SOLENIDADE DE Pedro e S. Paulo
Missa do Dia
29 de Junho de 2007
Introdução ao espírito da Celebração
Celebramos hoje a solenidade litúrgica dos Santos Pedro e Paulo. A sua
santidade e generosa dedicação à Igreja levou-os ao sacrifício supremo e a uma
projecção missionária unida à solicitude constante pela unidade na diversidade.
O seu exemplo deve levar-nos a repensar os dons com que o Senhor Deus nos
cumulou e a reformular a nossa vivência cristã no meio onde exercemos a nossa
actividade quotidiana.
Procuremos viver, como verdadeiros cristãos, esta solenidade, afastando de
nós toda a tentação de a vulgarizar ou paganizar com festejos que nada têm a
ver com o cristianismo.
Oração colecta: Senhor,
que nos encheis de santa alegria na solenidade dos apóstolos São Pedro e São
Paulo, concedei à vossa Igreja que se mantenha sempre fiel à doutrina daqueles
que foram o fundamento da sua fé. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Liturgia da Palavra
Primeira Leitura
Monição: Nesta leitura vamos ouvir a
narração da libertação de Pedro que se encontrava preso a mando de Herodes,
perseguidor dos cristãos. Ela faz referência a um facto histórico, mas quer
ressaltar, como essencial, que Pedro reconhece que a sua salvação não foi
devida à sua iniciativa, mas obra do Senhor.
Atos dos Apóstolos 12, 1-11
Salmo Responsorial Sl 33 (34), 2-3.4-5.6-7.8-9 (R. 5b)
Monição: Com a recitação deste salmo
vamos confirmar o reconhecimento e louvor a Deus, porque sempre escuta, atende
e liberta de todos os perigos aqueles que O procuram com sinceridade.
Segunda Leitura
Monição: Frente à certeza do martírio,
Paulo compara-se a um atleta que recebe o prémio da vitória: ele sabe que a sua
vida foi inteiramente dedicada a propagar e sustentar a fé e o seu olhar
continua firme no Senhor. Tem a certeza que Ele o levará a participar
plenamente no seu Reino.
2 Timóteo 4, 6-8.17-18
Aclamação ao Evangelho Mt 16, 18
Monição: Jesus concede a Pedro, e aos
seus sucessores, o exercício da autoridade de ensinar e de excluir ou
introduzir na comunidade eclesial todos os homens, até à consumação dos
séculos.
Evangelho
São Mateus 16,
13-19
Sugestões para a homilia
Em Pedro manifesta-se o sentido da unidade
Em Paulo, a exigência essencial do Evangelho
Em ambos, a generosa dedicação à Igreja
Em Pedro manifesta-se o sentido da unidade
«Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja...» Jesus
referia-se à fé que Pedro n’Ele professara. Esta fé constitui o fundamento
sólido da Igreja, torna-a invencível e capaz de dominar as forças adversas.
Todos aqueles que, como Pedro, professam a fé em Jesus Cristo Filho do Deus
vivo, passam a fazer parte deste edifício extremamente sólido que nunca cairá.
Nada nem ninguém poderá impedir a Igreja, que acredita firmemente em Cristo, de
realizar a sua missão de salvação.
Pedro que acaba de manifestar a sua fé em Cristo representa os apóstolos e
todos os cristãos que professam a mesma fé.
No Novo Testamento este Apóstolo aparece sempre em primeiro lugar e é
aquele que deve confirmar a fé dos outros. Isto indica que ele é o encarregado
de manter a unidade de todos os cristãos nessa mesma fé. Por isso, a Igreja tem
no bispo de Roma, sucessor de Pedro, o encarregado de conservar a fé em Cristo
professada por esse apóstolo, a fim de desempenhar tal missão no decorrer de
todos os tempos.
Deveremos, pois, abandonar tudo aquilo que não é evangélico no nosso modo
de entender o ministério do Papa e a autoridade na Igreja. Devemos adequar-nos,
sobretudo, àquilo que Jesus repetiu tantas vezes e com tanta clareza: «Aquele
que for o maior, proceda como se fosse o mais pequeno, e o que governar proceda
como o que serve os outros» (Lc 22, 26).
