Tema da Solenidade da Ascensão do
Senhor
A Solenidade da Ascensão de Jesus
que hoje celebramos sugere que, no final de um caminho percorrido no amor e na
doação, está a vida definitiva, em comunhão com Deus. Sugere, também, que Jesus
nos deixou o testemunho e que somos agora nós, seus seguidores, que devemos
continuar a realizar o projecto libertador de Deus
para os homens e para o mundo.
O Evangelho apresenta-nos as
palavras de despedida de Jesus que definem a missão dos discípulos no mundo.
Faz, também, referência à alegria dos discípulos: essa alegria resulta do
reconhecimento da presença no mundo do projecto salvador de Deus e resulta do facto de a ascensão de
Jesus ter acrescentado à vida dos crentes um novo sentido.
Na primeira leitura, repete-se a
mensagem essencial desta festa: Jesus, depois de ter apresentado ao mundo o projecto do Pai, entrou na vida definitiva da comunhão com
Deus – a mesma vida que espera todos os que percorrem o mesmo caminho de Jesus.
Quanto aos discípulos: eles não podem ficar a olhar para o céu, numa
passividade alienante, mas têm de ir para o meio dos homens continuar o projecto de Jesus.
A segunda leitura convida os
discípulos a terem consciência da esperança a que foram chamados (a vida plena
de comunhão com Deus). Devem caminhar ao encontro dessa esperança de mãos dadas
com os irmãos – membros do mesmo “corpo” – e em comunhão com Cristo, a “cabeça”
desse “corpo”. Cristo reside nesse “corpo”.
LEITURA I – Actos 1,1-11
Leitura dos Actos dos Apóstolos
No meu primeiro livro, ó Teófilo,
narrei todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar,
desde o
princípio até ao dia em que foi elevado ao Céu,
depois de ter dado, pelo Espírito Santo,
as suas
instruções aos Apóstolos que escolhera.
Foi também a eles que, depois da
sua paixão,
Se apresentou vivo com muitas provas,
aparecendo-lhes
durante quarenta dias
e falando-lhes do reino de Deus.
Um dia em que estava com eles à
mesa,
mandou-lhes
que não se afastassem de Jerusalém,
mas que
esperassem a promessa do Pai,
«da Qual – disse Ele – Me
ouvistes falar.
Na verdade, João baptizou com água;
vós,
porém, sereis baptizados no Espírito Santo,
dentro de poucos dias».
Aqueles que se tinham reunido
começaram a perguntar:
«Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?»
Ele respondeu-lhes:
«Não vos compete saber os tempos
ou os momentos
que o
Pai determinou com a sua autoridade;
mas recebereis a força do Espírito Santo,
que descerá sobre vós,
e sereis
minhas testemunhas
em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria
e até
aos confins da terra».
Dito isto, elevou-Se à vista
deles
e uma
nuvem escondeu-O a seus olhos.
E estando de olhar fito no Céu,
enquanto Jesus Se afastava,
apresentaram-se-lhes dois homens vestidos de branco,
que disseram:
«Homens da Galileia,
porque estais a olhar para o Céu?
Esse Jesus, que do meio de vós
foi elevado para o Céu,
virá do
mesmo modo que O vistes ir para o Céu».
AMBIENTE
O livro dos “Actos dos Apóstolos” dirige-se a comunidades que vivem num certo contexto de crise.
Estamos na década de 80, cerca de cinquenta anos após
a morte de Jesus. Passou já a fase da expectativa pela vinda iminente do Cristo
glorioso para instaurar o “Reino” e há uma certa desilusão. As questões doutrinais trazem alguma confusão; a monotonia favorece
uma vida cristã pouco comprometida e as comunidades instalam-se na
mediocridade; falta o entusiasmo e o empenho… O quadro geral é o de um certo sentimento de frustração, porque o mundo continua
igual e a esperada intervenção vitoriosa de Deus continua adiada. Quando vai
concretizar-se, de forma plena e inequívoca, o projecto salvador de Deus?
