Homilias

Homilia de D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB – XIX Domingo do Tempo Comum (Ano A)

 Jesus caminha sobre o mar

Mt 14,22-33

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia da palavra deste domingo traz para a nossa reflexão um texto do Evangelho de São Mateus, onde nos apresenta o episódio de Jesus que caminha sobre o mar (cf. Mt 14,22-33). Após multiplicar os pães e os peixes, Jesus convida os seus discípulos a entrar no barco e a precedê-lo, na outra margem, enquanto Ele despede a multidão, ficando, em seguida, na completa solidão para rezar em uma montanha até de madrugada.

Entretanto, começa uma forte tempestade e, precisamente no meio da tempestade, Jesus chega ao barco onde estavam os discípulos, caminhando sobre as águas do mar (v. 26). No contexto da catequese judaica, só Deus “caminha sobre o mar” (Jó 38,16; Sl 77,20); só Ele acalma as ondas e as tempestades (cf. Sl 107,25-30). Jesus é, portanto, o Deus que vela pelo seu povo e que não deixa que a força da morte, simbolizada pelo mar, destrua o homem.

Ao ver Jesus andando sobre as águas, os discípulos ficam apavorados e pensam que é um fantasma, mas Ele tranquiliza-os: “Coragem, sou eu. Não tenhais medo!” (v. 27). Com isto, Jesus transmite aos discípulos a certeza de que eles nada têm a temer, porque Ele é o Deus que vence as forças da morte e lhes dá ânimo para vencerem as adversidades.

Em seguida, Pedro, tomado por um impulso de amor pelo seu Mestre, quer ir até Ele, mas ao mesmo tempo, parece pedir uma prova, para confirmar ser mesmo Jesus: “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água” (v. 28); então, Jesus lhe diz: “Vem!” (v. 29). O Apóstolo Pedro desce do barco e começa a caminhar sobre as águas; no entanto, o vento impetuoso parece forte e ele começa a afundar. Então, clama: “Senhor, salva-me!” (v. 30), e Jesus lhe estende a mão e o segura.

Na perícope do Evangelho, chama a nossa atenção esta atitude de Pedro, que deixa o barco e começa a caminhar ao encontro de Jesus.  Ele começa a caminhar sobre a água, mas começa a afundar no momento em que desvia o seu olhar de Jesus, deixando-se abalar pelas adversidades que o circundam. Mas o Senhor está sempre presente, e quando Pedro o invoca, Jesus o salva do perigo. Na figura de Pedro, com os seus impulsos e as suas debilidades, está descrita a nossa própria fé: sempre frágil, mas, mesmo assim, caminha ao encontro do Senhor ressuscitado, no meio das tempestades e dos perigos do mundo.

Pedro caminha sobre as águas, não pelas suas próprias forças, mas pela graça divina, na qual crê; mas, ao sentir-se dominado pela dúvida, quando deixa de fixar o olhar em Jesus e tem medo do vento, quando não confia plenamente na palavra do Mestre, é então que corre o risco de afundar no mar da vida, e é assim também para nós: se olharmos unicamente para nós mesmos, não conseguiremos suportar os ventos, atravessar as tempestades, as águas agitadas que muitas vezes fazem parte do nosso quotidiano.

Pela fé, precisamos confiar que o Senhor está sempre próximo, a nos estender a sua mão, a nos amparar nos momentos difíceis. Jesus comunicou aos seus discípulos o poder para que pudessem vencer todos os males deste mundo que se opõem à vida. No entanto, enquanto enfrentam as ondas e os ventos, os discípulos oscilam entre a confiança em Jesus e o medo.

Um outro detalhe assinalado pelo texto está no fato do episódio ocorrer à noite, momento em que o barco é açoitado pelos ventos e pelas ondas, e navega com dificuldades. Os discípulos estão inquietos e preocupados, pois Jesus não está com eles. A noite representa as trevas, a escuridão, o medo, a insegurança em que navegam os discípulos de Jesus, sem saber exatamente que caminhos percorrer, nem para onde ir.

