1º DOMINGO DA QUARESMA
A
10 de Fevereiro de 2008
Tema do 1º Domingo da Quaresma
No início da nossa caminhada quaresmal,
a Palavra de Deus convida-nos à “conversão” – isto é, a recolocar Deus no
centro da nossa existência, a aceitar a comunhão com Ele, a escutar as suas
propostas, a concretizar no mundo – com fidelidade – os seus projectos.
A primeira leitura afirma que Deus criou o homem para a
felicidade e para a vida plena. Quando escutamos as propostas de Deus,
conhecemos a vida e a felicidade; mas, sempre que prescindimos de Deus e nos
fechamos em nós próprios, inventamos esquemas de egoísmo, de orgulho e de
prepotência e construímos caminhos de sofrimento e de morte.
A segunda leitura propõe-nos dois exemplos: Adão e Jesus.
Adão representa o homem que escolhe ignorar as propostas de Deus e decidir, por
si só, os caminhos da salvação e da vida plena; Jesus é o homem que escolhe
viver na obediência às propostas de Deus e que vive na obediência aos projectos do Pai. O esquema de Adão gera egoísmo, sofrimento
e morte; o esquema de Jesus gera vida plena e definitiva.
O Evangelho apresenta, de forma mais clara, o exemplo de
Jesus. Ele recusou – de forma absoluta – uma vida vivida à margem de Deus e dos
seus projectos. A Palavra de Deus garante que, na
perspectiva cristã, uma vida que ignora os projectos do Pai e aposta em esquemas de realização pessoal é uma vida perdida e sem
sentido; e que toda a tentação de ignorar Deus e as suas propostas é uma
tentação diabólica e que o cristão deve, firmemente, rejeitar.
LEITURA I – Gen 2,7-9;3,1-7
Leitura do Livro do Génesis
O Senhor Deus formou o homem do pó da terra,
insuflou em suas narinas um sopro de vida,
e o homem tornou-se um ser vivo.
Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, a oriente,
e nele colocou o homem que tinha formado.
Fez nascer na terra toda a espécie de árvores,
de frutos agradáveis à vista e bons para comer,
entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim,
e a árvore da ciência do bem e do mal.
Ora, a serpente era o mais astucioso
de todos os animais do campo
que o Senhor Deus tinha feito.
Ela disse à mulher:
«É verdade que Deus vos disse:
“Não podeis comer o fruto de nenhuma árvore do Jardim”?»
A mulher respondeu:
«Podemos comer o fruto das árvores do jardim;
mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim,
Deus avisou-nos:
“Não podeis comer dele nem tocar-lhe, senão morrereis”».
A serpente replicou à mulher:
«De maneira nenhuma! Não morrereis.
Mas Deus sabe que, no dia em que o comerdes,
abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deuses,
ficando a conhecer o bem e o mal».
A mulher viu então que o fruto da árvore
era bom para comer e agradável à vista,
e precioso para esclarecer a inteligência.
Colheu o fruto e comeu-o;
depois deu-o ao marido, que estava junto dela,
e ele também comeu.
Abriram-se então os seus olhos
e compreenderam que estavam despidos.
Por isso, entrelaçaram folhas de figueira
e cingiram os rins com elas.
AMBIENTE
O texto de Gn 2,4b-3,24 – conhecido
como relato jahwista da criação – é, de acordo com a
maioria dos comentadores, um texto do séc. X a.C., que deve ter aparecido em
Judá na época do rei Salomão. Apresenta-se num estilo exuberante, colorido,
pitoresco. Parece ser obra de um catequista popular, que ensina recorrendo a
imagens sugestivas, coloridas e fortes.
Não podemos, de forma nenhuma, ver neste texto uma reportagem
jornalística de acontecimentos passados na aurora da humanidade. A finalidade
do autor não é científica ou histórica, mas teológica: mais do que ensinar como
o mundo e o homem apareceram, ele quer dizer-nos que na origem da vida e do
homem está Jahwéh. Trata-se, portanto, de uma página
de catequese e não de um tratado destinado a explicar cientificamente as
origens do mundo e da vida.
