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15º DOMINGO DO TEMPO COMUM C

15 de Julho de 2007  

 

Tema do 15º Domingo do Tempo Comum

 

A liturgia deste domingo procura definir o caminho para encontrar a vida eterna. É no amor a Deus e aos outros – dizem os textos que nos são propostos – que encontramos a vida em plenitude.

O Evangelho sugere que essa vida plena não está no cumprimento de determinados ritos, mas no amor (a Deus e aos irmãos). Como exemplo, apresenta-se a figura de um samaritano – um herege, um infiel, segundo os padrões judaicos, mas que é capaz de deixar tudo para estender a mão a um irmão caído na berma da estrada. “Vai e faz o mesmo” – diz Jesus a cada um dos que o querem seguir no caminho da vida plena.

A primeira leitura reflecte, sobretudo, sobre a questão do amor a Deus. Convida os crentes a fazer de Deus o centro da sua vida e a amá-lo de todo o coração. Como? Escutando a sua voz no íntimo do coração e percorrendo o caminho dos seus mandamentos.

Na segunda leitura, Paulo apresenta-nos um hino que propõe Cristo como a referência fundamental, como o centro à volta do qual se constrói a história e a vida de cada crente. O texto foge, um tanto, à temática geral das outras duas leituras; no entanto, a catequese sobre a centralidade de Cristo leva-nos a pensar na importância do que Ele nos diz no Evangelho de hoje. Se Cristo é o centro a partir do qual tudo se constrói, convém escutá-l’O atentamente e fazer do amor a Deus e aos outros uma exigência fundamental da nossa caminhada.

 

 

LEITURA I – Deut 30,10-14

 

Leitura do Livro do Deuteronómio

 

Moisés falou ao povo, dizendo:

«Escutarás a voz do Senhor teu Deus,

cumprindo os seus preceitos e mandamentos

que estão escritos no Livro da Lei,

e converter-te-ás ao Senhor teu Deus

com todo o teu coração e com toda a tua alma.

Este mandamento que hoje te imponho

não está acima das tuas forças nem fora do teu alcance.

Não está no céu, para que precises de dizer:

‘Quem irá por nós subir ao céu,

para no-lo buscar e fazer ouvir,

a fim de o pormos em prática?’.

Não está para além dos mares,

para que precises de dizer:

‘Quem irá por nós transpor os mares,

para no-lo buscar e fazer ouvir,

a fim de o pormos em prática?’.

Esta palavra está perto de ti,

está na tua boca e no teu coração,

para que a possas pôr em prática».

 

AMBIENTE

 

O Livro do Deuteronómio é fruto da reflexão e da catequese dos teólogos do Reino do Norte (Israel), preocupados em lembrar ao Povo os compromissos assumidos no âmbito da “aliança”; mas apresenta-se, literariamente, como um conjunto de discursos de Moisés, uma espécie de testamento espiritual que Moisés teria pronunciado antes da sua morte, na planície de Moab, na altura em que os hebreus se preparavam para renovar a “aliança”, antes de entrar na “Terra Prometida”.

O texto que hoje nos é proposto é a parte final do terceiro discurso de Moisés (cf. Dt 29-30). Na realidade, trata-se de uma homilia dos teólogos deuteronomistas, redigida na fase final do exílio da Babilónia, alertando a comunidade do Povo de Deus para as consequências da fidelidade ou da infidelidade face aos compromissos assumidos para com Jahwéh.

 

MENSAGEM

 

Fundamentalmente, estamos diante de um convite a aderir com todo o coração e com todo o ser às propostas e aos mandamentos de Deus (vers. 10).

No entanto, perguntavam os exilados, como encontrar o caminho e descobrir o que Deus propõe? Como é que se descobre o que Deus quer de nós, de forma a que não voltemos, nunca mais, a cair na escravidão?

Os teólogos deuteronomistas estão convencidos de que não é necessário procurar muito longe: nem no céu (vers. 12), nem no mar (vers. 13), nem em qualquer outro lugar inacessível ao homem comum. O caminho que Deus propõe não é um caminho escondido, misterioso, revelado só aos iniciados ou iluminados; mas é um caminho que está claramente inscrito no coração e na consciência de cada homem (vers. 14).

A mensagem aqui apresentada pelos catequistas deuteronomistas diz-nos, portanto, o seguinte: para perceber o projecto de salvação, de liberdade e de felicidade que Deus tem para os homens, basta olhar para o nosso coração e para a nossa consciência; é aí que Deus nos fala e é aí que nós escutamos as suas propostas e as suas indicações. Resta-nos estar disponíveis para escutar e para perceber – no meio das contra-indicações que as nossas paixões nos apresentam – as sugestões, os apelos, os desafios de Deus.

 

ACTUALIZAÇÃO

 

Para a reflexão e a partilha, considerar as seguintes indicações:

 

• O convite a aderir com todo o coração e com todo o ser às propostas de Deus leva-nos a questionar a qualidade da nossa adesão. Não pode ser uma adesão a meio-gás ou a tempo parcial – de acordo com os nossos interesses; mas tem de ser uma adesão total, completa, plenamente empenhada, a “fundo perdido”. É desta forma radical e total que aderimos aos projectos de Deus, ou a nossa adesão é “morna”, incompleta, limitada, reticente?

