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26º DOMINGO DO TEMPO COMUM C

30 de Setembro de 2007

Tema do 26º Domingo do Tempo Comum

 

A liturgia deste domingo propõe-nos, de novo, a reflexão sobre a nossa relação com os bens deste mundo… Convida-nos a vê-los, não como algo que nos pertence de forma exclusiva, mas como dons que Deus colocou nas nossas mãos, para que os administremos e partilhemos, com gratuidade e amor.

Na primeira leitura, o profeta Amós denuncia violentamente uma classe dirigente ociosa, que vive no luxo à custa da exploração dos pobres e que não se preocupa minimamente com o sofrimento e a miséria dos humildes. O profeta anuncia que Deus não vai pactuar com esta situação, pois este sistema de egoísmo e injustiça não tem nada a ver com o projecto que Deus sonhou para os homens e para o mundo.

O Evangelho apresenta-nos, através da parábola do rico e do pobre Lázaro, uma catequese sobre a posse dos bens… Na perspectiva de Lucas, a riqueza é sempre um pecado, pois supõe a apropriação, em benefício próprio, de dons de Deus que se destinam a todos os homens… Por isso, o rico é condenado e Lázaro recompensado.

A segunda leitura não apresenta uma relação directa com o tema deste domingo… Traça o perfil do “homem de Deus”: deve ser alguém que ama os irmãos, que é paciente, que é brando, que é justo e que transmite fielmente a proposta de Jesus. Poderíamos, também, acrescentar que é alguém que não vive para si, mas que vive para partilhar tudo o que é e que tem com os irmãos?

 

 

LEITURA I – Am 6,1a.4-7

 

Leitura da Profecia de Amos

 

Eis o que diz o Senhor omnipotente:

«Ai daqueles que vivem comodamente em Sião

e dos que se sentem tranquilos no monte da Samaria.

Deitados em leitos de marfim,

estendidos nos seus divãs,

comem os cordeiros do rebanho

e os vitelos do estábulo.

Improvisam ao som da lira

e cantam como David as suas próprias melodias.

Bebem o vinho em grandes taças

e perfumam-se com finos unguentos,

mas não os aflige a ruína de José.

Por isso, agora partirão para o exílio à frente dos deportados

e acabará esse bando de voluptuosos».

 

AMBIENTE

 

Continuamos com Amós, o profeta de Técua, de quem já falámos no passado domingo. Estamos em meados do séc. VIII a.C. (por volta de 762 a.C.), no reino do Norte (Israel). As conquistas de Jeroboão II criaram bem-estar, riqueza, prosperidade; no entanto, a situação de desafogo não beneficia toda a nação, mas um grupo privilegiado (no qual podemos incluir os nobres, os cortesãos, os militares, os grandes latifundiários e os comerciantes sem escrúpulos). Nasce, assim, uma classe dirigente poderosa, cada vez mais rica, que vive instalada no luxo, que explora os pobres e que, apoiada por juízes corruptos, comete ilegalidades e prepotências… Do outro lado, estão os pobres, vítimas inocentes e silenciosas de um sistema que gera injustiça, miséria, sofrimento, opressão. É neste contexto que o “profeta da justiça social” vai fazer ouvir a sua denúncia profética.

O texto que hoje nos é proposto pertence ao género literário dos “ais” (vers. 1). Começa com uma interjeição (“hwy”) que é, habitualmente, usada em lamentações fúnebres. A palavra corresponde ao grito com que as carpideiras acompanham o cortejo fúnebre… É o terceiro “ai” de Amós; os outros dois aparecem em Am 5,7 (a propósito da justiça e dos tribunais) e em Am 5,18 (a propósito do culto). Os profetas utilizam, normalmente, esta palavra como introdução a um oráculo que anuncia o castigo: indica que certas pessoas ou grupos se encontram às portas da morte por causa dos seus pecados.

 

MENSAGEM

 

Quem são os destinatários da mensagem que Amós propõe neste texto? Quem são esses que se encontram às portas da morte por causa dos seus pecados?

Trata-se da classe dirigente, rica e indolente, que vive comodamente nos palácios da capital, que esbanja em luxos, que vive numa eterna festa; trata-se desses parasitas que se deitam “em leitos de marfim”, que comem alimentos seleccionados, que bebem vinhos raros em excesso, que usam perfumes importados, que se divertem ouvindo música e compondo canções. O mais grave (este texto não o diz directamente, mas a ideia está sempre presente na denúncia de Amós) é que todo este luxo e esbanjamento resultam da exploração dos mais pobres e das rapinas e prepotências cometidas contra os fracos. De resto, esta classe rica e indolente vive egoisticamente mergulhada no seu mundo cómodo e não se preocupa minimamente com a miséria e o sofrimento que aflige os seus irmãos. Os pobres trabalham duramente, numa existência cheia de dores, trabalhos e misérias, para sustentarem a indolência e o luxo da classe dirigente. Deus pode aceitar que esta situação se prolongue indefinidamente?

