Exegese

Comentário Exegético – VI Domingo do Tempo Comum – Ano A

EPÍSTOLA (1 Cor 2, 6-10)

(Pe Ignácio, dos padres escolápios)

A SABEDORIA: Sabedoria, pois, falamos entre os perfeitos, mas sabedoria não desta época nem dos soberanos deste tempo dos que fracassam (6). Sapientiam autem loquimur inter perfectos sapientiam vero non huius saeculi neque principum huius saeculi qui destruuntur. PERFEITOS: [teleioi<5046>=perfecti], significa acabado, perfeito, sem necessidade de completar, como diz Paulo em 1Cor 13, 10: quando porém vier o que é perfeito o que era em parte será aniquilado. Tratando-se de pessoas, significa adulto, amadurecido, de idade madura como em Hb 5, 14: o alimento sólido é  dos adultos [teleiön]. SOBERANOS [archontoi<758>=principes] O archon grego é líder, chefe, soberano, governador como em Mt 20, 25: sabeis que os governadores[archontes] dos povos. Como chefe temos Lc 8, 41 em que Jairo é o chefe [archon] da sinagoga. Os soberanos ou manda-chuvas desta época ou tempo [sher haolam] são comparados com os demônios em Jo 14, 30 em que Satanás é chamado príncipe [archon] do mundo. FRACASSAM [katargoumennoi <2673> =qui destruuntur]: no grego temos um particípio de presente passivo do verbo katargeö que significa tornar inativo, inoperativo, desocupado. Como em Rm 3, 3 em que a incredulidade de alguns tornará inoperante [katargesei] a fidelidade de Deus. O fracasso é devido a que eles não entendem a política e economia divinas e trabalham contra os planos de Deus, como foi outrora Paulo de quem Deus mesmo disse que estava querendo recalcitrar [escoicear] contra o aguilhão (At 26, 14).

A SABEDORIA DE DEUS: Mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, o oculto que predestinou Deus antes dos tempos para nossa glória (7). Sed loquimur Dei sapientiam in mysterio quae abscondita est quam praedestinavit Deus ante saecula in gloriam nostram. Paulo fala da sabedoria como um mistério, já que como se fosse tal, os planos divinos correspondentes à salvação da humanidade como intervenção de Deus na história humana, estiveram ocultos para os chamados sábios dentre os homens. O OCULTO [apokekrymenos<613>=abscondita] particípio passado de apokryptö com o significado de ocultar, esconder, estar sob secreto. Paulo chama a esses planos divinos da sabedoria de Deus como o mistério que permanece escondido e ignorado. Esse mistério, até agora encoberto, é motivo da glória dos cristãos. GLÓRIA [doxa<1391>=glória] aqui não é fama, mas glorificação do cristão, transformado, ou melhor, divinizado, que comparte gloriosamente a vida de Deus. É a vida eterna de João, o quarto evangelista, porque unicamente os deuses tinham direito a essa eternidade feliz.

DESCONHECIDA PELOS HOMENS: A qual ninguém dos soberanos desta época conheceu. Pois se conhecessem não crucificariam o Senhor da glória (8). Quam nemo principum huius saeculi cognovit si enim cognovissent numquam Dominum gloriae crucifixissent. Continua Paulo falando da sabedoria divina que, segundo ele, tinha duas qualidades, as quais descreve neste trecho: era desconhecida pelos sábios do mundo. Era contrária a essa sabedoria que podemos chamar mundana. A razão é porque Deus quer manifestar o seu poder na fraqueza do homem (1 Cor 1, 25 e 27), do mesmo modo que admite o pecado para mostrar sua misericórdia (Rm 5, 15-16). E ele pode dizer que, diante de suas fraquezas, Deus responde: a minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza (2 Cor 12, 9). E sendo Deus máximo, ele sempre será o mais perfeito. Por isso escolhe a perfeição da misericórdia e a perfeição da onipotência. Comparados com ele os líderes deste mundo são extremamente imperfeitos. Assim, os SOBERANOS [archontoi<758>=principes] deste mundo nada têm a dizer ou fazer comparável aos planos divinos. Nem os entendem, nem poderiam imitá-los, caso os conhecessem. Como a cruz é  o máximo sinal do poder e da sabedoria de Deus, daí que não conheceram o valor da mesma. Caso realmente a cruz tivesse um valor humano, não seria uma loucura para os gregos nem uma maldição para os judeus (1 Cor 1, 23). Cristo, pois, nos resgatou da maldição da Lei, fazendo-se ele próprio maldição  em nosso lugar (Gl 3,13). E agradou a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação [loucura da cruz]  (1Cor 1, 21). Por isso, Paulo disse de sua pregação que só entendia a Cristo e Cristo crucificado (1 Cor 1, 23)

