19º DOMINGO DO
TEMPO COMUM C
12 de Agosto de 2007
Tema do 19º Domingo do Tempo Comum
A Palavra de Deus que a liturgia de hoje nos propõe
convida-nos à vigilância: o verdadeiro discípulo não
vive de braços cruzados, numa existência de comodismo e
resignação, mas está sempre atento e disponível
para acolher o Senhor, para escutar os seus apelos e para construir o
“Reino”.
A primeira leitura apresenta-nos as palavras de um
“sábio” anónimo, para quem só a
atenção aos valores de Deus gera vida e felicidade. A comunidade
israelita – confrontada com um mundo pagão e imoral, que questiona
os valores sobre os quais se constrói a comunidade do Povo de Deus
– deve, portanto, ser uma comunidade “vigilante”, que
consegue discernir entre os valores efémeros e os valores duradouros.
A segunda leitura apresenta Abraão e Sara, modelos de
fé para os crentes de todas as épocas. Atentos aos apelos de
Deus, empenhados em responder aos seus desafios, conseguiram descobrir os bens
futuros nas limitações e na caducidade da vida presente. É
essa atitude que o autor da Carta aos Hebreus recomenda aos crentes, em geral.
O Evangelho apresenta uma catequese sobre a vigilância.
Propõe aos discípulos de todas as épocas uma atitude de
espera serena e atenta do Senhor, que vem ao nosso encontro para nos libertar e
para nos inserir numa dinâmica de comunhão com Deus. O verdadeiro
discípulo é aquele que está sempre preparado para acolher
os dons de Deus, para responder aos seus apelos e para se empenhar na
construção do “Reino”.
LEITURA I – Sab 18,6-9
Leitura do Livro da Sabedoria
A noite em que foram mortos os primogénitos do Egipto
foi dada previamente a conhecer aos nossos antepassados,
para que, sabendo com certeza
a que juramentos tinham dado crédito,
ficassem cheios de coragem.
Ela foi esperada pelo vosso povo,
como salvação dos justos e
perdição dos ímpios,
pois da mesma forma que castigastes os adversários,
nos cobristes de glória, chamando-nos para Vós.
Por isso os piedosos filhos dos justos
ofereciam sacrifícios em segredo
e de comum acordo estabeleceram esta lei divina:
que os justos seriam solidários nos bens e nos
perigos;
e começaram a cantar os hinos de seus antepassados.
AMBIENTE
O “Livro da Sabedoria” é uma obra de um
autor anónimo, redigida na primeira metade do séc. I a.C.,
provavelmente em Alexandria – um dos centros culturais mais importantes
da Diáspora judaica. Dirigindo-se aos judeus (que vivem mergulhados num
ambiente de idolatria e de imoralidade), o autor faz o elogio da
“sabedoria” israelita, a fim de animar os israelitas fiéis e
fazer voltar ao bom caminho os que tinham abandonado os valores da fé
judaica; dirigindo-se aos pagãos, o autor (que se exprime em termos e
concepções do mundo helénico, para que a sua mensagem
chegue a todos) apresenta-lhes a superioridade da cultura e da religião
israelitas, ridicularizando os ídolos e convidando, implicitamente,
à adesão a essa fé mais pura que é a fé
judaica.
O texto que nos é proposto pertence à terceira
parte do livro (Sab 10,1-19,22). Aí, recorrendo a factos concretos e a
exemplos de figuras tiradas da história, o autor exalta as maravilhas
operadas pela “sabedoria” na história do Povo de Deus. Nos
últimos capítulos desta terceira parte (Sab 16-19), passando do
geral ao particular, o autor mostra como a própria natureza divinizada
pelos ímpios se volta contra eles, enquanto que essa mesma natureza se
torna salvação para o Povo de Deus… O cenário desta
reflexão é a comparação entre o que um dia (na
altura do Êxodo) aconteceu aos egípcios e o que, em contrapartida,
aconteceu ao Povo de Deus: as pragas de animais castigaram os egípcios,
mas as codornizes foram alimento para os israelitas (cf. Sab 16,1-4); as moscas
e gafanhotos atormentaram os egípcios, mas a serpente de bronze erguida
por Moisés no deserto salvou o Povo de perecer (cf. Sab 16,5-15); as
chuvas e a saraiva destruíram as culturas egípcias, mas o
maná alimentou o Povo de Deus (cf. Sab 16,15-29); as trevas cegaram os
egípcios que perseguiam os israelitas, mas a coluna de fogo iluminou a
caminhada do Povo de Deus para a liberdade (cf. Sab 17,1-18,4); os
primogénitos dos egípcios foram mortos, mas Deus salvou a vida do
seu Povo (cf. Sab 18,5-25)…
MENSAGEM
O nosso texto refere-se, em concreto, à noite em que
foram mortos os primogénitos dos egípcios, à noite do
êxodo (cf. Ex 12,29-30). O autor interpreta essa noite (cf. Sab 18,5)
como a “resposta de Deus” ao decreto do faraó que ordenava a
matança das crianças hebreias do sexo masculino (cf. Ex 1,22).
