Homilias

Homilia de D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB – Natal

Jo 1,1-18

Meus caros irmãos e irmãs,

Celebramos a festa do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.  Nasceu para nós o Salvador.  Sinal pleno de alegria.  Sinal de paz e felicidade a todos quantos sentem no coração o eco alegre da mensagem da Noite Feliz que os anjos proclamam: “Glória a Deus nas alturas, e Paz na terra aos homens por ele amados” (Lc 2,14).

O texto do evangelho prescrito para este dia nos apresenta o prólogo do evangelho de João, uma das páginas mais belas do Novo Testamento, onde são antecipados os temas fundamentais do texto joanino. É semelhante a um hino em que o tema principal é o Logos. O prólogo começa com a mesma palavra do Gênesis (1,1). Em João encontramos a afirmação de uma existência que precede o começo enunciado em Gênesis. Antes desse começo, existia o Logos. A melhor tradução para Logos é “Palavra”, entendida como a comunicação que Deus faz de si mesmo (cf. Hb 1,1-4).

São João proclama de forma grandiosa que no início (cf. Gn 1,1) era a Palavra da criação (cf. Gn 1,3), e esta Palavra é aquele que veio ao mundo, mas o mundo não a acolheu (cf. Jo 1,5), aquele que se tornou carne como nós, mortal como nós (Jo 1,14). Mas exatamente nesta sua condição carnal, na sua doação até a morte, manifestou Ele a glória de Deus.  Jesus é a comunicação de Deus. É o permanente nascimento de Cristo na história, que vai renovando o mundo para que ele seja todo cristão.

João está descrevendo um novo começo. Se o livro do Gênesis registra a primeira criação, este primeiro versículo do Evangelho de João descreve a nova criação. Em ambas as ocasiões, o agente da obra criadora é o mesmo Verbo (ou Palavra) de Deus. “Palavra” e “luz” são duas formas de falar da mesma realidade, a saber, que Deus entrou na história humana para reconduzi-la à plenitude. Na mentalidade hebraica a palavra é o meio através do qual alguém se revela ou expressa seus pensamentos e vontade. Conforme o evangelista João, a melhor forma pela qual Deus se expressou foi através da existência humana de Jesus no mundo.

O verbo de Deus, ou seja, a Palavra de Deus, veio como a luz no meio das trevas (v. 5), isto porque a humanidade estava caminhando no erro e no pecado e, com o nascimento de Cristo começa uma nova criação, surge um novo tempo.  Contudo, esta luz não foi acolhida pacificamente no mundo.  A parte central do trecho do evangelho deste dia nos fala da luta dura, entre a luz vinda do céu e as trevas que continuam a envolver o mundo.  Trata-se das forças do mal que são os pecados e os erros que constituem as nossas trevas.

A luz veio ao mundo (v. 9). O Antigo Testamento se refere a Deus como a fonte da luz e da vida em várias passagens. O salmista indica que Deus é a fonte da vida e da luz (Sl 36,9). João, seguindo o conceito do salmista, afirma que o Verbo é a vida e a luz dos homens. João utiliza o termo “Verbo” em um sentido muito pessoal, de um Deus que ama, se compadece e se identifica com os seres humanos, tomando sobre si sua natureza, e sofrendo uma morte vergonhosa com o fim de prover um meio para a reconciliação do homem com seu Criador.

O termo “mundo” nesse texto significa o mundo dos homens e seus assuntos, o qual, concretamente, está submetido ao pecado e às trevas. A função da luz é basicamente combater ou vencer a obscuridade. Trevas é um termo metafórico que, no quarto evangelho se refere a tudo o que se opõe à mensagem de Jesus, é a obscuridade moral e espiritual. Por isso, o tema da primeira parte do quarto evangelho é a fé e a incredulidade é o resultado da influência das trevas.

A missão de Jesus no mundo foi uma espécie de conflito entre a luz e as trevas, culminando no Getsêmani e na cruz. Por isso, o verbo “vencer” cabe bem neste contexto. A luz brilha nas trevas e as trevas não tinham o poder para vencê-la (v.5).  A luz luta contra as trevas continuará, até a plena vitória da luz, vitória garantida pela ressurreição de Cristo (cf. Jo 16,33).

Mas o evangelista São João afirma: “Deus é luz e nele não há trevas” (1Jo 1,5). No Livro do Gênesis, lemos que, quando teve início o universo, “a terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo…”.  E Deus disse: “Faça-se a luz! E a luz foi feita” (Gn 1,2-3). A Palavra criadora de Deus é Luz, fonte da vida. Tudo foi feito por meio da Palavra de Deus e sem esta Palavra nada foi feito de tudo quanto existe (cf. Jo 1,3). Esta é a razão pela qual tudo o que Deus criou é bom, por traz os vestígios de Deus.

Entretanto, quando Jesus nasceu da Virgem Maria, a mesma Luz veio ao mundo, como professamos na oração do Credo: “Deus de Deus, Luz da Luz”.  João Batista não era a luz, mas veio para ajudar o povo a descobrir a presença luminosa e consoladora da Palavra de Deus na vida de cada um. O testemunho de João Batista foi tão importante que muita gente pensava que Ele fosse o Cristo de Deus (cf. At 19,3; Jo 1,20).  Mas o “mundo” não reconheceu o Cristo e nem acolheu a sua mensagem.

Desde os tempos de Abraão e Moisés, Deus continua enviando seus mensageiros, mas o “mundo” continua rejeitando a Palavra de Deus. O evangelista São João indica que, na época de Jesus, tanto o império como a religião da época, ficaram fechados em si e não foram capazes de reconhecer e receber o Evangelho, que é a presença luminosa da Palavra de Deus.

O texto evangélico nos diz que a Palavra se fez carne, isto porque Deus não quer ficar longe de nós. Por isso, a sua Palavra chegou mais perto ainda e se fez presente no meio de nós na pessoa de Jesus. Literalmente o texto diz: “A Palavra se fez carne e montou sua tenda no meio de nós!”. No tempo do Êxodo, lá no deserto, Deus vivia numa tenda, no meio do povo (cf. Ex 25,8). Agora, a tenda onde Deus mora conosco é Jesus. Jesus veio revelar quem é este nosso Deus que está presente em tudo, desde o começo da criação.

A perícope evangélica deste dia evoca ainda a profecia de Isaías, segundo a qual a Palavra de Deus é como a chuva que vem do céu e para lá não volta sem ter realizado a sua missão aqui na terra (cf. Is 55,10-11). Assim é a caminhada da Palavra de Deus. Ela veio de Deus e desceu entre nós na pessoa de Jesus. Através da obediência de Jesus ela realizou sua missão aqui na terra. Na hora de morrer, Jesus entregou o Espírito e voltou para o Pai. Cumpriu a missão que tinha recebido.

Na noite de Natal, Jesus se fez Luz para iluminar os nossos caminhos.  Cristo vem trazer a luz também a nós, para que possamos sair da escuridão e das trevas.  Que esta luz de Cristo possa iluminar cada ser humano e fazer brilhar a esperança e a consolação especialmente para os que vivem nas trevas da miséria, da injustiça, do ódio, da desunião.  Jesus veio ao mundo para resgatar o ser humano do poder das trevas e reconduzi-lo à luz, mediante uma vida nova.

Peçamos a Maria, aquela que chamamos de Bem aventurada, porque acreditou nas palavras do Senhor, que ela interceda sempre por nós e nos faça sempre caminhar na estrada de Jesus, a única via iluminada pela luz do amor e da paz.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ


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