Exegese

Comentário Exegético – XV Domingo do Tempo Comum – Ano A

EPÍSTOLA (Rm 8, 18-23)

(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

VALOR DO SOFRIMENTO: Porque estimo que não são dignos os padecimentos do presente tempo com a glória futura que será revelada em nós(18). Existimo enim quod non sunt condignae passiones huius temporis ad futuram gloriam quae revelabitur in nobis ESTIMO [logizomai<3049>=existimo] considerar, calcular, estimar, avaliar, pensar como uma conclusão meditada. Não é uma afirmação dogmática, mas uma opinião que merece certa consideração, dada a qualidade de apóstolo e sua dedicação ao anúncio evangélico. PADECIMENTOS [pathëma<3804>=passio] com significado de aflição, dor, amargura, infortúnio. Paulo podia falar em nome próprio, segundo ele narra em 2 Cor 11. E ele compara os mesmos com o prêmio esperado por seu meio: a GLÓRIA [doxa<1391>=gloria] com o significado de esplendor, majestade, honra, magnificência, e bemaventurança que vemos acompanhado de FUTURA [mellousa<3195>=futura] proveniente do verbo mellö como particípio de presente com o significado de estar a ponto de suceder, ou seja, de um futuro próximo. REVELADA [apokayfthënai<601>= revelari] é o infinitivo passivo de apokalyptö de significado revelar, descobrir, divulgar, manifestar. Será, pois, a bemaventurança, que será manifestada futuramente como prêmio aos que sofrem por amor ao evangelho.

A ESPECTAÇÃO: Porque o anseio profundo da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus (19). nam expectatio creaturae revelationem filiorum Dei expectat. ANSEIO PROFUNDO [apokaradokia<603>=expectatio] A palavra sai também em Fp 1, 20: Segundo a intensa expectação e esperança, dirá Paulo sobre seu fim. É, pois, uma expectativa, um desejo veemente da CRIAÇÃO [ktisis<2937>=creatura]. O significado é o ato da criação ou seu resultado: a criatura, ou  melhor, as coisas criadas. Exemplos: porque as coisas invisíveis, desde a criação do mundo [apo ktiseös kosmou]. O qual [Cristo] é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação [prötotokos pases ktiseos] (Cl 1, 15). Mudaram a verdade de Deus em mentira e honraram e serviram mais a criatura [të ktisei] do que o Criador (Rm 1, 25). Se alguém está em Cristo, nova criatura é [kainë ktisis] (2 Cor 5, 17). De onde deduzimos que universo  ou natureza é o sentido mais apropriado ao contexto. AGUARDA [apekdechetai<553>=expectat] aguarda ansiosamente, impulsivamente a REVELAÇÃO [apokalypsis<602>= revelatio] dos filhos de(o) Deus. Sempre que se refere ao Deus verdadeiro, Paulo usa o pronome determinante O como nesta ocasião. E como razão da esperança cristã num mundo novo, transformado para o bem, Paulo inicia suas razões com esta do sentimento das coisas criadas. Também elas esperam uma transformação para o bem, como é a produzida no homem que espera viver como verdadeiro filho de Deus. Quando esta realidade for efetiva, também a natureza, tanto a de cada homem como a material que o rodeia, encontrará em sua transformação a suprema bondade divina.

A SUBORDINAÇÃO DA NATUREZA: Pois na futilidade a criação está sujeita, não voluntariamente, senão por quem a subordinou em esperança (20). Vanitati enim creatura subiecta est non volens sed propter eum qui subiecit in spem. A principal razão é a liberdade que Paulo usa como termo de comparação entre um escravo e um filho. No momento atual, a criação está submetida, como uma escrava, a um homem caído que não busca a glória divina mas a FUTILIDADE [mataiotës <3153> =vanitas] com o sentido de vacuidade, futilidade, frustração, inutilidade e  transitoriedade. Como adjetivo, pode ser traduzido por vão, inútil: Ef 4,17: Não se comportem como os pagãos que vão correndo atrás de seus pensamentos inúteis. Ou em 2 Pd 2:18: Dizem palavras atrevidas e estúpidas. É a insensatez de criar seus próprios deuses: o ouro das riquezas [a mammona do evangelho (Mt 6, 24)]; o prazer de seu corpo, pois os homens caídos são mais amigos dos deleites do que amigos de Deus (2 Tm 3,4). E a falsa glória ou vaidade para não andarmos como os gentios na vaidade de sua mente (Ef 4, 17). SUJEITA [ypetagë<5293>=subiecta] como aoristo passivo do verbo ypotassö com a tradução de está sujeita ou subordinada. Para Paulo, com o pecado do primeiro homem, Adão, aquele entrou  como senhor no mundo com a morte (Rm 5,14. 21) e sujeitou tanto judeus como gentios (Rm 3,9). O pecado, que para nós é um ente abstrato e impessoal, para Paulo é um ser concreto como uma espécie de demônio dominante, que escravizou o homem  (Jo 8, 34) reinando no mundo para a morte (Rm 5, 21); e com o homem, escravizou a natureza, dada ao homem para a dominar (Gn 2, 15 e 2,20), mas agora hostil e rebelde ao bem por causa do pecado (Gn 3, 17). Tal é o pecado, personificado por Paulo em seu pensamento, que dominou o mundo para um fim fútil e frustrante, como é a morte. SUBORDINOU [ypotaxanta<5293>=qui subjecit] é o particípio de ypotassö que propriamente seria subordinante, melhor que subordinou. Como a continuação diz em esperança, devemos ir ao início do relato do Gênesis e encontrar como, após o castigo do delito, Jahveh Deus deixa aberta uma porta à esperança: Um descendente que irá esmagar a cabeça do maligno (Gn 3, 15) e portanto, morta a origem do mal, a morte não seria o fim definitivo, fútil e inútil do corpo humano, que em microcosmos é um retrato da natureza ou macrocosmos do Universo.