DEUS PREPARA MARAVILHAS PARA OS QUE O AMAM: Mas como está escrito; as que olho não viu e ouvido não ouviu e sobre coração de homem não subiu, as que preparou o Deus para os que o amam (9). Sed sicut scriptum est quod oculus non vidit nec auris audivit nec in cor hominis ascendit quae praeparavit Deus his qui diligunt illum. A citação de Paulo é de Is 64, 4. Literalmente diz: Desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com olhos se viu Deus além de ti, que trabalha para quem nele espera. A interpretação paulina eleva o sentido da frase ao mundo eterno e glorioso divino, como esperança de bens que nem remotamente poderíamos esperar. Deus os PREPAROU [ëtoimasen<2090]=praeparavit]. É uma recompensa do Amor para o amor. Com esta frase Paulo nos diz que há um mérito [misthós] que Deus considera como digno de pagamento: o amor que substitui todo mandamento e toda lei, como diz Jesus: nestes dois mandamentos está toda a Lei e os profetas (Mt 22, 40).

A REVELAÇÃO DO ESPÍRITO: A nós, pois, o Deus revelou por meio de seu Espírito. Porque o Espírito perscruta todas as coisa até as profundezas de Deus(10). Nobis autem revelavit Deus per Spiritum suum Spiritus enim omnia scrutatur etiam profunda Dei. A sabedoria divina e seu mistério foi uma revelação feita a Paulo, que neste parágrafo usa o plural majestático, não por meio de homens, porque não o aprendi de homem algum, mas pela revelação de Jesus Cristo (Gl 1, 12). Daí que escreva que esse mistério lhe foi revelado por meio de seu [de Deus] Espírito. Na trilogia corpo, alma, espírito (1 Ts 5,23) o ESPÍRITO é a parte superior do homem que tudo ordena e dele dependem todas as decisões; como tal também o Espírito divino chega a saber as profundezas de Deus. Pois bem: foi esse Espírito que  revelou a Paulo o mistério a cruz. Na teologia judaica é mencionado como RUAH HAKODESH [= Espírito, o sagrado] ou Alento divino. Não como pessoa; mas como um atributo divino, ao modo como a ciência de uma pessoa opera e atua como força efetiva, sem se poder afastá-la do sujeito que a possui. No entanto como alento, podemos dizer que inspira e enquanto força, que vivifica. Um aspecto de sua influência é que dirige reis e ilumina os profetas. Aqueles para governar, estes para inspirar as palavras de modo que corretamente possam comunicar a mensagem em nome de Deus. No dogma trinitário o catolicismo e a maioria das igrejas cristãs, usam terminologia filosófica grega para descrever a pessoa do Espírito, distinguindo entre ousia [natureza] e hipóstasis [pessoa]. Embora ousia tenha o sentido de essência ou ideia, como humanidade [uma ideia] e hipóstasis o de indivíduo [uma realidade], ambos os termos são reais na teologia trinitária, atribuindo à ideia e ao sujeito uma existência real, na fórmula um só Deus em três pessoas. Enquanto a ação do Filho foi pela salvação da humanidade em geral, [a ousia], visto o pecado original, a ação do Espírito é pela santificação de cada pessoa em particular [a hipóstasis]. Por isso, Cristo presta sua pessoa divina à natureza humana se tornando cabeça da Igreja e o Espírito presta sua natureza a cada pessoa humana, à qual diviniza através da comunicação dos dons sobrenaturais.


