ti,
na tua
boca e no teu coração».
Esta é a palavra da fé que nós
pregamos.
Se confessares com a tua boca que
Jesus é o Senhor
e se
acreditares no teu coração
que Deus
O ressuscitou dos mortos,
serás salvo.
Pois com o coração se acredita
para obter a justiça
e com a
boca se professa a fé para alcançar a salvação.
Na verdade, a Escritura diz:
«Todo aquele que acreditar no
Senhor
não será
confundido».
Não há diferença entre judeu e
grego:
todos têm o mesmo Senhor,
rico para com todos os que O invocam.
Portanto, todo aquele que invocar
o nome do Senhor
será salvo.
AMBIENTE
A Carta aos Romanos é
considerada, por alguns exegetas, a “carta da reconciliação”. Estamos nos anos
57/58; a convivência entre judeo-cristãos e pagano-cristãos apresenta algumas dificuldades, dadas as
diferenças sociais, culturais e religiosas subjacentes aos dois grupos. A
comunidade cristã corre o risco de radicalizar as incompatibilidades e de se
dividir… Nesta situação, Paulo escreve para sublinhar aquilo que a todos une. O
centro da carta seria, de acordo com esta perspectiva, 15,7: “Acolhei-vos,
pois, uns aos outros, como Cristo vos acolheu, para glória de Deus”.
O texto da segunda leitura
pertence à primeira parte da carta (Rom 1-11); o
título desta parte pode ser: o Evangelho de Jesus é a força que congrega e que
salva todo o crente (judeus e pagãos). Depois de demonstrar que todos os homens
vivem mergulhados num ambiente de pecado (Rom 1,18-3,20), mas que a “justiça de Deus” dá a vida a todos sem distinção (Rom
3,21-5,11) e que é em Jesus que essa vida se comunica (Rom 5,12-8,39), Paulo reflecte sobre o desígnio de Deus a respeito de Israel (Rom
9,1-11,36).
Neste texto, em concreto, Paulo
põe em relevo aquilo que une judeus e gregos: a mesma
fé
em Jesus Cristo
e na proposta de salvação que ele traz.
MENSAGEM
Nos versículos anteriores (cf. Rom 9,30-10,4), Paulo havia criticado o orgulho e a
auto-suficiência dos judeus, que pensavam chegar à salvação à custa das obras
que praticavam: se cumprissem as obras da Lei, Deus não teria outro remédio
senão salvá-los. Ora, na perspectiva de Paulo, a salvação não é uma conquista
humana, mas um dom gratuito de Deus que, na sua bondade, “justifica” o homem.
Essa auto-suficiência dos judeus
levou-os a desprezar a salvação de Deus, oferecida gratuitamente
em Jesus Cristo. Os
pagãos, ao contrário, com simplicidade e humildade, acolheram a proposta de
salvação que Jesus trouxe.
Então, tudo estará perdido para
os judeus? Não. Basta-lhes acolher Jesus como “o Senhor” e aceitar a sua
condição de ressuscitado: isso significa aceitar que Ele veio de Deus e que a
proposta de salvação por Ele apresentada tem o selo de Deus.
Dessa forma nascerá um povo
único, sem distinções de raça, cor ou estatuto social. O que é decisivo é
acolher a proposta de salvação que Deus faz através de Jesus e aderir a essa
comunidade de irmãos, “justificados” pela bondade e pelo amor de Deus.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar, na reflexão e actualização da Palavra, as seguintes questões:
• O orgulho e a auto-suficiência
aparecem sempre como algo que fecha aos homens o caminho para Deus. Conduzem o
homem ao fechamento em si próprio e a prescindir de Deus e dos outros. Os
orgulhosos e auto-suficientes correspondem aos “ricos” das bem-aventuranças:
são os que estão instalados nas suas certezas, no seu comodismo, no seu egoísmo
e não estão disponíveis para se deixar desafiar por Deus e para acolher, em
cada instante, a novidade e o amor de Deus. Por isso, são “malditos”: se não
estiverem dispostos a abrir o seu coração a Deus, recusam a salvação que Deus
tem para oferecer.
• Como nos situamos face a isto? A nossa religião é um cumprir escrupulosamente
as regras para assegurar o “lugarzinho no céu”, ou é um aderir na fé à pessoa
de Jesus e à proposta gratuita de salvação que, através d’Ele,
Deus nos faz?