 

• Encontramos espaço e disponibilidade para interrogar o nosso coração e para escutar o Deus que fala, que Se revela, que nos desafia e questiona?

 

• Pode acontecer que os nossos interesses egoístas, as nossas ambições, as nossas paixões, os nossos esquemas e projectos pessoais abafem a voz de Deus e nos impeçam de escutar as suas propostas. Quais são, para mim, essas outras “vozes” que calam a voz de Deus? Que lugar ocupam elas na minha vida? Em que medida elas contribuem para definir o sentido essencial da minha existência?

 

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 68 (69)

 

Refrão: Procurai, pobres, o Senhor e encontrareis a vida.

 

A Vós, Senhor, elevo a minha súplica,

pela vossa imensa bondade respondei-me.

Ouvi-me, Senhor, pela bondade da vossa graça,

voltai-Vos para mim pela vossa grande misericórdia.

 

Eu sou pobre e miserável:

defendei-me com a vossa protecção.

Louvarei com cânticos o nome de Deus

e em acção de graças O glorificarei.

 

Vós, humildes, olhai e alegrai-vos,

buscai o Senhor e o vosso coração se reanimará.

O Senhor ouve os pobres

e não despreza os cativos.

 

Deus protegerá Sião,

reconstruirá as cidades de Judá.

Os seus servos a receberão em herança

e nela hão-de morar os que amam o seu nome.

 

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 18B,8-11

(em alternativa ao anterior)

 

Refrão: Os preceitos do Senhor alegram o coração.

 

A lei do Senhor é perfeita,

ela reconforta a alma.

As ordens do Senhor são firmes

e dão sabedoria aos simples.

 

Os preceitos do Senhor são rectos

e alegram o coração.

Os mandamentos do Senhor são claros

e iluminam os olhos.

 

O temor do Senhor é puro

e permanece eternamente.

Os juízos do Senhor são verdadeiros,

todos eles são rectos.

 

São mais preciosos que o ouro,

o ouro mais fino;

são mais doces que o mel,

o puro mel dos favos.

 

 

LEITURA II – Col 1,15-20

 

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Colossenses

 

Cristo Jesus é a imagem de Deus invisível,

o Primogénito de toda a criatura;

porque n’Ele foram criadas todas as coisas

no céu e na terra, visíveis e invisíveis,

Tronos e Dominações, Principados e Potestades:

por Ele e para Ele tudo foi criado.

Ele é anterior a todas as coisas

e n’Ele tudo subsiste.

Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu corpo.

Ele é o Princípio, o Primogénito de entre os mortos;

em tudo Ele tem o primeiro lugar.

Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude

e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas,

estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz,

com todas as criaturas na terra e nos céus.

 

AMBIENTE

 

Colossos era uma cidade da Frígia (Ásia Menor), situada a cerca de 200 quilómetros a Este de Éfeso. A comunidade cristã dessa cidade não foi fundada por Paulo mas por Epafras, discípulo de Paulo e colossense de origem (cf. Col 4,12).

Paulo escreveu aos Colossenses da prisão (provavelmente, de Roma). Estaríamos entre os anos 61 e 63. Epafras visitou Paulo e levou ao apóstolo notícias alarmantes… Alguns “doutores” locais (talvez membros de um movimento de índole sincretista, que misturava cristianismo com cultos mistéricos em voga no mundo helenista e com elementos religiosos de várias origens) ensinavam aos Colossenses que a fé em Cristo devia ser completada por rígidas práticas ascéticas, por ritos legalistas judaicos, por prescrições sobre os alimentos (cf. Col 2,16.21), pela observância de determinadas festas (cf. Col 2,16) e por especulações acerca dos anjos (cf. Col 2,18). Na opinião desses “doutores”, tudo isto devia comunicar aos crentes um conhecimento superior dos mistérios e uma maior perfeição.

Paulo desmonta toda esta confusão doutrinal e afirma que nenhum destes elementos tem qualquer importância para a salvação: Cristo basta.

O texto que hoje nos é proposto é um hino de duas estrofes, que provavelmente Paulo tomou da liturgia cristã primitiva, mas que está perfeitamente integrado no conteúdo geral da carta. Este hino cristão de inspiração sapiencial celebra a supremacia absoluta de Cristo na criação e na redenção.

 

MENSAGEM

 

A primeira estrofe deste hino (vers. 15-17) afirma e celebra a soberania e o poder de Cristo sobre toda a criação.

A primeira afirmação é a de que Cristo é a “imagem de Deus invisível”. Dizer que é “imagem” significa aqui que Ele é em tudo igual ao Pai, no ser e no agir, pois n’Ele reside a plenitude da divindade. Significa que Deus, espiritual e transcendente, Se revela aos homens e Se faz visível através da humanidade de Cristo.

