4º DOMINGO DO TEMPO COMUM A
3 de Fevereiro de 2008
Tema do 4º Domingo do Tempo Comum
As leituras deste domingo propõem-nos uma reflexão sobre o “Reino” e a
sua lógica. Mostram que o projecto de Deus – o projecto do “Reino” – roda em sentido contrário à lógica do
mundo… Nos esquemas de Deus – ao contrário dos esquemas do mundo – são os
pobres, os humildes, os que aceitaram despir-se do egoísmo, do orgulho, dos
próprios interesses que são verdadeiramente felizes. O “Reino” é para eles.
Na primeira leitura, o profeta Sofonias denuncia o orgulho e a auto-suficiência dos ricos e dos poderosos e convida o
Povo de Deus a converter-se à pobreza. Os “pobres” são aqueles que se entregam
nas mãos de Deus com humildade e confiança, que acolhem com amor as suas
propostas e que são justos e solidários com os irmãos.
Na segunda leitura, Paulo denuncia a atitude daqueles que colocam a sua
esperança e a sua segurança em pessoas ou em esquemas humanos e que assumem
atitudes de orgulho e de auto-suficiência; e convida os crentes a encontrar em
Cristo crucificado a verdadeira sabedoria que conduz à salvação e à vida plena.
O Evangelho apresenta a magna carta do “Reino”. Proclama
“bem-aventurados” os pobres, os mansos, os que choram, os que procuram cumprir
fielmente a vontade de Deus, porque já vivem na lógica do “Reino”; e recomenda
aos crentes a misericórdia, a sinceridade de coração, a luta pela paz, a
perseverança diante das perseguições: essas são as atitudes que correspondem ao
compromisso pelo “Reino”.
LEITURA I – Sof 2,3;3,12-13
Leitura da Profecia de Sofonias
Procurai o Senhor, vós todos os humildes da terra,
que obedeceis aos seus mandamentos.
Procurai a justiça, procurai a humildade;
talvez encontreis protecção no dia da ira do
Senhor.
Só deixarei ficar no meio de ti um povo pobre e humilde,
que buscará refúgio no nome do Senhor.
O resto de Israel não voltará a cometer injustiças,
não tornará a dizer mentiras,
nem mais se encontrará na sua boca uma língua enganadora.
Por isso, terão pastagem e repouso,
sem ninguém que os perturbe.
AMBIENTE
O profeta Sofonias pregou em Jerusalém na
época do rei Josias (Josias reinou entre 639 e 609 a.C.). Os comentadores
costumam situar a profecia de Sofonias durante o
tempo de menoridade de Josias (que subiu ao trono aos oito anos); durante esse
tempo, foi um Conselho real que presidiu aos destinos de Judá.
Trata-se de uma época difícil para o Povo de Deus. Judá está – há cerca
de um século – submetida aos assírios (desde que Acaz pediu ajuda a Tiglat-Pileser III contra Damasco e a Samaria, no ano 734 a.C.); a influência estrangeira
sente-se em todos os degraus da vida nacional e a nação sofre as consequências da invasão de costumes estranhos e de
práticas pagãs. Por outro lado, o país acaba de sair do reinado do ímpio Manassés (698-643 a.C.), que reconstruiu os lugares de culto
aos deuses estrangeiros, levantou altares a Baal,
ofereceu o próprio filho em holocausto, dedicou-se à adivinhação e à magia,
colocou no Templo de Jerusalém a imagem de Astarte (cf. 2 Re 21,3-9).
Aos pecados contra Jahwéh e contra a aliança,
somam-se as injustiças que, todos os dias, atingem os mais pobres e
desprotegidos. Os príncipes e ministros abusam da sua autoridade e cometem
arbitrariedades, os juízes são corruptos e os comerciantes especulam com a
miséria…
Sofonias está consciente de que Jahwéh não pode
continuar a pactuar com o pecado do seu Povo; vai chegar o dia do Senhor, isto
é, o dia da intervenção de Deus em que os maus serão castigados e a injustiça
será banida da terra. Da ira do Senhor escaparão, contudo, os humildes e os
pobres, os que se mantiveram fiéis à aliança. O fim da pregação de Sofonias não é, contudo, anunciar o castigo; mas é provocar
a conversão, passo fundamental para chegar à salvação.