Em Paulo, a exigência essencial do Evangelho
É esta também a perspectiva de Paulo. Poucos meses antes de morrer, fechado
numa prisão de Roma, escreve a Timóteo, seu companheiro de missão, dando-se
conta que o seu fim está próximo, faz um balanço de toda a sua vida. Paulo está
convencido que, na proclamação do Evangelho, realizou a sua exigência essencial
como os atletas que participam nas competições desportivas no estádio:
despendeu todas as suas energias pela causa justa do anúncio da Boa Nova,
quando afirma: «Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a
fé».
Deste modo, está certo de que Deus lhe dará também a ele, no dia em que for
acolhido na morada eterna, a coroa da vitória que aguarda todos aqueles «que
esperaram com amor a sua vinda», isto é, a todos aqueles que, como ele, tenham
lutado pela justiça.
Em ambos, a generosa dedicação à Igreja
Pedro e Paulo mostraram-nos com qual dedicação à Igreja, com que espécie de
amor, com que desinteresse e com que coragem deve ser desempenhado o ministério
do anúncio do Evangelho. São, por isso, para todos nós, exemplo de fidelidade à
vocação cristã quando somos confrontados com situações nada fáceis: perante o
sofrimento, a solidão, a incompreensão, ou a marginalização a que nos possam
sujeitar.
Pensemos que, como nos refere a primeira leitura, quem está a sofrer por
causa de Cristo deve mostrar, como Pedro e Paulo, o seu amor generoso e
dedicado à Igreja, mesmo quando todos nos são opositores. Recordemos que do
nosso lado teremos sempre o «anjo do Senhor» para nos amparar e libertar, como
fez com Pedro no momento em que ele mais precisava.
Quando todas as esperanças humanas se desvanecem, tenhamos a certeza que o
Senhor intervém para nos salvar.
Fala o Santo Padre
«’Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo';
esta confissão de São Pedro deu origem ao início da Igreja.»
A festa dos santos Apóstolos Pedro e Paulo é ao
mesmo tempo uma grata memória das grandes testemunhas de Jesus Cristo e uma
solene confissão em favor da Igreja una, santa, católica e apostólica. É
antes de tudo uma festa da catolicidade. É sinal do Pentecostes a nova
comunidade que fala em todas as línguas e une todos os povos num único povo,
numa família de Deus e este sinal tornou-se realidade. A nossa assembleia
litúrgica, na qual estão reunidos Bispos provenientes de todas as partes do
mundo, pessoas de numerosas culturas e nações, é uma imagem da família da
Igreja distribuída sobre toda a terra. Estrangeiros tornaram-se amigos; não
obstante todos os confins, reconhecemo-nos irmãos. Com isto é levada a cabo a
missão de São Paulo, que sabia «ser para os gentios um ministro de Cristo
Jesus, que administra o Evangelho de Deus como um sacerdote, a fim de que a
oferenda dos gentios, santificada pelo Espírito Santo, lhe seja agradável» (Rm 15, 16). A finalidade da missão é uma humanidade que se tornou uma glorificação
viva de Deus, o culto verdadeiro que Deus espera: eis o sentido mais profundo
da catolicidade, uma catolicidade que já nos foi doada e para a
qual, contudo, nos devemos encaminhar sempre de novo. A catolicidade exprime uma dimensão horizontal, a reunião de muitas pessoas na unidade;
exprime também uma dimensão vertical: só dirigindo o olhar para Deus, só
abrindo-nos a Ele nos podemos tornar verdadeiramente uma coisa só. Como Paulo,
assim também Pedro veio a Roma, à cidade que era o lugar de convergência de
todos os povos e que por isso podia tornar-se antes de qualquer outra, a
expressão da universalidade do Evangelho. Empreendendo a viagem de Jerusalém
para Roma, certamente ele sabia que era guiado pelas vozes dos profetas, da fé
e da oração de Israel. De facto, faz parte também do anúncio da Antiga Aliança
a missão a todo o mundo: o povo de Israel estava destinado a ser luz para os
povos. O grande salmo da Paixão, o salmo 21, cujo primeiro versículo «Meu Deus,
meu Deus, por que me abandonaste?» Jesus pronunciou na cruz, este salmo
terminava com a visão: «Hão-de lembrar-se do Senhor e voltar-se para Ele todos
os confins da terra; hão-de prostrar-se diante dele todos os povos e nações» (Sl 21, 28). Quando Pedro e Paulo vieram a Roma o Senhor, que iniciara aquele Salmo
na cruz, tinha ressuscitado; esta vitória de Deus devia ser agora anunciada a
todos os povos, cumprindo assim a promessa com a qual o salmo se concluía.
