32º
DOMINGO DO TEMPO COMUM C
11
de Novembro de 2007
Tema do 32º Domingo do
Tempo Comum
A liturgia deste domingo
propõe-nos uma reflexão sobre os horizontes últimos do homem e garante-nos a
vida que não acaba.
Na primeira leitura, temos
o testemunho de sete irmãos que deram a vida pela sua fé, durante a perseguição
movida contra os judeus por Antíoco IV Epifanes. Aquilo que motivou os sete irmãos mártires, que
lhes deu força para enfrentar a tortura e a morte foi, precisamente, a certeza
de que Deus reserva a vida eterna àqueles que, neste mundo, percorrem, com
fidelidade, os seus caminhos.
No Evangelho, Jesus
garante que a ressurreição é a realidade que nos espera. No entanto, não vale a
pena estar a julgar e a imaginar essa realidade à luz das categorias que marcam
a nossa existência finita e limitada neste mundo; a nossa existência de ressuscitados
será uma existência plena, total, nova. A forma como isso acontecerá é um
mistério; mas a ressurreição é uma certeza absoluta no horizonte do crente.
Na segunda leitura temos
um convite a manter o diálogo e a comunhão com Deus, enquanto esperamos que
chegue a segunda vinda de Cristo e a vida nova que Deus nos reserva. Só com a
oração será possível mantermo-nos fiéis ao Evangelho e ter a coragem de
anunciar a todos os homens a Boa Nova da salvação.
LEITURA I – 2 Mac
7,1-2.9-14
Leitura do Segundo Livro
de Macabeus
Naqueles dias,
foram presos sete irmãos,
juntamente com a mãe,
e o rei da Síria quis
obrigá-los,
à força de golpes de
azorrague e de nervos de boi,
a comer carne de porco
proibida pela Lei judaica.
Um deles tomou a palavra
em nome de todos
e falou assim ao rei:
«Que pretendes perguntar e
saber de nós?
Estamos prontos para
morrer,
antes que violar a lei de
nossos pais».
Prestes a soltar o último
suspiro,
o segundo irmão disse:
«Tu, malvado, pretendes
arrancar-nos a vida presente,
mas o Rei do universo
ressuscitar-nos-á para a vida eterna,
se morrermos fiéis às suas
leis».
Depois deste começaram a
torturar o terceiro.
Intimado a pôr fora a
língua,
apresentou-a sem demora
e estendeu as mãos
resolutamente,
dizendo com nobre coragem:
«Do Céu recebi estes
membros
e é por causa das suas
leis que os desprezo,
pois do Céu espero
recebê-los de novo».
O próprio rei e quantos o
acompanhavam
estavam admirados com a
força de ânimo do jovem,
que não fazia nenhum caso
das torturas.
Depois de executado este
último,
sujeitaram o quarto ao
mesmo suplício.
Quando estava para morrer,
falou assim:
«Vale a pena morrermos às
mãos dos homens,
quando temos a esperança
em Deus
de que Ele nos
ressuscitará;
mas tu, ó rei, não
ressuscitarás para a vida».
AMBIENTE
Em 323 a.C., Alexandre, o
Grande, morreu e o império foi dividido pelos seus generais (“diadocos”). A Palestina (desde 333 a.C., integrada no
império de Alexandre) ficou, inicialmente, nas mãos dos Ptolomeus (que dominavam ainda o Egipto e a Fenícia). No
entanto, a partir do ano 200 (batalha das “fontes do Jordão”), a Palestina
passou para as mãos dos Selêucidas (outra família de generais de Alexandre, que
já dominava a Síria e a Mesopotâmia).