Para os egípcios, foi uma noite trágica, de ruína, de
pesadelo, de destruição, de morte e de luto; para os judeus, foi
uma noite de salvação, de glória e de louvor do Deus
libertador. Na perspectiva do autor deste texto, Deus não só
esteve na origem da libertação mas, através de
Moisés, fez saber com antecedência aos hebreus os acontecimentos
da noite pascal (cf. Ex 12,21-28), a fim de que eles ganhassem ânimo.
Tudo isto foi entendido pelo Povo como acção de Deus.
Confrontado com a actuação de Deus em favor do
seu Povo, Israel encontrou forma de responder a Jahwéh e de lhe
manifestar o seu louvor e agradecimento: os sacrifícios (aqui faz-se
alusão ao sacrifício do cordeiro pascal, entendido como
celebração da libertação operada por Deus), a
solidariedade (o autor faz remontar a este momento do Êxodo as leis sobre
a participação de todas as tribos na conquista – cf. Nm
32,16-24 – e sobre a partilha igual dos despojos – cf. Nm 31,27;
Jos 22,8), o cântico de hinos (alusão ao Hallel – Sal
113-118 – cantados todos os anos durante a ceia pascal) definem a
resposta do Povo à acção de Deus.
A conclusão é óbvia: enquanto que os
egípcios – que divinizavam a natureza e que corriam atrás
dos deuses falsos – se deixaram conduzir por esquemas de opressão
e de injustiça e receberam de Jahwéh o justo castigo, os
israelitas – fiéis a Jahwéh e à Lei, que sempre
louvaram Deus e lhe agradeceram seus dons e benefícios – viram
Deus a actuar em seu favor e encontraram a liberdade e a paz.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar os seguintes desenvolvimentos:
• A leitura chama a atenção para a
diferença que há entre o viver de acordo com os valores da
fé e o viver de acordo com propostas quiméricas de felicidade e
de bem-estar… O “sábio” que nos fala na primeira leitura
assegura que só a fidelidade aos caminhos de Deus gera vida e
libertação; e que a cedência aos deuses do egoísmo e
da injustiça gera sofrimento e morte. Hoje, como ontem, nem sempre
parece fazer sentido trilhar o caminho do bem, da verdade, do amor, do dom da
vida… Na realidade, onde é que está o caminho da verdadeira
felicidade? Na cedência ao mais fácil, à moda, ao
“politicamente correcto”, ou na fidelidade aos valores duradouros,
aos valores do Evangelho, ao projecto de Jesus? Como é que eu me situo
face às pressões que, todos os dias, a opinião
pública ou a moda me impõem?
• O tema da liturgia deste domingo gira à volta
da “vigilância”. Não se trata de estar sempre com
“a alminha em paz”, “na graça de Deus” para que
a morte não me surpreenda e eu não seja atirado, sem querer, para
o inferno; trata-se de eu saber o que quero, de ter ideias claras quanto ao
sentido da minha vida e de, em cada instante, actuar em conformidade. É
esta “vigilância” serena, de quem sabe o que quer e
está atento ao caminho que percorre, que me é pedida. É
esse o caminho que eu tenho vindo a percorrer? A minha vida tem sido uma busca
atenta do que Deus quer de mim?
• O autor do “Livro da Sabedoria” descreve
a resposta do Povo à acção libertadora de Deus como
celebração, solidariedade, louvor e acção de
graças. Diante do Deus libertador, que todos os dias intervém na
minha vida e que me aponta caminhos de vida plena e de felicidade, sinto
também a vontade de celebrar, de amar, de comungar, de louvar, como
resposta ao amor de Deus?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 32 (33)
Refrão: Feliz o povo que o Senhor escolheu para sua
herança.
Justos, aclamai o Senhor,
os corações rectos devem
louvá-l’O.
Feliz a nação que tem o Senhor por seu Deus,
o povo que Ele escolheu para sua herança.
Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem,
para os que esperam na sua bondade,
para libertar da morte as suas almas
e os alimentar no tempo da fome.
A nossa alma espera o Senhor,
Ele é o nosso amparo e protector.
