3º DOMINGO DA QUARESMA C
Tema do 3º Domingo da Quaresma
Nesta terceira etapa da caminhada
para a Páscoa somos chamados, mais uma vez, a repensar a nossa existência. O
tema fundamental da liturgia de hoje é a “conversão”. Com este tema enlaça-se o
da “libertação”: o Deus libertador propõe-nos a transformação em homens novos,
livres da escravidão do egoísmo e do pecado, para que em nós se manifeste a
vida em plenitude, a vida de Deus.
O Evangelho contém um convite a
uma transformação radical da existência, a uma mudança de mentalidade, a um re-centrar a vida de forma que Deus e os seus valores
passem a ser a nossa prioridade fundamental. Se isso não acontecer, diz Jesus,
a nossa vida será cada vez mais controlada pelo egoísmo que leva à morte.
A segunda leitura avisa-nos que o
cumprimento de ritos externos e vazios não é importante; o que é importante é a
adesão verdadeira a Deus, a vontade de aceitar a sua proposta de salvação e de
viver com Ele numa comunhão íntima.
A primeira leitura fala-nos do
Deus que não suporta as injustiças e as arbitrariedades e que está sempre
presente naqueles que lutam pela libertação. É esse Deus libertador que exige
de nós uma luta permanente contra tudo aquilo que nos escraviza e que impede a
manifestação da vida plena.
LEITURA I – Ex 3,1-8a.13-15
Leitura do Livro do Êxodo
Naqueles dias,
Moisés apascentava o rebanho de Jetro,
seu sogro, sacerdote de Madiã.
Ao levar o rebanho para além do
deserto,
chegou ao monte de Deus, o Horeb.
Apareceu-lhe então o Anjo do
Senhor
numa chama ardente, do meio de uma sarça.
Moisés olhou para a sarça, que
estava a arder,
e viu
que a sarça não se consumia.
Então disse a Moisés: «Vou
aproximar-me,
para ver
tão assombroso espectáculo:
por que
motivo não se consome a sarça?»
O Senhor viu que ele se
aproximava para ver.
Então Deus chamou-o do meio da
sarça:
«Moisés! Moisés!»
Ele respondeu: «Aqui estou!»
Continuou o Senhor:
«Não te aproximes daqui.
Tira as sandálias dos pés,
porque o
lugar que pisas é terra sagrada».
E acrescentou: «Eu sou o Deus de
teu pai,
Deus de Abraão,
Deus de Isaac e Deus de Jacob».
Então Moisés cobriu o rosto,
com receio de olhar para Deus.
Disse-lhe o Senhor:
«Eu vi a situação miserável do
meu povo no Egipto;
escutei o seu clamor provocado pelos opressores.
Conheço, pois, as suas angústias.
Desci para o
libertar das mãos dos egípcios
e o
levar deste país para uma terra boa e espaçosa,
onde corre leite e mel».
Moisés disse a Deus:
«Vou procurar os filhos de Israel
e dizer-lhes:
‘O Deus de vossos pais enviou-me
a vós’.
Mas se me perguntarem qual é o
seu nome,
que hei-de responder-lhes?»
Disse Deus a Moisés:
«Eu sou ‘Aquele que sou’».
E prosseguiu:
«Assim falarás aos filhos de
Israel:
O que Se chama
‘Eu sou’ enviou-me a vós».
Deus disse ainda a Moisés:
«Assim falarás aos filhos de
Israel:
‘O Senhor, Deus de vossos pais,
Deus de Abraão, Deus de Isaac e
Deus de Jacob,
enviou-me
a vós.
Este é o meu nome para sempre,
assim Me
invocareis de geração em geração’».
AMBIENTE
A primeira parte do livro do
Êxodo (Ex 1-18) apresenta-nos um conjunto de “tradições” sobre a libertação do Egipto: narra-se a iniciativa de Jahwéh,
que escutou os gemidos dos escravos hebreus e teve compaixão deles (cf. Ex
2,23-24).
