DOMINGO DA SOLENIDADE DE PENTECOSTES
27 de Maio de 2007
Tema do Domingo da Solenidade de
Pentecostes
O tema deste domingo é,
evidentemente, o Espírito Santo. Dom de Deus a todos os crentes, o Espírito dá
vida, renova, transforma, constrói comunidade e faz nascer o Homem Novo.
O Evangelho apresenta-nos a
comunidade cristã, reunida à volta de Jesus ressuscitado. Para João, esta
comunidade passa a ser uma comunidade viva, recriada, nova, a partir do dom do
Espírito. É o Espírito que permite aos crentes superar o medo e as limitações e
dar testemunho no mundo desse amor que Jesus viveu até às últimas consequências.
Na primeira leitura, Lucas sugere
que o Espírito é a lei nova que orienta a caminhada dos crentes. É Ele que cria
a nova comunidade do Povo de Deus, que faz com que os homens sejam capazes de
ultrapassar as suas diferenças e comunicar, que une,
numa mesma comunidade de amor, povos de todas as raças e culturas.
Na segunda leitura, Paulo avisa
que o Espírito é a fonte de onde brota a vida da comunidade cristã. É Ele que
concede os dons que enriquecem a comunidade e que fomenta a unidade de todos os
membros; por isso, esses dons não podem ser usados para benefício pessoal, mas
devem ser postos ao serviço de todos.
LEITURA I – Actos 2,1-11
Leitura dos Actos dos Apóstolos
Quando chegou o dia de
Pentecostes,
os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo lugar.
Subitamente, fez-se ouvir, vindo
do Céu,
um rumor
semelhante a forte rajada de vento,
que encheu toda a casa onde se encontravam.
Viram então aparecer uma espécie
de línguas de fogo,
que se
iam dividindo,
e poisou uma sobre cada um deles.
Todos ficaram cheios do Espírito
Santo
e começaram a falar outras línguas,
conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem.
Residiam em Jerusalém judeus
piedosos,
procedentes de todas as nações que há debaixo do céu.
Ao ouvir aquele ruído, a multidão
reuniu-se
e ficou
muito admirada,
pois cada qual os ouvia falar na sua própria língua.
Atónitos e maravilhados, diziam:
«Não são todos galileus os que estão a falar?
Então, como é que os ouve cada um
de nós
falar na
sua própria língua?
Partos, medos, elamitas,
habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia,
do Ponto
e da Ásia, da Frigia e da Panfília,
do Egipto e das regiões da Líbia, vizinha de Cirene,
colonos de Roma, tanto judeus como prosélitos,
cretenses e árabes,
ouvimo-los
proclamar nas nossas línguas
as maravilhas de Deus».
AMBIENTE
Já vimos, no comentário aos textos dos domingos anteriores, que o livro dos “Actos” não pretende ser uma reportagem jornalística de
acontecimentos históricos, mas sim ajudar os cristãos – desiludidos porque o
“Reino” não chega – a redescobrir o seu papel e a tomar consciência do
compromisso que assumiram, no dia do seu Baptismo.
No que diz respeito ao texto que
nos é proposto e que descreve os acontecimentos do dia do Pentecostes, não
existem dúvidas de que é uma construção artificial, criada por Lucas com uma
clara intenção teológica. Para apresentar a sua catequese, Lucas recorre às
imagens, aos símbolos, à linguagem poética das metáforas. Resta-nos descodificar os símbolos para chegarmos à interpelação
essencial que a catequese primitiva, pela palavra de Lucas, nos deixa. Uma
interpretação literal deste relato seria, portanto, uma boa forma de passarmos
ao lado do essencial da mensagem; far-nos-ia reparar na roupagem exterior, no
folclore, e ignorar o fundamental. Ora, o interesse fundamental do autor é
apresentar a Igreja como a comunidade que nasce de Jesus, que é assistida pelo
Espírito e que é chamada a testemunhar aos homens o projecto libertador do Pai.