EVANGELHO  (Mt  5, 17-37)

A LEI  E SEU CUMPRIMENTO (1a  parte)

(Pe. Ignácio, dos padres sescolápios)

Mateus era um legista, ou doutor da lei. No seu tempo estava quente a disputa sobre se a lei antiga, entre os cristãos; especialmente se a da circuncisão devia ser cumprida. As grandes disputas de Paulo a este respeito, enfrentando os seus irmãos de raça, de modo a ser obrigado a circuncidar Timóteo, (At 16,3) nos dizem que havia um ambiente difícil entre os primeiros cristãos, sobre como interpretar a lei antiga. Máxime se consideramos que a maioria das igrejas era constituída por antigos judeus, que tinham da lei um conceito altíssimo: No mundo judaico a lei era santa e tinha um valor salvífico absoluto. A lei era o compêndio de toda a sabedoria divina, revelada para se tornar caminho único de salvação humana. A Deus só se podia chegar pela observância da lei, revelação definitiva dum Deus que dirige por meio dela o seu povo. Com Paulo substituímos a Lei por Cristo.

Para Jesus a lei tinha dois aspectos diferentes: o primeiro enquanto palavra de Deus que revela seus planos sobre a escolha de sua pessoa como Messias-servo, cujos passos estavam totalmente delimitados. Essa lei devia se cumprir com extrema exatidão até o último detalhe. Um yod, a letra menor  ou um tilde, (chifrinho) eram importantes. Jesus cumpriria tudo em sua vida, e por isso diz que nada será omitido e tudo será realizado. O outro era sobre a lei como conjunto de normas ético-morais que deviam dirigir a conduta humana. Dividiremos, pois, este evangelho em duas partes: Uma primeira que é a introdução de hoje sobre o valor da lei  antiga, ou melhor, Lei e Profetas a respeito de Jesus (17 e 18) e  uma segunda parte: a lei como norma universal para o gênero humano, ambas referidas ao novo modo de ver a justiça, ou seja, a observância dessa lei que brotou outrora como vontade de Deus.

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VAMOS TRATAR DA PRIMEIRA PARTE:

NÃO SERÁ ABOLIDA: Não julgueis que vim anular a Lei ou os profetas. Não vim anular, mas completar (17). Nolite putare quoniam veni solvere legem aut prophetas non veni solvere sed adimplere. Pois certamente vos digo: até que passe o céu e a terra, um jota ou um chifrinho nunca passará da lei até que tudo se realize (18). Amen quippe dico vobis donec transeat caelum et terra iota unum aut unus apex non praeteribit a lege donec omnia fiant. A afirmação categórica de Jesus é suficientemente rotunda: Não penseis que vim abolir a lei e os profetas. Que significado devemos dar a estas palavras? Lei e profetas era o título que se dava à Escritura antiga. Hoje diríamos Escritura ou Palavra de Deus. De fato, Mateus parece ter um empenho especial em demonstrar desde o início do evangelho que Jesus cumpre tudo o que foi prefigurado pelos profetas. Jesus é filho de Abraão e filho de Davi. E em 1,22 dirá que tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor havia dito pelo profeta. O profeta por excelência era Isaías. Seguem-se como tal cumprimento o nascimento em Belém, a fuga ao Egito, a morte dos inocentes, e a infância em Nazaré. O batismo de Jesus é parte dessa dependência da palavra profética, como o início da pregação em terras de Zabulon e Neftali. Mais notável é que as 4 novas Bemaventuranças que Mateus acrescenta às de Lucas tenham  como base o AT: os mansos serão o salmo 37; os puros de coração o salmo 24; os pacíficos Gn 34, 21  e os misericordiosos perto de um Senhor que é misericórdia, Dt 4,31 e salmo 103. Jesus, com sua vida dá pleno cumprimento a essa  palavra de Deus, até tal ponto que o outro evangelista que escreve também para os judeus, terminará a vida de Jesus com o grito de Tudo esta consumado (Jo 19,30). Até depois de morto, a Escritura se cumpre ao não quebrar osso algum e ao ser a figura em que todos devem olhar uma vez traspassado (Jo 19, 36). Por isso Jesus termina esta primeira parte com as palavras sem que tudo seja realizado.