É neste ambiente que podemos
inserir o texto que hoje nos é proposto como primeira leitura. Nele, o
catequista Lucas avisa que o projecto de salvação e
libertação que Jesus veio apresentar passou (após a
ida de Jesus para junto do Pai) para as mãos da Igreja, animada pelo Espírito.
A construção do “Reino” é uma tarefa que não está terminada, mas que é preciso
concretizar na história e exige o empenho contínuo de todos os crentes. Os
cristãos são convidados a redescobrir o seu papel, no sentido de testemunhar o projecto de Deus, na fidelidade ao “caminho” que Jesus
percorreu.
MENSAGEM
O nosso texto começa com um
prólogo (vers. 1-2) que relaciona os “Actos” com o 3º Evangelho – quer na referência
ao mesmo Teófilo a quem o Evangelho era dedicado, quer na alusão a
Jesus, aos seus ensinamentos e à sua acção no mundo
(tema central do 3º Evangelho). Neste prólogo são, também, apresentados os
protagonistas do livro – o Espírito Santo e os apóstolos, ambos vinculados com
Jesus.
Depois da apresentação inicial,
vem o tema da despedida de Jesus (vers. 3-8). O autor
começa por fazer referência aos “quarenta dias” que mediaram entre a
ressurreição e a ascensão, durante os quais Jesus falou aos discípulos “a
respeito do Reino de Deus” (o que parece estar em contradição com o Evangelho,
onde a ressurreição e a ascensão são apresentadas no próprio dia da Páscoa –
cf. Lc 24). O número quarenta é, certamente, um
número simbólico: é o número que define o tempo necessário para que um
discípulo possa aprender e repetir as lições do mestre. Aqui define, portanto,
o tempo simbólico de iniciação ao ensinamento do Ressuscitado.
As palavras de despedida de Jesus
(vers. 4-8) sublinham dois aspectos: a vinda do
Espírito e o testemunho que os discípulos vão ser chamados a dar “até aos
confins do mundo”. Temos aqui resumida a experiência missionária da comunidade
de Lucas: o Espírito irá derramar-se sobre a comunidade crente e dará a força
para testemunhar Jesus em todo o mundo, desde Jerusalém a Roma. Na realidade,
trata-se do programa que Lucas vai apresentar ao longo do livro, posto na boca
de Jesus ressuscitado. O autor quer mostrar com a sua obra que o testemunho e a
pregação da Igreja estão entroncados no próprio Jesus e são impulsionados pelo
Espírito.
O último tema é o da ascensão (vers. 9-11). Evidentemente, esta passagem necessita de ser
interpretada para que, através da roupagem dos símbolos, a mensagem apareça com
toda a claridade.
Temos, em primeiro lugar, a
elevação de Jesus ao céu (vers. 9a). Não estamos a
falar de uma pessoa que, literalmente, descola da terra e começa a elevar-se;
estamos a falar de um sentido teológico (não é o “repórter”, mas sim o
“teólogo” a falar): a ascensão é uma forma de expressar simbolicamente que a
exaltação de Jesus é total e atinge dimensões supra-terrenas; é a forma literária de descrever o
culminar de uma vida vivida para Deus, que agora reentra na glória da comunhão
com o Pai.
Temos, depois, a nuvem (vers. 9b) que subtrai Jesus aos olhos dos discípulos.
Pairando a meio caminho entre o céu e a terra, a nuvem é, no Antigo Testamento,
um símbolo privilegiado para exprimir a presença do divino (cf. Ex 13,21.22; 14,19.24; 24,15b-18; 40,34-38). Ao mesmo tempo, a
nuvem, simultaneamente, esconde e manifesta: sugere o mistério do Deus
escondido e presente, cujo rosto o Povo não pode ver, mas cuja presença
adivinha nos acidentes da caminhada. Céu e terra, presença e ausência, sombra e
luz, divino e humano, são dimensões aqui sugeridas a propósito de Cristo
ressuscitado, elevado à glória do Pai, mas que continua a caminhar com os
discípulos.
Temos, ainda, os discípulos a
olhar para o céu (vers. 10a). Significa a expectativa
dessa comunidade que espera ansiosamente a segunda vinda de Cristo, a fim de
levar ao seu termo o projecto de libertação do homem
e do mundo.
