Pastoral Vocacional – III Congresso Vocacional do Brasil

Mons. José Maria Pereira*

Considerando o Ano Sacerdotal que estamos celebrando e que será encerrado em junho de 2010; preparando o 3ª Congresso Vocacional do Brasil que será realizado de 03 a 07 de setembro de 2010, em Itaici, SP, temos motivos suficientes para uma maior dedicação à Pastoral Vocacional.

Além do mais, quando contemplamos Jesus Cristo que ao final de um dia, cansado, diante de uma multidão abatida, como ovelhas sem pastor, diz: “A messe é grande, os trabalhadores são poucos. Rogai ao Senhor da “Messe que envie trabalhadores para a sua Messe” (Mt 9, 35 – 38). O Evangelho diz que Jesus vendo a multidão, condoeu-se dela… (Mt 9,36). O verbo grego é muito expressivo, diz: “comover-se nas entranhas.” “Se fôssemos consequentes com a nossa fé, quando olhássemos à nossa volta e contemplássemos o espetáculo da História e do Mundo, não poderíamos deixar de sentir crescer nos nossos corações os mesmos sentimentos que animaram o de Jesus Cristo”. (S. Josemaria Escrivá, Cristo que passa, nº 133). Com efeito, a consideração das necessidades espirituais do mundo deve levar-nos a um infatigável e generoso trabalho apostólico.

Na verdade, recorda-nos o Papa Paulo VI: “A responsabilidade da difusão do Evangelho que salva é de todos os que o receberam. O dever missionário recai sobre todo o Corpo da Igreja. De maneira e em medidas diferentes, é certo; mas todos, todos devemos ser solidários no cumprimento deste dever. Assim pois, que a consciência de cada crente se pergunte: tenho cumprido o meu  dever missionário? A oração pelas Missões é o primeiro modo de por em prática este dever” (Alocução no Angelus, 23/10/1977).

  • A PASTORAL VOCACIONAL TEM POR OBJETIVOS:
    • Despertar para a vocação humana, cristã e eclesial;
    • discernir os sinais indicadores do chamado de Deus;
    • cultivar os germes de vocação e acompanhar o processo de opção vocacional consciente e livre.

“Deve dar ênfase às vocações de especial consagração e, entre elas, particularmente, à  vocação ao presbiterato”  (Doc. CNBB 55, nº 27).

“A Pastoral Vocacional exige ser assumida com um novo, vigoroso e mais decidido compromisso por parte de todos os membros da Igreja, na consciência de que ela não é um elemento secundário ou acessório, nem um momento isolado ou setorial, quase uma simples parte, ainda que relevante, da pastoral global da Igreja” (Doc. 55, nº 28).

RESPONSABILIDADE  PELAS  VOCAÇÕES

Na Exortação Apostólica “Pastores Dabo Vobis” (PDV) sobre a Formação dos Sacerdotes nas circunstâncias atuais, nº 41, diz o Papa João Paulo II:

“A vocação sacerdotal é um dom de Deus, que constitui certamente um grande bem para, aquele que é o seu primeiro destinatário. Mas é também um dom para a Igreja inteira, um bem para a sua vida e missão. A Igreja, portanto, é chamada a proteger este dom, a estimá-lo: ela é responsável pelo nascimento e pela maturação das vocações sacerdotais. Em consequencia disso, a pastoral vocacional tem como sujeito ativo, como protagonista, a comunidade eclesial enquanto tal, nas suas diversas expressões: da Igreja universal à Igreja particular, e, analogamente, desta à paróquia e a todas as componentes do Povo de Deus.

É grande a urgência, sobretudo hoje, que se difunda e se radique a convicção de que todos os membros da Igreja, sem exceção, têm a graça e a responsabilidade do cuidado pelas vocações. O Concílio Vaticano II é explícito, ao afirmar que “O dever de fomentar as vocações sacerdotais pertence a toda a comunidade cristã, que as deve promover sobretudo mediante uma vida plenamente cristã”.