A segunda afirmação é que Ele é o “primogénito de toda a criatura”. No contexto familiar judaico, o “primogénito” era o herdeiro principal, que tinha a primazia em dignidade e em autoridade sobre os seus irmãos. Aplicado a Cristo, significa a supremacia e a autoridade de Cristo sobre toda a criação.

A terceira afirmação é a de que “n’Ele, por Ele e para Ele foram criadas todas as coisas”. Tal significa que todas as coisas têm n’Ele o seu centro supremo de unidade, de coesão, de harmonia (“n’Ele”); que é Ele que comunica a vida do Pai (“por Ele”); e que Cristo é o termo e a finalidade de toda a criação (“para Ele”). Ao mencionar expressamente que os “tronos, dominações, principados e potestades” estão incluídos na soberania de Cristo, Paulo desmonta as especulações dos “doutores” Colossenses acerca dos poderes angélicos, considerados em paralelo com o poder de Cristo.

 

A segunda estrofe (vers. 18-20) afirma e celebra a soberania e o poder de Cristo na redenção.

A primeira afirmação é a de que Ele é a “cabeça do corpo que é a Igreja”. A expressão significa, em primeiro lugar, que Cristo tem a primazia e a soberania sobre a comunidade cristã; mas significa, também, que é Ele quem comunica a vida aos membros do corpo e que os une num conjunto vital e harmónico.

A segunda afirmação é a de que Ele é o “princípio, o primogénito de entre os mortos”. Significa que Ele, não só foi o primeiro que ressuscitou, mas também que Ele é a fonte de vida que vai provocar a nossa própria ressurreição.

A terceira afirmação é de que n’Ele reside “toda a plenitude”. Significa que n’Ele e só n’Ele habita, efectiva e essencialmente, a divindade: tudo o que Deus nos quer comunicar, a fim de nos inserir na sua família, está em Cristo. Por isso, o autor deste hino pode dizer que por Cristo foram reconciliadas com Deus todas as criaturas na terra e nos céus: por Cristo a criação inteira, marcada pelo pecado, recebeu a oferta da salvação e pôde voltar a inserir-se na família de Deus.

 

ACTUALIZAÇÃO

 

Na reflexão, ter em conta os seguintes elementos:

 

• Um dado fundamental da vida cristã é a consciência desta centralidade de Cristo na nossa experiência e na nossa existência. No entanto, a religião de tantos dos nossos cristãos centraliza-se, tantas vezes, em coisas secundárias… Cristo é, efectivamente, a referência fundamental à volta da qual a nossa vida se articula e se constrói? Ele tem a primazia na nossa vida? É Ele que está no centro dos interesses e da vida das nossas comunidades cristãs ou religiosas? Há outros deuses, ou poderes, ou “santos” em quem centramos os nossos interesses e que nos desviam de Cristo?

 

• Para muitos dos nossos contemporâneos, Jesus não é uma referência fundamental. Quando muito, foi um homem bom, que deu a vida por um sonho, um visionário, um idealista, que a história se encarregou de digerir e que hoje é, apenas, uma peça de museu; por isso, não tem qualquer espaço nas suas vidas. Como podemos testemunhar a nossa convicção de que Ele é o centro da história e de que Ele está no princípio e no fim da história da salvação?

 

 

ALELUIA – cf. Jo 6,63c.68c

 

Aleluia. Aleluia.

 

As vossas palavras, Senhor, são espírito e vida:

Vós tendes palavras de vida eterna.

 

 

EVANGELHO – Lc 10,25-37

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

 

Naquele tempo,

levantou-se um doutor da lei

e perguntou a Jesus para O experimentar:

«Mestre,

que hei-de fazer para receber como herança a vida eterna?»

Jesus disse-lhe:

«Que está escrito na lei? Como lês tu?»

Ele respondeu:

«Amarás o Senhor teu Deus

com todo o teu coração e com toda a tua alma,

com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento;

e ao próximo como a ti mesmo».

Disse-lhe Jesus:

«Respondeste bem. Faz isso e viverás».

Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus:

«E quem é o meu próximo?»

Jesus, tomando a palavra, disse:

«Um homem descia de Jerusalém para Jericó

e caiu nas mãos dos salteadores.

Roubaram-lhe tudo o que levava, espancaram-no

e foram-se embora, deixando-o meio morto.

Por coincidência, descia pelo mesmo caminho um sacerdote;

viu-o e passou adiante.

Do mesmo modo, um levita que vinha por aquele lugar,

viu-o e passou adiante.

Mas um samaritano, que ia de viagem,

passou junto dele e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão.

Aproximou-se, ligou-lhe as feridas deitando azeite e vinho,

colocou-o sobre a sua própria montada,

levou-o para uma estalagem e cuidou dele.

No dia seguinte, tirou duas moedas,

deu-as ao estalajadeiro e disse:

‘Trata bem dele; e o que gastares a mais

eu to pagarei quando voltar’.

Qual destes três te parece ter sido o próximo

daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?»

O doutor da lei respondeu:

«O que teve compaixão dele».

Disse-lhe Jesus:

«Então vai e faz o mesmo».

 

AMBIENTE