Temos, finalmente, os dois homens
vestidos de branco (vers. 10b). O branco sugere o
mundo de Deus – o que indica que o seu testemunho vem de Deus. Eles convidam os
discípulos a continuar no mundo, animados pelo Espírito, a obra libertadora de
Jesus; agora, é a comunidade dos discípulos que tem de continuar, na história,
a obra de Jesus, embora com a esperança posta na segunda e definitiva vinda do Senhor.
O sentido fundamental da ascensão
não é que fiquemos a admirar a elevação de Jesus; mas é convidar-nos a seguir o
caminho de Jesus, olhando para o futuro e entregando-nos à realização do seu projecto de salvação no meio do mundo.
ACTUALIZAÇÃO
Ter em conta, para a reflexão e actualização, os seguintes elementos:
• A ressurreição/ascensão de
Jesus garante-nos que uma vida vivida na fidelidade aos projectos do Pai é uma vida destinada à glorificação, à comunhão definitiva com Deus.
Quem percorre o mesmo caminho de Jesus subirá, como
Ele, à vida plena.
• A ascensão de Jesus
recorda-nos, sobretudo, que ele foi elevado para junto do Pai e nos encarregou
de continuar a tornar realidade o seu projecto libertador no meio dos homens nossos irmãos. É essa a atitude que tem marcado a
caminhada histórica da Igreja? Ela tem sido fiel à missão que Jesus, ao deixar
este mundo, lhe confiou?
• O nosso testemunho tem
transformado e libertado a realidade que nos rodeia? Qual o real impacto desse
testemunho na nossa família, no local onde desenvolvemos a nossa actividade profissional, na nossa comunidade cristã ou
religiosa?
• Não é invulgar ouvirmos dizer
que os seguidores de Jesus vivem a olhar para o céu e ignoram os dramas da
terra. Estamos, efectivamente,
atentos aos problemas e às angústias dos homens, ou vivemos de olhos postos no
céu, num espiritualismo alienado? Sentimo-nos questionados pelas inquietações,
pelas misérias, pelos sofrimentos, pelos sonhos, pelas esperanças que enchem o
coração dos que nos rodeiam? Sentimo-nos solidários com todos os homens?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 46
(47)
Refrão 1: Por entre aclamações e
ao som da trombeta,
ergue-Se
Deus, o Senhor.
Refrão 2: Ergue-Se Deus, o
Senhor,
em júbilo e ao som da trombeta.
Refrão 3: Aleluia.
Povos todos,
batei palmas,
aclamai a Deus com brados de alegria,
porque o
Senhor, o Altíssimo, é terrível,
o Rei
soberano de toda a terra.
Deus subiu entre aclamações,
o Senhor
subiu ao som da trombeta.
Cantai hinos a Deus, cantai,
cantai hinos ao nosso Rei, cantai.
Deus é Rei do universo:
cantai os hinos mais belos.
Deus reina sobre os povos,
Deus está sentado no seu trono
sagrado.
LEITURA II – Ef 1,17-23
Leitura da Epístola do apóstolo
São Paulo aos Efésios
Irmãos:
O Deus de Nosso Senhor Jesus
Cristo, o Pai da glória,
vos conceda um espírito de sabedoria e de luz
para O
conhecerdes plenamente
e ilumine os olhos do vosso coração,
para compreenderdes a esperança a que fostes chamados,
os tesouros de glória da sua herança entre os santos
e a
incomensurável grandeza do seu poder
para nós
os crentes.
Assim o mostra a eficácia da
poderosa força
que exerceu em Cristo,
que Ele
ressuscitou dos mortos
e colocou à sua frente nos Céus,
acima de
todo o Principado, Poder, Virtude e Soberania,
acima de
todo o nome que é pronunciado,
não só
neste mundo,
mas também no mundo que há-de vir.
Tudo submeteu aos seus pés
e pô-l’O acima de todas as coisas
como Cabeça de toda a Igreja, que é o seu Corpo,
a plenitude d’Aquele que preenche tudo em todos.
AMBIENTE
A Carta aos Efésios é, provavelmente, um dos exemplares de uma “carta circular” enviada a várias
igrejas da Ásia, numa altura em que Paulo está na prisão (em Roma?). O seu
portador é um tal Tíquico.