Venha sobre nós a vossa bondade,
porque em Vós esperamos, Senhor.
LEITURA II – Heb 11,1-2.8-19
Leitura da Epístola aos Hebreus
Irmãos:
A fé é a garantia dos bens que se esperam
e a certeza das realidades que não se vêem.
Ela valeu aos antigos um bom testemunho.
Pela fé, Abraão obedeceu ao chamamento
e partiu para uma terra que viria a receber como
herança;
e partiu sem saber para onde ia.
Pela fé, morou como estrangeiro na terra prometida,
habitando em tendas, com Isaac e Jacob,
herdeiros, como ele, da mesma promessa,
porque esperava a cidade de sólidos fundamentos,
cujo arquitecto e construtor é Deus.
Pela fé, também Sara recebeu o poder de ser
mãe
já depois de passada a idade,
porque acreditou na fidelidade d’Aquele que lho
prometeu.
É por isso também que de um só homem
- um homem que a morte já espreitava –
nasceram descendentes tão numerosos como as estrelas
do céu
e como a areia que há na praia do mar.
Todos eles morreram na fé,
sem terem obtido a realização das promessas.
Mas vendo-as e saudando-as de longe,
confessaram que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra.
Aqueles que assim falam
mostram claramente que procuram uma pátria.
Se pensassem na pátria de onde tinham saído,
teriam tempo de voltar para lá.
Mas eles aspiravam a uma pátria melhor,
que era a pátria celeste.
E como Deus lhes tinha preparado uma cidade,
não Se envergonha de Se chamar seu Deus.
Pela fé, Abraão, submetido à prova,
ofereceu o seu filho único Isaac,
que era o depositário das promessas,
como lhe tinha sido dito:
«Por Isaac será assegurada a tua
descendência».
Ele considerava que Deus pode ressuscitar os mortos;
por isso, numa espécie de prefiguração,
ele recuperou o seu filho.
AMBIENTE
A Carta aos Hebreus é um texto anónimo, escrito
nos anos que antecederam a destruição do Templo de
Jerusalém (ano 70). Destina-se a comunidades cristãs (de origem
judaica?) em que a generosidade dos inícios dera lugar ao
cansaço, ao tédio, ao desinteresse e que, por causa das
perseguições e da hostilidade dos não crentes, estavam
expostas ao desalento e ao retrocesso na sua caminhada cristã. Neste
contexto, o autor pretende apresentar aos crentes um estímulo, no
sentido de aprofundar a vocação cristã, até
à identificação total com Cristo.
A carta apresenta – recorrendo à linguagem da
teologia judaica – o mistério de Cristo, o sacerdote por
excelência – através de quem os homens têm acesso
livre a Deus e são inseridos na comunhão real e definitiva com
Deus. O autor aproveita, na sequência, para reflectir nas
implicações desse facto: postos em relação com o
Pai por Cristo/sacerdote, os crentes são inseridos nesse Povo sacerdotal
que é a comunidade cristã e devem fazer da sua vida um
contínuo sacrifício de louvor, de entrega e de amor. Desta forma,
o autor oferece aos cristãos um aprofundamento e uma
ampliação da fé primitiva, capaz de revitalizar a
experiência de fé, enfraquecida pela acomodação e
pela perseguição.
O texto que nos é proposto está incluído
na quarta parte da epístola (cf. Heb 11,1-12,13). Nessa parte, o autor
insiste em dois aspectos básicos da vida cristã: a fé e a
constância ou perseverança. No que diz respeito à
fé, o autor convida a percorrer o caminho dos “antigos” (cf.
Heb 11,1-40); no que diz respeito à constância, exorta a aceitar
com paciência os sofrimentos que a vida do cristão comporta, pois
esses sofrimentos fazem parte das provas pedagógicas através das
quais Deus nos faz chegar à perfeição (cf. Heb 12,1-13).
MENSAGEM
A exposição começa com a
descrição da fé, aqui entendida como a “garantia dos
bens que se esperam e a certeza das realidades que não se
vêem” (Heb 11,1). A “fé” é, nesta
perspectiva, posta em relação com a esperança; ela
dirige-se ao futuro e ao invisível. Alguns autores entendem esta
“garantia” (“hypóstasis”) no sentido de
“firme confiança” (Lutero, Erasmo e numerosos autores
recentes). A fé seria, nesta perspectiva, a firme confiança na
possessão dos bens futuros, invisíveis por agora. É uma
perspectiva diferente (embora complementar) da que transparece nos textos
paulinos, onde a fé é, sobretudo, a adesão a Jesus –
quer dizer, o estabelecimento de uma relação pessoal entre os
crentes e o Senhor.
