Homilias

Homilia de D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB – IV Domingo de Páscoa (Ano A)

Eu sou a porta das ovelhas!

Jo 10,1-10

Caros irmãos e irmãs,

Neste quarto domingo do tempo pascal celebramos o “Domingo do Bom Pastor”, onde a Liturgia da Palavra nos apresenta um trecho do Evangelho segundo São João,  sendo Jesus apresentado como o Bom Pastor. O autor utiliza esta imagem para propor uma catequese sobre a missão de Jesus: conduzir o homem às pastagens verdejantes e às fontes cristalinas de onde brota a vida em abundância.

A Sagrada Escritura nos apresenta a figura do pastor desde a mais longínqua antiguidade:  “Caim era lavrador, Abel era Pastor (cf. Gn 4,2).  Também  Davi foi pastor  em Belém (cf. 1Sm 16,11) a quem é atribuído o Sl 22 onde descreve a imagem de Deus como Pastor. O Salmo sublinha como o pastor guia seu rebanho para verdes pastagens e para águas tranquilas.  O salmista acentua a dedicação total do pastor e a confiança total do rebanho.

No Novo Testamento esta imagem é transferida para Jesus Cristo, o Deus conosco.  Em diversos momentos, Jesus vai assumir essa figura de pastor, como acentua, por exemplo, o Evangelho deste domingo, cujo texto está dividido em duas parábolas.

Na primeira parábola (cf. Jo 10,1-6), Jesus se apresenta como o Pastor. E como Bom Pastor Ele conhece as “ovelhas” e as chama pelo nome, mantendo com cada uma delas uma relação única, especial, pessoal. Elas  fazem parte do rebanho de Jesus e escutam a sua voz. O pastor caminhará à frente das ovelhas e elas o seguem  (v. 4). Ele indica o caminho, pois Ele próprio é o caminho (cf. Jo 14,6) que leva à vida. Isso significa, concretamente, tornar-se discípulo, aderir a Jesus, percorrer o mesmo caminho que Ele percorreu, na entrega total aos projetos de Deus e na doação aos irmãos.

Muito cedo a Igreja utilizou esta imagem do pastor para indicar a presença de Jesus a cuidar de seu rebanho, conforme testemunham nas antigas ilustrações das catacumbas, sejam em pinturas ou esculturas, onde, normalmente, o pastor traz a ovelha nos ombros, como narram as Escrituras. Assim como um rebanho ficava aos encargos e cuidados de uma pessoa, da mesma maneira nós somos guiados e protegidos por Jesus.

Na segunda parte (cf. Jo 10,7-9), Jesus se apresenta como a porta. No que diz respeito às ovelhas, isto significa que Jesus é o único lugar de acesso para que elas possam encontrar as pastagens para nutrir a vida. Passar pela porta que é Jesus significa segui-lo, acolher as suas propostas.  A porta é um dos símbolos do Cristo. Ele disse: “Eu sou a porta” (Jo 10,9). Através dele encontramos a nós mesmos e encontramos os outros. E Cristo ainda completa: “Quem entrar por mim tem a vida!” (Jo 10,9). Quem entrar por Ele não fica desiludido, não sairá defraudado e encontrará orientação para a vida. Cristo é a porta que está sempre aberta. E cada um de nós também é chamado a passar por esta porta.

No tempo de Jesus, os pastores costumavam constuir nos campos um abrigo para a noite. Um retângulo cercado por pequeno muro de pedra, com uma única porta e, propositadamente, estreita.  Durante a noite vários pastores levavam ao abrigo suas ovelhas e um deles ficava de vigia a noite toda.  Pela manhã, cada pastor chamava suas ovelhas, elas saíam pela única porta estreita, ele as contava e as levava a pastar.  Mas também as cidades naquela época eram muradas.  Em Jerusalém, sobretudo, eram famosas as muralhas de Salomão e Herodes.  Entrava-se e saía-se das cidades somente pela porta.  Por isso, a porta significava proteção e segurança.  Era na porta da cidade que se recebiam os que chegavam e se despediam os que partiam.