Para apresentar essa catequese aos homens do séc. X a.C., os
teólogos jahwistas utilizaram elementos simbólicos e
literários das cosmogonias mesopotâmicas (por exemplo, a formação do homem “do
pó da terra” é um elemento que aparece sempre nos mitos de origem
mesopotâmicos); no entanto, transformaram e adaptaram os símbolos retirados das
narrações lendárias de outros povos, dando-lhes um novo enquadramento, uma nova
interpretação e pondo-os ao serviço da catequese e da fé de Israel. Ou seja: a
linguagem e a apresentação literária das narrações bíblicas da criação
apresentam paralelos significativos com os mitos de origem dos povos da zona do
Crescente Fértil; mas as conclusões teológicas – sobretudo o ensinamento sobre
Deus e sobre o lugar que o homem ocupa no projecto de
Deus – são muito diferentes.
MENSAGEM
A primeira parte (cf. Gn 2,7-9) do
texto que nos é proposto apresenta-nos dois quadros significativos.
O primeiro quadro (vers. 7) pinta – com cores quentes e
sugestivas – a origem do homem: “o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e
insuflou-lhe nas narinas um sopro de vida”. O verbo utilizado para descrever a acção de Deus é o verbo “yasar”
(“formar”, “modelar”), que é um verbo técnico ligado ao trabalho do oleiro.
Deus aparece, assim, como um oleiro, que modela a argila. Estamos muito
próximos das concepções mesopotâmicas, onde o homem é criado pelos deuses a
partir do barro (o jogo de palavras “’adam” – “homem”
– e “’adamah” – “terra”, sugere que o homem – “’adam” – vem da “terra” – “’adamah”
– e, morrendo, voltará à terra de onde foi tirado).
No entanto, o homem formado da terra não é apenas terra, pois
ele recebe também o “sopro” (“neshamá”) de Deus. A
palavra hebraica utilizada significa “sopro”, “hálito”, “respiração”. É a vida
que vem de Deus que torna o homem vivo… O homem tem qualquer coisa de divino; a
vida do homem procede, directamente, de Deus.
É significativa a forma como o jahwista sublinha o cuidado de Deus na criação do homem: Deus é o oleiro que modela
cuidadosa e amorosamente a sua obra; e, ainda mais, transmite a esse homem
formado da terra a sua própria vida divina. O homem aparece, assim, como o
centro do projecto criador de Deus: ele ocupa um
lugar especial na criação e é para ele que tudo vai ser criado.
No segundo quadro (vers. 8-9), o autor jahwista reflecte sobre a situação do homem criado por Deus…
Para que é que Deus criou o homem? Para ser escravo dos deuses e prover ao
sustento das divindades, como nos mitos mesopotâmicos? Não. Na perspectiva do
nosso catequista, o homem foi criado para ser feliz, em comunhão com Deus. Para
descrever a situação ideal do homem, criado para a felicidade e a realização
plena, o jahwista coloca-o num “jardim” cheio de
árvores de fruta. Para um povo que sentia pesar constantemente sobre si a ameaça
do deserto árido, o ideal de felicidade seria um lugar com muitas árvores e
muita água. Os mitos mesopotâmicos apresentam, aliás, as mesmas imagens.
No meio dessa vegetação abundante, o autor coloca duas
árvores especiais: a “árvore da vida” e a “árvore do conhecimento do bem e do
mal”. A “árvore da vida” é o símbolo da imortalidade concedida ao homem.
Provavelmente, ao falar da “árvore da vida”, o autor está a pensar na “Lei”:
desde o início, Deus ofereceu ao homem a possibilidade da vida plena e imortal,
que passa por uma vida percorrida no caminho da Lei e dos mandamentos… Ao lado
da “árvore da vida” e em contraposição a ela (pois traz a morte), está a
“árvore do conhecimento do bem e do mal”. Provavelmente, representa o orgulho e
a auto-suficiência de quem acha que pode conquistar a sua própria felicidade,
prescindindo de Deus. “Comer da árvore do conhecimento do bem e do mal”
significa fechar-se em si próprio, querer decidir por si só o que é bem e o que
é mal, pôr-se a si próprio em lugar de Deus, reivindicar autonomia total em
relação ao criador. O homem que renuncia à comunhão com Deus está a seguir o
caminho da morte.