MENSAGEM
Antes de mais, Lucas coloca a
experiência do Espírito no dia de Pentecostes. O Pentecostes era uma festa
judaica, celebrada cinquenta dias após a Páscoa.
Originariamente, era uma festa agrícola, na qual se agradecia a Deus a colheita
da cevada e do trigo; mas, no séc. I, tornou-se a
festa histórica que celebrava a aliança, o dom da Lei no Sinai e a constituição
do Povo de Deus. Ao situar neste dia o dom do Espírito, Lucas sugere que o
Espírito é a lei da nova aliança (pois é Ele que, no tempo da Igreja, dinamiza
a vida dos crentes) e que, por Ele, se constitui a nova comunidade do Povo de
Deus – a comunidade messiânica, que viverá da lei inscrita, pelo Espírito, no
coração de cada discípulo (cf. Ez 36,26-28).
Vem, depois, a narrativa da
manifestação do Espírito (Act 2,2-4). O Espírito é
apresentado como “a força de Deus”, através de dois símbolos: o vento de
tempestade e o fogo. São os símbolos da revelação de Deus no Sinai, quando Deus
deu ao Povo a Lei e constituiu Israel como Povo de Deus (cf. Ex 19,16.18; Dt 4,36). Estes símbolos
evocam a força irresistível de Deus, que vem ao encontro do homem, comunica com
o homem e que, dando ao homem o Espírito, constitui a comunidade de Deus.
O Espírito (força de Deus) é
apresentado em forma de língua de fogo. A língua não é somente a expressão da
identidade cultural de um grupo humano, mas é também a maneira de comunicar, de
estabelecer laços duradouros entre as pessoas, de criar comunidade. “Falar
outras línguas” é criar relações, é a possibilidade de superar o gueto, o
egoísmo, a divisão, o racismo, a marginalização… Aqui, temos o reverso de Babel
(cf. Gn 11,1-9): lá, os homens escolheram o orgulho,
a ambição desmedida que conduziu à separação e ao desentendimento; aqui,
regressa-se à unidade, à relação, à construção de uma comunidade capaz do
diálogo, do entendimento, da comunicação. É o surgimento de uma humanidade
unida, não pela força, mas pela partilha da mesma experiência interior, fonte
de liberdade, de comunhão, de amor. A comunidade messiânica é a comunidade onde
a acção de Deus (pelo Espírito) modifica
profundamente as relações humanas, levando à partilha, à relação, ao amor.
É neste enquadramento que devemos
entender os efeitos da manifestação do Espírito (cf. Act 2,5-13): todos “os ouviam proclamar na sua própria língua as maravilhas de
Deus”. O elenco dos povos convocados e unidos pelo Espírito atinge
representantes de todo o mundo antigo, desde a Mesopotâmia, passando por Canaan, pela Ásia Menor, pelo norte de África, até Roma: a
todos deve chegar a proposta libertadora de Jesus, que
faz de todos os povos uma comunidade de amor e de partilha. A comunidade de
Jesus é assim capacitada pelo Espírito para criar a nova humanidade, a anti-Babel. A possibilidade de ouvir na própria língua “as
maravilhas de Deus” outra coisa não é do que a comunicação do Evangelho, que
irá gerar uma comunidade universal. Sem deixarem a sua cultura, as suas
diferenças, todos os povos escutarão a proposta de Jesus e terão a
possibilidade de integrar a comunidade da salvação, onde se fala a mesma língua
e onde todos poderão experimentar esse amor e essa comunhão que tornam povos
tão diferentes, irmãos. O essencial passa a ser a experiência do amor que, no
respeito pela liberdade e pelas diferenças, deve unir todas as nações da terra.
O Pentecostes dos “Actos” é, podemos dizê-lo, a página programática da Igreja
e anuncia aquilo que será o resultado da acção das
“testemunhas” de Jesus: a humanidade nova, a anti-Babel,
nascida da acção do Espírito, onde todos serão capazes de comunicar e de se relacionar como irmãos, porque
o Espírito reside no coração de todos como lei suprema, como fonte de amor e de
liberdade.
