4º DOMINGO DA QUARESMA C
Tema do 4º Domingo da Quaresma
A liturgia de hoje convida-nos à
descoberta do Deus do amor, empenhado em conduzir-nos a uma vida de comunhão
com Ele.
O Evangelho apresenta-nos o
Deus/Pai que ama de forma gratuita, com um amor fiel e eterno, apesar das
escolhas erradas e da irresponsabilidade do filho rebelde. E esse amor lá está,
sempre à espera, sem condições, para acolher e abraçar o filho que decide
voltar. É um amor entendido na linha da misericórdia e não na linha da justiça
dos homens.
A segunda leitura convida-nos a
acolher a oferta de amor que Deus nos faz através de Jesus. Só reconciliados
com Deus e com os irmãos podemos ser criaturas novas, em quem se manifesta o
homem Novo.
A primeira leitura, a propósito
da circuncisão dos israelitas, convida-nos à conversão, princípio de vida nova
na terra da felicidade, da liberdade e da paz. Essa vida nova do homem renovado
é um dom do Deus que nos ama e que nos convoca para a felicidade.
LEITURA I – Jos 5,9a.10-12
Leitura do Livro de Josué
Naqueles dias,
disse o
Senhor a Josué:
«Hoje tirei de vós o opróbrio do Egipto».
Os filhos de Israel acamparam em Gálgala
e celebraram a Páscoa,
no dia
catorze do mês, à tarde,
na planície de Jericó.
No dia seguinte à Páscoa,
comeram dos frutos da terra:
pães ázimos e espigas assadas nesse mesmo dia.
Quando começaram a comer dos
frutos da terra,
no dia
seguinte à Páscoa,
cessou o
maná.
Os filhos de Israel não voltaram
a ter o maná,
mas,
naquele ano,
já se
alimentaram dos frutos da terra de Canaã.
AMBIENTE
O livro de Josué narra a entrada e a instalação do Povo de Deus na Terra Prometida. Recorrendo ao género épico (relatos
enfáticos, exagerados, maravilhosos) e apresentando idealmente a tomada de
posse da Terra como um passeio triunfal do Povo com Deus à frente, os autores deuteronomistas vão sublinhar a acção maravilhosa de Jahwéh que, através do seu poder,
cumpre as promessas feitas aos antepassados e entrega a Terra Prometida ao seu
Povo. Não é um livro muito preciso do ponto de vista histórico; mas é
uma extraordinária catequese sobre o amor de Deus ao seu Povo.
No texto que a liturgia de hoje
nos propõe, os israelitas, vindos do deserto, acabaram de atravessar o rio
Jordão. Estão em Guilgal, um lugar que não foi ainda
localizado, mas que devia situar-se não longe do Jordão, a nordeste de Jericó.
Aproxima-se a celebração da primeira Páscoa na Terra Prometida e só os
circuncidados podem celebrar a Páscoa (cf. Ex 12,44.48);
por isso, Josué faz o Povo passar pelo rito da circuncisão, sinal da aliança de
Deus com Abraão e, portanto, sinal de pertença ao Povo eleito de Jahwéh (cf. Gn 17,10-11). É neste
contexto que aparecem as palavras de Deus a Josué referidas
na primeira leitura.
MENSAGEM
O rito da circuncisão, destinado
a todos “os que nasceram no deserto, durante a viagem, depois do êxodo” (Jos 5,5), terminou e todos fazem, agora, parte do Povo de
Deus. É um Povo renovado, que dessa forma reafirmou a sua ligação ao Deus da
aliança. O rito levado a cabo por Josué faz-nos pensar numa espécie de
“conversão” colectiva, que põe um ponto final no “opróbrio
do Egipto” e assinala um “tempo novo” para o Povo de
Deus.
A questão central deste texto
gira à volta da vida nova que começa para o Povo de Deus. A Páscoa, celebrada
nessa terra livre, marca o início dessa nova etapa. Israel é, agora, um Povo
novo, o Povo eleito, comprometido com Jahwéh,
definitivamente livre da escravidão, que inicia uma vida nova nessa Terra de
Deus onde “corre o leite e o mel”.