MENSAGEM
O nosso texto começa com um apelo à conversão (cf. Sof 2,3). Para Sofonias, “conversão” significa, objectivamente, justiça e humildade. Os “humildes”, no
contexto de Sofonias, são aqueles se entregam
confiadamente nas mãos de Deus, que seguem os caminhos de Deus, que aceitam as
propostas de Deus e que não se colocam contra Ele; são, também, aqueles que
praticam a justiça para com os irmãos, que respeitam os direitos dos mais
débeis, que não cometem arbitrariedades… Equivalem aos “pobres” das
bem-aventuranças: não são uma categoria sociológica, mas aqueles que estão numa
certa atitude espiritual de abertura a Deus e aos irmãos. No lado oposto estão
os orgulhosos e auto-suficientes, que ignoram as propostas de Deus, exploram,
são injustos, corruptos e arbitrários. Só uma verdadeira conversão à humildade
permitirá encontrar protecção no “dia da ira do
Senhor” que se aproxima e que vai atingir os orgulhosos, os prepotentes e os
injustos.
Em seguida, Sofonias apresenta o resultado do
“dia da ira do Senhor”: o surgimento do “resto de Israel” (cf. Sof 3,12-13). Os orgulhosos, arrogantes e prepotentes serão
banidos do meio do Povo de Deus (cf. Sof 3,11);
ficará um “resto” humilde e pobre”, que se entregará nas mãos do Senhor, não
cometerá iniquidades nem dirá mentiras e será uma
espécie de viveiro de reflorescimento da nação.
A partir daqui, ser “pobre” não é uma categoria sociológica, mas uma
atitude espiritual de quem tem o coração aberto às propostas de Deus e é justo
na relação com os outros. Na boa tradição bíblica (que está presente neste
texto), os pobres são, portanto, pessoas pacíficas, humildes, piedosas,
simples, que confiam em Deus, que obedecem às suas propostas e que são justos e
solidários com os irmãos.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar, para a reflexão, os seguintes pontos:
• O Deus que se revela na palavra e na interpelação de Sofonias é o Deus que não pactua com os orgulhosos e
prepotentes que dominam o mundo e que pretendem moldar a história com a sua
lógica. A primeira indicação que a Palavra de Deus hoje nos fornece é esta: o
nosso Deus não está onde se cultiva a violência e a lei da força, nem apoia a política dos dominadores do mundo – mesmo que eles
pretendam defender os valores de Deus e da civilização cristã. Os valores de
Deus não se defendem com uma lógica de imposição, de violência, de apelo à
força. Atenção à história e aos acontecimentos: sempre que alguém se apresenta
em nome de Deus a impor ao mundo uma determinada lógica, temos de desconfiar;
Deus nunca esteve desse lado e esses nunca foram os métodos de Deus. Sofonias garante: para os prepotentes e orgulhosos, chegará
o dia da ira de Deus; e, nesse dia, serão os humildes e os pobres que se
sentarão à mesa com Deus.
• A nossa civilização ocidental diz-se cristã, mas está ainda longe de
assimilar a lógica de Deus. A lógica da nossa sociedade exalta os que têm
poder, os que triunfam por todos os meios, os poderosos, os que vergam a
história e os homens a golpes de poder, de esperteza e de força… Hoje, como
ontem, a sociedade exalta os que triunfam e marginaliza e rejeita os pobres, os
débeis, os simples, os pacíficos, os que não se fazem ouvir nos areópagos do
poder e dos mass-media, aqueles que recusam impor-se
e mandar nos outros, aqueles que estão à margem dos acontecimentos sociais que
reúnem a fina-flor do jet-set, aqueles que não
aparecem nas páginas das revistas da moda. Podemos deixar que a sociedade se
construa na base destes pressupostos? Que podemos fazer para que o nosso mundo
se construa de acordo com os valores de Deus?
• O apelo à conversão significa objectivamente,
na perspectiva de Sofonias, a renúncia ao orgulho, à
prepotência, ao egoísmo e um regresso à comunhão com Deus e com os irmãos.
Estamos dispostos, pessoalmente, a este caminho de conversão? Estamos dispostos
a renunciar a uma lógica de imposição, de prepotência, de orgulho, de
autoritarismo, de auto-suficiência, quer na nossa relação com Deus, quer na
nossa relação com os outros homens?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 145 (146)
Refrão 1: Bem-aventurados os pobres em
espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Refrão 2: Aleluia.
O Senhor faz justiça aos oprimidos,
dá pão aos que têm fome
e a liberdade aos cativos.
O Senhor ilumina os olhos dos cegos,
o Senhor levanta os abatidos,
o Senhor ama os justos.