Catolicidade significa universalidade; multiplicidade
que se torna unidade; unidade que permanece contudo multiplicidade. Da palavra
de Paulo sobre a universalidade da Igreja já vimos que faz parte desta unidade a capacidade que os povos têm de se superar a si mesmos, para olhar para o
único Deus. O verdadeiro fundador da teologia católica, Santo Ireneu de Lião,
no século II, expressou este vínculo entre catolicidade e unidade de maneira
muito bonita, e cito-o. Diz: «A Igreja espalhada em todo o mundo conserva esta
doutrina e esta fé com diligência, formando quase uma única família: a mesma fé
com uma só alma e um só coração, a mesma pregação, ensinamento, tradição como
se tivesse uma só boca. São diversas as línguas segundo as religiões, mas a
força da tradição é única e a mesma. As Igrejas da Alemanha não têm uma fé ou
tradição diversas, nem as da Espanha, da Gália, do Egipto, da Líbia, do
Oriente, nem as do centro da terra; como o sol criatura de Deus é um só e
idêntico em todo o mundo, assim a luz da verdadeira pregação resplandece em
toda a parte e ilumina os homens que desejam chegar ao conhecimento da verdade» (Adv. haer. I 10, 2). A unidade dos homens na sua multiplicidade
tornou-se possível porque Deus, este único Deus do céu e da terra, se mostrou a
nós; porque a verdade fundamental sobre a nossa vida, sobre o nosso «de onde?»,
se tornou visível quando Ele se mostrou a nós e em Jesus Cristo nos mostrou o
seu rosto, a si mesmo. Esta verdade sobre a essência do nosso ser, sobre o
nosso viver e o nosso morrer, verdade que de Deus se tornou visível, une-nos e
faz de nós irmãos. Catolicidade e unidade caminham juntas. E a unidade tem um conteúdo: a fé que os Apóstolos nos transmitiram da parte de Cristo. […]
O facto que ambas as dimensões se tornem visíveis
a nós nas figuras dos santos Apóstolos indica-nos já a característica sucessiva
da Igreja: ela é apostólica. O que significa? O Senhor instituiu doze
Apóstolos, assim como doze eram os filhos de Jacob, indicando-os como
arquétipos do povo de Deus que, tendo-se já tornado universal, daquele momento
em diante abrange todos os povos. São Marcos diz-nos que Jesus chamou os
Apóstolos para que «andassem com Ele e também para os enviar» (Mc 3,
14). Parece quase uma contradição. Nós diríamos: ou estão com Ele ou são
enviados e põem-se a caminho. Há uma palavra do Santo Papa Gregório Magno sobre
os anjos, que nos ajuda a desfazer tal contradição. Ele diz que os anjos são
sempre enviados e ao mesmo tempo estão sempre diante de Deus, e continua: «Onde
quer que sejam enviados, onde quer que vão, caminham sempre no seio de Deus» (Homilia 34, 13). O Apocalipse qualificou os Bispos como «anjos» da sua Igreja, e por
conseguinte, podemos fazer esta aplicação: os Apóstolos e os seus sucessores
deveriam estar sempre com o Senhor e precisamente assim onde quer que vão estar
sempre em comunhão com Ele e viver desta comunhão.