O texto que nos é proposto como
primeira leitura apresenta-nos o chamamento de Moisés, convidado a ser o rosto
visível da libertação que Jahwéh vai levar a cabo.
Algum tempo antes, Moisés deixara o Egipto e
encontrara abrigo no deserto do Sinai, depois de ter morto um egípcio que
maltratava um hebreu (o caminho do deserto era o caminho normal dos opositores
à política do faraó, como o demonstram outras histórias da época que chegaram
até nós); acolhido por uma tribo de beduínos, Moisés casou e refez a sua vida,
numa experiência de calma e de tranquilidade bem
merecidas, após o incidente que lhe arruinara os sonhos de uma carreira no
aparelho administrativo egípcio (cf. Ex 2,11-22). Ora, é precisamente nesse
oásis de paz que Jahwéh Se revela, desinquieta Moisés
e envia-o em missão ao Egipto.
MENSAGEM
A afirmação “Jahwéh tirou Israel do Egipto” será a primitiva profissão de
fé de Israel. É o facto fundamental da fé israelita.
Ora, é essa descoberta que está no centro desta leitura.
O texto que nos é proposto
divide-se em duas partes. Na primeira (vers. 1-8),
temos o relato da vocação de Moisés. O contexto é o das teofanias (manifestações de Deus): o “anjo do Senhor”, o fogo (vers.
2-3), a omnipotência, a santidade e a majestade de
Deus (vers. 4-5), a apresentação de Deus, o
sentimento de “temor” que o homem experimenta diante do divino (vers. 6); e Deus manifesta-Se para “comprometer” Moisés,
enviando-o em missão (vers. 7-8) e fazendo dele o
instrumento da libertação. Fica claro que o chamamento de Moisés é uma
iniciativa do Deus libertador, apostado em salvar o seu Povo. Deus age na
história humana através de homens de coração generoso e disponível, que aceitam
os seus desafios.
Na segunda parte (vers. 13-15), apresenta-se a revelação do nome de Deus (uma
espécie de “sinal” que confirma que Moisés foi chamado por Deus e enviado por
Ele em missão): “Eu sou (ou serei) ‘aquele que sou’ (ou que serei)”. Este nome
acentua a presença contínua de Deus na vida do seu Povo, uma presença viva, activa e dinâmica, no presente e no futuro, como libertação
e salvação.
Os israelitas descobriram, desta
forma, que Jahwéh esteve no meio daquela tentativa
humana de libertação e conduziu o processo, de forma a que um povo vítima da
opressão passasse a ser livre e feliz. Para a fé de Israel, Jahwéh não ficou de braços cruzados diante da opressão; mas iniciou um longo processo
de intervenção na história que se traduziu em libertação e vida para um povo
antes condenado à morte.
Para Israel, o Êxodo tornar-se-á,
assim, o modelo e paradigma de todas as libertações. A partir desta experiência,
Israel descobriu a pedagogia do Deus libertador e soube que Jahwéh está vivo e actuante na história humana, agindo no
coração e na vida de todos os que lutam para tornar este mundo melhor. Israel
descobriu – e procurou dizer-nos isso também a nós – que, no plano de Deus,
aquilo que oprime e destrói os homens não tem lugar; e que sempre que alguém
luta para ser livre e feliz, Deus está com essa pessoa
e age nela. Na libertação do Egipto, os israelitas –
e, através deles, toda a humanidade – descobriram a realidade do Deus salvador
e libertador.
