2 de Março de 2008
Tema do 4º Domingo da Quaresma
As leituras deste Domingo propõem-nos o tema da “luz”.
Definem a experiência cristã como “viver na luz”.
No Evangelho, Jesus apresenta-se como “a luz do mundo”; a sua
missão é libertar os homens das trevas do egoísmo, do orgulho e da
auto-suficiência. Aderir à proposta de Jesus é enveredar por um caminho de
liberdade e de realização que conduz à vida plena. Da acção de Jesus nasce, assim, o Homem Novo – isto é, o Homem elevado às suas máximas
potencialidades pela comunicação do Espírito de Jesus.
Na segunda leitura, Paulo propõe aos cristãos de Éfeso que recusem viver à margem de Deus (“trevas”) e que
escolham a “luz”. Em concreto, Paulo explica que viver na “luz” é praticar as
obras de Deus (a bondade, a justiça e a verdade).
A primeira leitura não se refere directamente ao tema da “luz” (o tema central na liturgia deste domingo). No entanto, conta
a escolha de David para rei de Israel e a sua unção: é um óptimo pretexto para reflectirmos sobre a unção que
recebemos no dia do nosso Baptismo e que nos
constituiu testemunhas da “luz” de Deus no mundo.
LEITURA I – 1 Sam 16,1b.6-7.10-13a
Leitura do Primeiro Livro de Samuel
Naqueles dias,
o Senhor disse a Samuel:
«Enche o corno de óleo e parte.
Vou enviar-te a Jessé de Belém,
pois escolhi um rei entre os seus filhos».
Quando chegou, Samuel viu Eliab e
pensou consigo:
«Certamente é este o ungido do Senhor».
Mas o Senhor disse a Samuel:
«Não te impressiones com o seu belo aspecto,
nem com a sua elevada estatura,
pois não foi esse que Eu escolhi.
Deus não vê como o homem;
o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração».
Jessé fez passar os sete filhos diante de Samuel,
mas Samuel declarou-lhe:
«O senhor não escolheu nenhum destes».
E perguntou a Jessé:
«Estão aqui todos os teus filhos?»
Jessé respondeu-lhe:
«Falta ainda o mais novo, que anda a guardar o rebanho».
Samuel ordenou: «Manda-o chamar,
porque não nos sentaremos à mesa, enquanto ele não chegar».
Então Jessé mandou-o chamar:
era loiro, de belos olhos e agradável presença.
O Senhor disse a Samuel:
«Levanta-te e unge-o, porque é este mesmo».
Samuel pegou no corno do óleo e ungiu-o no meio dos irmãos.
Dequele dia em diante,
o Espírito do Senhor apoderou-Se de David.
AMBIENTE
Na segunda metade do séc. XI a.C., os filisteus constituíam
uma ameaça bastante séria para as tribos do Povo de Deus. Instalados na orla
costeira, os filisteus pressionavam cada vez mais os outros grupos que
habitavam a terra de Canaã, nomeadamente as tribos do Povo de Deus que ocupavam
as montanhas do interior do país. A necessidade de uma liderança única e forte
levou os anciãos das tribos a equacionar, pela primeira vez, a possibilidade da
união política das tribos sob a autoridade de um rei, à imagem do que sucedia
com os outros povos da zona.
A primeira experiência monárquica aconteceu com Saúl e agrupava as tribos do centro e algumas do norte do
país. Essa experiência terminou, no entanto, de forma dramática: Saúl e seu filho Jónatas morreram
na batalha de Gelboé, em luta contra os filisteus,
por volta do ano 1010 a.C.
Era preciso encontrar um outro “herói”, capaz de gerar
consensos entre tribos muito diferentes, juntá-las e conduzi-las vitoriosamente
ao combate contra os inimigos filisteus. A escolha dos anciãos – tanto das
tribos do norte, como das tribos do sul – recaiu, então, num jovem chamado
David.
David nasceu por volta de 1040 a.C., em Belém de Judá, no sul
do país. Como é que David se tornou notado e se impôs, de forma a ser
considerado uma solução para o problema da realeza?
O Livro de Samuel apresenta três tradições sobre a entrada de
David em cena. A primeira apresenta David como um admirável guerreiro, cuja
valentia chamou a atenção de Saúl, sobretudo após a
sua vitória sobre o gigante filisteu Golias (cf. 1 Sm 17). A segunda tradição apresenta David como um poeta, que vai para a corte de Saúl para cantar e tocar harpa (segundo esta tradição –
bastante hostil a Saúl – o rei só conseguia
reencontrar a calma e o bem estar quando David o acalmava com a sua música –
cf. 1 Sm 16,14-23. Aos poucos, o poeta/cantor David
foi ganhando adeptos na corte, tornando-se amigo de Jónatas,
o filho de Saúl, e casando mesmo com Mical, a filha do rei). Finalmente, a terceira tradição – a
menos verificável historicamente, mas a de maior importância teológica –
apresenta a realeza de David como uma escolha de Jahwéh.
