3º DOMINGO DO TEMPO COMUM A
27 de Janeiro de 2008
Tema do 3º Domingo do Tempo Comum
A liturgia deste domingo apresenta-nos o projecto de salvação e de vida plena
que Deus tem para oferecer ao mundo e aos homens: o projecto do “Reino”.
Na primeira leitura, o profeta/poeta Isaías anuncia uma luz que Deus irá fazer
brilhar por cima das montanhas da Galileia e que porá fim às trevas que
submergem todos aqueles que estão prisioneiros da morte, da injustiça, do
sofrimento, do desespero.
O Evangelho descreve a realização da promessa profética: Jesus é a luz que
começa a brilhar na Galileia e propõe aos homens de toda a terra a Boa Nova da
chegada do “Reino”. Ao apelo de Jesus, respondem os discípulos: eles serão os
primeiros destinatários da proposta e as testemunhas encarregadas de levar o
“Reino” a toda a terra.
A segunda leitura apresenta as vicissitudes de uma comunidade de discípulos,
que esqueceram Jesus e a sua proposta. Paulo, o apóstolo, exorta-os
veementemente a redescobrirem os fundamentos da sua fé e dos compromissos
assumidos no baptismo.
LEITURA I – Is 8,23b-9,3
Leitura do Livro de Isaías
Assim como no tempo passado
foi humilhada a terra de Zabulão e de Neftali,
também no futuro será coberto de glória
o caminho do mar, o Além do Jordão, a Galileia dos gentios.
O povo que andava nas trevas viu uma grande luz;
para aqueles que habitavam nas sombras da morte
uma luz se levantou.
Multiplicastes a sua alegria,
aumentastes o seu contentamento.
Rejubilam na vossa presença,
como os que se alegram no tempo da colheita,
como exultam os que repartem despojos.
Vós quebrastes, como no dia de Madiã,
o jugo que pesava sobre o povo,
o madeiro que ele tinha sobre os ombros
e o bastão do opressor.
AMBIENTE
O Livro do profeta Isaías propõe-nos um conjunto de oráculos ditos
“messiânicos”, que alimentam a esperança do Povo nesse mundo de justiça e de
paz que Deus, num futuro sem data marcada, vai oferecer aos seus. Há quem
defenda, no entanto, que esses textos messiânicos não provêm de Isaías, mas são
oráculos posteriores, enxertados no texto original do profeta pelo editor final
da obra isaiana.
O nosso texto pertence, provavelmente, à fase final da vida do profeta. Estamos
no final do séc. VIII a.C.. Os assírios (que em 721 a.C. conquistaram Samaria,
a antiga capital do reino de Israel) oprimem e humilham as tribos do Povo de
Deus instaladas na região norte do país (Zabulão e Neftali); as trevas da
desolação e da morte cobrem toda a região setentrional da Palestina.
No sul, em Jerusalém, reina Ezequias. O rei, desdenhando as indicações do
profeta (para quem as alianças políticas com os povos estrangeiros são sintoma
de grave infidelidade para com Jahwéh, pois significam colocar a confiança e a
esperança nos homens), envia embaixadas ao Egipto, à Fenícia e à Babilónia,
procurando consolidar uma frente contra a maior e mais ameaçadora potência da
época – a Assíria. A resposta de Senaquerib, rei da Assíria, não se faz
esperar: tendo vencido sucessivamente os membros da coligação, volta-se contra
Judá, devasta o país e põe cerco a Jerusalém (701 a.C.). Ezequias tem de
submeter-se e fica a pagar um pesado tributo aos assírios.
Por essa época, desiludido com os reis e com a política, o profeta teria
começado a sonhar com uma intervenção de Deus para oferecer ao seu Povo um mundo
novo, de liberdade e de paz sem fim. Este texto pode ser dessa época.