ACTUALIZAÇÃO
Reflectir a partir das seguintes questões:
• Somos convidados, neste tempo
de Quaresma, a uma experiência semelhante à que fez o Povo de Deus de que fala
a primeira leitura: é preciso pôr fim à etapa da escravidão e do deserto, a fim
de passar, decisivamente, à vida nova, à vida da liberdade e da paz. E a
circuncisão? A circuncisão física é um rito externo, que nada significa… O que
é preciso é aquilo a que os profetas chamaram a “circuncisão do coração” (Dt 10,16; Jr 4,4; cf. Jr 9,25): trata-se da adesão plena da pessoa a Deus e às
suas propostas; trata-se de uma verdadeira transformação interior que se chama
“conversão”. O que é que é preciso “cortar” na minha vida ou na vida da minha
comunidade cristã (ou religiosa) para que se dê início a essa nova etapa? O que
é que ainda nos impede de celebrar um verdadeiro compromisso com o nosso Deus?
• A partir dessa “circuncisão do
coração”, podemos celebrar com verdade a vida nova, a ressurreição. A
celebração da Páscoa será, dessa forma, o anúncio e a preparação dessa Páscoa definitiva (a Páscoa escatológica), que nos
trará a vida plena.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 33
(34)
Refrão: Saboreai e vede como o
Senhor é bom.
A toda a hora bendirei o Senhor,
o seu
louvor estará sempre na minha boca.
A minha alma gloria-se no Senhor:
escutem e alegrem-se os humildes.
Enaltecei comigo ao Senhor
e exaltemos juntos o seu nome.
Procurei o Senhor e Ele
atendeu-me,
libertou-me
de toda a ansiedade.
Voltai-vos para Ele e ficareis
radiantes,
o vosso
rosto não se cobrirá de vergonha.
Este pobre clamou e o Senhor o
ouviu,
salvou-o
de todas as angústias.
LEITURA II – 2 Cor 5,17-21
Leitura da Segunda Epístola do
apóstolo São Paulo aos Coríntios
Irmãos:
Se alguém está em Cristo, é uma
nova criatura.
As coisas antigas passaram; tudo
foi renovado.
Tudo isto vem de Deus,
que por
Cristo nos reconciliou consigo
e nos
confiou o ministério da reconciliação.
Na verdade, é Deus que em Cristo
reconcilia o mundo consigo,
não levando em conta as faltas dos homens
e confiando-nos a palavra da reconciliação.
Nós somos, portanto, embaixadores
de Cristo;
é Deus
quem vos exorta por nosso intermédio.
Nós vos pedimos em nome de
Cristo:
reconciliai-vos
com Deus.
A Cristo,
que não conhecera o pecado,
Deus identificou-O com o pecado
por causa de nós,
para que
em Cristo nos tornemos justiça de Deus.
AMBIENTE
Por volta de 56/57, chegam a
Corinto missionários itinerantes que se apresentam como apóstolos e criticam
Paulo, lançando a confusão. Provavelmente, trata-se ainda desses “judaizantes”
que queriam impor aos pagãos convertidos as práticas da Lei de Moisés (embora
também possam ser cristãos que condenam a severidade de Paulo e que apoiam o laxismo da vida dos coríntios). De qualquer forma, Paulo é informado de que a
validade do seu ministério está a ser desafiada e dirige-se a toda a pressa
para Corinto, disposto a enfrentar o problema. O confronto é violento e Paulo é
gravemente injuriado por um membro da comunidade (cf. 2 Cor 2,5-11;7,11). Na sequência, Paulo
abandona Corinto e parte para Éfeso. Passado algum
tempo, Paulo envia Tito a Corinto, a fim de tentar a reconciliação. Quando Tito
regressa, traz notícias animadoras: o diferendo foi
ultrapassado e os coríntios estão, outra vez, em
comunhão com Paulo. É nessa altura que Paulo, aliviado e com o coração em paz, escreve esta Carta aos Coríntios,
fazendo uma tranquila apologia do seu apostolado.
O texto que nos é proposto está
incluído na primeira parte da carta (2 Cor 1,3-7,16), onde Paulo analisa as
suas relações com os cristãos de Corinto. Neste texto em concreto, transparece
essa necessidade premente de reconciliação que vai no coração de Paulo.
MENSAGEM
A palavra-chave desta leitura é
“reconciliação” (das dez vezes que Paulo utiliza o verbo “reconciliar” e o
substantivo “reconciliação”, cinco correspondem a esta passagem). Transparece,
portanto, aqui, a angústia de Paulo pelo “distanciamento” dos seus queridos
filhos de Corinto e a sua vontade de refazer a comunhão com eles.
