SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE
3 de Junho de 2007
Tema do Domingo da Santíssima
Trindade
A Solenidade que hoje celebrámos não é um convite a decifrar a mistério que se
esconde por detrás de “um Deus em três pessoas”; mas é um convite a contemplar
o Deus que é amor, que é família, que é comunidade e que criou os homens para os fazer comungar nesse mistério de amor.
A primeira leitura sugere-nos a
contemplação do Deus criador. A sua bondade e o seu amor estão inscritos e
manifestam-se aos homens na beleza e na harmonia das obras criadas (Jesus
Cristo é “sabedoria” de Deus e o grande revelador do amor do
Pai).
A segunda leitura, convida-nos a contemplar o Deus que nos ama e que, por
isso, nos “justifica”, de forma gratuita e incondicional. É através do Filho
que os dons de Deus/Pai se derramam sobre nós e nos oferecem a vida em
plenitude.
O Evangelho convoca-nos, outra
vez, para contemplar o amor do Pai, que se manifesta na doação e na entrega do
Filho e que continua a acompanhar a nossa caminhada histórica através do Espírito.
A meta final desta “história de amor” é a nossa inserção plena na comunhão com
o Deus/amor, com o Deus/família, com o Deus/comunidade.
LEITURA I – Prov 8,22-31
Leitura do Livro dos Provérbios
Eis o que diz a Sabedoria de
Deus:
«O Senhor me criou como primícias
da sua actividade,
antes das suas obras mais antigas.
Desde a eternidade fui formada,
desde o
princípio, antes das origens da terra.
Antes de existirem os abismos e
de brotarem as fontes das águas,
já eu
tinha sido concebida.
Antes de se implantarem as
montanhas e as colinas,
já eu
tinha nascido;
ainda o
Senhor não tinha feito a terra e os campos,
nem os
primeiros elementos do mundo.
Quando Ele consolidava os céus,
eu estava presente;
Quando traçava sobre o abismo a
linha do horizonte,
quando condensava as nuvens nas alturas,
quando fortalecia as fontes dos abismos,
quando impunha ao mar os seus limites
para que
as águas não ultrapassassem o seu termo,
quando lançava os fundamentos da terra,
eu estava a seu lado como arquitecto,
cheia de
júbilo, dia após dia,
deleitando-me
continuamente na sua presença.
Deleitava-me sobre a face da
terra
e as
minhas delícias eram estar com os filhos dos homens».
AMBIENTE
O Livro dos Provérbios apresenta
uma colecção de “ditos”, de “sentenças”, de
“máximas”, de “provérbios” (“mashal”), onde se
cristaliza o resultado da reflexão e da experiência (“sabedoria”) dos “sábios”
antigos (israelitas e alguns não israelitas), empenhados em definir as regras
para viver bem, para ter êxito, para ser feliz. Alguns dos materiais aí
apresentados podem ser do séc. X a. C.; outros, no entanto, são bem mais
recentes.
O texto que nos é hoje proposto
faz parte de um bloco de “instruções” e “advertências” que vai de 1,8 a 9,6.
Trata-se da parte mais recente do “Livro dos Provérbios” (segundo os
especialistas, não pode ser anterior ao séc. IV ou III a. C.).
O capítulo 8 do “Livro dos
Provérbios” (do qual é retirado o texto que hoje nos é proposto) apresenta-nos
um discurso posto na boca da própria “sabedoria”, como se ela fosse uma pessoa:
trata-se de um artifício literário, através do qual o autor pretende dar força
e intensidade dramática ao convite que ele lança no sentido de acolher e amar a
“sabedoria”. Na primeira parte desse discurso (vers.
1-11), o autor apresenta o “púlpito” de onde a “sabedoria” vai discursar (o
cume das montanhas, a encruzilhada dos caminhos, as entradas das cidades, os
umbrais das casas), os destinatários da mensagem (todos os homens) e apela à
escuta das palavras que ela vai pronunciar; na segunda parte (vers. 12-21), o autor apresenta as “credenciais” da
“sabedoria” (ela possui a ciência, a reflexão, o conselho, a equidade, a força)
e o prémio reservado àqueles que a acolhem; na
terceira parte (vers. 8,22-31) – que é a que nos
interessa directamente – o autor reflecte sobre a origem da sabedoria e a sua função no plano de Deus.