O Senhor protege os peregrinos,
ampara o órfão e a viúva
e entrava o caminho aos pecadores.
O Senhor reina eternamente.
O teu Deus, ó Sião,
é Rei por todas as gerações.
LEITURA II – 1 Cor 1,26-31
Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios
Irmãos:
Vede quem sois vós, os que Deus chamou:
não há muitos sábios, naturalmente falando,
nem muitos influentes, nem muitos bem-nascidos.
Mas Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo
para confundir os sábios;
escolheu o que é vil e desprezível,
o que nada vale aos olhos do mundo,
para reduzir a nada aquilo que vale,
a fim de que nenhuma criatura se possa gloriar diante de Deus.
É por Ele que vós estais em Cristo Jesus,
o qual Se tornou para nós sabedoria de Deus,
justiça, santidade e redenção.
Deste modo, conforme está escrito,
«quem se gloria deve gloriar-se no Senhor».
AMBIENTE
Vimos, na passada semana, que um dos graves problemas da comunidade
cristã de Corinto era a identificação da experiência cristã com uma escola de
sabedoria: os cristãos de Corinto – na linha do que acontecia nas várias
escolas de filosofia que infestavam a cidade – viam várias figuras proeminentes
do cristianismo primitivo como mestres de uma doutrina e aderiam a essas
figuras, esperando encontrar nelas uma proposta filosófica credível, que os
conduzisse à plenitude da sabedoria e da realização humana. É de crer que os
vários adeptos desses vários mestres se confrontassem na comunidade, procurando
demonstrar a excelência e a superior sabedoria do mestre escolhido. Ao saber
isto, Paulo ficou muito alarmado: esta perspectiva punha em causa o essencial
da fé. Paulo vai esforçar-se, então, por demonstrar aos coríntios que entre os
cristãos não há senão um mestre, que é Jesus Cristo; e a experiência cristã não
é a busca de uma filosofia coerente, brilhante, elegante, que conduza à
sabedoria, entendida à maneira dos gregos. Aliás, Cristo não foi um mestre que
se distinguiu pela elegância das suas palavras, pela sua arte oratória ou pela
lógica do seu discurso filosófico… Ele foi o Deus que, por amor, veio ao
encontro dos homens e lhes ofereceu a salvação, não pela lógica do poder ou
pela elegância das palavras, mas através do dom da vida.
O caminho cristão não é uma busca de sabedoria humana, mas uma adesão a
Cristo crucificado – o Cristo do amor e do dom da vida. N’Ele manifesta-se, de
forma humanamente desconcertante, mas plena e definitiva, a força salvadora de
Deus. É aí e em mais nenhum lado que os coríntios devem procurar a verdadeira
sabedoria que conduz à vida eterna.
MENSAGEM
É verdade, considera Paulo, que é difícil encontrar – do ponto de vista
do raciocínio humano – num pobre galileu condenado a
uma morte infamante (“escândalo para os judeus e loucura para os gentios” - 1
Cor 1,23) uma proposta credível de salvação. Mas a lógica de Deus não é exactamente igual à lógica dos homens. “O que é loucura de
Deus é mais sábio que os homens; e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que
os homens” (1 Cor 1,25).
Como exemplo da lógica de Deus, Paulo apresenta o caso da própria
comunidade cristã de Corinto: entre os coríntios não abundavam os ricos, nem os
poderosos, nem os de boas famílias, nem os intelectuais, nem os aristocratas;
ao contrário, a maioria dos membros da comunidade eram escravos, trabalhadores,
gente simples e pobre. Apesar disso, Deus escolheu-os e chamou-os; e a vida de
Deus manifestou-se nessa comunidade de desclassificados. Para a consecução dos
seus projectos, os homens escolhem normalmente os
mais ricos, os mais fortes, os mais bem preparados intelectualmente, os que
provêm de boas famílias, os que asseguram maiores hipóteses de êxito do ponto
de vista humano… Mas Deus escolhe os pobres, os débeis, aqueles que aos olhos
do mundo são ignorados ou desprezados e, através deles, manifesta o seu poder e
intervém no mundo. Portanto, se esta é a lógica de Deus (como ficou provado
pelo exemplo), não surpreende que o poder salvador de Deus se tenha manifestado
na cruz de Cristo.
