22º DOMINGO DO TEMPO
COMUM C
2 de Setembro de 2007
Tema do 22º Domingo do Tempo Comum
A liturgia deste domingo propõe-nos uma reflexão sobre alguns
valores que acompanham o desafio do “Reino”: a humildade, a gratuidade, o amor
desinteressado.
O Evangelho coloca-nos no ambiente de um banquete em casa de
um fariseu. O enquadramento é o pretexto para Jesus falar do “banquete do
Reino”. A todos os que quiserem participar desse “banquete”, Ele recomenda a
humildade; ao mesmo tempo, denuncia a atitude daqueles que conduzem as suas
vidas numa lógica de ambição, de luta pelo poder e pelo reconhecimento, de
superioridade em relação aos outros… Jesus sugere, também, que para o “banquete
do Reino” todos os homens são convidados; e que a gratuidade e o amor
desinteressado devem caracterizar as relações estabelecidas entre todos os
participantes do “banquete”.
Na primeira leitura, um sábio dos inícios do séc. II a.C.
aconselha a humildade como caminho para ser agradável a Deus e aos homens, para
ter êxito e ser feliz. É a reiteração da mensagem fundamental que a Palavra de
Deus hoje nos apresenta.
A segunda leitura convida os crentes instalados numa fé
cómoda e sem grandes exigências, a redescobrir a novidade e a exigência do
cristianismo; insiste em que o encontro com Deus é uma experiência de comunhão,
de proximidade, de amor de intimidade, que dá sentido à caminhada do cristão.
Aparentemente, esta questão não tem muito a ver com o tema principal da
liturgia deste domingo; no entanto, podemos ligar a reflexão desta leitura com
o tema central da liturgia de hoje – a humildade, a gratuidade, o amor desinteressado
– através do tema da exigência: a vida cristã – essa vida que brota do encontro
com o amor de Deus – é uma vida que exige de nós determinados valores e
atitudes, entre os quais avultam a humildade, a simplicidade, o amor que se faz
dom.
LEITURA I – Sir 3,19-21.30-31
Leitura do Livro do Ben-Sirá
Filho, em todas as tuas obras procede com humildade
e serás mais estimado do que o homem generoso.
Quanto mais importante fores, mais deves humilhar-te
e encontrarás graça diante do Senhor.
Porque é grande o poder do Senhor
e os humildes cantam a sua glória.
A desgraça do soberbo não tem cura,
porque a árvore da maldade criou nele raízes.
O coração do sábio compreende as máximas do sábio
e o ouvido atento alegra-se com a sabedoria.
AMBIENTE
Estamos no início do séc. II a.C., quando os selêucidas
dominavam a Palestina. O helenismo tinha começado o seu trabalho pernicioso no
sentido de minar a cultura e os valores tradicionais de Israel. Muitos judeus –
incluindo membros de famílias de origem sacerdotal – deixavam-se seduzir pelo
brilho da cultura helénica, começavam a abandonar os valores dos pais e a
aderir aos valores da cultura invasora…
Jesus Ben Sira é, no entanto, um judeu tradicional, orgulhoso
da sua fé e dos valores israelitas. Consciente de que o helenismo ameaçava as
raízes do seu Povo, vai escrever para defender o património religioso e
cultural do judaísmo. Procura convencer os seus compatriotas de que Israel
possui, na sua “Torah” revelada por Deus, a verdadeira “sabedoria” – uma “sabedoria”
muito superior à “sabedoria” grega. Aos israelitas seduzidos pela cultura
grega, Jesus Ben Sira lembra a herança comum, procurando sublinhar a grandeza
dos valores judaicos e demonstrando que a cultura judaica não fica a dever nada
à brilhante cultura grega.
O texto que nos é proposto pertence à primeira parte do livro
(cf. Ben Sira 1,1-23,38). Aí fala-se da “sabedoria”, criada por Deus e
oferecida a todos os homens. Nesta parte, dominam os “ditos” e “provérbios” que
ensinam a arte de bem viver e de ser feliz.
MENSAGEM
O texto apresenta-se como uma “instrução” que um pai dá ao
seu filho. O tema fundamental desta “instrução” é o da humildade.
Para Jesus Ben Sira, a humildade é uma das qualidades
fundamentais que o homem deve cultivar. Garantir-lhe-á estima perante os homens
e “graça diante do Senhor”. Não se trata de uma forma de estar e de se
apresentar reservada aos mais pobres e menos preparados; mas trata-se de algo
que deve ser cultivado por todos os homens, a começar por aqueles que são considerados
mais importantes. O autor não entra em grandes pormenores; limita-se a afirmar
a importância da humildade e a propô-la, sem grandes desenvolvimentos nem
explicações. O “sábio” autor destas “máximas” não tem dúvida de que é na
humildade e na simplicidade que residem o segredo da “sabedoria”, do êxito, da
felicidade.