MENSAGEM
Em primeiro lugar, diz-se que a
“sabedoria” tem origem em Deus. O autor do texto põe na boca da “sabedoria” a
forma hebraica “qânâny” (“gerou-me”) para expressar a
responsabilidade de Deus na origem da “sabedoria” (vers.
22).
Afirma também que ela é a primeira
das obras de Deus. Antes de serem lançadas as estruturas do cosmos, a
“sabedoria” já existia (vers. 24-29); mais, ela
estava lá, tendo um papel interveniente na criação: no vers.
30, a “sabedoria” é apresentada como “arquitecto” (“amon”), isto é, como assistente activo de Deus na obra criadora (embora certas versões
antigas leiam como “amun” – “criança” – o que sugere
a ideia da “sabedoria” como uma “criança” feliz que
brinca e se deleita no meio da obra criada).
Em terceiro lugar, a “sabedoria”
afirma que o seu interesse e deleite é estar “junto dos filhos dos homens” (vers. 31): ela dirige-se aos homens e o seu objectivo é “ser para os homens”. Ela desempenha, portanto,
um papel em favor dos homens.
Qual é esse papel? A perícopa está dominada por três palavras, que aparecem no
princípio, no meio e no fim: “Jahwéh” (vers. 22), “sabedoria” (“eu” – vers.
30) e “homens” (vers. 31). Esta “coluna vertebral”
revela, desde já, o objectivo do autor do texto: ao
dizer que a “sabedoria” tem origem em Jahwéh, está em
íntima relação com Deus e se destina aos homens, está a sugerir-se que ela tem
a capacidade de pôr os homens em relação e contacto com Deus. Através dessa
realidade criada que a “sabedoria” viu nascer, ela espevita a inteligência dos
homens, leva-os a Deus, atrai-os para Deus. A “sabedoria”, presente desde
sempre na criação, revela aos homens a grandeza e o amor do Deus criador.
A tradição judaica acabará por
identificar esta “sabedoria” com a Torah (cf. Ba 3,38-4,1; Pirkê Rabbí Eliezer, III, 2). Por outro
lado, os autores neo-testamentários, conhecedores dos
livros sapienciais, atribuirão a Jesus algumas das características que este
texto atribui à “sabedoria”: Paulo chama a Jesus “sabedoria” e “sabedoria de
Deus” (cf. 1 Cor 1,24.30); considera também que Jesus,
como a “sabedoria” de Prov 8, existe antes de todas
as coisas e desempenhou um papel privilegiado na criação do mundo (cf. Col 1,16-17); por sua vez, o “prólogo” do Quarto Evangelho
atribui ao “Lógos”/Jesus os traços da “sabedoria”
criadora de Prov 8 (diz que Jesus é anterior à
criação – cf. Jo 1,1) e que Ele deu existência a
todas as obras criadas – cf. Jo 1,3).
Os Padres da Igreja verão nesta
“sabedoria”, pré-criada e anterior à restante obra de Deus, traços de Jesus
Cristo ou do Espírito Santo.
ACTUALIZAÇÃO
Ter em conta, na reflexão, os
seguintes desenvolvimentos:
• A referência ao Deus que tudo
criou para nós com sabedoria faz-nos pensar num Pai providente e cuidadoso, que
tem um projecto bem definido para os homens e para o
mundo. Contemplar a criação é descobrir, na beleza e na harmonia das obras
criadas, esse Pai cheio de bondade e de amor. Somos capazes de nos sentirmos
“provocados” pela criação de forma que, através dela, descubramos o amor e a
bondade de Deus?