ACTUALIZAÇÃO
Para a reflexão, considerar as
seguintes indicações:
• Temos, neste texto, os
elementos essenciais que definem a Igreja: uma comunidade de irmãos reunidos
por causa de Jesus, animada pelo Espírito do Senhor
ressuscitado e que testemunha na história o projecto libertador de Jesus. Desse testemunho resulta a comunidade universal da
salvação, que vive no amor e na partilha, apesar das diferenças culturais e
étnicas. A Igreja de que fazemos parte é uma comunidade de irmãos que se amam,
apesar das diferenças? Está reunida por causa de Jesus e à volta de Jesus? Tem
consciência de que o Espírito está presente e que a anima? Testemunha, de forma efectiva e coerente, a proposta libertadora que Jesus
deixou?
• Nunca será demais realçar o
papel do Espírito na tomada de consciência da identidade e da missão da Igreja…
Antes do Pentecostes, tínhamos apenas um grupo fechado dentro de quatro
paredes, incapaz de superar o medo e de arriscar, sem a iniciativa nem a
coragem do testemunho; depois do Pentecostes, temos uma comunidade unida, que
ultrapassa as suas limitações humanas e se assume como comunidade de amor e de
liberdade. Temos consciência de que é o Espírito que nos renova, que nos orienta e que nos anima? Damos suficiente espaço à acção do Espírito, em nós e nas nossas comunidades?
• Para se tornar cristão, ninguém
deve ser espoliado da própria cultura: nem os africanos, nem os europeus, nem
os sul-americanos, nem os negros, nem os brancos; mas todos são convidados, com
as suas diferenças, a acolher esse projecto libertador de Deus, que faz os homens deixarem de
viver de costas voltadas, para viverem no amor. A Igreja de que fazemos parte é
esse espaço de liberdade e de fraternidade? Nela todos encontram lugar e são
acolhidos com amor e com respeito – mesmo os de outras raças, mesmo aqueles de
quem não gostamos, mesmo aqueles que não fazem parte
do nosso círculo, mesmo aqueles que a sociedade marginaliza e afasta?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 103
(104)
Refrão 1: Enviai,
Senhor, o vosso Espírito
e renovai a face da terra.
Refrão 2: Mandai,
Senhor, o vosso Espírito
e renovai a terra.
Refrão 3: Aleluia.
Bendiz, ó minha alma, o Senhor.
Senhor, meu Deus, como sois
grande!
Como são grandes, Senhor, as vossas obras!
A terra está cheia das vossas
criaturas.
Se lhes tirais o alento, morrem
e voltam
ao pó donde vieram.
Se mandais o vosso Espírito, retomam a vida
e renovais a face da terra.
Glória a deus para sempre!
Rejubile o Senhor nas suas obras.
Grato Lhe seja o meu canto
e eu
terei alegria no Senhor.
LEITURA II – 1 Cor 12,3b-7.12-13
Leitura da Primeira Epístola do
apóstolo São Paulo aos Coríntios
Irmãos:
Ninguém pode dizer «Jesus é o
Senhor»,
a não
ser pela acção do Espírito Santo.
De facto,
há diversidade de dons espirituais,
mas o
Espírito é o mesmo.
Há diversidade de ministérios,
mas o
Senhor é o mesmo.
Há diversas operações,
mas é o
mesmo Deus que opera tudo em todos.
Em cada um se manifestam os dons
do Espírito
para o
bem comum.
Assim como o corpo é um só e tem
muitos membros
e todos
os membros, apesar de numerosos,
constituem um só corpo,
assim também sucede com Cristo.
Na verdade, todos nós
- judeus e
gregos, escravos e homens livres –
fomos baptizados num só Espírito,
para constituirmos um só Corpo.
E a todos nos foi dado a beber um
único Espírito.
