6º DOMINGO DA PÁSCOA C
13 de Maio de 2007
Tema do 6º Domingo da Páscoa
Na liturgia deste domingo
sobressai a promessa de Jesus de acompanhar de forma permanente a caminhada da
sua comunidade em marcha pela história: não estamos sozinhos; Jesus
ressuscitado vai sempre ao nosso lado.
No Evangelho, Jesus diz aos
discípulos como se hão-de manter em comunhão com Ele
e reafirma a sua presença e a sua assistência através do “paráclito”
– o Espírito Santo.
A primeira leitura apresenta-nos
a Igreja de Jesus a confrontar-se com os desafios dos novos tempos. Animados
pelo Espírito, os crentes aprendem a discernir o essencial do acessório e actualizam a proposta central do Evangelho, de forma que a
mensagem libertadora de Jesus possa ser acolhida por todos os povos.
Na segunda leitura, apresenta-se mais uma vez a meta final da caminhada da Igreja:
a “Jerusalém messiânica”, essa cidade nova da comunhão com Deus, da vida plena,
da felicidade total.
LEITURA I – Actos 15,1-2.22-29
Leitura dos Actos dos Apóstolos
Naqueles dias,
alguns homens que desceram da Judeia
ensinavam aos irmãos de Antioquia:
«Se não receberdes a circuncisão,
segundo a Lei de Moisés,
não podereis salvar-vos».
Isto provocou muita agitação e
uma discussão intensa
que Paulo e Barnabé tiveram com eles.
Então decidiram que Paulo e
Barnabé e mais alguns discípulos
subissem a Jerusalém
para tratarem dessa questão com os Apóstolos e os anciãos.
Os Apóstolos e os anciãos, de
acordo com toda a Igreja,
decidiram escolher alguns irmãos
e mandá-los a Antioquia com Barnabé e Paulo.
Eram Judas, a quem chamavam Barsabás,
e Silas,
homens de autoridade entre os irmãos.
Mandaram por eles esta carta:
«Os Apóstolos e os anciãos,
irmãos vossos,
saúdam os irmãos de origem pagã
residentes em Antioquia, na Síria e na Cilícia.
Tendo sabido que, sem nossa
autorização,
alguns dos nossos vos foram inquietar,
perturbando as vossas almas com as suas palavras,
resolvemos,
de comum acordo,
escolher delegados para vo-los enviarmos
juntamente com os nossos queridos Barnabé e Paulo,
homens que expuseram a sua vida
pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Por isso vos mandamos Judas e
Silas,
que vos
transmitirão de viva voz as nossas decisões.
O Espírito Santo e nós
decidimos não vos impor mais nenhuma obrigação,
além destas que são indispensáveis:
abster-se
da carne imolada aos ídolos,
do sangue, das carnes sufocadas e das relações imorais.
Procedereis bem, evitando tudo
isso. Adeus».
AMBIENTE
A entrada maciça de crentes
gentios na comunidade cristã (sobretudo após a primeira viagem missionária de
Paulo e Barnabé) vai trazer a lume uma questão essencial: deve impor-se aos
crentes de origem pagã a prática da Lei de Moisés? Não se trata, aqui, de um
problema acidental ou secundário, de uma medida disciplinar ou de puros
costumes, mas de algo tão fundamental como saber se a salvação vem através da
circuncisão e da observância da “Torah” judaica, ou
única e exclusivamente por Cristo. Dito de outra forma: Jesus Cristo é o único
Senhor e salvador, ou são precisas outras coisas além d’Ele para chegar a Deus
e para receber d’Ele a graça da salvação?
A comunidade cristã de Antioquia
(onde o problema se põe com especial acuidade) não tem a certeza sobre o
caminho a seguir. Paulo e Barnabé acham que Cristo basta; mas os “judaizantes”
– cristãos de origem judaica, que conservam as práticas tradicionais do
judaísmo – defendem que os ritos prescritos pela “Torah”
também são necessários para a salvação. Decide-se, então, enviar uma delegação
a Jerusalém, a fim de consultar os Apóstolos e os anciãos acerca da questão.
