Homilias

Homilia de D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB – IV Domingo do Advento (Ano A)

Mt 1,18-24

Meus caros irmãos e irmãs,

No coração do Advento, ao nos aproximar do Natal, a liturgia enfatiza as figuras de José e de Maria.  O texto evangélico deste domingo lança o olhar para a região da Galileia, onde Maria estava prometida em casamento a José e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo. José, seu marido, era justo, e não querendo denunciá-la, resolveu abandoná-la em segredo. Enquanto José pensava nisso, eis que o anjo do Senhor apareceu-lhe em sonho, e lhe disse: “José, Filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo”  (Mt 1,18-20).

José e Maria eram da Galileia, região onde a maioria dos moradores eram pagãos, exceção feita a poucos israelitas. No entanto, foi ali, numa de suas cidades, que Jesus  Cristo veio a ser concebido. Mais tarde, Bartolomeu, antes de se tornar apóstolo, indagará a Filipe que lhe dizia ter encontrado o Messias, Jesus: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré da Galileia?” (Jo 1,47). Havia de fato um enorme preconceito contra os galileus. No entanto, foi na pequena cidade de Nazaré, pobre e ignorada, nunca nomeada na história religiosa judaica e, portanto, completamente à margem dos caminhos de Deus e da salvação, o lugar em que ocorre a concepção de Jesus.  Nazaré teve a honra de ser o lugar no qual o Filho de Deus se encarnou e na insignificante Belém, Jesus nasce, ao passo que em Jerusalém, na capital, foi condenado, crucificado e morreria na cruz.

Maria, a jovem de Nazaré, era “uma virgem prometida em casamento a um homem chamado José” (Lc 1,27). O casamento hebraico considerava o compromisso matrimonial em duas etapas: uma primeira fase, na qual os noivos se prometiam um ao outro; só numa segunda fase surgia o compromisso definitivo, as cerimônias do matrimônio propriamente dito. Entre os “esponsais” e o rito do matrimônio, passava um tempo mais ou menos longo, durante o qual qualquer uma das partes podia voltar atrás, ainda que sofrendo uma penalidade. Durante os “esponsais”, os noivos não viviam em comum; mas o compromisso que os dois assumiam tinha já um caráter estável, de tal forma que, se surgisse um filho, este era considerado filho legítimo de ambos. A Lei de Moisés considerava a infidelidade da “prometida” como uma ofensa semelhante à infidelidade da esposa (cf. Dt 22,23-27). E a penalidade seria a morte por apedrejamento. José e Maria estavam, portanto, na situação de “prometidos”; ainda não tinham celebrado o matrimônio, mas já tinham celebrado os “esponsais”.

Dentro deste contexto ocorre o anúncio do Anjo à Maria e a sua gravidez, acontecida por obra do Espírito Santo.  O evangelista São Mateus põe em evidência o papel de José, apresentado como um homem “justo” (Mt 1,19), sublinhando com isto, ser ele observador da Lei. Ao ter conhecimento desse fato, José fica desconcertado. O Evangelho não explica quais foram os seus pensamentos, mas, sendo ele um homem justo e observante da Lei, certamente ele iria cumprir as prescrições estabelecidas pela legislação vigente.  Contudo, em vez de se defender e de fazer valer os próprios direitos, José escolhe uma solução que para ele certamente representa um sacrifício enorme. E o Evangelho diz: “Sendo que era um homem justo e não queria difamá-la, resolveu deixá-la secretamente” (1,19). Esta breve frase sintetiza um verdadeiro drama interior vivido por São José.

Nestas circunstâncias, José não sabia como comportar-se perante a gravidez de Maria. Ele está ciente de que o filho que Maria estava esperando não era dele, logo teria sido Maria infiel. Tudo indica que este era certamente o seu pensamento. Diante deste quadro inquietante, procura uma maneira de sair desta difícil situação. Enquanto pensa, diz o texto bíblico, apareceu-lhe, em sonho, um anjo do Senhor, que lhe disse: “José, filho de Davi, não temas receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela gerou é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,20-21).

