28º DOMINGO DO TEMPO
COMUM C
14 de Outubro de 2007
Tema do 28º Domingo do Tempo Comum
A liturgia deste domingo mostra-nos, com exemplos concretos,
como Deus tem um projecto de salvação para oferecer a
todos os homens, sem excepção; reconhecer o dom de
Deus, acolhê-lo com amor e gratidão, é a condição para vencer a alienação, o
sofrimento, o afastamento de Deus e dos irmãos e chegar à vida plena.
A primeira leitura apresenta-nos a história de um leproso (o
sírio Naamã). O episódio revela que só Jahwéh oferece ao homem a vida e a salvação, sem limites
nem excepções; ao homem resta acolher o dom de Deus, reconhecê-l’O como o único salvador e manifestar-Lhe
gratidão.
O Evangelho apresenta-nos um grupo de leprosos que se
encontram com Jesus e que através de Jesus descobrem a misericórdia e o amor de
Deus. Eles representam toda a humanidade, envolvida pela miséria e pelo
sofrimento, sobre quem Deus derrama a sua bondade, o seu amor, a sua salvação.
Também aqui se chama a atenção para a resposta do homem ao dom de Deus: todos
os que experimentam a salvação que Deus oferece devem reconhecer o dom,
acolhê-lo e manifestar a Deus a sua gratidão.
A segunda leitura define a existência cristã como
identificação com Cristo. Quem acolhe o dom de Deus torna-se discípulo:
identifica-se com Cristo, vive no amor e na entrega aos irmãos e chega à vida
nova da ressurreição.
LEITURA I – 2 Reis 5,14-17
Leitura do Segundo Livro dos Reis
Naqueles dias,
o general sírio Naamã desceu ao
Jordão
e aí mergulhou sete vezes,
como lhe mandara Eliseu, o homem de Deus.
A sua carne tornou-se tenra como a de uma criança
e ficou purificado da lepra.
Naamã foi ter novamente com o homem de
Deus,
acompanhado de toda a sua comitiva.
Ao chegar diante dele, exclamou:
«Agora reconheço que em toda a terra
não há outro Deus senão o de Israel.
Peço-te que aceites um presente deste teu servo».
Eliseu respondeu-lhe:
«Pela vida do Senhor que eu sirvo,
nada aceitarei».
E apesar das insistências, ele recusou.
Disse então Naamã:
«Se não aceitas,
permite ao menos que se dê a este teu servo
uma porção de terra para um altar,
tanto quanto possa carregar uma parelha de mulas,
porque o teu servo nunca mais há-de oferecer
holocausto ou sacrifício a quaisquer outros deuses,
mas apenas ao Senhor, Deus de Israel».
AMBIENTE
A primeira leitura deste domingo situa-nos no reino do Norte
(Israel), durante o reinado de Jorão (853-842 a.C.).
Os reis de Israel – preocupados em fazer do seu país um estado moderno e em
marcar o seu lugar no xadrez político do antigo Médio Oriente – mantêm, por
esta altura, um intercâmbio muito vivo com os povos da zona. Em termos
religiosos, essa política traduz-se numa invasão de deuses, de cultos e de
valores estrangeiros, que ameaçam a integridade da fé jahwista.
Apesar de Jorão ter tirado “as estátuas que seu pai
tinha erigido a Baal” (2 Re 3,2), é uma época em que
os deuses cananeus assumem um grande protagonismo e Baal substitui Jahwéh no coração e na vida de muitos israelitas.
Nesta fase, o profeta Eliseu assume-se como o grande defensor
da fé jahwista continuando, aliás, a obra do seu
antecessor Elias. Eliseu fazia parte de uma comunidade de “filhos dos profetas”
(2 Re 2,3; 4,1)… Trata-se, provavelmente, de um círculo profético cujos membros
eram os seguidores incondicionais de Jahwéh e aqueles
em quem o Povo buscava apoio, face aos abusos dos poderosos.
No capítulo 5 do segundo Livro dos Reis, os autores deuteronomistas contam-nos a história do general sírio Naamã: considerado um dos heróis da Síria, era leproso;
mas, informado por uma serva de que em Israel havia um profeta que podia
curá-lo do seu mal, veio ao encontro de Eliseu, carregado de presentes. Eliseu
mandou, apenas, que Naamã se banhasse sete vezes no
rio Jordão (cf. 2 Re 5,1-13).