“Todos os sacerdotes são solidários com o Bispo e co-responsáveis na procura e promoção das vocações presbiterais. De fato, como afirma o Concílio, “ cabe aos sacerdotes, como educadores da fé, cuidar por si, ou por meio de outros, para que cada fiel seja levado, no Espírito Santo, a cultivar a própria vocação”. É esta “uma função que faz parte da própria missão sacerdotal, em virtude da qual o presbítero é feito participante da solicitude de toda a Igreja, para que jamais faltem na terra operários para o Povo de Deus”. A própria vida dos padres, a sua dedicação incondicional ao rebanho de Deus, o seu testemunho de amoroso serviço ao Senhor e à sua Igreja – testemunho assinalado pela opção da cruz acolhida na esperança e na alegria pascal -, a sua concórdia fraterna e o seu zelo pela evangelização do mundo são o primeiro e mais persuasivo fator de fecundidade vocacional.

Uma responsabilidade particularíssima está confiada à família cristã que, em virtude do sacramento do matrimônio, participa de modo próprio e original, na missão educativa da Igreja mestra e mãe.

Em continuidade e sintonia com a obra dos pais e da família, deve colocar-se a escola, que é chamada a viver a sua identidade de “comunidade educadora” com uma proposta cultural também capaz de irradiar luz sobre a dimensão vocacional como valor conatural e fundamental da pessoa humana.

Também os leigos, em particular os catequistas, professores, educadores, animadores da pastoral  juvenil, cada um segundo os recursos e modalidades próprias, têm uma grande importância na pastoral das vocações sacerdotais: quanto mais aprofundarem o sentido da sua vocação e missão na Igreja, tanto melhor poderão reconhecer o valor e caráter insubstituível da vocação e da missão presbiteral.

As várias componentes e os diversos membros da Igreja empenhados na pastoral vocacional tornarão tanto mais eficaz a sua obra quanto mais estimularem a comunidade eclesial como tal, a começar pela paróquia, a sentir que o problema das vocações sacerdotais não pode ser minimamente delegado a alguns “encarregados” (os sacerdotes em geral, e mais especialmente os sacerdotes dos seminários), porque sendo “um problema vital que se coloca no próprio coração da Igreja”, deve estar no centro do amor de cada cristão pela Igreja” (PDV, nº 41).

Para despertar mais a nossa consciência com relação ao trabalho vocacional, eis o que diz o Código de Direito Canônico e alguns documentos da Igreja:

  • O CÓDIGO DE DIREITO CANÔNICO, CÂN. 233 § 1º:

“A toda comunidade incumbe o dever de incentivar as vocações, para que se possa prover suficientemente às necessidades do ministério sagrado da Igreja toda; em especial, têm esse dever as famílias cristãs, os educadores e, de modo particular, os sacerdotes, principalmente os párocos. Os Bispos diocesanos, aos quais compete, antes de todos, cuidar da promoção das vocações, instruam o povo que lhe está confiado sobre a importância do ministério sagrado e sobre a necessidade de ministros na Igreja; suscitem iniciativas para incentivar as vocações com obras especialmente instituídas para isso.”

  • O DIRETÓRIO PARA O MINISTÉRIO E A VIDA DOS PRESBÍTEROS, DA CONGREGAÇÃO PARA O CLERO, Nº 32:

“Todo o sacerdote reservará um particular cuidado à Pastoral Vocacional, não deixando de incentivar a oração pelas vocações, de prodigar-se na catequese, de cuidar da formação dos acólitos, de apoiar iniciativas apropriadas mediante a relação pessoal que faça descobrir os talentos e saiba descobrir a vontade de Deus em ordem a uma escolha corajosa no seguimento de Cristo…  É “exigência insuprimível da caridade pastoral” que – secundando a graça do Espírito Santo – cada presbítero se preocupe de suscitar ao menos uma vocação sacerdotal que lhe possa continuar o ministério.”

  • CARTA APOSTÓLICA NOVO MELLENIO INEUNTE, Nº 46:

“… Certamente um generoso empenho deve ser posto – sobretudo por meio de uma oração insistente ao Senhor da Messe (cf. Mt 9,38) – na promoção das vocações ao sacerdócio e às consagrações especiais. Trata-se de um problema de grande importância para a vida da Igreja em todo o mundo… É necessário e urgente estruturar uma vasta e capilar Pastoral das Vocações, que envolva as paróquias, os centros educativos, as famílias, suscitando uma reflexão mais atenta sobre os valores essenciais da vida, cuja síntese decisiva está na resposta que cada um é convidado a dar ao chamado de Deus, especialmente quando esta pede a doação total de si mesmo e das próprias forças à causa do Reino.”