Mas, para além da reconciliação
entre os coríntios e Paulo, é necessária a
reconciliação entre os coríntios e Deus. Daí a
ardente chamada do apóstolo a que os coríntios se
deixem reconciliar com Deus. “Em Cristo”, Deus ofereceu aos homens a
reconciliação; aderir à proposta de Cristo é acolher a oferta de reconciliação
que Deus fez. Ser cristão implica, portanto, estar reconciliado com Deus (isto
é, aceitar viver com Ele uma relação autêntica de comunhão, de intimidade, de
amor) e com os outros homens. Isto significa, na prática, ser uma criatura
nova, um homem renovado.
É desta
reconciliação que Paulo se fez “embaixador” e arauto; o ministério de Paulo
passa por pedir aos coríntios que se reconciliem com
Deus e que nasçam, assim, para a vida nova de Deus. É evidente que esta chamada
não é só válida para os cristãos de Corinto, mas serve para os cristãos de
todos os tempos: os homens têm necessidade de viver em paz uns com os outros;
mas dificilmente o conseguirão, se não viverem em paz com Deus.
O texto termina (vers. 21) com uma referência à eficácia reconciliadora da
morte de Cristo: pela cruz, Deus arrancou-nos do domínio do pecado e
transformou-nos em homens novos. Que quer isto dizer? Ao ser morto na cruz pela
Lei, Cristo mostrou como a Lei só produz morte, desqualificou-a e afastou-nos
dela, permitindo-nos o verdadeiro encontro com Deus; e pela cruz, Jesus
ensinou-nos o amor total, o amor que se dá, libertando-nos do egoísmo que impede
a reconciliação com Deus e com os irmãos.
ACTUALIZAÇÃO
Para reflectir e actualizar a Palavra, considerar as seguintes
questões:
• Ser cristão é, antes de mais,
aceitar essa proposta de reconciliação que Deus nos faz
em Jesus. Significa
que Deus, apesar das nossas infidelidades, continua a propor-nos um projecto de comunhão e de amor. Como é que eu respondo a
essa oferta de Deus: com uma vida de obediência aos seus projectos e de entrega confiada nas suas mãos, ou com egoísmo,
auto-suficiência e fechamento ao Deus da comunhão?
• É “em Cristo” – e, de forma
privilegiada, na cruz de Cristo – que somos reconciliados com Deus. Na cruz,
Cristo ensinou-nos a obediência total ao Pai, a entrega confiada aos projectos do Pai e o amor total aos homens nossos irmãos.
Dessa lição decisiva deve nascer o Homem Novo, o homem que vive na obediência
aos projectos de Deus e no amor aos outros. É desta
forma que eu procuro viver?
• A comunhão com Deus exige a
reconciliação com os outros meus irmãos. Não é uma conclusão a que Paulo dê um
relevo explícito neste texto, mas é uma perspectiva que está implícita em todo
o discurso. Como me situo face a esta obrigatoriedade
(para o cristão) de me reconciliar com os que me rodeiam?
ACLAMAÇÃO ANTES DO EVANGELHO – Lc 15,18
Refrão 1: Louvor e glória a Vós,
Jesus Cristo Senhor.
Refrão 2: Glória a Vós, Jesus
Cristo, Sabedoria do Pai.
Refrão 3: Glória a Vós, Jesus
Cristo, Palavra do Pai.
Refrão 4: Glória a Vós, Senhor,
Filho do Deus vivo.
Refrão 4: Louvor a Vós, Jesus
Cristo, rei da eterna glória.
Refrão 6: Grandes e admiráveis
são as vossas obras, Senhor.
Refrão 7: A salvação, a glória e
o poder a Jesus Cristo, Nosso Senhor.
Vou partir, vou ter com meu pai e
dizer-lhe:
Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
EVANGELHO – Lc 15,1-3.11-32
Evangelho de Nosso Senhor Jesus
Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
os publicanos e os pecadores
aproximavam-se
todos de Jesus, para O ouvirem.
Mas os fariseus e os escribas
murmuravam entre si, dizendo:
«Este homem acolhe os pecadores e
come com eles».
Jesus disse-lhes então a seguinte
parábola:
«Um homem tinha dois filhos.
O mais novo disse ao pai:
‘Pai, dá-me a parte da herança
que me toca’.
O pai repartiu os bens pelos
filhos.
Alguns dias depois, o filho mais
novo,
juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante
e por lá
esbanjou quanto possuía,
numa vida dissoluta.
Tendo gasto tudo,
houve uma grande fome naquela região
e ele
começou a passar privações.