Os Ptolomeus tiveram uma atitude relativamente tolerante para com o judaísmo e respeitaram,
no geral, as tradições e a fé do Povo de Deus; mas, sob a autoridade dos
Selêucidas, sobreveio uma fase em que a cultura helénica se tornou mais agressiva, ameaçando pôr em causa a sobrevivência do judaísmo. Foi,
sobretudo, no reinado de Antíoco IV Epifanes (175-164 a.C.) que o helenismo foi imposto –
inclusive pela força – ao Povo de Deus. Muitos judeus – apostados em manter
vivas as suas tradições – foram perseguidos e mortos.
O texto que nos é proposto
coloca-nos neste ambiente. Conta-nos o martírio de uma mãe e dos seus sete
filhos, que se recusaram a violar a fé e as tradições judaicas e foram mortos
por isso. Trata-se, provavelmente, de uma tradição popular (embora com um
substrato histórico), transmitida oralmente durante algum tempo, antes de ser
integrada no segundo livro dos Macabeus. O autor não
dá qualquer indicação acerca do lugar do martírio, nem do nome dos sete irmãos.
MENSAGEM
A história apresenta-nos,
portanto, uma família de sete irmãos e da sua mãe, que o rei pretendia coagir
(através da tortura) a abandonar a fé e a comer carne de porco (proibida pela
Lei, por ser carne de um animal “impuro”). O nosso trecho apresenta as
respostas corajosas de alguns destes irmãos, preocupados mais com a fidelidade
aos valores judaicos e à fé dos pais, do que com as ameaças do rei.
O que é que “faz correr”
estes jovens? O que é que lhes dá a coragem para enfrentar as exigências dos
seus algozes? De acordo com as explicações que o autor coloca na boca dos nossos
heróis, é a fé na ressurreição ou, literalmente, na revivificação eterna de vida (vers. 9) que os motiva. Os sete irmãos tiveram a coragem de
defender a sua fé até à morte, porque acreditavam que Deus lhes devolveria
outra vez a vida, uma vida semelhante àquela que lhes ia ser tirada. O Deus
criador tem, de acordo com a catequese aqui feita, o poder de ressuscitar os
mártires para a vida eterna…
Não é, ainda, a noção
neo-testamentária de ressurreição (uma vida nova, uma vida plena, uma vida
transformada e elevada à máxima potencialidade) que aqui aparece; é apenas a ideia de uma revivificação, de um
readquirir no outro mundo uma vida semelhante àquela que aqui foi roubada ao
homem (embora se admitisse que, nesse mundo de Deus, já não haveria pranto, nem
sofrimento, nem morte). De qualquer forma, é a ideia de imortalidade que aqui é formulada. Repare-se, no entanto, que o nosso texto
ainda não ensina a revivificação de todos os homens,
mas apenas dos justos (vers. 14).
É a primeira vez que a
doutrina da ressurreição é explicitamente apresentada na Bíblia. A partir
daqui, esta ideia vai desenvolver-se cada vez mais,
até ser completamente iluminada pelo exemplo de Jesus.
ACTUALIZAÇÃO
Reflectir a
partir das seguintes linhas:
• Como é que termina a
nossa vida? Os sonhos que procuramos concretizar, as nossas realizações mais
queridas, que é que valem se nos espera um dia, inevitavelmente, a morte?
Estamos condenados a deixar e a perder tudo aquilo que amamos? A nossa morte é
uma viagem fatal em direcção ao nada? Estas perguntas
são eternas; e, há cerca de 2100 anos, um catequista de Israel já as colocava…
A sua fé ditou-lhe, no entanto, a certeza de que a vida continua para além
desta terra. É essa certeza que ele nos deixa, neste texto; e é essa
experiência de fé que ele nos convida a fazer.
• Quem acredita na
ressurreição não pode deixar-se paralisar pelo medo (muitas vezes é o medo que
limita a nossa existência e nos impede de defender os valores em que
acreditamos)… Pode comprometer-se na luta pela justiça e pela verdade, na
certeza de que as forças da morte não o podem vencer ou destruir. É essa
certeza que animou o testemunho de tantos mártires de ontem e de hoje… É essa
certeza que anima a minha luta e que dá força ao meu compromisso?
