23º DOMINGO DO TEMPO
COMUM C
9 de Setembro de 2007
Tema do 23º Domingo do Tempo Comum
A liturgia deste domingo convida-nos a tomar consciência de
quanto é exigente o caminho do “Reino”. Optar pelo “Reino” não é escolher um
caminho de facilidade, mas sim aceitar percorrer um caminho de renúncia e de
dom da vida.
É, sobretudo, o Evangelho que traça as coordenadas do
“caminho do discípulo”: é um caminho em que o “Reino” deve ter a primazia sobre
as pessoas que amamos, sobre os nossos bens, sobre os nossos próprios
interesses e esquemas pessoais. Quem tomar contacto com esta proposta tem de pensar
seriamente se a quer acolher, se tem forças para a acolher… Jesus não admite
meios-termos: ou se aceita o “Reino” e se embarca nessa aventura a tempo
inteiro e “a fundo perdido”, ou não vale a pena começar algo que não vai levar
a lado nenhum (porque não é um caminho que se percorra com hesitações e com
“meias tintas”).
A primeira leitura lembra a todos aqueles que não conseguem
decidir-se pelo “Reino” que só em Deus é possível encontrar a verdadeira
felicidade e o sentido da vida. Há, portanto, aí, um encorajamento implícito a
aderir ao “Reino”: embora exigente, é um caminho que leva à felicidade plena.
A segunda leitura recorda que o amor é o valor fundamental,
para todos os que aceitam a dinâmica do “Reino”; só ele permite descobrir a
igualdade de todos os homens, filhos do mesmo Pai e irmãos em Cristo. Aceitar
viver na lógica do “Reino” é reconhecer em cada homem um irmão e agir em
consequência.
LEITURA I – Sab 9,13-19
Leitura do Livro da Sabedoria
Qual o homem que pode conhecer os desígnios de Deus?
Quem pode sondar as intenções do Senhor?
Os pensamentos dos mortais são mesquinhos
e inseguras as nossas reflexões,
porque o corpo corruptível deprime a alma
e a morada terrestre oprime o espírito que pensa.
Mas podemos compreender o que está sobre a terra
e com dificuldade encontramos o que temos ao alcance da mão.
Quem poderá então descobrir o que há nos céus?
Quem poderá conhecer, Senhor, os vossos desígnios,
se Vós não lhe dais a sabedoria
e não lhe enviais o vosso espírito santo?
Deste modo foi corrigido o procedimento dos que estão em
terra,
os homens aprenderam as coisas que Vos agradam
e pela sabedoria foram salvos.
AMBIENTE
O Livro da Sabedoria é um texto de carácter sapiencial (isto
é, cujo objectivo é transmitir a “sabedoria”, identificada com a arte de bem
viver, de ter êxito e de ser feliz). O autor apresenta-se como um “rei”,
apaixonado pela “sabedoria” e que construiu um templo na “montanha santa” e um
altar na “cidade da habitação de Deus” (Sab 9,6-8). Tudo indica, pois, que o
autor quer apresentar-se como sendo o rei Salomão; mas trata-se de um livro
escrito na primeira metade do séc. I a.C. (Salomão é da primeira metade do séc.
X a.C.) por um judeu piedoso, provavelmente pertencente à comunidade judaica de
Alexandria. O objectivo do autor é duplo: por um lado, dirige-se aos seus
compatriotas, mergulhados no paganismo, na idolatria e na imoralidade, e
mostra-lhes as vantagens de perseverar na fé e de viver na justiça; por outro
lado, dirige-se aos pagãos e apresenta-lhes a superioridade da fé e dos valores
israelitas. O autor exprime-se em termos e concepções do mundo helénico,
esforçando-se por exprimir a sua fé e as suas convicções numa linguagem
actualizada, erudita, bem ao gosto da cultura grega da época.
O texto que nos é apresentado é o final da segunda parte do
livro (cf. Sab 6,1-9,18). Aí, o autor coloca na boca de um rei (Salomão, embora
o nome nunca seja referido explicitamente) o elogio da “sabedoria”.
