3º
DOMINGO DA PÁSCOA C
22
de Abril de 2007
Tema do 3º Domingo da
Páscoa
A liturgia deste 3º
Domingo da Páscoa recorda-nos que a comunidade cristã tem por missão
testemunhar e concretizar o projecto libertador que Jesus iniciou; e que Jesus,
vivo e ressuscitado, acompanhará sempre a sua Igreja em missão, vivificando-a
com a sua presença e orientando-a com a sua Palavra.
A primeira leitura
apresenta-nos o testemunho que a comunidade de Jerusalém dá de Jesus
ressuscitado. Embora o mundo se oponha ao projecto libertador de Jesus
testemunhado pelos discípulos, o cristão deve antes obedecer a Deus do que aos
homens.
A segunda leitura
apresenta Jesus, o “cordeiro” imolado que venceu a morte e que trouxe aos
homens a libertação definitiva; em contexto litúrgico, o autor põe a criação
inteira a manifestar diante do “cordeiro” vitorioso a sua alegria e o seu
louvor.
O Evangelho apresenta os
discípulos em missão, continuando o projecto libertador de Jesus; mas avisa que
a acção dos discípulos só será coroada de êxito se eles souberem reconhecer o
Ressuscitado junto deles e se deixarem guiar pela sua Palavra.
LEITURA I – Actos
5,27b-32.40b-41
Leitura dos Actos dos
Apóstolos
Naqueles dias,
o sumo sacerdote falou aos
Apóstolos, dizendo:
«Já vos proibimos
formalmente
de ensinar em nome de
Jesus;
e vós encheis Jerusalém
com a vossa doutrina
e quereis fazer recair
sobre nós o sangue desse homem».
Pedro e os Apóstolos
responderam:
«Deve obedecer-se antes a
Deus que aos homens.
O Deus dos nossos pais
ressuscitou Jesus,
a quem vós destes a morte,
suspendendo-O no madeiro.
Deus exaltou-O pelo seu poder,
como Chefe e Salvador,
a fim de conceder a Israel
o arrependimento e o
perdão dos pecados.
E nós somos testemunhas
destes factos,
nós e o Espírito Santo
que Deus tem concedido
àqueles que Lhe obedecem».
Então os judeus mandaram
açoitar os Apóstolos,
intimando-os a não falarem
no nome de Jesus,
e depois soltaram-nos.
Os Apóstolos saíram da
presença do Sinédrio cheios de alegria,
por terem merecido serem
ultrajados
por causa do nome de
Jesus.
AMBIENTE
Entre 2,1 e 8,3, o Livro
dos Actos apresenta o testemunho da Igreja de Jerusalém acerca de Jesus. Os
comentadores costumam chamar aos capítulos 3-5 a “secção do nome”, pois eles
incidem no anúncio do “nome” de Jesus (cf. Act 3,6.16;4,7.10.12.30;5,28.41),
isto é, do próprio Jesus (o “nome” era uma apelação com que os judeus
designavam o próprio Deus; designar Jesus dessa forma equivalia a dizer que Ele
era “o Senhor”). Esse anúncio, feito em condições de extrema dificuldade (por
causa da oposição dos líderes judeus), é, sobretudo, obra dos apóstolos.
No texto que nos é
proposto, apresenta-se o testemunho de Pedro e dos outros apóstolos acerca de
Jesus. Presos e miraculosamente libertados (cf. Act 5,17-19), os apóstolos
voltaram ao Templo para dar testemunho de Cristo ressuscitado (cf. Act
5,20-25). De novo presos, conduzidos à presença da suprema autoridade religiosa
da nação (o Sinédrio) e formalmente proibidos de dar testemunho de Jesus, os
apóstolos responderam apresentando um resumo do kerigma primitivo.
MENSAGEM
A questão principal gira à
volta do confronto entre o cristianismo nascente e as autoridades judaicas. A
frase de Pedro “deve obedecer-se antes a Deus do que aos homens” (vers. 29)
deve ser vista como o tema central; define a atitude que os cristãos são
convidados a assumir diante da oposição do mundo.