A LIBERTAÇÃO: Porque também a criação mesma será libertada da escravidão da corrupção para a liberdade da glória dos filhos de (o) Deus (21). Quia et ipsa creatura liberabitur a servitute corruptionis in libertatem gloriae filiorum Dei. Efetivamente, neste versículo, Paulo explica a subordinação a que estava submetida a natureza [essencialmente o corpo humano, microcosmos do Universo, como é Cristo no qual todas as coisas estão recapituladas (Ef 1, 10)]: De tornar a congregar em Cristo todas as coisas. A CORRUPÇÃO [fthora <5356> =corruptio], que segundo o sentir dos judeus contemporâneos de Jesus e de Paulo, determinava definitivamente a morte real após três dias da saída do sopro divino do corpo, morte inicial. Esta frase explica qual era a subordinação que Jahveh Deus impôs à natureza humana e com ela a toda a criação (Gn 2, 15). A liberdade é para a GLÓRIA [doxa <1391> =gloria] de Deus. Paulo tem como norma final de toda ação humana, especialmente livre, a glória de Deus:  Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus (1 Cor 10:31). Como sempre, Paulo, ao falar do Deus vivo em oposição aos outros deuses falsos, usa o artigo O determinante.

A NATUREZA RENOVADA: Pois temos conhecido que toda a criação geme e sofre dores de parto até agora (22). Scimus enim quod omnis creatura ingemescit et parturit usque adhuc. Como quando nasce uma nova criatura do ventre da mãe, diante da nova criação, renovada na árvore da cruz, já que foi aviltada na árvore da ciência (Gn 3, 7). Paulo usa a comparação que Jesus usou no discurso da última cena: chorareis e vos lamentareis, mas depois a vossa tristeza se converterá em alegria. Coisa que sucede com a mulher em tempos de parto (Jo 16,20-21). E em Cristo serão renovadas todas as coisas, pois as coisas velhas passaram; eis que todas as coisas são feitas novas (2Cor 5,1 7). É o novo renascer da água e do Espírito que Jesus prometeu a Nicodemos (Jo 3, 5).

AS PRIMÍCIAS DO ESPÍRITO: Mas não só, senão também nós que temos as primícias do Espírito e nós mesmos gememos, suspirando pela filiação, a libertação de nossos corpos (23). Non solum autem illa sed et nos ipsi primitias Spiritus habentes et ipsi intra nos gemimus adoptionem filiorum expectantes redemptionem corporis nostri. Paulo agora passa do macrocosmos do Universo ao microcosmos humano. Não só a Natureza, mas cada homem, especialmente os cristãos como PRIMÍCIAS [aparchë<536>=primitae]. Eram os primeiros frutos e as primeiras crias de animais domésticos que por lei pertenciam ao Senhor (Êx 23, 19). Nesta nova era do Espírito, os cristãos eram como as primícias, dedicados ao culto e sacrifício, pois tinham nascido de novo, por causa do Espírito recebido no batismo (At 2, 38), como era o caso das primícias. E suspiravam pela completa FILIAÇÃO  [yiothesia<5206>=adoptio] que Paulo gosta de usar para a nova entidade de quem, com o Espírito, recebe um lugar na família divina. Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor, mas recebestes o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai (Rm 8, 15). Tal e como o grego diz, a filiação suspirada é a libertação do corpo. Ou seja, esse corpo que é causa do pecado como diz Paulo: Não reine o pecado em vosso corpo mortal, para lhe obedecerdes em suas concupiscências (Rm 6,12). E em outra ocasião: Trazendo sempre por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também nos nossos corpos (2 Cor 4, 10). De modo que na imitação de Cristo, seja também o sofrimento do corpo o que imite os passos do Senhor (Mt 16, 24). Desse modo a libertação do corpo deve seguir os passos a paixão e morte do verdadeiro Filho de Deus.

EVANGELHO (Mt 13, 1-23)

Lugares paralelos:

(Mc 4, 1-9 Lc 8, 1-8)

O SEMEADOR

(Pe Ignácio, dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: Após o discurso de preparação para o envio de seus apóstolos, Jesus dá uma lição de como pregar o Reino: por meio de exemplos. E dando uma primeira exposição sobre o tema, ele ensina como ouvir a palavra e por que sua pregação tinha resultados tão diversos e exíguos. Explica-os com uma parábola que tem paralelos nos outros dois sinóticos Mc 4, 1-8 e Lc 8, 4-8. Esta parábola, pois, chamada do semeador, foi dirigida para provar a grande dificuldade que o anúncio do Reino encontrava entre os judeus. Na realidade, Mateus aponta duas respostas: A primeira, neste evangelho de hoje 11-15 e a segunda, nos versículos 34-35 do mesmo capítulo, para citar neste último caso o salmo 78,2. No fim do evangelho de hoje, Jesus interpreta o significado da parábola.