É evidente que Deus não está disposto a pactuar com isto. A classe dominante da Samaria está a infringir gravemente os mandamentos da “aliança” e Deus não aceita ser cúmplice daqueles que mantêm um elevado nível de vida à custa do sangue e das lágrimas dos pobres. Por isso, o castigo chegará em forma de exílio numa terra estrangeira (o profeta refere-se à queda da Samaria nas mãos dos assírios de Salamanasar V, em 721 a.C., e à partida da classe dirigente para o cativeiro na Assíria).

 

ACTUALZIAÇÃO

 

Para a reflexão e partilha, considerar as seguintes questões:

 

• O quadro pintado por Amós descreve, em pormenor, situações bem conhecidas de todos nós… Pensemos nas festas do jet-set e nas quantias gastas em roupas, em jóias, em perfumes, por aqueles que as frequentam; pensemos nas quantias gastas em noites de jogatana por gente que paga miseravelmente aos seus operários; pensemos nos governantes que malbaratam os dinheiros públicos e que nem sequer vão a tribunal porque há sempre uma maneira de fazer com que o crime prescreva… E, por contraste, pensemos nos operários que arriscam a vida em obras perigosas, porque o patrão não quis gastar uns trocos com sistemas de segurança; pensemos naqueles que ganham salários mínimos, trabalhando duramente para enriquecer um patrão prepotente e sem escrúpulos, mas que ao fim do mês não têm dinheiro para pagar o infantário dos filhos; pensemos nos trabalhadores clandestinos que não recebem o salário ao fim do mês, porque o patrão desapareceu sem pagar; pensemos naqueles que recebem pensões de miséria e que vivem em condições infra-humanas porque a sua magra reforma mal dá para pagar os medicamentos… Um cristão pode conformar-se com estes contrastes? Que podemos fazer? Como reivindicar, com coragem profética, um mundo mais parecido com o projecto de Deus?

 

• Convém, também, aplicarmos o questionamento que a mensagem de Amós exige, a nós próprios… Muito provavelmente, não frequentamos as festas do jet-set, nem usamos dinheiros públicos para pagar os nossos divertimentos e esbanjamentos… Mas, numa escala muito menor, não teremos os mesmos vícios que Amós denuncia nesta classe rica e ociosa? Não nos deixamos, às vezes, arrastar pelo desejo de ter, comprando coisas supérfluas e impondo sacrifícios à família para pagar as nossas manias de grandeza? Não gastamos, às vezes, de forma descontrolada, para pagar os nossos pequenos vícios, sem pensar nas necessidades daqueles que dependem de nós? E os religiosos e religiosas com voto de pobreza não gastam, às vezes, de forma supérflua, esquecendo que vivem das ofertas generosas de pessoas que têm menos do que eles?

 

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 145 (146)

 

Refrão 1: Ó minha alma, louva o Senhor.

 

Refrão 2: Aleluia.

 

O Senhor faz justiça aos oprimidos,

dá pão aos que têm fome

e a liberdade aos cativos.

 

O Senhor ilumina os olhos dos cegos,

o Senhor levanta os abatidos,

o Senhor ama os justos.

 

O Senhor protege os peregrinos,

ampara o órfão e a viúva

e entrava o caminho aos pecadores.

 

O Senhor reina eternamente.

O teu Deus, ó Sião,

é Rei por todas as gerações.

 

 

LEITURA II – 1 Tim 6,11-16

 

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo a Timóteo

 

Caríssimo:

Tu, homem de Deus, pratica a justiça e a piedade,

a fé e a caridade, a perseverança e a mansidão.

Combate o bom combate da fé,

conquista a vida eterna, para a qual foste chamado

e sobre a qual fizeste tão bela profissão de fé

perante numerosas testemunhas.

Ordeno-te na presença de Deus,

que dá a vida a todas as coisas,

e de Cristo Jesus,

que deu testemunho da verdade diante de Pôncio Pilatos:

guarda este mandamento sem mancha

e acima de toda a censura,

até à aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo,

a qual manifestará a seu tempo

o venturoso e único soberano,

Rei dos reis e Senhor dos senhores,

o único que possui a imortalidade e habita uma luz inacessível,

que nenhum homem viu nem pode ver.

A Ele a honra e o poder eterno. Amen.

 

AMBIENTE

 

Continuamos a reflectir a Primeira Carta a Timóteo. Timóteo é esse cristão natural de Listra, filho de pai grego e de mãe judeo-cristã que acompanhou algumas das viagens missionárias de Paulo, a quem Paulo confiou a coordenação pastoral das igrejas da Ásia e que, segundo a tradição, foi o primeiro bispo da Igreja de Éfeso. O autor (que se apresenta como Paulo, embora a atribuição desta carta ao apóstolo seja – como já vimos nos domingos anteriores – bastante problemática) traça, para edificação de Timóteo, o retracto do “homem de Deus”.

