Doutrina | Moral

Manual de Teologia Moral Fundamental

Fonte: http://teologiamoral.blogspot.com

TEOLOGIA DA VIDA CRISTÃ
Introdução
Hoje não mais vivemos numa situação de cristandade, onde a cultura era pretensamente cristã e a Igreja não se preocupava muito em propor a vida cristã como um sistema de vida. Supunha-se que todos já estavam numa cultura cristã, que formava os valores fundamentais da civilização. Isto levou a Teologia Moral a preocupar-se não tanto em proporcionar uma visão lógica da estrutura do viver cristão, mas a distinguir a gravidade maior ou menor dos pecados, condicionada por uma visão particular do Sacramento da Penitência, a especular sobre as virtudes numa perspectiva muito mais apoiada em Aristóteles do que propriamente numa reflexão sobre o Evangelho e a não compreender suficientemente a vida na graça de Deus como superação da Lei como mediação entre Deus e as pessoas humanas. Mais recentemente, parece-nos que a Teologia Moral entrou numa perspectiva de uma ética humanitária em linha iluminista e continua a beber seus postulados em fontes que não são principalmente o Evangelho de Jesus. O Evangelho, tanto na antiga Teologia Moral da cristandade como na recente Teologia Moral contemporânea entra como uma inspiração de fundo, mas não é diretamente sobre o ensino e o mistério de Jesus Cristo que se reflete. Cremos que o foco principal da Teologia Moral no mundo pluralista e neo-pagão de hoje deve ser responder sobre qual a lógica racional do agir cristão, a partir da Revelação cristã, que tem no Novo Testamento seu documento. Foi o que procuramos fazer com este texto, que brotou de muitas reflexões em sala de aula, mas também de muitas pregações em retiros e celebrações. Por isso, o texto é, principalmente na segunda parte, um contínuo comentário de passagens bíblicas, em maioria absoluta do Novo Testamento. A quem nos acusar de sermos fundamentalistas por usarmos tão intensamente o Evangelho, responderemos que todos usam fontes. Se não usam o Evangelho, podem querer usar algum filósofo, mesmo que não o cite nem confesse esse compromisso, ou sigam uma mentalidade difundida no momento. Preferimos aqui nos libertar de toda corrente filosófica e de toda mentalidade passageira de época e buscar a lógica racional da vida cristã que é a mesma em todas as épocas e lugares. Cremos que o mesmo Deus que se revela progressivamente em Israel e definitivamente em Jesus Cristo é o Deus que deu uma estrutura racional à Sua criação, pesquisada pela ciência humana racional, e deu a capacidade racional à pessoa criada à Sua Imagem. Por que então o viver cristão não teria uma estrutura racional também? Foi o que buscamos. Não tememos que a Teologia Moral aproxime-se muito da Teologia Espiritual, e consideramos essa aproximação como um bem real. Esperamos que este texto ajude muitas pessoas a entender a vida cristã e entendendo, vivê-la melhor. A sabedoria que Deus nos permitiu colocar aqui pode ser cotejada com a sabedoria dos santos, meditando, por exemplo, as semelhanças entre o que expomos aqui e as intuições cristãs presentes na Regra de Santo Agostinho, na Regra de São Bento, em outros Padres da Igreja, nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio etc. Para nós, Teologia Moral é uma descrição da lógica da vida cristã. Daí o nosso título: Teologia da Vida Cristã.
Nota Preliminar: Homem, Mulher ou Pessoa?
A língua portuguesa tem poucos termos neutros. Por exemplo, a expressão ‘os homens’ pode tanto designar todas as pessoas humanas, compreendidas as mulheres, ou apenas as pessoas de sexo masculino, ou até excluir as crianças, tal a sua imprecisão. Devido a isto, e a uma perspectiva de valorização da mulher apareceu o costume de repetir as palavras no masculino e no feminino. Um presidente brasileiro iniciava seus discursos com o vocativo “brasileiras e brasileiros”. Na Igreja Católica no Brasil é comum dizer-se “santos e santas”, “irmãos e irmãs”, “filhos e filhas”, “homens e mulheres” sobrecarregando com muito mau gosto e deturpando até o sentido das orações mais sublimes. As Pessoas Divinas são masculinas ou femininas? Não são definitivamente nem uma coisa nem outra. A Segunda Pessoa encarnou-se e assumiu a natureza humana na forma masculina, mas fazendo-se membro do povo de Israel, o que é, nas imagens proféticas, ser esposa de Javé. Ele é, antes de tudo, uma Pessoa, ou seja, um ente de identidade definida pelas suas relações livres com outros entes semelhantes. Deus criou tudo o que existe e apenas duas categorias de pessoas, isto é, entes capazes de relação livre com as Pessoas Divinas e entre si. Os anjos, sem corpo e sem sexo (determinação masculina ou feminina) e os humanos, corporais e sexuados. Antes de ser masculino ou feminino cada humano é, criado à imagem das Pessoas Divinas, uma pessoa. Neste texto evitaremos, na medida do possível, o termo impreciso ‘homem’ e as desagradáveis repetições ‘homens e mulheres’ e usaremos o termo pessoa, que obviamente se refere às pessoas humanas. Desejamos que esse uso acostume o leitor a pensar a pessoa humana sempre como imagem divina e vocacionada à comunhão de vida com as Pessoas Divinas.
PRIMEIRA PARTE: A TEOLOGIA, A FÉ E A RAZÃO
1. A Teologia Moral cristã e suas implicações
1.1. O que é Teologia?
A pessoa recebe a Revelação Divina, pela pregação da Igreja, e crê. O mesmo Deus que Se revela pela História salvífica – Israel, Jesus Cristo, Igreja – é o Criador que deu inteligência e razão ao homem, criando-o à Sua Imagem. A razão humana crê e procura as razões daquilo que é revelado. Continua válida a sintética definição de Santo Anselmo d’Aosta: «fides quærens intellectum». A fé provoca o intelecto humano a pensar. Nasce daí a Teologia. Note-se bem que não é o raciocínio que conduz à fé, como se comprovasse o que é revelado, mas primeiro se crê, e já tendo convicção daquilo que é pregado pela Igreja, usa-se a razão e compreende-se com maior profundidade e beleza o que já era tido como verdade indubitável. Em nossa época de racionalismo cientificista considerar-se-ia mais razoável a inversão da ordem: primeiro examino com a razão; se a minha razão aprova, então eu daria a minha aprovação e creria. Isto, na verdade, seria crer mais na própria razão do que n’Aquele que Se revela. A mente moderna tem essa tendência porque a ciência empírica moderna é uma pesquisa sobre a verdade das coisas da natureza e não um relacionamento pessoal. Até quando estuda a pessoa humana, a ciência moderna a coisifica e, por isso é incapaz de abranger sua característica de pessoa irrepetível e única, e tende a desprezar sua natureza espiritual. A Revelação, porém, é uma comunicação interpessoal, relação Pessoa-pessoa e não pessoa-coisa. Esta relação só se dá numa experiência de confiança que deve preceder o exame crítico da outra pessoa, sob pena de nunca compreendê-la e nunca amá-la, nunca haver uma verdadeira comunicação pessoal. Como disse Saint-Éxupery, em seu famoso livro “O Pequeno Príncipe”, «só se vê bem com o coração» e «o essencial é invisível aos olhos» (à razão científica coisificante). Quando se trata de pessoa, ente semelhante às hipóstases divinas, não se pode compreender pela razão para depois, como conseqüência do exame racional, amá-la. A ordem inversa se impõe: ama-se como condição indispensável para compreendê-la e acolhendo-a unir-se a ela. A unidade das Pessoas é atributo divino e não se pode conceber a pessoa senão como destinada à unidade de vida, que é a concreção do amor.
É um perigo mortal para a Teologia e para o bem da pessoa humana, o domínio da razão científica entendida como única forma honesta de uso da razão. A pessoa é, nesse caso, reduzida a coisa. Por isso muitos teólogos, guiados por uma análise cientificista dos textos bíblicos tendem a reduzí-los e não aceitam mais doutrinas como a do pecado original e outras, como os milagres. Não aceitando, por exemplo, a doutrina do pecado original, acabam por não entender o significado da redenção realizada por Jesus Cristo . Daí, vão negando todo o conteúdo da Revelação, e substituindo-o por anseios do coração humano, segundo uma sabedoria da pessoa mortal, negando a sabedoria divina revelada em Jesus Cristo. Assim se manipula a própria Pessoa de Jesus Cristo para servir a objetivos humanos imanentes. É o que fazem a Teologia da Libertação, a Teologia da Prosperidade e toda falsa piedade exploratória de bênçãos para afastar sofrimentos, como é comum nas devoções de santos padroeiros “da garganta”, “da cabeça”, “dos endividados”, “dos impossíveis”, a propaganda de milagres das igrejas pentecostais etc.
1.2. Fé e Razão
É bom entender que não é a fé que é aprovada pela razão, como se a razão fosse a condicionante da fé. Crê-se primeiro, e, uma vez aceita a Revelação, a razão reflete sobre ela e faz perceber melhor sua luz. Assim o conhecimento do real é completado e iluminado pela fé. O conhecimento da realidade é acessível ao homem, em primeiro lugar pelos sentidos. Os sentidos, ou seja, a visão, a audição, o olfato, o paladar e o tato oferecem informações sobre a realidade sensível à inteligência humana que reflete sobre elas, faz abstrações, corrige por essas abstrações muitas informações dos sentidos que eram meras aparências e configura uma imagem da realidade. Mas uma imensa gama de informações que o espírito humano deseja não lhe é fornecida pela sua inteligência estimulada pelos sentidos. Saberes como as razões que levaram a existir o homem, sua alma, seu destino após a morte, a origem do sentimento de bem e mal e da consciência humana escapam ao campo de observação dos sentidos e de abstração do espírito humano. Este campo de conhecimento é explorado por especulações filosóficas, a partir da experiência humana, mas estas propostas filosóficas não fornecem o grau de certeza necessário para empenhar a vida daqueles que as acolhem. A Revelação judaico-cristã é a comunicação necessária e certa de Deus acerca dessas realidades fundamentais ao sentido da vida humana racional. O acolhimento desses dados revelados como certezas capazes de empenhar a vida inteira da pessoa humana e das comunidades se dá pela fé. Assim como a razão humana elabora os dados fornecidos a partir dos sentidos e sistematiza o conhecimento do mundo sensível, elabora também os dados fornecidos pela Revelação Divina e constitui assim a sã teologia. Assim a ciência, elaboração racional dos dados sobre a realidade acessíveis aos sentidos, e a teologia, elaboração dos dados fornecidos pela Revelação, devem completar-se e harmonizar-se pois provêm de uma só fonte que é Deus. A verdadeira fé não se opõe à razão humana, não é irracional, mas recebe dados que não seriam acessíveis só pelos instrumentos da razão movida pelos sentidos humanos. Por isso se diz que a fé está acima e não contra a razão. É importante frisar que a teologia se dá porque a razão se aplica também aos dados recebidos da Revelação pela fé. A razão, respeitando os dados originários da Revelação e não os submetendo às limitações da experiência sensível, descobre na Revelação elementos que ajudam a compreender melhor também a natureza sensível. Por exemplo, a Revelação de Deus Uno e Trino nos ajuda a compreender melhor a antropologia, a natureza social e comunitária do ser humano. A determinação dos limites entre o que é dado revelado e o que pertence à experiência sensível nem sempre foi clara e pacífica. Exemplo disso é a antiga interpretação bíblica que, desconhecendo os estilos literários das Escrituras e a antropologia cultural, tendia a ver na Bíblia a garantia de certeza de dados acessíveis aos sentidos e depois desmentidos pelas ciências naturais como o sistema astronômico geocêntrico. Com a crítica literária e histórica das Escrituras o discernimento do que realmente pertence à Revelação é bem mais nítido, se bem que está sempre presente a tentação de querer submeter tudo à experiência sensível e negar muitos dados revelados.
Chesterton nos ajuda a perceber que também para acolher os dados científicos precisamos de um assentimento da vontade, de uma “fé” de que os dados evidenciados pelos sentidos correspondem à realidade. Nicolau Copérnico mostrou que a terra girava ao redor do sol. Mais de cem anos depois, isso ainda era discutido, porque os espíritos ainda não haviam assimilado as provas de Copérnico, não tinham tido fé no na revelação científica. A atual crença cega na “ciência” e desconfiança dos dados que não se apresentem como “científicos” é um contra-senso. Escreve Chesterton: «A ameaça é que o intelecto humano tem a liberdade de destruir-se a si mesmo. Da mesma forma como uma geração pode evitar a existência da geração seguinte, se todos entrarem para um convento, ou se atirarem ao mar, também um grupo de pensadores pode, de certo modo, evitar que, no futuro, se pense, ensinando às gerações vindouras que o pensamento humano não tem valor algum. É sempre inútil falar da alternativa entre a razão e a fé. A razão já é de per si uma questão de fé. É um ato de fé afirmar que os nossos pensamentos têm qualquer relação com a realidade. Quem for meramente cético acabará, mais cedo ou mais tarde, perguntando a si mesmo: “Por que é que alguma coisa está certa, quer seja uma simples observação ou uma dedução? Por que é que a boa lógica não é tão falaz como a má lógica, se ambas são meros movimentos do cérebro de um macaco desnorteado?” O novo cético diz: “Eu tenho o direito de pensar para mim”. Mas o velho cético, o cético completo, dirá: “Eu não tenho o direito de pensar para mim. Não tenho direito absolutamente algum de pensar». Todo o pensar é um ato de fé. O nominalismo desconfiou do conceito universal que associa coisas de uma mesma espécie, mostrando que a mente precisa de elementos que vem dela mesma para pensar a realidade. E estes elementos são aceitos numa espécie de fé no bom senso do pensamento. H. G. Wells, no século XX, fiel aos princípios do nominalismo e do ceticismo do século XV, insiste em afirmar que cada coisa separada é “única” e que não existem categorias. Isso também é meramente destrutivo. Pensar significa ligar as coisas e o pensamento pára se não puder estabelecer tais conexões. É desnecessário dizer que essa espécie de ceticismo, proibindo o pensamento, proíbe, forçosamente, a fala, e ninguém poderá abrir a boca sem contradizê-lo. Assim, quando Wells diz que “todas as cadeiras são completamente diferentes”, faz não só uma afirmação falsa, mas também contraditória. Se todas as cadeiras fossem diferentes, nunca poderíamos chamar-lhes “todas as cadeiras”. A razão acompanha a religião porque ambas são da mesma natureza primária e autoritária. Ambas são métodos de prova não prováveis em si mesmos. E ao destruirmos a idéia da Autoridade Divina, destruímos, em grande parte, a idéia daquela autoridade humana por intermédio do qual fazemos uma conta de dividir» .
1.3. Fé e Amor
A Teologia busca a compreensão mais profunda da Revelação. A Revelação é uma comunicação das Pessoas Divinas às pessoas humanas criadas à imagem delas. É uma comunicação interpessoal. Seguramente é uma Revelação que dá uma compreensão maior da pessoa humana e do mundo em que ela vive, mas é sobretudo uma Revelação para o conhecimento do próprio Deus, que tudo criou do nada e na Criação Se expressou. A fé nessa Revelação, obra do Espírito Unificador, é que fará brotar o amor unificante na pessoa humana, conduzindo-a para seu destino salvífico que é a participação na vida de Deus, pela comunhão na Pessoa do Filho, ou no Corpo do Filho. Conhecer, possuir e entrar em comunhão de amor são quase sinônimos, na linguagem bíblica. A Revelação que Deus faz de Si tem como meta que a pessoa humana O conheça. Da parte de Deus não é uma comunicação de verdades abstratas, mas uma auto-doação. Da parte do homem também não é uma aquisição de idéias teóricas, mas um acolhimento da auto-doação das pessoas divinas (o Pai Se dá pelo Filho, para, acolhido pela pessoa humana, estabelecer a unidade de vida com ela pelo Espírito Santo). O relacionamento que Deus estabelece com as pessoas humanas não é nunca uma transmissão de conhecimentos, mas de vida. A pessoa humana tem a tendência a valorizar o conhecimento porque este lhe parece dar poder, que ela quer no seu estado de pecado. Quereria ter poder para dominar a natureza (este é o motivo da corrida tecnológica dos últimos séculos, a busca de mais poder ou riquezas, o que é o mesmo), para dominar politicamente outras pessoas e povos e colocar a seu serviço o próprio Deus. Seria importante ler, nesta perspectiva Lc 4,1-13. A ação divina não é nunca, como a ação pecaminosa, uma busca de mais poder ou de conhecimentos de informação. É sempre um relacionamento pessoal de amor, de auto-doação em busca da comunhão pessoal de vida. Estudar Teologia para exibir conhecimentos, citar teólogos, alcançar prestígio intelectual, é um contra-senso. É a vaidade intelectual que leva, em muitas faculdades católicas de Teologia, à desobediência ao Magistério, à heresia e à perda da fé e da espiritualidade católicas.
1.4. A Verdade e a Imposição da Verdade
Dissemos que a Revelação cristã é a comunicação necessária e certa de Deus acerca dessas realidades fundamentais ao sentido da vida humana racional. Implica isto em uma imposição? Quem afirma que Cristo é a Verdade não denuncia como falsas outras concepções religiosas? Isso não será desrespeitar grupos inteiros de seres humanos nos seus valores sagrados? Este debate está bem aceso nos nossos dias. A substituição de “Feliz Natal” por um genérico “Boas Festas” é justificado pela mentalidade pluralista atual como forma de não ofender a sensibilidade de quem não é cristão. A publicação da Instrução “Dominus Iesus” pela Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, a 6 de agosto de 2000, foi mal acolhida até por muitos teólogos e círculos que se proclamam católicos. Essa Instrução afirma, com a Escritura, que não há salvação fora de Jesus Cristo e que a verdadeira Igreja de Jesus Cristo é a Igreja Católica Apostólica Romana, a Igreja que fundamenta seu ensino na autoridade divina do Apóstolo Pedro e seus legítimos sucessores. Todo o mal estar devido a essas afirmações aparentemente arrogantes da Igreja está ligado a uma fraca compreensão do que seja a Revelação como fonte de conhecimento e de salvação. Não se nega que em outras religiões haja “elementos da verdade” que, conduzidos pela luz da razão e pela inclinação para Deus que está inscrita no coração do homem – que foi criado por Deus e para encontrar na comunhão divina a sua plenitude – os homens intuíram e se encontram nas filosofias e religiões humanas. Alguns desses elementos as aproximam da Revelação e outros são verdades de ordem natural, acessíveis à razão pelos sentidos e pela abstração racional e não elementos estritamente religiosos ou sobrenaturais. Nestas religiões e filosofias também se encontra muitos elementos de falsidade, diminuidores da liberdade e da dignidade divina que Deus dá ao homem ao criá-Lo – sabemo-lo pela Revelação – à Sua Imagem e semelhança. São, portanto, indignos do homem. Alguns desses elementos são, por exemplo, o determinismo, o fatalismo, a concepção da vida como um jogo de sorte e de azar, o endeusamento ou sacralização de seres animais e vegetais, de lugares e pontos geográficos, o panteísmo etc. Uma lista completa desses elementos da mentira seria grande demais. Por isso também os “elementos de verdade” presentes nelas não equiparam essas filosofias e religiões à Revelação, em que o próprio Verbo de Deus – que é Deus mesmo – se fez carne para nos revelar a Verdade e nos redimir.
Atualmente, muitos textos teológicos e pastorais colocam o Evangelho e a moral dele decorrente como uma proposta e não uma imposição, até com uma certa “fobia” da idéia de imposição, que provoca no coração humano uma certa revolta e rejeição, além de impedir a aceitação interior da mensagem, arriscando uma aceitação externa – por causa da imposição – e uma rejeição interior – até mesmo por não se compreender profundamente o que foi proposto ou imposto. A experiência do Estado Católico que vem da Cristandade, pelo menos na América de colonização ibérica – América Latina – até certo ponto levou a essa aceitação exterior, subsistindo com os ritos externos católicos – sacramentos e sacramentais – concepções pagãs e deformações supersticiosas dos significados dos símbolos da fé cristã. A ênfase atual, portanto, está em se falar em “proposta” cristã. Esta linguagem corre, por outro lado o risco de colocar a aceitação da Revelação como algo facultativo, até dispensável, e a fé cristã como mais uma no meio de outras, despojando-a de seu caráter próprio de Revelação Divina a todos os homens. Isto anula o valor da Revelação, coloca os homens numa busca da verdade com suas próprias forças e razões, como se Deus Verdadeiro tivesse continuado mudo e oculto aos homens. Isto esvazia o caráter profético do cristianismo e nega o Deus Único, que nos investiu de ser seus profetas.
A própria noção de Verdade se impõe a si própria. A realidade se impõe aos homens. Estes podem não aceitá-la, mas sofrerão inevitavelmente as conseqüências dessa sua não-aceitação. Os homens podem querer drogar-se e não querer aceitar que os vegetais entorpecentes danem a sua saúde psíquica e física. Mas esses efeitos acontecerão independente da vontade humana. A Revelação cristã é revelação da Verdade. Ela se impõe por si mesma, mesmo que os homens não percebam isso logo. Ao, por uma certa humildade mal compreendida, muitos cristãos não quererem “impôr” sua fé – isto é, anunciarem com “parresía” (cf. At 4,13.29.31; 9,28; Jo 18,20) o Evangelho, como o faz a Instrução “Dominus Iesus” – e aceitarem colocá-la como mais uma religião ao lado de outras, ou a Igreja Católica Apostólica Romana como mais uma igreja ao lado de outras considerando-as igualmente legítimas – esses cristãos esquecem-se de que são cristãos pela graça de Deus (cf. Catecismo Maior, Vaticano 1907, perguntas n.º 1 e 2) e que pregam o que não lhes pertence. Esquecem que deveriam ser mensageiros do Deus Ùnico, que tem o poder e o direito de impôr-se a todos os homens porque foi Ele que os criou a todos e é a própria Verdade. Toma o que lhes foi confiado de graça como posse própria, reproduzem assim o pecado original (o qual será explicado mais adiante), e negam a Deus, paradoxalmente, com a mais “humilde” das intenções.
A Revelação da Verdade, acolhida pelos cristãos, por sua própria força intrínseca, impõe a estes a missão de propôr o conteúdo da Revelação a todos os homens de todos os povos, culturas (ver abaixo “Moral e Cultura”), religiões, raça etc. Estes propõem o Evangelho como Verdade Revelada. Propõem porque o Evangelho deve ser livremente aceito por cada pessoa, a partir de uma adesão interior de cada um à Verdade, que é acessível só por meio dele. Ao mesmo tempo, porém, a Verdade, que o Evangelho anuncia, se impõe, e quem não aceita sua proposta, vai, mais cedo ou mais tarde colocar-se decididamente contra ela. Quem não a rejeita, mas a busca, vai, mais cedo ou mais tarde colocar-se a favor dela. É isto que está expresso nos textos bíblicos.