Entrou então ao serviço de um dos
habitantes daquela terra,
que o
mandou para os seus campos guardar porcos.
Bem desejava ele matar a fome
com as alfarrobas que os porcos comiam,
mas ninguém lhas dava.
Então, caindo em si, disse:
‘Quantos trabalhadores de meu pai
têm pão em abundância,
e eu
aqui a morrer de fome!
Vou-me embora, vou ter com meu
pai e dizer-lhe:
Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu
filho,
mas trata-me como um dos teus trabalhadores’.
Pôs-se a caminho e foi ter com o
pai.
Ainda ele estava longe, quando o
pai o viu:
encheu-se
de compaixão
e correu
a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos.
Disse-lhe o filho:
‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu
filho’.
Mas o pai disse aos servos:
‘Trazei depressa a melhor túnica
e vesti-lha.
Ponde-lhe um anel no dedo e
sandálias nos pés.
Trazei o vitelo gordo e matai-o.
Comamos e festejemos,
porque este meu filho estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’.
E começou a festa.
Ora o filho mais velho estava no
campo.
Quando regressou,
ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças.
Chamou um dos servos e
perguntou-lhe o que era aquilo.
O servo respondeu-lhe:
‘O teu irmão voltou
e teu
pai mandou matar o vitelo gordo,
porque ele chegou são e salvo’.
Ele ficou ressentido e não queria
entrar.
Então o pai veio cá fora instar
com ele.
Mas ele respondeu ao pai:
‘Há tantos anos que eu te sirvo,
sem nunca transgredir uma ordem tua,
e nunca
me deste um cabrito
para fazer uma festa com os meus amigos.
E agora, quando chegou esse teu
filho,
que consumiu os teus bens com mulheres de má vida,
mataste-lhe
o vitelo gordo’.
Disse-lhe o pai:
‘Filho, tu estás sempre comigo
e tudo o
que é meu é teu.
Mas tínhamos de fazer uma festa e
alegrar-nos,
porque este teu irmão estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’».
AMBIENTE
Continuamos no “caminho de
Jerusalém”, esse caminho espiritual que Jesus percorre com os discípulos,
preparando-os para serem as testemunhas do Reino diante de todos os homens.
Todo o capítulo 15 é dedicado ao
ensinamento sobre a misericórdia: em três parábolas, Lucas apresenta uma
catequese sobre a bondade e o amor de um Deus que quer estender a mão a todos
os que a teologia oficial excluía e marginalizava. O ponto de partida é a murmuração
dos fariseus e dos escribas que, diante da avalanche de publicanos e pecadores que escutam Jesus, comentam: “este homem acolhe os pecadores e come
com eles”. Acolher os publicanos e pecadores é algo
de escandaloso, na perspectiva dos fariseus; no entanto, comer com eles,
estabelecer laços de familiaridade e de irmandade com eles à volta da mesa, é
algo de inaudito… A conclusão dos fariseus é óbvia: Jesus não pode vir de Deus pois, na perspectiva da doutrina tradicional, os pecadores
não podem aproximar-se de Deus.
É neste contexto que Jesus
apresenta a “parábola do filho pródigo”, uma parábola que é exclusiva de Lucas
(nem Marcos, nem Mateus, nem João a referem).
MENSAGEM
A parábola apresenta-nos três
personagens de referência: o pai, o filho mais novo e o filho mais velho. Detenhamo-nos um pouco nestas figuras.
A personagem central é o pai.
Trata-se de uma figura excepcional, que conjuga o respeito pelas decisões e
pela liberdade dos filhos, com um amor gratuito e sem limites. Esse amor
manifesta-se na emoção com que abraça o filho que volta, mesmo sem saber se
esse filho mudou a sua atitude de orgulho e de auto-suficiência em relação ao
pai e à casa. Trata-se de um amor que permaneceu
inalterado, apesar da rebeldia do filho; trata-se de um pai que continuou a
amar, apesar da ausência e da infidelidade do filho. A consequência do amor do pai simboliza-se no “anel” que é símbolo da autoridade (cf. Gn 41,42; Est 3,10; 8,2) e nas
sandálias, que é o calçado do homem livre.
Depois, vem o filho mais novo. É
um filho ingrato, insolente e obstinado, que exige do pai
muito mais do que aquilo a que tem direito (a lei judaica previa que o
filho mais novo recebesse apenas um terço da fortuna do pai – cf. Dt 21,15-17; mas, ainda que a divisão das propriedades pudesse
fazer-se em vida do pai, os filhos não acediam à sua posse senão depois da
morte deste – cf. Sir 33,20-24). Além disso, abandona a casa e o amor do pai e
dissipa os bens que o pai colocou à sua disposição. É uma imagem de egoísmo, de
orgulho, de auto-suficiência, de frivolidade, de total irresponsabilidade.