Estamos por volta do ano 49.
MENSAGEM
Este texto começa por pôr a
questão e por apresentar os passos dados para a solucionar:
Paulo, Barnabé e alguns outros (também Tito, de acordo com Gal 2,1) são enviados a Jerusalém para consultar os Apóstolos e os anciãos (vers. 1-2). A questão é de tal importância que se organiza
a reunião dos dirigentes e animadores das comunidades, conhecida como “concílio
apostólico” ou “concílio de Jerusalém”. Essa assembleia vai, pois, discutir o que é essencial na proposta cristã (e que devia ser
incluído no núcleo fundamental da pregação) e o que é acessório (e que podia
ser dispensado, não constituindo uma verdade fundamental da fé cristã).
O texto que nos é proposto hoje
interrompe aqui a descrição dos acontecimentos. No entanto, sabemos (pela
descrição dos “Actos”) que nessa “assembleia eclesial” vão enfrentar-se várias opiniões. Pedro reconhece a igualdade
fundamental de todos – judeus e pagãos – diante da proposta de salvação, que a
Lei é um jugo que não deve ser imposto aos pagãos e que é “pela graça do Senhor
Jesus” que se chega à salvação (cf. Act 15,7-12); mas
Tiago (representante da ala “judaizante), sem se opor à perspectiva de Pedro,
procura salvar o possível das tradições judaicas e propõe que sejam mantidas
algumas tradições particularmente caras aos judeus (cf. Act 15,13-21). Na realidade, há acordo quanto ao essencial. Embora o texto de Lucas
não seja totalmente explícito, percebe-se a decisão final: não se pode impor
aos gentios a lei judaica; só Cristo basta. Assim dá-se luz verde à missão
entre os pagãos. É a decisão mais importante da Igreja nascente: o cristianismo
cortou o cordão umbilical com o judaísmo e pode, agora, ser uma proposta
universal de salvação, aberta a todos os homens, de todas as raças e culturas.
O nosso texto retoma a questão
neste ponto. Nos vers. 22-29 da leitura de hoje
apresenta-se o “comunicado final” da “assembleia de
Jerusalém”: a práxis judaica não pode ser imposta, pois não é essencial para a
salvação… No entanto, pede-se a abstenção de alguns costumes particularmente
repugnantes para os judeus.
É de destacar, ainda, a
referência ao Espírito Santo do vers. 28: a decisão é
tomada por homens, mas assistidos pelo Espírito. Manifesta-se, assim, a
consciência da presença do Espírito, que conduz e que assiste a Igreja na sua
caminhada pela história.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar, para a reflexão, as
seguintes linhas:
• A questão de cumprir ou não os
ritos da Lei de Moisés é uma questão ultrapassada, que hoje não preocupa nenhum
cristão; mas este episódio vale, sobretudo, pelo seu valor exemplar. Faz-nos
pensar, por exemplo, em rituais ultrapassados, em práticas de piedade vazias e
estéreis, em fórmulas obsoletas, que exprimiram num certo contexto, mas já não
exprimem o essencial da proposta cristã. Faz-nos pensar na imposição de
esquemas culturais – ocidentais, por exemplo – que muitas vezes não têm nada a
ver com a forma de expressão de certas culturas… O essencial do cristianismo
não pode ser vivido sem o concretizar em formas determinadas, humanas e, por
isso, condicionadas e finitas. Mas é necessário distinguir o essencial do
acessório; o essencial deve ser preservado e o acessório deve ser
constantemente actualizado. Quais são os ritos e as
práticas decididamente obsoletos, que impedem o homem de hoje de redescobrir o
núcleo central da mensagem cristã? Será que hoje não estamos a impedir, como
outrora, o nascimento de Cristo para o mundo, mantendo-nos presos a esquemas e
modos de pensar e de viver que têm pouco a ver com a realidade do mundo que nos
rodeia?
