Homilias

Homilia do Padre Françoá Costa – Noite de Natal

Nas profundezas

Daqui a pouco você sairá dessa igreja, dessa celebração tão bonita de Natal e da companhia dessas pessoas tão gentis com as quais está louvando o Senhor. Nas ruas enfeitadas, encontrará certo alvoroço, rostos alegres, talvez encontre alguém ultimando as coisas para a grande ceia de Natal. Façamos o seguinte: vamos sair juntos! Vamos olhar, mas vamos ver de uma maneira diferente. Nós acabamos de dizer Gloria a Deus nos céus e paz na terra aos homens de boa vontade. Para Deus toda a glória; aos homens, a paz.

O que nós vemos? Exatamente o que eu descrevia antes. No entanto, vemos também alguém que está deitado no chão, passando frio uma noite e outra também. Vamos ver ainda aquele jovem na rua, meio desperto, meio dormido; meio bêbado, meio sóbrio; meio perdido. Coitado! E aquela senhora? Pobre mulher, entre panos e papelões, entre uma parede mal pintada e a sujeira do entorno, entre tantas pessoas que passarão – como nós – a festejar com alegria e com uma ceia generosa o acontecimento central da história da humanidade.

Não quero estragar essa noite nem quero que tenhamos peso de consciência ao comermos o peru natalino e brindar com champanhe. Mas eu gostaria – isso sim – que não fossemos superficiais nessa noite e percebêssemos que todo o nosso alvoroço frequentemente contrasta, e fortemente, com o acontecimento da gruta de Belém: Jesus, acompanhado da sua mãe e do seu pai adotivo, algumas ovelhas e vacas, a natureza silenciosa e… ninguém mais. Peru? Champanhe? Árvore de Natal? Pisca-piscas? Nada disso, ao contrário, e simultaneamente mais bonito. Os pastores trarão algo para comer; as luzes que enfeitam essa noite vem do mesmo Cristo, Sol da justiça, que dimana a sua luz pela lua, pelas estrelas e sobre as nossas vidas; a cruz já se vê prefigurada nesse despojamento inicial do Senhor, nessa “árvore de natal” que antecipa a árvore da cruz.

Hoje, na ceia do natal, nas grandes ou pequenas celebrações familiares, lembremo-nos de tantas pessoas cujo Natal reproduzirá o despojamento do Senhor em Belém, rezemos por elas e pensemos no que fazer para ajudar a esses nossos irmãos e irmãs necessitados. Talvez possamos fazer muito, talvez pouco, talvez já fizemos algo; o fato é que sempre podemos fazer alguma coisa e, o que é mais importante, rezaremos por eles. “Ninguém é tão pobre que não tenha nada pra dar”. Sempre existe a possibilidade de que nos demos a nós mesmos, hoje e agora, a Deus e a todos os nossos irmãos num serviço alegre e cheio de disponibilidade. Cada um desde o lugar que ocupa na sociedade, todos a uma: amar a Deus e amar ao próximo, mas que com palavras “com atos e em verdade” (1 Jo 3,18). O que eu posso fazer?

Caso essa reflexão nos tenha servido para fugir da superficialidade e entrar um pouco mais nas profundezas do mistério de Deus, que se fez homem para a nossa salvação, então comeremos o peru e brindaremos com champanhe com um olhar mais profundo, com uma alegria mais autêntica. Ao mesmo tempo, procuraremos fazer felizes a todos os que temos ao nosso lado. Nessa noite, não vamos procurar ser felizes, vamos dar felicidade, vamos procurar servir. Além do mais, vamos fazer tudo isso sem barulho, passando despercebidos. Consequência? Experimentaremos a alegria do Natal.

Desde que S. Francisco de Assis fez o primeiro presépio, em 1223, em Greccio, essa tradição tão cara ao coração dos cristãos tem dado frutos abundantes. Afinal, qual é a sua finalidade senão que entremos nas profundezas da autêntica gruta de Belém e estejamos aí com a Sagrada Família, com a nossa família? Dessa maneira, aprenderemos a melhor servir, a amar mais e a entregar-nos sem reservas aos planos salvadores de Deus.

Feliz Natal!

Pe. Françoá Costa


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