Jesus, ao se comparar com uma porta, está dizendo que somente por Ele se entra no abrigo, somente por ele se entra na cidade de Deus, no Reino dos Céus. Mas também está dizendo que somente nele podemos encontrar segurança e proteção.

Ele é o único caminho pelo qual se pode entrar no Reino de Deus.  O pastor abre a porta para as ovelhas.  Jesus se compara a este Pastor que abre as portas e nos leva ao Pai. Jesus é o caminho seguro e certo para toda a humanidade. A porta dá acesso à salvação e, por ela entram os fiéis na casa de Deus.

A atitude do rebanho em relação ao Bom Pastor é apresentada pelo Evangelista com dois verbos específicos: ouvir e seguir. Estas palavras designam as características fundamentais daqueles que vivem o seguimento do Senhor. Antes de tudo, é pela escuta da sua Palavra, que a fé nasce e se alimenta. Só quem presta atenção à voz do Senhor é capaz de avaliar na própria consciência as justas decisões para agir segundo Deus. Por conseguinte, da escuta deriva o seguir Jesus: agimos como discípulos após ouvir e aceitar interiormente os ensinamentos do Mestre, para os vivê-los no cotidiano.

Com muita espontaneidade esse título de pastor passou a ser aplicado aos ministros da Igreja.  Aliás, Pedro foi oficialmente constituído pastor do rebanho de Cristo. As palavras de Jesus dirigidas a Pedro indicam a sua missão de guardar todo o rebanho do Senhor: “Apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,15-17).  Assim Pedro é constituído pastor e guia de toda a Igreja.  Essa imagem de pastor passará também a ser o modelo daqueles que são chamados ao ministério episcopal.  Na ordenação de um bispo, ao receber as insígnias de sua dignidade, é entregue a ele o báculo, símbolo mais evidente do pastor.

O Bom Pastor, será ainda o ideal de todo aquele que se dedica ao anúncio do Reino, modelo do serviço e da exposição da própria vida aos perigos, por causa do rebanho que lhe é confiado.

Efetivamente a missão de Cristo prossegue ao longo da história, através da obra dos Pastores aos quais Ele confia o cuidado do seu rebanho.  Como fez com os primeiros discípulos, Jesus continua a escolher para si novos colaboradores que cuidam do seu rebanho mediante o ministério da Palavra e dos Sacramentos.

A Igreja celebra ainda neste domingo o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. E não só vocações sacerdotais, mas também religiosas, uma vez que os religiosos, ao lado dos sacerdotes da Igreja, colaboram na edificação do reino de Deus.

Hoje somos também convidados a pedir ao Senhor por aqueles que estão se preparando para o sacerdócio e também por todos os ministros da Igreja.  Jesus disse aos apóstolos “vem e segue-me” (Mt 19,21).  Este mesmo chamado deve ressoar aos ouvidos dos homens de nosso tempo.  E neste contexto litúrgico, de modo particular e significativo, peçamos ao Senhor que jamais deixe de suscitar pessoas que O sigam de modo total na orientação do seu rebanho.  Peçamos também que ele sustente as vocações, em especial os sacerdotes, para que possam ser autênticos ministros do Cristo Bom Pastor, para que os fiéis, mediante a Palavra e os sacramentos, “tenham vida” e a tenham em abundância (cf. Jo 10,10).

O bom exemplo de um sacerdote é um incentivo para outros jovens seguirem o Cristo com igual disponibilidade. Por isto, neste dia dedicado às vocações, pedimos  ao “Senhor da messe” que possa continuar enviando operários para a sua vinha, porque “a messe é grande” (Mt 9, 37).

Fortalecidos pela alegria pascal e pela fé no Ressuscitado, confiemos as nossas intenções à Virgem Maria, Mãe de todas as vocações, para que, com a sua intercessão, suscite e ampare numerosas e santas vocações para o serviço do Reino de Deus.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ


Textos relacionados