O Documento de Aparecida quando se refere à formação dos discípulos e missionários dá uma ênfase especial à Pastoral Vocacional.

“No que se refere à formação dos discípulos e missionários de Cristo, ocupa lugar particular a pastoral vocacional, que acompanha cuidadosamente todos os que o Senhor chama a servir à Igreja no sacerdócio, na vida consagrada ou no estado leigo. A pastoral vocacional, que é responsabilidade de todo o povo de Deus, começa na família e continua na comunidade cristã, deve dirigir-se às crianças e especialmente aos jovens para ajudá-los a descobrir o sentido da vida e o projeto que Deus tem para cada um, acompanhando-os em seu processo de discernimento. Plenamente integrada no âmbito da pastoral ordinária, a pastoral vocacional é fruto de uma sólida pastoral de conjunto, nas famílias, na paróquia, nas escolas católicas e nas demais instituições eclesiais. È necessário intensificar de diversas maneiras a oração pelas vocações, com a qual também se contribui para criar maior sensibilidade e receptividade diante do chamado do Senhor; assim como promover e coordenar diversas iniciativas vocacionais. As vocações são dom de Deus; portanto, em cada diocese, não devem faltar orações especiais ao “Dono da messe”. (nº 314)

“Diante da escassez de pessoas que respondam à vocação ao sacerdócio e à vida consagrada na América Latina e no Caribe, é urgente dedicar cuidado especial à promoção vocacional, cultivando os ambientes onde nascem as vocações ao sacerdócio e à vida consagrada, com a certeza de que Jesus continua chamando discípulos e missionários para estar com ele e para enviá-los a pregar o Reino de Deus. Esta V Conferência faz um chamado urgente a todos os cristãos, especialmente aos jovens, para que estejam abertos a uma possível chamada de Deus ao sacerdócio ou à vida consagrada; recorda que o Senhor dará a graça necessária para responder com decisão e generosidade, apesar dos problemas gerados por uma cultura secularizada, centrada no consumismo e no prazer. Convidamos as famílias a reconhecerem a bênção de ter um filho chamado por Deus para essa consagração e a apoiarem sua decisão e seu caminho de resposta vocacional. Aos sacerdotes, os estimulamos a dar testemunho de vida feliz, alegre, entusiástica e de santidade no serviço do Senhor.” (º 315)

2010: 3º CONGRESSO VOCACIONAL DO BRASIL

De 03 a 07 de setembro de 2010, em Iatici, Indaiatuba, SP, a Igreja estará celebrando o 3º Congresso Vocacional do Brasil.

Com o tema: Discípulos missionários a serviço das Vocações e o Lema: “Ide, pois, fazei discípulos entre todas as nações” (Mt 28, 19), o III Congresso, a exemplo dos precedentes, é a expressão e celebração da caminhada vocacional da Igreja no Brasil e deseja aprofundar o tema do discipulado e da missionaridade na perspectiva da animação vocacional em vista da evangelização na construção do Reino de Deus.

A riqueza do III Congresso consiste na acolhida às orientações do Sínodo sobre a Palavra de Deus e da Conferência de Aparecida, com seus referenciais para a vida (discipulado) e para o serviço das vocações (missão).

A Igreja convoca todos os seguidores de Jesus Cristo a levar adiante a missão evangelizadora. Em Aparecida os bispos reconheceram a necessidade de uma “conversão pastoral” para aproximarmos mais das pessoas que hoje estão mais abertas ao diálogo, demonstram maior flexibilidade nas questões polêmicas e tem um grande anseio da justiça do Reino (Cf. Doc. A. nº 365, 366, 368 e 370).

A Pastoral Vocacional se fundamenta na compaixão de Jesus pela messe abandonada, como ovelhas sem pastor. Da compaixão brota a oração e se manifesta a urgência da missão que nos impele a um zelo cada vez maior pelo trabalho como animador vocacional. (Cf.  Doc. Aparecida, nº 315)

Em nossas comunidades paroquiais e na diocese podemos trabalhar o Texto Base do III Congresso Vocacional e realizarmos os pré-congressos, preparando-nos para o Congresso Nacional, de 03 a 07 de setembro, em Itaici – SP.

