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DOMINGO DE RAMOS C

1 de Abril de 2007    

Tema do Domingo de Ramos  

A liturgia deste último Domingo da Quaresma convida-nos a contemplar esse Deus que, por amor, desceu ao nosso encontro, partilhou a nossa humanidade, fez-Se servo dos homens, deixou-Se matar para que o egoísmo e o pecado fossem vencidos. A cruz (que a liturgia deste domingo coloca no horizonte próximo de Jesus) apresenta-nos a lição suprema, o último passo desse caminho de vida nova que, em Jesus, Deus nos propõe: a doação da vida por amor.

A primeira leitura apresenta-nos um profeta anónimo, chamado por Deus a testemunhar no meio das nações a Palavra da salvação. Apesar do sofrimento e da perseguição, o profeta confiou em Deus e concretizou, com teimosa fidelidade, os projectos de Deus. Os primeiros cristãos viram neste “servo” a figura de Jesus.

A segunda leitura apresenta-nos o exemplo de Cristo. Ele prescindiu do orgulho e da arrogância, para escolher a obediência ao Pai e o serviço aos homens, até ao dom da vida. É esse mesmo caminho de vida que a Palavra de Deus nos propõe.

O Evangelho convida-nos a contemplar a paixão e morte de Jesus: é o momento supremo de uma vida feita dom e serviço, a fim de libertar os homens de tudo aquilo que gera egoísmo e escravidão. Na cruz revela-se o amor de Deus, esse amor que não guarda nada para si, mas que se faz dom total.

 

 

LEITURA I – Is 50,4-7

 

Leitura do Livro de Isaías

 

O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo,

para que eu saiba dizer uma palavra de alento

aos que andam abatidos.

Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos,

para eu escutar, como escutam os discípulos.

O Senhor Deus abriu-me os ouvidos

e eu não resisti nem recuei um passo.

Apresentei as costas àqueles que me batiam

e a face aos que me arrancavam a barba;

não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam.

Mas o senhor Deus veio em meu auxílio,

e por isso não fiquei envergonhado;

tornei o meu rosto duro como pedra,

e sei que não ficarei desiludido.

 

AMBIENTE

 

No livro do Deutero-Isaías (Is 40-55), encontramos quatro poemas que se destacam do resto do texto (cf. Is 42,1-9;49,1-13;50,4-11;52,13-53,12). Apresentam-nos uma figura enigmática de um “servo de Jahwéh”, que recebeu de Deus uma missão. Essa missão tem a ver com a Palavra de Deus e tem carácter universal; concretiza-se no sofrimento, na dor e no abandono incondicional à Palavra e aos projectos de Deus. Apesar de a missão terminar num aparente insucesso, a dor do profeta não foi em vão: ela tem um valor expiatório e redentor; do seu sofrimento resulta o perdão para o pecado do povo. Deus aprecia o sacrifício do profeta e recompensá-lo-á, elevando-o à vista de todos, fazendo-o triunfar dos seus detractores e adversários.

Quem é este profeta? É Jeremias, o paradigma do profeta que sofre por causa da Palavra? É o próprio Deutero-Isaías, chamado a dar testemunho da Palavra no ambiente hostil do exílio? É um profeta desconhecido? É uma figura colectiva que representa o Povo exilado, humilhado, esmagado, mas que continua a ser um testemunho de Deus no meio do sofrimento em que vive? É uma figura representativa, que une a recordação de personagens históricas (patriarcas, Moisés, David, profetas) com figuras míticas, de forma a representar o Povo de Deus na sua totalidade? Não sabemos; no entanto, a figura apresentada vai receber uma outra iluminação à luz de Jesus Cristo, da sua vida, do seu destino.

O texto que nos é proposto é parte do terceiro cântico do “servo de Jahwéh”.

 

MENSAGEM

 

O texto dá a palavra a um personagem anónimo, que fala do seu chamamento por Deus para a missão. Ele não se intitula “profeta”; porém, narra a sua vocação, com os elementos típicos dos relatos proféticos de vocação.