ACTUALIZAÇÃO
Reflectir nos seguintes dados:
• A humanidade geme, hoje, num
violento esforço de libertação política, cultural e económica:
os povos lutam para se libertarem do colonialismo, do imperialismo, das
ditaduras; os pobres lutam para se libertarem da miséria, da ignorância, da
doença, das estruturas injustas; os marginalizados lutam pelo direito à
integração plena na sociedade; os operários lutam pela defesa dos seus direitos
e do seu trabalho; as mulheres lutam pela defesa da sua dignidade; os
estudantes lutam por um sistema de ensino que os prepare para desempenhar um
papel válido na sociedade… Convém termos consciência
que, lá onde alguém está a lutar por um mundo mais justo e mais fraterno, aí está
Deus – esse Deus que vive com paixão o sofrimento dos explorados e que não fica
de braços cruzados diante das injustiças.
• Deus age na nossa vida e na
nossa história através de homens de boa vontade, que se deixam desafiar por
Deus e que aceitam ser seus instrumentos na libertação
do mundo. Diante dos sofrimentos dos irmãos e dos desafios de Deus, como
respondo: com o comodismo de quem não está para se chatear com os problemas dos
outros? Com o egoísmo de quem acha que não é nada consigo? Com a passividade de
quem acha que já fez alguma coisa e que agora é a vez dos outros? Ou com uma
atitude de profeta, que se deixa interpelar por Deus e aceita colaborar com Ele
na construção de um mundo mais justo e mais fraterno?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 102
(103)
Refrão: O Senhor é clemente e
cheio de compaixão.
Bendiz, ó minha alma, o Senhor
e todo o
meu ser bendiga o seu nome santo.
Bendiz, ó minha alma, o Senhor
e não
esqueças nenhum dos seus benefícios.
Ele perdoa todos os teus pecados
e cura
as tuas enfermidades;
salva da
morte a tua vida
e coroa-te de graça e misericórdia.
O Senhor faz justiça
e defende o direito de todos os oprimidos.
Revelou a Moisés os seus caminhos
e aos
filhos de Israel os seus prodígios.
O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
Como a distância da terra aos
céus,
assim é
grande a sua misericórdia para os que O temem.
LEITURA II – 1 Cor 10,1-6.10-12
Leitura da Primeira Epístola do
apóstolo São Paulo aos Coríntios
Irmãos:
Não quero que ignoreis
que os
nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem,
passaram todos através do mar
e na
nuvem e no mar,
receberam todos o baptismo de Moisés.
Todos comeram o mesmo alimento
espiritual
e todos
beberam a mesma bebida espiritual.
Bebiam de um rochedo espiritual que
os acompanhava:
esse rochedo era Cristo.
Mas a maioria deles não agradou a
Deus,
pois caíram mortos no deserto.
Esses factos aconteceram para nos servir de exemplo,
a fim de
não cobiçarmos o mal,
como eles cobiçaram.
Não murmureis, como alguns deles murmuraram,
tendo perecido às mãos do Anjo exterminador.
Tudo isto lhes sucedia para
servir de exemplo
e foi
escrito para nos advertir,
a nós
que chegámos ao fim dos tempos.
Portanto, quem julga estar de pé
tome cuidado para não cair.
AMBIENTE
No mundo grego, os templos eram
os principais matadouros de gado. Os animais eram oferecidos aos deuses e
imolados nos templos. Uma parte do animal era queimada e outra parte pertencia
aos sacerdotes. No entanto, havia sempre sobras, que o pessoal do templo
comercializava. Essas sobras encontravam-se à venda nas bancas dos mercados,
eram compradas pela população e entravam na cadeia alimentar. No entanto, tal
situação não deixava de suscitar algumas questões aos cristãos: comprar essas
carnes e comê-las – como toda a gente fazia – era, de
alguma forma, comprometer-se com os cultos idolátricos. Isso era lícito? É essa
questão que inquieta os cristãos de Corinto.
A esta questão, Paulo responde em
1 Cor 8-10. Concretamente, a resposta aparece em vinte versículos (cf. 1 Cor
8,1-13 e 10,22-29): dado que os ídolos não são nada, comer dessa carne é
indiferente. Contudo, deve-se evitar escandalizar os mais débeis: se houver
esse perigo, evite-se comer dessa carne.