O SEGUNDO ASPECTO

HONRADEZ DOS DISCÍPULOS: Aquele, pois que quebrantar um dos mandatos destes mínimos e ensinar assim aos homens, mínimo será chamado no Reino dos céus; mas aquele que fizer e ensinar, esse grande será chamado no Reino dos céus (19). Qui ergo solverit unum de mandatis istis minimis et docuerit sic homines minimus vocabitur in regno caelorum qui autem fecerit et docuerit hic magnus vocabitur in regno caelorum. Portanto vos digo: que se não exceder vossa probidade mais do que a dos  escribas e fariseus não entrareis no Reino dos céus (20). Dico enim vobis quia nisi abundaverit iustitia vestra plus quam scribarum et Pharisaeorum non intrabitis in regnum caelorum. Era este o da lei como diretora da conduta humana, ou melhor, da ética judaica. Esse conjunto de normas ético-morais constituía a diferença essencial entre judeus e gentios. Pois bem, Jesus vem para aperfeiçoá-la. Implicitamente afirma que a lei é secundária e sua interpretação farisaica é totalmente inadequada e incorreta Dos 613 mandamentos divididos em pesados e leves, existem os que não impedem a entrada no reino como mandamentos menores, ou leves como diziam os fariseus. Jesus aceita esta divisão como vemos no versículo 19, que serve para  que a exegese católica distinga entre pecados de morte ou mortais (ver 1 Jo 5,16) e pecados leves ou veniais (da palavra venia que significa perdão em latim) Porém os mandamentos pesados ou principais deviam ser interpretados de modo totalmente novo e diferente. Porque se interpretados como o faziam os fariseus não comprometiam o coração, o mais interior do homem, e o deixava afastado  do verdadeiro caminho exigido pela santidade divina. E como todo bom legista, Mateus traz à conta os casos mais importantes desta lei: Assassinato, adultério, divórcio e juramento, o que veremos na segunda parte.

2ªPARTE

Em primeiro lugar, uma breve INTRODUÇÃO: estamos acostumados a ver a lei, especialmente os dez mandamentos, como coisa normal em nossas vidas de cristãos. Porém isso não era o caso dos primitivos cristãos,  especialmente os provindos do paganismo. Mateus, como bom legista, escolhe os casos mais cabeludos que não eram bem resolvidos pelo ambiente pagão, totalmente hostil, em que eles viviam. Há uma base de solução que está latente em todos eles e que se reflete nas palavras de Jesus, ouvistes que foi dito eu, porém vos digo: a parte externa é só um fruto maduro do que internamente se alimentou. E a esta intenção está dedicada à casuística do Mestre,  nas  quatro circunstâncias do evangelho de hoje, interpretadas do modo mais rígido por Jesus, e todas elas narradas no capítulo 20 do Êxodo, como lei.

HOMICÍDIO: Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás homicídio; porém aquele que cometer homicídio estará sujeito a julgamento (21). Audistis quia dictum est antiquis non occides qui autem occiderit reus erit iudicio. Porém eu vos digo que todo aquele que se irar com seu irmão sem motivo, será réu de julgamento; aquele, porém que disser a seu irmão raká, réu será do sinédrio; aquele, porém que disser morós,  será réu para a Geena do fogo. Ego autem dico vobis quia omnis qui irascitur fratri suo reus erit iudicio qui autem dixerit fratri suo racha reus erit concilio qui autem dixerit fatue reus erit gehennae ignis. Se, pois quando trouxeres a tua oferenda ao altar e lá lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti (23) deixa lá tua oferenda na frente do altar e vai primeiramente reconciliar com teu irmão e então vindo oferece tua oferenda (24). Si ergo offeres munus tuum ad altare et ibi recordatus fueris quia frater tuus habet aliquid adversum te relinque ibi munus tuum ante altare et vade prius reconciliare fratri tuo et tunc veniens offers munus tuum. O primeiro caso é o HOMICÍDIO. Não cometerás homicídio (Êx 20,13). Aquele que matar terá de responder no tribunal. Na realidade será morto. (Êx 21,12) Porque no conceito judaico ser réu e ser condenado é a mesma coisa. Jesus ensina que a cólera merece também ser julgada pelo tribunal de modo a ser o colérico condenado pelo mesmo.  O primeiro tribunal, o local ou de primeira instância, condena o colérico sem mais. E parece que iguala a cólera mais grave  ao homicídio com dois degraus igualmente sérios: Chamar raká (=abominável) ao irmão (=próximo) merece a condenação do supremo tribunal, o Sinédrio. Chamá-lo morós (=louco segundo o grego e ímpio segundo o aramaico) merece a condenação do fogo eterno, a Geena.  AMOR E CULTO: Sede bem intencionado com teu adversário cedo, enquanto estás com ele no caminho, não seja que te entregue como adversário ao juiz e o juiz te entregue ao servidor e sejas lançado no cárcere (25). Esto consentiens adversario tuo cito dum es in via cum eo ne forte tradat te adversarius iudici et iudex tradat te ministro et in carcerem mittaris. Amém te digo não sairás dali até que pagares o último quadrante (26). Amen dico tibi non exies inde donec reddas novissimum quadrantem. E prossegue dizendo que mais importante que o culto, considerado primário para um judeu, é a relação fraterna com o próximo, e ante o dever da reconciliação tudo o demais é secundário. E Jesus segue a regra comum de que é melhor uma reconciliação do que um julgamento de um contencioso administrativo. Pois neste caso pode ser que o juiz sentencie a favor do outro contendente e o xadrez seja tua morada até pagar o último centavo.