• É necessário ter presente que o
essencial é Cristo e a sua proposta de salvação. Essa é que é a proposta
revolucionária que temos para apresentar ao mundo. O resto são questões cuja
importância não nos deve distrair do essencial.
• Devemos também ter consciência
da presença do Espírito na caminhada da Igreja de Jesus. No entanto, é preciso escutá-l’O, estar atento às interpelações que Ele lança, saber ler as suas indicações nos sinais dos tempos e
nas questões que o mundo nos apresenta… Estamos verdadeiramente atentos aos
apelos do Espírito?
• É preciso aprender com a forma
como os Apóstolos responderam aos desafios dos tempos: com audácia, com
imaginação, com liberdade, com desprendimento e, acima de tudo, com a escuta do
Espírito. É assim que a Igreja de Jesus deve enfrentar hoje os desafios do
mundo.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 66
(67)
Refrão 1: Louvado
sejais, Senhor,
pelos povos de toda a terra.
Refrão 2: Aleluia.
Deus Se compadeça de nós e nos dê
a sua bênção,
resplandeça sobre nós a luz do seu rosto.
Na terra se conhecerão os vossos
caminhos
e entre
os povos a vossa salvação.
Alegrem-se e exultem as nações,
porque julgais os povos com justiça
e governais as nações sobre a terra.
Os povos Vos louvem, ó Deus,
todos os
povos Vos louvem.
Deus nos dê a sua bênção
e chegue
o seu louvor aos confins da terra.
LEITURA II – Ap 21,10-14.22-23
Leitura do livro do Apocalipse
Um Anjo transportou-me em
espírito
ao cimo
de uma alta montanha
e mostrou-me a cidade santa de Jerusalém,
que descia do Céu, da presença de Deus,
resplandecente da glória de Deus.
O seu esplendor era como o de uma
pedra preciosíssima,
como uma
pedra de jaspe cristalino.
Tinha uma grande e alta muralha,
com doze
portas e, junto delas, doze Anjos;
tinha também nomes gravados,
os nomes
das doze tribos dos filhos de Israel:
três portas a nascente, três portas ao norte,
três portas ao sul e três portas a poente.
A muralha da cidade tinha na base
doze reforços salientes
e neles
doze nomes: os doze Apóstolos do Cordeiro.
Na cidade não vi nenhum templo,
porque o
seu templo é o Senhor Deus omnipotente e o Cordeiro.
A cidade não precisa da luz do
sol nem da lua,
porque a
glória de Deus a ilumina
e a sua
lâmpada é o Cordeiro.
AMBIENTE
Continuamos a ler a parte final
do livro do “Apocalipse”. Nela, João apresenta-nos o resultado da intervenção
definitiva de Deus no mundo: depois da vitória de Deus sobre as forças que
oprimem o homem e o privam da vida plena, nascerá a comunidade nova e santa, a criação definitiva de Deus, o novo céu e a nova
terra.
A liturgia do passado domingo
apresentou-nos um primeiro quadro dessa nova realidade; hoje, a mesma realidade
é descrita através de um segundo quadro – o da “Jerusalém messiânica”.
MENSAGEM
É, ainda, a imagem da “nova
Jerusalém que desce do céu” que nos é apresentada. Já vimos na passada semana
que falar de Jerusalém é falar do lugar onde irá irromper a salvação
definitiva, o lugar do encontro definitivo entre Deus e o seu Povo.
Na apresentação desta “nova
Jerusalém”, domina o número “doze”: na base da muralha há doze reforços
salientes e neles os doze nomes dos Apóstolos do “cordeiro”; a cidade tem,
igualmente, doze portas (três a nascente, três ao norte, três ao sul e três a
poente), nas quais estão gravados os nomes das doze tribos de Israel; há,
ainda, doze anjos junto das portas. O número “doze” indica a totalidade do Povo
de Deus (12 tribos + doze Apóstolos): ela está fundada sobre os doze Apóstolos
– testemunhas do “cordeiro” – mas integra a totalidade do Povo de Deus do
Antigo e do Novo Testamento, conduzido à vida plena pela acção salvadora e libertadora de Cristo. As portas, viradas para os quatro pontos
cardeais, indicam que todos os povos (vindos do norte, do sul, de este e do
oeste) podem entrar e encontrar lugar nesse lugar de felicidade plena.