Os coríntios são convidados a não colocar a sua esperança e a sua
segurança em pessoas (por muito brilhantes e cheias de qualidades humanas que
elas sejam) ou em esquemas humanos de sabedoria (por muito sedutores e
fascinantes que eles possam parecer): a sabedoria humana é incapaz, por si só,
de salvar; e, ao produzir orgulho e auto-suficiência, leva o homem a prescindir
de Deus e a resvalar por caminhos que conduzem à morte e à desgraça… Em
contrapartida, os coríntios são convidados a colocar a sua esperança e
segurança em Jesus Cristo, que na cruz deu a vida por amor: é na “loucura da
cruz” – isto é, na vida dada até às últimas consequências,
que se manifesta a radicalidade do amor de Deus, a
profundidade do seu desejo de ofertar ao homem a salvação. Para Paulo, a cruz
manifesta a “sabedoria de Deus”; e é essa sabedoria que deve atrair o olhar e
apaixonar o coração dos coríntios.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão e a partilha podem considerar as seguintes questões:
• Uma percentagem significativa dos homens do nosso tempo está
convencida de que o segredo da realização plena do homem está em factores humanos (preparação intelectual, êxito
profissional, reconhecimento social, bem-estar económico,
poder político, etc.); mas Paulo avisa que apostar tudo nesses elementos é
jogar no “cavalo errado”: o homem só encontra a realização plena, quando
descobre Cristo crucificado e aprende com Ele o amor total e o dom da vida.
Para mim, qual destas duas propostas faz mais sentido?
• A teologia aqui apresentada por Paulo diz-nos que o Deus em quem
acreditamos não é o Deus que só escolhe os ricos, os poderosos, os influentes,
os de “sangue azul”, para realizar a sua obra no mundo; mas que o nosso Deus é
o Deus que não faz acepção de pessoas e que, quase sempre, se serve da fraqueza,
da fragilidade, da finitude para levar avante o seu projecto de salvação e libertação.
• Não se trata, aqui, de valorizar romanticamente a pobreza, ou de
apresentar Deus como o chefe de um sindicato da classe operária, a reivindicar
o poder para as classes desfavorecidas; trata-se de revelar o verdadeiro rosto
de um Deus que se solidariza com os pobres, com os humilhados, com os
ofendidos, com os explorados de todos os tempos e a todos oferece, sem
distinção, a salvação.
ALELUIA – Mt 5,12a
Aleluia. Aleluia.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa.
EVANGELHO – Mt 5,1-12
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-se.
Rodearam-n’O os discípulos
e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da
justiça,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa».
AMBIENTE
Depois de dizer quem é Jesus (Mt 1,1-2,23) e
de definir a sua missão (cf. Mt 3,1-4,16), Mateus vai
apresentar a concretização dessa missão: com palavras e com gestos, Jesus
propõe aos discípulos e às multidões o “Reino”. Neste enquadramento, Mateus
propõe-nos hoje um discurso de Jesus sobre o “Reino” e a sua lógica.
Uma característica importante do Evangelho segundo Mateus reside na
importância dada pelo evangelista aos “ditos” de Jesus. Ao longo do Evangelho
segundo Mateus aparecem cinco longos discursos (cf. Mt 5-7; 10; 13; 18; 24-25), nos quais Mateus junta “ditos” e ensinamentos
provavelmente proferidos por Jesus em várias ocasiões e contextos. É provável
que o autor do primeiro Evangelho visse nesses cinco discursos uma nova Lei,
destinada a substituir a antiga Lei dada ao Povo por meio de Moisés e escrita
nos cinco livros do Pentateuco.
O primeiro discurso de Jesus – do qual o Evangelho que nos é hoje
proposto é a primeira parte – é conhecido como o “sermão da montanha” (cf. Mt 5-7). Agrupa um conjunto de palavras de Jesus, que
Mateus coleccionou com a evidente intenção de
proporcionar à sua comunidade uma série de ensinamentos básicos para a vida
cristã. O evangelista procurava, assim, oferecer à comunidade cristã um novo
código ético, uma nova Lei, que superasse a antiga Lei que guiava o Povo de
Deus.
Mateus situa esta intervenção de Jesus no cimo de um monte. A indicação
geográfica não é inocente: transporta-nos à montanha da Lei (Sinai), onde Deus
Se revelou e deu ao seu Povo a antiga Lei. Agora é Jesus, que, numa montanha,
oferece ao novo Povo de Deus a nova Lei que deve guiar todos os que estão
interessados em aderir ao “Reino”.
As “bem-aventuranças” que, neste primeiro discurso, Mateus coloca na