ACTUALIZAÇÃO
Para a reflexão e partilha, considerar os seguintes dados:
• Ser humilde significa assumir com simplicidade o nosso
lugar, pôr a render os nossos talentos, mas sem nunca humilhar os outros ou
esmagá-los com a nossa superioridade. Significa pôr os próprios dons ao serviço
de todos, com simplicidade e com amor. Quando somos capazes de assumir, com
simplicidade e desprendimento, o nosso papel, todos reconhecem o nosso contributo,
aceitam-nos, talvez nos admirem e nos amem… É aí que está a “sabedoria”, quer
dizer, o segredo do êxito e da felicidade.
• Ser soberbo significa que “a árvore da maldade criou
raízes” no homem. O homem que se deixa dominar pelo orgulho torna-se egoísta,
injusto, auto-suficiente e despreza os outros. Deixa de precisar de Deus e dos
outros homens; olha todos com superioridade e pratica, com frequência, gestos
de prepotência que o tornam temido, mas nunca admirado ou amado. Vive à parte,
num egoísmo vazio e estéril. Embora seja conhecido e apareça nas colunas
sociais, está condenado ao fracasso. É o “anti-sábio”.
• É preciso que os dons que possuímos não nos subam à cabeça,
não nos levem a poses ridículas de orgulho, de superioridade, de desprezo pelos
nossos irmãos. É preciso reconhecer, com simplicidade, que tudo o que somos e
temos é um dom de Deus e que as nossas qualidades não dependem dos nossos
méritos, mas do amor de Deus.
SALMO REPONSORIAL – Salmo 67 (68)
Refrão: Na vossa bondade, Senhor,
preparastes uma casa para o pobre.
Os justos alegram-se na presença de Deus,
exultam e transbordam de alegria.
Cantai a Deus, entoai um cântico ao seu nome;
o seu nome é Senhor: exultai na sua presença.
Pai dos órfãos e defensor das viúvas,
é Deus na sua morada santa.
Aos abandonados Deus prepara uma casa,
conduz os cativos à liberdade.
Derramastes, ó Deus, uma chuva de bênçãos,
restaurastes a vossa herança enfraquecida.
A vossa grei estabeleceu-se numa terra
que a vossa bondade, ó Deus, preparara ao oprimido.
LEITURA II – Heb 12,18-19.22-24a
Leitura da Epístola aos Hebreus
Irmãos:
Vós não vos aproximastes de uma realidade sensível,
como os israelitas no monte Sinai:
o fogo ardente, a nuvem escura,
as trevas densas ou a tempestade,
o som da trombeta e aquela voz tão retumbante
que os ouvintes suplicaram que não lhes falasse mais.
Vós aproximastes-vos do monte Sião,
da cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste,
de muitos milhares de Anjos em reunião festiva,
de uma assembleia de primogénitos inscritos no Céu,
de Deus, juiz do universo,
dos espíritos dos justos que atingiram a perfeição
e de Jesus, mediador da nova aliança.
AMBIENTE
Estamos na quinta parte da Carta aos Hebreus (cf.
12,14-13,19). Depois de pedir a perseverança e a constância nas provas (cf. Heb
12,1-13), o autor vai pedir uma conduta consequente com a fé cristã: os crentes
são exortados a manter e cultivar relações harmoniosas, adequadas, justas, para
com os homens e para com Deus.
Neste texto, em concreto, o autor convida os destinatários da
carta à fidelidade à vocação cristã. Para isso, estabelece um paralelo entre a
antiga religião (que os destinatários da carta conheciam bem) e a nova proposta
de salvação que Cristo veio apresentar. Os crentes são, assim, convidados a
redescobrir a novidade do cristianismo – essa novidade que, um dia, os atraiu e
motivou – e a aderir a ela com entusiasmo… Recordemos – para que as coisas
façam sentido – que o escrito se destina a uma comunidade instalada, preguiçosa,
que precisa descobrir os fundamentos reais da sua fé e do seu compromisso, a
fim de enfrentar – com coragem e com êxito – os tempos difíceis de perseguição
e de martírio que se aproximam.
MENSAGEM
O autor estabelece um profundo contraste entre a experiência
de comunhão com Deus que Israel fez no Sinai e a experiência cristã.