ADULTÉRIO: Ouviste que foi dito aos antigos: Não adulterarás (27). Audistis quia dictum est antiquis non moechaberis. Porém eu vos digo que todo aquele que olha uma mulher para desejá-la já adulterou com ela em seu coração (28). Ego autem dico vobis quoniam omnis qui viderit mulierem ad concupiscendum eam iam moechatus est eam in corde suo. O segundo caso é o ADULTÉRIO. Mais que um pecado sexual era este considerado uma violação da justiça, já que a mulher era propriedade do esposo e como tal usá-la por outro era um verdadeiro roubo. Jesus afirma que o desejo já é um adultério. Isso entrava dentro do decálogo: Não cobiçarás a mulher de teu próximo (Êx 20, 17). O ESCÂNDALO: Se, pois teu olho, o direito te escandalizar, arranca-o e lança-o de ti: pois é conveniente que pereça um dos teus membros e não todo o teu corpo ser lançado na geena (29). Quod si oculus tuus dexter scandalizat te erue eum et proice abs te expedit enim tibi ut pereat unum membrorum tuorum quam totum corpus tuum mittatur in gehennam. E se tua mão direita te escandaliza, corta-a e lança-a de ti: pois te convém que pereça um dos teus membros e não todo o teu corpo  ser lançado na geena (30). Et si dextera manus tua scandalizat te abscide eam et proice abs te expedit tibi ut pereat unum membrorum tuorum quam totum corpus tuum eat in gehennam. E Jesus parte para os motivos que podem levar ao pecado como escândalos no caminho da honestidade verdadeira e interior. Usa o olho e a mão como casuística de uma moral mais estrita da que era usual no seu tempo.  O olho direito era, como a mão direita, especialmente estimado pelos judeus. Ambos tinham um papel muito mais relevante que seus pares canhotos. Por isso a hipérbole do escândalo está ainda mais ressaltada com o que deve se perder antes de o pecado atingir o íntimo do ser humano, ou o castigo supremo da lei que era a morte. O escândalo principal era o proporcionado pelos escribas e fariseus que não entravam no reino e impediam a entrada (Mt 23, 13). Era o escândalo da fé. O escândalo moral parece que aqui está melhor contemplado. Desta conclusão, podemos intuir a perda biológica de um membro por intervenção cirúrgica diante da perda da vida mais fundamental, e inclusive a doação de membros de um sujeito para outro.