“12Porque a palavra de Deus é viva, eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes e atinge até a divisão da alma e do corpo, das juntas e medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração. 13Nenhuma criatura lhe é invisível. Tudo é nu e descoberto aos olhos daquele a quem havemos de prestar contas” (Hb 4,12-13; cf. Ap 1,16; 2,12).

“30Quem não está comigo está contra mim; quem não recolhe comigo desperdiça” (Mt 12,30; Lc 11,23).

“40Quem não está contra nós, está por nós” (Mc 9,40; cf. Lc 9,50; 1Jo 2,19).

“18Filhinhos, esta é a última hora. Vós ouvistes dizer que o Anticristo vem. Eis que já há muitos anticristos, por isto conhecemos que é a última hora. 19Eles saíram dentre nós, mas não eram dos nossos. Se tivessem sido dos nossos, ficariam certamente conosco. Mas isto se dá para que se conheça que nem todos são dos nossos. 20Vós, porém, tendes a unção do Santo e sabeis todas as coisas. 21Não vos escrevi como se ignorásseis a Verdade, mas porque a conheceis, e porque nenhuma mentira vem da verdade. 22Quem é mentiroso senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Esse é o Anticristo, que nega o Pai e o Filho. 23Todo aquele que nega o Filho não tem o Pai. Todo aquele que proclama o Filho tem também o Pai. 24Que permaneça em vós o que tendes ouvido desde o princípio. Se permanecer em vós o que ouvistes desde o princípio, permanecereis também vós no Filho e no Pai. 25Eis a promessa que ele nos fez: a vida eterna. 26Era isto o que eu vos tinha a escrever a respeito dos que vos seduzem” (1Jo 2,18-26).

O anúncio do Evangelho, e, com ele, a Teologia, é profecia, Palavra de Deus que se impõe ao mundo, anunciada por homens frágeis, que são os profetas, os verdadeiros cristãos, e dividirá os homens naqueles que são por Deus e aqueles que terminarão se colocando contra Deus. A Igreja não pode calar sua mensagem profética e aqueles que “por humildade” – muitos, na Igreja de hoje – não anunciarem o Evangelho estarão dando provas de não crerem e de não serem “dos nossos” (cf. acima, 1Jo 2,19).

“3O que vimos e ouvimos nós vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo” (1Jo 1,3).

“20Não podemos deixar de falar das coisas que temos visto e ouvido” (At 4,20; cf. Ez 3,16-27).

Referir-se ao Evangelho como uma proposta puramente facultativa é ignorar o seu urgente chamado à única salvação oferecida à humanidade e quase negar o anúncio do Evangelho. A Encarnação, como todo o desígnio salvífico de Deus, é uma determinação divina que se desenrola a despeito da negação dos homens. O mundo rejeita Deus, mas este se impõe ao mundo para salvar os que o quiserem. Deus entra na história dos homens mesmo contra a vontade destes. O próprio Reino de Deus é uma imposição de Deus. O anúncio

“15Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; fazei penitência e crede no Evangelho” (Mc 1,15)

é um ultimato. Deus vem para julgar e aqueles que se submeterem a Ele – isto é, viverem segundo a Verdade, pois a criatura depende do Criador – alcançarão a vida verdadeira. Deus não pede licença, vai entrando no mundo. Mas a cada homem pede que abra o seu coração.

“30Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo” (Ap 3,20).

O anúncio do cristão no mundo não deve pedir licença para ser anunciado.

“Quem quiser ouvir, que ouça” (cf. Mt 11,15; 13,9.43; Mc 4,9.23; 7,16; Lc 8,8; 14,35).

Filhos de Adão, temos a tendência a expulsar Deus de nosso meio ou fugir dele. O homem coloca sua confiança em si mesmo e em seus projetos e a Presença de Deus obriga o homem a confiar em Deus – esta é a condição para Ele continuar presente – o que para o ser humano representa um pulo no escuro. Aceitar a Presença de Deus na história é desprender-se das seguranças humanas e confiar-se a Deus, mesmo sob a ameaça da morte. Daí vem para os homens o incômodo das coisas divinas, a necessidade das “obrigações religiosas”, esse Deus incômodo, que “só vem para atrapalhar”.
Resumindo, Deus se impõe ao mundo em seu desígnio salvífico. E se propõe à consciência de cada pessoa, sob pena dela ficar fora da salvação.
Podemos, inclusive, entender que o Reino de Deus acontece antes de sua manifestação escatológica – inevitável, imposta por Deus, por amor aos que se salvarão – justamente quando sua Presença é acolhida livremente pela fé e faz a diferença moral no agir humano: “Eu te odiaria, a ti, que agiu mal para comigo, mas, por causa de Deus, que nos criou e nos ama, e quer a tua salvação, eu te perdôo”.
1.5. A Revelação e a Verdade
A Revelação cristã é a revelação da Verdade.