• É, sem dúvida,
inspiradora a “teimosia” com que estes irmãos defendem os valores em que
acreditam. Num mundo em que o que é verdade de manhã, deixou de ser verdade à
tarde, em que o partido dos oportunistas tem cada vez mais simpatizantes e em
que todos os meios são legítimos para alcançar certos fins, o testemunho destes
mártires é uma poderosa interpelação… Somos capazes de defender, com verdade e
verticalidade aquilo em que acreditamos? Somos capazes de lutar, ainda que
contra a corrente, pelos valores que nos parecem mais significativos e
duradouros?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo
16 (17)
Refrão: Senhor, ficarei
saciado, quando surgir a vossa glória.
Ouvi, Senhor, uma causa
justa,
atendei a minha súplica.
Escutai a minha oração,
feita com sinceridade.
Firmai os meus passos nas
vossas veredas,
para que não vacilem os
meus pés.
Eu Vos invoco, ó Deus,
respondei-me,
ouvi e escutai as minhas
palavras.
Protegei-me à sombra das
vossas asas,
longe dos ímpios que me
fazem violência.
Senhor, mereça eu
contemplar a vossa face
e ao despertar saciar-me
com a vossa imagem.
LEITURA II – 2 Tes 2,16-3,5
Leitura da Segunda
Epístola do apóstolo São Paulo aos Tessalonicenses
Irmãos:
Jesus Cristo, nosso
Senhor,
e Deus, nosso Pai,
que nos amou e nos deu,
pela sua graça,
eterna consolação e feliz
esperança,
confortem os vossos
corações
e os tornem firmes em toda
a espécie de boas obras e palavras.
Entretanto, irmãos, orai
por nós,
para que a palavra do
Senhor
se propague rapidamente e
seja glorificada,
como acontece no meio de
vós.
Orai também,
para que sejamos livres
dos homens perversos e maus,
pois nem todos têm fé.
Mas o Senhor é fiel:
Ele vos dará firmeza e vos
guardará do Maligno.
Quanto a vós, confiamos
inteiramente no Senhor
que cumpris e cumprireis o
que vos mandamos.
O Senhor dirija os vossos
corações,
para que amem a Deus
e aguardem a Cristo com
perseverança.
AMBIENTE
Já vimos no passado
domingo que a Segunda Carta aos Tessalonicenses (que alguns admitem não ser de
Paulo) nos coloca frente a uma comunidade cristã fervorosa, que vive com
empenho e generosidade o seu compromisso cristão apesar das provações,
constituindo mesmo um modelo para as comunidades vizinhas (cf. 1 Tes 1,7-8); no entanto, a comunidade a que esta carta se
destina é, também, uma comunidade com algumas dúvidas e inquietações em questões
de doutrina – nomeadamente no que diz respeito ao “dia do Senhor” (isto é, à
segunda vinda de Jesus). De resto, Paulo aproveita a ocasião para corrigir
comportamentos, fazer alguns pedidos e exortar a uma fidelidade cada vez maior
ao Evangelho de Jesus.
MENSAGEM
Depois de apresentar a
doutrina sobre a segunda vinda do Senhor (2,1-12), o autor da carta convida os
tessalonicenses a assumir a atitude correcta,
enquanto esperam essa vinda. Em concreto, o autor da carta pede aos cristãos de Tessalónica que guardem as tradições recebidas de
Paulo, “de viva voz ou por carta”, isto é, pede-lhes que se mantenham fiéis ao
Evangelho de Jesus que o apóstolo lhes transmitiu (2,13-15).
O texto que hoje nos é
proposto como segunda leitura começa precisamente neste ponto… O convite a
permanecer fiéis às tradições recebidas vai acompanhado de uma súplica a Deus
Pai e a Jesus Cristo, para que tornem possível essa fidelidade (2,16-17). Mais
uma vez fica claro que, no processo de salvação do homem, há dois planos: o dom
de Deus e o esforço de fidelidade do homem. É preciso, no entanto, deixar claro
que, sem a graça de Deus, o esforço do homem seria inútil.