Num desenvolvimento que a leitura
de hoje não conservou (vers. 15-17), apresentam-se as
dimensões dessa “cidade”: 144 côvados (12 vezes doze), formando um quadrado
perfeito. Trata-se de mostrar que a cidade (perfeita, harmoniosa) está traçada
segundo o modelo bíblico do “santo dos santos” (cf. 1 Re 6,19-20): a cidade inteira aparece, assim, como um Templo dedicado a Deus, onde
Deus reside de forma permanente no meio do seu Povo.
É por isso que a última parte
deste texto (vers. 22-23) diz que a cidade não tem
Templo: nesse lugar de vida plena, o homem não terá necessidade de mediações,
pois viverá sempre na presença de Deus e encontrará Deus face a face. Diz-se
ainda que toda a cidade estará banhada de luz: a luz
indica a presença divina (cf. Is 2,5; 24,23; 60,19): Deus e o “cordeiro” serão
a luz que ilumina esta comunidade de vida plena.
Após a intervenção definitiva de
Deus na história nascerá, então, essa nova “cidade” construída sobre o testemunho
dos apóstolos; cidade de portas abertas, ela acolherá todos os homens que
aderirem ao “cordeiro”; nela, eles encontrarão Deus e viverão na sua presença,
recebendo a vida em plenitude.
ACTUALIZAÇÃO
Ter em conta as seguintes
indicações para reflexão:
• Já o dissemos a propósito da
segunda leitura do passado domingo: o profeta João garante-nos que as
limitações impostas pela nossa finitude, as perseguições que temos de enfrentar por causa da verdade
e da justiça, os sofrimentos que resultam dos nossos limites, não são a última
palavra; espera-nos, para além desta terra, a vida plena, face a face com Deus.
Esta certeza tem de dar um sentido novo à nossa caminhada e alimentar a nossa
esperança.
• A Igreja em marcha pela
história não é, ainda, essa comunidade messiânica da vida plena de que fala
esta leitura; mas tem de apontar nesse sentido e procurar ser, apesar do pecado
e das limitações dos homens, um anúncio e uma prefiguração dessa comunidade
escatológica da salvação, que dá testemunho da utopia e que acende no mundo a
luz de Deus. A humanidade necessita desse testemunho.
• Ainda que esta realidade de
vida plena, de felicidade total, só aconteça na “nova Jerusalém”, ela tem de
começar a ser construída desde já nesta terra. Deve ser essa a tarefa que nos
motiva, que nos empenha e que nos compromete: a construção de um mundo de
justiça, de amor e de paz, que seja cada vez mais um reflexo do mundo futuro
que nos espera.
ALELUIA – Jo 14,23
Aleluia. Aleluia.
Se alguém Me ama, guardará a
minha palavra.
Meu Pai o amará e faremos nele a
nossa morada.
EVANGELHO – Jo 14,23-29
Evangelho de Nosso Senhor Jesus
Cristo segundo São João
Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Quem Me ama guardará a minha
palavra
e meu
Pai o amará;
Nós viremos a ele
e faremos nele a nossa morada.
Quem Me não ama não guarda a
minha palavra.
Ora a palavra que ouvis não é
minha,
mas do
Pai que Me enviou.
Disse-vos estas coisas, estando
ainda convosco.
Mas o Paráclito,
o Espírito Santo,
que o
Pai enviará em meu nome,
vos ensinará
todas as coisas
e vos
recordará tudo o que Eu vos disse.
Deixo-vos a paz, dou-vos a minha
paz.