• Olhando para a obra de Deus,
aprendemos que o homem não é um concorrente de Deus, nem Deus um adversário do
homem. Ao homem compete reconhecer o poder e a grandeza de Deus e entregar-se,
confiante, nas mãos desse Pai que tudo criou com cuidado e que tudo nos entrega
com amor. Entregamo-nos nas mãos d’Ele, não como adversários, mas como crianças
que confiam incondicionalmente no seu pai?
• O desenvolvimento desordenado e
a exploração descontrolada dos recursos da natureza põem em causa a harmonia desse “mundo bom” que Deus criou e que nos confiou. Temos o
direito de pôr em causa, por egoísmo, a obra de Deus?
• A contemplação da obra criada
leva ao espanto e ao louvor. Somos capazes de nos extasiarmos diante das coisas
que Deus nos oferece e de deixarmos que a nossa admiração se derrame em louvor
e agradecimento?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 8
Refrão: Como sois
grande em toda a terra,
Senhor, nosso Deus!
Quando contemplo os céus, obra
das vossas mãos,
a lua e
as estrelas que lá colocastes,
que é o
homem para que Vos lembreis dele,
o filho
do homem para dele Vos ocupardes?
Fizestes dele quase um ser
divino,
de honra
e glória o coroastes;
destes-lhes
poder sobre a obra das vossas mãos,
tudo submetestes a seus pés:
Ovelhas e bois, todos os rebanhos,
e até os
animais selvagens,
as aves
do céu e os peixes do mar,
tudo o
que se move nos oceanos.
LEITURA II – Rom 5,1-5
Leitura da Epístola do apóstolo
São Paulo aos Romanos
Irmãos:
Tendo sido justificados pela fé,
estamos em paz com Deus,
por Nosso
Senhor Jesus Cristo,
pelo qual temos acesso, na fé,
a esta
graça em que permanecemos e nos gloriamos,
apoiados na esperança da glória de Deus.
Mais ainda, gloriamo-nos nas
nossas tribulações,
porque sabemos que a tribulação produz a constância,
a constância
a virtude sólida,
a virtude sólida a esperança.
AMBIENTE
Quando Paulo escreve aos romanos,
está a terminar a sua terceira viagem missionária e prepara-se para partir para
Jerusalém. Tinha terminado a sua missão no oriente (cf. Rom 15,19-20) e queria levar o Evangelho ao ocidente. Sobretudo, Paulo aproveita a
carta para contactar a comunidade de Roma e
apresentar aos romanos e a todos os crentes os principais problemas que o
ocupavam (entre os quais sobressaía a questão da unidade – um problema bem
presente na comunidade de Roma, afectada por alguma
dificuldade de relacionamento entre judeo-cristãos e pagano-cristãos). Estamos no ano 57 ou 58.
Paulo aproveita, então, para
sublinhar que o Evangelho é a força que congrega e que salva todo o crente, sem
distinção de judeu, grego ou romano. Depois de notar que todos os homens vivem
mergulhados no pecado (cf. Rom 1,18-3,20), Paulo
acentua que é a “justiça de Deus” que dá vida a todos sem distinção (cf. Rom
3,1-5,11). Neste texto, que a segunda leitura de hoje nos propõe, Paulo
refere-se à acção de Deus, por Cristo e pelo
Espírito, no sentido de “justificar” todo o homem.
MENSAGEM
Paulo parte da ideia de que todos os crentes – judeus,
gregos e romanos – foram justificados pela fé. Que significa isto?
