PAIXÃO DE CRISTO SEGUNDO MEL GIBSON

 

Dom Amaury Castanho

Bispo Emérito de Jundiaí

 

 

            Em 1987 ou 1988, se não falha a minha memória, pastoreando a Diocese de Valença, no Estado do Rio de Janeiro, recebi um convite do Consulado de Israel, para participar de um Encontro Judaico-Cristão na cidade de Jerusalém. Do Brasil éramos dois bispos, somados a mais 13 de diversos países da América do Sul e Central. Todas as despesas cobertas, generosamente, pelo governo de Israel. Levaram-nos às cidades da Galiléia e Judéia marcadas pela presença de Jesus Cristo.

            Participaram do histórico diálogo na cidade de Jerusalém rabinos, professores universitários judeus e, do nosso lado, 15 arcebispos e bispos. Abriu e encerrou o importante encontro o Ministro do Culto, de Israel. Foi uma boa experiência, em clima de respeitoso e sério diálogo. Omitindo outras informações, na conclusão do Encontro o Ministro do Culto nos disse que hoje os judeus tinham Cristo como um dos mais importantes judeus da história do seu povo. Não o consideravam como o Messias e Filho de Deus, mas como um dos seus grandes profetas. Anotei bem esse depoimento. Um século atrás era geral entre os judeus que Cristo tinha traído o seu povo, os costumes israelitas e a fé mosaica.

            Entristeceu-me nestes dias ler na “Folha de S.Paulo” declaração do Rabino Henry Sobel, aliás meu amigo, logo depois de assistir em Brasília, com os arcebispos e bispos da CNBB, ao filme “A Paixão de Cristo”. Disse ele que tinha o filme como anti-semita e que “não são confiáveis os relatos do Evangelho, que acusam tanto as autoridades judaicas quanto o povo judeu” (cf. 11 de março de 2004, página E-3).

            É lamentável a dupla afirmação do respeitado rabino que poucos meses atrás defendeu a pena de morte. Está redondamente enganado e posicionou-se sem conhecimento de causa. Dois dos evangelistas, São Mateus e São João, contradizendo o que ele afirmou, conviveram com Cristo nos últimos três anos de sua vida. Falam e escrevem o que ouviram e viram. Os fatos também são narrados por Lucas, respeitado historiador, discípulo de Paulo Apóstolo, e Marcos, discípulo de Pedro. Todos, portanto, contemporâneos de Cristo. Parece que para o amigo Henry Sobel nada aconteceu nas grutas de Qumram, na Judéia do tempo dos romanos, em que além da íntegra do livro do profeta Isaías, hoje no “Templo do Livro”, foram encontrados, também, trechos do Evangelho de Mateus remontando ao ano 40 depois de Cristo.

            Mas, vamos aos fatos. Antes de ser levado à presença de Pôncio Pilatos, representante do Imperador, do qual dependia a palavra final sobre condenar ou não condenar Cristo à crucifixão, o Nazareno foi traído por Judas, preso por sicários judeus e levado ao Sinédrio. Ali, perante os líderes israelitas, foram apreciadas algumas acusações contra Cristo. Nenhuma tendo convencido os sinedristas de algum delito grave que merecesse a sua condenação à morte de cruz, ergue-se o Sumo Pontífice daquele ano, Caifás, fazendo a Cristo a pergunta decisiva: “Pelo Deus Vivo, conjuro-te que nos digas se tu és o Messias, o Filho de Deus”. À resposta de Cristo “Tu o dizes”, sentenciaram-no à morte de cruz exclamando. “Ele blasfemou. Fez-se igual a Deus, é réu de morte!” (Mt 26, 59-67).

            Só depois é que Cristo foi levado à presença do representante do poder de Roma, do qual dependia a confirmação da sentença de sua morte. Pilatos interroga várias vezes a Cristo e por sete vezes afirma não encontrar nele “motivo algum de condenação” (Jo 18, 28-39; 19, 1-16). Enquanto lavava as mãos, uma multidão de judeus, açulada pelos seus líderes, exigia a libertação de Barrabás, segundo costume existente entre eles no tempo da Páscoa. Exclamavam “Crucifica-o! Crucifica-o!”. Juiz venal, temendo uma acusação de si junto do Imperador que representava, covardemente Pôncio Pilatos consentiu primeiro na flagelação, com requintes de tortura. O flagelado não raro sucumbia sob os açoites que penetravam em sua carne. Depois, autorizou a libertação de Barrabás e a crucifixão de Jesus Cristo.

            Acontece que segundo os historiadores da época, a crucifixão era “teterrimum suplicium” – um “terrível suplício”. Havia dois modos de um condenado ser crucificado. Um era ser amarrado na cruz onde aves de rapina comiam seus olhos e animais predadores devoravam suas entranhas até morrer. O segundo modo de alguém ser crucificado, e esse foi o que padeceu Cristo, era perfurando com grandes pregos as mãos e os pés do condenado, pregando-o no madeiro da cruz. Era terrível e, neste caso, o crucificado logo agonizava e morria, pois perdia muito sangue.

            Essa é a história das doze últimas horas da vida de Jesus, que se dizia o Filho do Homem, o Filho de Deus e Mestre, que Mel Gibson teve a coragem de levar, com toda crueza, às telas de milhares de salas de cinema. Eis o que ele teve a coragem de dizer: “Meu intuito mesmo era fazer um filme sobre Jesus e seu sacrifício. Todos nós o matamos e se você quiser eu serei o primeiro da fila a aceitar essa culpabilidade!”. A forte expressão “O seu sangue caia sobre nós e nossos filhos!” (Mt 27, 25) é bíblica mas certamente, os judeus e líderes responsáveis pela crucifixão de Cristo não tinham qualquer autoridade para responsabilizar o povo judeu como povo deicida. Antes, foi até aquele doloroso e triste momento da morte de Cristo, o povo escolhido de Deus, não raro infiel à aliança celebrada com Noé, Abraão e Moisés.

            A triste história narrada com pormenores pelos quatro evangelistas e filmada com fidelidade por Mel Gibson, coincide com o que escreveram Tácito em “Anais do Império” e Plínio, o Moço em clássica e histórica Epístola ao Imperador. A respeito de Cristo e dos cristãos, Tácito escreveu, literalmente, na obra citada: “Para livrar-se de suspeitas, Nero culpou e castigou com supremos refinamentos de crueldade, uma casta de homens detestados e vulgarmente chamados cristãos. Cristo, do qual seu nome deriva, foi executado por disposição de Pôncio Pilatos durante o reinado de Tibério. Algum tempo reprimida, essa perniciosa superstição voltou a brotar, não apenas na Judéia, seu berço, mas na própria Roma, receptáculo de quanto sórdido e degradante produz qualquer recanto da terra. Tudo em Roma encontra seguidores” (Annales,   XV, 44).

As pessoas de Jesus Cristo e de sua Mãe Maria, dos seus Apóstolos e do Cireneu, todos acabaram honrando o povo judeu. O filme de Mel Gibson nada tem de anti-semita. Apenas foi fiel à triste história da crucifixão de Cristo, quase vinte séculos atrás. Esses trágicos acontecimentos, os sofrimentos do Filho de Deus em sua humanidade, mais uma vez serão celebrados na Semana Santa que se aproxima. São os sofrimentos que tornaram Cristo o Redentor e todos nós redimidos.