Estamos por volta dos anos 58/60. Alguns vêem nesta carta uma espécie de
síntese da teologia paulina, numa altura em que a missão do apóstolo está
praticamente terminada na Ásia.
Em concreto, o texto que nos é
proposto aparece na primeira parte da carta e faz parte de uma acção de graças, na qual Paulo agradece a Deus pela fé dos Efésios e pela caridade que eles manifestam com todos os
irmãos na fé.
MENSAGEM
À acção de graças, Paulo une uma fervorosa oração a Deus para que os destinatários da
carta conheçam “a esperança a que foram chamados” (vers.
18). A prova de que o Pai tem poder para realizar essa “esperança” (isto é,
conferir aos crentes a vida eterna como herança) é o que ele fez com Jesus
Cristo: ressuscitou-O e sentou-O à sua direita (vers.
20), exaltou-O e deu-Lhe soberania sobre todos os poderes angélicos (Paulo está
preocupado com a perigosa tendência de alguns cristãos em dar uma importância
exagerada aos anjos, colocando-os, até, acima de Cristo – cf. Col 1,6). Essa soberania estende-se, inclusive, à Igreja –
o “corpo” do qual Cristo é a “cabeça”.
O mais significativo deste texto
é, precisamente, este último desenvolvimento. A ideia de que a comunidade cristã é um “corpo” – o “corpo de Cristo” – formado por
muitos membros, já havia aparecido nas grandes cartas, acentuando-se sobretudo a relação dos vários membros do “corpo” entre si
(cf. 1 Cor 6,12-20;10,16-17;12,12-27; Rom 12,3-8); mas nas cartas do cativeiro,
Paulo retoma a noção de “corpo de Cristo” para reflectir,
sobretudo, sobre a relação que existe entre a comunidade e Cristo.
Neste texto, em concreto, há dois
conceitos muito significativos para definir o quadro da relação entre Cristo e
a Igreja: o de “cabeça” e o de “plenitude” (em grego, “pleroma”).
Dizer que Cristo é a “cabeça” da
Igreja significa, antes de mais, que os dois formam uma comunidade indissolúvel
e que há entre os dois uma comunhão total de vida e de destino; significa,
também, que Cristo é o centro à volta do qual o “corpo” se articula, a partir
do qual e em direcção ao qual o “corpo” cresce, se orienta e constrói, a origem e o fim desse
“corpo”; significa, ainda, que a Igreja/“corpo” está submetida à obediência a
Cristo/“cabeça”: só de Cristo a Igreja depende e só a Ele deve obediência.
Dizer que a Igreja é a
“plenitude” (“pleroma”) de Cristo significa dizer que nela reside a
“plenitude”, a “totalidade” de Cristo. Ela é o receptáculo, a habitação onde
Cristo Se torna presente no mundo; é através desse “corpo” onde reside que
Cristo continua todos os dias a realizar o seu projecto de salvação em favor dos homens. Presente nesse
“corpo”, Cristo enche o mundo e atrai a Si o universo inteiro, até que o
próprio Cristo “seja tudo em todos” (vers. 23).
ACTUALIZAÇÃO
Ter em conta, na reflexão, as
seguintes linhas:
• Na nossa peregrinação pelo
mundo, convém termos sempre presente “a esperança a
que fomos chamados”. A ressurreição de Cristo é a garantia da nossa própria
ressurreição. Formamos com Ele um “corpo”, destinados à vida plena. Esta
perspectiva tem de dar-nos a força de enfrentar a história e de avançar –
apesar das dificuldades – nesse caminho do amor e da entrega total que Cristo
percorreu.
• Dizer que fazemos parte do
“corpo de Cristo” significa que devemos viver numa comunhão total com Ele e que
nessa comunhão recebemos, a cada instante, a vida que nos alimenta. Significa,
também, viver em comunhão, em solidariedade total com todos os nossos irmãos,
membros do mesmo corpo, alimentados pela mesma vida.