Na linguagem bíblica, a justiça
é, mais do que um conceito jurídico, um conceito relacional. Define a fidelidade a si próprio, à sua maneira de ser e aos
compromissos assumidos no âmbito de uma relação. Ora, se Jahwéh se manifestou na história do seu Povo como o Deus da bondade, da misericórdia e
do amor, dizer que Deus é justo não significa dizer que Ele aplica os
mecanismos legais quando o homem infringe as regras; significa, sim, que a
bondade, a misericórdia, o amor, próprios do “ser” de Deus, se manifestam em
todas as circunstâncias, mesmo quando o homem não foi correcto no seu proceder. Paulo, ao falar do homem justificado, está a falar do homem
pecador que, por exclusiva iniciativa do amor e da misericórdia de Deus, recebe
um veredicto de graça que o salva do pecado e lhe dá,
de modo totalmente gratuito, acesso à salvação. Ao homem é pedido somente que
acolha, com humildade e confiança, uma graça que não depende dos seus méritos e
que se entregue completamente nas mãos de Deus. Este homem, objecto da graça de Deus, é uma nova criatura (cf. Gal 6,15):
é o homem ressuscitado para a vida nova (cf. Rom 6,3-11), que vive do Espírito (cf. Rom 8,9.14), que é filho de Deus e
co-herdeiro com Cristo (cf. Rom 8,17; Gal 4,6-7).
Quais os frutos que resultam
deste acesso à salvação que é um dom de Deus? Em primeiro lugar, a paz (vers. 1). Esta paz não deve ser entendida em sentido
psicológico (tranquilidade, serenidade), mas no
sentido teológico semita de relação positiva com Deus e, portanto, de plenitude
de bens, já que Deus é a fonte de todo o bem.
Em segundo lugar, a esperança (vers. 2-4). Trata-se desse dom que nos permite superar as
dificuldades e a dureza da caminhada, apontando a um futuro glorioso de vida em
plenitude. Não se trata de alimentar um optimismo fácil e irresponsável, que permita a evasão do presente; trata-se de encontrar
um sentido novo para a vida presente, na certeza de que as forças da morte não
terão a última palavra e que as forças da vida triunfarão.
Em terceiro lugar, o amor de Deus
ao homem (vers. 5-8). O cristão é, fundamentalmente,
alguém a quem Deus ama. Como prova desse amor que age em nós através do
Espírito, está Jesus de Nazaré a quem Deus “entregou à morte por nós quando
ainda éramos pecadores”.
Tudo aquilo que enche a vida do
crente, que lhe dá sentido, é um dom de Deus Pai que, através de Jesus, demonstra
o seu amor e que, pelo Espírito, derrama continuamente esse amor sobre nós.
ACTUALIZAÇÃO
Para a reflexão da Palavra,
considerar as seguintes coordenadas:
• Na Solenidade da Santíssima
Trindade, somos convidados a contemplar o amor de um Deus que nunca desistiu
dos homens e que sempre soube encontrar formas de vir ao nosso encontro, de
fazer caminho connosco. Apesar de os homens
insistirem, tantas vezes, no egoísmo, no orgulho, na auto-suficiência, no
pecado, Deus continua a amar e a fazer-nos propostas de vida. Trata-se de um
amor gratuito e incondicional, que se traduz em dons não merecidos, mas que,
uma vez acolhidos, nos conduzem à felicidade plena.
• A vinda de Jesus Cristo ao
encontro dos homens é a expressão plena do amor de Deus e o sinal de que Deus
não nos abandonou nem esqueceu, mas quis até partilhar connosco a precariedade e a fragilidade da nossa existência
para nos mostrar como nos tornarmos “filhos de Deus” e herdeiros da vida em
plenitude.
• A presença do Espírito acentua
no nosso tempo – o tempo da Igreja – essa realidade de um Deus que continua
presente e actuante, derramando o seu amor ao longo
do caminho que dia a dia vamos percorrendo e impelindo-nos à renovação, à
transformação, até chegarmos à vida plena do Homem Novo.
• Está em moda uma
certa atitude de indiferença face a Deus, ao seu amor e às suas
propostas. Em geral, os homens de hoje preocupam-se mais com os resultados da
última jornada do campeonato de futebol, ou com as últimas peripécias da
“telenovela das nove” do que com Deus ou com o seu amor. Não será tempo de
redescobrirmos o Deus que nos ama, de reconhecermos o seu empenho em
conduzir-nos rumo à felicidade plena e de aceitarmos essa proposta de caminho
que Ele nos faz?
ALELUIA – cf. Ap 1,8
Aleluia. Aleluia.
Glória ao Pai e ao Filho e ao
Espírito Santo,
ao Deus
que é, que era e que há-de vir.
