14º
DOMINGO DO TEMPO COMUM C
8
de Julho de 2007
Tema do 14º Domingo do
Tempo Comum
Embora as leituras de hoje
nos projectem em sentidos diversos, domina a temática do “envio”: na figura dos
72 discípulos do Evangelho, na figura do profeta anónimo que fala aos
habitantes de Jerusalém do Deus que os ama, ou na figura do apóstolo Paulo que
anuncia a glória da cruz, somos convidados a tomar consciência de que Deus nos
envia a testemunhar o seu Reino.
É, sobretudo, no Evangelho
que a temática do “envio” aparece mais desenvolvida. Os discípulos de Jesus são
enviados ao mundo para continuar a obra libertadora que Jesus começou e para
propor a Boa Nova do Reino aos homens de toda a terra, sem excepção; devem
fazê-lo com urgência, com simplicidade e com amor. Na acção dos discípulos,
torna-se realidade a vitória do Reino sobre tudo o que oprime e escraviza o
homem.
Na primeira leitura,
apresenta-se a palavra de um profeta anónimo, enviado a proclamar o amor de pai
e de mãe que Deus tem pelo seu Povo. O profeta é sempre um enviado que, em nome
de Deus, consola os homens, liberta-os do medo e acena-lhes com a esperança do
mundo novo que está para chegar.
Na segunda leitura, o
apóstolo Paulo deixa claro qual o caminho que o apóstolo deve percorrer: não o
podem mover interesses de orgulho e de glória, mas apenas o testemunho da cruz
– isto é, o testemunho desse Jesus, que amou radicalmente e fez da sua vida um
dom a todos. Mesmo no sofrimento, o apóstolo tem de testemunhar, com a própria
vida, o amor radical; é daí que nasce a vida nova do Homem Novo.
LEITURA I – Is 66,10-14c
Leitura do Livro de Isaías
Alegrai-vos com Jerusalém,
exultai com ela, todos vós
que a amais.
Com ela enchei-vos de
júbilo,
todos vós que
participastes no seu luto.
Assim podereis beber e
saciar-vos
com o leite das suas
consolações,
podereis deliciar-vos no
seio da sua magnificência.
Porque assim fala o
Senhor:
«Farei correr para
Jerusalém a paz como um rio
e a riqueza das nações
como torrente transbordante.
Os seus meninos de peito
serão levados ao colo
e acariciados sobre os
joelhos.
Como a mãe que anima o seu
filho,
também Eu vos confortarei:
em Jerusalém sereis
consolados.
Quando o virdes,
alegrar-se-á o vosso coração
e, como a verdura,
retomarão vigor os vossos membros.
A mão do Senhor
manifestar-se-á aos seus servos.
AMBIENTE
Os capítulos 56-66 do
Livro de Isaías (designados genericamente como “Trito-Isaías”) são atribuídos
pela maior parte dos estudiosos a diversos autores, vinculados espiritualmente
ao Deutero-Isaías (o autor dos capítulos 40-55 do Livro de Isaías). Sobre esses
autores não sabemos rigorosamente nada, a não ser que apresentaram a sua
mensagem nos últimos anos do séc. VI e primeiros anos do séc. V a.C.
Estamos em Jerusalém,
vários anos após o regresso do Exílio da Babilónia. A reconstrução faz-se muito
lentamente e em condições penosas; a maioria da população de Jerusalém está
mergulhada na miséria; os inimigos atacam continuamente e põem em causa o
esforço da reconstrução; a esperança está em crise… O Povo pergunta: “quando é
que Deus vai realizar as promessas que fez, ainda na Babilónia, através do
Deutero-Isaías?”
Os profetas da época
procuram, então, apresentar uma mensagem de salvação e alimentar a esperança, a
fim de que o Povo recobre forças e a confie em Deus. É nesse contexto que
podemos situar este hino que a primeira leitura de hoje nos propõe: o profeta
apresenta um quadro de restauração da cidade (cf. Is 66,7-14) e convoca os seus
habitantes para a alegria.
MENSAGEM
Neste quadro de
restauração, o objectivo fundamental do profeta é “consolar” esse Povo
martirizado, sofrido, angustiado, que não vê grandes perspectivas de futuro e
já perdeu a esperança. Como é que o profeta vai “dizer” a mensagem que Deus lhe
confiou?