MENSAGEM
A leitura que nos é proposta descreve a cura do sírio Naamã e as reacções das várias
personagens envolvidas; mas, mais do que apresentar uma reportagem do
acontecimento, os autores deuteronomistas quiseram
tecer algumas considerações de carácter teológico e
catequético, que ajudassem os israelitas (seduzidos pelo culto de Baal) a redescobrir os fundamentos da sua fé.
Em primeiro lugar, os catequistas de Israel quiseram deixar
claro que Jahwéh é o Senhor da vida, que Ele tem um projecto de libertação para o homem e que só Ele pode
salvar aquele que parece condenado à morte. Deus até se pode servir de homens
para actuar no mundo; mas é d’Ele – e apenas d’Ele –
que brotam a salvação e a vida; é preciso que os israelitas reconheçam isto,
como o sírio Naamã o reconheceu.
Em segundo lugar, os catequistas de Israel quiseram mostrar
que a intervenção salvadora de Jahwéh não é uma acção meramente circunstancial, que apenas resolve os
problemas externos, mas é uma acção que actua a um nível profundo e que transforma radicalmente a
vida do homem… Naamã não ficou só curado de uma
doença física que punha em risco a sua vida; mas a intervenção de Deus
saldou-se numa transformação espiritual que fez do sírio Naamã um homem novo e o levou a deixar os ídolos para servir o verdadeiro e único
Deus… A expressão dessa mudança radical é a afirmação de Naamã de que “não há outro Deus em toda a terra senão o de Israel” (vers. 15) e que
nunca mais irá “oferecer holocausto ou sacrifício a quaisquer outros deuses,
mas apenas ao Senhor, Deus de Israel” (vers. 17).
Em terceiro lugar, a história deixa claro que a oferta da
salvação não é um dom exclusivo, reservado a alguns privilegiados ou a uma raça
especial: Naamã é sírio e, portanto, um inimigo
tradicional do Povo de Deus… Mas Deus não faz distinção de pessoas e oferece a
todos, sem excepção, a sua graça. O que é decisivo é
o acolher o dom de Deus e aceitar deixar-se transformar por Ele.
Em quarto lugar, a catequese deuteronomista sublinha a “gratidão” de Naamã. Liberto dos males que
o apoquentavam, ele quis agradecer a sua cura cumulando Eliseu de presentes;
mas depressa percebeu (por acção de Eliseu, que o
ajudou a ver claro) que não era a um homem que tinha de agradecer o dom da
vida, mas sim a Deus… E a sua gratidão manifestou-se numa adesão total a Jahwéh. Os catequistas de Israel sugerem que é essa a
resposta que Deus espera do homem.
Em quinto lugar, atente-se na atitude de Eliseu que nunca
manifestou qualquer vontade de se aproveitar da intervenção de Deus em favor de Naamã para benefício próprio. Ao recusar aceitar
qualquer presente das mãos de Naamã, Eliseu dá a
entender que não é a ele mas a Jahwéh que o general
sírio deve agradecer a cura. É provável que haja aqui uma denúncia irónica da atitude dos líderes religiosos da época, sempre
preocupados em utilizar Deus em benefício dos seus esquemas egoístas…
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão e partilha podem fazer-se considerando os
seguintes dados:
• A leitura convida-nos, antes de mais, a tomar consciência
de que é de Deus – desse Deus que tem um projecto de
salvação para o homem – que recebemos a vida plena. A constatação desse facto atinge uma importância primordial, numa época em que
somos, diariamente, convidados a colocar a nossa esperança e a nossa segurança
em ídolos de pés de barro (para alguns, podem ser o “poderoso médium” ou a
“vidente/taróloga/espírita” que garantem a solução para o mau olhado, a inveja,
os males de amor, o insucesso nos negócios, etc.; para a maioria, são o
dinheiro, o poder, a moda, o comodismo, o êxito, a casa com piscina, o Ferrari
ou o último programa de televisão que faz ganhar vinte mil contos e abrir a
janela da fama…). É em Deus que eu coloco a minha esperança de vida plena, ou
há outros deuses que me seduzem, que dirigem a minha vida e que são a minha
esperança de realização e de felicidade?
• Convém também não esquecer que a proposta de salvação que
Deus faz se destina a todos os homens e mulheres, sem excepção.
O nosso Deus não é um Deus dos “bonzinhos”, dos bem comportados, dos brancos,
dos politicamente correctos ou dos que têm o nome no
livro de registos da paróquia… O nosso Deus é o Deus
que oferece a vida a todos e que a todos ama como filhos; o que é decisivo é
aceitar a sua oferta de salvação e acolher o seu dom. Daqui resultam duas
coisas importantes: a primeira é que não basta ser baptizado (e depois prescindir d’Ele e viver à margem das suas propostas); a segunda é
que não podemos marginalizar ou excluir qualquer irmão nosso.