A ideia do nosso catequista é esta:
Deus criou o homem para ser feliz; deu-lhe a possibilidade de vida imortal; mas
o homem pode escolher prescindir de Deus e percorrer caminhos onde Deus não
está.
Na segunda parte do nosso texto (cf. Gn 3,1-7), o autor jahwista reflecte sobre a questão do mal. De onde vem o mal que desfeia o mundo e que impede o homem de ter vida plena? Esse mal – sugere o nosso
teólogo jahwista – vem das opções erradas que, desde
o início da história, o homem tem feito.
Para dizer isto, o autor jawista recorre à imagem da serpente. Entre os povos antigos, a serpente aparece como
um símbolo por excelência da vida e da fecundidade (provavelmente por causa da
sua configuração fálica). Entre os cananeus, estava
também bastante difundido o culto da serpente. Nos santuários cananeus invocavam-se os deuses da fertilidade
(representados muitas vezes pela serpente) e realizavam-se rituais mágicos
destinados a assegurar a fecundidade dos campos… Ora, os israelitas, instalados
na Terra, depressa se deixaram fascinar por esses cultos e praticavam os
rituais dos cananeus destinados a assegurar a vida e
a fecundidade dos campos e dos rebanhos. No entanto, isso significava
prescindir de Jahwéh e abandonar o caminho da Lei e
dos mandamentos. A “serpente” surge aqui, portanto, como símbolo de tudo o que
afasta os homens de Deus e das suas propostas, sugerindo-lhes caminhos de
orgulho, de egoísmo e de auto-suficiência.
Em conclusão: Deus criou o homem para ser feliz e indicou-lhe
o caminho da imortalidade e da vida plena; no entanto, o homem escolhe muitas
vezes o caminho do orgulho e da auto-suficiência e vive à margem de Deus e das
suas propostas. Na opinião do autor jahwista, é essa
a origem do mal que destrói a harmonia do mundo.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar, na reflexão, os seguintes elementos:
• De onde vimos? Para onde vamos? Porque é que estamos aqui?
Qual o sentido da nossa vida? São perguntas eternas, que o homem de todos os
tempos coloca a si próprio. A Palavra de Deus que hoje nos é proposta responde:
é Deus a nossa origem e o nosso destino último. Não somos um minúsculo e
insignificante grão de areia perdido numa galáxia qualquer; mas somos seres que
Deus criou com amor, a quem Ele deu o seu próprio “sopro”, a quem animou com a
sua própria vida. O fim último da nossa existência não é o fracasso, a
dissolução no nada, mas a vida definitiva, a felicidade sem fim, a comunhão
plena com Deus.
• Como é que chegamos a essa felicidade que está inscrita no projecto que Deus tem para os homens e para o mundo? Deus
nada impõe e respeita sempre – de forma absoluta – a nossa liberdade; no
entanto, insiste em mostrar-nos, todos os dias, o caminho para essa plenitude
de vida que Ele sonhou para os homens. Quando aceitamos a nossa condição de
criaturas e reconhecemos em Deus esse Pai que nos dá vida, que nos ama e que
nos indica caminhos de realização e de felicidade, construímos uma existência
harmoniosa, um "paraíso" onde encontramos vida, harmonia, felicidade
e realização.
• E o mal que vemos, todos os dias, tornar sombria e
deprimente essa “casa” que é o mundo: vem de Deus ou do homem? A Palavra de
Deus responde: o mal nunca vem de Deus; o mal resulta das nossas escolhas erradas,
do nosso orgulho, do nosso egoísmo e auto-suficiência. Quando o homem escolhe
viver orgulhosamente só, ignorando as propostas de Deus e prescindindo do amor,
constrói cidades de egoísmo, de injustiça, de prepotência, de sofrimento, de
pecado… Quais os caminhos que eu escolho? As propostas de Deus fazem sentido e
são, para mim, indicações seguras para a felicidade, ou prefiro ser eu próprio
a fazer as minhas escolhas, prescindindo das indicações de Deus?
SALMO RESPONSORIAL – SALMO 50 (51)
Refrão 1: Pecámos, Senhor: tende
compaixão de nós.
Refrão 2: Tende compaixão de nós, Senhor,
porque somos pecadores.
Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,
pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.