Acaba, no entanto, por perceber o vazio, o sem sentido, o desespero dessa vida
de egoísmo e de auto-suficiência e por ter a coragem de voltar ao encontro do
amor do pai.
Finalmente, temos o filho mais
velho. É o filho “certinho”, que sempre fez o que o pai mandou, que cumpriu todas as regras e que nunca pensou em deixar esse espaço cómodo e acolhedor que é a casa do pai. No entanto, a sua
lógica é a lógica da “justiça” e não a lógica da “misericórdia”. Ele acha que
tem créditos superiores aos do irmão e não compreende nem aceita que o pai queira exercer o seu direito à misericórdia e acolha,
feliz, o filho rebelde. É a imagem desses fariseus e escribas que interpelaram
Jesus: porque cumpriam à risca as exigências da Lei, desprezavam os pecadores e
achavam que essa devia ser também a lógica de Deus.
A “parábola do pai bondoso e
misericordioso” pretende apresentar-nos a lógica de Deus. Deus é o Pai bondoso,
que respeita absolutamente a liberdade e as decisões dos seus filhos, mesmo que
eles usem essa liberdade para procurar a felicidade em caminhos errados; e,
aconteça o que acontecer, continua a amar e a esperar ansiosamente o regresso
dos filhos rebeldes. Quando os reencontra, acolhe-os com amor e reintegra-os na
sua família. Essa é a alegria de Deus. É esse Deus de amor, de bondade, de
misericórdia, que se alegra quando o filho regressa
que nós, às vezes filhos rebeldes, temos a certeza de encontrar quando
voltamos.
A parábola pretende ser também um
convite a deixarmo-nos arrastar por esta dinâmica de
amor no julgamento que fazemos dos nossos irmãos. Mais do que pela “justiça”,
que nos deixemos guiar pela misericórdia, na linha de Deus.
ACTUALIZAÇÃO
Ter em conta os seguintes
elementos, para reflexão:
• A primeira chamada de atenção
vai para o amor do Pai: um amor que respeita absolutamente as decisões – mesmo
absurdas – desse filho que abandona a casa paterna; um amor que está sempre lá,
fiel e inquebrável, preparado para abraçar o filho
que volta. Repare-se: mesmo antes de o filho falar e mostrar o seu
arrependimento, o Pai manifesta-lhe o seu amor; é um amor que precede a
conversão e que se manifesta antes da conversão. É num Deus que nos ama desta
forma que somos chamados a confiar neste tempo de “metanoia”.
• Esta parábola alerta-nos também
para o sem sentido e a frustração de uma vida vivida longe do amor do “Pai”, no
egoísmo, no materialismo, na auto-suficiência. Convida-nos a reconhecer que não
é nos bens deste mundo, mas é na comunhão com o “Pai” que encontramos a
felicidade, a serenidade e a paz.
• Esta parábola convida-nos,
finalmente, a não nos deixarmos dominar pela lógica do que é “justo” aos olhos
do mundo, mas pela “justiça de Deus”, que é misericórdia, compreensão,
tolerância, amor. Com que critérios julgamos os nossos
irmãos: com os critérios da justiça do mundo, ou com os critérios da
misericórdia de Deus? A nossa comunidade é, verdadeiramente, o espaço onde se
manifesta a misericórdia de Deus?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O
4º DOMINGO DA QUARESMA
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)
1. A
PALAVRA MEDITADA AO LONGO
DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana
anterior ao 4º Domingo da Quaresma, procurar meditar a Palavra de Deus deste
domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher
um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia,
num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade
religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de
Deus.
2. UMA LADAINHA PENITENCIAL.
Estamos a caminhar para o fim da
Quaresma. Pode ser sugestivo, no momento penitencial, evocar as leituras da
Quaresma deste ano C em forma de ladainha. Como exemplo:
- Jesus, atormentado pela
tentação…
- Jesus, transfigurado sobre a
montanha…
- Jesus, testemunha do Deus de
paciência…
- Jesus, testemunha do Deus de
misericórdia…
- Jesus, testemunha do Deus do
perdão…
3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das
leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Deus fiel, nós Te damos graças
pela terra prometida na qual nos acolheste desde o nosso baptismo;
é o teu Povo, o Corpo eclesial de teu Filho, que Tu alimentas com o sopro do
teu Espírito Santo.