Todo o quadro gira à volta
da apresentação de Jerusalém como mãe. Depois de dar à luz o seu filho (o
povo), sem esforço e antes do tempo (cf. Is 66,7), a mãe/Jerusalém alimenta-o
com um leite abundante e reconfortante (cf. Is 66,11). As expressões utilizadas
(a referência ao “sugar o leite até à saciedade”, ao “seio glorioso”) evocam,
de forma bem sugestiva, a imagem da fecundidade, da riqueza, da vida em
abundância. Tudo é fácil, rápido, abundante, pleno… No entanto, o profeta está
consciente de que é Deus que está por detrás desta corrente de vida e de
fecundidade que a mãe/cidade dispensa ao filho/povo.
Na “tradução” da imagem, o
profeta põe Deus a fazer chegar à cidade/mãe (para que depois ela distribua
pelo filho/povo) a paz e a riqueza das nações. A paz (“shalom”) exprime aqui
bem mais do que a ausência de guerra: inclui saúde, fecundidade, prosperidade,
amizade com Deus e com os outros; é, portanto, sinónimo de felicidade total. É
isso que Deus quer para o seu Povo e que Se propõe oferecer-lhe em abundância.
Particularmente sugestiva
é a forma como se fala de Deus. Ele é o pai que dá ao filho/povo a vida
abundante e plena, que o acaricia e consola como uma mãe. O profeta propõe ao
seu Povo um Deus que ama e que, em cada dia, vem ao encontro dos homens para
lhes trazer a salvação. Daí o insistente convite à alegria.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar as seguintes
questões, para a reflexão:
• Esta proposta de
“consolação” vem de Deus e atinge o coração do Povo através da acção e do
testemunho profético. É através do profeta que Deus actua no mundo, que consola
os corações feridos, que revitaliza a esperança, que salva da morte, que
liberta do medo… Todos os crentes são profetas e todos comungam desta missão.
Eu assumo e procuro concretizar, dia a dia, esta proposta profética e procuro
testemunhar a esperança?
• Deus é o pai que dá vida
em abundância e a mãe que acaricia e consola. É esta a perspectiva que temos
d’Ele? Sabemos “ler” a nossa vida à luz da bondade de Deus, ver nos
acontecimentos sinais do seu amor? Sabemos manifestar-Lhe a nossa gratidão? É
este Deus de amor que procuramos testemunhar, com palavras e com gestos?
• O insistente convite à
alegria feito pelo profeta atinge-nos também a nós… O medo e a angústia não
podem ser os nossos companheiros de viagem, pois acreditamos no amor e na
bondade desse Deus que nos acompanha, que nos acaricia, que nos consola e que
faz nascer para nós, dia a dia, esse mundo novo de vida plena e abundante.
• Aqueles que a vida feriu
e que perderam a esperança encontram nas nossas comunidades (cristãs ou
religiosas) um testemunho que os consola e que os anima? Que temos para
transmitir aos doentes incuráveis, aos que perderam a família e as referências
e vivem na rua, aos imigrantes explorados, aos marginalizados, aos fracassados?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo
65 (66)
Refrão: A terra inteira
aclame o Senhor.
Aclamai a Deus, terra
inteira,
cantai a glória do seu
nome,
celebrai os seus louvores,
dizei a Deus:
«Maravilhosas são as
vossas obras».
A terra inteira Vos adore
e celebre,
entoe hinos ao vosso nome.
Vinde contemplar as obras
de Deus,
admirável na sua acção
pelos homens.
Mudou o mar em terra
firme,
atravessaram o rio a pé
enxuto.
Alegremo-nos n’Ele:
domina eternamente com o
seu poder.
Todos os que temeis a
Deus, vinde e ouvi,
vou narrar-vos quanto Ele
fez por mim.
Bendito seja Deus que não
rejeitou a minha prece,
nem me retirou a sua
misericórdia.
LEITURA II – Gal 6,14-18
Leitura da Epístola do
apóstolo São Paulo aos Gálatas
Irmãos:
Longe de mim gloriar-me,
a não ser na cruz de Nosso
Senhor Jesus Cristo,
pela qual o mundo está
crucificado para mim
e eu para o mundo.