• Quando nos reunimos em assembleia e proclamamos Jesus como o nosso “Senhor”, somos uma verdadeira comunidade de irmãos, sem “judeu nem
grego”, ou continuamos a ser uma comunidade dividida, com amigos e inimigos,
ricos e pobres, negros e brancos, santos e pecadores, superiores e inferiores?
ACLAMAÇÃO ANTES DO EVANGELHO – Mt 4,4b
Refrão 1: Louvor e glória a Vós,
Jesus Cristo Senhor.
Refrão 2: Glória a Vós, Jesus
Cristo, Sabedoria do Pai.
Refrão 3: Glória a Vós, Jesus
Cristo, Palavra do Pai.
Refrão 4: Glória a Vós, Senhor,
Filho do Deus vivo.
Refrão 4: Louvor a Vós, Jesus
Cristo, rei da eterna glória.
Refrão 6: Grandes e admiráveis
são as vossas obras, Senhor.
Refrão 7: A salvação, a glória e
o poder a Jesus Cristo, Nosso Senhor.
Nem só de pão vive o homem,
mas de
toda a palavra que sai da boca de Deus.
EVANGELHO – Lc 4,1-13
Evangelho de Nosso Senhor Jesus
Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
Jesus, cheio do Espírito Santo,
retirou-Se
das margens do Jordão.
Durante quarenta dias,
esteve no deserto, conduzido pelo Espírito,
e foi
tentado pelo diabo.
Nesses dias não comeu nada
e,
passado esse tempo, sentiu fome.
O diabo disse-lhe:
«Se és Filho de Deus,
manda a
esta pedra que se transforme em pão».
Jesus respondeu-lhe:
«Está escrito:
‘Nem só de pão
vive o homem».
O diabo levou-O a um lugar alto
e mostrou-Lhe num instante todos os reinos da terra
e disse-Lhe:
«Eu Te darei todo este poder e a
glória destes reinos,
porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser.
Se Te
prostrares diante de mim, tudo será teu».
Jesus respondeu-lhe:
«Está escrito:
‘Ao Senhor teu Deus adorarás,
só a Ele
prestarás culto’».
Então o demónio levou-O a Jerusalém,
colocou-O
sobre o pináculo do Templo
e disse-Lhe:
«Se és Filho de Deus,
atira-te
daqui abaixo,
porque está escrito:
‘Ele dará ordens aos seus Anjos a
teu respeito,
para que
te guardem’;
e ainda:
‘Na palma das mãos te levarão,
para que
não tropeces em alguma pedra’».
Jesus respondeu-lhe: «Está
mandado:
‘Não tentarás o
Senhor teu Deus’».
Então o diabo, tendo terminado
toda a espécie de tentação,
retirou-Se
da presença de Jesus, até certo tempo.
AMBIENTE
Estamos no começo da actividade pública de Jesus. Ele acabou de ser baptizado por João Baptista e recebeu o Espírito para a
missão (cf. Lc 3,21-22). Agora, confronta-Se com uma
proposta de actuação messiânica que pretende
subverter a proposta do Pai.
Também aqui não estamos diante de
uma reportagem histórica, feita por um jornalista que presenciou o desafio
entre Jesus e o diabo, algures no deserto… Estamos, sim, diante de uma página
de catequese, cujo objectivo é ensinar-nos que Jesus,
como nós, sentiu a mordedura das tentações. Ele também
sentiu a tentação de prescindir de Deus e de seguir um caminho humano de
êxitos, de aplausos, de poder e de riqueza; no entanto, Ele soube dizer não a
todas essas propostas que o afastavam do plano do Pai.
MENSAGEM
Lucas (como já o havia feito
Mateus) vai apresentar a catequese sobre as opções de Jesus, em três episódios
ou “parábolas”. O relato constrói-se em torno de um diálogo em que tanto o
diabo como Jesus citam a Escritura em apoio da sua opinião.
A primeira “parábola” sugere que
Jesus poderia ter optado por um caminho de facilidade e de riqueza, utilizando
a sua divindade para resolver qualquer necessidade material… No entanto, Jesus
sabia que “nem só de pão vive o homem” e que o caminho do Pai não passa pela
acumulação egoísta de bens. A resposta de Jesus cita Dt 8,3, sugerindo que o seu alimento – a sua prioridade – é a Palavra do Pai.
A segunda “parábola” sugere que
Jesus poderia ter escolhido um caminho de poder, de domínio, de prepotência, ao
jeito dos grandes da terra. No entanto, Jesus sabe que esses esquemas são
diabólicos e que não entram nos planos do Pai; por isso, citando Dt 6,13, diz que só o Pai é o seu “absoluto” e que não se
deve adorar mais nada: adorar o poder que corrompe e escraviza não tem nada a
ver com o projecto de Deus.