• A história do sírio Naamã levanta, ainda, a questão da gratidão… É preciso que nos apercebamos que tudo é
dom do amor de Deus e não uma conquista nossa ou a recompensa pelos nossos
méritos ou pelas nossas boas obras. Estou consciente de que é de Deus que
recebo tudo e manifesto-Lhe a minha gratidão pela sua presença, pelos seus
dons, pelo seu amor?
• Aqueles que recebem de Deus carismas para pôr ao serviço
dos irmãos: sentem-se apenas instrumentos de Deus e procuram dirigir os olhares
e a gratidão dos irmãos para Deus, ou estão preocupados em sublinhar os seus
méritos e em concentrar em si próprios a gratidão que brota dos corações
daqueles a quem servem?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 97 (98)
Refrão 1: O Senhor manifestou a salvação a todos os povos.
Refrão 2: Diante dos povos manifestou Deus a salvação.
Cantai ao Senhor um cântico novo
pelas maravilhas que Ele operou.
A sua mão e o seu santo braço
Lhe deram a vitória.
O Senhor deu a conhecer a salvação,
revelou aos olhos das nações a sua justiça.
Recordou-Se da sua bondade e fidelidade
em favor da casa de Israel.
Os confins da terra puderam ver
a salvação do nosso Deus.
Aclamai o Senhor, terra inteira,
exultai de alegria e cantai.
LEITURA II – 2 Tim 2,8-13
Leitura da Segunda Epístola do apóstolo São Paulo a Timóteo
Caríssimo:
Lembra-te de que Jesus Cristo, descendente de David,
ressuscitou dos mortos, segundo o meu Evangelho,
pelo qual eu sofro,
até ao ponto de estar preso a estas cadeias como um
malfeitor.
Mas a palavra de Deus não está encadeada.
Por isso, tudo suporto por causa dos eleitos,
para que obtenham a salvação que está em Cristo Jesus,
com a glória eterna.
É digna de fé esta palavra:
Se morremos com Cristo, também com Ele viveremos;
se sofremos com Cristo, também com ele reinaremos;
se O negarmos, também Ele nos negará;
se Lhe formos infiéis, Ele permanece fiel,
porque não pode negar-Se a Si mesmo.
AMBIENTE
Continuamos a ler a segunda Carta a Timóteo… Para percebermos
a mensagem que o texto nos propõe, convém recordar que esta carta (escrita por
um autor desconhecido que, no entanto, se identifica com o apóstolo Paulo) nos
coloca, provavelmente, no contexto dos finais do séc. I ou inícios do séc. II,
numa altura em as comunidades cristãs sentiam arrefecido o entusiasmo dos
inícios, conheciam a perseguição e estavam a ser perturbadas pelas heresias e
pelas falsas doutrinas. O autor exorta Timóteo (e, na pessoa de Timóteo, todos
os crentes, em geral) a perseverar na fé, a conservar a sã doutrina recebida de
Jesus e a dedicar-se totalmente ao serviço do Evangelho.
MENSAGEM
Depois de exortar Timóteo a uma dedicação total ao ministério
(cf. 2 Tim 2,1-7), o autor da carta apresenta o
motivo supremo que justifica essa entrega: o exemplo de Cristo, que chegou à
glória da ressurreição pelo caminho da cruz e do dom da vida… O próprio Paulo
seguiu esse duro caminho e é por isso que está preso; mas não está preocupado,
pois o essencial é que a Palavra de Deus continue a transformar o mundo. Aliás,
é preciso que alguns entreguem a própria vida para que a proposta libertadora
de Jesus chegue a todos os homens… Vale a pena sofrer, a fim de que este objectivo se concretize.
O parágrafo final (vers. 11-13) corrobora e clarifica as
afirmações precedentes. O cristão é chamado a identificar-se com Cristo na
entrega da vida e no serviço aos irmãos; essa entrega não termina no fracasso e
no sem sentido, mas – a exemplo de Cristo – na ressurreição, na vida nova. O
cristão não pode é recusar fazer da sua vida um dom de amor, se quiser
identificar-se com Cristo.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar os seguintes dados para a reflexão e partilha:
• O autor da segunda Carta a Timóteo recorda, aqui, algo de
central para a experiência cristã: a essência do cristianismo é a identificação
de cada crente com Cristo. Isto traduz-se, concretamente, no entregar a própria
vida em favor dos irmãos, se necessário até ao dom total. Identifico-me de tal
forma com Cristo que sou capaz de O seguir no caminho do amor e da entrega?