Paulo aproveita este ponto de partida
para um desenvolvimento que vai muito além da questão inicial: comer ou não
comer carne imolada aos ídolos não é importante; o importante é não voltar a
cair na idolatria e nos vícios anteriores; o importante é esforçar-se
seriamente por viver em comunhão com Deus.
MENSAGEM
A título de exemplo, Paulo
apresenta a história do Povo de Deus do Antigo Testamento. Os
israelitas foram todos conduzidos por Deus (a nuvem), passaram todos pela água
libertadora do Mar Vermelho, alimentaram-se todos do mesmo maná e da mesma água
do rochedo “que era Cristo” (Paulo inspira-se numa antiga tradição rabínica
segundo a qual o rochedo de Nm 20,8 seguia Israel na
sua caminhada pelo deserto; e, para Paulo, este rochedo é o símbolo de
Cristo, pré-existente, já presente na caminhada para a liberdade dos hebreus do
Antigo Testamento); mas isso não evitou que a maior parte deles ficasse
prostrada no deserto, pois o seu coração não estava verdadeiramente com Deus e
cederam à tentação dos ídolos.
Assim também os coríntios, embora tenham recebido o baptismo e participado da eucaristia, não têm a salvação garantida: não bastam os ritos,
não basta a letra. Apesar do cumprimento das regras,
os sacramentos não são mágicos: não significam nada e não realizam nada se não
houver uma adesão verdadeira à vontade de Deus. Aos “fortes” e
“auto-suficientes” de Corinto, Paulo recorda: o fundamental, na vivência da fé,
não é comer ou não carne imolada aos ídolos; mas é levar uma vida coerente com
as exigências de Deus e viver em verdadeira comunhão com Deus.
ACTUALIZAÇÃO
Ter em conta, para a reflexão, as
seguintes questões:
• O que é essencial na nossa
vivência cristã? O cumprimento de ritos externos que nos marcam como cristãos
aos olhos do mundo (ou dos nossos superiores)? Ou é uma vida de comunhão com
Deus, vivida com coerência e verdade, que depois se transforma em gestos de
amor e de partilha com os nossos irmãos? O que é que condiciona as minhas
atitudes: o “parecer bem” ou o “ser” de verdade?
• Os sacramentos não são ritos
mágicos que transformam o homem em pessoa nova, quer ele queira quer não. Eles
são a manifestação dessa vida de Deus que nos é gratuitamente
oferecida, que nós acolhemos como um dom, que nos transforma e que nos
torna “filhos de Deus”. É nessa perspectiva que encaramos os momentos
sacramentais em que participamos? É isto que procuramos transmitir quando
orientamos encontros de preparação para os sacramentos?
ACLAMAÇÃO ANTES DO EVANGELHO – Mt 4,17
Refrão 1: Louvor e glória a Vós,
Jesus Cristo Senhor.
Refrão 2: Glória a Vós, Jesus
Cristo, Sabedoria do Pai.
Refrão 3: Glória a Vós, Jesus
Cristo, Palavra do Pai.
Refrão 4: Glória a Vós, Senhor,
Filho do Deus vivo.
Refrão 4: Louvor a Vós, Jesus
Cristo, rei da eterna glória.
Refrão 6: Grandes e admiráveis
são as vossas obras, Senhor.
Refrão 7: A salvação, a glória e
o poder a Jesus Cristo, Nosso Senhor.
Arrependei-vos, diz o Senhor;
está próximo o reino dos Céus.
EVANGELHO – Lc 13,1-9
Evangelho de Nosso Senhor Jesus
Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
vieram contar a Jesus
que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus,
juntamente com o das vítimas que imolavam.
Jesus respondeu-lhes:
«Julgais que, por terem sofrido
tal castigo,
esses galileus eram mais pecadores
do que
todos os outros galileus?
Eu digo-vos que não.