“17A Lei veio por meio de Moisés; a Graça e a Verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (Jo 1,17).

A Verdade é aquilo que é. A Revelação assume e o senso comum admite que as coisas têm uma identidade própria, são algo e algo que se distingue com a sua realidade própria. O conjunto das coisas na sua identidade, distinções e relações mútuas constitui a Verdade objetiva. Deus o Ser pré-existente se define na teofania da sarça ardente da seguinte forma.

“14Deus respondeu a Moisés: ‘EU SOU AQUELE QUE SOU’. E ajuntou: ‘Eis como responderás aos israelitas: (Aquele que se chama) EU SOU envia-me junto de vós’” (Ex 3,14).

Algumas traduções admitem em vez de “Aquele que sou”, “Aquele que é”, o que dá na mesma, em termos de identidade e distinção do Ser Divino. Deus é o que É. É a Verdade na sua mais genuína expressão.
O homem pode chegar a conhecer a Verdade? O conceito clássico de Verdade é “a adequação da mente à coisa”, a coincidência da imagem que a mente faz ao considerar e pretender conhecer uma coisa e a coisa conhecida em si mesma. Como já mostramos acima, a admissão dessa coincidência nunca é evidente em si mesma, dependendo de um ato de vontade de admitir isso, ou seja, um ato de “fé”. Por outro lado, a possibilidade de isso acontecer e as suas modalidades são problemas filosóficos de sempre, constituindo até uma disciplina filosófica, a Teoria do Conhecimento. A filosofia clássica admite sem grandes dificuldades a possibilidade do conhecimento da verdade das coisas. A filosofia cristã também o exige. A Revelação só faz sentido se as coisas – Deus, o Homem e o Universo – têm sua identidade própria. E também só faz sentido se admitimos que o conhecimento dessa realidade é objetivo, isto é, não é uma construção principalmente da mente humana, mas uma imagem que é “imagem da coisa”, que brota da coisa mesma e não uma construção subjetiva qualquer produzida pela mente. Essa “imagem da coisa” mesmo que não seja exata – por exemplo, sabemos que o conhecimento que podemos ter de Deus em si mesmo é sempre analógico, baseado na experiência humana sensível, sendo impossível nesta vida o conhecimento exato de Deus – mesmo que não seja exata, repito, é suficiente para um conhecimento objetivo necessário à comunhão do Homem com Deus – a Salvação – que é o objetivo da Revelação.
O meio natural que o Homem tem para conhecer a realidade, Deus, os anjos e toda a realidade invisível incluída, e toda a Verdade, é a RAZÃO. É por ser racional que o homem pode conhecer. Não apenas pensa, mas sabe que pensa e pode conhecer e julgar seu próprio pensamento.
Muitas vezes se fala de fé e de razão como dois canais de conhecimento, em harmonia ou em conflito mútuo – nesse caso tendo-se de descartar um dos dois, de acordo com o princípio de não-contradição (uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo). Podemos supor que esse esquema é preconceituoso e revela uma auto-suficiência humana. Tende mais a acentuar o conflito do que a harmonia entre o que o homem ‘descobre’ por si e o que lhe é revelado por uma instância superior. O ‘descobrir’ por si mesmo seria o poder da razão e o receber o conhecimento por revelação seria a fé. Daí vem logo a idéia de que o conhecimento que vem pela fé é irracional, não passa pela razão, é aceito sem reflexão e assim é indigno do homem pensante. Ao menos não merece a confiança que a razão humana transmite ao sentimento humano para empenhar a vida em determinado conhecimento. Alguns, para defender a fé, podem apelar para a humildade que devemos ter diante de Deus e dizer que confiar só na razão humana é um ato de intolerável orgulho. Mas esse argumento, exigindo daquele que contesta a revelação sobrenatural de Deus que a aceite por humildade, apela para a razão no silogismo – Deus é maior que o homem; diante de Deus o homem deve ser humilde; você seja humilde e não pedindo razões – e, ao mesmo tempo pede para que o contestador dê um pulo para a fé sem usar a razão. Ou seja, a parte que defende a fé apela para a razão e pede para o que só confia na razão, o contestador, não apelar para ela. Esta contradição nos leva a pensar logo que a razão SEMPRE está presente ao verdadeiro conhecimento, sustentando a certeza do conhecimento e transmitindo confiança ao sentimento humano para empenhar a vida nessa certeza. A polaridade «razão-fé» então muda. Passa à polaridade «sentidos-revelação». “Sentidos” identifica a fonte de todos os conhecimentos que o homem adquire pela sua experiência sensível e pela abstração sobre ela. Ao elaborar os dados fornecidos pelos sentidos, superar suas contradições e estabelecer leis, generalizações e abstrações de todo tipo, o homem usa a razão e constrói a ciência. Mas não só os dados fornecidos pelos sentidos, mas também aqueles fornecidos por revelação só podem ser acolhidos pela razão humana. É a razão que os pensa, que só pode recebê-los pensando e articulando esses dados. Não que esses dados devam submeter-se à experiência sensível; quando opõem a fé à razão, na verdade estão querendo submeter a fé à experiência sensível, chamando esta de razão. A razão pode perfeitamente admitir que a experiência sensível seja muito limitada e não seja a única fonte de conhecimento. A razão pode admitir a existência de Deus pessoal que se revela. A não aceitação das duas últimas frases é já um ato de soberba e de auto-suficiência que barra ao homem o acesso à Verdade e a Deus. Aliás a Revelação diz:

“34Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes” (Pr 3,34; Tg 4,6; 1Pd 5,5).

Deve a razão humana admitir os seus limites e acolher a Revelação num exame simples, não crítico. Por exemplo, pelo testemunho de amor e de civilização que o cristianismo trouxe ao mundo (o que hoje não é tão fácil pela maciça calúnia contra a Igreja, mas é possível superando a má informação), pela beleza intrínseca do Evangelho e a sublimidade da sua doutrina. Essa aceitação humilde gera uma fé, que permite, depois, fazer-se teologia. Aí com um exame mais acurado com base na razão aprofunda-se o que se creu na humildade e goza-se a graça de conhecer a Sabedoria Eterna, sempre em maior profundidade, numa ação conjunta da razão humana e do Espírito que se revela aos humildes. Esse processo cognitivo vale para toda aproximação cognitiva verdadeira. Uma pessoa, para conhecer outra, por exemplo, precisa, primeiro, aceitá-la, acolhê-la, sem uma resistência muito crítica. Nesse clima de empatia, aí, sim, é capaz de conhecer, avaliar realmente as características da outra pessoa, que ficariam sempre ocultas se a aproximação fosse desde o princípio com antipatia e crítica.
Este é um esquema que devemos superar:

DEUS
Razão Fé
Filosofia e Ciências Naturais Revelação e Teologia
HOMEM

Este esquema de pensamento é o que parece mais presente no mundo atual. Leva a considerar o dado científico como certo e confiável e o dado revelado como suposição duvidável, assumida por um grupo social – os fiéis – que resolveram se submeter a essas “crenças religiosas”, como “fonte de sentido” para suas vidas. A fé fica “privatizada” e não tem influência pública. Nesse esquema também a razão evita se pronunciar sobre a razoabilidade de qualquer sistema religioso, porque todos escapam, em suas afirmações básicas, aos sentidos, e, por isso, se confunde como iguais e recebem os mesmos direitos o culto mais grosseiro e desumanizante, de superstições, medos e “ópio do povo”, e o culto mais sublime e humanizante. Esse esquema divide o homem em uma parte racional e outra irracional, não distinguindo o valor moral do cristianismo; mostra assim sua cegueira e está na base do mesmo agnosticismo que não distinguindo entre as religiões também não distingue entre uma cultura moralmente superior e outra moralmente inferior. Seguindo o dogma de um igualitarismo rígido o agnosticismo se torna moralmente cego, incapaz de distinções morais .
Este é o esquema que precisamos admitir:

DEUS
Experiência Sensível Revelação
Razão Razão
Senso Comum Fé
Elaboração Racional Elaboração Racional
Filosofia e Ciências Naturais Sacra Teologia
HOMEM

Alguém poderia alegar que se é necessária a razão para acolher a Revelação e ter-se fé, então a razão é que produziria a fé, contra o que afirmamos anteriormente. Aqui é preciso uma distinção dos trabalhos da razão. Uma coisa é a intelecção do que é revelado, elemento necessário para se crer. Outra coisa muito diversa é o exame racional do que é percebido pela intelecção. Se alguém me diz: “Minha mulher engravidou”, para acreditar nessa “revelação” eu devo entender o que significa “minha”, o que significa “mulher” e o que significa “engravidou”. Se ele me falasse em uma língua para mim desconhecida, eu não poderia ter uma intelecção do que ele me revelou e, portanto, não poderia acreditar nele. Mas, entendendo as palavras eu faço a intelecção e acredito no que me foi “revelado”, mesmo sem ir averiguar se, de fato, a mulher do sujeito engravidara. Para acreditar nele eu precisei da razão, para entender em que eu estava acreditando. Mas eu acreditei, pois fiquei somente com a informação e não fiz uma pesquisa para saber se era verdade. Isto é um paradigma da fé. Agora se depois de acreditar eu começo a refletir se e como a mulher do tal sujeito pudera engravidar e tento, aceitando que ela engravidou mesmo, entender como isso foi possível nas circunstâncias – por exemplo, se antes ela revelara esterilidade – e quais as implicâncias dessa gravidez, eu estou usando a razão para compreender melhor o que eu já crera. Isto é um paradigma da Teologia. É preciso a razão para crer. Um deficiente mental de alto grau de deficiência ou um bebê de seis meses não podem ter fé. Mas a fé não vem do exame da razão. Não é um exame racional que legitima a fé. Mas eu preciso inteligir para crer e saber em que estou crendo.
1.6. A Verdade, a Razão e a Vontade
O discernimento espiritual é dom divino e ao mesmo tempo exercício da razão humana. E é necessário para discernir o que se deve e o que não se deve crer. A teologia é elaboração dos dados da revelação já recebidos por uma fé racional.
Assim, pela experiência sensível natural e pela revelação sobrenatural, acolhidas com os instrumentos da sua razão o homem vai se aproximando da verdade, vai conhecendo a Verdade.
Aqui entra um elemento a mais. O conhecimento não é uma atividade só da razão, mas também da vontade. Entre as potências divinas da alma humana não está somente a razão, mas também a vontade. Sobre a primazia entre essas duas potências, razão e vontade, há uma interminável discussão filosófica, como aquela que vimos sobre se o conhecimento humano da realidade é objetivo – é da realidade mesma – ou subjetivo – é uma construção da mente humana. A discussão sobre a primazia entre a razão – tomistas, por exemplo – e a vontade – agostinianos – continua. A vontade só pode escolher o que ela conhece. Isto daria primazia à razão, potência que conhece. Só se pode conhecer quando se quiser conhecer – isto daria primazia à vontade. As duas posições estão corretas, quando se entende a natureza do conhecimento. Todo conhecimento do real é um conhecimento de Deus, pois tudo vem de Deus e reflete seu Ser. A vontade escolhe o que ela conhece e quer conhecer. A Verdade é Deus, e Este é infinito. A Verdade, quanto mais se conhece, mais se quer conhecer. Quanto menos se conhece, menos se quer conhecer. Podemos então falsear a realidade, fragmentá-la, estabelecer um modelo para a realidade e depois erigir o nosso modelo em realidade contra outros dados do real, e assim por diante. Tanto o conhecimento teológico como o científico tem uma certa dificuldade de aproximação com os objetos a serem conhecidos. Diante da limitação dos sentidos a mente humana tem necessidade da Revelação para bem conhecer os atributos de Deus, objeto de seu conhecimento. Também a linguagem da Revelação é uma linguagem analógica, isto é, segundo o mundo sensitivo, para descrever as realidades daquele mundo que transcende os sentidos. Tudo isso leva a parecer que o conhecimento teológico carece de certeza. Se bem refletirmos porém, o conhecimento científico passa por dificuldades semelhantes. Os sentidos humanos não são capazes em sua acuidade limitada, mesmo com o auxílio dos instrumentos inventados pelo homem para ampliar o seu poder, de abarcar a realidade sensível em sua complexidade. A razão, então, ao receber os dados dos sentidos, elabora um modelo da realidade e é a partir desse modelo que a elaboração racional vai sistematizar uma teoria sobre o objeto. Podemos estabelecer o seguinte esquema:

Experiência Sensível Fenômeno (objeto)
Razão Razão
Conhecimento Primitivo Modelo
Elaboração Racional Elaboração Racional
Ciência – Filosofia Teoria

A teoria, que se baseia no modelo e não diretamente na realidade, que, de certa forma também transcende a capacidade de apreensão dos sentidos, é testada dentro das capacidades de verificação dos sentidos – e dos instrumentos artificiais dos sentidos – e, se aprovada então, torna-se uma lei científica, até que se prove o contrário, até que se alcance instrumentos de verificação mais precisos que mostrem as distorções dessa lei ou que ela representa só um caso particular de uma realidade mais ampla. Assim por exemplo, a teoria da relatividade de Einstein (século XX) demonstrou as limitações e distorções dos modelos newtonianos (século XVIII), até então tidos como absolutamente certos. O conceito de cultura, estabelecido pela Antropologia Cultural, é um modelo, que essa ciência absolutizou, querendo submeter a própria realidade a esse modelo. Assim o que existe é o homem, em seus grupos humanos com seus costumes e suas concepções da realidade, sempre em transformação. A Antropologia Cultural quis fixar a realidade ao impor a ela o conceito de culturas fixas e imutáveis .
O conhecimento tanto o científico quanto o sobrenatural são racionais e se aproximam não imediatamente, mas mediatamente – por mediação – da realidade. E o conhecimento, tanto o sensível quanto o sobrenatural não são neutros nem independentes do querer admitir. Quando se adota o esquema “a superar” acima, entende-se que o conhecimento da ciência humana é certo e evidente por si mesmo, e independente da vontade. O conhecimento da fé, nesse esquema, é irracional, sem nenhuma evidência racional e, portanto, voluntário, mesmo que condicionado, mas nunca pela razão. Isto é uma falácia. Tanto o conhecimento sensível como o sobrenatural se acolhe com as potências humanas da razão e da vontade. Também a ciência não se torna evidente por si mesma se não se quer admitir a conclusão racional. Admitindo que a razão humana é condicionada pela vontade e que esta é condicionada por instintos, fobias, medos, concupiscência, sentimentos, ilusões e outros fatores nem sempre identificados podemos perceber a relatividade de muitos conhecimentos. O conhecimento sobrenatural fica dependente de condicionamentos da vontade que a própria Revelação denuncia, especialmente ao nos fazer conhecer a realidade do pecado original e suas conseqüências na natureza decaída do homem na atual economia da salvação. No esquema acima, onde se coloca “razão” e “elaboração racional” não se deve esquecer que essa razão só funciona, se movida pela vontade que “quer” crer, que se desvencilha de outros condicionamentos e seguranças para crer.
Pode-se citar o caso da famosa escritora Rachel de Queiroz que dizia querer crer, mas não conseguir, não ter o “dom” da fé, e assim declarava-se atéia. Pode-se pensar as conseqüências que para ela acarretaria o crer: num ambiente agnóstico e mundano deveria fazer renúncias, talvez não chegasse a ser a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, não teria o mesmo apoio da imprensa, e isso na medida em que fosse mais coerente com a fé, por exemplo, defendendo as posições morais da Igreja, contra a imoralidade reinante… Diz o Evangelho:

“7Pedi e se vos dará. Buscai e achareis. Batei e vos será aberto” (Mt 7,7; Lc 11,9).