EVANGELHO – Jo 16,12-15
Evangelho de Nosso Senhor Jesus
Cristo segundo São João
Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Tenho ainda muitas coisas para
vos dizer,
mas não
as podeis compreender agora.
Quando vier o Espírito da
verdade,
Ele vos guiará para a verdade
plena;
porque não falará de Si mesmo,
mas dirá
tudo o que tiver ouvido
e vos
anunciará o que está para vir.
Ele Me glorificará,
porque receberá do que é meu
e vo-lo
anunciará.
Tudo o que o Pai tem é meu.
Por isso vos disse
que Ele
receberá do que é meu
e vo-lo
anunciará».
AMBIENTE
Estamos no contexto da última
ceia e do discurso de despedida que antecede a “hora” de Jesus.
Depois de constituir a comunidade
do amor e do serviço (cf. Jo 13,1-17) e de apresentar
o mandamento fundamental que deve dar corpo à vida dessa comunidade (cf. Jo 15,9-17), Jesus vai definir a missão da comunidade no
mundo: testemunhar acerca de Jesus, com a ajuda do Espírito (cf. Jo 15,26-27).
Jesus avisa, no entanto, que o
caminho do testemunho deparará com a oposição decidida da religião estabelecida
e dos poderes de morte que dominam o mundo (cf. Jo 16,1-4a); mas os discípulos contarão com o Espírito: Ele ajudá-los-á e
dar-lhes-á segurança no meio da perseguição (cf. Jo 16,8-11). De resto, a comunidade em marcha pela história encontrar-se-á muitas
vezes diante de circunstâncias históricas novas, diante das quais terá de tomar
decisões práticas: também aí se verá a presença do Espírito, que ajudará a
responder aos novos desafios e a interpretar as circunstâncias à luz da
mensagem de Jesus (cf. Jo 16,12-15).
MENSAGEM
O tema fundamental desta leitura
tem, portanto, a ver com a ajuda do Espírito aos discípulos em caminhada pelo
mundo.
Jesus começa por dizer aos
discípulos que há muitas outras coisas que eles não podem compreender de
momento (vers. 12). Será o “Espírito da verdade” que guiará os discípulos para a verdade, que comunicará tudo o que
ouvir a Jesus e que interpretará o que está para vir (vers. 13). Isto significa que Jesus não revelou tudo o que
havia para revelar ou que a sua proposta de salvação/libertação ficou
incompleta?
De forma nenhuma. As palavras de
Jesus acerca da acção do Espírito referem-se ao tempo
da existência cristã no mundo, ao tempo que vai desde a morte de Jesus até à parusia. Como será possível aos
discípulos, no tempo da Igreja, continuar a captar, na fé, a Palavra de Jesus e
a guiar a vida por ela? A resposta de Jesus é: “pelo Espírito da verdade, que
fará com que a minha proposta continue a ecoar todos os dias na vida da
comunidade e no coração de cada crente; além disso, o Espírito ensinar-vos-á a
entender a nova ordem que se segue à cruz e à ressurreição e a discernir, a partir
das circunstâncias concretas diante das quais a vida vos vai colocar, como proceder para continuar fiel às minhas propostas”. O Espírito não
apresentará uma doutrina nova, mas fará com que a Palavra de Jesus seja sempre
a referência da comunidade em caminhada pelo mundo e que essa comunidade saiba
aplicar a cada circunstância nova que a vida apresentar, a proposta de Jesus.
Aonde irá o Espírito buscar essa
verdade que vai transmitir continuamente aos discípulos? A resposta é: ao
próprio Jesus (“receberá do que é meu e vo-lo anunciará” – vers.
14). Assim, Jesus continuará em comunhão, em sintonia com os discípulos,
comunicando-lhes a sua vida e o seu amor. Tal é a função do Espírito: realizar
a comunhão entre Jesus e os discípulos em marcha pela história.