MENSAGEM
O nosso texto está construído sobre um jogo de oposições: “humilhar/cobrir de
glória”, “trevas/luz”, “caminhar nas sombras da morte (desolação, desespero)/alegria e contentamento”. Os conceitos negativos
(“humilhar”, “trevas”, “caminhar nas sombras da morte”) definem a situação
actual; os conceitos positivos (“cobrir de glória”, “luz”, “alegria e
contentamento”) definem a situação futura.
Como se passará da actual situação de opressão, de frustração, de desespero, à
situação futura de alegria, de contentamento, de esperança?
O profeta fala de “uma luz” que irá começar a brilhar por cima dos montes da
Galileia e que irá iluminar toda a terra. Essa luz eliminará “as trevas” que
mantinham o Povo oprimido e sem esperança e inaugurará o dia novo da alegria e
da paz sem fim. O jugo da opressão que pesava sobre o Povo será, então,
quebrado e a paz deixará de ser uma miragem para se tornar uma realidade. Para
descrever a alegria que, nesse novo quadro, encherá o coração do Povo, o
profeta utiliza duas imagens extremamente sugestivas: é como quando, no fim das
colheitas, toda a gente dança feliz, celebrando a abundância dos alimentos; é
como quando, após a caçada, os caçadores dividem a presa abundante.
Qual a origem dessa luz libertadora e recriadora? O sujeito dos verbos do
versículo 3 é, indubitavelmente, Deus: será Deus quem quebrará a vara do
opressor, quem levantará o jugo que oprime o Povo de Deus, quem triturará o
bastão de comando que gera escravidão e humilhação. O mundo novo de alegria e
de paz sem fim é um dom de Deus.
O nosso texto fica por aqui; mas, na sequência, o oráculo de Isaías ainda fala
num “menino”, enviado por Deus para restaurar o trono de David e para reinar no
direito e na justiça (cf. Is 9,5-6). É a promessa messiânica em todo o seu
esplendor.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão e a partilha da Palavra podem fazer-se a partir dos seguintes
elementos:
• É Jesus, a luz que ilumina o mundo com uma aurora de esperança, que dá
sentido pleno a esta profecia messiânica de Isaías. Ele é “Aquele que veio de
Deus” para vencer as trevas e as sombras da morte que ocultavam a esperança e
instaurar o mundo novo da justiça, da paz, da felicidade. No entanto, a luz de
Jesus é, hoje, uma realidade instituída, viva, actuante na história humana? Porquê?
• Acolher Jesus é aceitar esse projecto de justiça e de paz que Ele veio propor
aos homens. Esforçamo-nos por tornar realidade o “Reino de Deus”? Como lidamos
com as situações de injustiça, de opressão, de conflito, de violência: com a
indiferença de quem sente que não tem nada a ver com isso enquanto essas
realidades não nos atingem directamente, ou com a inquietação de quem se sente
responsável pela instauração do “Reino de Deus” entre os homens?
• Em que, ou em quem, coloco eu a minha esperança e a
minha segurança: nos políticos que me prometem tudo e se servem da minha
ingenuidade para fins próprios? No dinheiro que se desvaloriza e que não serve
para comprar a paz do meu coração? Na situação sólida da minha empresa, que
pode desfazer-se diante das próximas convulsões sociais ou durante a próxima
crise energética? Isaías sugere que só podemos confiar em Deus e na sua decisão
de vir ao nosso encontro para nos apresentar uma proposta de vida e de paz.
SALMO REPONSORIAL – Salmo 26 (27)
Refrão 1: O Senhor é minha luz e salvação.
Refrão 2: O Senhor me ilumina e me salva.
O Senhor é minha lua e salvação:
a quem hei-de temer?
O Senhor é protector da minha vida:
de quem hei-de ter medo?
Uma coisa peço ao Senhor, por ela anseio:
habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida,
para gozar da suavidade do Senhor
e visitar o seu santuário.
Espero vir a contemplar a bondade do Senhor
na terra dos vivos.
Confia no Senhor, sê forte.