O AMBIENTE: Naquele dia, tendo saído Jesus da casa, sentava-se perto do mar (1). E reuniram-se perto dele muitas turbas, de modo que tendo ele entrado no barco para sentar-se; e toda a multidão estava de pé sobre a praia (2). In illo die exiens Iesus de domo sedebat secus mare. Et congregatae sunt ad eum turbae multae ita ut in naviculam ascendens sederet et omnis turba stabat in litore. A tradução, embora forçada, quer manter os tempos e modos dos verbos gregos. Segundo Mateus, antes da exposição desta parábola, Jesus inicia sua pregação, aparentemente sozinho. Ele responde a uma pergunta do Batista que interrogava sobre sua missão; logo, amargamente se queixa da incredulidade de seus conterrâneos e louva os mais ignorantes. No capítulo seguinte, há algumas disputas com os fariseus, uma cura e a afirmação de quem é o verdadeiro discípulo. Depois disto [naquele dia segundo Mateus é uma maneira redacional de prosseguir o relato], é quando Jesus sai da casa [de Pedro que era sua nova moradia (Mt 8, 14)] e se dirige à beira-mar de Cafarnaum que era a sua nova cidade (Mt 9,1). Cafarnaum [aldeia de Naum ou da Consolação] era no tempo de máximo esplendor uma cidade com aproximadamente 1800 habitantes que cobria uma área de 4,5 hectares [4 ou cinco campos de futebol]; mas no tempo de Jesus provavelmente só tinha algumas centenas de habitantes. Isso pode indicar o tamanho relativo dos acontecimentos que são narrados nos evangelhos.  Nela existia uma sinagoga, cujos restos ainda existem e que unia a mesma com a chamada insula sacra [o núcleo de casas em que se encontra a casa de Pedro segundo a tradição] numa mesma rua. A sinagoga monumental, cujos restos hoje são do século IV-V foi erigida sobre a antiga sinagoga dos tempos de Jesus. A cidade estava edificada num retângulo de 300X150 m de leste ao oeste; os edifícios públicos estavam no centro do retângulo. Ao leste estava a praia, muito mais perto nos tempos de Jesus do que na atualidade. A ela se dirige Jesus. Porém a multidão excede todas as previsões e Jesus recorre a um remédio que o livra do aperto da gente,  aglomerada ao seu redor, e se assenta provavelmente num dos barcos,  como cadeira de onde se dirige aos assistentes como mestre, segundo o costume dos rabinos, quando davam suas aulas. O mestre se assentava entre almofadas e os ouvintes o rodeavam de pé. Possivelmente Jesus está de costas para o mar e os ouvintes olhando o mesmo num círculo em que a praia, com sua inclinação natural, forma uma espécie de teatro natural, sem grades, mas com a inclinação suficiente de modo a todos poderem vir e ouvir o falante. Muita gente se reúne ao redor do Mestre e como o congestionamento continuasse, manda que o barco entre no mar e dessa cátedra improvisada leciona à multidão que o escuta de pé, desde a margem (Mt). Com menos detalhes, o relato de Marcos (4, 1) coincide com este  trecho de Mateus. O barco, a praia e as multidões são detalhes que Marcos também toma como ambiente do seu evangelho para esta parábola. Segundo a tradição, este barco era de Pedro, e por isso, se transformou na cátedra de onde Pedro também seguiria ensinando à Igreja. De fato, a estátua de Pedro, sentado na cadeira [cátedra] é atribuída ao escultor Arnolfo di Cambio (1245-1302). Fica do lado direito da nave, tendo o apóstolo sentado em seu trono. As duas chaves do céu estão em sua mão esquerda e a direita se ergue em gesto de bênção à antiga moda grega, os dois dedos estendidos em reconhecimento da natureza dual de Cristo, divina e humana, enquanto os outros três dedos se unem num sinal da Santíssima Trindade. É um ritual antiquíssimo que todos os peregrinos homenageiam a estátua antiquíssima, tocando-a com sua mão ou beijando o pé que se adianta. Quando o pontífice entra na igreja e beija o pé da estátua, nos grandes dias santificados ou nas festas dos Apóstolos, tem-se mesmo a impressão de que o São Pedro de bronze abençoa seu sucessor. Como um excursus à parte deixo ao critério dos leitores este comentário de uma teóloga protestante: Próximo ao altar-mor de S. Pedro existe uma estátua de Pedro em bronze, sentado numa cadeira. Há um registro de que essa estátua era originalmente do deus pagão Júpiter, tendo sido retirada do Panteão em Roma (quando era um templo pagão) e levado à Basílica de S. Pedro, sendo ali renomeada como Pedro. Júpiter era um dos deuses principais da antiga Roma, o qual era chamado “pater”, que em Latim significa “pai”. Um dos pés da estátua é feito de prata e os peregrinos católicos tocam-na e beijam-na, supersticiosamente. De fato, o Vaticano é um ídolo gigantesco! O grande altar sobre o suposto túmulo de S. Pedro se sobressai pelas maciças colunas de ouro em espiral, as quais se assemelham a serpentes enrodilhadas. Quase podemos escutar o seu sinistro sibilar! (Mary Schultz, membro da Primeira Igreja Batista de Teresópolis, pesquisadora do catolicismo). Contrasta esta  opinião com o que  escreve Jerônimo:  “Decidi consultar a cátedra de Pedro, onde se encontra aquela fé que a boca de um Apóstolo exaltou; agora venho pedir um alimento para a minha alma, ali onde outrora recebi a veste de Cristo. Não busco outro primado, a não ser o de Cristo; por isso, ponho-me em comunhão com a tua bemaventurança, ou seja, com a cátedra de Pedro. Sei que sobre esta pedra está edificada a Igreja” (Cartas I, 15, 1-2). De fato, a “cátedra” de Pedro, apresentada como segura meta de verdade e de paz forma a abside da Basílica de São Pedro, o monumento construído como Cátedra do Apóstolo, obra adulta de Bernini, realizada em forma de um grande trono de bronze, sustentado pelas imagens de quatro Doutores da Igreja, dois do Ocidente, Santo Agostinho e Santo Ambrósio, e dois do Oriente, São João Crisóstomo e Santo Atanásio. O trono metálico oculta a cátedra de madeira de que se servia o apóstolo para a sua pregação.