AMBIENTE
A comunidade cristã de Corinto
era viva e fervorosa, mas não era uma comunidade exemplar no que diz respeito à
vivência do amor e da fraternidade: os partidos, as divisões, as contendas e
rivalidades perturbavam a comunhão e constituíam um contra-testemunho. As questões à volta dos “carismas”
(dons especiais concedidos pelo Espírito a determinadas pessoas ou grupos para
proveito de todos) faziam-se sentir com especial acuidade: os detentores desses
dons carismáticos consideravam-se os “escolhidos” de Deus, apresentavam-se como
“iluminados” e assumiam com frequência atitudes de
autoritarismo e de prepotência que não favorecia a fraternidade e a liberdade;
por outro lado, os que não tinham sido dotados destes dons eram desprezados e
desclassificados, considerados quase como “cristãos de segunda”, sem vez nem
voz na comunidade.
Paulo não pode ignorar esta
situação. Na primeira Carta aos Coríntios, ele
corrige, admoesta, dá conselhos, mostra a incoerência
destes comportamentos, incompatíveis com o Evangelho. No texto que nos é
proposto, Paulo aborda a questão dos “carismas”.
MENSAGEM
Em primeiro lugar, Paulo acha que
é preciso saber ajuizar da validade dos dons carismáticos, para que não se fale
em “carismas” a propósito de comportamentos que pretendem apenas garantir os
privilégios de certas figuras. Segundo Paulo, o verdadeiro “carisma” é o que
leva a confessar que “Jesus é o Senhor” (pois não pode haver oposição entre
Cristo e o Espírito) e que é útil para o bem da comunidade.
De resto, é preciso que os
membros da comunidade tenham consciência de que, apesar da diversidade de dons
espirituais, é o mesmo Espírito que actua em todos;
que apesar da diversidade de funções, é o mesmo Senhor Jesus que está presente
em todos; que apesar da diversidade de acções, é o
mesmo Deus que age em todos. Não há, portanto, “cristãos de primeira” e
“cristãos de segunda”. O que é importante é que os dons do Espírito resultem no
bem de todos e sejam usados – não para melhorar a própria posição ou o próprio
“ego” – mas para o bem de toda a comunidade.
Paulo conclui o seu raciocínio
comparando a comunidade cristã a um “corpo” com muitos membros. Apesar da
diversidade de membros e de funções, o “corpo” é um só. Em todos os membros
circula a mesma vida, pois todos foram baptizados num
só Espírito e “beberam” um único Espírito.
O Espírito é, pois, apresentado
como Aquele que alimenta e que dá vida ao “corpo de Cristo”; dessa forma, Ele
fomenta a coesão, dinamiza a fraternidade e é o responsável pela unidade desses
diversos membros que formam a comunidade.
ACTUALIZAÇÃO
Para reflectir e actualizar a Palavra, considerar os seguintes
elementos:
• Temos todos consciência de que somos membros de um único “corpo” – o corpo de Cristo – e é
o mesmo Espírito que nos alimenta, embora desempenhemos funções diversas (não
mais dignas ou mais importantes, mas diversas). No entanto, encontramos, com
alguma frequência, cristãos com uma consciência viva
da sua superioridade e da sua situação “à parte” na comunidade (seja em razão
da função que desempenham, seja em razão das suas “qualidades” humanas), que
gostam de mandar e de fazer-se notar. Às vezes, vêem-se atitudes de prepotência
e de autoritarismo por parte daqueles que se consideram depositários de dons
especiais; às vezes, a Igreja continua a dar a impressão – mesmo após o
Vaticano II – de ser uma pirâmide no topo da qual há uma elite que preside e
toma as decisões e em cuja base está o rebanho silencioso, cuja função é
obedecer. Isto faz algum sentido, à luz da doutrina que Paulo expõe?
• Os “dons” que recebemos não
podem gerar conflitos e divisões, mas devem servir para o bem comum e para
reforçar a vivência comunitária. As nossas comunidades são espaços de partilha
fraterna, ou são campos de batalha onde se digladiam interesses próprios,
atitudes egoístas, tentativas de afirmação pessoal?