Tem confiança e confia no Senhor.
LEITURA II – 1 Cor 1,10-13.17
Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios
Irmãos:
Rogo-vos, pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo,
que faleis todos a mesma linguagem
e que não haja divisões entre vós,
permanecendo bem unidos,
no mesmo pensar e no mesmo agir.
Eu soube, meus irmãos, pela gente de Cloé,
que há divisões entre vós, que há entre vós quem diga:
«Eu sou de Paulo», «eu de Apolo»,
«eu de Pedro», «eu de Cristo».
Estará Cristo dividido?
Porventura Paulo foi crucificado por vós?
Foi em nome de Paulo que recebeste o Baptismo?
Na verdade, Cristo não me enviou para baptizar,
mas para anunciar o Evangelho;
não, porém, com sabedoria de palavras,
a fim de não desvirtuar a cruz de Cristo.
AMBIENTE
Após ter abandonado a cidade de Corinto, Paulo continuou em contacto com a
comunidade cristã. Mesmo distante, continuava a acompanhar a vida da comunidade
e inteirava-se regularmente das dificuldades e problemas que os seus queridos
filhos de Corinto tinham de enfrentar.
Quando escreveu a primeira carta aos Coríntios, Paulo estava em Éfeso. De
Corinto haviam chegado, entretanto, notícias alarmantes. Após a partida de
Paulo, tinha aparecido na cidade um pregador cristão – um tal Apolo, judeu de Antioquia, convertido ao cristianismo. Era eloquente, versado
nas Escrituras e foi de grande utilidade para a comunidade na polémica com os
judeus. Era mais brilhante do que Paulo – conhecido pela sua falta de
eloquência (cf. 2 Cor 10,10). Formaram-se partidos na comunidade (embora Apolo
não favorecesse essa divisão, segundo parece): uns admiravam Paulo, outros
Cefas (Pedro), outros Apolo (cf. 1 Cor 1,12). Formaram-se “partidos”, à imagem
do que acontecia nas escolas filosóficas da cidade, que tinham os seus mestres,
à volta dos quais circulavam os adeptos ou simpatizantes: o cristianismo
tornava-se, dessa forma, mais uma escola de sabedoria, na qual era possível
optar por mestres distintos.
A situação preocupou enormemente Paulo: além dos conflitos e rivalidades que a
divisão provocava, estava em causa a essência da fé. O cristianismo corria,
dessa forma, o perigo de se tornar mais uma escola de sabedoria, cuja validade
dependia do brilho dos mestres que apresentavam a ideologia e do seu poder de
convicção.
MENSAGEM
Para Paulo, contudo, o cristianismo não era a escolha de uma determinada
filosofia de vida, defendida mais ou menos brilhantemente por um mestre
qualquer; mas era a adesão a Jesus Cristo, o único e verdadeiro mestre.
Paulo não mede as palavras: a Cristo e unicamente a Cristo
os cristãos, todos, foram consagrados pelo baptismo. É Cristo e só Cristo a
única fonte de salvação. Ser baptizado é entrar a fazer parte do corpo de
Cristo e participar no acontecimento salvador do qual Cristo é o único
mediador. Dizer que se é de Paulo, ou de Cefas, ou de Pedro é, portanto,
desvirtuar gravemente a essência da fé cristã. Foi Paulo quem foi crucificado
em benefício dos coríntios? O baptismo significou uma adesão à doutrina de
Paulo, ou de outro qualquer mestre?
Deve ficar bem claro que o importante não é quem baptizou ou quem anunciou o
Evangelho: o importante é Cristo, do qual Paulo, Cefas e Apolo são simples e
humanos instrumentos. Os coríntios são, portanto, intimados a não fixar a sua
atenção em mestres humanos e a redescobrir Cristo, morto na cruz para dar vida
a todos, como a essência da sua fé e do seu compromisso. Dessa forma, a
comunidade será uma verdadeira família de irmãos, que recebe vida de Cristo,
que vive em unidade e comunhão.