O contexto das “cartas pastorais” coloca-nos, presumivelmente, nos inícios do séc. II d.C., numa altura em que as heresias – nomeadamente de tipo gnóstico – começam a incomodar os cristãos. Embora continue a discutir-se o “ambiente” em que as cartas pastorais aparecem, o certo é que se trata de uma época em que a comunidade cristã começa a sofrer a influência de “falsos mestres”, que difundem doutrinas estranhas (o autor da carta traça o quadro dos “falsos mestres”: são orgulhosos, ignorantes, discutem questões sem importância, fomentam a inveja, a discórdia, os insultos, as suspeitas injustas, as invejas e ciúmes e estão preocupados com as questões do lucro – cf. 1 Tim 6,4-6)… Neste “ambiente”, é importante sublinhar as características do verdadeiro discípulo, através de quem a verdadeira fé é transmitida.

 

MENSAGEM

 

Como deve ser, então, na perspectiva do autor deste texto, o “homem de Deus”?

O verdadeiro “homem de Deus” (que Timóteo deve representar) tem de distinguir-se por uma vida santa, enraizada na fé e no amor aos irmãos. Em concreto, o “homem de Deus” deve cultivar a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança, a doçura. Tem de ser paciente e manso, diante das dificuldades que o serviço apostólico levanta. Deve guardar “o mandamento do Senhor” – isto é, a verdade da fé que lhe foi transmitida pela tradição apostólica. No que diz respeito ao perfil do “homem de Deus”, tudo se resume no amor para com os irmãos, no entusiasmo pelo ministério e na capacidade de transmitir a verdadeira doutrina, herdada dos apóstolos.

O texto termina com um hino litúrgico, que apresenta Deus como o Senhor dos senhores, o único soberano, aquele que possui a imortalidade, a glória e o poder universal… Trata-se de uma solene doxologia que provém, sem dúvida, do repertório das orações usadas nas sinagogas judaicas do mundo grego e que apresenta Deus em contraste com os falsos deuses e com os títulos humanos atribuídos a reis e imperadores.

 

ACTUALIZAÇÃO

 

Para a reflexão e a partilha, ter em conta os seguintes dados:

 

• O retrato aqui esboçado do “homem de Deus” define os traços do verdadeiro crente: ele é alguém que vive com entusiasmo a sua fé, que ama os irmãos (que trata todos com doçura, com paciência, com mansidão) e que dá testemunho da verdadeira doutrina de Jesus, sem se deixar seduzir e desviar pelas modas ou pelos interesses próprios. Identificamo-nos com este modelo?

 

• A proposta que aqui é feita a Timóteo deve, sobretudo, caracterizar a vida daqueles que têm responsabilidades na animação das comunidades cristãs. Os animadores das nossas comunidades são, efectivamente, pessoas cheias de amor, de mansidão, de paciência, de capacidade de doar a vida e de servir os irmãos? São pessoas que transmitem, com fidelidade e coerência, o projecto de Jesus, ou são pessoas que transmitem doutrinas próprias, condicionadas pelos seus interesses? Na vida e no testemunho dos animadores das nossas comunidades, nota-se a vontade de dar um verdadeiro testemunho de Jesus e da sua proposta de salvação, ou nota-se a busca de privilégios, de títulos e de honras sociais?

 

 

ALELUIA – 2 Cor 8,9

 

Aleluia. Aleluia.

 

Jesus Cristo, sendo rico, fez-Se pobre,

para nos enriquecer na sua pobreza.

 

 

EVANGELHO – Lc 16,19-31

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

 

Naquele tempo,

disse Jesus aos fariseus:

«Havia um homem rico,

que se vestia de púrpura e linho fino

e se banqueteava esplendidamente todos os dias.

Um pobre, chamado Lázaro,

jazia junto do seu portão, coberto de chagas.

Bem desejava saciar-se do que caía da mesa do rico,

mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas.

Ora sucedeu que o pobre morreu

e foi colocado pelos Anjos ao lado de Abraão.

Morreu também o rico e foi sepultado.

Na mansão dos mortos, estando em tormentos,

levantou os olhos e viu Abraão com Lázaro a seu lado.

Então ergueu a voz e disse:

‘Pai Abraão, tem compaixão de mim.

Envia Lázaro, para que molhe em água a ponta do dedo

e me refresque a língua,

porque estou atormentado nestas chamas’.

Abraão respondeu-lhe:

‘Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em vida

e Lázaro apenas os males.

Por isso, agora ele encontra-se aqui consolado,

enquanto tu és atormentado.

Além disso, há entre nós e vós um grande abismo,

de modo que se alguém quisesse passar daqui para junto de vós,

ou daí para junto de nós,

não poderia fazê-lo’.

O rico insistiu:

‘Então peço-te, ó pai,

que mandes Lázaro à minha casa paterna

– pois tenho cinco irmãos –

para que os previna,

a fim de que não venham também para este lugar de tormento’.

Disse-lhe Abraão:

‘Eles têm Moisés e os Profetas.

Que os oiçam’.

Mas ele insistiu:

‘Não, pai Abraão. Se algum dos mortos for ter com eles,