Nesta Quaresma, tempo de
partilha, nós Te confiamos as nossas acções em favor
do desenvolvimento e de uma mais justa repartição dos bens da terra. Que o teu
Espírito nos guie e nos inspire.
No final da segunda leitura:
Pai misericordioso e paciente,
nós Te damos graças pela reconciliação que nos concedeste por Cristo e pela
missão de perdão e de reconciliação que nos confias.
Nós Te pedimos: pelo teu Espírito
Santo, ilumina os nossos pensamentos, muda os nossos corações, inspira-nos as
iniciativas de perdão e de paz que se impõem para o bem das nossas famílias e
dos que estão ao nosso lado.
No final do Evangelho:
Pai misericordioso, nós Te damos
graças pela grande festa dos reencontros de cada domingo. Preparas-nos a mesa
para nos acolher, remindo os nossos pecados e enchendo-nos com o teu Espírito.
Com o filho perdido e
reencontrado nós Te pedimos: Pai, pecámos contra ti,
cura os nossos espíritos e os nossos corações, dá-nos o teu Espírito Santo.
4. BILHETE DE EVANGELHO.
Tal é a questão dos fariseus e
dos escribas. Tal foi a questão do filho mais velho da
parábola, ao descobrir a festa organizada para o regresso de seu irmão. Com
efeito, Jesus aproximava-Se dos publicanos e dos
pecadores, chegando mesmo a fazer-Se convidar por eles, o que O tornava impuro
aos olhos daqueles que se julgavam puros. O Pai do pródigo vai atirar-se ao
pescoço do filho que julgava perdido e cobre-o de beijos. Porquê?
Porque se encheu de compaixão. Assim, este pai também se torna impuro tocando o
filho que regressa, depois de uma vida de desordem, de um país estrangeiro onde
tinha guardado porcos, tantas situações que o declaravam impuro… Como os
fariseus e os escribas, o filho mais velho recusa entrar em casa, julga-se
puro. A um como a outro, o pai continua a dizer “meu filho”. A cada um de lhe
responder “meu pai”. Este pai tinha feito a partilha dos seus bens, respeitando
a liberdade do filho que decide partir… Este mesmo pai suplica ao filho mais
velho para se juntar à festa, respeitando a sua liberdade… Um dia, talvez,
alegrar-se-á também com o seu regresso…
5. À ESCUTA DA PALAVRA.
Péguy dizia da parábola do filho pródigo: “Aquele que a ouve pela centésima vez, é
como se a ouvisse pela primeira vez”. Conhecemo-la de cor… É preciso parar
longamente, saboreá-la ainda e sempre. Podemos hoje pensar na seguinte frase:
“Bem desejava ele matar a fome com as alfarrobas que
os porcos comiam, mas ninguém lhas dava”. Parece que não diz nada de
importante. Mas pode ser a frase-chave da parábola. A verdadeira miséria do
filho mais novo é de não ter ninguém que esteja atento a ele, que o olhe. Para
os seres humanos, o olhar é vital. Quando o olhar não é transparente, acontecem
desvios, recusa do amor, os seres humanos torna-se inimigos em vez de serem irmãos e irmãs, acontece desconfiança, inveja,
indiferença. O filho mais novo morre da falta de um olhar de amor, sente fome
de amor. Jesus quer mudar esta situação, renovando relações em que o amor possa
circular de novo. Jesus lança o seu olhar de amor sobre nós, sobre cada um de
nós. Um olhar que é fonte de vida! Um
olhar do qual não podemos fugir!
6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Sugere-se a Oração Eucarística II
para a Reconciliação.
7. PALAVRA PARA O CAMINHO…
A segunda parte da parábola deste
domingo é uma crítica à conduta do filho mais velho… uma crítica da nossa
própria conduta, nós que estamos ao serviço de Deus nem nunca ter desobedecido
gravemente às suas leis. Somos observantes, fazemos o que devemos fazer, mas
depressa podemos mostrar-nos duros e com desprezo: quando fechamos a porta ao
nosso filho que…, quando cortamos as pontes com um parente…, quando olhamos de
lado a divorciada… E, entretanto, Deus não nos julga! Ele é paciente,
suplica-nos para compreender: “Tu, meu filho, estás sempre comigo…”
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES
DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA –
Portugal
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