ACTUALIZAÇÃO
Para reflectir, considerar os seguintes dados:
• O texto recorda que a experiência cristã é, fundamentalmente, um encontro com
Cristo; é d’Ele e só d’Ele que brota a salvação. A vivência da nossa fé não
pode, portanto, depender do carisma da pessoa tal, ou estar ligada à personalidade
brilhante deste ou daquele indivíduo que preside à comunidade. Para além da
forma mais ou menos brilhante, mais ou menos coerente como tal pessoa anuncia
ou testemunha o Evangelho, tem de estar a nossa aposta em Cristo; é n’Ele e só n’Ele que bebemos a salvação; é a Ele e só a Ele
que o nosso compromisso baptismal nos liga. Cristo é, de facto, a minha
referência fundamental? É à volta d’Ele e da sua proposta de vida que a minha
experiência de fé se constrói? Em concreto: que sentido é que faz, neste contexto,
dizer que só se vai à missa se for tal padre a presidir? Que sentido é que faz
afastar-se da comunidade porque não gostamos da atitude ou do jeito de ser
deste ou daquele animador?
• Neste contexto, ainda, que sentido fazem os ciúmes, os conflitos, os
partidos, que existem, com frequência, nas nossas comunidades cristãs? Cristo
pode estar dividido? Os conflitos e as divisões não serão um sinal claro de
que, algures durante a caminhada, os membros da comunidade perderam Cristo? As
guerras e rivalidades dentro de uma comunidade não serão um sinal evidente de
que o que nos move não é Cristo, mas os nossos interesses, o nosso orgulho, o
nosso egoísmo?
• Há casos em que as pessoas com responsabilidade de animação nas comunidades
cristãs favorecem, consciente ou inconscientemente, o culto da personalidade.
Não se preocupam em levar as pessoas a descobrir Cristo, mas em conduzir o
olhar e o coração dos fiéis para a sua própria e brilhante personalidade.
Tornam-se imprescindíveis e inamovíveis, são incensadas e endeusadas e
potenciam grupos de pressão que as admiram, que as apoiam e que as seguem de
olhos fechados. Que sentido é que isto faz, à luz daquilo que Paulo nos diz,
neste texto?
ALELUIA – cf. Mt 4,23
Aleluia. Aleluia.
Jesus proclamava o Evangelho do reino
e curava todas as doenças entre o povo.
EVANGELHO – Mt 4,12-23
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Quando Jesus ouviu dizer
que João Baptista fora preso,
retirou-se para a Galileia.
Deixou Nazaré e foi habitar em Cafarnaum,
terra à beira-mar, no território de Zabulão e Neftali.
Assim se cumpria o que o profeta Isaías anunciara, ao dizer:
«Terra de Zabulão e terra de Neftali,
estrada do mar, além do Jordão, Galileia dos Gentios:
o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz;
para aqueles que habitavam na sombria região da morte,
uma luz se levantou».
Desde então, Jesus começou a pregar:
«Arrependei-vos, porque o reino de Deus está próximo».
Caminhando ao longo do mar da Galileia,
viu dois irmãos:
Simão, chamado Pedro, e seu irmão André,
que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores.
Disse-lhes Jesus: «Vinde e segui-Me
e farei de vós pescadores de homens».
Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O.
Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos:
Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João,
que estavam no barco, na companhia de seu pai Zebedeu,
a consertar as redes.
Jesus chamou-os
e eles, deixando o barco e o pai, seguiram-n’O.
Depois começou a percorrer toda a Galileia,
ensinando nas sinagogas,
proclamando o Evangelho do reino
e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.
AMBIENTE
O texto que nos é proposto como Evangelho funciona um pouco como
texto-charneira, que encerra a etapa da preparação de Jesus para a missão (cf.
Mt 3,1-4,16) e que lança a etapa do anúncio do Reino.