Na sequência, o autor vai apresentar uma
autêntica galeria de figuras vétero-testamentárias que, por
terem vivido na fé e da fé, são modelo para todos os
crentes.
Em concreto, o nosso texto apresenta-nos as figuras de
Abraão e de Sara. Pela fé, Abraão acolheu o chamamento de
Deus, deixou a sua casa e partiu ao encontro do desconhecido e do
incómodo; pela fé, Abraão aceitou estabelecer-se numa
terra estranha e aí habitar; pela fé, Sara pôde conceber e
dar à luz Isaac, apesar da sua avançada idade; pela fé,
Abraão não duvidou quando Deus o mandou sacrificar, no alto de um
monte, o filho Isaac, o herdeiro das promessas e o continuador da
descendência… Abraão não viu concretizar-se a
promessa da posse da terra, nem a promessa de um povo numeroso; mas, pela
fé, ele contemplou antecipadamente a realização das
promessas de Deus, “saudando-as de longe”. Assim, Abraão
assumiu a sua condição de peregrino e estrangeiro, ansiando
constantemente pela cidade futura, e caminhando ao encontro do céu, a
sua pátria definitiva. É precisamente esse exemplo que o autor da
carta quer propor a esses cristãos perseguidos e desanimados: vivam na
fé, esperando a concretização dos dons futuros que Deus
vos reserva e caminhem pela vida como peregrinos, sem desanimar, de olhos
postos na pátria definitiva.
ACTUALIZAÇÃO
Para a reflexão, considerar os seguintes desenvolvimentos:
• O autor deste texto convida o crente a confiar
firmemente na possessão dos bens futuros, anunciados por Deus, mas
invisíveis para já. A nossa caminhada nesta terra está
marcada pela finitude, pelas nossas limitações, pelo nosso
pecado; mas isso não pode fazer-nos desanimar e desistir: viver na
fé é, apesar disso, apontar à vida plena que Deus nos
prometeu e caminhar ao seu encontro. É esta esperança que nos
anima e que marca a nossa caminhada, sobretudo nos momentos mais
difíceis, em que tudo parece desmoronar-se e as coisas deixam de fazer
sentido?
• A nossa tendência vai, tantas vezes, do
“oito ao oitenta”, da euforia ao desânimo total. Num dia,
tudo faz sentido; no outro, a tristeza e a dúvida afogam-nos e
deixam-nos mergulhados no mais negro pessimismo… No entanto, o
cristão deve ser o homem da serenidade e da paz; ele sabe que a sua
existência não se conduz ao sabor das marés, mas que o
sentido da vida está para além dos êxitos ou dos fracassos
que o dia a dia traz. Guiado pela fé, ele tem sempre diante dos olhos
essas realidades últimas, que dão sentido pleno àquilo que
aqui acontece.
ALELUIA – Mt 24, 42a.44
Aleluia. Aleluia.
Vigiai e estai preparados,
porque na hora em que não pensais
virá o Filho do homem.
EVANGELHO – Lc 12,32-48
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São
Lucas
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
«Não temas, pequenino rebanho,
porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o reino.
Vendei o que possuís e dai-o em esmola.
Fazei bolsas que não envelheçam,
um tesouro inesgotável nos Céus,
onde o ladrão não chega nem a traça
rói.
Porque onde estiver o vosso tesouro,
aí estará também o vosso
coração.
Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas.
Sede como homens
que esperam o seu senhor voltar do casamento,
para lhe abrirem logo a porta, quando chegar e bater.
Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar,
encontrar vigilantes.
Em verdade vos digo:
cingir-se-á e mandará que se sentem à
mesa
e, passando diante deles, os servirá.
Se vier à meia-noite ou de madrugada,
felizes serão se assim os encontrar.
Compreendei isto:
se o dono da casa soubesse a que hora viria o ladrão,
não o deixaria arrombar a sua casa.
Estai vós também preparados,
porque na hora em que não pensais
virá o Filho do homem».
Disse Pedro a Jesus:
«Senhor, é para nós que dizes esta
parábola,
ou também para todos os outros?»
O Senhor respondeu:
«Quem é o administrador fiel e prudente
que o senhor estabelecerá à frente da sua casa,
para dar devidamente a cada um a sua ração de
trigo?
Feliz o servo a quem o senhor, ao chegar,
encontrar assim ocupado.
Em verdade vos digo
que o porá à frente de todos os seus bens.
Mas se aquele servo disser consigo mesmo:
‘o meu senhor tarda em vir’;