E se não vos arrependerdes,
morrereis todos do mesmo modo.
E aqueles dezoito homens,
que a
torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou?
Julgais que eram mais culpados
do que
todos os outros habitantes de Jerusalém?
Eu digo-vos que não.
E se não vos arrependerdes,
morrereis todos de modo semelhante.
Jesus disse então a seguinte
parábola:
«Certo homem tinha uma figueira
plantada na sua vinha.
Foi procurar os frutos que nela
houvesse,
mas não
os encontrou.
Disse então ao vinhateiro:
‘Há três anos que venho procurar
frutos nesta figueira
e não os
encontro.
Deves cortá-la.
Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’
Mas o vinhateiro respondeu-lhe:
‘Senhor, deixa-a ficar ainda este
ano,
que eu,
entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo.
Talvez venha a dar frutos.
Se não der,
mandá-la-ás cortar no próximo ano».
AMBIENTE
O Evangelho de hoje situa-nos,
já, no contexto da “viagem” de Jesus para Jerusalém (cf. Lc 9,51-19,28). Mais do que um caminho geográfico, é um caminho espiritual, que
Jesus percorre rodeado pelos discípulos. Durante esse percurso, Jesus
prepara-os para que entendam e assumam os valores do Reino (mesmo quando as
palavras de Jesus se dirigem às multidões, como é o caso do episódio de hoje,
são os discípulos que rodeiam Jesus os primeiros destinatários da mensagem).
Pretende-se que, terminada esta caminhada, os discípulos estejam preparados
para continuar a obra de Jesus e para levar a sua proposta libertadora a toda a
terra.
O texto que hoje nos é proposto
apresenta um convite veemente à conversão ao Reino. Destina-se à multidão, em
geral, e aos discípulos que rodeiam Jesus, em particular.
MENSAGEM
O texto apresenta duas partes
distintas, embora unidas pelo tema da conversão. Na primeira parte (cf. Lc 13,1-5), Jesus cita dois exemplos históricos que, no
entanto, não conhecemos com exactidão (assassínio de
alguns patriotas judeus por Pilatos e a queda de uma
torre perto da piscina de Siloé). Flávio Josefo, o grande historiador judeu do séc. I, narra como Pilatos matou alguns judeus que se haviam revoltado
em Jerusalém. Trata-se
do exemplo citado por Jesus? Não sabemos. Também não sabemos nada sobre a queda
da torre de Siloé que, segundo Jesus, matou dezoito
pessoas… Apesar disso, a conclusão que Jesus tira destes dois casos é bastante clara: aqueles que morreram nestes desastres não eram piores
do que os que sobreviveram. Refuta, desta forma, a doutrina judaica da
retribuição segundo a qual o que era atingido por alguma desgraça era culpado
por algum grave pecado. No caso presente, esta doutrina levava à seguinte
conclusão: “nós somos justos, porque nos livramos da morte nas circunstâncias
nomeadas”. Em contrapartida, Jesus pensa que, diante de Deus, todos os homens
precisam de se converter. A última frase do vers. 5
(“se não vos arrependerdes perecereis todos do mesmo modo”) deve ser entendida
como um convite à mudança de vida; se ela não ocorrer, quem vencerá é o egoísmo
que conduz à morte.
Na segunda parte (cf. Lc 13,6-9), temos a parábola da figueira. Serve para
ilustrar as oportunidades que Deus concede para a conversão. O Antigo
Testamento tinha utilizado a figueira como símbolo de Israel (cf. Os 9,10),
inclusive como símbolo da sua falta de resposta à aliança (cf. Jer 8,13) (uma ideia semelhante
aparece na alegoria da vinha de Is 5,1-7). Deus espera, portanto, que Israel (a
figueira) dê frutos, isto é, aceite converter-se à proposta de salvação que lhe
é feita em Jesus; dá-lhe, até, algum tempo (e outra oportunidade), para que
essa transformação ocorra. Deus revela, portanto, a sua bondade e a sua
paciência; no entanto, não está disposto a esperar indefinidamente, pactuando
com a recusa do seu Povo em acolher a salvação. Apesar do tom ameaçador, há no
cenário de fundo desta parábola uma nota de esperança: Jesus confia em que a
resposta final de Israel à sua missão seja positiva.