O texto situa-nos na Galileia, a região setentrional da Palestina, zona de
população mesclada e ponto de encontro de muitos povos. Refere, ainda, a cidade
de Cafarnaum: situada no limite do território de Zabulão e de Neftali, na
margem noroeste do lago de Genezaré, no enfiamento do “caminho do mar” (que
ligava o Egipto e a Mesopotâmia), era considerada a capital judaica da Galileia
(Tiberíades, a capital política da região, por causa dos seus costumes
gentílicos e por estar construída sobre um cemitério, era evitada pelos
judeus). A sua situação geográfica abria-lhe, também, as portas dos territórios
dos povos pagãos da margem oriental do lago.
MENSAGEM
Na primeira parte (cf. Mt 4,12-16), Mateus refere como
Jesus abandona Nazaré, o seu lugar de residência habitual, e se transfere para
Cafarnaum. Mateus descobre nesse facto um significado profundo, à luz de Is
8,23-9,1: a “luz” que havia de eliminar as trevas e as sombras da morte de que
fala Isaías é, para Mateus, o próprio Jesus. Na terra humilhada de Zabulão e
Neftali, vai começar a brilhar a luz da libertação; e essa libertação vai
atingir, também, os pagãos que acolherem o anúncio do Reino (para Mateus, é bem significativo que o primeiro anúncio ecoe na Galileia, terra
onde os gentios se misturam com os judeus e, concretamente, em Cafarnaum, a cidade que, pela sua situação geográfica, é uma ponte para as terras dos
pagãos). O anúncio libertador de Jesus apresenta, desde logo, uma dimensão
universal.
Na segunda parte (cf. Mt 4,17-23), Mateus apresenta o
lançamento da missão de Jesus: define-se o conteúdo básico da pregação que se
inicia, mostra-se o “Reino” como realidade viva actuante, apresentam-se os
primeiros discípulos que acolhem o apelo do “Reino” e que vão acompanhar Jesus
na missão.
Qual é, em primeiro lugar, o conteúdo do anúncio? O versículo 17 di-lo de forma
clara: Jesus veio trazer “o Reino”. A expressão “Reino de Deus” (ou “Reino dos
céus”, como prefere dizer Mateus) refere-se, no Antigo Testamento e na época de
Jesus, ao exercício do poder soberano de Deus sobre os homens e sobre o mundo. Decepcionado com a forma como os reis humanos exerceram a realeza
(no discurso profético aparecem, a par e passo, denúncias de injustiças
cometidas pelos reis contra os pobres, de atropelos ao direito orquestrados
pela classe dirigente, de responsabilidades dos líderes no abandono da aliança,
de graves omissões no que diz respeito aos compromissos assumidos para com
Jahwéh), o Povo de Deus começa a sonhar com um tempo novo, em que o próprio Deus
vai reinar sobre o seu Povo; esse reinado será marcado – na perspectiva
dos teólogos de Israel – pela justiça, pela misericórdia, pela preocupação de
Deus em relação aos pobres e marginalizados, pela abundância e fecundidade,
pela paz sem fim.
Jesus tem consciência de que a chegada do “Reino” está ligada à sua pessoa. O
seu primeiro anúncio resume-se, para Mateus, no seguinte slogan: “arrependei-os
('metanoeite') porque o Reino dos céus está a chegar”.
O convite à conversão (“metanoia”) é um convite a uma mudança radical na
mentalidade, nos valores, na postura vital. Corresponde, fundamentalmente, a um
reorientar a vida para Deus, a um reequacionar a vida, de modo a que Deus e os
seus valores passem a estar no centro da existência do homem; só quando o homem
aceita que Deus ocupe o lugar que lhe compete, está preparado para aceitar a
realeza de Deus… Então, o “Reino” pode nascer e tornar-se realidade no mundo e
nos corações.
Na sequência, Mateus apresenta Jesus a construir activamente o “Reino” (vers.