O terceiro caso é o DIVÓRCIO. Pois foi dito que se alguém se divorciar de sua mulher dê-lhe libelo de repúdio(31). Dictum est autem quicumque dimiserit uxorem suam det illi libellum repudii. Eu, porém vos digo que se alguém se divorciar de sua mulher, fora da palavra de porneia, faz que ela se adultere e quem se casar com ela, adultera (32). Ego autem dico vobis quia omnis qui dimiserit uxorem suam excepta fornicationis causa facit eam moechari et qui dimissam duxerit adulterat. Era fácil repudiar uma mulher no mundo judaico. Bastava um motivo tão fútil  como ter deixado queimar a refeição, segundo uma das escolas vigentes, para que por meio de uma carta, chamada de libelo (=pequeno livro), fosse repudiada. Jesus transforma o divórcio em adultério: ou expondo ao mesmo a mulher assim largada, ou tomando nova mulher o que equivalia a uma união adúltera. Ambos os casos caiam sobre uma lei de morte a ser pronunciada pelo tribunal. Talvez tenhamos aqui a solução dos pecados de morte de 1 João 5,16. Existe uma cláusula um tanto desconcertante: o adultério não será tal se a mulher e a união com ela for do tipo de fornicação, porneia em grego e zanuth em aramaico. O matrimônio zanuth era uma união de concubinato. A maioria das vezes era considerado inválido. Por isso a tradução da TEB é exceto no caso de união ilícita.

NOTA: A cláusula de exceção somente é mencionada por Mateus. A tradição coincide em que Mateus foi escrito especialmente para os judeus para que acreditassem que Jesus era o Messias e foi inicialmente composto em aramaico. A tradução ao grego de porneia seria originalmete zanuth ou zenuth palavra que deriva de um matrimônio inválido como em Lv 18, 7-18 que eram verdadeiros incestos ou entre parentes próximos. Um caso histórico é o de Antipas e sua cunhada Herodíades. Um outro caso seria o de um matrimônio polígamo, frequente entre os semitas ricos. Paulo aplica o Zanuth para referir-se ao matrimônio [porneia] inválido de um homem com a viúva de seu pai (1 Cor 5,1).

O quarto caso é o JURAMENTO. De novo ouvistes que foi dito aos antigos: não jurarás em vão, mas darás teus juramentos ao Senhor(33). iterum audistis quia dictum est antiquis non peierabis reddes autem Domino iuramenta tua. Eu, pois, vos digo: não jureis de jeito nenhum; nem pelo céu, porque é o trono do Deus (34) nem pela terra, porque é estrado de seus pés, nem por Jerusalém porque é cidade do grande rei (35). Ego autem dico vobis non iurare omnino neque per caelum quia thronus Dei est neque per terram quia scabillum est pedum eius neque per Hierosolymam quia civitas est magni Regis. Nem pela tua cabeça jurarás porque não poderás fazer um cabelo branco ou preto(36). neque per caput tuum iuraveris quia non potes unum capillum album facere aut nigrum. Seja, portanto vossa palavra sim sim, não não: o que sobrepassa disto é do maligno(37). Sit autem sermo vester est est non non quod autem his abundantius est a malo est. Jesus proíbe qualquer forma de juramento, que cai sob a lei do Êxodo: Não pronunciarás o nome do Senhor teu Deus em vão (Êx 20,7). Os judeus, que nem pronunciavam o nome de Jahvé e nem o escreviam na Escritura,  usavam de esperteza para evitar a lei e o castigo, jurando pelo céu, pela terra ou por Jerusalém, motivos unidos intimamente a Deus pois do contrário não serviriam como verdadeiros juramentos, ou testemunhas da verdade em nome de Deus. Jurar pela cabeça era um contra-senso já que não somos donos de nosso corpo e não nos pertence. Por isso Jesus dá uma solução draconiana: O sim e o não, não dependem do juramento, mas da veracidade de quem os pronuncia. O resto provém do maligno ou do mal, que ambas traduções são possíveis no grego.

Conclusão geral: Se pela ética ou moralidade vamos julgar o homem, vemos como teríamos muito que desejar e muito mais que reformar dentro do padrão de justiça-santidade humanas do ponto de vista evangélico. No mundo moderno, em que as riquezas são tão impiedosamente criticadas, o que é até bom,  a moral fraternal e a ética sexual têm muito a aprender destas palavras de Cristo. Sem dúvida estamos aquém do permitido e ao contemplar um freio a ambas, deveríamos louvar a Igreja ou o magistério que assim se comportam. Criticá-los é entrar na justiça farisaica condenada como insuficiente por Jesus.


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