ACTUALIZAÇÃO
Para reflectir e actualizar a Palavra, considerar as seguintes
notas:
• A proposta principal que Jesus
apresenta neste episódio chama-se “conversão” (“metanoia”).
Não se trata de penitência externa, ou de um simples arrependimento dos
pecados; trata-se de um convite à mudança radical, à reformulação total da vida,
da mentalidade, das atitudes, de forma que Deus e os seus valores passem a
estar em primeiro lugar. É este caminho a que somos chamados a percorrer neste tempo, a fim de renascermos, com Jesus, para a vida nova do
Homem Novo. Concretamente, em que é que a minha mentalidade deve mudar? Quais
são os valores a que eu dou prioridade e que me afastam de Deus e das suas
propostas?
• Essa transformação da nossa
existência não pode ser adiada indefinidamente. Temos à nossa disposição um
tempo relativamente curto: é necessário aproveitá-lo e deixar que em nós
cresça, o mais cedo possível, o Homem Novo. Está em jogo a nossa felicidade, a
vida em plenitude… Porquê adiar a sua concretização?
• Uma outra proposta convida-nos a cortar definitivamente da nossa mentalidade a ligação directa entre pecado e castigo. Dizer que
as coisas boas que nos acontecem são a recompensa de Deus para o nosso bom
comportamento e que as coisas más são o castigo para o nosso pecado, equivale a
acreditarmos num deus mercantilista e chantagista que, evidentemente,
não tem nada a ver com o nosso Deus.
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O
3º DOMINGO DA QUARESMA
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)
1. A
PALAVRA MEDITADA AO LONGO
DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana
anterior ao 3º Domingo da Quaresma, procurar meditar a Palavra de Deus deste
domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher
um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da
paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa
comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a
Palavra de Deus.
2. FORMULAÇÃO DAS ORAÇÕES
PENITENCIAIS.
«E se não vos arrependerdes,
morrereis todos do mesmo modo…» O Evangelho deste domingo põe a questão do pecado
e da responsabilidade do homem. Como são formuladas as nossas orações
penitenciais? Por vezes ficamos pelo modelo: “Nós fazemos demasiado isto, não
fazemos demasiado aquilo… Senhor, tende piedade de
nós…”. Parece que estamos na origem de toda a miséria do mundo… Se lermos com
atenção as fórmulas do Missal, veremos que se trata, no início da Eucaristia,
de confessar, não propriamente as nossas faltas, mas a paciência do Deus de
misericórdia.
3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das
leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Deus de Abraão, de Isaac e de
Jacob, de Moisés e do Povo no qual nos acolheste, nós
Te damos graças e bendizemos o teu Nome que nos revelaste: “Eu sou”. Tu és o
Deus vivo, por todos os séculos.
Nós Te confiamos a nossa
solidariedade para com todos os povos oprimidos, como outrora a descendência de
Abraão no Egipto. Nós sentimo-nos muitas vezes tão
impotentes diante da sua infelicidade. Ilumina-nos.
No final da segunda leitura:
Pai, nós Te damos graças pelo teu
Filho Jesus. Ele revelou-Se como o novo Moisés, que fez brotar a fonte de água
viva do baptismo para nos vivificar, comunicando-nos
a tua própria vida.
Nós Te confiamos as pessoas que se afastaram de Ti. Não sabemos como as
reconduzir para Ti. Ilumina-nos com o teu Espírito.
No final do Evangelho:
Deus paciente,
bendito sejas pelos sinais dos tempos através dos quais nos advertes sem
cessar e nos chamas a voltarmo-nos para Ti. Nós Te
damos graças, porque nos deixas o tempo da conversão.