O dom tão necessário da fé – que é também fruto do Espírito Santo (cf. Lc 11,9-13) – não se nega a quem o quer. Rachel pediu, buscou, bateu? Despojou-se?
Isto posto, o espírito humano tem a capacidade de se aproximar da Verdade, mas também de erigir, por sua vontade e condicionamentos a não-verdade no lugar da verdade. Vem daí a mentira. A revelação nos fala do espírito maligno que, sendo criatura, quer ser adorado como criador, sendo relativo quer ser adorado como o absoluto. Aos fariseus que não queriam aderir à verdade sobre Cristo, este diz:

“44Vós tendes como pai o demônio e quereis fazer os desejos de vosso pai. Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque a verdade não está nele. Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8,44).

A substância íntima da Aliança com Deus e da Redenção do homem é o retorno deste à verdade de sua situação de criatura absolutamente dependente de Deus, querida e amada por Este. O pecado original é a admissão da mentira de que o homem depende de si mesmo e a auto-entrega do homem em uma luta inglória de, por si mesmo, se livrar da morte. E a sua conseqüência trágica é a auto-destruição – aqui não no sentido de aniquilamento ou desaparecimento, mas de alienação total – do homem na mentira de que a morte lhe destrói a própria existência.
A Revelação acolhida, a Aliança, a Fé, reintegra o homem na verdade.

“37Perguntou-lhe então Pilatos: És, portanto, rei? Respondeu Jesus: Sim, eu sou rei. É para dar testemunho da verdade que nasci e vim ao mundo. Todo o que é da verdade ouve a minha voz” (Jo 18,37).

Na busca da verdade o homem encontra Deus e se reintegra, eliminando sua própria alienação. Se é racional a razão admitir seus próprios limites porque não examinar a Revelação com seriedade? A ciência auto-suficiente, ao considerar toda a Revelação como irracional, está ela mesma, sendo irracional e querendo atingir a Verdade só pela fraca aproximação sensitiva. É o orgulho movendo a vontade humana, que, assim proclama que é racional o que, pela própria razão, é irracional.
No Evangelho segundo São João, no capítulo 9, o homem cego de nascença que Jesus curou colocando lama de saliva (a Palavra de Deus) e terra (se fez carne e habitou entre nós) nos olhos (capacidade de ver em Jesus a Palavra de Deus Encarnada – fé cristã) e lavando-se na Piscina de Siloé (batismo), a partir daí responde a todas as perguntas dos fariseus em um compromisso apenas com o que em sua consciência brilha como Verdade, sem nenhuma outra consideração relativa à sua conveniência social, financeira etc. Acaba até expulso da sinagoga, mas não perde a sua coerência. Já os seus pais não chegam a Jesus, à Verdade, porque deram primazia à sua segurança social e não à Verdade que os chamava pela graça maravilhosa da cura de seu filho, que eles deveriam investigar. É o que acima supomos que talvez tenha acontecido a Rachel de Queiroz e a muitíssimas outras pessoas.

“Bem aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8).

Puro de coração é aquele que segue só a luz da Verdade e não outra qualquer da carne, medos, ambições, interesses etc. Isto está expresso na “Imitação de Cristo”, atribuída a Tomás de Kempis, Livro I, Capítulo III.
Assim o rigor crítico da ciência humana já tem, em si mesmo, um elemento de pecado que impede o acolhimento da Revelação. Pois quer ter poder sobre Aquele que se revela, sem acolhê-Lo para depois entendê-Lo. Assim resiste Àquele que nos busca. Porque acolher a Revelação é ter acesso ao fruto dela que é a comunhão divina e esta é um reconhecimento de total dependência Àquele a Quem se deve toda existência. Por isso, a Revelação exige uma aceitação humilde; no início a razão humana reconhece os limites dos sentidos e de si mesma, e depois, então, com o auxílio da própria razão, que vem de Deus, pela Sacra Teologia, tem acesso ao profundo da Revelação. Há aqui uma maravilhosa sinergia da vontade humana e da vontade divina (isto é, da graça).
Ao estudarmos o pecado original compreenderemos melhor este ponto.
1.7. Diferentes abordagens da Teologia
Tendo compreendido o conceito de Teologia e sua relação com a razão humana, podemos compreender que são possíveis diversas abordagens diferentes conforme os diferentes métodos racionais de abordar a experiência da Revelação. Temos a abordagem místico-pastoral-tipológica dos Padres da Igreja. Podemos ter uma teologia espiritual experimental, presente em obras como as de Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz, São Francisco de Sales e outros doutores da Igreja. Mas o que mais se impôs como teologia foi a análise sistemática, principalmente a partir da Escolástica medieval, que foi sofrendo ao longo dos séculos o influxo dos sistemas filosóficos de cada época, mas mantendo sempre seu caráter sistemático. É o que costuma chamar-se Teologia Sistemática, e que por esse seu caráter analítico se divide em diversos tratados. Um desses tratados convencionou-se chamar Teologia Moral. É a reflexão sobre o agir humano a partir da revelação sobrenatural. A filosofia já tinha o seu tratado sobre o agir, chamado comumente, a partir de Aristóteles, de Ética. Evidentemente, a reflexão filosófica influenciaria a reflexão teológica sobre o agir. Podemos dizer que foi na área moral que a estrutura filosófica de pensamento mais influenciou a elaboração teológica e mais a distanciou da verdadeira recepção dos dados revelados e que isso continua, de certa maneira, até hoje. Aqui tentamos denunciar esse afastamento e aproximar-nos sempre mais dos dados revelados, sem tanto compromisso com a ética filosófica, ressaltando melhor as diferenças entre as conclusões sobre o agir humano a partir da experiência sensível e a partir da Revelação e mostrando melhor a sublimidade dos dados revelados.
1.8. A Teologia Moral é abordagem do Mistério
A Teologia Moral é considerada uma parte da Teologia Sistemática. A reflexão sobre o que a Revelação propõe que se creia seria a Teologia Dogmática e a reflexão sobre o que a Revelação propõe que se faça seria a Teologia Moral. A excessiva fragmentação da Teologia em tratados fez com que muitas vezes se tratasse a Teologia Moral quase que só a partir dos mandamentos divinos, segundo o que estes mandamentos indicam que se faça ou se evite fazer, acrescido de certas considerações sobre a natureza da virtude e do pecado e da graça. Essa abordagem desconsidera grande parte dos dados da fé, que se julga dever-se tratar apenas na Teologia Dogmática. As “partes” da Teologia são consideradas como exclusivas, de modo que se um dado era estudado num tratado não seria matéria de outro tratado. Essa maneira de fazer teologia fragmenta e deforma o conhecimento teológico. É melhor considerar o Mistério revelado na sua integridade e considerar os diversos tratados como abordagens ou pontos-de-vista diferentes para contemplar o mesmo Mistério. Assim a Teologia Dogmática é a consideração do Mistério em vista da compreensão da realidade contemplada em si mesma. A Antropologia Teológica, a qual é indispensável para se fazer Teologia Moral, é a consideração do Mistério em vista de compreender a partir dele a natureza do Homem e sua participação nesse Mistério. A Teologia Moral é a consideração do Mistério revelado em vista da compreensão da participação da liberdade do homem nesse Mistério.
1.9. Ética Filosófica, Direito e Teologia Moral
A resposta de Jesus Cristo aos discípulos dos fariseus e aos herodianos

“21Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21)

estabelece uma distinção importante. O que é de César é a construção da cidade terrena e a edificação da sociedade, a “legítima autonomia das realidades temporais” de que fala o Concílio Vaticano II. É a administração da justiça entre os homens, segundo a autoridade dada do Alto (cf. Jo 19,11) aos legítimos governantes, para que seja possível a vida social. O que é de Deus é o homem mesmo, na sua dignidade divina e origem e destino eternos. A Ética Filosófica e o Direito iluminam a atividade de César. Auxiliam o discernimento do que é justo e conveniente ao homem em sua vida terrena em sociedade com os seus semelhantes. O Evangelho e, com ele, a Teologia Moral iluminam o homem no seu interior, superando as exigências da Ética e do Direito, a justiça divina superando as exigências da justiça humana e social, e conduzindo o homem à semelhança de seu Criador: “para serdes filhos do Altíssimo, porque Ele é bom para com os ingratos e maus” (cf. Mt 5,45; Lc 6,35).
A Teologia Moral é o fruto da elaboração racional, sob o aspecto da participação da liberdade humana na salvação do homem, dos dados obtidos por Revelação sobrenatural e acolhidos pela fé.
As apresentações tradicionais da Teologia Moral foram marcadas pelas necessidades práticas de julgamento moral. Seja para com justa proporção estabelecer penitências a serem impostas aos que confessavam seus pecados, para esclarecer casos de consciência, conflitos de direito etc. foi uma necessidade prática e não uma busca mística ou simplesmente científica que moveu os estudos de Teologia Moral . Ao ponto de Santo Tomás de Aquino escrever que “as considerações genéricas em campo moral são menos úteis, porque as ações são particulares” . É preciso levar em conta que Santo Tomás se situava num contexto monocultural, homogêneo, formado na fé cristã, que se convencionou chamar Cristandade Medieval. Com tal perspectiva prática dentro da cristandade, os estudos de Teologia Moral produziram muitos tratados centrados na lei moral natural e numa justiça segundo os critérios dessa lei natural. Ora, mesmo que a lei e a justiça naturais não se contraponham à Revelação, são acessíveis à razão natural a partir dos sentidos, ou seja, uma correta moral filosófica já os alcança. Assim a Teologia Moral “importou” muitos dados da moral filosófica, que embora estejam presentes à Revelação, especialmente no Antigo Testamento, no Decálogo e em outras palavras, são acessíveis ao saber simplesmente filosófico e não constituem a essência da moral revelada, que é aquela do Novo Testamento, a sabedoria da Cruz, “a inexplorável riqueza de Cristo, o desígnio salvador de Deus, mistério oculto desde a eternidade em Deus, que tudo criou, … a infinita diversidade da sabedoria divina, … o desígnio eterno que Deus realizou em Jesus Cristo, nosso Senhor” (cf. Ef 3,8-11), que é “escândalo para os judeus e loucura para os pagãos; mas, para os eleitos – quer judeus quer gregos -, força de Deus e sabedoria de Deus” (cf. 1Cor 1,23-24). A necessidade, hoje, em que não há mais a cristandade e devemos saber expor a Revelação para suscitar a fé, num contexto pluricultural – como os primeiros cristãos no Império Romano – para as pessoas aderirem à fé plenamente conscientes das conseqüências dessa adesão em seu agir, para serem testemunhas, não é mais, em primeiro lugar, a de resolver casos de consciência ou tarifar penitências. O próprio Concílio Vaticano II pede “especial cuidado em aperfeiçoar a Teologia Moral, cuja exposição científica, mais alimentada pela Sagrada Escritura, deve revelar a grandeza da vocação dos fiéis em Cristo e a sua obrigação de dar frutos na caridade para a vida do mundo. Na exposição do Direito Canônico e da História Eclesiástica atenda-se ao mistério da Igreja, segundo a Constituição Dogmática sobre a Igreja – Lumen Gentium – promulgada por este Santo Concílio” . Vê-se que a “mente” do Concílio é a Revelação do “mistério oculto desde os séculos” (cf. Ef 3,9), e nessa mente deve também ser feita a sã teologia moral. Achamos oportuno, portanto, deixar, sem abandonar, o que pertence à Lei natural e é acessível aos sentidos, que seja apresentado pela disciplina de Ética Filosófica e ressaltarmos a moral que é “sabedoria da Cruz”.
Consideramos que as apresentações atuais da Teologia Moral, mesmo as que se dizem apoiar numa Moral Renovada segundo o Concílio, continuam a importar os dados da moral filosófica e tentam dar um fundamento bíblico apoiando-se na figura moral de Jesus Cristo, propondo os exemplos da vida de Jesus ou alguns ensinamentos selecionados como “morais”, por exemplo, as bem-aventuranças ou a seção Mt 5,20-47 . Citam-se também seções das Cartas paulinas e católicas onde há imperativos ou listas de virtudes ou de vícios. Não se encontra nenhuma referência direta à Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, nem ao pecado original ou à condição de escravidão ao maligno em que se encontra o homem na atual economia da salvação. Grande parte dos ensinamentos de Jesus são ignorados por não se entenderem como “morais”. Ora, a fonte da moral cristã, como ficará claro em nossa exposição, não é tanto a vida de Jesus ou suas palavras “morais”, mas a Sua Paixão e Morte de Cruz e conseqüente Ressurreição. É a partir de Sua Paixão e Morte que se entende o significado religioso e moral da vida e de todos os ensinamentos de Jesus, e não apenas de alguns que, por apresentarem uma linguagem normativa são tidos como “morais”.
Esquematicamente…temos:

1. Ética Filosófica segundo a Lei Moral Natural
2. Relato das Origens – Gn 1-11.
3. Moral da Aliança e dos Mandamentos – Antigo Testamento
4. Evangelho Exemplos e Palavras da Vida de Jesus – Nova Aliança no Espírito
5. Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus
6. Textos imperativos ou de virtudes e vícios das Cartas.
7. Revelação do Mistério em João e nas Cartas Paulinas

Parece-nos que os tratados de Teologia Moral que se usa atualmente se movem segundo as linhas 1, 3, 4 e 6 acima. Esses tratados falam de nova Aliança, no Espírito, mas limitam-se à nova interpretação interior que Jesus dá aos Mandamentos, à “justiça que supera a dos escribas e fariseus” (cf. Mt, 5,20) no sentido que supera as impurezas legais exteriores dos fariseus e concede maior lugar à consciência individual. A nossa perspectiva de Teologia Moral se move nas linhas 2, 4, 5 e 7 acima. A linha 1, relativa à moral filosófica natural, aparecerá em nosso tratado muitas vezes para apontar o contraste com a moral evangélica e demonstrar como esta a supera em muito. Nesta superação que procuraremos definir com mais precisão que os tratados que já existem, está a verdadeira vida no Espírito, que caracteriza a moral cristã. Outras vezes aparecerá a moral filosófica em nosso tratado para a definição de algum conceito. Evitaremos apenas repetir tratados inteiros de Lei Natural construídos pela razão a partir de dados da experiência, mesmo que esses tratados sejam de acordo com a Revelação. Isto para fazer ressaltar mais a novidade do que é específico da Revelação cristã. Não que desprezemos a moral filosófica. Consideramo-la necessária à vida social, ao direito, à organização da sociedade, às coisas de César (cf. Mt 22,21; Mc 12,17; Lc 20,25) e distinguimos bem uma moral filosófica que respeite a lei moral natural de outra que não a respeite e assuma posições incompatíveis com a Revelação. Mas consideramos que esta distinção deveria estar presente em um tratado que fosse de Ética filosófica. Não consideramos necessário nem conveniente repetí-la aqui pois queremos entender a vida cristã segundo a Revelação cristã. Não é conveniente porque nos desviaria da Revelação para situar-nos no pensamento filosófico. Não é necessário porque a Teologia Moral tem a sua própria especificidade, de pesquisa sobre a Revelação, na qual ela se baseia, e não depende tanto assim das categorias filosóficas. Deus, ao revelar-Se e estabelecer Aliança com os homens visa, na verdade à sua salvação, impossível só com a inteligência, com os sentidos ou todas as potências naturais do homem. Não Se revelaria apenas para poupar ao homem uma tarefa que pudesse realizar a nível natural como é a percepção da lei moral natural.
As linhas 5 e 7 são geralmente tratadas somente na Teologia Dogmática ou na Teologia Espiritual, ou ainda no estudo da Liturgia. Pensamos que é um grande erro os tratados de moral que temos à disposição não considerarem essas fontes.
Em nossa pesquisa de Teologia Moral, visando compreender os fundamentos da vida cristã, buscamos, portanto a racionalidade do que é proposto como sabedoria no Evangelho, conscientes de que a justiça humana – que reconhecemos já como legítima e necessária no nível social, nas coisas de César – não realiza a salvação, a verdadeira libertação do homem. Não acreditamos também, que a moral filosófica e a lei moral natural, por mais que ilumine o caminho da justiça humana para resolver os conflitos deste mundo, construa a própria cidade terrena, pois uma coisa é a idéia de justiça e outra a sua prática. Conforme a Revelação cristã, sabemos que este mundo jaz sob o poder do maligno (cf. 1Jo 5,19) e que sobre os membros do homem pesa uma lei diferente da lei moral natural que a sua razão lhe apresenta:

“21Encontro, pois, em mim esta lei: quando quero fazer o bem, o que se me depara é o mal. 22Deleito-me na lei de Deus, no íntimo do meu ser. 23Sinto, porém, nos meus membros outra lei, que luta contra a lei do meu espírito e me prende à lei do pecado, que está nos meus membros. 24Homem infeliz que sou! Quem me livrará deste corpo que me acarreta a morte?…” (Rm 7,21-24).

O homem busca fazer o bem (seguir a lei moral natural), mas não o faz, faz ao invés o mal que não quer (vislumbra com a razão o que é justo, mas pela sua concupiscência realiza o que é injusto, mostrando que é escravo do pecado). Assim, a luz da razão natural, desconhecendo o dado revelado da concupiscência, de que o homem é escravo do pecado, não corresponde à Verdade plena. Estabelece um critério de justiça, mas não dá a liberdade necessária para praticar essa justiça.

“Se, portanto, o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres” (Jo 8,36).

A nossa Teologia Moral busca a racionalidade dessa Verdade que tem sua fonte em instâncias superiores aos sentidos e que é a única que vence a escravidão em que jaz o homem.

“Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará” (Jo 8,32).

João Paulo II ensina esta realidade ao considerar o mundo contemporâneo e diante das graves crises presentes afirmar que não basta a justiça, mas é necessária a misericórdia .
1.10. A nossa Teologia Moral é a verdadeira Teologia da Libertação
Do que ficou dito, queremos “dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César”. Não fazemos Teologia Moral por academicismo, mas como consideramos que deve ser toda Teologia: alicerce para o apostolado, diálogo com a razão do homem para que ele se converta, reconheça sua situação de condenado e abra-se à Redenção que Deus lhe proporcionou. É a única razão suficiente para se fazer Teologia. Assim, consideramos, por exemplo, que o tradicional tratado de justiça presente nos manuais de teologia moral baseia-se na Suma Teológica, que por sua vez calca-se em Aristóteles. É um tratado de moral filosófica, mesmo presente na Suma Teológica. Não corresponde à Justiça de que fala o Evangelho. Segundo a justiça natural, o Filho de Deus não deveria sofrer nada. E sim os pecadores. Mas isso não nos libertaria, não mudaria o homem. Então, para a verdadeira justiça, foi necessário assumir a injustiça segundo a natureza – a Paixão e Morte do Filho de Deus – estabelecendo uma nova justiça, superior, a única que leva em conta a Presença de Deus, e por isso, que corresponde à Verdade.
A lei moral natural, ou a moral dos mandamentos divinos só leva em conta Deus como o que impõe uma lei. Temer a Deus, respeitar Deus, levar em conta Deus, nesse caso, significa obedecer à sua lei. Leva-se em conta Deus como autoridade e como juiz. A lei moral natural não testemunha a Presença de Deus, pois sendo acessível à razão humana apenas a partir dos sentidos não supõe a intervenção divina em causa primeira. Nesse caso, a justiça do que obedece – em teoria, porque ninguém o pode fazer com perfeição – não sana a injustiça do que não obedece. E todos estão no grupo dos que não obedecem, pelo menos em alguns casos. Quem nunca peca? A nova justiça, levando em conta a Presença de Deus como Criador, Doador, Recompensador, e não principalmente como juiz ou autor da lei, liberta o homem, pois o torna capaz de assumir sobre si a injustiça, carregar o fardo que o pecado ou a miséria do próximo lhe impõe – e que, por justiça natural não lhe seria devido. E assim sanar a injustiça cometida pelo próximo. Neste caso, “o amor supera o temor” (cf. 1Jo 4,18), ama-se a Deus, espera-se n’Ele como fonte de uma justiça superior. A Presença de Deus faz a diferença, faz expôr-se à injustiça confiado numa justiça superior, supõe e testemunha a Presença de Deus, faz como que “visível” essa Presença e é nisto que consiste, no plano moral, o que o Evangelho chama o “Reino de Deus”. A alegria da Encarnação, Emanuel, Deus-Conosco.
1.11. As “partes” da Teologia Moral
A Teologia Moral, como é tradicionalmente apresentada, também tem suas “partes”, que não devem, o quanto possível, ficar exclusivas ou estanques. Essas partes são geralmente chamadas de Teologia Moral Fundamental e Teologia Moral Especial. A primeira estuda os conceitos gerais como a dignidade humana, a natureza da lei moral, a liberdade e a consciência humanas etc. A segunda estuda os conteúdos da Revelação nas diversas ordens de atividades humanas, constituindo, por exemplo, a moral pessoal, a moral social, a moral da sexualidade, a moral familiar, a moral econômica e política, a moral médica etc. Como exemplo, podemos dizer que a Terceira Parte do Catecismo da Igreja Católica – intitulada “A Vida em Cristo” – compreendendo os números 1691-2557 é a parte moral do catecismo. Nela, a Primeira Seção (1699-2051) constitui um tratado de moral fundamental e a Segunda Seção (2052-2557) constitui um tratado de moral especial.
Em nossa apresentação, após esta Introdução, teremos que fazer uma apresentação esquemática do dogma, que no Catecismo corresponderia às duas primeiras partes. Seremos assim fiéis ao conceito dinâmico que não vê a Teologia Moral como uma “parte” da Teologia “ao lado” da Teologia Dogmática, mas como uma abordagem do Mistério – expresso no dogma – sob o ponto de vista da liberdade humana. Por isso, após compreendermos, pelo esquema apresentado, o dogma, percorreremos os temas tradicionais da moral fundamental – lei, consciência, liberdade, virtudes etc. – mas reconstruindo sua compreensão a partir da compreensão do dogma, recorrendo o menos possível, para esse trabalho, aos conceitos fornecidos pela moral filosófica. Esta será a nossa Teologia Moral fundamental. Depois disso, percorreremos os campos da Teologia Moral especial utilizando o mesmo método, apenas que neste caso deveremos fazer recurso de outros detalhes da Revelação, não destacados na apresentação esquemática inicial do dogma.
1.12. A importância do agir moral
“A Igreja sabe que a instância moral atinge em profundidade cada homem, compromete a todos, inclusive aqueles que não conhecem Cristo e o Seu Evangelho, ou nem mesmo a Deus. Ela sabe que precisamente sobre o caminho da vida moral se abre para todos a via da salvação, como claramente o recordou o Concílio Vaticano II ao escrever: «Aqueles que ignorando sem culpa o Evangelho de Cristo, e a Sua Igreja, procuram, contudo, a Deus com coração sincero, e se esforçam, sob o influxo da graça, por cumprir a Sua vontade, manifestada pelo ditame da consciência, também eles podem alcançar a salvação eterna». E acrescenta: «Nem a divina Providência nega os auxílios necessários à salvação àqueles que, sem culpa, não chegaram ainda ao conhecimento explícito de Deus e se esforçam, não sem o auxílio da graça, por levar uma vida reta. Tudo o que de bom e verdadeiro neles há, é considerado pela Igreja como preparação para receberem o Evangelho, dado por Aquele que ilumina todos os homens, para que possuam finalmente a vida» ” .
Há uma relação intrínseca entre o ser do homem e o seu agir. O velho adágio «agere sequitur esse», o agir segue o ser, significa que o ser humano age bem se é bom e age mal se é mau. Mas como ser dinâmico o ser humano inverte o adágio, que pode significar também que ao agir bem o homem se torna bom e ao agir mal o homem se torna mau. Se “sobre o caminho da vida moral se abre para todos a via da salvação”, é porque pelo seu agir o homem colabora com Deus no desenvolvimento de seu próprio ser e torna-se imagem de Jesus Cristo (cf. Ef 2,10). Esta é a importância do agir moral segundo a Revelação cristã. Cada sistema ético, baseado em uma concepção filosófica diversa fundamenta diferentemente a importância do agir moral. Por exemplo, a moral kantiana, ao dar o primado ao dever, fundamenta na obrigação a importância do agir moral. O agir moral afirma, na moral kantiana, a coerência da pessoa com o seu dever, conhecido pela consciência e configura assim uma moral de obrigação, chamada também “deontológica”. A moral clássica, aristotélica, fundamentava o agir moral em buscar a “vida boa”, ou seja, a vida mais racionalmente equilibrada, em que a busca do prazer evitava os efeitos desastrosos de muitas coisas prazerosas, como atitudes egoístas etc. Esta fundamentação leva a uma moral de virtudes. Como busca um fim, uma meta, é chamada moral “teleológica”.
Diante da atual crise ética, muitos filósofos morais, entre os quais se destaca o escocês Alaisder McIntyre, propõem a volta a uma moral de tipo aristotélico e a proposição de uma moral de virtudes em substituição à moral de obrigações ou à moral liberal. A moral de virtudes foi muito acolhida também na teologia moral católica tradicional. Já São Paulo, em várias de sua epístolas tem elencos de virtudes e vícios: 1Cor 5,11; 6,9; Ef 5,5; Fl 4,8; 1Tm 3,8. Também as cartas católicas:

“5Por estes motivos, esforçai-vos quanto possível por unir à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, 6à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, 7à piedade o amor fraterno, e ao amor fraterno a caridade. 8Se estas virtudes se acharem em vós abundantemente, elas não vos deixarão inativos nem infrutuosos no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo” (2Pd 1,5-8).