Não vo-la dou como a dá o mundo.
Não se perturbe nem se intimide o
vosso coração.
Ouvistes que Eu vos disse:
Vou partir, mas voltarei para
junto de vós.
Se Me amásseis,
ficaríeis contentes por Eu ir para o Pai,
porque o
Pai é maior do que Eu.
Disse-vo-lo agora, antes de acontecer,
para que, quando acontecer, acrediteis».
AMBIENTE
Continuamos no contexto da “ceia
de despedida”. Jesus, que acaba de fundar a sua comunidade, dando-lhe por
estatuto o mandamento do amor (cf. Jo 13,1-17;13,33-35), vai agora explicar como é que essa comunidade
manterá, após a sua partida, a relação com Ele e com o Pai.
Nos versículos anteriores ao
texto que nos é proposto, Jesus apresentou-Se como “o caminho” (cf. Jo 14,6) e convidou os discípulos a percorrer esse mesmo
“caminho” (cf. Jo 14,4-5). O que é que isso
significa? Jesus, enquanto esteve no mundo, percorreu um “caminho” – o da
entrega ao homem, o do serviço, o do amor total; é nesse “caminho que o homem”
– o Homem Novo que Jesus veio criar – se realiza. A
comunidade de Jesus tem, portanto, que percorrer esse “caminho”. A metáfora do
“caminho” expressa o dinamismo da vida que é progressão; percorrê-lo, é
alcançar a plena maturidade do Homem Novo, do homem que desenvolveu todas as
suas potencialidades, do homem recriado para a vida definitiva. O final desse
“caminho” é o amor radical, a solidariedade total com o homem. Nesse “caminho”,
encontra-se o Pai.
Os discípulos, no entanto, estão
inquietos e desconcertados. Será possível percorrer esse “caminho” se Jesus não
caminhar ao lado deles? Como é que eles manterão a comunhão com Jesus e como
receberão dele a força para doar, dia a dia, a própria vida?
MENSAGEM
Para seguir esse “caminho” é
preciso amar Jesus e guardar a sua Palavra (cf. Jo 14,23). Quem ama Jesus e O escuta, identifica-se com Ele, isto é, vive como
Ele, na entrega da própria vida em favor do homem… Ora, viver nesta dinâmica é
estar continuamente em comunhão com Jesus e com o Pai. O Pai e Jesus, que são
um, estabelecerão a sua morada no discípulo; viverão juntos, na intimidade de
uma nova família (vers. 23-24).
Para que os discípulos possam
continuar a percorrer esse “caminho” no tempo da Igreja, o Pai enviará o “paráclito”, isto é, o Espírito Santo (vers.
25-26). A palavra “paráclito” pode traduzir-se como
“advogado”, “auxiliador”, “consolador”, “intercessor”. A função do “paráclito” é “ensinar” e “recordar” tudo o que Jesus
propôs. Trata-se, portanto, de uma presença dinâmica, que auxiliará os
discípulos trazendo-lhes continuamente à memória os ensinamentos de Jesus e
ajudando-os a ler as propostas de Jesus à luz dos novos desafios que o mundo
lhes colocar. Assim, os crentes poderão continuar a percorrer, na história, o
“caminho” de Jesus, numa fidelidade dinâmica às suas propostas. O Espírito
garante, dessa forma, que o crente possa continuar a percorrer esse “caminho”
de amor e de entrega, unido a Jesus e ao Pai. A comunidade cristã e cada homem
tornam-se a morada de Deus: na acção dos crentes
revela-se o Deus libertador, que reside na comunidade e no coração de cada
crente e que tem um projecto de salvação para o
homem.
A última parte do texto que nos é
proposto contém a promessa da “paz” (vers. 27).