A terceira “parábola” sugere que
Jesus poderia ter construído um caminho de êxito fácil, mostrando o seu poder
através de gestos espectaculares e sendo admirado e
aclamado pelas multidões (sempre dispostas a deixarem-se fascinar pelo “show” mediático dos super-heróis). Jesus responde a esta proposta
citando Dt 6,16, que manda “não tentar” o Senhor
Deus: aqui, “tentar” significa “não utilizar os dons de Deus ou a bondade de
Deus com um fim egoísta e interesseiro”.
Apresentam-se, portanto, diante
de Jesus, dois caminhos. De um lado, está a proposta do diabo: que Jesus
realize o seu papel na história da salvação como um Messias triunfante, ao
jeito dos homens. Do outro, está a escolha de Jesus:
um caminho de obediência ao Pai e de serviço aos homens, que elimina qualquer
concepção do messianismo como poder.
ACTUALIZAÇÃO
Reflectir sobre as seguintes coordenadas:
• Frente a frente estão, hoje, a
lógica de Deus e a lógica dos homens. A catequese que o Evangelho nos apresenta
neste primeiro Domingo da Quaresma ensina que Jesus pautou cada uma das suas
escolhas pela lógica de Deus. E nós, cristãos, seguidores de Jesus? É essa a
nossa lógica, também?
• Deixar-se conduzir pela
tentação dos bens materiais, do acumular mais e mais, do olhar apenas para o
seu próprio conforto e comodidade, do fechar-se à partilha e às necessidades
dos outros, é seguir o caminho de Jesus? Pagar salários de miséria aos
operários e malbaratar fortunas em noitadas de jogo
ou em coisas supérfluas (enquanto os irmãos, ao lado, gemem a sua miséria), é
seguir o caminho de Jesus?
• Dentro de cada pessoa, existe o
impulso de dominar, de ter autoridade, de prevalecer sobre os outros. Por isso
– às vezes na Igreja – os pobres, os débeis, os humildes têm de suportar
atitudes de prepotência, de autoritarismo, de intolerância, de abuso. A
catequese de hoje sugere que este “caminho” é diabólico e não tem nada a ver
com o serviço simples e humilde que Jesus propôs nas suas palavras e nos seus
gestos.
• Podemos, também, ceder à
tentação de usar Deus ou os dons de Deus para brilhar, para dar espectáculo, para levar os outros a admirar-nos e a
bater-nos palmas. A isto Jesus responde de forma determinada: não utilizarás
Deus em proveito da tua vaidade e do teu êxito pessoal.
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O
1º DOMINGO DA QUARESMA
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)
1. A
PALAVRA MEDITADA AO LONGO
DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana
anterior ao 1º Domingo da Quaresma, procurar meditar a Palavra de Deus deste
domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher
um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da
paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa
comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a
Palavra de Deus.
2. PÃO – TENTAÇÃO: PALAVRAS-CHAVE.
O Evangelho fala de pão e de
tentação. Estas duas palavras aparecem na oração do Pai Nosso: “O pão nosso de
cada dia nos dai hoje… não nos deixeis cair em tentação”. Uma pista para a
homilia poderia ser a ligação entre pão e tentação: se não se alimentar com o
pão da Palavra, o cristão não terá forças para resistir, quando chegar a prova da tentação. Somos convidados a reler o Pai Nosso à
luz do Evangelho deste domingo: dá-nos o teu pão para este dia, ajuda-nos a
ultrapassar a tentação!
3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das
leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
“Deus, Pai do teu Povo, a Igreja,
nós Te damos graças. Pelo baptismo e confirmação, libertaste-nos das amarras da morte para nos introduzir na
nova Terra prometida, a Eucaristia.
Neste início de Quaresma,
recomendamos-Te os candidatos ao baptismo que entram
na última etapa da sua preparação.
No final da segunda leitura:
“Pai, nós Te damos graças pela fé
que nos ofereces: confessamos que Jesus é Senhor, acreditamos do fundo do
coração que O ressuscitaste de entre os mortos.
Nós Te pedimos pelos nossos
irmãos e irmãs que duvidam e por nós mesmos: pelo teu Espírito Santo, sustenta
a nossa fé, que a tua Palavra habite nos nossos corações.