A última expressão deste texto (vers. 15) sublinha a comunhão existente entre o Pai e o
Filho. Essa comunhão atesta a unidade entre o plano salvador do Pai, proposto
nas palavras de Jesus e tornado realidade na vida da Igreja, por acção do Espírito.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar os seguintes
desenvolvimentos:
• O Espírito aparece, aqui, como
presença divina na caminhada da comunidade cristã, como essa realidade que
potencia a fidelidade dinâmica dos crentes às propostas que o Pai, através de
Jesus, fez aos homens. A Igreja de que fazemos parte tem sabido estar atenta,
na sua caminhada histórica, às interpelações do Espírito? Ela tem procurado,
com a ajuda do Espírito, captar a Palavra eterna de Jesus e deixar-se guiar por
ela? Tem sabido, com a ajuda do Espírito, continuar em comunhão com Jesus?
Tem-se esforçado, com a ajuda do Espírito, por responder às interpelações da
história e por actualizar, face aos novos desafios
que o mundo lhe coloca, a proposta de Jesus?
• Sobretudo,
somos convidados a contemplar o mistério de um Deus que é amor e que, através
do plano de salvação/libertação do Pai, tornado realidade viva e humana em
Jesus, e continuado pelo Espírito presente na caminhada dos crentes, nos conduz
para a vida plena do amor e da felicidade total – a vida do Homem Novo, a vida
da comunhão e do amor em plenitude.
• A celebração da Solenidade da
Trindade não pode ser a tentativa de compreender e decifrar essa estranha
charada de “um em três”. Mas deve ser, sobretudo, a
contemplação de um Deus que é amor e que é, portanto, comunidade. Dizer que há
três pessoas em Deus, como há três pessoas numa família – pai, mãe e filho – é
afirmar três deuses e é negar a fé; inversamente, dizer que o Pai, o Filho e o
Espírito são três formas de apresentar o mesmo Deus, como três fotografias do
mesmo rosto, é negar a distinção das três pessoas e é, também, negar a fé. A
natureza divina de um Deus amor, de um Deus família, de um Deus comunidade, expressa-se na nossa linguagem imperfeita das três pessoas.
O Deus família torna-se trindade de pessoas distintas, porém unidas. Chegados
aqui, temos de parar, porque a nossa linguagem finita e humana não consegue
“dizer” o mistério de Deus.
• As nossas comunidades cristãs
são, realmente, a expressão desse Deus que é amor e
que é comunidade – onde a unidade significa amor verdadeiro, que respeita a
identidade e a especificidade do outro, numa experiência verdadeira de amor, de
partilha, de família, de comunidade?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O
DOMINGO DA SANTÍSSIMA TRINDADE
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA
SEMANA.
Ao longo dos dias da semana
anterior ao Domingo da Santíssima Trindade, procurar meditar a Palavra de Deus
deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo…
Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da
paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa
comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a
Palavra de Deus.
2. DAR LUGAR AO SILÊNCIO.
É sempre difícil falar da
Trindade, de explicá-la, de descrevê-la… Daí a importância de prever algum (ou
alguns) momento forte de interiorização e de adoração durante a celebração:
depois da homilia… depois da comunhão… Dar espaço ao silêncio para que a
Trindade ecoe em nós.
3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das
leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Deus eterno, Pai e criador de
todo o universo, contemplamos o céu, a terra, os oceanos e todas as suas
maravilhas, onde vemos a obra admirável da tua Sabedoria. Por todas as tuas
obras, nós Te bendizemos.
Nós Te confiamos as nossas
inquietações quanto ao futuro da tua criação e ao equilíbrio da natureza, que
as nossas técnicas violentas já muito perturbaram.
No final da segunda leitura:
Pai, nós Te damos graças pelos
dons incomparáveis com que nos gratificaste: a justiça, a paz, a fé, a
esperança e, sobretudo, o teu amor, que derramaste nos nossos corações pelo
Espírito Santo que Tu nos deste.
Nós Te pedimos pela unidade das
Igrejas, outrora quebrada por diferentes compreensões da justificação.
Ilumina-nos com o teu Espírito.