Em primeiro lugar, a missão que este “profeta” recebe de Deus tem claramente a ver com o anúncio da Palavra. O profeta é o homem da Palavra, através de quem Deus fala; a proposta de redenção que Deus faz a todos aqueles que necessitam de salvação/libertação ecoa na palavra profética. O profeta é inteiramente modelado por Deus e não opõe resistência nem ao chamamento, nem à Palavra que Deus lhe confia; mas tem de estar, continuamente, numa atitude de escuta de Deus, para que possa depois apresentar – com fidelidade – essa Palavra de Deus para os homens.

Em segundo lugar, a missão profética realiza-se no sofrimento e na dor. É um tema sobejamente conhecido da literatura profética: o anúncio das propostas de Deus provoca resistências que, para o profeta, se consubstanciam quase sempre em dor e perseguição. No entanto, o profeta não se demite: a paixão pela Palavra sobrepõe-se ao sofrimento.

Em terceiro lugar, vem a expressão de confiança no Senhor, que não abandona aqueles a quem chama. A certeza de que não está só, mas que tem a força de Deus, torna o profeta mais forte do que a dor e o sofrimento. Por isso, o profeta “não será confundido”.

 

 

ACTUALIZAÇÃO

 

A reflexão pode fazer-se de acordo com as seguintes coordenadas:

 

• Não sabemos, efectivamente, quem é este “servo de Jahwéh”; no entanto, os primeiros cristãos vão utilizar este texto como grelha para interpretar o mistério de Jesus: Ele é a Palavra de Deus feita carne, que oferece a sua vida para trazer a libertação/salvação aos homens… A vida de Jesus realiza plenamente esse destino de dom e de entrega da vida em favor de todos; e a sua glorificação mostra que uma vida vivida deste jeito não termina no fracasso, mas na ressurreição que gera vida nova.

 

• Jesus, o “servo” sofredor que faz da sua vida um dom por amor, mostra aos seus seguidores o caminho: a vida, quando é posta ao serviço da libertação dos pobres e dos oprimidos, não é perdida mesmo que pareça, em termos humanos, fracassada e sem sentido. Temos a coragem de fazer da nossa vida uma entrega radical ao projecto de Deus e à libertação dos nossos irmãos? O que é que ainda entrava a nossa aceitação de uma opção deste tipo? Temos consciência de que, ao escolher este caminho, estamos a gerar vida nova para nós e para os nossos irmãos?

 

• Temos consciência de que a nossa missão profética passa por sermos Palavra viva de Deus? Nas nossas palavras, nos nossos gestos, no nosso testemunho, a proposta libertadora de Deus alcança o nosso mundo?

 

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 21 (22)

 

Refrão: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?

 

Todos os que me vêem escarnecem de mim,

estendem os lábios e meneiam a cabeça:

«Confiou no Senhor, Ele que o livre,

Ele que o salve, se é seu amigo».

 

Matilhas de cães me rodearam,

cercou-me um bando de malfeitores.

Trespassaram as minhas mãos e os meus pés,

posso contar todos os meus ossos.

 

Repartiram entre si as minhas vestes

e deitaram sortes sobre a minha túnica.

Mas Vós, Senhor, não Vos afasteis de mim,

sois a minha força, apressai-Vos a socorrer-me.

 

Hei-de falar do vosso nome aos meus irmãos,

hei-de louvar-Vos no meio da assembleia.

Vós, que temeis o Senhor, louvai-O,

glorificai-O, vós todos os filhos de Jacob,

reverenciai-O, vós todos os filhos de Israel.

 

 

LEITURA II – Filip 2,6-11

 

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

 

Cristo Jesus, que era de condição divina,

não Se valeu da sua igualdade com Deus,

mas aniquilou-Se a Si próprio.

Assumindo a condição de servo,

tornou-Se semelhante aos homens.

Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais,

obedecendo até à morte e morte de cruz.

Por isso Deus O exaltou

e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes,

para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem

no céu, na terra e nos abismos,

e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor,

para glória de Deus Pai.

 

AMBIENTE

 

A cidade de Filipos era uma cidade próspera, com uma população constituída maioritariamente por veteranos romanos do exército. Organizada à maneira de Roma, estava fora da jurisdição dos governantes das províncias locais e dependia directamente do imperador; gozava, por isso, dos mesmos privilégios das cidades de Itália. A comunidade cristã, fundada por Paulo, era uma comunidade entusiasta, generosa, comprometida, sempre atenta às necessidades de Paulo e do resto da Igreja (como no caso da colecta em favor da Igreja de Jerusalém – cf. 2 Cor 8,1-5), por quem Paulo nutria um afecto especial. Apesar destes sinais positivos, não era, no entanto, uma comunidade perfeita… O desprendimento, a humildade e a simplicidade não eram valores demasiado apreciados entre os altivos patrícios que compunham a comunidade.