Quanto ao resumo doutrinal
dos vers. 30-32, ele não apresenta grandes novidades doutrinais em relação a
outras formulações do kerigma primitivo acerca de Jesus (apresentado de forma
mais desenvolvida em Act 2,17-36, 3,13-26 e 10,36-43): morte na cruz,
ressurreição, exaltação à direita de Deus, a sua apresentação como salvador e o
testemunho dos apóstolos por acção do Espírito. Neste contexto, apenas se
acentua – mais do que noutras formulações – a responsabilidade do Sinédrio no
escândalo da cruz e a contraposição entre a acção de Deus e a acção das
autoridades judaicas em relação a Jesus.
De resto, a oposição
humana põe em relevo a realidade sobre-humana da mensagem, a sua força que não
pode ser detida e o dinamismo dessa comunidade animada pelo Espírito. Se Jesus
encontrou oponentes e morreu na cruz, é natural que os apóstolos, fiéis a Jesus
e ao seu projecto, se defrontem com a oposição desses mesmos que mataram Jesus.
No entanto, os verdadeiros seguidores do projecto de Jesus – animados pelo Espírito
– estão mais preocupados com a fidelidade ao “caminho” de Jesus do que às
ordens ou interesses dos homens – mesmo que sejam os que mandam no mundo.
ACTUALIZAÇÃO
Para reflectir e
actualizar a Palavra, considerar os seguintes dados:
• A proposta de Jesus é
uma proposta libertadora, que não se compadece nem pactua com esquemas
egoístas, injustos, opressores. É uma mensagem questionante, transformadora,
revolucionária, que põe em causa tudo o que gera injustiça, morte, opressão;
por isso, é uma proposta que é rejeitada e combatida por aqueles que dominam o
mundo e que oprimem os débeis e os pobres. Isto explica bem porque é que o
testemunho sobre Jesus (se é coerente e verdadeiro) não é um caminho fácil de
glória, de aplausos, de honras, de popularidade, mas um caminho de cruz. Não
temos, portanto, que nos admirar se a mensagem que propomos e o testemunho que
damos não encontram eco entre os que dominam o mundo; temos é de nos questionar
e de nos inquietar se não somos importunados por aqueles que oprimem e que
escravizam os irmãos: isso quererá dizer que o nosso testemunho não é coerente
com a proposta de Jesus.
• Qual a nossa atitude, em
concreto, diante daqueles que “assassinam” a proposta de Jesus e que constroem
um mundo de onde a lógica de Deus está ausente: é de medo, de fraqueza, de
submissão, ou de denúncia firme, corajosa e desassombrada? Para nós, o que é
mais importante: obedecer a Deus ou aos homens?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo
29 (30)
Refrão 1: Eu vos louvarei,
Senhor, porque me salvastes.
Refrão 2: Aleluia.
Eu Vos glorifico, Senhor,
porque me salvastes
e não deixastes que de mim
se regozijassem os inimigos.
Tirastes a minha alma da
mansão dos mortos,
vivificastes-me para não
descer à cova.
Cantai salmos ao Senhor,
vós os seus fiéis,
e dai graças ao seu nome
santo.
A sua ira dura apenas um
momento
e a sua benevolência a
vida inteira.
Ao cair da noite vêm as
lágrimas
e ao amanhecer volta a
alegria.
Ouvi, Senhor, e tende
compaixão de mim,
Senhor, sede Vós o meu
auxílio.
Vós convertestes em júbilo
o meu pranto:
Senhor meu Deus, eu Vos
louvarei eternamente.
LEITURA II – Ap 5,11-14
Leitura do Livro do
Apocalipse
Eu, João, na visão que
tive,
ouvi a voz de muitos
Anjos,
que estavam em volta do
trono, dos Seres Vivos e dos Anciãos.