A PARÁBOLA: E falou-lhes muitas coisas em parábolas dizendo: Eis que saiu o semeador a semear(3). Et locutus est eis multa in parabolis dicens ecce exiit qui seminat seminare. Pelo que sabemos de Jesus, as parábolas são comparações tomadas da vida real em que a moral da história é o essencial. Parábola é uma narrativa, imaginada ou verdadeira, que se apresenta com o fim de ensinar uma verdade. Difere do provérbio em que não é uma apresentação tão concentrada como este, mas contém pormenores, exigindo menos esforço mental para se compreender. Difere da alegoria porque esta personifica atributos e qualidades pessoais como termos de comparação, ao passo que a parábola nos faz ver as pessoas na sua maneira de proceder e de viver. Também difere da fábula, onde encontramos seres fantasiosos, já que aquela se limita ao que é humano e possível. A parábola é um exemplo. O emprego contínuo que Jesus fez das parábolas está em perfeita concordância com o método de ensino ministrado ao povo no templo e na sinagoga. Elas aparecem no AT (2 Sm 12,1-4) e de modo especial nos profetas (Is 5, 1-12; Ez 17, 1-10). Os escribas e doutores da Lei faziam grande uso das parábolas e da linguagem figurada para ilustração de seu ensino. Assim eram os Haggadoth [narrações] dos livros rabínicos. A parábola tantas vezes usada por Jesus no seu ministério (Mc 4, 34) servia para esclarecer seus ensinamentos, referindo-se à vida comum e aos interesses humanos, para manifestar a natureza de seu reino e para experimentar a disposição de seus ouvintes (Mt 21, 45; Lc 20,19). Era um método muito usado no Oriente, apropriado ao ensino indireto dos valores e a realidades da vida. Jesus o emprega neste capítulo em que temos 8 parábolas, todas tomadas dos exemplos reais da vida cotidiana. A parábola é como uma noz; devemos abrir sua casca para gozar o fruto que dentro contém. Só o interessado abrirá a noz para gozar do fruto. Quem não se interessa ou despreza a aparência, ficará com a vivência de que a noz não contém nada de bom, a não ser uma dura casca. A mensagem do Reino foi dada em parábolas porque era difícil de entender os mistérios do mesmo. Quem poderia aceitar, nessa sociedade tão monoliticamente estruturada e totalmente dirigida por Rabis, solidamente aferrada à certeza de uma tradição, praticamente inamovível,  o dogma da Trindade, para dele derivar a Encarnação do Filho, a Redenção do homem e a Salvação de todos os povos? Até esta última, sozinha, é declarada por Paulo como mistério a ele revelado (Ef 3,6) e completamente desconhecido nos tempos passados. Em meios gregos,  existiam as fábulas de Esopo, autor grego do século VI aC, que segundo dizem, era corcunda e gago, vendido como escravo a um filósofo que o libertou. Acusado de sacrilégio contra um templo de Delfos, se matou, despenhando-se do alto de um promontório. As parábolas evangélicas, reconhecidas como tais são em número de 30 das quais temos 16 em Mateus. Nesta perícope, Jesus toma o exemplo de uma sementeira e, dependendo das propriedades do solo, a semente tem frutos diversos. A semente é boa, o semeador faz seu trabalho, mas os frutos dependem da qualidade do solo onde cai a semente.

A SEMENTEIRA: E ao semear ele algumas caíram perto do caminho e vieram os pássaros e as devoraram  (4). Outras, porém, caíram sobre lugar pedregoso, onde não tinham muita terra; e imediatamente brotaram por não ter profundidade de solo (5). Tendo, pois,  nascido o sol foram torradas e por não terem raiz murcharam (6). Outras, porém, caíram sobre os espinhos e cresceram os espinhos e as sufocaram (7). Mas outras caíram sobre a terra, a boa, e davam fruto, uma, pois, cem, mas outra sessenta, outra, porém, trinta (8). Et dum seminat quaedam ceciderunt secus viam et venerunt volucres et comederunt ea. alia autem ceciderunt in petrosa ubi non habebat terram multam et continuo exorta sunt quia non habebant altitudinem terrae. sole autem orto aestuaverunt et quia non habebant radicem aruerunt. Alia autem ceciderunt in spinas et creverunt spinae et suffocaverunt ea.Alia vero ceciderunt in terram bonam et dabant fructum aliud centesimum aliud sexagesimum aliud tricesimum. O latim da Vulgata, fielmente usa o plural para as sementes, indicando a singularidade de cada uma delas: umas, outras etc. As traduções vernáculas singularizam a semente usando uma parte inicial e tiram parte do valor da parábola, como se a semente total fosse dividida em 4 partes mais ou menos iguais. A tradução que oferecemos indica que houve algumas com um resultado, outras com outro e assim por diante, muito mais em conformidade com a Vulgata e com a realidade da sementeira. Espinhos e trechos pedregosos eram comuns na terra da palestina da época e os caminhos atravessavam os campos de modo que ao semear espalhando a semente com a mão, sem um rumo fixo [ao voleo como se diz em espanhol], ou através de carros de bois cujo fundo estava furado, e que seguiam o terreno previamente arado e preparado, estas, imprevisivelmente, podiam tomar um ou outro destino. Entre os campos havia sendas que os atravessavam: algumas sementes poderiam cair perto das veredas que dividiam os campos. Jesus nada diz sobre os números ou quantidade que caiu em cada parte do terreno. Não vamos dividir em 4 partes iguais as sementes espalhadas, nem poderemos deduzir as proporções matemáticas das mesmas. Jesus fala dos fatos de um modo vulgar, sem entrar nem na ciência, nem na história como atualmente as conhecemos. Sua ciência é a da época e sua história, embora seja verdadeira, não é a crítica dos tempos atuais. Ou seja, o que se acreditava e se tinha como fato verídico, era o que Jesus toma como modelo de sua informação. Como confirmação, sabemos que na Galileia, na melhor das suas terras, a colheita chega a 50 por um. Em Belém os fellah [camponês] consideram normal uma colheita de 2 a 4 por um. As terras, perto do lago de Genesaré, onde Jesus falava, são terras com múltiplos morros onde abundam, entre pequenos riachos, os cardos e os espinhos e em certos lugares as pedras constituem a base de um húmus pouco profundo. Por outra parte, as numerosas cavernas congêneres dão apeteço a numerosas pombas e pardais silvestres que só esperam as sementes caírem das mãos do agricultor, para, em bandos, se alimentarem das mesmas, especialmente nas numerosas sendas que percorrem os campos da região, onde as sementes aparecem melhor à vista dos pássaros.