23-24): as suas palavras anunciam essa nova realidade e os seus gestos (os
milagres, as curas, as vitórias sobre tudo o que rouba a vida e a felicidade do
homem) são sinais evidentes de que Deus começou já a reinar e a transformar a
escravidão em vida e liberdade.
Finalmente, Mateus descreve o chamamento dos primeiros discípulos (vers.
18-22). Não se trata, segundo parece (a comparação
deste relato, que Mateus toma de Marcos, com os relatos paralelos de Lucas e
João, mostra que estamos diante de um relato estilizado, cujo objectivo é pôr
em relevo os passos fundamentais da vocação) de um relato jornalístico de
acontecimentos, mas de uma catequese sobre o chamamento e a adesão ao projecto
do “Reino”. Através da resposta pronta de Pedro e André, Tiago e João, propõe-se
um exemplo da conversão radical ao “Reino” e de adesão às suas exigências.
O relato sublinha uma diferença fundamental entre os chamados por Jesus e os
discípulos que se juntavam à volta dos mestres do judaísmo: não são os
discípulos que escolhem o mestre e pedem para entrar no seu grupo, como
acontecia com os discípulos dos “rabbis”; mas a iniciativa é de Jesus, que
chama os discípulos que Ele próprio escolheu, que os
convida a segui-l’O e lhes propõe uma missão.
A resposta dos quatro discípulos ao chamamento é paradigmática: renunciam à
família, ao seu trabalho, às seguranças instituídas e seguem Jesus sem
condições. Esta ruptura (que significa não só uma ruptura afectiva com pessoas,
mas também a ruptura com um quadro de referências sociais e de segurança
económica) indicia uma opção radical pelo “Reino” e pelas suas exigências.
Uma palavra para a missão que é proposta aos discípulos que aceitam o desafio
do “Reino”: eles serão pescadores de homens. O mar é, na cultura judaica, o
lugar dos demónios, das forças da morte que se opõem à vida e à felicidade dos
homens; a tarefa dos discípulos que aceitam integrar o “Reino” será, portanto,
libertar os homens dessa realidade de morte e de escravidão em que eles estão
mergulhados, conduzindo-os à liberdade e à realização plenas.
Estes quatro discípulos representam todo o grupo dos discípulos, de todos os
tempos e lugares… Eles devem responder positivamente ao chamamento, optar pelo
“Reino” e pelas suas exigências e tornarem-se testemunhas da vida e da salvação
de Deus no meio dos homens e do mundo.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão e a partilha da Palavra que nos é proposta podem partir dos
seguintes dados:
• Jesus é o Deus que vem ao nosso encontro para realizar os nossos sonhos de
felicidade sem limites e de paz sem fim. N’Ele e
através d’Ele (das suas palavras, dos seus gestos), o “Reino” aproximou-se dos
homens e deixou de ser uma quimera, para se tornar numa realidade em construção
no mundo. Contemplar o anúncio de Jesus é abismar-se na contemplação de uma
incrível história de amor, protagonizada por um Deus que não cessa de nos
oferecer oportunidades de realização e de vida plena. Sobretudo, o anúncio de
Jesus toca e enche de júbilo o coração dos pobres e humilhados, daqueles cuja
voz não chega ao trono dos poderosos, nem encontram lugar à mesa farta do
consumismo, nem protagonizam as histórias balofas das colunas sociais. Para
eles, ouvir dizer que “o Reino chegou” significa que Deus quer oferecer-lhes
essa vida plena e feliz que os grandes e poderosos insistem em negar-lhes.
• Para que o “Reino” seja possível, Jesus pede a “conversão”. Ela é, antes de
mais, um refazer a existência, de forma a que só Deus ocupe o primeiro lugar na
vida do homem. Implica, portanto, despir-se do egoísmo que impede de estar
atento às necessidades dos irmãos; implica a renúncia ao comodismo, que impede
o compromisso com os valores do Evangelho; implica o sair do isolamento e da
auto-suficiência, para estabelecer relação e para fazer da vida um dom e um
serviço aos outros… O que é que nas estruturas da sociedade ainda impede a
efectivação do “Reino”? O que é que na minha vida, nas minhas opções, nos meus
comportamentos constitui um obstáculo à chegada do “Reino”?