Nossa posição, no entanto, é que a moral católica supera a moral de virtudes e a volta a uma moral mais evangélica, mais fundamentada na Revelação, dá um fundamento mais profundo do que as virtudes para a moral. As listas de virtudes e de vícios no NT podem conter influências da cultura grega, mas podem também ser interpretadas como simples descrições do comportamento externo aprovado ou reprovado sem fundamentar necessariamente a moral apostólica na aquisição direta das virtudes. Queremos mostrar como a moral cristã é um agir segundo uma realidade sobrenatural que nos é revelada – o Mistério – e na qual estamos inseridos e suplanta tanto a moral grega da aquisição das virtudes como a moral veterotestamentária da obediência aos mandamentos, embora no resultado final, o cristão tanto apresenta as virtudes como obedece aos mandamentos. Não deixaremos, entretanto, de fornecer os dados tradicionais, que constam até no recente Catecismo, relativo às virtudes e aos mandamentos.
1.13. A Teologia Moral, a Ética Filosófica e a unidade da consciência humana
Aurelio Fernández, com toda uma tradição de ensino de teologia moral distingue a moral filosófica (ou ética filosófica) de moral teológica (ou ética teológica ou teologia moral). Escreve: “Com efeito, a «moral filosófica» deduz seus princípios éticos da razão e tende a que o homem, mediante uma conduta adequada, se melhore a si mesmo e consiga a felicidade natural. Ao contrário, a «moral teológica» deriva seus princípios da Revelação e seu fim persegue não só a perfeição e felicidade humanas neste mundo, mas a salvação ou a condenação (sic!) eterna. (…) Apesar desta distinção entre a ética como disciplina filosófica e a moral enquanto saber teológico, existe entre elas uma íntima relação. Com efeito, a teologia moral deduz da disciplina filosófica os conceitos fundamentais e inclusive seu método e até a linguagem. Por sua vez, a ética filosófica deve reconhecer seus próprios limites, e por isso deve estar sempre aberta às exigências éticas da Revelação. Este tema exige um estudo mais detalhado. (… por isso) propomos … três questões complementares. Primeira: os dados da história acerca da relação entre religião e moral. Segunda: o valor da moral derivada de crenças religiosas. Terceira: a teoria de um setor da cultura atual que pretende negar o valor das éticas de origem religiosa. Em concreto: trata-se de formular a síntese entre a crença religiosa e a praxe moral, dado que atualmente assistimos a um vazio de idéias, pois em curto espaço de tempo passou da identificação entre religião e moral à separação radical entre religião e moral a ponto de se negar que possa existir uma ética exclusivamente religiosa” .
A nossa proposta difere da tese desse autor, que é tradicional na exposição da teologia moral católica contemporânea. Diz que a ética filosófica vem da razão e a moral teológica da Revelação. Como vimos, ambos pensamentos vem com o instrumento da razão. Como fazer teologia moral sem a razão? Acontece que um – o filosófico – usa como instrumento de aproximação da realidade só os sentidos – a abstração intelectual é trabalho da razão – e o outro – o teológico – usa também o instrumento da Revelação – sem deixar de, também, aplicar a abstração intelectual. Para nós, porém, o homem é único, como sua consciência é única. Então consideramos que a princípio não pode haver duas disciplinas éticas para a mesma consciência. Uma para fins sobrenaturais e outra para fins terrenos. Essa aceitação de duas éticas desconsidera o verdadeiro peso da Revelação, reduzindo-a a “crenças religiosas”, e privatizando-a, ao modo como o mundo moderno privatiza a religião, empurrando a ética religiosa para o campo da consciência individual e o ambiente social interno das comunidades religiosas, reivindicando a chamada moral laica, sem Deus, para a sociedade e o estado. Crer é ter a Revelação não como “crenças religiosas” mas como uma «revelação» de como as coisas são na verdade. E aceitar por isso o choque com aquele que não sabe de toda a realidade porque não recebeu a Revelação. Por isso é muito importante o caráter racional da Revelação, conforme expusemos acima. A Revelação cristã não é arbitrária como as “crenças religiosas” do paganismo e pode reivindicar essa autoridade. A consciência pagã tem dois compartimentos, um para as práticas religiosas e outro para as práticas morais, que na melhor das hipóteses acompanham a moral filosófica. A consciência cristã tem um só compartimento, uma visão integral da vida, da sociedade, incluindo sempre com muita naturalidade os dados sobrenaturais da Revelação e não pode ter duas leis morais, uma religiosa e outra secular ou laical. Existe, sim, a ética de quem crê e a de quem não crê, que necessariamente entram em conflito e este conflito permeia o Evangelho todo.

“19Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia” (Jo 15,19).

“30Quem não está comigo, está contra mim; quem não recolhe comigo, espalha” (Mt 12,30; Lc 11,23).

Por isso o catolicismo, ao anunciar a Revelação, também propõe que as leis civis sejam de acordo com a Revelação, mesmo sabendo que nem todos na população civil acolhem a Revelação. Proclama, assim, a Revelação como verdade objetiva, os dados conhecidos através da Revelação como plenamente integrantes da realidade e não só uma consciência subjetiva, uma maneira pessoal de ver as coisas. Não se trata de uma imposição da religião católica a quem não quer crer, mas de uma proclamação, um anúncio de uma realidade desconhecida pelos outros. Imagine que uma determinada classe social procure fazer ver aos outros em um parlamento uma realidade que se percebe só no ambiente social em que vive essa classe. Ou um parlamentar que fale sobre as graves implicações de um determinado projeto de lei para a sua província, realidade que os deputados de outra província desconheciam. Ambos discursos pretendem aumentar o conhecimento acerca da realidade de modo a mudar o proceder, a lei civil, para adequar-se a essa realidade conhecida por ele e desconhecida pelos outros. Do mesmo modo o católico anuncia uma realidade nova, conhecida em toda sua clareza pela Revelação, mas acessível por analogia à razão e ao bom senso, mesmo a quem ainda não crê diretamente na Revelação. E só a religião cristã católica pode reivindicar esse parentesco com a capacidade racional do homem. O protestantismo e outras vertentes religiosas, adequando-se mais tranqüilamente à moral laica, afirmam, sem o perceberem, o seu caráter simplesmente subjetivo, de interpretação pessoal da realidade e reduzem o caráter fermentador da Revelação. Renuncia a ser sal e luz. Mesmo que o número de protestantes seja muito maior que o de católicos em determinada população, se esses católicos forem assim autenticamente católicos – digo isso porque a filosofia subjetiva penetrou também, infelizmente, no âmbito católico – eles serão sempre muito mais “sal da terra e luz do mundo”, agentes de transformação da realidade, pela carga mais objetiva de sua fé. Por isso também o catolicismo será sempre mais perseguido, estará sempre em maior contraste com o mundo do que essas outras vertentes.
Consideramos que quanto mais é verdade o que disse Aurelio Fernández na frase “a teologia moral deduz da disciplina filosófica os conceitos fundamentais e inclusive seu método e até a linguagem” , mais se reduziu a compreensão da moral católica no que ela tem de original e de surpreendente em confronto com o pensamento humano. Se alguns conceitos fundamentais se tomaram da moral filosófica, essa identificação, às vezes serviu até para confundir a compreensão da originalidade da Revelação e deturpar o sentido dos termos paralelos aplicados à Revelação. Por exemplo, o que a moral filosófica entendia por “justiça” foi aplicado com o mesmo sentido à teologia moral e distorceu a compreensão da moral cristã porque o conceito de justiça na Revelação é bastante diferente do conceito de justiça na moral filosófica. O mesmo pode-se dizer do conceito de liberdade. A presença de Deus faz uma enorme diferença e revoluciona esses conceitos. Quando não revoluciona tanto é porque a Presença de Deus, que nos foi revelada não está sendo suficientemente levada em conta. Fernández, com grande tradição de teologia moral, influenciada pelo método escolástico e depois pelo método científico, ambos racionalistas – note-se que não somos contra a razão, muito pelo contrário, mas também somos a favor da mística e da contemplação, que estes métodos desprezam – coloca a moral revelada usando conceitos, métodos e linguagem da moral filosófica e depois diz que a moral filosófica deve estar aberta às exigências éticas da Revelação. Em razão de que a moral filosófica deveria estar aberta a essas exigências? Se as admite porque não se torna logo uma moral revelada? Se a Revelação traz uma real novidade, porque atenuar essa novidade com o atrelamento da moral revelada a conceitos métodos e linguagens da moral filosófica? Porque não criar novos conceitos, ou ao menos reconhecer a diferença sob os mesmos nomes? Porque não criar novos métodos e linguagens mais adequadas à Revelação? Seriam os conceitos, métodos e linguagens da «moral filosófica» exigências da razão mesma ou muito mais dos métodos racionalistas denunciados pouco acima?
O que a teologia moral tradicional coloca como duas ciências paralelas na mesma consciência, levando em conta ou não a verdade revelada, nós colocamos, por coerência, em duas consciências diferentes, a do que crê objetivamente na Revelação e a do que efetivamente não crê. E aceitamos tranqüilamente o conflito, que o Evangelho prevê, entre o que recebeu a Revelação e o que não a recebeu.
O que aqui afirmamos, não entra em conflito com o que afirmamos acima sobre “dar a César o que é de César e dar a Deus o que é de Deus”. De fato, a ética filosófica, inspirando o direito, molda a justiça de César, e César pode exigir que cada um respeite o direito do outro, mas não que cada um perdoe a falta do outro, o que é necessário à sua salvação eterna, embora não se possa exigir isso para a vida social. Nesse caso o cristão não pode exigir que todos os homens ajam de acordo com a Presença revelada de Deus, e deve-se fazer justiça, segundo os conceitos da Ética puramente filosófica. Mas quando a autoridade civil usurpa os direitos de Deus, vale o que dizemos neste parágrafo e o cristão católico “revela” que o desígnio de Deus deve ser respeitado a nível civil. É quando a autoridade civil não reconhece a personalidade humana da pessoa ainda embrionária, autorizando o aborto voluntário – a hipócrita “interrupção da gravidez” – ou quer reconhecer legitimidade à pretensão de duas pessoas de mesmo sexo de constituírem um casal. O católico denuncia que nesses casos estão dando a César o que é de Deus. Nesses casos evidencia-se a unidade de consciência do católico, e como a Revelação divina não pode ser privatizada. Evidencia-se também a omissão dos que pretendendo ser cristãos, não combatem pelo reinado de Deus na sociedade, privatizando e subjetivando a fé e negando, assim, um serviço de amor à humanidade, mostrando-se amigos da morte e cúmplices de futuras violências. Se recebemos a Revelação divina, sabemos também que só na medida em que os homens viverem segundo ela haverá verdadeira paz no mundo.

“18A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina. 19Está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e anularei a prudência dos prudentes (Is 29,14). 20Onde está o sábio? Onde o erudito? Onde o argumentador deste mundo? Acaso não declarou Deus por loucura a sabedoria deste mundo? 21Já que o mundo, com a sua sabedoria, não reconheceu a Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura de sua mensagem. 22Os judeus pedem milagres, os gregos reclamam a sabedoria; 23mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos; 24mas, para os eleitos – quer judeus quer gregos -, força de Deus e sabedoria de Deus. 25Pois a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. 26Vede, irmãos, o vosso grupo de eleitos: não há entre vós muitos sábios, humanamente falando, nem muitos poderosos, nem muitos nobres. 27O que é estulto no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e o que é fraco no mundo, Deus o escolheu para confundir os fortes; 28e o que é vil e desprezível no mundo, Deus o escolheu, como também aquelas coisas que nada são, para destruir as que são. 29Assim, nenhuma criatura se vangloriará diante de Deus. 30É por sua graça que estais em Jesus Cristo, que, da parte de Deus, se tornou para nós sabedoria, justiça, santificação e redenção, 31para que, como está escrito: quem se gloria, glorie-se no Senhor (cf. Jr 9,23)” (1Cor 1,18-31).

São numerosas, no Novo Testamento, as passagens que testemunham uma oposição e um conflito entre a sabedoria de Deus, participada pelo cristão, com a Revelação, e a sabedoria do “mundo”, ou seja daquele que não acolhe a Revelação. Eis algumas: 1Pd 2,7; Rm 9,32-33; Mt 10,22; 11,6; 13,21; 16,23; 24,9; Mc 4,17; 13,9.13; Lc 2,34; 5,5; 6,22; 7,23; 21,12.17; Jo 7,43; Jo 10,33; 12,42; Jo 15,21. Se a teologia moral é a contemplação do Mistério sob o ponto de vista da liberdade do cristão, este não poderá furtar-se a este conflito. A racionalidade da Lei Natural é vista tradicionalmente pelos teólogos morais que a aceitam como o ponto de ligação e acordo entre a moral cristã e a ética filosófica. A Lei Natural é acessível à razão só a partir dos dados naturais dos sentidos sem a Revelação – o que, para alguns é bastante difícil e obscuro, e outros decididamente rejeitam – e é, ao mesmo tempo, confirmada pela Revelação. O Evangelho, especialmente o de São João, nos mostra que é o Filho a Verdade, a Luz.

[O Verbo] “9era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem” (Jo 1,9).

“6Jesus lhe respondeu: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14,6).

Assim, mesmo que seja verdade que a Lei Natural é acessível às luzes da razão só iluminada por fontes naturais, o homem decaído tem paixões, tem razões que a razão desconhece para não aceitar a evidência da Lei Natural. É cego para a evidência da Verdade.

“39Jesus então disse: Vim a este mundo para fazer uma discriminação: os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos” (Jo 9,39).