CONCLUSÃO: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça (9). qui habet aures audiendi audiat. Com este título como um enigma, se excita a curiosidade em ordem a prestar melhor atenção e refletir sobre a parábola e seu significado. O aforismo é próprio de Jesus, pois não se encontra entre os ditos dos rabinos de seu tempo. Ele aparece no Apocalipse  em várias ocasiões como 2, 7 e 3, 6. Os mestres da Lei equiparavam os diversos grupos de seus ouvintes ao ouvido e às esponjas, segundo escorregavam ou se embebiam de seus ensinamentos; e até com os filtros e peneiras para os quais só entendiam o que a eles interessavam.

A PERGUNTA: Então, tendo-se aproximado, os discípulos lhe disseram: por que lhes falas em parábolas? (10). Ele, pois, tendo respondido, lhes disse: porque a vós foi dado conhecer os mistérios do Reino dos céus em parábolas; a eles, porém, não foi dado (11). Todo, pois, aquele que tem, ser-lhe-á dado e terá abundantemente; mas todo aquele que não tem, até o que tem ser-lhe-á tirado dele (12). Et accedentes discipuli dixerunt ei quare in parabolis loqueris eis. Qui respondens ait illis quia vobis datum est nosse mysteria regni caelorum illis autem non est datum. Qui enim habet dabitur ei et abundabit qui autem non habet et quod habet auferetur ab eo. POR QUE EM PARÁBOLAS: A pergunta não é unicamente nossa, mas foi realizada pelos próprios discípulos de Jesus (Mt 13, 10 e Mc 4, 10). Na última ceia, os discípulos lhe disseram: Eis que agora falas claramente, sem figuras (Jo 18, 29). Isso indica que as parábolas foram o método escolhido por Jesus para falar do Reino e que, até mesmo os discípulos, pouco ou nada entenderam, para não falar dos conterrâneos,  dos projetos de Jesus, como vemos em At 1, 6: Senhor é agora o tempo em que irás restaurar a realeza em Israel? Como muitos de nós, eles estavam como surdos sem ouvir e como cegos sem poder ver em matéria que tanto lhes concernia. É isso o que Jesus lhes disse, que a eles lhes foi dado conhecer os mistérios do Reino. REINO DOS CÉUS : Mateus usa o termo 12 vezes. Já os outros dois sinóticos preferem a tradução Reino do (assim) Deus. Céus porque no hebraico a palavra é plural Shamayim. Sendo que no singular significava chuva. Até este ponto é fiel à tradução do original, o evangelista  que chamamos por Mateus. Que significa a frase reino dos céus? Evidentemente, os céus eram a morada própria de Javé (Dt 26,15) e de lá é que Ele estendia a mão para realizar sua vontade na terra. Javé escolheu, como mais próximo ao povo eleito, um lugar onde tivesse também sua morada: o templo, lugar onde disse que estaria seu nome (I Rs 8,29). O problema é como se expande o Reino ou quem entra no mesmo. A expansão e a entrada estão nas mãos do Pai. Por isso pedimos: venha a nós o teu reino. O Reino está conosco sempre que dispostos a cumprir a vontade do Pai (Mt 7,21), com o qual nos tornamos discípulos e familiares de Cristo (Mt 12,50). OS MISTÉRIOS do Reino são especialmente as coisas que estavam por trás do que se podia ver e ouvir: Todos viam os milagres de Jesus, todos ouviam suas palavras, mas os sábios e entendidos não compreenderam a justiça de Javé, os planos de escolha da pobreza, como condição para entrar: tratar os mais pobres como se fossem os mais ricos e os mais ricos como se fossem os mais pobres. Os pecadores como se fossem justos e os justos como se fossem pecadores. Com esta disposição divina, todos poderiam entrar no Reino. Porém os sábios tinham uma doutrina e uns planos em que os mais pobres junto com os pecadores estavam excluídos e desprezados [exatamente como nós agora pregamos com nossa prática], e ao ver a conduta de Jesus, contrária aos seus desígnios, no lugar de retificar e modificar sua visão [o metanoeite do evangelho] firmaram-se na sua doutrina errada, para buscar uma razão que justificasse o seu procedimento e condenasse a conduta de  Jesus [Nós também buscamos pretextos para justificar nossas práticas e reduzir a palavra do evangelho]. Vendo-o e ouvindo-o exteriormente, não enxergavam nem compreendiam a verdadeira missão de Jesus: o Reino não entrava nos seus planos e o pouco que dele tinham [sua fidelidade a Javé, seu amor pela lei], foi-lhes tirado.