No final do Evangelho:
“Deus fiel, nós Te damos graças
porque nos enviaste o teu Filho Jesus. Ele convida-nos a segui-l’O nos caminhos
da humanidade e a nos comprometermos no caminho da Páscoa.
Nós Te pedimos: enche-nos do teu
Espírito, à imagem do teu Filho Jesus, para que possamos progredir na
fidelidade à tua Palavra.
4. BILHETE DE EVANGELHO.
Jesus não está só no deserto, é
aí que Ele se entretém com seu Pai e, duas vezes, Lucas precisa que o Espírito
Santo acompanha Jesus, que está cheio do Espírito Santo e é por Ele conduzido.
O tentador é forte, apanha Jesus nos seus próprios terrenos. Se Ele é Filho de
Deus, diz-lhe o demónio, Ele é o criador, a Palavra
que tudo criou. Então pode mudar as pedras
em pão. Jesus
recorda-lhe
que o verdadeiro alimento é a Palavra de Deus. Se Jesus é Aquele que veio
instaurar um Reino novo, diz-lhe o tentador, então tem necessidade de poder e
de glória. Jesus não tomará o poder pela força, menos ainda afastando-Se do seu
Pai. O seu Reino é precisamente o de seu Pai que só merece ser adorado. Se
Jesus é o Filho de Deus, diz-lhe Satã, pode manifestar a sua divindade através
de prodígios que ultrapassam os homens, só os anjos se Lhe podem submeter.
Jesus veio revelar o verdadeiro rosto de Deus, cujo único poder é a força do amor. Qualquer outra imagem é uma caricatura, um
ídolo. Pedir-lhe que não seja senão amor, é pô-l’O à prova. Com o Espírito Santo, Jesus resiste às
tentações. E se o demónio se afasta até ao momento
fixado, quando este momento vier, Jesus será ainda o grande vencedor sobre o
Maligno.
5. À ESCUTA DA PALAVRA.
Há o diabo, Jesus e, entre os
dois, a Palavra de Deus. A cada uma das tentações, Jesus responde com uma
citação da Escritura, que reenvia a um episódio da travessia do deserto pelos
Hebreus, após a sua saída do Egipto. Relemos a
resposta à primeira tentação… O pão corporal é
indispensável, mas não é suficiente. Temos necessidade da Palavra de Deus, que
é a única a dar sentido e abre uma esperança, para ir até ao fim da vida.
Relemos a segunda tentação… Jesus utiliza a sua filiação divina para impor o
seu poder sobre todos os reinos da terra, mas não à maneira do poder terrestre.
Esta tentação reenvia-nos à verdade da nossa fé
em Deus Pai. Relemos
a terceira tentação… Colocar Deus à prova é pedir-Lhe sem cessar para nos
provar que Ele nos ama. É estar à procura de provas de que Deus Se ocupa de
nós. A única resposta está no dom que Deus nos fez no seu Filho bem amado. A
fé, a esperança, o amor: a Palavra de Deus, que ilumina toda a nossa vida com
Deus e com os nossos irmãos, é o melhor antídoto para todas as tentações!
6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
A Oração Eucarística 1 para a
Reconciliação, com o seu prefácio próprio, retoma os temas principais sugeridos
pelos textos do dia.
7. PALAVRA PARA O CAMINHO…
• Jesus não escolhe partir para o
deserto. É conduzido pelo Espírito Santo. E aí, é afrontado pelo Espírito do
mal. Também nós não escolhemos viver no coração deste mundo
em que Deus
se tornou desinteressante. Deserto para as nossas vidas de crentes…
para a nossa Igreja… com todas as tentações ligadas às nossas faltas: lassidão, desencorajamento, desejo de nos retirarmos de uma Igreja que nos desconcerta e de abandonarmos Deus… Por
causa de Jesus sabemos que a travessia do deserto é possível. O seu Espírito
acompanha-nos e apoia as nossas escolhas de crentes.
“Acredita no teu coração…”, diz-nos Paulo na Carta aos Romanos. A Quaresma,
travessia do deserto… A Quaresma, convite a reavivar a nossa esperança!
• Seria interessante reflectir durante a semana, em equipa
fraterna, sobre as tentações que nos atingem hoje. E, depois de as detectar, encontrar juntos alguns meios para nos ajudar a
ultrapassá-las…
• Seguindo as orientações da
Diocese concretizadas
em
cada Paróquia
, optar por uma caminhada de solidariedade, com
uma intenção concreta.
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES
DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA –
Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
scj.lu@netcabo.pt – www.ecclesia.pt/dehonianos