É esta terceira tradição que o nosso texto nos apresenta.
MENSAGEM
O nosso relato apresenta-nos uma bem elaborada reflexão sobre
a eleição. O autor do texto pretende mostrar que a lógica de Deus é bem
diferente, neste capítulo, da lógica dos homens.
Antes de mais, David é apresentado como o eleito de Jahwéh. É sempre Jahwéh que
escolhe aqueles a quem quer confiar uma missão. Nem a Samuel – o seu enviado – Jahwéh dá qualquer explicação. A eleição não resulta da
iniciativa do homem, mas sim da iniciativa e da vontade livre de Deus.
Em segundo lugar, impressiona a lógica da escolha de Deus.
Samuel raciocina com a lógica dos homens e pretende ungir como rei o filho mais
velho de Jessé de Belém, impressionado pelo seu belo aspecto e pela sua
estatura; mas não é essa a escolha de Deus… Samuel percebe, finalmente, que a
escolha de Deus recai sobre David – o filho mais novo de Jessé – um jovem anónimo e desconhecido que andava a guardar o rebanho do
pai.
A história da eleição de David quer sublinhar a lógica de
Deus, que escolhe sem ter em conta os méritos, o aspecto ou as qualidades
humanas que costumam impressionar os homens. Pelo contrário, Deus escolhe e
chama, com frequência, os pequenos, os mais fracos,
aqueles que o mundo marginaliza e considera insignificantes; e é através deles
que age no mundo.
Fica, assim, claro que quem leva a cabo a obra da salvação é
Deus; os homens são apenas instrumentos, através dos quais Deus realiza a sua
obra no mundo.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão pode partir dos seguintes dados:
• Se olharmos para o mundo com olhos de esperança, vemos
muitas pessoas que realizam coisas bonitas, que lutam contra a miséria, o
sofrimento, a injustiça, a doença, o analfabetismo, a violência… Não há mal
nenhum em admirarmos a sua disponibilidade e em aprendermos com o seu empenho e
compromisso. No entanto, nós os crentes somos convidados a olhar mais além e a
ver Deus por detrás de cada gesto de amor, de bondade, de coragem, de
compromisso com a construção de um mundo melhor. O nosso Deus continua a
construir, dia a dia, a história da salvação; e chama homens e mulheres para
colaborarem com Ele na salvação do mundo.
• A nossa leitura mostra, mais uma vez, que Deus tem
critérios diferentes dos critérios humanos e que a sua lógica nem sempre
coincide com a nossa. “Deus não vê como o homem; o homem olha às aparências, o
Senhor vê o coração” – diz o texto. É preciso entrar na lógica de Deus e
aprender a ver, para além da aparência, da roupa que a pessoa veste, do “curriculum” profissional ou académico;
é preciso aprender a ver com o coração e a descobrir a riqueza que se esconde
por detrás daqueles que parecem insignificantes e sem pretensões… É preciso,
sobretudo, aprender a respeitar a dignidade de cada homem e de cada mulher,
mesmo quando não parecem pessoas importantes ou influentes. É isso que acontece
nos “guichets” dos nossos serviços públicos? É isso
que acontece nas recepções das nossas igrejas? É isso que acontece nas
portarias das nossas casas religiosas?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 22 (23)
Refrão 1: O Senhor é meu pastor: nada me faltará.
Refrão 2: O Senhor me conduz: nada me faltará.
O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.
Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:
o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.
Para mim preparais a mesa
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça
e meu cálice transborda.
A bondade e a graça hão-de acompanhar-me
todos os dias da minha vida,
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.
LEITURA II – Ef 5,8-14
Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Efésios
Irmãos:
Outrora vós éreis trevas,
mas agora sois luz no Senhor.
Vivei como filhos da luz,
porque o fruto da luz é a bondade, a justiça e a verdade.
Procurai sempre o que mais agrada ao Senhor.
Não tomeis parte nas obras das trevas, que são inúteis;
tratai antes de condená-las abertamente,
porque o que eles fazem em segredo
até é vergonhoso dizê-lo.
Mas, todas as coisas que são condenadas
são postas a descoberto pela luz,
e tudo que assim se manifesta torna-se luz.
É por isso que se diz:
«Desperta, tu que dormes; levanta-te do meio dos mortos
e Cristo brilhará sobre ti».
AMBIENTE
A Carta aos Efésios é, provavelmente, um dos exemplares de
uma “carta circular” enviada a várias Igrejas da Ásia Menor, numa altura em que
Paulo está na prisão (em Roma? em Cesareia?). O seu
portador é um tal Tíquico. Estamos por volta dos anos
58/60.