Como animadores vocacionais devemos promover uma “pedagogia do encontro” que desperte e forme autênticos discípulos missionários. Pois “conhecer Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria.” (Doc. A. nº 29).

Como conclusão, apresento as várias etapas que a Pastoral Vocacional percorreu num período de 113 (cento e treze) anos.

DATAS HISTÓRICAS

1897 – O padre italiano, Aníbal Maria Di Francia, considerado “apóstolo da oração pelas vocações”, institui uma associação, chamada de “Aliança Sacerdotal”, com o objetivo de promover entre o clero a oração vocacional. Três anos depois, em 1900, institui a “União de Oração pelas Vocações”, envolvendo os cristãos leigos e leigas nesta preocupação com a questão vocacional.

1935 – Carta Encíclica Ad Catholici sacerdotii, sobre o sacerdócio católico, considerada o germe da moderna pastoral vocacional.

1941 – Instituição da Pontifícia Obra das Vocações Sacerdotais.

1952 – Fundação da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

1954 – Fundação da CRB (Conferência dos Religiosos do Brasil).

1955 – Fundação do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano)

1955 – 1ª Conferência Episcopal da América Latina, no Rio de Janeiro (RJ)

1962 – 1965 – Concílio Vaticano II

1964 – Instituição do Dia Mundial de Oração pelas Vocações

1966 – 1º Congresso Vocacional, em Roma, Itália (seguiram-se mais três: 1967, 1969 e 1971).

1968 – 2ª Conferência Episcopal da América Latina, em Medellín-Colômbia

1971 – Criação do Setor Vocações e Ministérios da CNBB

1971 – Mês Vocacional na diocese de Santo Ângelo (RS)

1972 – 1º Encontro Nacional da Pastoral Vocacional (ENPV), no Rio de Janeiro (RJ)

1973 – 1º Congresso Internacional dos Bispos delegados das Conferências Episcopais, em Roma, Itália (considerado o 1º Congresso Internacional das Vocações).

1973 – Ano Vocacional no Regional Sul da CNBB (Paraná).

1979 – 3ª Conferência Episcopal da América Latina, em Puebla, México.

1981 – 2º Congresso Internacional dos Bispos e de outros representantes das Vocações Eclesiásticas, em Roma, Itália (2º Congresso Internacional das Vocações).

1981 – Início da celebração do mês vocacional (agosto) em âmbito nacional.

1982 – Primeiro número da revista Rogate, de animação vocacional.

1983 – 1º Ano Vocacional do Brasil

1985 – Primeiro número da revista Espírito, de animação vocacional.

1989 – Criação do Grupo de Assessoria Vocacional (GAV), organismo ligado ao setor vocacional da CNBB, até 2002.

1992 – 4ª Conferência Episcopal da América Latina, em Santo Domingo, República Dominicana.

1992 – Lançado o Boletim Convocação (CNBB – Rogate), até 2006189.

1993 – Fundação do Instituto de Pastoral Vocacional (15 de agosto).

1994 – 1º Congresso Continental de Vocações, na América Latina (Itaici, Indaiatuba, Brasil).

1997 – 2ª Congresso Continental de Vocações, na Europa (Roma, Itália).

1999 – 1º Congresso Vocacional do Brasil (Itaici, Indaiatuba – SP).

2002 – 3º Congresso Continental do Vocações, na América do Norte (Montreal, Canadá).

2003 – 2º Ano Vocacional do Brasil (Itaici, Indaiatuba – SP).

2005 – 2º Congresso Vocacional do Brasil (Itaici, Indaiatuba – SP).

2007 – 5ª Conferência Episcopal da América Latina e do Caribe e Aparecida (SP).

2010 – 3º Congresso Vocacional do Brasil (Itaici, Indaiatuba – SP).

Continental de Vocações, na América Latina (S. José, Costa Rica).

*Mons. José Maria Pereira é Coordenador da Pastoral Vocacional da Diocese de Petrópolis – RJ
e-mail: jose.pereira@ucp.br