A Paixão de Cristo, polêmica artificial

 

Carlos Alberto Di Franco

(Publicado em “O Estado de São Paulo”, dia 15 de março de 2004)

 

 

            Ao noticiar as impressões despertadas pelo filme de Mel Gibson, a mídia está mostrando, certamente sem perceber, o tamanho do fosso que a está separando da grande massa dos leitores, ouvintes e telespectadores. O sucesso, arrasador, de bilheteria é, sem dúvida, uma evidência de que alguém está na contramão da opinião pública. Antes da estréia do filme no Brasil, antecipada para o próximo dia 19, o público está sendo “informado” por uma enxurrada de clichês que têm como denominador comum o prejulgamento: o filme é “anti-semita”, é de uma “violência irresponsável”, etc. Alguns,curiosamente, clamam até pela volta da censura.

 

            Ao contrário de certo advogado que se vangloria de ter visto o filme em DVD pirata (contravenção penal) e, agora, defende sua proibição para menores de 18 anos e, se possível, seu banimento do território nacional (curioso conceito de liberdade de expressão),  assisti ao filme na cópia original, graças ao convite da Fox Film do Brasil. Por isso, só agora entro nesta polêmica artificial.

 

            Visto o filme,  creio, como bem lembrou o jornalista italiano Vittorio Messori, que têm razão os judeus americanos que aconselharam seus correligionários a não condenar o filme antes de vê-lo. Fica claríssimo que o que pesa sobre Cristo e o reduz àquele estado espantoso não é a culpa deste ou daquele, mas o pecado de todos os homens, sem excluir nenhum. O meu pecado e o seu, caro leitor.  Afinal, como salienta Messori, à obstinação de Caifás em pedir a crucifixão (o próprio Talmud tem para ele e seu sogro palavras terríveis), faz forte contrapeso o sadismo dos verdugos romanos; às vilezas de Pilatos, se opõe a coragem do membro do Sinédrio –episódio acrescido pelo diretor- que se enfrenta com o Sumo Sacerdote gritando-lhe que aquele processo é ilegal. E não é  judeu o apóstolo João que acompanha Maria, interpretada brilhantemente por Maia Morgenstern? Não é judia a Verônica? Não é judeu o impetuoso Simão Cirineu? Não é judeu Pedro, que, perdoado, morrerá pelo Mestre?  As palavras do profeta Isaías abrem sugestivamente o filme: “Em verdade, ele tomou sobre si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos” (...) “Mas ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniqüidades.” As baterias não estão apontadas para o povo judeu, mas para toda a humanidade. E o perdão, também.

 

            O filme é violento? Não. O filme é brutal. Como brutal foi a Paixão de Cristo. Gibson, com uma fidelidade escrupulosa aos Evangelhos, narra um fato histórico terrivelmente dramático e  sangrento. Não se trata de uma releitura adocicada do Novo Testamento. A pretensão do diretor, apoiado na verdade histórica e num espantoso domínio da técnica cinematográfica, é causar impacto no espectador para que tome consciência dos sofrimentos de Cristo e da magnitude do seu sacrifício pela Redenção de toda a humanidade. A Paixão de Cristo mostra uma dor e um sacrifício que comprometem. Por isso, escandalizam.  E este é, caro leitor, o cerne da polêmica: a Paixão de Gibson, fiel ao Evangelho, deixa claro que Jesus Cristo é o filho de Deus.

 

            Só quem tem fé, e mesmo quem não a tem, mas não está dominado pelo sectarismo e pelo preconceito, pode assistir ao filme com um mínimo de serenidade intelectual. O preconceito, e incluo aqui o repugnante anti-semitismo, é sempre uma manifestação de inferioridade. Estudei num colégio (o Rio Branco) com forte presença judaica. Fiz muitos amigos judeus. Amigos para toda a vida. Por isso, escrevo com muita tranqüilidade. Penso que as distorções estão mais nos olhos e nas mentes de alguns críticos do que no filme.

 

Fizeram-se dezenas de filmes sobre a Paixão. Este é, penso, um filme excepcional, feito por quem entende do ofício. Também assistimos a inúmeros filmes sobre o desembarque na Normandia, mas foi no Resgate do Soldado Ryan que vimos, de fato, o que aconteceu em Omaha. Salvando as distâncias infinitas entre os dois temas,  podemos dizer o mesmo: a história não mudou, foi melhor contada. Convido-o, caro leitor, a  formar sua própria opinião.

 

Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo para Editores e professor de Ética Jornalística, é diretor para o Brasil de Mediacción – Consultores em Direção Estratégica de Mídia (Universidade de Navarra). E-mail: difranco@ceu.org.br