• A história do compromisso de Pedro e André, Tiago e João com Jesus e com o
“Reino” é uma história que define os traços essenciais da caminhada de qualquer
discípulo… Em primeiro lugar, é preciso ter consciência de que é Jesus que
chama e que propõe o Reino; em segundo lugar, é preciso ter a coragem de
aceitar o chamamento e fazer do “Reino” a prioridade essencial (o que pode
implicar, até, deixar para segundo plano os afectos, as seguranças, os valores
humanos); em terceiro lugar, é preciso acolher a missão que Jesus confia e
comprometer-se corajosamente na construção do “Reino” no mundo. É este o
caminho que eu tenho vindo a percorrer?
• A missão dos que escutaram o apelo do “Reino” passa por testemunhar a
salvação que Deus tem para oferecer a todos os homens, sem excepção. Nós,
discípulos de Jesus, comprometidos com a construção do “Reino”, somos
testemunhas da libertação e levamos a Boa Nova da salvação aos homens de toda a
terra? Aqueles que vivem condenados à marginalização (por causa do fraco poder
económico, por causa da doença, por causa da solidão, por causa do seu inexistente
poder de reivindicação), já receberam, através do nosso testemunho, a Boa Nova
do “Reino”?
• Em certos momentos da história, procura vender-se a ideia de que o mundo novo
da justiça e da paz se constrói a golpes de poder militar, de mísseis, de armas
sofisticadas, de instrumentos de morte… Atenção: a lógica do “Reino” não é uma
lógica de violência, de vingança, de destruição; mas é uma lógica de amor, de
doação da vida, de comunhão fraterna, de tolerância, de respeito pelos outros.
A tentação da violência é uma tentação diabólica, que só gera sofrimento e
escravidão: aí, o “Reino” não está.
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 3º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao Domingo do 3º Domingo do Tempo Comum,
procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma
leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação
comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo
de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa…
2. ORAÇÃO PARA A UNIDADE DOS CRISTÃOS.
A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos já terminou. Se no domingo
anterior não houve um gesto concreto, pode-se associais a assembleia a esta
intenção fundamental da Unidade. Pode ser proposta uma caminhada no momento do
Credo: lamparinas ou pequenas velas são distribuídas aos fiéis à entrada da
igreja e acesas para a profissão de fé; terminada esta, todos vão em procissão e colocam-nas junto a uma grande Cruz perto
do altar. Antes da profissão de fé, uma introdução apresenta o gesto como o
reconhecimento da luz da Cruz, única fonte de Unidade.
3. BILHETE DE EVANGELHO: UNIDADE E PAZ…
Seria bom terminar o mês de Janeiro, celebrando duas dimensões marcantes da
caminhada neste mês: a Paz (Natal e primeiro dia do ano) e a Unidade (Semana de
Oração que acaba de terminar). Nestes dias, rezámos pela Unidade, em comunhão
com todos os nossos irmãos cristãos que a história separou. Em Dezembro e
início do ano, rezámos pela Paz, em comunhão com todos os crentes que erguem os
olhos para Aquele que chamam Deus. Devemos desejar esta Unidade e esta Paz,
porque sofremos todos da separação e dos conflitos de vária ordem. Mas se a
Unidade e a Paz permanecem apenas como votos, quem os realizará? É preciso
decidir e fazer a Unidade. Há palavras, gestos, caminhadas que unem, que congregam. Isso tem um nome: Reconciliação. É
preciso decidir e fazer a Paz: há mãos estendidas, olhares benevolentes, escutas
atentas, palavras apaziguadoras, julgamentos compreensíveis. Isso tem um nome:
Perdão. A Unidade e a Paz: podemos desejá-las! A Reconciliação e o Perdão:
devemos decidi-los!