• Dizer que a Igreja é o
“pleroma” de Cristo significa que temos a obrigação de testemunhar Cristo, de torná-l’O presente no mundo, de levar à plenitude o projecto de libertação que Ele começou em favor dos homens.
Essa tarefa só estará acabada quando, pelo testemunho e pela acção dos crentes, Cristo for “um em todos”.
LEITURA II – Heb 9,24-28; 10,19-23 (pode ser escolhida em alternativa à anterior)
ALELUIA – Mt 28,19a.20b
Aleluia. Aleluia.
Ide e ensinai todos os povos, diz
o Senhor:
Eu estou sempre convosco até ao
fim dos tempos.
EVANGELHO – Lc 24,46-53
Conclusão do santo Evangelho
segundo São Lucas
Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Está escrito que o Messias havia
de sofrer
e de
ressuscitar dos mortos ao terceiro dia
e que
havia de ser pregado em seu nome
o arrependimento e o perdão dos pecados
a todas
as nações, começando por Jerusalém.
Vós sois testemunhas disso.
Eu vos enviarei Aquele que foi
prometido por meu Pai.
Por isso, permanecei na cidade,
até que
sejais revestidos com a força do alto».
Depois Jesus levou os discípulos
até junto de Betânia
e,
erguendo as mãos, abençoou-os.
Enquanto os abençoava,
afastou-Se
deles e foi elevado ao Céu.
Eles prostraram-se diante de
Jesus,
e depois
voltaram para Jerusalém com grande alegria.
E estavam continuamente no
templo, bendizendo a Deus.
AMBIENTE
O Evangelho de hoje situa-nos no
dia de Páscoa. Cristo já se manifestou aos discípulos de Emaús (cf. Lc 24,13-35) e aos onze, reunidos no cenáculo
(cf. Lc 24,36-43). No texto que nos é proposto,
apresentam-se as últimas instruções de Jesus (cf. Lc 24,44-49) e a ascensão (cf. Lc 24,50-53).
Ao contrário dos “Actos”, ressurreição, aparições de Jesus ressuscitado aos
discípulos e ascensão são colocados – aqui – no mesmo dia, o que parece mais correcto do ponto de vista teológico: ressurreição e
ascensão não se podem diferenciar; são apenas formas humanas de falar da
passagem da morte à vida definitiva junto de Deus.
MENSAGEM
O nosso texto está dividido em
duas partes: despedida dos discípulos (vers. 46-49) e
ascensão (vers. 50-53).
Na primeira parte temos, portanto,
as palavras de despedida de Jesus. Os discípulos que fizeram a experiência do
encontro pessoal com Jesus ressuscitado são agora convocados para a missão:
Jesus envia-os como testemunhas, a pregar a conversão (“metanoia”
– a transformação radical da vida, da mentalidade, dos valores) e o perdão dos
pecados (ou seja, o anúncio de que Deus ama todos os homens e os convida a
deixar o egoísmo, o orgulho e a auto-suficiência para iniciarem uma vida de
Homens Novos). Para esta tarefa ingente, os discípulos contam com a ajuda e a
assistência do Espírito. Temos também, aqui, todos os elementos daquilo que
será a futura missão da Igreja. O testemunho apostólico terá como tema central
a morte e ressurreição de Jesus, o Messias libertador anunciado pelas escrituras
(vers. 44.46). Desde Jerusalém, esta proposta deve
ser anunciada a todas as nações. Este “percurso” será explicitado no livro dos
“Actos”.
Na segunda parte, Lucas descreve
a ascensão, situada em Betânia. Há duas indicações de
Lucas que importa realçar. A primeira é a bênção que Jesus dá aos discípulos
antes de ir para junto do Pai: essa bênção sugere um dom que vem de Deus e que afecta positivamente toda a vida e toda a acção dos discípulos, capacitados para a missão pela força
de Deus. A segunda é a alegria dos discípulos: a alegria é o grande sinal
messiânico e escatológico; indica que o mundo novo já começou, pois o projecto salvador e libertador de Deus
está em marcha.
ACTUALIZAÇÃO
Para a reflexão, considerar as
seguintes indicações:
• A ressurreição/ascensão de
Jesus convida-nos a ver a vida com outros olhos – os olhos da esperança.