MENSAGEM
A questão fundamental para o autor do texto é esta: só essa
sabedoria que é um dom de Deus permite ao homem compreender tudo, fazer o que
agrada a Deus e ser salvo.
O autor parte da constatação da nossa finitude, das nossas
limitações, das nossas dificuldades típicas de seres humanos, para concluir:
por nós, não conseguimos compreender o alcance das coisas, não conseguimos
descobrir o verdadeiro sentido da nossa vida, apercebermo-nos dos valores que
nos levam, verdadeiramente, pelo caminho da vida e da felicidade. Como chegar,
portanto, a “conhecer os desígnios de Deus”?
O autor só encontra uma resposta: o homem tem de acolher a
“sabedoria”, dom de Deus para todos aqueles que estão interessados em dar um
verdadeiro sentido à sua vida. Só a acção de Deus que derrama sobre os homens a
“sabedoria” permite encontrar o sentido da vida e discernir o verdadeiro do
falso, o importante do inútil.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão pode fazer-se a partir dos seguintes dados:
• Face ao contínuo cruzamento de perspectivas, de desafios,
de teorias, ficamos confusos e sem saber, tantas vezes, como escolher. Por
outro lado, as nossas escolhas acabam, tantas vezes, por ser condicionadas
pelos “media”, pelo politicamente correcto, pela ideologia dominante, pela
moda, pelos valores que as telenovelas impõem, pelas ideias das pessoas que nos
rodeiam, pela filosofia da empresa que nos paga ao fim do mês… Será que esses
caminhos que nos são mais ou menos impostos nos conduzem no sentido da vida
plena, da realização total, da felicidade?
• Para os crentes, o critério que serve para julgar a
validade ou a não validade dessas propostas é o Evangelho – embora, muitas
vezes, ele se apresente em absoluta contradição com os valores que a sociedade
propõe e impõe. Como é que eu me situo face a isto? O que é que vale mais,
quando tenho de decidir: os valores do Evangelho, ou as propostas dessa máquina
trituradora, impositiva, limitadora das escolhas individuais que é a opinião
pública?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 89 (90)
Refrão: Senhor, tendes sido o nosso refúgio
através das gerações.
Vós reduzis o homem ao pó da terra
e dizeis: «Voltai, filhos de Adão».
Mil anos a vossos olhos são como o dia de ontem que passou
e como uma vigília da noite.
Vós os arrebatais como um sonho,
como a erva que de manhã reverdece;
de manhã floresce e viceja,
à tarde ela murcha e seca.
Ensinai-nos a contar os nossos dias,
para chegarmos à sabedoria do coração.
Voltai, Senhor! Até quando…
Tende piedade dos vossos servos.
Saciai-nos desde a manhã com a vossa bondade,
para nos alegrarmos e exultarmos todos os dias.
Desça sobre nós a graça do Senhor nosso Deus.
Confirmai, Senhor, a obra das nossas mãos.
LEITURA II – Flm 9b-10.12-17
Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo a Filémon
Caríssimo:
Eu, Paulo, prisioneiro por amor de Cristo Jesus,
rogo-te por este meu filho, Onésimo, que eu gerei na prisão.
Mando-o de volta para ti, como se fosse o meu próprio coração.
Quisera conservá-lo junto de mim,
para que me servisse, em teu lugar,
enquanto estou preso por causa do Evangelho.
Mas, sem o teu consentimento, nada quis fazer,
para que a tua boa acção não parecesse forçada,
mas feita de livre vontade.
Talvez ele se tenha afastado de ti durante algum tempo,
a fim de o recuperares para sempre,
não já como escravo, mas muito melhor do que escravo:
como irmão muito querido.
É isto que ele é para mim
e muito mais para ti, não só pela natureza,
mas também aos olhos do Senhor.
Se me consideras teu amigo,
recebe-o como a mim próprio.