Pois nem a circuncisão nem
a incircuncisão valem alguma coisa:
o que tem valor é a nova
criatura.
Paz e misericórdia para
quantos seguirem esta norma,
bem como para o Israel de
Deus.
Doravante ninguém me
importune,
porque eu trago no meu
corpo os estigmas de Jesus.
Irmãos, a graça de Nosso
Senhor Jesus Cristo
esteja com o vosso
espírito. Amen.
AMBIENTE
Terminamos hoje a leitura
da Carta aos Gálatas. Nos domingos anteriores, já dissemos qual é a questão
fundamental abordada nesta carta: face às exigências dos “judaízantes” (segundo
os quais os cristãos, além de acreditar em Cristo, devem cumprir escrupulosamente
a Lei de Moisés e, de forma especial, aderir à circuncisão), Paulo considera
que só Cristo interessa e que tudo o resto são leis e ritos desnecessários ou,
ainda pior, geradores de escravidão.
Este texto pertence à
conclusão da carta (cf. Gal 6,11-18). É uma espécie de remate, no qual Paulo
resume toda a sua argumentação anterior a propósito de Cristo, da Lei e da
salvação.
MENSAGEM
Paulo começa por denunciar
quais os interesses que movem os “judaízantes” que pregam a circuncisão: eles
têm por finalidade evitar a perseguição (fazendo do cristianismo apenas um ramo
do judaísmo e, por isso, uma “religião lícita” aos olhos do império); além
disso, são pessoas desejosas de se evidenciar, para quem a circuncisão que
impõem aos outros serve para mostrar o sucesso do seu proselitismo (o
“prosélito” era um pagão convertido à observância da fé judaica)…
Isso não tem qualquer
importância para Paulo. O único título de glória que interessa ao apóstolo é a
cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Falar da “cruz de Jesus Cristo” é falar do
dom total da vida, da entrega de Si mesmo por amor. Esse (e não a circuncisão
ou a prática dos rituais da Lei de Moisés) é que é o grande objectivo de Paulo
e da sua pregação, pois é a morte para o egoísmo e o nascimento para o amor (cumpridos
e representados na cruz) que fazem surgir o “Homem Novo”, o “Israel de Deus”, o
novo Povo de Deus.
Precisamente aqui (vers.
15), Paulo inaugura um dos seus temas favoritos, ao qual voltará nas cartas
posteriores: o tema do Homem Novo em Cristo Jesus. Na perspectiva paulina, a
identificação do cristão com o Cristo da cruz – isto é, com o Cristo do amor
total – fará surgir um Homem Novo, liberto do egoísmo e da preocupação consigo
próprio, capaz de amar sem medida. Esse Homem Novo, imagem de Jesus Cristo,
será capaz de superar o pecado e a morte e de chegar à vida plena, à felicidade
total.
De resto, o próprio Paulo
luta pessoalmente para chegar a esse objectivo. Aliás, ele já leva “no seu
corpo as marcas de Jesus” (vers. 17). Esta indicação não parece referir-se à
presença no corpo de Paulo dos sinais físicos da paixão de Jesus (“estigmas”),
mas às cicatrizes reais deixadas pelas feridas recebidas por Paulo no exercício
do seu apostolado. Na sociedade greco-romana, cada escravo levava uma marca, como
sinal da sua pertença a um determinado dono; assim, as marcas do seu sofrimento
por causa do Evangelho mostram que Paulo pertence a Cristo, que é propriedade
d’Ele: por elas, Paulo demonstra a sua vontade de amar, de dar a vida e a sua
pertença inalienável a esse Cristo cujo amor se fez entrega na cruz.
Esta carta é a única em
que a palavra “irmãos” aparece na saudação final (vers. 18): é um grito, ao
mesmo tempo de angústia e de confiança, que apela à comunhão e que manifesta a
esperança no restabelecimento da fraternidade.
ACTUALIZAÇÃO
Para a reflexão,
considerar as seguintes questões:
• Como Paulo, cada crente
é um enviado a testemunhar o Cristo da cruz – quer dizer, a anunciar a todos os
homens que só no amor radical, no amor até às últimas consequências se gera
vida e nasce o Homem Novo. Este caminho é, no entanto, um caminho de exigência,
pois conduz ao confronto com o pecado, com o egoísmo, com a injustiça, com a
opressão. Eu estou, como Paulo, disposto a percorrer este caminho, com coragem
profética?