A experiência do Sinai é descrita como uma experiência
religiosa que gerou medo, opressão, mas não relação pessoal, proximidade, amor,
comunhão, intimidade, confiança – nem com Deus, nem com os outros membros da
comunidade do Povo de Deus. O quadro da revelação do Sinai é um quadro
terrífico, que não fez muito para aproximar os homens de Deus, num verdadeiro
encontro alicerçado no amor e na confiança. Por isso, não há que lamentar o
desaparecimento de um tal sistema.
Na experiência cristã, em contrapartida, não há nada de
assustador, de terrível, de opressivo. Pelo baptismo, os cristãos
aproximaram-se do próprio Deus, numa experiência de proximidade, de comunhão,
de intimidade, de amor verdadeiro… A experiência cristã é, portanto, uma
experiência festiva, de verdadeira alegria. Por essa experiência, os cristãos
associaram-se a Deus, o santo, o juiz do universo, mas também o Deus da bondade
e do amor; foram incorporados em Cristo, o mediador da nova aliança, irmanados
com Ele, tornados co-herdeiros da vida eterna; associaram-se aos anjos, numa
existência de festa, de louvor, de acção de graças, de adoração, de
contemplação; associaram-se aos outros justos que atingiram a vida plena, numa
comunhão fraterna de vida e de amor.
A questão que fica no ar – mesmo se não é formulada
explicitamente – é: não vale a pena apostar incondicionalmente nesta
experiência e vivê-la com entusiasmo?
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão e actualização podem fazer-se a partir das
seguintes linhas:
• A questão fundamental deste texto e do ambiente que o
enquadra é propor-nos uma redescoberta da nossa fé e do sentido das nossas
opções, a fim de superarmos a instalação, o comodismo e a preguiça que nos
levam, tantas vezes, a uma caminhada cristã morna, sem exigências, sem
compromissos, que facilmente cede e recua quando aparecem as dificuldades e os
desafios…
• Jesus intimou-nos a superar a perspectiva de um Deus
terrível, opressor, vingativo, de quem o homem se aproxima com medo; em seu
lugar, Ele apresentou-nos a religião de um Deus que é Pai, que nos ama, que nos
convoca para a comunhão com Ele e com os irmãos e que insiste em associar-nos
como “filhos” à sua família. Tenho consciência de que este é o verdadeiro rosto
de Deus e que o Deus terrível, de quem o homem não se pode aproximar, é uma
invenção dos homens?
ALELUIA – Mt 11,29ab
Aleluia. Aleluia.
Tomai o meu jugo sobre vós, diz o Senhor,
e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração.
EVANGELHO – Lc 14,1.7-14
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
Jesus entrou, a um sábado,
em casa de um dos principais fariseus
para tomar uma refeição.
Todos O observavam.
Ao notar como os convidados escolhiam os primeiros lugares,
Jesus disse-lhes esta parábola:
«Quando fores convidado para um banquete nupcial,
não tomes o primeiro lugar.
Pode acontecer que tenha sido convidado
alguém mais importante que tu;
então, aquele que vos convidou a ambos, terá que te dizer:
‘Dá o lugar a este’;
e ficarás depois envergonhado,
se tiveres de ocupar o último lugar.
Por isso, quando fores convidado,
vai sentar-te no último lugar;
e quando vier aquele que te convidou, dirá:
‘Amigo, sobre mais para cima’;
ficarás então honrado aos olhos dos outros convidados.
Quem se exalta será humilhado
e quem se humilha será exaltado».
Jesus disse ainda a quem O tinha convidado:
«Quando ofereceres um almoço ou um jantar,
não convides os teus amigos nem os teus irmãos,
nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos,
não seja que eles por sua vez te convidem
e assim serás retribuído.
Mas quando ofereceres um banquete,
convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos;
e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te:
ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.
AMBIENTE
Esta etapa do “caminho de Jerusalém” põe Jesus à mesa, em dia
de sábado, na casa de um dos chefes dos fariseus. Deve tratar-se da refeição
solene de sábado, que se tomava por volta do meio-dia, ao voltar da sinagoga.
Para ela deviam convidar-se os hóspedes; durante a refeição, continuava-se a
discussão sobre as leituras escutadas durante o ofício sinagogal.
Lucas é o único evangelista que mostra os fariseus tão
próximos de Jesus que até o convidam para casa e se sentam à mesa com Ele (cf.
Lc 7,36; 11,37). É provável que se trate de uma realidade histórica, embora
Marcos e Mateus apresentem os fariseus como os adversários por excelência de
Jesus (Mateus apresenta tal quadro influenciado, sem dúvida, pelas polémicas da
Igreja primitiva com os fariseus).