Desejar a “paz” (“shalom”) era a saudação habitual à
chegada e à partida. No entanto, neste contexto, a saudação não é uma despedida
trivial (“não vo-la dou como a dá o mundo”), pois
Jesus não vai estar ausente. O que Jesus pretende é inculcar nos discípulos
apreensivos a serenidade e evitar-lhes o temor. São palavras destinadas a tranquilizar os discípulos e a assegurar-lhes que os
acontecimentos que se aproximam não porão fim à relação entre Jesus e a sua
comunidade. As últimas palavras referidas por este texto (vers.
28-29) sublinham que a ausência de Jesus não é definitiva, nem sequer
prolongada. De resto, os discípulos devem alegrar-se, pois a morte não é uma
tragédia sem sentido, mas a manifestação suprema do amor de Jesus pelo Pai e
pelos homens.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão deste texto pode
contemplar as seguintes linhas:
• Falar do “caminho” de Jesus é
falar de uma vida gasta em favor dos irmãos, numa doação total e radical, até à morte. Os discípulos são convidados a percorrer, com
Jesus, esse mesmo “caminho”. Paradoxalmente, dessa entrega (dessa morte para si
mesmo) nasce o Homem Novo, o homem na plenitude das suas possibilidades, o
homem que desenvolveu até ao extremo todas as suas potencialidades. É esse
“caminho” que eu tenho vindo a percorrer? A minha vida tem sido doação,
entrega, dom, amor até ao extremo? Tenho procurado despir-me do egoísmo e do
orgulho que impedem o Homem Novo de aparecer?
• A comunhão do crente com o Pai
e com Jesus não resulta de momentos mágicos nos quais, através da recitação de
certas fórmulas, a vida de Deus bombardeia e inunda incondicionalmente o
crente; mas a intimidade e a comunhão com Jesus e com o Pai
estabelece-se percorrendo o caminho do amor e da entrega, numa doação
total aos irmãos. Quem quiser encontrar-se com Jesus e com o Pai, tem de sair
do egoísmo e aprender a fazer da sua vida um dom aos homens.
• É impressionante essa pedagogia
de um Deus – o nosso Deus – que nos deixa ser os
construtores da nossa própria história, mas não nos abandona. De forma
discreta, respeitando a nossa liberdade, Ele encontrou formas de continuar connosco, de nos animar, de nos ajudar a responder aos
desafios, de nos recordar que só nos realizaremos plenamente na fidelidade ao
“caminho” de Jesus.
• O cristão tem de estar, no
entanto, atento à voz do Espírito, sensível aos apelos do Espírito; tem de
procurar detectar os novos caminhos que o Espírito propõe; tem de estar na
disposição de se deixar questionar e de refazer a sua vida, sempre que o
Espírito lhe dá a entender que ela está a afastar-se do “caminho” de Jesus.
Estamos sempre atentos aos sinais do Espírito e disponíveis para enfrentar os
seus desafios?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O
6º DOMINGO DA PÁSCOA
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA
SEMANA.
Ao longo dos dias da semana
anterior ao 6º Domingo da Páscoa, procurar meditar a Palavra de Deus deste
domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher
um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia,
num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade
religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de
Deus.
2. FAVORECER O ACOLHIMENTO DA BOA
NOVA.
Como no domingo passado, a
riqueza do Evangelho é grande: será suficiente uma única audição? Pode-se
valorizar e fazer eco da Boa Nova durante toda a celebração: na palavra de
acolhimento à celebração, podem-se inserir já algumas frases da Boa Nova; no
momento da proclamação do Evangelho, o presidente procurará ler o texto sem se
apressar, com um tom meditativo, fazendo algumas breves pausas; no momento do
gesto de paz, o padre (ou o diácono) pode recordar que é a paz do Senhor que é
oferecida – “deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz”; depois da comunhão, algumas
frases do Evangelho poderão ajudar à meditação….
3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das
leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Nosso Pai, nós Te damos graças
pelo teu Espírito Santo, que Tu comunicaste generosamente aos Apóstolos e, por
eles, às tuas Igrejas, para orientar, guiar, sustentar e encorajar o teu povo
na fidelidade à tua vontade.