É neste enquadramento que podemos situar o texto que esta leitura nos apresenta. Paulo convida os Filipenses a encarnar os valores que marcaram a trajectória existencial de Cristo; para isso, utiliza um hino pré-paulino, recitado nas celebrações litúrgicas cristãs: nesse hino, ele expõe aos cristãos de Filipos o exemplo de Cristo.

 

MENSAGEM

 

Cristo Jesus – nomeado no princípio, no meio e no fim – constitui o motivo do hino. Dado que os Filipenses são cristãos, quer dizer, dado que Cristo é o protótipo a cuja imagem estão configurados, têm a iniludível obrigação de comportar-se como Cristo. Como é o exemplo de Cristo?

O hino começa por aludir subtilmente ao contraste entre Adão (o homem que reivindicou ser como Deus e lhe desobedeceu – cf. Gn 3,5.22) e Cristo (o Homem Novo que, ao orgulho e revolta de Adão responde com a humildade e a obediência ao Pai). A atitude de Adão trouxe fracasso e morte; a atitude de Jesus trouxe exaltação e vida.

Em traços precisos, o hino define o “despojamento” (“kenosis”) de Cristo: Ele não afirmou com arrogância e orgulho a sua condição divina, mas aceitou fazer-Se homem, assumindo com humildade a condição humana, para servir, para dar a vida, para revelar totalmente aos homens o ser e o amor do Pai. Não deixou de ser Deus; mas aceitou descer até aos homens, fazer-Se servidor dos homens, para garantir vida nova para os homens. Esse “abaixamento” assumiu mesmo foros de escândalo: Ele aceitou uma morte infamante – a morte de cruz – para nos ensinar a suprema lição do serviço, do amor radical, da entrega total da vida.

No entanto, essa entrega completa ao plano do Pai não foi uma perda nem um fracasso: a obediência e entrega de Cristo aos projectos do Pai resultaram em ressurreição e glória. Em consequência da sua obediência, do seu amor, da sua entrega, Deus fez d’Ele o “Kyrios” (“Senhor” – nome que, no Antigo Testamento, substituía o nome impronunciável de Deus); e a humanidade inteira (“os céus, a terra e os infernos”) reconhece Jesus como “o senhor” que reina sobre toda a terra e que preside à história.

É óbvio o apelo à humildade, ao desprendimento, ao dom da vida que Paulo faz aos Filipenses e a todos os crentes: o cristão deve ter como exemplo esse Cristo, servo sofredor e humilde, que fez da sua vida um dom a todos; esse caminho não levará ao aniquilamento, mas à glorificação, à vida plena.

 

ACTUALIZAÇÃO

 

Para reflexão, podem considerar-se as seguintes indicações:

 

• Os valores que marcaram a existência de Cristo continuam a não ser demasiado apreciados em muitos dos nossos ambientes contemporâneos. De acordo com os critérios que presidem ao nosso mundo, os grandes “ganhadores” não são os que põem a sua vida ao serviço dos outros, com humildade e simplicidade, mas são os que enfrentam o mundo com agressividade, com auto-suficiência e fazem por ser os melhores, mesmo que isso signifique não olhar a meios para passar à frente dos outros. Como pode um cristão (obrigado a viver inserido neste mundo e a ser competitivo) conviver com estes valores?

 

• Paulo tem consciência de que está a pedir aos seus cristãos algo realmente difícil; mas é algo que é fundamental, à luz do exemplo de Cristo. Também a nós é pedido, nestes últimos dias antes da Páscoa, um passo em frente neste difícil caminho da humildade, do serviço, do amor: será possível que, também aqui, sejamos as testemunhas da lógica de Deus?

 

 

ACLAMAÇÃO ANTES DO EVANGELHO – Filip 2,8-9

 

Refrão 1: Louvor e glória a Vós, Jesus Cristo Senhor.

Refrão 2: Glória a Vós, Jesus Cristo, Sabedoria do Pai.