• Existe, por vezes,
alguma perplexidade acerca da identidade fundamental do cristão. Qual é,
verdadeiramente, a essência da nossa experiência cristã? O discípulo de Cristo
é alguém que se distingue pelo uniforme que veste, pela cruz que traz ao pescoço,
pelo papel que alguém assinou por ele no dia do baptismo, pelos ritos que
cumpre, pela observância de certas leis, ou é alguém que se distingue pela sua
identificação com Cristo – com o Cristo do amor, da entrega, do dom da vida?
• Quais são, verdadeiramente
os nossos títulos de glória: a conta bancária, os diplomas universitários, o
estatuto social, o êxito profissional, a visibilidade nas festas do “jet-set”,
os “fans” incondicionais que circulam à nossa volta? Ou são os gestos de amor,
de partilha, de doação, de entrega e as feridas recebidas a lutar pela justiça,
pela verdade e pela paz?
ALELUIA – Col 3,15a.16a
Aleluia. Aleluia.
Reine em vossos corações a
paz de Cristo,
habite em vós a sua
palavra.
EVANGELHO – Lc
10,1-12.17-20
Evangelho de Nosso Senhor
Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
designou o Senhor setenta
e dois discípulos
e enviou-os dois a dois à
sua frente,
a todas as cidades e
lugares aonde Ele havia de ir.
E dizia-lhes:
«A seara é grande, mas os
trabalhadores são poucos.
Pedi ao dono da seara
que mande trabalhadores
para a sua seara.
Ide: Eu vos envio como
cordeiros para o meio de lobos.
Não leveis bolsa nem
alforge nem sandálias,
nem vos demoreis a saudar
alguém pelo caminho.
Quando entrardes nalguma
casa,
dizei primeiro: ‘Paz a
esta casa’.
E se lá houver gente de
paz,
a vossa paz repousará
sobre eles:
senão, ficará convosco.
Ficai nessa casa, comei e
bebei do que tiverem,
que o trabalhador merece o
seu salário.
Não andeis de casa em
casa.
Quando entrardes nalguma
cidade e vos receberem,
comei do que vos servirem,
curai os enfermos que nela
houver
e dizei-lhes: ‘Está perto
de vós o reino de Deus’.
Mas quando entrardes
nalguma cidade e não vos receberem,
saí à praça pública e
dizei:
‘Até o pó da vossa cidade
que se pegou aos nossos pés
sacudimos para vós.
No entanto, ficai sabendo:
Está perto o reino de
Deus’.
Eu vos digo:
Haverá mais tolerância,
naquele dia, para Sodoma
do que para essa cidade».
Os setenta e dois
discípulos voltaram cheios de alegria, dizendo:
«Senhor, até os demónios
nos obedeciam em teu nome».
Jesus respondeu-lhes:
«Eu via Satanás cair do
céu como um relâmpago.
Dei-vos o poder de pisar
serpentes e escorpiões
e dominar toda a força do
inimigo;
nada poderá causar-vos
dano.
Contudo, não vos alegreis
porque os espíritos vos obedecem;
alegrai-vos antes
porque os vossos nomes
estão escritos nos Céus».
AMBIENTE
O Evangelho situa-nos,
outra vez, no contexto da caminhada de Jesus para Jerusalém. Apresenta-nos mais
uma etapa desse “caminho espiritual”, durante o qual Jesus vai oferecendo aos
discípulos a plenitude da revelação do Pai e preparando-os para continuar, após
a sua partida, a missão de levar o Evangelho a todos os homens.
A história do envio dos 72
discípulos é uma tradição exclusiva de Lucas. Seria uma história estranha e
inesperada, se a víssemos como um relato fotográfico de acontecimentos
concretos: de onde vêm estes 72, que não são nomeados nem por Mateus nem por
Marcos e que aqui aparecem surgidos do nada? Trata-se, fundamentalmente, de uma
catequese através da qual Lucas propõe, aos discípulos de todas as épocas, uma
reflexão sobre a missão da Igreja, em caminhada pelo mundo.
MENSAGEM
Trata-se, portanto, de uma
catequese. Nela, Lucas ensina que o cristão tem de continuar no mundo a missão
de Jesus, tornando-se testemunha, para todos os homens, dessa proposta de
salvação/libertação que Cristo veio trazer.