E o texto continua: “Despertando do sono, José fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu Maria como a sua esposa” (Mt 1, 24). Ele recebeu Maria com todo o mistério da sua maternidade; recebeu-a com o Filho que havia de vir ao mundo, por obra do Espírito Santo.  Com isto, São José demonstrou uma disponibilidade de vontade, semelhante à disponibilidade de Maria, em ordem àquilo que Deus lhe pedia, pela mediação do anjo Gabriel.

Como se deduz dos textos evangélicos, o matrimônio com Maria é o fundamento jurídico da paternidade de José. Foi para garantir a proteção paterna a Jesus que Deus escolheu José como esposo de Maria. Por conseguinte, a paternidade de Jesus assumida por José passa através do matrimônio com Maria, ou seja, através da família.

O Evangelista São Mateus ainda relata: “José … recebeu consigo a sua esposa, a qual, sem que ele a tivesse conhecido, deu à luz um filho” (Mt 1,24-25). Estas palavras indicam ainda outra proximidade esponsal. A profundeza desta proximidade, a intensidade espiritual da união e do contato entre o homem e a mulher, provêm, em última análise, do Espírito que dá a vida (cf. Jo 6,63). José, obediente ao Espírito, encontra precisamente nele a fonte do amor, do seu amor esponsal, maior do que aquele “homem justo” poderia esperar, segundo a medida do próprio coração humano.

Com isto compreendemos a provação que José teve que enfrentar nos dias que precederam o nascimento de Jesus. Este Evangelho nos mostra toda a grandeza de alma de São José, um homem bom que não permitiu que o rancor lhe envenenasse a alma.  E, em sonho, o anjo ainda diz a José: “Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo de seus pecados” (Mt 1,21). Tendo abandonado o pensamento de repudiar Maria em segredo, ele a toma consigo, porque agora os seus olhos conseguem ver em Maria a realização da obra de Deus.

São José recebe aquela que, segundo a lei, é a sua “esposa”, permanecendo virgem, tornou-se mãe pela virtude do Espírito Santo. E quando o Filho, que Maria traz no seu seio, vier ao mundo, há de receber o nome de Jesus. Este nome era bem conhecido entre os Israelitas e, em conformidade com a promessa divina, Ele realizará o que este nome significa. Em hebraico Jesus, “Yehosua”, quer dizer “Deus salva”. E de acordo com o costume da época, caberia ao pai dar o nome ao filho, por isto, o anjo prescreve a José: “E tu lhe darás o nome de Jesus”.  O anjo se dirige a José, portanto, confiando-lhe os encargos de um pai terreno em relação ao Filho de Maria.

O evangelista São Mateus ressalta em seu texto que através de São José, o Menino estava legalmente inserido na descendência davídica e assim realizava o que estava prescrito na Sagrada Escritura, onde o Messias era profetizado como “filho de Davi” (cf. 2Sm 7,14-16. Contudo, o papel de José não pode certamente reduzir-se a este aspecto legal.  Ele é modelo do homem “justo” (Mt 1,19), que em perfeita sintonia com a sua esposa acolhe o Filho de Deus que se fez homem e vela sobre o seu crescimento humano.

Possamos nos preparar com dignidade para celebrar o Natal contemplando Maria e José: Maria, a mulher cheia de graça que confiou totalmente na Palavra de Deus; José, o homem fiel e justo que preferiu acreditar no Senhor, em vez de ouvir as vozes da dúvida e do orgulho humano. Caminhemos com eles rumo a Belém, e que eles intercedam sempre por nós, para que possamos prosseguir com o coração dilatado no caminho do bem.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ


Textos relacionados

Homilia do Mons. José Maria – IV Domingo do Advento (Ano A)

A Virgem e o Emanuel No Quarto Domingo do Advento entra em cena Maria. Seu […]

leia a matéria →

IV Domingo do Advento (Ano A)

Leituras e subsídios para liturgia e homilia do IV Domingo do Advento (Ano A)

leia a matéria →

Homilia de Dom Henrique Soares da Costa – IV Domingo do Advento (Ano A)

Is 7,10-14 Sl 23 Rm 1,1-7 Mt 1,18-24 Estamos às portas do Santo Natal. Eis […]

leia a matéria →