A CONSEQUÊNCIA: Por isso lhes falo em parábolas, porque vendo não veem e ouvindo não ouvem e não entendem (13). Ideo in  parabolis loquor eis quia videntes non vident et audientes non audiunt neque intellegunt. A interpretação da resposta de Jesus constitui uma verdadeira cruz para os intérpretes. A tradução da Vulgata e algumas vernáculas traduzem o oti <3754> grego como partícula final, para que, quando, se seguida por um particípio é um simples porque explicativo, como temos feito no início do versículo. Mas vejamos as explicações dos exegetas. Segundo eles, Mateus aponta duas respostas: a 1a no evangelho de hoje (11-15) e a 2a nos versículos 34-35 do mesmo capítulo. Nesta última, a razão é o cumprimento da profecia (Mt 13, 34-35) do salmo 78, 2: Vou abrir minha boca numa parábola, vou expor enigmas do passado. Mateus universaliza, segundo seu esquema, falando no plural: parábolas. Temos, pois, uma explicação fundamental, uma profecia, que exige que seja cumprida o que estava escrito. Mas a razão principal do ponto de vista humano é que faltava base para poder entender em toda sua totalidade o Reino. Por isso, Jesus não quer forçar a barra, como vulgarmente se diz. Assim no evangelho de hoje encontramos a verdadeira explicação do porquê das parábolas de Jesus: Porque o coração deste povo se tornou insensível (15). O coração é entendido em sentido semita como órgão mais intelectual do que sentimental. Podemos traduzir por entendimento, mente. Coração que estava engrossado ou grosso [seria a tradução literal] e que podemos facilmente traduzir por entendimento embotado. Também em Êxodo 7,3  encontramos o endurecimento do coração do Faraó tornado inflexível, endurecido e obstinado. Obstinação que em parte é atribuída ao próprio Deus e em parte  ao mesmo faraó. Porque se o homem é responsável pelo fechamento de sua mente, os planos de Deus parecem incluir esta oposição humana, como contraste diante da obediência dos que se salvam por sua misericórdia. Jesus propõe comparações veladas, para estimular o aprofundamento. Os discípulos interessados, encontrariam a explicação. São as pessoas dispostas a mudar, as que entendem a profundidade e radicalização do evangelho. É preciso se despojar de si mesmo para compreendê-lo em toda sua amplitude. A  reviravolta do evangelho é tão extrema que é necessário nascer de novo (Jo 3,3). Era preciso romper com a ideologia oficial do judaísmo e com a idolatria do ego pessoal. É por isso que a escuridão da parábola não prejudica ninguém, mas ajuda quem realmente está disposto a querer entender. Jesus cita um provérbio: Aos que têm [boa intenção e interesse], dar-se-lhes-á; e aos que não têm, ser-lhes-á tirado o pouco que têm como correspondia a quem ouvia a palavra e não a entendia; via o milagre e o torcia em desgraça própria. Repetem-se as circunstâncias do tempo e da mensagem de Isaías (6, 9-12). O povo achava-se fechado à mensagem, porque a abertura à mesma era uma graça de Deus (Dt 29,3).