O texto começa por nos
apresentar o número dos discípulos enviados: 72 (vers. 1). Trata-se,
evidentemente, de um número simbólico, que deve ser posto em relação com Gn 10
(na versão grega do Antigo Testamento), onde esse número se refere à totalidade
das nações pagãs que habitam a terra. Significa, portanto, que a proposta de
Jesus é uma proposta universal, destinada a todos os povos, de todas as raças.
Depois, Lucas assinala que
os discípulos foram enviados dois a dois. Trata-se de assegurar que o seu
testemunho tem valor jurídico (cf. Dt 17,6; 19,15); e trata-se de sugerir que o
anúncio do Evangelho é uma tarefa comunitária, que não é feita por iniciativa
pessoal e própria, mas em comunhão com os irmãos.
Lucas indica, ainda, que
os discípulos são enviados às aldeias e localidades onde Jesus “devia de ir”.
Dessa forma, indica que a tarefa dos discípulos não é pregar a sua própria
mensagem, mas preparar o caminho de Jesus e dar testemunho d’Ele.
Depois desta apresentação
inicial, Lucas passa a descrever a forma como a missão se deve concretizar.
Há, em primeiro lugar, um
aviso acerca da dificuldade da missão: os discípulos são enviados “como
cordeiros para o meio de lobos” (vers. 3). Trata-se de uma imagem que, no
Antigo Testamento, descreve a situação do justo, perdido no meio dos pagãos
(cf. Ben Sira 13,17; nalgumas versões, esta imagem aparece em 13,21). Aqui,
expressa a situação do discípulo fiel, frente à hostilidade do mundo.
Há, em segundo lugar, uma
exigência de pobreza e simplicidade para os discípulos em missão: os discípulos
não devem levar consigo nem bolsa, nem alforge, nem sandálias; não devem
deter-se a saudar ninguém pelo caminho (vers. 4); também não devem saltar de
casa em casa (vers. 7). As indicações de não levar nada para o caminho sugerem
que a força do Evangelho não reside nos meios materiais, mas na força
libertadora da Palavra; a indicação de não saudar ninguém pelo caminho indica a
urgência da missão (que não permite deter-se nas intermináveis saudações
típicas da cortesia oriental, sob pena de o essencial – o anúncio do Reino –
ser continuamente adiado); a indicação de que não devem saltar de casa em casa
sugere que a preocupação fundamental dos discípulos deve ser a dedicação total
à missão e não o encontrar uma hospitalidade mais confortável.
Qual deve ser o anúncio
fundamental que os discípulos apresentam? Eles devem começar por anunciar “a
paz” (vers 5-6). Não se trata aqui, apenas, da saudação normal entre os judeus,
mas do anúncio dessa paz messiânica que preside ao Reino. É o anúncio desse
mundo novo de fraternidade, de harmonia com Deus e com os outros, de bem-estar,
de felicidade (tudo aquilo que é sugerido pela palavra hebraica “shalom”). Esse
anúncio deve ser complementado por gestos concretos de libertação, que mostrem a
presença do Reino no meio dos homens (vers. 9).
As palavras de ameaça a
propósito das cidades que se recusam a acolher a mensagem (vers. 10-11) não
devem ser tomadas à letra: são uma forma bem oriental de sugerir que a rejeição
do Reino trará consequências nefastas à vida daqueles que escolhem continuar a
viver em caminhos de egoísmo, de orgulho e de auto-suficiência.
Nos vers. 17-20, Lucas
refere o resultado da acção missionária dos discípulos. As palavras com que
Jesus acolhe os discípulos descrevem, figuradamente, a presença do Reino
enquanto realidade libertadora (as serpentes e escorpiões são, frequentemente,
símbolos das forças do mal que escravizam o homem; a “queda de Satanás”
significa que o reino do mal começa a desfazer-se, em confronto com o Reino de
Deus).
Apesar do êxito da missão,
Jesus põe os discípulos de sobreaviso para o orgulho pela obra feita: eles não
devem ficar contentes pelo poder que lhes foi confiado, mas sim porque os seus
nomes estão “inscritos no céu” (a imagem de um livro onde estão inscritos os
nomes dos eleitos &eacu