• É preciso ter consciência da
presença do Espírito: é Ele que alimenta, que dá vida,
que anima, que distribui os dons conforme as necessidades; é Ele que conduz as
comunidades na sua marcha pela história. Ele foi distribuído a todos os crentes
e reside na totalidade da comunidade. Temos consciência da presença do Espírito
e procuramos ouvir a sua voz e perceber as suas indicações? Temos consciência
de que, pelo facto de desempenharmos esta ou aquela
função, não somos as únicas vozes autorizadas a falar em nome do Espírito?
LEITURA II – Rom 8, 8-17 (em alternativa à anterior)
SEQUÊNCIA DO PENTECOSTES
Vinde, ó Santo Espírito,
vinde,
Amor ardente,
acendei na terra
vossa luz fulgente.
Vinde,
Pai dos pobres:
na dor e
aflições,
vinde encher de gozo
nossos corações.
Benfeitor supremo
em todo
o momento,
habitando em nós
sois o
nosso alento.
Descanso na luta
e paz
encanto,
no calor
sois brisa,
conforto no pranto.
Luz de santidade,
que no
Céu ardeis,
abrasai as almas
dos vossos fiéis.
Sem a vossa força
e favor
clemente,
nada há
no homem
que seja
inocente.
Lavai nossas manchas,
a aridez
regai,
sarai os
enfermos
e a
todos salvai.
Abrandai durezas
para os
caminhantes,
animai os tristes,
guiai os
errantes.
Vossos sete dons
concedei à alma
do que
em Vós confia:
Virtude na vida,
amparo na morte,
no Céu
alegria.
ALELUIA
Aleluia. Aleluia.
Vinde,
Espírito Santo,
enchei os corações dos vossos fiéis
e acendei neles o fogo do vosso amor.
EVANGELHO – Jo 20,19-23
Evangelho de Nosso Senhor Jesus
Cristo segundo São João
Na tarde daquele dia, o primeiro
da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os
discípulos se encontravam,
com medo
dos judeus,
veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou-lhes as mãos e
o lado.
Os discípulos ficaram cheios de
alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse-lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou,
também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e
disse-lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».
AMBIENTE
Este texto (lido já no II Domingo
da Páscoa) situa-nos no cenáculo, no próprio dia da ressurreição. Apresenta-nos
a comunidade da nova aliança, nascida da acção criadora e vivificadora do Messias. No entanto, esta comunidade ainda não se
encontrou com Cristo ressuscitado e ainda não tomou consciência das implicações
da ressurreição. É uma comunidade fechada, insegura, com medo… Necessita de
fazer a experiência do Espírito; só depois, estará preparada para assumir a sua
missão no mundo e dar testemunho do projecto libertador de Jesus.
Nos “Actos”,
Lucas narra a descida do Espírito sobre os discípulos no dia do Pentecostes, cinquenta dias após a Páscoa (sem dúvida por razões
teológicas e para fazer coincidir a descida do Espírito com a festa judaica do
Pentecostes, a festa do dom da Lei e da constituição do Povo de Deus); mas João
situa no anoitecer do dia de Páscoa a recepção do Espírito pelos discípulos.
MENSAGEM
João começa por pôr em relevo a
situação da comunidade. O “anoitecer”, as “portas fechadas”, o “medo” (vers. 19a) são o quadro que reproduz a situação de uma
comunidade desamparada no meio de um ambiente hostil e, portanto, desorientada
e insegura. É uma comunidade que perdeu as suas referências e a sua identidade
e que não sabe, agora, a que se agarrar.
Entretanto, Jesus aparece “no
meio deles” (vers. 19b). João indica desta forma que
os discípulos, fazendo a experiência do encontro com Jesus ressuscitado,
redescobriram o seu centro, o seu ponto de referência, a coordenada fundamental
à volta do qual a comunidade se constrói e toma consciência da sua identidade.
A comunidade cristã só existe de forma consistente se está centrada em Jesus
ressuscitado.
Jesus começa por os saudar, desejando-lhes “a paz” (“shalom”,
em hebraico). A “paz” é um dom messiânico; mas, neste contexto, significa sobretudo a transmissão da serenidade, da tranquilidade e da confiança, que permitirão aos discípulos
superar o medo e a insegurança: a partir de agora, nem o sofrimento, nem a
morte, nem a hostilidade do mundo poderão derrotar os discípulos, porque Jesus
ressuscitado está “no meio deles”.