Eram miríades de miríades
e milhares de milhares,
que diziam em voz alta:
«Digno é o Cordeiro que
foi imolado
de receber o poder e a
riqueza, a sabedoria e a força,
a honra, a glória e o
louvor».
E ouvi todas as criaturas
que há no céu, na terra,
debaixo da terra e no mar,
e o universo inteiro,
exclamarem:
Àquele que está sentado no
trono e ao Cordeiro
o louvor e a honra, a
glória e o poder
pelos séculos dos
séculos».
Os quatro Seres Vivos
diziam: «Ámen!»;
e os Anciãos prostraram-se
em adoração.
AMBIENTE
A segunda parte do Livro
do Apocalipse (cap. 4-22) apresenta-nos aquilo que poderíamos chamar “uma
leitura profética da história”: o autor vai apresentar a história humana numa
perspectiva de esperança, demonstrando aos cristãos perseguidos pelo império que
não há nada a temer pois a vitória final será de Deus e dos que se mantiverem
fiéis aos projectos de Deus.
O texto que nos é proposto
faz parte da visão inicial, onde o “profeta” João nos apresenta as personagens
centrais que vão intervir na história humana: Deus, transcendente e
omnipotente, sentado no seu trono, rodeado pelo Povo de Deus e por toda a
criação (cf. Ap 4,1-11); depois, o “livro” onde, simbolicamente, está o
desígnio de Deus acerca da humanidade (cf. Ap 5,1-4); finalmente, é-nos
apresentado “o cordeiro” (Jesus), aquele que detém a totalidade do poder (“sete
cornos”) e do conhecimento (“sete olhos”); só ele é digno de ler o livro (ou
seja, de revelar, de proclamar, de concretizar para os homens o projecto divino
de salvação).
MENSAGEM
A personagem fundamental
deste pequeno extracto que nos é proposto como segunda leitura é “o cordeiro”.
É um símbolo usado pelo autor do Livro do Apocalipse para falar de Jesus.
O símbolo do “cordeiro” é
um símbolo com uma grande densidade teológica, que concentra e evoca três
figuras: a do “servo de Jahwéh” – figura de imolação – que, qual manso cordeiro
é levado ao matadouro (Is 53,6-7; cf. Jr 11,19; Act 8,26-38); a do “cordeiro
pascal” – figura de libertação – cujo sangue foi sinal eficaz de vitória sobre
a escravidão (Ex 12,12-13.27;24,8; cf. Jo 1,29; 1 Cor 5,7; 1 Pe 1,18-19); e a
do “cordeiro apocalíptico” – figura de poder real – vencedor da morte (esta
imagem é característica da literatura apocalíptica, onde aparece um cordeiro
vencedor, guia do rebanho, dotado de poder e de autoridade real – cf. 1º livro
de Henoc, 89,41-46; 90,6-10.37; Testamento de José, 19,8; Testamento de
Benjamim, 3,8; Targum de Jerusalém sobre Ex 1,5). O autor do Apocalipse
apresenta, portanto, de uma maneira original e sintética, a plenitude do
mistério de imolação, de libertação e de vitória régia, que corresponde a
Cristo morto, ressuscitado e glorificado.
O “cordeiro” (Cristo) é
entronizado: ele assumiu a realeza e sentou-se no próprio trono de Deus. Aí,
recebe todo o poder e glória divina. A entronização régia de Cristo, ponto
culminante da aventura divino-humana de Jesus, desencadeia uma verdadeira
torrente de louvores: dos viventes, dos anciãos (vers. 5-8) e dos anjos (vers.