No final do Evangelho:
Deus fiel, Pai revelado pelo teu
Filho no teu Espírito, nós Te damos graças, porque nos introduzes na comunhão
da tua glória e na verdade do teu amor.
Nós Te pedimos: Deus, Espírito de
verdade, guia-nos para a verdade completa e dá-nos a força de levar as
mensagens do Evangelho.
4. BILHETE DE EVANGELHO.
O pintor crente Roublev tentou mostrar a relação de amor que existe entre o
Pai, o Filho e o Espírito, numa troca de olhares: quando o Pai e o Filho se
olham, cada um guarda a sua personalidade e revela ao
mesmo tempo a personalidade do outro, e esta relação de amor faz existir o
Espírito que olha o Pai e o Filho, eles próprios deixando-se olhar, olhando ao
mesmo tempo o Espírito de Amor que faz a sua unidade. Muitas vezes basta um olhar para dizer muitas coisas, basta um olhar para dar
de novo esperança, confiança, vida, basta um olhar para dizer “amo-te!” e ouvir
dizer em eco: “amo-te!” A Trindade é um intercâmbio de “amo-te!” Há unidade e,
ao mesmo tempo, personalidades diferentes: cada um diz “amo-te!” e pode
acrescentar “eu sou amado!” Tal é o segredo da sua existência e da sua
eternidade. Mistério! Não por ser incompreensível, mas por, sem cessar, merecer
ser melhor compreendido. E a Trindade não é o único
mistério, a humanidade também o é, porque criada à imagem de Deus, homens e
mulheres capazes de dizer “amo-te!” e capazes de dizer “eu sou amado!”
5. À ESCUTA DA PALAVRA.
Esta passagem de São João retoma
o que Jesus nos dizia domingo passado na Solenidade do
Pentecostes sobre o Espírito de verdade que nos guiará para a verdade total… É
o Espírito que nos dará a força para a compreender. Domingo passado, reflectimos sobre a verdade que o Espírito Santo desvela
progressivamente, ao longo da história da Igreja. Hoje, estamos atentos ao facto de a verdade do Evangelho nos atingir enquanto seres
em crescimento de humanidade e de fé. Ora a fé, contrariamente ao que por vezes
se imagina, não é uma luz que cega. Ela é uma espécie de luz obscura, uma
confiança dada na noite. Ela implica um salto no desconhecido. Isto verifica-se particularmente a propósito do mistério da
Santíssima Trindade. A palavra não se encontra na Bíblia, mas a realidade que
quer exprimir está muito presente no ensino de Jesus. Assim, hoje, vemos com
que insistência Jesus fala de seu Pai e do Espírito de verdade. Ele diz, o mais
explicitamente possível, que entre o Pai, o Espírito e Ele tudo é comum… Deus
que é Pai, Filho e Espírito, Deus Único mas não
solitário, Deus comunhão eterna de Amor infinito no mais profundo do seu
mistério, é a pedra angular da fé cristã, a diferença, sem dúvida, fundamental
em relação às outras concepções de Deus. O nosso acto de fé é aqui decisivo, determina se somos verdadeiramente “de Cristo”. “Senhor,
eu creio, mas aumenta a minha fé”.
6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração
Eucarística IV, que traça todo o plano de salvação, da criação à vinda de
Cristo, e situa-o sob o signo da Aliança que é comunhão com o Pai, o Filho e o
Espírito Santo.
7. PALAVRA PARA O CAMINHO.
Mergulhar no coração do mistério…
Uma festa para celebrar a relação de Amor que une o Pai, o Filho e o Espírito
Santo. Um mistério imenso que ultrapassa as nossas concepções humanas e no qual
somos convidados a entrar. Durante a próxima semana podemos dedicar um tempo à
oração, à contemplação, para nos deixarmos mergulhar no coração deste mistério
de Amor da Trindade… e um tempo para recentrar de
novo as nossas vidas de baptizados: a vida, o amor, a
paz, o serviço… passam livremente através de nós? Ou estamos desgarrados do
conjunto?
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES
DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA –
Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
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