AMBIENTE
A Carta a Filémon é a mais breve e pessoal das cartas de
Paulo. É endereçada a um tal Filémon, aparentemente um membro destacado da
Igreja de Colossos.
A partir dos dados da carta, podemos reconstruir as
circunstâncias em que o texto aparece. Onésimo, escravo de Filémon, fugiu de
casa do seu senhor. Encontrou Paulo, ligou-se a ele e tornou-se cristão. Paulo,
que nessa altura estava na prisão (em Éfeso? Em Roma?), fê-lo seu colaborador e
manteve-o junto de si. No entanto, a situação podia tornar-se delicada se
Filémon se ofendesse com Paulo; e, do ponto de vista legal, ao dar guarida a um
escravo fugitivo, Paulo era cúmplice de uma grave infracção ao direito privado.
Enfim, Onésimo corria o risco de ser preso, devolvido ao seu senhor e
severamente castigado.
É neste contexto que Paulo resolve enviar Onésimo a Filémon.
Onésimo leva consigo uma carta, em que Paulo explica a Filémon a situação e
intercede pelo escravo fugitivo. Com extrema delicadeza, Paulo insinua a
Filémon que, sendo possível, lhe devolva Onésimo, já que este lhe vem sendo de
grande utilidade; no entanto, Paulo pede, sugere, mas sem impor nada e deixando
a decisão nas mãos de Filémon.
É um texto belíssimo, carregado de sentimentos, “verdadeira
obra-prima de tacto e de coração”.
MENSAGEM
O que está em causa neste texto é muito mais do que um
problema privado, embora com alcance social; é, sobretudo, um problema eclesial
(embora com implicações sociais), e que deve ser resolvido a partir desse valor
supremo da ética cristã que é o amor.
Para Paulo, o amor deverá ser a suprema e insubstituível
norma que dirige e condiciona as palavras, os comportamentos, as decisões dos
crentes. Ora, o amor tem consequências bem práticas, que os membros da
comunidade cristã não podem olvidar: implica o ver em cada homem um irmão –
independentemente da sua raça, da sua cor, ou do seu estatuto social. Vistas as
coisas nesta perspectiva, não é de estranhar que Paulo solicite a Filémon que
receba Onésimo não como o que era antes (um escravo), mas sim como é agora – um
irmão em Cristo. Se Filémon é, de facto, cristão, é essa a atitude que deve
assumir para com Onésimo.
O problema da escravatura deve ter-se posto, desde muito
cedo, à comunidade eclesial. Mas os cristãos cedo perceberam que a solução não
estava na violência ou na revolta, mas no levar até às últimas consequências a
fraternidade que une todos os homens e que resulta do facto de todos serem
“filhos de Deus” e irmãos em Cristo. A violência, quando muito, serviria para
substituir uns escravos por outros, sem alterar a situação; só o amor poderia
mudar o coração dos homens, de forma a acabar com a exploração do homem pelo
outro homem. A conversão ao amor – exigência fundamental para integrar a
comunidade eclesial – exige o reconhecimento da igualdade fundamental de todos
os homens (“sem distinção entre judeu ou grego, entre escravo ou homem livre,
entre homem ou mulher, porque todos são um só em Cristo Jesus”, dirá Paulo –
Gal 3,28). A partir do amor, o “dono” do escravo descobre a igualdade profunda
de todos os homens, filhos do mesmo Deus e irmãos em Cristo; a partir do amor,
o escravo descobre a afirmação clara da sua dignidade de homem. É esta a
questão fundamental que o texto nos apresenta.
ACTUALIZAÇÃO
Para a reflexão, considerar as seguintes questões:
• O amor – elemento que está no centro da experiência cristã
– exige ao cristão o reconhecimento efectivo da igualdade de todos as pessoas,
apesar das diferenças de cor da pele, de estatuto social, de sexo, de opções
políticas. O meu comportamento para com aqueles que comigo se cruzam é sempre
consequente com esta exigência? A cor da pele alguma vez me levou a discriminar
alguém? O facto de uma pessoa ser pobre ou rica já alguma vez me levou a
tratá-la com mais ou menos consideração? O facto de uma pessoa ser homem ou
mulher já alguma vez me levou a dar-lhe mais ou menos importância ou dignidade?