De pouco adianta que teoricamente seja admissível a razoabilidade da Lei Natural (cf. Rm 1,18-32; 2, 13-15) se na prática as paixões humanas a turvam ao conhecimento e mesmo conhecida pode não mover a vontade. A “reconciliação” teórica entre a teologia moral e a ética filosófica mostra-se redutora da Revelação, fazendo cair fora da Teologia Moral a fonte do agir moral do cristão, a Graça, que é Luz, Liberdade evangélica, Visão Sobrenatural da realidade, o que, exatamente, caracteriza a Revelação. Cai-se no risco de reduzir a Moral Cristã a uma ética da lei, como no Antigo Testamento. Isto acontece quase sempre. E não se acolhe a novidade neo-testamentária, exposta magistralmente nas cartas paulinas, de que não estamos mais sob a Lei, mas sob o Espírito, sob a Graça. Isto tem conseqüências catastróficas também para a pregação do Evangelho, a qual aparece, muitas vezes, excessivamente legalista, e o Evangelho acaba não sendo corretamente compreendido. Para a maioria das pessoas, a moral católica aparece como extremamente legalista, cheia de proibições sem razões. Não se liga suficientemente graça com moral, sendo temas que se trata separadamente na catequese, porque estão separados na mente dos pregadores.
1.14. A Moral e a Cultura
Vimos acima que a Encíclica “Veritatis Splendor” afirma que “precisamente sobre o caminho da vida moral se abre para todos a via da salvação”. Não se trata só do agir exterior mas do “coração”, isto é, de como o agir exterior brota do “coração”, do íntimo do homem, e também de como o agir exterior é um “pedir, buscar, bater” (cf. Lc 11,9-13) que abre o coração para o Espírito Santo e configura o íntimo do homem, o “coração”.

“18Ao contrário, aquilo que sai da boca provém do coração, e é isso o que mancha o homem. 19Porque é do coração que provêm os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias. 20Eis o que mancha o homem. Comer, porém, sem ter lavado as mãos, isso não mancha o homem” (Mt 15,18-20).

Então o perfil moral incide diretamente sobre a salvação do homem. O homem se salva pelo que é, pelo Espírito que o habita (cf. Rm 8,11) e este entra e permanece no homem pelo agir do homem.

“31E Jesus dizia aos judeus que nele creram: Se permanecerdes” – isto é, agires segundo a minha Palavra – “na minha palavra, sereis meus verdadeiros discípulos; 32conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8,31-32).

Aqui poderia entrar um discurso sobre o sentido “das obras da carne e das obras do Espírito”, que deixamos para desenvolver mais tarde.
Entramos aqui no discurso sobre a moral e cultura. Se sobre o caminho do agir moral se abre para todos a via da salvação, a relação entre a moral e a cultura é bastante importante, pois a cultura condiciona todo modo de interpretar o mundo e, por aí, condiciona todo o agir do homem.
O que é a cultura? É a interpretação que um grupo humano faz da realidade a partir do conhecimento que pode ter dessa realidade e que condiciona todos os modos de agir e de se relacionar dos membros desse grupo. Entrando sempre novos elementos no campo da experiência sensível, há uma constante re-elaboração dessas experiências, estando, por isso, a cultura sempre em mutação.
Olhando sempre o mundo a partir de seu ponto de vista, de sua cultura, o sujeito tende a considerar os que tem costumes diferentes, em outras culturas, como “estranhos” e “atrasados”. Tende a absolutizar a sua cultura e tem dificuldade de entender a relatividade de cada cultura, principalmente da sua própria cultura. Foi assim, por exemplo, que gregos e romanos consideraram os demais povos da Europa e da Ásia como “bárbaros” e esta palavra ganhou conotação pejorativa.
Com o desenvolvimento da Antropologia Cultural alcançou-se essa consciência do relativo e facultativo de cada cultura. Acontece que esse desenvolvimento deu-se principalmente no final do século XIX e no século XX, época marcada por uma concepção agnóstica ou atéia-revolucionária e pelo subjetivismo no plano filosófico. Então a descoberta da antropologia cultural levou muitos a relativizar a cultura branca dominante e valorizar as culturas minoritárias, até então marginalizadas, num movimento de reação ao sentimento espontâneo da cultura branca anterior à antropologia cultural. Os alvos principais das denúncias de violência contra as culturas minoritárias foram o comércio, às vezes identificado com o imperialismo econômico, e a Igreja, com a evangelização, que partindo da cultura branca européia dirigiu-se à América, à Ásia e à África. Uma vez que o comércio internacional pouco iria se importar com essas críticas, pois os próprios críticos são beneficiados pelo imperialismo econômico, pertencentes que são a economias dominantes, e a própria cultura dominante globalmente no mundo é materialista, caracterizada pela força do capital, o alvo sensível foi a Igreja. Já desde o século XVI que a Igreja preocupava-se em valorizar essas culturas, por causa da dinâmica mesmo da Encarnação do Verbo. Pense-se em Mateus Ricci, jesuíta que assumiu totalmente a cultura chinesa, em José de Anchieta que estudou e divulgou antes de todos a língua e a cultura tupí e muitos outros. Era inevitável, porém, o choque das culturas. Era inevitável que o simples encontro de homens de culturas diferentes apresentasse questionamentos e novas decisões aos homens de cada cultura, diante dos valores conhecidos da outra cultura. Naturalmente as coisas não poderiam ficar como antes, alguns costumes e hábitos forçosamente, se os homens são livres, haveriam de se modificar. Se essas modificações seriam benéficas ou prejudiciais nem sempre se poderia prever.
Os antropólogos culturais diante da “descoberta das culturas” extasiaram-se e quiseram tratar as culturas como objeto de laboratório de pesquisas. Isto é, quiseram estabilizar as culturas minoritárias, considerá-las sempre iguais no tempo, evitar o contato entre culturas para que não houvesse intercâmbios culturais. Esta atitude, que podemos interpretar como uma embriaguez de antropologia cultural, é, em si mesma uma atitude dominadora. Os antropólogos, de cultura branca euroamericana, querem estabilizar, melhor tornar estáticas as culturas minoritárias. Sob pretexto de defendê-las, querem paralisá-las, tratando os homens que a compõem como cavalos de raça ou objetos de museu. Não estabelecem o mesmo critério paralisador para sua própria cultura branca, a qual querem sempre em evolução com novos progressos e novas fronteiras etc. Ou seja, acusando a Igreja de destruir as culturas, impondo aos membros de povos de cultura minoritária a cultura branca européia – o que não é verdade – aplicam aos povos de cultura minoritária o mais rigoroso isolamento, e os privam de um saudável intercâmbio cultural. A própria liberdade dessas culturas lhes é negada.
É preciso entender que “cultura” é um conceito, uma figura de pensamento, e que, na realidade as culturas estão em permanente evolução, por vários fatores:
- pelo caráter criativo do homem, que estabelece novas descobertas e inventos, que ao facilitar a vida são acolhidos, mudando os hábitos e as relações pessoais, ou seja, a cultura;
- por causas naturais, como secas e inundações que obrigam tribos a emigrar e adaptar-se a novos ambientes, adaptação que faz mudar a cultura;
- por crises internas como choques de classes sociais dentro daquela cultura;
- por “revelações” religiosas novas e outras novas lideranças, segundo o espírito sempre inquieto do ser humano;
- por choques entre povos, guerras, dominações militares etc.
- por contatos pacíficos, comerciais etc. entre povos diferentes; por exemplo, o café trazido ao Brasil por Francisco Palheta, o fumo e o milho trazidos da América para a Europa, a borracha, levada da América do Sul para o mundo todo.
Na perspectiva agnóstica ou atéia em que surgiu a antropologia cultural qualquer cultura teria o mesmo valor, em tese. Isto é, sem valores transcendentais, a cultura, considerada estática, teria um valor absoluto. Assim os valores morais seriam relativos às culturas, e o que é aceito em uma cultura não seria aceito em outra. Cada cultura teria o seu código moral, submetendo a ele os seus integrantes. Não haveria, nessa concepção, valores morais universais. Apenas relativos a cada cultura. Na verdade, os antropólogos culturais, de cultura branca, jamais puderam aceitar alguns elementos de certas culturas como “morais”, isto é, a antropofagia, os sacrifícios humanos a deuses etc. Mas hipocritamente defendiam – e defendem – a tese da relatividade cultural dos valores morais, fechando os olhos para estes costumes “bárbaros”.
Joahann Füchs e Franz Böeckle, teólogos morais alemães, entre outros, chegaram a perguntar-se se existe uma moral cristã. Propunham que a fé evangélica nos indicasse somente normas transcendentais de comportamento, isto é, normas que corresponderiam a inspirações de fundo, intenções, e não à materialidade das ações em si mesmas. Por exemplo seriam normas transcendentais, obrigatórias para todo cristão, amar a Deus, seguir a Cristo, amar o próximo etc. O que, concretamente, significaria amar a Deus, seguir Cristo, amar o próximo etc. seriam normas categoriais estabelecidas em cada cultura. Os Dez Mandamentos, por exemplo, seriam uma expressão da cultura hebraica, reformável em outras culturas e ambientes. Não teriam um valor universal. Na cultura rural pré-industrial seria imoral a esterilização das mulheres, devido à grande necessidade de braços para a lavoura, e de famílias numerosas. Na cultura urbana industrial seria altamente moral a esterilização de mulheres, segundo alguns até o aborto, pois atenderia às necessidades da cultura, a limitação e o planejamento da população. Os exemplos poderiam multiplicar-se. É fácil de ver aqui um cristianismo subjugado, em que o absoluto é a interpretação da cultura e não mais Deus. Um cristianismo que perdeu toda a sua força profética – uma forma de calar a boca de Deus – e qualquer valor materialista e carnal se impõe, “santificado” pelas normas transcendentais, pois são a nova “releitura” do Evangelho para cada situação. Neste caso, o que é o homem? O cristianismo ainda revelaria alguma concepção de homem? É muito difícil admitir que essas concepções tenham partido de cristãos sinceros, religiosos, padres…
Fechando os olhos para os costumes “bárbaros”, como se já estivessem extintos em todas as culturas do mundo – se estivessem, não teria sido por influência de uma outra cultura? E nesse caso, por coerência, os antropólogos culturais não deveriam trabalhar para restaurá-los? – os antropólogos culturais consideraram todas as culturas no mesmo nível. Por uma mentalidade rousseauniana, iluminista, de otimismo e igualitarismo rígido, e não admitindo a lei natural nem valores morais universais, consideraram todas as culturas igualmente boas, o que equivale a dizer indiferentes. O respeito ao próximo deveria passar por um respeito incondicional à sua cultura, evitando todo intercâmbio cultural como agressivo para a cultura, e por ela, à própria vida dos homens dessa cultura. Isto em plena era das comunicações e do comércio, em que a televisão penetra nas tabas dos índios do interior do Brasil, por exemplo. Isto gerou fatos pitorescos, até ridículos. Um padre salesiano italiano, em uma tribo indígena de Mato Grosso, coloca-se a batizar as crianças, em um domingo festivo da tribo. Procurando “inculturar-se” ao máximo, não usa paramentos litúrgicos, mas tem o corpo e a volumosa pança cobertas de vermelho de urucum e veste somente um calção, ao modo – aliás branco – que a tribo usa. O padre também não tirou a barba, cara aos missonários, que tirada o faria mais semelhante aos índios. E em vez dos paramentos da liturgia cristã – agora entendida como “cultura branca” – usa um cocar à maneira do pajé indígena. Pouco adianta todo este esforço de “inculturação”. Após o batismo, na parte da manhã e um almoço tribal, a tribo se diverte numa animada… “pelada”, isso mesmo, partida de football, o velho esporte bretão. E vá o antropólogo dizer aos índios que não joguem futebol…
É paradoxal que, advogando o progresso e o desenvolvimento para a cultura branca, admitindo o mito do progresso e da evolução, o mundo científico, ao mesmo tempo queira paralisar culturas humanas e não queira admitir que uma cultura seja superior a outras. Se há evolução e progresso, no que tange à tecnologia, ao domínio da natureza e das energias naturais, porque não pode haver também progresso no campo moral? Porque uma cultura não seria sinal de um estágio inferior de evolução moral, ao menos em alguns de seus valores, diante de outra, mais avançada? É contraditório. O fato de ter um ou outro valor moral importante, não quer dizer que determinada cultura não seja, na verdade, cheia de outros valores morais inferiores e mais atrasada.
Admitir que todas as culturas são do mesmo nível moral significa uma enorme cegueira – incapacidade de distinguir. Distingue-se tanto, no nível tecnológico, países atrasados e desenvolvidos, mas no nível moral não se quer admitir essa distinção. Assim a civilização e a barbárie se igualam. Perde-se o metro para discernir o nível civilizatório de uma população ou de uma época histórica. Cai-se novamente em contradição ao condenar práticas contra os “direitos humanos”. Cada vez mais se vê que essa linguagem de “direitos humanos” – como também a da ecologia, da preservação ambiental, por exemplo – é um estratagema de intervenção onde interessa intervir por interesses políticos e econômicos, ficando esquecida quando os interesses são outros.
Todas essas contradições surgem da rejeição de se admitir uma lei moral natural universal, com normas categoriais, e não apenas “transcendentais”, de valor universal, para todas as culturas, que corresponde à natureza humana, e por isso está acima de qualquer consenso humano. Uma ou outra cultura estará em mais alto ou mais baixo nível civilizatório conforme suas instituições promovam comportamentos mais ou menos de acordo com a lei moral natural.
A Revelação cristã é a mesma para todos os povos e culturas. Jesus Cristo “é a Luz que ilumina todo homem que vem a este mundo” (Jo 1,9). Esta Revelação “revela o homem ao próprio homem” . Assim ela questiona todas as culturas e vem para purificá-las:

“19Ide, pois, e ensinai a todas as nações; …. 20Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi” (Mt 28,19-20).

Exerce, assim seu papel profético. A comunicação dessa Revelação deve buscar as linguagens mais adaptadas a cada cultura, mas, de modo algum, poderá modificar o seu conteúdo. A tentativa de modificá-lo é a tentativa de tornar inoperante o próprio cristianismo, de cancelar a Revelação, de calar a voz de Deus. É o homem pecador, resistindo sempre a Deus, fugindo sempre da Verdade para viver a sua alienação.
1.15. As fontes da Teologia Moral
Por fontes da Teologia Moral entende-se as fontes dos dados revelados sobre os quais a Teologia Moral reflete racionalmente. Estas fontes são as mesmas da Revelação, ou seja, a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério Eclesiástico autorizado. É claro que a Teologia Moral ao trabalhar esses dados serve-se de estruturas de pensamento e de linguagem humanas, coteja esses dados com outros dados fornecidos pela moral filosófica, o direito etc., entra em confronto com as culturas e os acontecimentos históricos, mas isso não significa que esses conhecimentos humanos sejam “fontes” da Teologia Moral. São desafios, obstáculos, meios, mas não “fontes”, ou seja, não estão na origem do saber moral revelado. Essa distinção é importante para que a Teologia Moral conserve seu caráter religioso e não se secularize, o que confundiria a percepção daquilo que vem de Deus com aquilo que é elaboração humana, sacralizando ridiculamente construções do pensamento humano, ou relativizando elementos essenciais do saber moral revelado.