ISAÍAS: Assim é cumprida neles a profecia de Isaías, a que diz: ouvindo ouvireis, e de modo algum entendereis; e vendo vereis, e de modo algum percebereis (14). Pois engrossou o coração [mente] deste povo e com os ouvidos preguiçosamente ouviram e os seus olhos fecharam, não aconteça que vejam com os olhos e com os ouvidos ouçam e com o coração [mente] compreendam e se convertam e os cure (15). Et adimpletur eis prophetia Esaiae dicens auditu audietis et non intellegetis et videntes videbitis et non videbitis. Incrassatum est enim cor populi huius et auribus graviter audierunt et oculos suos cluserunt nequando oculis videant et auribus audiant et corde intellegant et convertantur et sanem eos.  A citação agora é de Isaías. Javé duvida a quem enviar. Isaías se prontifica e Deus lhe disse: Vai, dirás a este povo: com os ouvidos ouvis, mas não compreendereis, com os olhos olhais, mas não conhecereis. Embota o coração (=mente no sentido moderno) deste povo, torna pesados seus ouvidos, tapa-lhe os olhos! Que ele não veja com os seus olhos, nem ouça com os seus ouvidos! Que seu coração não compreenda! Que não se converta e seja curado! (6,9-10). A pregação de Isaías dirige-se a ouvintes rebeldes que não querem compreender, especialmente tendo em vista a experiência do rei Acab. A passagem que Jesus cita para explicar seu uso contínuo de parábolas fala, pois, da degradação espiritual dos israelitas, do orgulho e da teimosia de coração que tornaram impossível para eles continuar a ouvir e entender as palavras de Deus. Jesus diz simplesmente que era uma profecia que tinha sido literalmente cumprida em seus próprios ouvintes. Toda a sabedoria que eles ouviram de sua boca e todas as maravilhas que viram de sua mão não tinham  significado algum porque “o coração deste povo está endurecido; de mau grado ouviram com os ouvidos, e fecharam os olhos” (Mateus 13:15). A maioria dos autores modernos admite que os versículos 10-17 são um comentário do próprio Mateus,  tomado dos problemas suscitados na Igreja primitiva. Nós vamos tomar uma postura intermediária. Cremos que existe um parêntesis, feito pelo evangelista, e que está incluído nos versículos 14 e 15: Certamente havereis de ouvir e jamais entendereis. Certamente havereis de enxergar e jamais vereis, porque o coração deste povo se tornou insensível. E eles ouvirão de má vontade e fecharam os olhos para não acontecer que vejam com os olhos e ouçam com os ouvidos, e entendam com o coração, e se convertam, e assim eu os cure. Este texto é tomado de Isaías 6, 9-10 e coincide palavra por palavra com o texto grego da LXX.  De modo que as palavras de Jesus estão incluídas unicamente nos versículos 11-13 e 16-17. Mas vejamos em detalhe a explicação dos versículos 11-13. Porque a vós é dado  conhecer os mistérios do Reino dos céus, ao passo que a eles não é dado (11). Pois àquele que tem, será dado e estará na superabundância; mas àquele que não tem, nem mesmo o que tem ser-lhe-á tirado (12). O significado disto é que aos que têm boa vontade (outros dizem que aos que têm fé) ser-lhe-á dado em abundância. (=compreenderão perfeitamente a parábola). Mas aos que não têm boa vontade de ouvir e conformar-se ao escutado, até o que têm, ou seja, o que ouviram, será tirado deles. É como se nada tivessem ouvido. E Jesus continua: Eis por que  lhes falo em parábolas: porque eles olham sem ver e ouvem sem ouvir, nem compreendam (13). É uma conclusão do parágrafo anterior. Neste ponto poderíamos deixar a citação de Isaías (verdadeiro parêntesis) e continuar: Pois tornaram-se duros de ouvidos, taparam os seus olhos para não ver com seus olhos, não ouvir com seus ouvidos, nem compreender com seu coração e para não se converter.(15) Se compreende assim que a causa das parábolas de se tornarem difíceis é a obstinação dos que se tornaram duros de ouvido para não se converterem. A parábola pode dar lugar a essa interpretação, em que a incompreensão é parte dessa postura de não querer entender o verdadeiro significado, por não querer se converter. As palavras diretas não admitem essa interpretação que seria um fechar-se totalmente à verdade. Só os de boa vontade, aqueles que realmente têm olhos que veem e ouvidos que ouvem é que serão felizes (16) porque entenderão o  que realmente foi dito.

OS DISCÍPULOS: Porém, bemaventurados os vossos olhos, porque veem e vossos ouvidos porque ouvem (17). Certamente, pois, vos digo que muitos profetas e justos ansiaram ver as que vedes e não viram; ouvir as que ouvis e não ouviram (17).  Amen quippe dico vobis quia multi prophetae et iusti cupierunt videre quae videtis et non viderunt et audire quae auditis et non audierunt.  Daí que, após a disposição para escutar a mensagem da parábola, ele explica a mesma aos discípulos. Agora sim, eles a podem entender depois de tê-la escutado. O propósito das parábolas era revelar as verdades ocultas do Reino de Deus, porém, não a todos. Ao coração honesto, estas histórias ilustrativas trariam mais luz; aos orgulhosos e rebeldes, elas criariam mais confusão. Assim o explica Jesus: porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas àqueles não lhes será concedido (Mt 13, 11). É uma declaração que está na linha do profeta Isaías: “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos” (Isaías 57:15). “… mas o homem para quem olharei é este: o aflito e abatido de espírito e que treme da minha palavra” (Isaías 66:2). E quanto ao orgulhoso, Isaías diz que na vinda do reino messiânico “Os olhos altivos dos homens serão abatidos, e a sua altivez será humilhada…” (Isaías 2:11). Essa alegria e felicidade era a esperada pelos profetas e justos do AT. Para outros, os justos eram os reis. Com isso, Jesus indicava que os seus dias eram os que os antigos profetas predisseram e os que os reis de Israel desejavam como reino de paz e bemaventurança.

EXPLICAÇÃO DA PARÁBOLA: Por isso, ouvi vós a parábola do semeador (18). Vos ergo audite parabolam seminantis. Os três sinóticos narram também a explicação da parábola do semeador, e os três sinóticos dão uma mesma explicação ao tipo de terreno em que cai a semente que é a palavra do Reino, ou segundo Lucas a palavra de Deus (Lc 8, 11). Temos, portanto,  a explicação dada pelo próprio Jesus. Somente alguma expressão como a de Lucas que identifica a palavra com o logos de Deus pode ser uma reinterpretação, ou melhor, uma explicação mais extensa, completamente válida, da Igreja primitiva.  De fato, Marcos não explica em que consiste a semente, mas unicamente fala que o semeador semeia a palavra. E na subsequente explicação a palavra toma o lugar da semente. A semente é a palavra do Reino. Esta é a primeira conclusão. E a palavra do reino ou de Deus, era: Convertei-vos, ou melhor, Mudai vossa maneira de pensar e de viver, optando por fins honestos. Mas vejamos as quatro classes de terreno em que ela, a semente, cai.