• O amor – elemento que está no centro da experiência cristã
– exige que as nossas comunidades sejam espaços de comunhão, de fraternidade,
de acolhimento, sejam quais forem os defeitos dos irmãos. As nossas comunidades
têm facilidade em acolher? Como são tratados os “diferentes” ou, então, aqueles
que se afastaram ou que cometeram alguma falta? Acolhemo-los com amor, ou
marcamo-los toda a vida com o estigma da suspeita e da desconfiança?
ALELUIA – Salmo 118 (119), 135
Aleluia. Aleluia.
Fazei brilhar sobre mim, Senhor, a luz do vosso rosto
e ensinai-me os vossos mandamentos.
EVANGELHO – Lc 14,25-33
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
seguia Jesus uma grande multidão.
Jesus voltou-Se e disse-lhes:
«Se alguém vem ter comigo,
sem Me preferir ao pai, à mãe,
à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs
e até à própria vida,
não pode ser meu discípulo.
Quem não toma a sua cruz para Me seguir,
não pode ser meu discípulo.
Quem de entre vós, que, desejando construir uma torre,
Não se senta primeiro a calcular a despesa,
para ver se tem com que terminá-la?
Não suceda que, depois de assentar os alicerces,
se mostre incapaz de a concluir
e todos os que olharem comecem a fazer troça, dizendo:
‘Esse homem começou a edificar,
mas não foi capaz de concluir’.
E qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei
e não se senta primeiro a considerar
se é capaz de se opor, com dez mil soldados,
àquele que vem contra com ele com vinte mil?
Aliás, enquanto o outro ainda está longe,
manda-lhe uma delegação a pedir as condições de paz.
Assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens,
não pode ser meu discípulo».
AMBIENTE
Estamos, ainda, no “caminho para Jerusalém”. Desta vez, o
ensinamento de Jesus dirige-se “às multidões”, quer dizer, a todos os
discípulos presentes e futuros de Jesus.
A parábola anterior (cf. Lc 14,15-24) havia sugerido que o
“banquete do Reino” estava aberto a todos os que aceitassem o convite de Jesus,
inclusive aos pobres, estropiados, cegos e coxos… Agora, Lucas vai apresentar
algumas exigências que devem cumprir todos aqueles que entram no “banquete do
Reino”. A “instrução” reúne diversos ensinamentos de Jesus sobre a condição dos
discípulos, predominando o tema da renúncia.
MENSAGEM
Quais são então, na perspectiva de Jesus, as exigências
fundamentais para quem quer seguir o “caminho do discípulo” e chegar a
sentar-se à mesa do “Reino”? Jesus põe três exigências, todas elas subordinadas
ao tema da renúncia.
A primeira exige o preferir Jesus à própria família (vers.
26). A este propósito, Lucas põe na boca de Jesus uma expressão muito forte.
Literalmente, podemos traduzir o verbo “misséô” aqui utilizado como “odiar”
(“quem não odeia o pai, a mãe… não pode ser meu discípulo”). Para ser
discípulo, é preciso odiar alguém? Não. Segundo a maneira oriental de falar,
“odiar” significa “pôr em segundo lugar algo porque, entretanto, apareceu na
vida da pessoa um valor que ainda é mais importante”. É evidente que Jesus não
está a pedir o ódio a ninguém, muito menos a esses a quem nos ligam laços de
amor… Está, sim, a exigir que as relações familiares não nos impeçam de aderir
ao “Reino”. Se for necessário escolher, a prioridade deve ser do “Reino”.
A segunda exige a renúncia à própria vida (vers. 27). O
discípulo de Jesus não pode viver a fazer opções egoístas, colocando em
primeiro lugar os seus