Também a cena final é muito importante. “Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. Os que estavam no barco, prostraram-se diante dele, dizendo: ‘Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!’” (v. 32s).  No barco encontram-se todos os discípulos, irmanados pela experiência da debilidade, da dúvida, do medo e da “pouca fé”. No entanto, quando Jesus volta àquele barco, o clima muda imediatamente: todos estão unidos na fé, por isto, se colocam de joelhos, reconhecem no seu Mestre o Filho de Deus. Quantas vezes também acontece conosco a mesma coisa! Sem Jesus, longe de Jesus, somos amedrontados e chegamos a pensar que não aguentaremos. Falta a fé! Mas Jesus está sempre ao nosso lado, sempre presente e pronto para nos segurar, a nos estender a mão.

O Evangelista São Mateus observa esta reação nos discípulos, porém, foram encorajados pela presença do Senhor. Isso é comprovado na profissão de fé manifestada por eles ao dizer: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!”.  Com isto, a desconfiança inicial dos discípulos se transforma em fé firme. Como de fato, esta confissão reflete a fé dos verdadeiros discípulos, que encontram em Jesus o Deus que vence o “mar”, o Senhor da vida a transmitir força e coragem aos seus discípulos para vencer o mal e lhes estende a mão, na tentativa de reanimá-los e não os deixa afundar.

Podemos ainda dizer que todos nós estamos dentro de uma barca que é a Igreja, que parece estar sempre a ponto de afundar, devastada pelas ondas de numerosos perigos, da pouca fé, da coerência insuficiente dos cristãos, de tantas ideologias que a atacam de todos os lados, mas nesta barca encontra-se Cristo.  O que salva a barca não são as qualidades e a coragem dos marinheiros; a garantia segura contra o naufrágio é a fé.  A barca de Pedro continua navegando e enfrentando tempestades das mais diversas realidades.  Por isto, jamais podemos desviar o nosso olhar do Cristo, pois se isto acontecer, certamente pereceremos.

Como seguidores de Jesus, de certa maneira, esta é também a nossa experiência.  Quantas vezes também somos abalados pelos sofrimentos e pelas dificuldades oriundas de ventos fortes e tempestades a nos atingir.  Quantas vezes somos submergidos pelo “mar” da frustração, do desânimo, da desilusão. Quantas vezes sentimos que afundamos na dúvida, no medo, no desespero e somos incapazes de enfrentar as tempestades, as forças das ondas que nos atingem.

É neste momento que também nós devemos segurar nas mãos de Jesus e, como Pedro, gritar: “Senhor, salva-me!” (v. 30).  Que Ele nos conceda a virtude da esperança e nos conduza com segurança pelos caminhos da vida e nos faça encontrar a sua mão. Que Ele também nos leve a estender aos outros a nossa mão, sobretudo, para aqueles que dela necessitarem.

Também nós caminhamos no meio da noite deste mundo, navegando com dificuldade, porque constantemente a barca da vida é agitada pelos ventos.  Peçamos que o Senhor Jesus venha ao nosso encontro, venha ao nosso socorro. E que ele possa dizer também a cada um de nós: “Coragem! Sou eu! Não tenhais medo!”.

Que possamos todos nós ir ao encontro de Jesus, caminhando sobre as águas do mar da vida, com coragem e confiança, sem desviar o nosso olhar daquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida (cf. Jo 14,6).  E somente se tomarmos a mão do Senhor, se nos deixarmos orientar por Ele, o nosso caminho será justo e bom.

Peçamos, pois, que Deus infunda em nossos corações a graça do Espírito Santo, criando em nós, que o ousamos chamá-lo de Pai, o espírito de filhos, para que o contemplemos como é, e sejamos conduzidos às heranças prometidas. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ


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