Os fariseus formavam um dos principais grupos
religioso-políticos da sociedade palestina desta época. Dominavam os ofícios
sinagogais e estavam presentes em todos os passos religiosos dos israelitas. A
sua preocupação fundamental era transmitir a todos o amor pela Torah, quer
escrita, quer oral. Tratava-se de um grupo sério, verdadeiramente empenhado na
santificação do Povo de Deus; mas, ao absolutizarem a Lei, esqueciam as pessoas
e passavam por cima do amor e da misericórdia. Ao considerarem-se a si próprios
como “puros” (porque viviam de acordo com a Lei), desprezavam o “am aretz” (o
“povo do país”) que, por causa da ignorância e da vida dura que levava, não
podia cumprir integralmente os preceitos da Lei. Conscientes das suas
capacidades, da sua integridade, da sua superioridade, não eram propriamente
modelos de humildade. Isso talvez explique o ambiente de luta pelos lugares de
honra que o Evangelho refere.
Convém, também, ter em conta que estamos no contexto de um
“banquete”. O “banquete” é, no mundo semita, o espaço do encontro fraterno,
onde os convivas partilham do mesmo alimento e estabelecem laços de comunhão,
de proximidade, de familiaridade, de irmandade. Jesus aparece, muitas vezes,
envolvido em banquetes, não porque fosse “comilão e bêbedo” (cf. Mt 11,19), mas
porque, ao ser sinal de comunhão, de encontro, de familiaridade, o banquete
anuncia a realidade do “reino”.
MENSAGEM
O texto apresenta duas partes. A primeira (vers. 7-11) aborda
a questão da humildade; a segunda (vers 12-14) trata da gratuidade e do amor
desinteressado. Ambas estão unidas pelo tema do “Reino”: são atitudes
fundamentais para quem quiser participar no banquete do “Reino”.
As palavras que Jesus dirigiu aos convidados que disputavam
os lugares de honra não são novidade, pois já o Antigo Testamento aconselhava a
não ocupar os primeiros lugares (cf. Prov 25,6-7); mas o que aí era uma
exortação moral, nas palavras de Jesus converte-se numa apresentação do “Reino”
e da lógica do “Reino”: o “Reino” é um espaço de irmandade, de fraternidade, de
comunhão, de partilha e de serviço, que exclui qualquer atitude de
superioridade, de orgulho, de ambição, de domínio sobre os outros; quem quiser
entrar nele, tem de fazer-se pequeno, simples, humilde e não ter pretensões de
ser melhor, mais justo, ou mais importante que os outros. Esta é, aliás, a
lógica que Jesus sempre propôs aos seus discípulos: Ele próprio, na “ceia de
despedida”, comida com os discípulos na véspera da sua morte, lavou os pés aos
discípulos e constituiu-os em comunidade de amor e de serviço – avisando que,
na comunidade do “Reino”, os primeiros serão os servos de todos (cf. Jo
13,1-17).
Na segunda parte, Jesus põe em causa – em nome da lógica do
“Reino” – a prática de convidar para o banquete apenas os amigos, os irmãos, os
parentes, os vizinhos ricos. Os fariseus escolhiam cuidadosamente os seus
convidados para a mesa. Nas suas refeições, não convinha haver alguém de nível
menos elevado, pois a “comunidade de mesa” vinculava os convivas e não convinha
estabelecer obrigatoriamente laços com gente desclassificada e pecadora (por
exemplo, nenhum fariseu se sentava à mesa com alguém pertencente ao “am aretz”,
ao “povo da terra”, desclassificado e pecador). Por outro lado, também os
fariseus tinham a tendência – própria de todas as pessoas, de todas as épocas e
culturas – de convidar aqueles que podiam retribuir da mesma forma… A questão é
que, dessa forma, tudo se tornava um intercâmbio de favores e não gratuidade e
amor desinteressado.
Jesus denuncia – em nome do “Reino” – esta prática; mas vai
mais além e apresenta uma proposta verdadeiramente subversiva… Segundo Ele, é
preciso convidar “os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos”. Os cegos,
coxos e aleijados eram considerados pecadores notórios, amaldiçoados por Deus,
e por isso estavam proibidos de entrar no Templo (cf. 2 Sm 5,8) para não
profanar esse lugar sagrado (cf. Lv 21,18-23). No entanto, são esses que devem
ser os convidados para o “banquete”. Já percebemos que, aqui, Jesus já não está
simplesmente a falar dessa refeição comida em casa de um fariseu, na companhia
de gente distinta; mas está já a falar daquilo que esse “banquete” anuncia e
prefigura: o banquete do “Reino”.
Jesus traça aqui, portanto, os contornos do “Reino”. Ele é
apresentado como um “banquete”, onde os convidados estão unidos por laços de
familiaridade, de irmandade, de comunhão. Para esse “banquete”, todos – sem