“QUEM ENVIAREI?”
Mons. José Maria Pereira
A liturgia da palavra do V Domingo do Tempo Comum apresenta-nos a vocação de três homens: Isaías, Pedro e Paulo. O chamamento divino de cada um deles é precedido por uma teofania. Deus, antes de confiar ao homem uma missão específica, revela-Se e dá-Se a conhecer. A revelação feita a Isaías é testemunhada pelo próprio profeta: “Vi o Senhor sentado num trono alto e elevado” (Is 6,1). Os serafins cantavam diante dele e prostravam-se em adoração cantando: “Santo, Santo é o Senhor dos exércitos (Is 6,3). Isaías sente medo perante tal grandeza e santidade: acha-se impuro e indigno, por se encontrar na presença de Deus. Mas, quando ouve a voz de Deus que o interpela: “Quem enviarei? Quem irá por nós?” não hesita um só instante e responde: “Eis-me aqui, envia-me” (Is 1,8). O homem não pode, por sua conta e risco, assumir a missão de colaborar com Deus; mas, quando Deus o chama, a sua indignidade não deve ser um pretexto para não aceitar.
No Evangelho (Lc. 5, 1 – 11) encontramos Jesus pregando às multidões. Em seguida, pede que Simão Pedro lance as redes para a pesca, Pedro obedece e apanharam tamanha quantidade de peixes que as redes se rompiam. Simão Pedro sente-se indigno e confessa-se pecador. Mas, Jesus disse a Simão: “Não tenhas medo. De hoje em diante serás pescador de homens.” Então, reconduzindo os barcos à terra e deixando tudo, Pedro e seus companheiros seguiram a Jesus.
Ao pedido de Jesus para que lançassem as redes para a pesca, Pedro diz ao Senhor que tinham trabalhado a noite inteira e que não tinham conseguido nada. “A resposta de Simão parece razoável. Costumam pescar a essas horas e, precisamente naquela ocasião, a noite tinha sido infrutífera. Para que haviam de pescar de dia? Mas Pedro tem fé: Porém, em atenção à tua palavra, lançarei as redes. Resolve proceder como Cristo lhe sugeriu; comprometer-se a trabalhar, confiando na Palavra do Senhor” (São Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, nº 261).
Apesar do cansaço, apesar de a ordem de pescar ter partido de quem não era um homem do mar, e ter-se dirigido a uns pescadores que sabiam que aquela hora não era oportuna para a pesca e pela ausência de peixes, tomam as redes nas mãos. Agora, por pura confiança no Mestre, cuja autoridade e poder Pedro já conhecia. Pedro confia e obedece.
Em toda a ação apostólica, há dois requisitos indispensáveis: a fé e a obediência. De nada serviriam o esforço, os meios humanos, as noites em claro, se estivessem desligados do querer divino… Sem obediência, tudo é inútil diante de Deus. De nada serviria entregarmo-nos com brio e garra a um empreendimento apostólico se não contássemos com o Senhor. Até aquilo que é mais valioso nas nossas obras se tornaria estéril se prescindíssemos do desejo de cumprir a vontade de Deus. “Deus não necessita do nosso trabalho, mas da nossa obediência”, ensina São João Crisóstomo com uma expressão terminante.
Pedro fez o que o Senhor lhe tinha mandado e recolheram tamanha quantidade de peixes que a rede se rompia. O fruto da tarefa que tem por norte a fé é abundantíssimo.
Este milagre deixa-nos um ensinamento profundo: só quando se reconhece a inutilidade própria e se confia em Deus, sem deixar de empregar ao mesmo tempo os meios humanos disponíveis, é que o apostolado se torna eficaz e os frutos abundantes, pois “toda a fecundidade no apostolado depende da união vital com Cristo” (Conc. Vat. II, Decreto Apostolicam Actuositatem, 4).
Hoje o Senhor dirige-se a cada um de nós para que nos sintamos impelidos a seguí-Lo de perto, como discípulos fiéis no meio das nossas tarefas, e a realizar no nosso próprio ambiente um trabalho apostólico audaz, cheio de fé na palavra de Jesus: “Mar adentro! – Repele o pessimismo que te faz covarde. E lança as redes para pescar. Não vês que podes dizer, como Pedro: “Em teu nome lançarei a rede. Jesus, em teu nome, procurarei almas?” (São Josemaría Escrivá, Caminho, nº 792).
Contemplando a figura de Pedro, não há dúvida de que nós também podemos dizer a Jesus: Afasta-se de mim, Senhor, que sou um pobre pecador. Mas, ao mesmo tempo, pedimos-lhe que nunca nos permita separar-nos dEle, que nos ajude a entrar a fundo – mar adentro – na sua amizade, na santidade, num apostolado aberto, sem respeitos humanos, cheio de fé, apoiados na voz do Senhor que, no silêncio da nossa oração pessoal, nos anima e nos impele a levar-lhe almas.
Na segunda leitura (1 Cor, 15, 1 – 11) Paulo mostra como se tornou apóstolo, anunciando a experiência que teve do Senhor Jesus morto e ressuscitado.
Três vocações diferentes, mas uma mesma atitude de humildade e disponibilidade, como base de resposta para aquele a quem Deus endereça o seu chamamento.