Refrão 3: Glória a Vós, Jesus Cristo, Palavra do Pai.

Refrão 4: Glória a Vós, Senhor, Filho do Deus vivo.

Refrão 4: Louvor a Vós, Jesus Cristo, rei da eterna glória.

Refrão 6: Grandes e admiráveis são as vossas obras, Senhor.

Refrão 7: A salvação, a glória e o poder a Jesus Cristo, Nosso Senhor.

 

Cristo obedeceu até à morte e morte de cruz.

Por isso Deus O exaltou

e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes.

 

 

EVANGELHO – Lc 22,14-23,56 (forma longa) ou Lc 23,1-49 (forma breve)

 

N Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

 

N Quando chegou a hora,

Jesus sentou-Se à mesa com os seus Apóstolos

e disse-lhes:

J «Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa,

antes de padecer;

pois digo-vos que não tornarei a comê-la,

até que se realize plenamente no reino de Deus».

N Então, tomando um cálice, deu graças e disse:

J «Tomai e reparti entre vós,

pois digo-vos que não tornarei a beber do fruto da videira,

até que venha o reino de Deus».

N Depois tomou o pão e, dando graças,

partiu-o e deu-lho, dizendo:

J «Isto é o meu corpo entregue por vós.

Fazei isto em memória de Mim».

N No fim da ceia, fez o mesmo com o cálice, dizendo:

J «Este cálice é a nova aliança no meu Sangue,

derramado por vós.

Entretanto, está comigo à mesa

a mão daquele que Me vai entregar.

O Filho do homem vai partir, como está determinado.

Mas ai daquele por quem Ele vai ser entregue!»

N Começaram então a perguntar uns aos outros

qual deles iria fazer semelhante coisa.

Levantou-se também entre eles uma questão:

qual deles se devia considerar o maior?

Disse-lhes Jesus:

J «Os reis da nações exercem domínio sobre elas

e os que têm sobre elas autoridade são chamados malfeitores.

Vós não deveis proceder desse modo.

O maior entre vós seja como o menor

e aquele que manda seja como quem serve.

Pois quem é o maior: o que está à mesa ou o que serve?

Não é o que está à mesa?

Ora Eu estou no meio de vós como aquele que serve.

Vós estivestes sempre comigo nas minhas provações.

E Eu preparo para vós um reino,

como meu Pai o preparou para Mim:

comereis e bebereis à minha mesa, no meu reino,

e sentar-vos-eis em tronos,

a julgar as doze tribos de Israel.

Simão, Simão, Satanás vos reclamou

para vos agitar na joeira como trigo.

Mas Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça.

E tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos».

N Pedro respondeu-Lhe:

R «Senhor, eu estou pronto a ir contigo,

até para a prisão e para a morte».

N Disse-lhe Jesus:

J «Eu te digo, Pedro: não cantará hoje o galo,

sem que tu, por três vezes, negues conhecer-Me».

N Depois acrescentou:

J «Quando vos enviei sem bolsa nem alforge nem sandálias,

faltou-vos alguma coisa?»

N Eles responderam que não lhes faltara nada.

Disse-lhes Jesus:

J «Mas agora, quem tiver uma bolsa pegue nela,

bem como no alforge;

e quem não tiver espada venda a capa e compre uma.

Porque Eu vos digo

que se deve cumprir em Mim o que está escrito:

‘Foi contado entre os malfeitores’.

Na verdade, o que Me diz respeito está a chegar ao fim».

N Eles disseram:

R «Senhor, estão aqui duas espadas».

N Mas Jesus respondeu:

J «Basta».

 

N Então saiu

e foi, como de costume, para o Monte das Oliveiras

e os discípulos acompanharam-n’O.

Quando chegou ao local, disse-lhes:

J «Orai, para não entrardes em tentação».

N Depois afastou-Se deles cerca de um tiro de pedra

e, pondo-Se de joelhos, começou a orar, dizendo:

J «Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice.

Todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua».

N Então apareceu-Lhe um Anjo, vindo do Céu, para O confortar.

Entrando em angústia, orava mais instantemente

e o suor tornou-se-Lhe como grossas gotas de sangue,

que caíam na terra.

Depois de ter orado,

levantou-Se e foi ter com os discípulos,

que encontrou a dormir, por causa da tristeza.

Disse-lhes Jesus:

J «Porque estais a dormir?