Diz-nos que o sofrimento, a perseguição, o ódio, a morte, não são a última
palavra para definir o quadro do nosso caminho; diz-nos que no final de um
caminho percorrido na doação, na entrega, no amor vivido até às últimas consequências, está a vida definitiva, a vida
de comunhão com Deus. Esta esperança permite-nos enfrentar o medo, os nossos
limites humanos, o fanatismo, o egoísmo dos fazedores de pecado e permite-nos olhar
com serenidade para esse qualquer coisa de novo que nos espera, para esse
futuro de vida plena que é o nosso destino final.
• A ascensão de Jesus e,
sobretudo, as palavras finais de Jesus, que convocam os discípulos para a
missão, sugerem a nossa responsabilidade na construção desse mundo novo onde
habita a justiça e a paz; sugerem que a proposta libertadora que Jesus fez a
todos os homens está agora nas nossas mãos e que é
nossa responsabilidade torná-la realidade; sugerem que nós, os seguidores de Jesus,
temos de construir, com o esforço de todos os dias, o novo céu e a nova terra.
Sentimos, de facto, esta responsabilidade?
Preocupamo-nos em tornar realidade no mundo os gestos libertadores de Cristo?
Procuramos construir, no dia a dia, esse mundo novo de justiça, de
fraternidade, de liberdade e de paz?
• A alegria que brilha nos olhos
e nos corações desses discípulos que testemunham a entrada definitiva de Jesus
na vida de Deus tem de ser uma realidade que transparece na nossa vida. Os
seguidores de Jesus, iluminados pela fé, têm de testemunhar, com a sua alegria,
a certeza de que os espera, no final do caminho, a vida em plenitude; e têm de
testemunhar, com a sua alegria, a certeza de que o projecto salvador e libertador de Deus está a actuar no mundo, está a transformar os corações e as
mentes, está a fazer nascer, dia a dia, o Homem Novo.
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O
DOMINGO DA ASCENSÃO
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA
SEMANA.
Ao longo dos dias da semana
anterior ao Domingo da Ascensão, procurar meditar a Palavra de Deus deste
domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher
um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia,
num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade
religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de
Deus.
2. ASCENSÃO… TRABALHAR A
VERTICIALIDADE.
Para dar um tom mais específico a
esta Solenidade, pode-se utilizar elementos para acentuar a verticalidade.
Exemplos: colocar um recipiente com incenso, em frente ao altar, com o fumo do
incenso a subir para o céu; levar o círio pascal na procissão de entrada e
mantê-lo erguido durante todo o cântico de entrada, antes de o
colocar no respectivo suporte; utilizar lamparinas (ou pequenas velas)
durante a liturgia da Palavra. Antes da primeira leitura, um grupo de jovens
com lamparinas acompanha o leitor e fica à volta do círio pascal. No fim da
leitura, o presidente da assembleia acende uma
pequena vela no círio pascal e comunica a luz às lamparinas dos jovens. Ficam
com as lamparinas acesas durante o restante tempo da liturgia da Palavra. No
Evangelho, ficam à volta daquele que lê o Evangelho e erguem as lamparinas no
momento do Aleluia.
3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das
leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Pai, que diriges o mundo na tua
liberdade soberana, nós Te bendizemos pela presença do teu Filho Jesus nas
nossas assembleias e nas nossas famílias, pelo
ensinamento da tua Palavra, pelo banquete da Eucaristia e pelo dom do teu
Espírito.
Nós Te pedimos por todas as
comunidades cristãs: abre os nossos corações ao teu Espírito, que os cristãos
sejam testemunhas de Cristo até aos confins da terra.
No final da segunda leitura:
Cristo ressuscitado, nós Te
aclamamos como o grande sacerdote por excelência.
Nós Te pedimos pelos corações
feridos e os espíritos abatidos pela culpabilidade e o remorso, que eles
encontrem confiança no teu perdão.
No final do Evangelho:
Pai, nós Te damos graças por toda
a obra cumprida pelo teu Filho Jesus no meio dos homens, segundo as Escrituras,
a sua fé em Ti no meio dos sofrimentos, a sua ressurreição e a conversão
proclamada em seu nome em todas as nações.