OS OUVINTES SEM FRUTO: Todo aquele que ouve a palavra do Reino e não a entende, vem o maligno e arrebata a semente no seu coração [mente]; este é o semeado perto do caminho (19). O que, pois, foi semeado sobre terra rochosa, esse é quem, ouvindo a palavra, e de imediato, com gosto recebendo-a (20), porém não tem raiz em si mesmo, mas é passageiro: sobrevinda a adversidade ou a perseguição por causa da palavra, imediatamente tropeça (21). O que, pois, foi semeado entre os espinhos, esse é o ouvinte da palavra e os cuidados deste século e a fascinação da riqueza sufoca a palavra e se torna infrutífera (22. )Omnis qui audit verbum regni et non intellegit venit malus et rapit quod seminatum est in corde eius hic est qui secus viam seminatus est. Qui autem supra petrosa seminatus est hic est qui verbum audit et continuo cum gaudio accipit illud, non habet autem in se radicem sed est temporalis facta autem tribulatione et persecutione propter verbum continuo scandalizatur. qui autem est seminatus in spinis hic est qui verbum audit et sollicitudo saeculi istius et fallacia divitiarum suffocat verbum et sine fructu efficitur. Nesta explicação, Jesus ou o redator grego confunde a semente com o receptor. Em termos modernos a alegoria seria redatada: pelo que respeita à semente que caiu no caminho, representa aquele que  etc. Nestas três situações Jesus declara quais são esses apetites indignos, os lacres que se opõem à irrupção do verdadeiro Reino:  No caminho, será o Maligno ou Satanás, figurado pelos pássaros que impedem a semente de entrar na terra ou no coração dos homens. O solo rochoso é figura de quem está amedrontado por pressões e acuado pelas perseguições, que a Palavra deve enfrentar. A Palavra é bem recebida, mas não pode frutificar por causa desses medos e coações. A caída entre espinhos e sarças não pode frutificar porque é sufocada pelos cuidados materiais e pela ambição das riquezas. Jesus determina com precisão as dificuldades, primeiramente externas e logo internas, que impedem a entrega do homem ao apelo evangélico.

O FRUTO: Aquela, pois, que foi semeada sobre a terra, a boa, esse é que ouvindo a palavra e entendendo, quem deveras frutifica e faz (produz), um, precisamente, cem; outro, pois, sessenta, outro porém, trinta (23). Qui vero in terra bona seminatus est hic est qui audit verbum et intellegit et fructum adfert et facit aliud quidem centum aliud autem sexaginta porro aliud triginta. Finalmente, a terra, que sendo boa, nem sempre é a melhor [100 por um  que significaria entrega total] e que pode ser uma dedicação parcial de até uns 30 por um. Jesus, nesta parábola,  claramente indica as razões do porquê o bem não triunfa como deveria e algumas das causas que têm como base o mal que vemos no mundo. Existem causas externas e internas que sufocam a semente do Reino, total ou parcialmente, de modo que sua eficácia seja relativa. E o pior do caso, é que essas mesmas causas estão atuando no nosso tempo. Quem tem ouvidos para ouvir que ouça- dirá Jesus após terminar o relato da parábola (Mt 13, 9). Palavras de uma atualidade evidente em nossos dias.

PISTAS:1) As dificuldades em compreender o evangelho são de todas as épocas. Umas externas como é a perseguição mais ou menos oculta. Hoje está em moda a modernidade que coloca a liberdade, especialmente a sexual, como supremo valor a defender, impedindo qualquer outra opinião ou pensamento em contrário, porque defasado e medieval. E até afirmam que Jesus com seu amor, aberto a toda conduta, não condena homossexuais, nem outras condutas libertinas. Jesus não tinha por que condenar o que a sociedade de seu tempo já condenava. Mas se olharmos o evangelho, Jesus condena condutas liberais como o divórcio e o adultério (Mt 5, 16) e admite que o matrimônio de porneia não é verdadeiro. Logo nem toda liberdade está sancionada como amor e santificada como legítima pelas palavras de Jesus.

2) Uma outra dificuldade em admitir o evangelho era a perseguição clara que matava o corpo. Hoje a perseguição mata a alma porque reduz o verdadeiro cristão a um ser de outra época, atrasado, que não admite manipulação com embriões e atrasa o avanço científico em bem da humanidade. É como quem diz que se opor a uma bomba atômica é estar contrário à verdadeira ciência. Esta é amoral e pode servir tanto ou mais para o mal que para o bem. Com respeito ao caso dos embriões manipulados para obter a saúde de outros é como o escravo que é usado para benefício exclusivo do seu dono. Porque ao perder a dignidade humana [a verdade do conhecimento e a liberdade de escolha] na manipulação dum embrião, se perde o respeito ao homem completo que está no início de todo ser humano embrionário. Pois sem poder o embrião ter conhecimento e sem a autorização de seu consentimento, ele se torna um escravo ou um objeto manipulado.

3) O nosso mal é que sabemos tudo a respeito do evangelho, mas não queremos entender sua mensagem. Sempre referimos aos outros as coisas que realmente somos nós os que necessitamos mudar para melhorar a nossa vida. Por isso embora sejamos atentos às palavras as referimos aos outros e não as tomamos como sinal dado a nós mesmos. Daí que o fruto é escasso.

4) Agora entendemos por que Jesus diz que devemos aceitar o Reino como crianças. Eles não dão sentidos diversos às palavras nem sabem dulcificar a pílula, como vulgarmente se diz, para admitir uma parte – a que convém –  e deixar a outra, a mais difícil, que não se ajusta aos seus desejos.

5) A maioria entende as palavras de Jesus como se fossem parábolas, metáforas que podem ter muitos sentidos e interpretações nem sempre aplicados a nossa vida pessoal. Mas os verdadeiros discípulos as escutam pensando no que essas palavras dizem para convocá-los a uma vida de maior perfeição, sempre como uma meta ainda por alcançar e que todos devem almejar.

EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

– A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

– Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.

– Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

– Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.

– Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

– O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.

– O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.

– O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.

– O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.

– Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai  e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


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