• A opinião pública do nosso tempo está convencida de que uma
vida gasta no serviço simples e humilde em favor dos irmãos é uma vida
fracassada; mas o autor da segunda Carta a Timóteo garante que uma vida de amor
e de serviço é uma vida plenamente realizada, pois no final da caminhada
espera-nos a ressurreição, a vida plena (são os efeitos da nossa identificação com
Cristo). O que é que, para mim, faz mais sentido? No meu dia a dia domina o
egoísmo e a auto-suficiência, ou o amor, a partilha, o dom da vida?
ALELUIA – cf. 1Tes 5,18
Aleluia. Aleluia.
Em todo o tempo e lugar dai graças a Deus,
porque esta é a sua vontade a vosso respeito em Cristo Jesus.
EVANGELHO – Lc 17,11-19
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
indo Jesus a caminho de Jerusalém,
passava entre a Samaria e a Galileia.
Ao entrar numa povoação,
vieram ao seu encontro dez leprosos.
Conservando-se a distância, disseram em alta voz:
«Jesus, Mestre, tem compaixão de nós».
Ao vê-los, Jesus disse-lhes:
«Ide mostrar-vos aos sacerdotes».
E sucedeu que no caminho ficaram limpos da lepra.
Um deles, ao ver-se curado,
voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz,
e prostrou-se de rosto por terra aos pés de Jesus
para Lhe agradecer.
Era um samaritano.
Jesus, tomando a palavra, disse:
«Não foram dez que ficaram curados?
Onde estão os outros nove?
Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus
senão este estrangeiro?»
E disse ao homem:
«Levanta-te e segue o teu caminho;
a tua fé te salvou».
AMBIENTE
Mais uma vez Lucas apresenta um episódio situado no “caminho
de Jerusalém” (esse “caminho espiritual”, ao longo do qual os discípulos vão
aprendendo e interiorizando os valores e a realidade do “Reino”).
No “caminho” de Jesus e dos discípulos aparecem, portanto,
dez leprosos. O leproso é, no tempo de Jesus, o protótipo do marginalizado…
Além de causar naturalmente repugnância pela sua aparência e de infundir medo
de contágio, o leproso é um impuro ritual (cf. Lev 13-14), a quem a teologia oficial atribuía pecados especialmente gravosos (a
lepra era o castigo de Deus para esses pecados); por isso, o leproso não podia
sequer entrar na cidade de Jerusalém, a fim de não despurificar a cidade santa. Devia afastar-se de qualquer convívio humano para que não
contaminasse os outros com a sua impureza física e religiosa. Em caso de cura,
devia apresentar-se diante de um sacerdote, a fim de que ele comprovasse a cura
e lhe permitisse a reintegração na vida normal (cf. Lev 14). Podia, então, voltar a participar nas celebrações do culto.
Um dos leprosos (precisamente aquele que vai desempenhar o
papel principal, neste episódio) é samaritano. Os samaritanos eram desprezados
pelos judeus de Jerusalém, por causa do seu sincretismo religioso. A
desconfiança religiosa dos judeus em relação aos samaritanos começou quando, em
721 a.C. (após a queda do reino do Norte), os colonos assírios invadiram a Samaria e começaram a misturar-se com a população local.
Para os judeus, os habitantes da Samaria começaram,
então, a paganizar-se… Após o regresso do exílio da Babilónia,
os habitantes de Jerusalém recusaram qualquer ajuda dos samaritanos na
reconstrução do Templo e evitaram os contactos com esses hereges, “raça
misturada com pagãos”. A construção de um santuário samaritano no monte Garizim consumou a separação e, na perspectiva judaica,
lançou definitivamente os samaritanos nos caminhos da infidelidade a Jahwéh. Algumas picardias mútuas nos séculos seguintes
consolidaram a inimizade entre judeus e samaritanos. Na época de Jesus, a
relação entre as duas comunidades era marcada por uma grande hostilidade.
MENSAGEM
O episódio dos dez leprosos (que é exclusivo de Lucas)
insere-se perfeitamente na óptica teológica de um evangelho cujo objectivo fundamental é apresentar Jesus como o Deus que se
fez pessoa para trazer, com gestos concretos, a salvação/libertação a todos os
homens, particularmente aos oprimidos e marginalizados.