4. ATENÇÃO ÀS CRIANÇAS.
A primeira leitura e o Evangelho mencionam nomes de lugares. Para os concretizar junto das crianças, pode-se preparar um mapa
(foto, desenho ou projecção) da terra de Jesus. Nele podemos inscrever o nome
dos lugares mencionados, mas também alguns pontos de referência: o
Mediterrâneo, Jerusalém, Belém. O objectivo é ajudar as crianças a perceber que
este país existe e que há, como no nosso país, cidades, aldeias, regiões,
montanhas, lagos, etc. Este mapa pode ser apresentado durante a introdução às
leituras. Os lugares de referência estão já são escritos anteriormente. Os que
são mencionados nas leituras são colocados pelas crianças no momento em que são
citados pelo leitor.
5. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o
acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Deus de luz e de glória, nós Te damos graças pela tua constante presença ao
lado do teu povo. Depois da saída do Egipto até hoje, Tu nos visitas sempre que
estamos nas trevas.
Nós Te pedimos pelos nossos irmãos que habitam a terra das trevas, e por nós
mesmos, que nos envias a levar-lhes a luz.
No final da segunda leitura:
Deus nosso Pai, nós Te bendizemos pelo Espírito de unidade que revelas às tuas
Igrejas em todo o tempo e lugar, desde a época de São Paulo até aos nossos dias.
Nós Te pedimos pelas comunidades e pelas famílias cristãs: que não haja divisão
entre nós, que estejamos em perfeita harmonia, para tornar credível o anúncio
do Evangelho e a salvação pela Cruz de Cristo.
No final do Evangelho:
Nosso Pai, nós Te louvamos pelo Reino dos céus, do qual manifestaste a presença
no meio de nós, e pelo apelo que diriges a cada um de nós.
Nós Te pedimos pelas tuas comunidades e por todos nós: Converte os nossos
corações à tua presença nas nossas vidas. Tu nos envias como pescadores de
homens. Fortalece a nossa fé em Ti, que ela seja irradiadora de luz.
6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística I, dizendo o nome dos apóstolos referidos
no Evangelho…
7. PALAVRA EXPLICADA: A ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
O Missal actual propõe, à escolha, uma dezena de orações eucarísticas,
enquanto, antes do Concílio, as liturgias latinas só conheciam uma, o cânon
romano, a actual oração eucarística I. Todas as dez orações eucarísticas têm os
mesmos elementos, com importantes variantes, mas a organização do conjunto
varia ligeiramente: na oração eucarística I, as intercessões pelos vivos são
colocadas antes da narração da Última Ceia e, nas orações eucarísticas das
assembleias com crianças, são mais numerosas que nas outras. Todas as orações
eucarísticas começam pelo louvor a Deus e a recordação das suas obras, com uma
evocação da liturgia celeste, à qual nos associamos pelo canto do Três vezes Santo. O louvor converge para a narração da
Última Ceia que é o culminar da obra da salvação. As palavras que envolvem e
seguem esta narração exprimem a implicação que ela tem para a assembleia:
expressão de oferenda, invocação do Espírito Santo, intercessões pela Igreja,
pelos seus membros vivos e defuntos, e pelo mundo.
8. PALAVRA PARA O CAMINHO.
Irradiar a luz… Os textos bíblicos de hoje são atravessados de Luz para o nosso
caminho de trevas. Quantos homens e mulheres andam à procura de sentido e procuram o seu caminho na noite… As nossas vidas de
baptizados estão em coerência com Aquele de quem nos reclamamos como cristãos?
A Luz do Ressuscitado é-nos confiada para nos juntarmos aos nossos irmãos…
Somos focos que irradiam luz ou candeeiros opacos?
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
scj.lu@netcabo.pt – www.ecclesia.pt/dehonianos