Na segunda parte do nosso
texto (3,1-5), temos um pedido de oração pelo apóstolo e pelo seu ministério. À
súplica do autor em favor dos destinatários da carta (2,16-17), deve responder
a súplica dos destinatários da carta em favor do apóstolo. A oração de uns
pelos outros é uma forma preciosa de solidariedade cristã.
De resto, os crentes que
já receberam a Palavra transformadora e libertadora de Jesus devem solicitar a
ajuda divina para que a proposta de salvação que Cristo veio trazer, e que a
Igreja ficou encarregada de testemunhar, chegue a todos os homens; ainda mais
se, como parece insinuar-se no presente caso, as circunstâncias são
decididamente adversas à proclamação e vivência do Evangelho. Repare-se como,
também aqui, o papel de Deus é central: o autor da carta sabe que, sem a ajuda
de Deus, será impossível ao apóstolo dar testemunho.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão da Palavra pode
fazer-se a partir dos seguintes elementos:
• Este texto obriga-me a
tomar consciência de que é com a ajuda de Deus que o crente consegue viver na
fidelidade ao Evangelho, enquanto espera a vinda do Senhor. Tenho consciência
de que é d’Ele que brota a minha fidelidade ao Evangelho, ou considero que as
minhas vitórias e conquistas, neste campo, se devem apenas a mim, aos meus
méritos e qualidades?
• É com a ajuda de Deus
que o missionário tem a coragem de anunciar fielmente o Evangelho e de vencer
as dificuldades, as injustiças, as incompreensões, as oposições que são
obstáculo ao seu trabalho e ao seu testemunho. Tenho consciência de que é na
oração – minha e dos meus irmãos – que encontro a força de Deus? Quando, como
apóstolo, tenho de enfrentar a oposição e a incompreensão do mundo, confio em
Deus, peço-Lhe ajuda, ou deixo que o medo e o desânimo tomem conta do meu
coração e me levem a desistir da missão que Deus me confiou?
• O pedido de rezar “uns
pelos outros” convida-nos a tomar consciência da solidariedade que deve marcar
a experiência comunitária. O cristão nunca é uma pessoa isolada, mas o membro
de uma família de irmãos, chamados a viver no amor, na partilha, na entrega da
vida, como membros de um único corpo – o corpo de Cristo. É preciso tomar
consciência dos laços que nos unem, sentirmo-nos responsáveis pelos nossos
irmãos, partilhar as suas dores e alegrias, fazer nossos os seus problemas e,
no nosso diálogo com Deus, ter presente as necessidades de todos.
ALELUIA – Ap 1,5a.6b
Aleluia. Aleluia.
Jesus Cristo é o Primogénito dos mortos.
A Ele a glória e o poder
pelos séculos dos séculos.
EVANGELHO – Lc 20,27-38
Evangelho de Nosso Senhor
Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
aproximaram-se de Jesus
alguns saduceus
– que negam a ressurreição
–
e fizeram-lhe a seguinte
pergunta:
«Mestre, Moisés deixou-nos
escrito:
‘Se morrer a alguém um
irmão,
que deixe mulher, mas sem
filhos,
esse homem deve casar com
a viúva,
para dar descendência a
seu irmão’.
Ora havia sete irmãos.
O primeiro casou-se e
morreu sem filhos.
O segundo e depois o
terceiro desposaram a viúva;
e o mesmo sucedeu aos
sete,
que morreram e não
deixaram filhos.
Por fim, morreu também a
mulher.
De qual destes será ela
esposa na ressurreição,
uma vez que os sete a
tiveram por mulher?»
Disse-lhes Jesus:
«Os filhos deste mundo
casam-se e dão-se em
casamento.
Mas aqueles que forem
dignos
de tomar parte na vida
futura e na ressurreição dos mortos,