11-12). E todas as criaturas (vers. 13), a partir dos lugares mais esconsos da
terra, juntam a sua voz ao louvor. O Templo onde ressoam estas incessantes
aclamações alargou as suas fronteiras e tem, agora, as dimensões do mundo. É
uma liturgia cósmica, na qual a criação inteira celebra o Cristo imolado, ressuscitado,
vencedor e faz dele o centro do “cosmos”.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão desta leitura
pode prolongar-se a partir das seguintes linhas:
• A mensagem final do
Livro do Apocalipse pode resumir-se na frase: “não tenhais medo, pois a vossa
libertação está a chegar”. É uma mensagem “eterna”, que revigora a nossa fé,
que renova a nossa esperança e que fortalece a nossa capacidade de enfrentar a injustiça,
o egoísmo, o sofrimento e o pecado. Diante deste “cordeiro” vencedor, que nos
trouxe a libertação, os cristãos vêem renovada a sua confiança nesse Deus
salvador e libertador em quem acreditam.
• Esta “liturgia” celebra
Cristo, aquele que venceu a morte, que ressuscitou, que nos apresentou o plano
libertador de Deus em nosso favor e que, hoje, continua a dar sentido aos
nossos dramas e aos nossos sofrimentos, a iluminar a história humana com a luz
de Deus. Ele é, de facto (como esta liturgia no-lo apresenta), o centro, a
referência fundamental à volta do qual tudo se constrói? Temos consciência
desta centralidade de Cristo na nossa experiência de fé? Manifestamos a nossa
gratidão, unindo a nossa voz ao louvor da criação inteira?
ALELUIA
Aleluia. Aleluia.
Ressuscitou Jesus Cristo,
que criou o universo
e Se compadeceu do género
humano.
EVANGELHO – Jo 21,1-19
Evangelho de Nosso Senhor
Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo,
Jesus manifestou-Se outra
vez aos seus discípulos,
junto do mar de
Tiberíades.
Manifestou-Se deste modo:
Estavam juntos Simão Pedro
e Tomé, chamado Dídimo,
Natanael, que era de Caná
da Galileia,
os filhos de Zebedeu e
mais dois discípulos de Jesus.
Disse-lhes Simão Pedro:
«Vou pescar».
Eles responderam-lhe: «Nós
vamos contigo».
Saíram de casa e subiram
para o barco,
mas naquela noite não
apanharam nada.
Ao romper da manhã, Jesus
apresentou-Se na margem,
mas os discípulos não
sabiam que era Ele.
Disse-lhes Jesus:
«Rapazes, tendes alguma
coisa de comer?»
Eles responderam: «Não».
Disse-lhes Jesus:
«Lançai a rede para a
direita do barco e encontrareis».
Eles lançaram a rede
e já mal a podiam arrastar
por causa da abundância de peixes.
O discípulo predilecto de
Jesus disse a Pedro:
«É o Senhor».
Simão Pedro, quando ouviu
dizer que era o Senhor,
vestiu a túnica que tinha
tirado e lançou-se ao mar.
Os outros discípulos,
que estavam apenas a uns
duzentos côvados da margem,
vieram no barco, puxando a
rede com os peixes.
Quando saltaram em terra,
viram brasas acesas com
peixe em cima, e pão.
Disse-lhes Jesus:
«Trazei alguns dos peixes
que apanhastes agora».
Simão Pedro subiu ao barco
e puxou a rede para terra,
cheia de cento e cinquenta
e três grandes peixes;
e, apesar de serem tantos,
não se rompeu a rede.
Disse-lhes Jesus: «Vinde
comer».
Nenhum dos discípulos se
atrevia a perguntar-Lhe:
«Quem és Tu?»,
porque bem sabiam que era
o Senhor.
Jesus aproximou-Se, tomou
o pão e deu-lho,
fazendo o mesmo com os
peixes.
Esta foi a terceira vez
que Jesus Se manifestou
aos seus discípulos,
depois de ter ressuscitado
dos mortos.
Depois de comerem,
Jesus perguntou a Simão
Pedro:
«Simão, filho de João, tu
amas-Me mais do que estes?»
Ele respondeu-Lhe:
«Sim, Senhor, Tu sabes que
Te amo».