Levantai-vos e orai, para não entrardes em tentação».

 

N Ainda Ele estava a falar,

quando apareceu uma multidão de gente.

O chamado Judas, um dos Doze, vinha à sua frente

e aproximou-se de Jesus, para O beijar.

Disse-lhe Jesus:

J «Judas, é com um beijo que entregas o Filho do homem?»

N Ao verem o que ia suceder,

os que estavam com Jesus perguntaram-Lhe:

R «Senhor, vamos feri-los à espada?»

N E um deles feriu o servo do sumo sacerdote,

cortando-lhe a orelha direita.

Mas Jesus interveio, dizendo:

J «Basta! Deixai-os».

N E, tocando na orelha do homem, curou-o.

Disse então Jesus aos que tinham vindo ao seu encontro,

príncipes dos sacerdotes, oficiais do templo e anciãos:

J «Vós saístes com espadas e varapaus,

como se viésseis ao encontro dum salteador.

Eu estava todos os dias convosco no templo

e não Me deitastes as mãos.

Mas esta é a vossa hora e o poder das trevas.

N Apoderaram-se então de Jesus,

levaram-n’O e introduziram-n’O em casa do sumo sacerdote.

Pedro seguia-os de longe.

Acenderam uma fogueira no meio do pátio,

sentaram-se em volta dela

e Pedro foi sentar-se no meio deles.

Ao vê-lo sentado ao lume,

uma criada, fitando os olhos nele, disse:

R «Este homem também andava com Jesus».

N Mas Pedro negou:

R «Não O conheço, mulher».

N Pouco depois, disse outro, ao vê-lo:

R «Tu também és um deles».

N Mas Pedro disse:

R «Homem, não sou».

N Passada mais ou menos uma hora,

afirmava outro com insistência:

R «Esse homem, com certeza, também andava com Jesus,

pois até é galileu».

N Pedro respondeu:

R «Homem, não sei o que dizes».

N Nesse instante – ainda ele falava – um galo cantou.

O Senhor voltou-Se e fitou os olhos em Pedro.

Então Pedro lembrou-se da palavra do Senhor,

quando lhe disse:

‘Antes do galo cantar, Me negarás três vezes’.

E, saindo para fora, chorou amargamente.

Entretanto, os homens que guardavam Jesus

troçavam d’Ele e maltratavam-n’O.

Cobrindo-Lhe o rosto, perguntavam-Lhe:

R «Adivinha, profeta: Quem te bateu?»

N E dirigiam-Lhe muitos outros insultos.

Ao romper do dia,

reuniu-se o conselho dos anciãos do povo,

os príncipes dos sacerdotes e os escribas.

Levaram-n’O ao seu tribunal e disseram-Lhe:

R «Diz-nos se Tu és o Messias».

N Jesus respondeu-lhes:

J «Se Eu vos disser, não acreditareis

e, se fizer alguma pergunta, não respondereis.

Mas o Filho do homem sentar-Se-á doravante

à direita do poder de Deus».

N Disseram todos:

R «Tu és então o Filho de Deus?»

N Jesus respondeu-lhes:

J «Vós mesmos dizeis que Eu sou».

N Então exclamaram:

R «Que necessidade temos ainda de testemunhas?

Nós próprios o ouvimos da sua boca».

N Levantaram-se todos e levaram Jesus a Pilatos.

 

N Começaram a acusá-l’O, dizendo:

R «Encontrámos este homem a sublevar o nosso povo,

a impedir que se pagasse o tributo a César

e dizendo ser o Messias-Rei».

N Pilatos perguntou-Lhe:

R «Tu és o Rei dos judeus?»

N Jesus respondeu-lhe:

J «Tu o dizes».

N Pilatos disse aos príncipes dos sacerdotes e à multidão:

R «Não encontro nada de culpável neste homem».

N Mas eles insistiam:

R «Amotina o povo, ensinando por toda a Judeia,

desde a Galileia, onde começou, até aqui».

 

N Ao ouvir isto, Pilatos perguntou se o homem era galileu;

e, ao saber que era da jurisdição de Herodes,

enviou-O a Herodes,

que também estava nesses dias em Jerusalém.

Ao ver Jesus, Herodes ficou muito satisfeito.

Havia bastante tempo que O queria ver,