Em seguida, Jesus “mostrou-lhes
as mãos e o lado”. São os “sinais” que evocam a
entrega de Jesus, o amor total expresso na cruz. É nesses “sinais” (na entrega
da vida, no amor oferecido até à última gota de sangue) que os discípulos
reconhecem Jesus. O facto de esses “sinais”
permanecerem no ressuscitado indica que Jesus será, de forma permanente, o
Messias cujo amor se derramará sobre os discípulos e cuja entrega alimentará a
comunidade.
Vem, depois, a comunicação do
Espírito. O gesto de Jesus de soprar sobre os discípulos reproduz o gesto de
Deus ao comunicar a vida ao homem de argila (João utiliza, aqui, precisamente o
mesmo verbo do texto grego de Gn 2,7). Com o “sopro”
de Deus de Gn 2,7, o homem tornou-se um “ser
vivente”; com este “sopro”, Jesus transmite aos discípulos a vida nova e faz
nascer o Homem Novo. Agora, os discípulos possuem a vida em plenitude e estão capacitados – como Jesus – para fazerem da sua vida um
dom de amor aos homens. Animados pelo Espírito, eles formam a comunidade da
nova aliança e são chamados a testemunhar – com gestos e com palavras – o amor
de Jesus.
Finalmente, Jesus explicita qual
a missão dos discípulos (vers. 23): a eliminação do
pecado. As palavras de Jesus não significam que os discípulos possam ou não –
conforme os seus interesses ou a sua disposição – perdoar os pecados.
Significam, apenas, que os discípulos são chamados a testemunhar no mundo essa
vida que o Pai quer oferecer a todos os homens. Quem aceitar essa proposta,
será integrado na comunidade de Jesus; quem não a aceitar, continuará a
percorrer caminhos de egoísmo e de morte (isto é, de pecado). A comunidade,
animada pelo Espírito, será a mediadora desta oferta de salvação.
ACTUALIZAÇÃO
Para a reflexão, considerar as
seguintes coordenadas:
• A comunidade cristã só existe
de forma consistente, se está centrada em Jesus. Jesus é a
sua identidade e a sua razão de ser. É n’Ele que superamos os
nossos medos, as nossas incertezas, as nossas limitações, para partirmos à
aventura de testemunhar a vida nova do Homem Novo. As nossas comunidades são,
antes de mais, comunidades que se organizam e estruturam à volta de Jesus? Jesus é o nosso modelo de referência? É com Ele que nos
identificamos, ou é num qualquer ídolo de pés de barro que procuramos a nossa
identidade? Se Ele é o centro, a referência fundamental, têm algum sentido as discussões acerca de coisas não essenciais, que às vezes
dividem os crentes?
• Identificar-se como cristão
significa dar testemunho diante do mundo dos “sinais” que definem Jesus: a vida
dada, o amor partilhado. É esse o testemunho que damos? Os homens do nosso
tempo, olhando para cada cristão ou para cada comunidade cristã, podem dizer
que encontram e reconhecem os “sinais” do amor de Jesus?
• As comunidades construídas à volta
de Jesus são animadas pelo Espírito. O Espírito é esse sopro
de vida que transforma o barro inerte numa imagem de Deus, que transforma o
egoísmo em amor partilhado, que transforma o orgulho em serviço simples e
humilde… É Ele que nos faz vencer os medos, superar as cobardias e fracassos,
derrotar o cepticismo e a desilusão, reencontrar a orientação, readquirir a
audácia profética, testemunhar o amor, sonhar com um mundo novo. É
preciso ter consciência da presença contínua do Espírito em nós e nas nossas
comunidades e estar atentos aos seus apelos, às suas indicações, aos seus
questionamentos.
EVANGELHO – Jo 14, 15-16.23a-26 (em alternativa ao anterior)
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O
DOMINGO DE PENTECOSTES
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA
SEMANA.