A Igreja é apostólica, porque confessa a
fé dos Apóstolos e procura vivê-la. Existe uma unicidade que caracteriza os
Doze chamados pelo Senhor, mas existe ao mesmo tempo uma continuidade na missão
apostólica. São Pedro na sua primeira carta qualificou-se como «copresbítero»
com os presbíteros aos quais escreve (5, 1). E com isto expressou o princípio
da sucessão apostólica: o mesmo ministério que ele tinha recebido do Senhor
continua agora na Igreja graças à ordenação sacerdotal. A Palavra de Deus não
está só escrita mas, graças às testemunhas que o Senhor, no sacramento, inseriu
no ministério apostólico, permanece palavra viva. […]
O Evangelho deste dia fala-nos da confissão de
São Pedro que deu origem ao início da Igreja: «Tu és Cristo, o Filho de Deus
vivo» (Mt 16, 16). Tendo falado hoje da Igreja una, católica e
apostólica, mas ainda não da Igreja santa, desejamos recordar neste
momento outra confissão de Pedro pronunciada em nome dos Doze no momento do
grande abandono: «Por isso nós cremos e sabemos que Tu és o Santo de Deus» (Jo 6, 69). O que isto significa? Jesus, na grande oração sacerdotal, diz que se
santifica pelos discípulos, fazendo alusão ao sacrifício da sua morte (Jo 17, 19). Com isto Jesus exprime implicitamente a sua função de verdadeiro Sumo
Sacerdote que realiza o mistério do «Dia da Reconciliação», não apenas nos
ritos substitutivos, mas na concretização do seu próprio Corpo e Sangue. A
palavra «o Santo de Deus» no Antigo Testamento indicava Aarão como Sumo
Sacerdote que tinha a tarefa de realizar a santificação de Israel (Sl 105, 16; cf. Sr 45, 6). A confissão de Pedro em favor de Cristo, que ele
declara o Santo de Deus, está no contexto do discurso eucarístico, no qual
Jesus anuncia o grande Dia da Reconciliação mediante a oferenda de si mesmo em
sacrifício: «O pão que Eu hei-de dar é a minha carne, pela vida do mundo» (Jo 6, 51). Assim, no quadro desta confissão, encontra-se o mistério sacerdotal de
Jesus, o seu sacrifício por todos nós. A Igreja não é santa por si só;
consiste de facto de pecadores todos nós o sabemos e vemos. Mas ela é sempre de
novo santificada pelo Santo de Deus, pelo amor purificador de Cristo. Deus não
falou apenas: amou-nos de modo muito realista, amou-nos até à morte do próprio
Filho. É precisamente disto que se nos mostra toda a grandeza da revelação que
quase inscreveu no coração do próprio Deus as feridas. Então, cada um de nós
pode dizer pessoalmente com São Paulo: «Vivo na fé do Filho de Deus que me amou
e a si mesmo se entregou por mim» (Gl 2, 20). Peçamos ao Senhor para que
a verdade desta palavra se imprima profundamente, com a sua alegria e
responsabilidade, no nosso coração; rezemos para que irradiando-se da
Celebração eucarística, ela se torne cada vez mais a força que plasma a nossa vida.
Bento
XVI, Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, 29 de Junho de 2005
Monição da Comunhão
Reconciliados com Cristo e com todos os irmãos, recebamos o Senhor em
comunhão, a fim de que através dela obtenhamos a força de unidade manifestada
por S. Pedro e a combatividade expressa por S. Paulo, na vivência do nosso
dia-a-dia.
Ritos Finais
Monição final
Respondamos afirmativamente ao chamamento que nos foi manifestado pelo Senhor
nesta celebração da solenidade de S. Pedro e S. Paulo. Com o nosso testemunho
revigoremos este mundo em que vivemos, a fim de que haja mais justiça, paz e
unidade entre todos os povos e nações.