Disse-lhe Jesus:
«Apascenta os meus cordeiros».
Voltou a perguntar-lhe
segunda vez:
«Simão, filho de João, tu
amas-Me?»
Ele respondeu-lhe:
«Sim, Senhor, Tu sabes que
Te amo».
Disse-lhe Jesus:
«Apascenta as minhas ovelhas».
Perguntou-lhe pela
terceira vez:
«Simão, filho de João, tu
amas-Me?»
Pedro entristeceu-se
por Jesus lhe ter
perguntado pela terceira vez se O amava
e respondeu-Lhe:
«Senhor, Tu sabes tudo,
bem sabes que Te amo».
Disse-lhe Jesus:
«Apascenta as minhas ovelhas.
Em verdade, em verdade te
digo:
Quando eras mais novo,
tu mesmo te cingias e
andavas por onde querias;
mas quando fores mais
velho,
estenderás a mão e outro
te cingirá
e te levará para onde não
queres».
Jesus disse isto para
indicar o género de morte
com que Pedro havia de dar
glória a Deus.
Dito isto, acrescentou:
«Segue-Me».
AMBIENTE
O último capítulo do
Evangelho segundo João não faz parte da obra original (a obra original
terminava com a conclusão de 20,30-31); é um texto acrescentado posteriormente,
que apresenta diferenças de linguagem, de estilo e mesmo de teologia, em
relação aos outros vinte capítulos. A sua origem não é clara; no entanto, a
existência de alguns traços literários tipicamente joânicos poderia fazer-nos
pensar num complemento redigido pelos discípulos do evangelista.
Neste capítulo, já não se
referem notícias sobre a vida, a morte ou a ressurreição de Jesus. Os
protagonistas são, agora, um grupo de discípulos, dedicados à actividade
missionária. O autor descreve a relação que esta “comunidade em missão” tem com
Jesus, reflecte sobre o lugar de Jesus na actividade missionária da Igreja e
assinala quais as condições para que a missão dê frutos.
MENSAGEM
O texto está claramente
dividido em duas partes.
A primeira parte (vers.
1-14) é uma parábola sobre a missão da comunidade. Utiliza a linguagem
simbólica e tem carácter de “signo”.
Começa por apresentar os
discípulos: são sete. Representam a totalidade (“sete”) da Igreja, empenhada na
missão e aberta a todas as nações e a todos os povos.
Esta comunidade é
apresentada a pescar: sob a imagem da pesca, os evangelhos sinópticos
representam a missão que Jesus confia aos discípulos (cf. Mc 1,17; Mt 4,19; Lc
5,10): libertar todos os homens que vivem mergulhados no mar do sofrimento e da
escravidão. Pedro preside à missão: é ele que toma a iniciativa; os outros
seguem-no incondicionalmente. Aqui faz-se referência ao lugar proeminente que
Pedro ocupava na animação da Igreja primitiva.
A pesca é feita durante a
noite. A noite é o tempo das trevas, da escuridão: significa a ausência de
Jesus (“enquanto é de dia, temos de trabalhar, realizando as obras daquele que
Me enviou: aproxima-se a noite, quando ninguém pode trabalhar; enquanto Eu
estou no mundo, sou a luz do mundo” – Jo 9,4-5). O resultado da acção dos
discípulos (de noite, sem Jesus) é um fracasso rotundo (“sem Mim, nada podeis
fazer” – Jo 15,5).
A chegada da manhã (da
luz) coincide com a presença de Jesus (Ele é a luz do mundo). Jesus não está
com eles no barco, mas sim em terra: Ele não acompanha os discípulos na pesca;
a sua acção no mundo exerce-se por meio dos discípulos.