Ao longo dos dias da semana
anterior ao Domingo de Pentecostes, procurar meditar a Palavra de Deus deste
domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher
um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da
paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa
comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a
Palavra de Deus.
2. MANIFESTAR A DIVERSIDADE DAS
LÍNGUAS.
Poderá ser interessante
manifestar a diversidade das línguas durante a celebração. Se houver
comunidades estrangeiras na assembleia, pode-se pedir
para preparar uma invocação para o momento penitencial, uma intenção da oração
universal ou ainda uma curta acção de graças depois da comunhão… cada uma na própria língua.
3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das
leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Deus criador, nós Te bendizemos
pelo dom do teu Espírito, que Tu nos revelas como um sopro e um fogo e que
concedes profusamente à tua Igreja e a cada um dos seus membros, nas nossas
celebrações.
Espírito Santo, nós Te pedimos:
dá às Igrejas as línguas adaptadas para que elas possam fazer compreender a
todos os povos as maravilhas de Deus.
No final da segunda leitura:
Pai santo, nós Te damos graças
porque nos deste o teu Espírito. Ele faz de nós teus filhos e tuas filhas;
movidos por Ele, nós Te gritamos “Abba”, Pai!
Nós Te pedimos por todo o povo
cristão: que cada um de nós se deixe conduzir pelo teu Espírito.
No final do Evangelho:
Nós Te bendizemos pelo teu
Espírito de verdade, o defensor, que Tu nos enviaste e que está connosco para sempre. Nós Te damos graças pelo amor com que
nos amas, a ponto de vir morar junto de nós.
Erguemos para Ti as nossas mãos e
Te pedimos: venha a nós o teu Espírito, Ele que falou pelos profetas; que Ele
nos faça recordar todas as palavras do teu Filho.
4. BILHETE DE EVANGELHO.
Por vezes, é preciso coragem para
dizer a verdade e para ser verdadeiro. Jesus sabia que os seus discípulos
encontrariam muitos obstáculos para O testemunhar, Ele
que é a Verdade. Então Ele promete um Defensor, Alguém que os inspirará, que lhes soprará as palavras que é preciso dizer, que respirará
neles o sopro do amor, que os levará a agir em seu Nome, que os animará
para fazer memória d’Ele. Este Defensor é o Espírito de Verdade, precisa Jesus,
o seu Espírito. Será, pois, o seu modo de estar sempre com eles; assim, não nos
deixa órfãos. São necessários sinais para manifestar esta presença do Espírito
do ressuscitado. No Pentecostes, evoca-se o fogo, porque o Espírito Santo vai
“queimar” a Igreja, a fim de que ela abrase o mundo para o
aquecer e iluminar com o seu Amor… Evoca-se o vento, porque o Espírito
vai soprar como uma tempestade e, então, transformar, refrescar… Evoca-se a
multiplicidade das línguas, porque o Espírito é dado a todos numa Igreja que se
diz universal… No Pentecostes, passa-se qualquer coisa. Mas o Pentecostes é
hoje!
5. À ESCUTA DA PALAVRA.
Sob a acção do Espírito Santo…
Quando chegou o Pentecostes,
os discípulos encontravam-se todos juntos…
Tu realizas a tua promessa,
Senhor Jesus.
O Espírito vem transformar os
teus discípulos.
O duplo símbolo do vento e do
fogo manifesta a sua obra neles
e também
o que Tu desejas fazer em nós.
O Espírito sopra sobre os
apóstolos, varrendo o seu medo,
abrindo as portas da casa… e do seu coração.
O medo mantinha-os escondidos,
mas agora põem-se a falar.
Dirigem-se à multidão vinda a
Jerusalém de todas as nações.
Como um fogo que ilumina, aquece
e se espalha,
o Espírito faz com que eles proclamem as maravilhas de Deus.
Querem acender em todos os
corações
o fogo
do amor que queima neles.
O Espírito leva-os a fazer-se
compreender em todas as línguas.
Envia-nos o teu Espírito, Senhor!
Renova o Pentecostes na tua