Lavai-me de toda a iniquidade
e purificai-me de todas as faltas.
Porque eu reconheço os meus pecados
e tenho sempre diante de mim as minhas culpas.
Pequei contra Vós, só contra Vós,
e fiz o mal diante dos vossos olhos.
Criai em mim, ó Deus, um coração puro
e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.
Não queirais repelir-me da vossa presença
e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.
Dai-me de novo a alegria da vossa salvação
e sustentai-me com espírito generoso.
Abri, Senhor, os meus lábios
e a minha boca cantará o vosso louvor.
LEITURA II – Rom 5,12-19
Leitura do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos:
Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo
e pelo pecado a morte,
assim também a morte atingiu todos os homens,
porque todos pecaram.
De facto, até à Lei, existia o
pecado no mundo.
Mas o pecado não é levado em conta, se não houver lei.
Entretanto, a morte reinou desde Adão até Moisés,
mesmo para aqueles que não tinham pecado
por uma transgressão à semelhança de Adão,
que é figura d’Aquele que havia de vir.
Mas o dom gratuito não é como a falta.
Se pelo pecado de um só pereceram muitos,
com muito mais razão a graça de Deus,
dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo,
se concedeu com abundância a muitos homens.
E esse dom não é como o pecado de um só:
o julgamento que resultou desse único pecado
levou à condenação,
ao passo que o dom gratuito, que veio depois de muitas
faltas,
leva à justificação.
Se a morte reinou pelo pecado de um só homem,
com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância
a graça e o dom da justiça,
reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo.
Porque, assim como pelo pecado de um só,
veio para todos os homens a condenação,
assim também, pela obra de justiça de um só,
virá para todos a justificação que dá a vida.
De facto, como pela desobediência
de um só homem,
muitos se tornaram pecadores,
assim também, pela obediência de um só,
muitos se tornarão justos.
AMBIENTE
No final da década de 50 (a Carta aos Romanos apareceu por
volta de 57/58), multiplicavam-se as “crises” entre os cristãos oriundos do
mundo judaico e os cristãos oriundos do mundo pagão. Uns e outros tinham
perspectivas diferentes da salvação e da forma de viver o compromisso com Jesus
Cristo e com o seu Evangelho. Os cristãos de origem judaica consideravam que,
além da fé em Jesus Cristo, era necessário cumprir as obras da Lei
(nomeadamente a prática da circuncisão) para ter acesso à salvação; mas os
cristãos de origem pagã recusavam-se a aceitar a obrigatoriedade das práticas
judaicas. Era uma questão “quente”, que ameaçava a unidade da Igreja. Este
problema também era sentido pela comunidade cristã de Roma.
Neste cenário, Paulo vai mostrar a todos os crentes (a Carta
aos Romanos, mais do que uma carta para a comunidade cristã de Roma, é uma
carta para as comunidades cristãs, em geral) a unidade da revelação e da
história da salvação: judeus e não judeus são, de igual forma, chamados por
Deus à salvação; o essencial não é cumprir a Lei de Moisés – que nunca
assegurou a ninguém a salvação; o essencial é acolher a oferta de salvação que
Deus faz a todos, por Jesus Cristo.
O texto que nos é proposto faz parte da primeira parte da
Carta aos Romanos (cf. Rom 11,18-11,36). Depois de
demonstrar que todos (judeus e não judeus) vivem mergulhados no pecado (cf. Rom 1,18-3,20) e que é a justiça de Deus que a todos salva,
sem distinção (cf. Rom 3,21-5,11), Paulo ensina que é
através de Jesus Cristo que a vida de Deus chega aos homens e que se faz oferta
de salvação para todos (cf. Rom 5,12-8,39).
MENSAGEM
Para deixar bem claro que a salvação foi oferecida por Deus
aos homens através de Jesus Cristo, Paulo recorre aqui a uma figura literária
que aparece, com alguma frequência, nos seus
escritos: a antítese. Em concreto, Paulo vai expor o seu raciocínio através de
um jogo de oposições entre duas figuras: Adão e Jesus.
Adão é a figura de uma humanidade que prescinde de Deus e das
suas propostas e que escolhe caminhos de egoísmo, de orgulho e de
auto-suficiência. Ora, essa escolha produz injustiça, alienação, s