Nós Te pedimos pelas nossas
comunidades e pelas nossas famílias; que o teu Espírito guie os nossos
pensamentos, as nossas palavras e os nossos actos,
que Ele produza em nós os frutos que Tu esperas.
4. BILHETE DE EVANGELHO.
Na mentalidade judaica, todas as
doenças e enfermidades eram consequências de um
pecado. O Evangelho de hoje confirma esta mentalidade… A morte dos Galileus, diz Jesus, massacrados por ordem de Pilatos, não significa que eles tenham merecido tal destino
em razão dos seus pecados. Esta infelicidade tem a ver com a responsabilidade
dos homens que são capazes de se matarem. A actualidade apresenta-nos todos os dias situações de vítimas inocentes de atentados e
violências, por causa do ódio dos homens. Mas há outras causas dos acidentes,
dos sofrimentos de todas as espécies. Não há ligação entre a morte das vítimas
e a sua vida moral, diz Jesus no Evangelho. Mas Jesus aproveita para lançar um
apelo à conversão. Diante de tantas situações dramáticas que atingem o ser
humano, somos convidados a uma maior vigilância sobre nós mesmos. Devem ser uma
ocasião para pensarmos na nossa condição humana que terminará, naturalmente, na
morte. Recordar a nossa fragilidade deve levar-nos a voltar o nosso ser para Aquele
que pode dar verdadeiro sentido à nossa vida. Não se trata de procurar
culpabilidades, mas de abrir o nosso coração à vinda do Senhor. Não nos devemos
desencorajar diante das nossas esterilidades (figueira estéril…), pois Deus é
infinitamente paciente para connosco. Ele sabe da
nossa fragilidade, conhece os nossos pecados, mas nunca deixa de ter confiança
em nós, até ao fim do nosso caminho. Ele não quer punir-nos, quer fazer-nos
viver!
5. À ESCUTA DA PALAVRA.
Desde o início da sua pregação,
Jesus apela à conversão, o que faz igualmente João Baptista. É mesmo para Jesus
uma questão de vida ou de morte. A conversão não é mortífera, ela é fonte de
vida, pois faz o homem voltar-se para Deus, que quer que ele viva. O homem é
como a figueira plantada no meio de uma vinha: pode ser que, durante anos, não
dê frutos… mas Deus, como o vinhateiro, tem paciência e continua a esperar
nele. Deus vai mesmo mais longe, dá ao homem os meios para se converter. Jesus
não apela somente à conversão, mas propõe ao homem o caminho a empreender para
amar Deus e amar os seus irmãos. A paciência de Deus não é uma atitude passiva,
mas uma solicitude para que o homem viva. Paciência e confiança estão ligadas:
Deus crê no homem, crê que ele pode mudar a sua conduta passada, para se voltar
para Aquele de quem se afastou.
6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
A Oração Eucarística IV
recapitula bem a história da salvação que é evocada na primeira leitura e que
leva à Páscoa de Cristo.
7. PALAVRA PARA O CAMINHO…
“Convertei-vos!” Sim, mas eu não
roubei, nem matei, levo uma vida honesta… Porque deveria eu converter-me?
Precisamente, Cristo quer que sejamos diferentes das pessoas que não têm nada a
apontar… Um monge do Oriente compara o crente a uma casa. Se
sou um baptizado, não somente generoso mas sem
compromisso, então dou a Cristo a chave da porta das traseiras e ele entra na
minha casa como íntimo, como Ele quer. Se eu O deixar entrar pela porta da
frente, quando outros estão na casa, então ficaremos pelos gestos de delicadeza
e pelas conversas de rotina. As questões mais directas tornar-se-ão impossíveis. É à porta das traseiras que Cristo vem bater. Sobretudo durante os quarenta dias da Quaresma…
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES
DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA –
Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
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