Concentrados no seu
esforço inútil, os discípulos nem reconhecem Jesus quando Ele se apresenta. O
grupo está desorientado e decepcionado pelo fracasso, posto em evidência pela
pergunta de Jesus (“tendes alguma coisa de comer?”). Mas Jesus dá-lhes
indicações e as redes enchem-se de peixes: o fruto deve-se à docilidade com que
os discípulos seguem as indicações de Jesus. Acentua-se que o êxito da missão
não se deve ao esforço humano, mas sim à presença viva e à Palavra do Senhor
ressuscitado.
O surpreendente resultado
da pesca faz com que um discípulo o reconheça. Este discípulo – o discípulo
amado – é aquele que está sempre próximo de Jesus, em sintonia com Jesus e que
faz, de forma intensa, a experiência do amor de Jesus: só quem faz essa
experiência é capaz de ler os sinais que identificam Jesus e perceber a sua
presença por detrás da vida que brota da acção da comunidade em missão.
Os pães com que Jesus
acolhe os discípulos em terra são um sinal do amor, do serviço, da solicitude
de Jesus pela sua comunidade em missão no mundo: deve haver aqui uma alusão à
Eucaristia, ao pão que Jesus oferece, à vida com que Ele continua a alimentar a
comunidade em missão.
O número dos peixes
apanhados na rede (153) é de difícil explicação. É um número triangular, que
resulta da soma dos números um a dezassete. O número dezassete não é um número
bíblico… Mas o dez e o sete são: ambos simbolizam a plenitude e a
universalidade. Outra explicação é dada por S. Jerónimo… Segundo ele, os
naturalistas antigos distinguiam 153 espécies de peixes: assim, o número faria
alusão à totalidade da humanidade, reunida na mesma Igreja. Em qualquer caso,
significa totalidade e universalidade.
Na segunda parte do texto
(vers. 15-19), Pedro confessa por três vezes o seu amor a Jesus (durante a
paixão, o mesmo discípulo negou Jesus por três vezes, recusando dessa forma
“embarcar” com o “mestre” na aventura do amor que se faz dom). Pedro –
recordemo-lo – foi o discípulo que, na última ceia, recusou que Jesus lhe
lavasse os pés porque, para ele, o Messias devia ser um rei poderoso,
dominador, e não um rei de serviço e de dom da vida. Nessa altura, ao
raciocinar em termos de superioridade e de autoridade, Pedro mostrou que ainda
não percebera que a lei suprema da comunidade de Jesus é o amor total, o amor
que se faz serviço e que vai até à entrega da vida. Jesus disse claramente a
Pedro que quem tem uma mentalidade de domínio e de autoridade não tem lugar na
comunidade cristã (cf. Jo 13,6-9).
A tríplice confissão de
amor pedida a Pedro por Jesus corresponde, portanto, a um convite a que ele
mude definitivamente a mentalidade. Pedro é convidado a perceber que, na
comunidade de Jesus, o valor fundamental é o amor; não existe verdadeira adesão
a Jesus, se não se estiver disposto a seguir esse caminho de amor e de entrega
da vida que Jesus percorreu. Só assim Pedro poderá “seguir” Jesus (cf. Jo
21,19).
Ao mesmo tempo, Jesus
confia a Pedro a missão de presidir à comunidade e de a animar; mas convida-o
também a perceber onde é que reside, na comunidade cristã, a verdadeira fonte
da autoridade: só quem ama muito e aceita a lógica do serviço e da doação da
vida poderá presidir à comunidade de Jesus.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar, para reflexão
e actualização, as seguintes indicações:
• A mensagem fundamental
que brota deste texto convida-nos a constatar a centralidade de Cristo, vivo e
ressuscitado, na missão que nos foi confiada. Podemos esforçar-nos imenso e
dedicar todas as horas do dia ao esforço de mudar o mundo; mas se Cristo não
estiver presente, se não escutarmos a sua voz, se não ouvirmos as suas
propostas, se não estivermos atentos à Palavra que Ele continuamente nos
dirige, os nossos esforços não farão qualquer sentido e não terão qualquer
êxito duradouro. É preciso ter a consciência nítida de que o êxito da missão
cristã não