Nós Te pedimos, ó Pai: envia
sobre nós o teu Espírito Santo, força do alto, que nos prometeste e o teu Filho
nos revelou. Envia-nos a testemunhar a tua obra de salvação.
4. BILHETE DE EVANGELHO.
A tristeza torna o rosto sombrio
e as lágrimas estorvam a vista. Os discípulos conheceram a tristeza e a
decepção, não podem reconhecer o Ressuscitado que caminhava ao seu lado. Serão
necessários os olhos da fé para nomear Aquele que está vivo, para se alegrar n’Ele,
para O anunciar. A fé, assim, não mergulha na nostalgia. Se ela se volta para o
passado, é para fazer memória. Orienta-se, sobretudo, para um futuro que já não
será mais como antes. Qual é, então, o segredo dos discípulos para que estejam
alegres depois da partida do seu Mestre? Muito simplesmente a sua presença, mas
“de outro modo”. Doravante, Ele está sempre com eles; receberam a força do Espírito Santo, actualizam a sua mensagem,
fazem memória dos seus gestos, tornando-O realmente presente no meio deles.
Eles vivem na alegria porque sabem que Ele está com eles até ao fim dos tempos
e que sem Ele nada podem fazer. Ele prometeu, Ele manterá as suas promessas!
5. À ESCUTA DA PALAVRA.
“Enquanto Jesus os abençoava,
afastou-Se deles e foi elevado ao Céu”. Mas é onde, o céu? Segundo o
dicionário, é o espaço visível acima das nossas cabeças, que limita o
horizonte. Hoje, os homens são capazes de ir ao espaço. O primeiro cosmonauta
russo, em 1961, regressou à terra declarando que não
tinha encontrado Deus! Manifestamente, Lucas não fala desse céu! Os astronautas
vão para o espaço para melhor o explorar. Jesus, pela sua ressurreição, foi
para lá do espaço, saiu do nosso espaço-tempo. Mas o que pode querer isso
dizer? Reconheçamos que não temos qualquer experiência dessa realidade, pela
simples razão de que continuamos fechados neste espaço-tempo. O que falamos, na
Ascensão, tem a ver com a fé, com a confiança que podemos ter em Cristo e nas
testemunhas que O viram separar-Se deles. Não há qualquer prova nem
demonstração “científica” para esta subida ao céu de Jesus! Uma vez mais, somos
convidados a situar-nos num outro registo, o do amor.
É a nossa própria experiência: quando amamos, quando conhecemos momentos de
intensa felicidade, gostaríamos que o tempo parasse, não para que tudo se acabe mas, ao contrário, para que esta felicidade que atinge todo
o nosso ser seja como que eternizada. Gostaríamos de poder parar o tempo. Mas é
o tempo que para o amor. Ora – aí está a nossa fé – Jesus veio habitar este
desejo de eternidade em nós, para o levar à sua plena
realização. Vivendo a sua vida de homem, imergiu no amor que preenche os
desejos humanos mais autênticos. Ressuscitando, fez entrar todos estes desejos
no mundo do amor infinito. É desse céu que se trata hoje, para lá de tudo o que
possamos imaginar ou desejar. Em cada Eucaristia, acolhemos em nós a presença
de Jesus ressuscitado que vem alimentar e fazer crescer o germe da vida eterna.
E, no dia da nossa morte, Jesus far-nos-á entrar no “além”, no “céu”, no mundo
do amor sem qualquer limite…
6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração
Eucarística I, onde se evoca a “gloriosa ascensão” do Senhor…
7. PALAVRA PARA O CAMINHO.
Testemunhas de Cristo em 2007.
“Homens da Galileia, porque estais a olhar para o
Céu?” A mesma palavra vem mexer com as nossas inércias e empurra-nos para fora
de nós mesmos nos caminhos deste mundo. Este Messias morto e ressuscitado… vós
sois suas testemunhas! Medimos o desafio e a força destas palavras? E como
tomamos parte na grande rede das testemunhas de Cristo em 2007?
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES
DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA –
Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
scj.lu@netcabo.pt – www.ecclesia.pt/dehonianos