Nós Te pedimos pela
Igrejas que estão em sínodo e por todas as equipas pastorais: pelo teu
Espírito, ilumina-as na tomada de decisões!
No final da segunda leitura:
Deus Pai, estás presente em todas as assembleias de oração, por mais
modestas que sejam, até nas nossas famílias, para aí revelar a Jerusalém
celeste e a nova terra que desejas criar connosco. Bendito sejas!
Nós Te pedimos pelas paróquias e
pelas comunidades que constroem, decoram ou reparam as suas igrejas. Que o teu
Espírito as oriente nas suas escolhas.
No final do Evangelho:
Pai de Jesus Cristo e nosso Pai,
nós Te damos graças pela tua presença fiel no teu Povo, primeiro pelo teu
Filho, que habitou no meio dos discípulos, em seguida pelo teu Espírito, o
Defensor, que habita connosco.
Nós Te pedimos: mantém-nos fiéis
à tua Palavra, dá-nos a paz, a tua paz, aquela de que o mundo tem necessidade.
O teu Espírito de Paz.
4. BILHETE DE EVANGELHO.
Jesus gostava de dizer que nunca
estava só. Vemo-lo retirar-se para a montanha, só, mas para se juntar a seu
Pai. E promete aos discípulos não os deixar órfãos porque lhes enviará o seu
Espírito, o Espírito Santo, o Defensor. Na hora das grandes confidências, pouco
tempo antes da sua paixão, Jesus anuncia aos seus discípulos que virá habitar neles com o seu Pai, na condição de permanecerem fiéis à sua
palavra. Parece dizer: “se quereis que venhamos habitar em vós, aceitai morar
na fidelidade a toda a mensagem que vos transmiti”. Não somente o Pai e o Filho
querem habitar nos discípulos, mas o Espírito Santo também habitará neles para
ensinar e fazer recordar-se de tudo o que Jesus lhes disse. Sabemos que há duas
formas de morte: a morte física e o esquecimento. Jesus veio anunciar aos seus
discípulos que, após a sua morte, Ele ressuscitará, e o Espírito Santo ajudará
os discípulos a não esquecer o que fez e disse: eles farão memória,
recordando-se d’Ele, mas, sobretudo, proclamando-O vivo hoje até à sua vinda na glória.
5. À ESCUTA DA PALAVRA.
“Quem Me ama guardará a minha
palavra e meu Pai o amará; nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada”.
Uma vez mais, Jesus parece pôr uma condição para que o Pai possa amar-nos. Quem
pode pretender amar o Senhor, guardar a sua Palavra? Parece mesmo que quanto
mais os anos passam mais se instala em nós uma certa lassidão e esmorece o ardor em amar o Senhor. Apesar de todos os esforços, parece
que estamos longe da intimidade com Jesus. Mesmo sendo fiéis à oração, frequentando os sacramentos, em particular a Eucaristia, sentimos um vazio… Parece que não amamos
bastante o Senhor! Mas recordemo-nos do essencial: a
absoluta anterioridade do amor de Deus por nós, foi Ele que nos amou primeiro… O que Jesus nos pede é que reconheçamos primeiro o
amor do Pai por nós, que nos precede sempre. Na medida em que guardamos este
amor de Jesus com seu Pai, este amor primeiro, podemos guardar a sua Palavra e aprender a amar.
6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração
Eucarística III para Assembleia com Crianças. Os
textos próprios do tempo pascal são particularmente significativos.
7. PALAVRA PARA O CAMINHO.
Que fazemos da Palavra? Em cada
domingo a Palavra é-nos oferecida. Que fazemos dela? Ela é o “fio condutor” da
nossa semana? Ou esquecemo-la mal a escutamos? Nesta semana, procuremos
recordar a Palavra evangélica e deixemo-nos transformar por ela. O Espírito Santo ensinar-nos-á, far-nos-á compreender,
diz-nos Jesus. Basta estarmos abertos à sua acção!
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES
DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA –
Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
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