Alguns vêem nesta carta uma espécie de síntese da teologia
paulina, numa altura em que Paulo sente ter terminado a sua missão apostólica
na Ásia e não sabe exactamente o que o futuro próximo
lhe reserva (recordemos que ele está, por esta altura, prisioneiro e não sabe
como vai terminar o cativeiro).
O tema central da Carta aos Efésios é aquilo a que Paulo
chama “o mistério”: o desígnio (ou projecto) salvador
de Deus, definido desde toda a eternidade, escondido durante séculos aos
homens, revelado e concretizado plenamente em Jesus, comunicado aos apóstolos,
desfraldado e dado a conhecer ao mundo na Igreja.
O texto que nos é aqui proposto faz parte da “exortação aos baptizados” que aparece na segunda parte da carta (cf. Ef 4,1-6,20). Nessa exortação, Paulo retoma os temas
tradicionais da catequese primitiva e convida os crentes a deixarem a antiga
forma de viver para assumirem a nova, revestindo-se de Cristo (cf. Ef 4,17-31), imitando Deus (cf. Ef 4,32-5,2) e passando das trevas à luz (cf. Ef 5,3-20).
MENSAGEM
A imagem da “luz” e das “trevas”, aqui utilizada, é uma
imagem que aparecia frequentemente na catequese
primitiva, como sugere o seu uso nos textos neo-testamentários, sobretudo em
João e Paulo (cf. Jo 1,4-5; 3,19.21; 8,12; 1 Jo 1,5-7; 2,9-11; Rom 2,19; 2 Cor
4,6; 1 Tess 5,4-7). O símbolo “luz/trevas” aparece, também, nos escritos de Qûmran para definir o mundo de Deus (luz) e o mundo que se
opõe a Deus (trevas).
Para Paulo, viver nas “trevas” é viver à margem de Deus,
recusar as suas propostas, viver prisioneiro das paixões e dos falsos valores,
no egoísmo e na auto-suficiência. Ao contrário, viver na “luz” é acolher o dom
da salvação que Deus oferece, aceitar a vida nova que Ele propõe, escolher a
liberdade, tornar-se “filho de Deus”.
Os cristãos são aqueles que escolheram viver na “luz”. Paulo,
dirigindo-se aos cristãos da parte ocidental da Ásia Menor, exorta-os a viverem
na órbita de Deus, como Homens Novos, e a praticarem as obras correspondentes à
opção que fizeram pela “luz”. Em concreto, Paulo pede-lhes que as suas vidas
sejam marcadas pela bondade, pela justiça e pela verdade. A propósito, Paulo
cita um velho hino cristão baptismal, que convoca os
crentes para viverem na “luz” (vers. 14).
Mais ainda: o cristão não é só chamado a viver na “luz”; mas
deve desmascarar as “trevas” e denunciar as obras e os comportamentos daqueles
que escolhem viver nas “trevas” do egoísmo, da mentira, da escravidão e do
pecado. O cristão não deve só escolher a luz, mas deve também desmascarar as
obras das “trevas”, de forma aberta e decidida.
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, ter em conta os seguintes dados:
• “Luz” e “trevas” são, nesta passagem, duas esferas de poder
capazes de tomar conta do homem e de condicionar a sua vida, as suas opções, os
seus valores e comportamentos. O cristão, no entanto, é aquele que optou por
“viver na luz”. Para mim, o que significa, em concreto, “viver na luz”? O que é
que isso, em termos práticos, implica? Quais são os esquemas, comportamentos e
valores que devem ser definitivamente saneados da minha vida, a fim de que eu
seja um testemunho da “luz”?
• Para Paulo, não chega “viver na luz” e dar testemunho da
“luz”. É preciso, também, denunciar – de forma aberta e decidida – as “trevas”
que desfeiam o mundo e que mantêm os homens escravos.
Na minha perspectiva, quais são os gestos, comportamentos e atitudes que
contribuem para apagar a “luz” de Deus e para manter este mundo nas “trevas”?
Com que é que eu devo pactuar e o que é que eu devo denunciar?
• A expressão “desperta tu que dormes”, citada por Paulo,
convida-nos à vigilância. O cristão não pode ficar de braços cruzados diante da
maldade, do egoísmo, da injustiça, da exploração, dos contra-valores que
enegrecem a vida dos homens e do mundo. O cristão tem de manter uma atitude de
vigilância atenta e de denúncia ousada e corajosa. Diante dos contra-valores,
qual a minha atitude: é a atitude comodista de quem deixa correr as coisas
porque não está para se chatear, ou é a atitude de quem se sente realmente
incomodado com a escuridão