SEGUNDA PARTE: O MISTÉRIO REVELADO
2. O Mistério Revelado e a Moral Revelada
2.1. A moral cristã deve ser perene e universal
Depois de estabelecidas as bases da Teologia Moral, nossa tarefa é, a partir de nossas fontes, descobrir a lógica própria do agir cristão, sempre atentos para não afirmar nada a partir de lugares comuns e impulsos alheios às nossas fontes, vício bastante comum, que limita a compreensão do agir cristão, condicionando-o conforme o estado de espírito das pessoas em cada tempo e lugar. Acreditamos que o agir cristão é fruto de uma sabedoria universal e perene, que não é um em um lugar e outro em outro lugar, que não é um em uma época e outro em outra época. Isso pode parecer a um olhar superficial, que vê apenas o ato, mas não percebe as razões mais profundas que levaram a esse ato. A lógica do agir do cristão é a mesma em qualquer tempo e lugar.
2.2. A moral cristã se autentica a si mesma pela sua vivência
A fonte última do agir do cristão é o próprio Jesus, o Cristo, que Se declarou o Caminho, a Verdade e a Vida. E enviou o Espírito Santo, procedente do Pai e d’Ele mesmo, sem o qual pessoa alguma pode agir segundo e seguindo Jesus, o Cristo.
O agir cristão é uma experiência que se confirma a si mesma, convencendo cada vez mais a pessoa que o experimenta da sua verdade.

“29No dia seguinte, João viu Jesus que vinha a ele e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. 30É este de quem eu disse: Depois de mim virá um homem, que me é superior, porque existe antes de mim. 31Eu não o conhecia, mas, se vim batizar em água, é para que ele se torne conhecido em Israel. 32João havia declarado: Vi o Espírito descer do céu em forma de uma pomba e repousar sobre ele. 33Eu não o conhecia, mas aquele que me mandou batizar em água disse-me: Sobre quem vires descer e repousar o Espírito, este é quem batiza no Espírito Santo. 34Eu o vi e dou testemunho de que ele é o Filho de Deus. 35No dia seguinte, estava lá João outra vez com dois dos seus discípulos. 36E, avistando Jesus que ia passando, disse: Eis o Cordeiro de Deus. 37Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus. 38Voltando-se Jesus e vendo que o seguiam, perguntou-lhes: Que procurais? Disseram-lhe: Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras? 39Vinde e vede, respondeu-lhes ele. Foram aonde ele morava e ficaram com ele aquele dia. Era cerca da hora décima. 40André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido João e que o tinham seguido. 41Foi ele então logo à procura de seu irmão e disse-lhe: Achamos o Messias (que quer dizer o Cristo)” (Jo 1,29-41).

João Batista sabia que Jesus era o Messias por uma experiência mística particular (Aquele sobre quem vires o Espírito descer e repousar). Seu discípulo André soube, num primeiro momento, pelo testemunho de seu mestre João Batista, mas depois ficou confirmado na fé porque “ficou com” Jesus. Assim também, a pessoa pode aprender por indicação de alguém a vida cristã, mas estará plenamente convencida da verdade dessa vida cristã, somente à medida que experimentar a sua sabedoria divina, dom do Espírito Santo.
2.3. A moral cristã é o agir do próprio Jesus, o Cristo
A moral cristã baseia-se no agir do próprio Jesus, o Cristo. Melhor dizendo, é o agir do próprio Jesus. Qual era a fonte do agir de Jesus?

“13Da Galiléia foi Jesus ao Jordão ter com João, a fim de ser batizado por ele. 14João recusava-se: Eu devo ser batizado por ti e tu vens a mim! 15Mas Jesus lhe respondeu: Deixa por agora, pois convém cumpramos a justiça completa. Então João cedeu. 16Depois que Jesus foi batizado, saiu logo da água. Eis que os céus se abriram e viu descer sobre ele, em forma de pomba, o Espírito de Deus. 17E do céu baixou uma voz: Eis meu Filho muito amado em quem ponho minha afeição.
1Em seguida, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demônio. 2Jejuou quarenta dias e quarenta noites. Depois, teve fome. 3O tentador aproximou-se dele e lhe disse: Se és Filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães. 4Jesus respondeu: Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus (Dt 8,3). 5O demônio transportou-o à Cidade Santa, colocou-o no ponto mais alto do templo e disse-lhe: 6Se és Filho de Deus, lança-te abaixo, pois está escrito: Ele deu a seus anjos ordens a teu respeito; proteger-te-ão com as mãos, com cuidado, para não machucares o teu pé em alguma pedra (Sl 90,11s). 7Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus (Dt 6,16). 8O demônio transportou-o uma vez mais, a um monte muito alto, e lhe mostrou todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse-lhe: 9Dar-te-ei tudo isto se, prostrando-te diante de mim, me adorares. 10Respondeu-lhe Jesus: Para trás, Satanás, pois está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás (Dt 6,13). 11Em seguida, o demônio o deixou, e os anjos aproximaram-se dele para servi-lo. 12Quando, pois, Jesus ouviu que João fora preso, retirou-se para a Galiléia. 13Deixando a cidade de Nazaré, foi habitar em Cafarnaum, à margem do lago, nos confins de Zabulon e Neftali, 14para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías: 15A terra de Zabulon e de Neftali, região vizinha ao mar, a terra além do Jordão, a Galiléia dos gentios, 16este povo, que jazia nas trevas, viu resplandecer uma grande luz; e surgiu uma aurora para os que jaziam na região sombria da morte (Is 9,1). 17Desde então, Jesus começou a pregar: Fazei penitência, pois o Reino dos céus está próximo.” (Mt 3,13-4,17).

Temos de início já duas indicações: Jesus age segundo a “justiça completa” e é “conduzido pelo Espírito”. Temos também uma manifestação do Pai e do Espírito Santo sobre o Filho, o próprio Jesus. O demônio tenta Jesus a certas atitudes que Ele rejeita. Suas respostas também são critérios de seu agir. Pela primeira resposta, Jesus tem não no pão, criatura terrena, seu alimento, mas na Palavra de Deus – do Pai – seu alimento. Alimento aqui, obviamente, não é o elemento químico que fornece a energia para a vida biológica, que a pessoa humana compartilha com os animais irracionais, mas a fonte da própria vida humana em todos os seus aspectos. Jesus não vive para manter seu corpo, mas atribui ao Pai a fonte de sua vida. Vive uma verdadeira vida humana, mas conserva na vida encarnada a mesma dinâmica do Filho Eterno – que continua a ser – “gerado, não criado, consubstancial ao Pai”, conforme rezamos no Credo Niceno-Constantinopolitano. Essa informação dos evangelhos sinóticos é confirmada no Evangelho de São João:

“8Os discípulos tinham ido à cidade comprar mantimentos. (…) 31Entretanto, os discípulos lhe pediam: Mestre, come. 32Mas ele lhes disse: Tenho um alimento para comer que vós não conheceis. 33Os discípulos perguntavam uns aos outros: Alguém lhe teria trazido de comer? 34Disse-lhes Jesus: Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e cumprir a sua obra” (Jo 4,8.31-34).

Jesus tem só no Pai a fonte de sentido de sua vida, seu “alimento”, a fonte de sua energia vital e é o Espírito Santo, o Espírito de Seu Pai que o conduz. Jesus não tem nenhum objetivo nem sonho terreno. Nada que não tenha no Pai o seu termo.
Ao rejeitar transformar pedras em pães, Jesus rejeita usar o poder de seu Pai para lutar pela vida corporal. Jesus nada faz para ter em suas mãos a sua vida corporal, mas a recebe do Pai, como vai ensinar no Pai-Nosso (“o pão nosso, de cada dia, dai-nos hoje”, cf. Mt 6,11; Lc 11,3) e no Sermão da Montanha:

“24Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza. 25Portanto, eis que vos digo: não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais do que o alimento e o corpo não é mais que as vestes? 26Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas? 27Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida? 28E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. 29Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. 30Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé? 31Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? 32São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. 33Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo. 34Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado” (Mt 6,24-34).

Na segunda tentação Jesus rejeita “forçar” o Pai a uma ação, mesmo se prometida pela Sagrada Escritura. Ele então se coloca numa absoluta dependência do Pai. O Pai continua livre para agir quando quiser e do modo que quiser e o Filho se coloca confiantemente dependente do Pai. A resposta de Jesus deve ser meditada por todos os que querem “forçar” Deus a conceder-lhes esta ou aquela graça.
Na terceira tentação, o demônio lhe oferece o poder político, o poder sobre o semelhante, a outra pessoa humana, e Jesus a rejeita. E associa essa atitude à adoração de Deus. Finalmente começa a afirmar que o Reino de Deus está próximo.
Um Rei é alguém revestido de poder. Jesus anuncia o Reino de Deus. Então anuncia que todo poder deve ser atribuído a Deus. As três tentações são tentações de poder. A primeira, poder sobre a natureza. A segunda, poder sobre o próprio Deus. E a terceira, poder sobre a pessoa humana e suas sociedades. Jesus rejeita as três. Rejeita o poder e anuncia que o poder é só de Deus, no seu caso, de Seu Pai. Essa atitude de despretensão em relação ao poder é fundamental para entender o agir de Jesus, e, portanto, do cristão. Podemos entender que “ser conduzido pelo Espírito” e realizar “a justiça completa” é renunciar ao poder, nas diversas manifestações da “vontade de poder” que há na alma humana, e atribuir todo poder somente a Deus, entregando-se confiante à Sua Providência. De fato, conforme a Sagrada Escritura (Gn 1-2), a pessoa humana é criada por Deus, como pode querer ter poder sobre o seu próprio Criador? Não continua totalmente dependente d’Ele, que criou “do nada” tudo o que existe, como o confirma a doutrina da Igreja ? Por isso, a pessoa humana não deve admitir que sua vida venha de sua própria ação ou inteligência. Se assim é, qual o valor do trabalho humano, ou do progresso das ciências desenvolvidas pela pessoa humana? Também o trabalho humano e a pesquisa científica não podem ser marcadas pelo pecado da pessoa querer “salvar-se sozinha” ou se tornar independente do Criador. Devem sempre ser encaradas como atividades em que as pessoas colocam seus talentos, dados por Deus, a serviço de todos, para o bem de todos. Não se pode fazer do trabalho ou da ciência um ídolo libertador do ser humano independente de Deus. Só se pode trabalhar e pesquisar a partir das capacidades dadas por Deus.
O Pai Eterno, na passagem do batismo de Jesus no Jordão, O declara seu Filho muito amado, n’O qual se compraz. A partir dessa declaração, busquemos mais manifestações de Jesus sobre suas relações com o Pai.

“Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto de vosso Pai que está no céu” (Mt 6,1).

Este tema, desenvolvido em Mt 6,2-6.16-18, diz para não fazer as coisas diante dos homens, mas diante do Pai. Devemos supor que Jesus agia assim, como ensinava. Nada fazia para se engrandecer diante dos homens, mas tudo fazia para agradar ao Pai. Em tudo, o seu diálogo era com o Pai. Nada valia para ele o julgamento dos homens, somente o do Pai. Isso é confirmado em muitas passagens, como estas:

“23Enquanto Jesus celebrava em Jerusalém a festa da Páscoa, muitos creram no seu nome, à vista dos milagres que fazia. 24Mas Jesus mesmo não se fiava neles, porque os conhecia a todos. 25Ele não necessitava que alguém desse testemunho de nenhum homem, pois ele bem sabia o que havia no homem” (Jo 2,23-25).

Jesus não se apoiava em homem algum, mesmo os que acreditavam n’Ele. Em nenhuma pessoa humana, nem mesmo na Virgem Maria. Não se fazia dependente da boa vontade de nenhuma pessoa. Já vimos que não tinha no alimento corporal ou na manutenção da vida corporal sua delícia. Agora vemos que nem nas pessoas humanas se apoiava. Jesus não se fazia dependente de nenhuma criatura humana, mas se fazia dependente somente e exclusivamente de Seu Pai Celestial. Jesus dizia aos judeus:

“44Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros, e não buscais a glória que é só de Deus?” (Jo 5,44).

Então, para realmente crer em Deus – adorá-lO – a pessoa não deve se apoiar em outra pessoa humana, em julgamentos ou afetos humanos, mas só em Deus. São Paulo, cheio do Espírito Santo, revelava a mesma liberdade de quem se apóia só em Deus:

“É, porventura, o favor dos homens que eu procuro, ou o de Deus? Por acaso tenho interesse em agradar aos homens? Se quisesse ainda agradar aos homens, não seria servo de Cristo” (Gl 1,10; cf. Ef 6,6; 1Ts 2,4).

“34Com efeito, aquele que Deus enviou fala a linguagem de Deus, porque ele concede o Espírito sem medidas. 35O Pai ama o Filho e confiou-Lhe todas as coisas” (Jo 3,34-35).

“27Todas as coisas me foram dadas por meu Pai; ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-lO” (Mt 11,27).

Por estas passagens se percebe que se Jesus rejeita buscar poder sobre a natureza, sobre o Pai ou sobre as pessoas, o Pai Lhe confia e entrega todas as coisas.

“18Jesus, aproximando-se, lhes disse: Todo o poder me foi dada no céu e na terra” (Mt 28,18).

O desejo de poder sobre as criaturas, ou sobre Deus, para dominar, por Ele, as criaturas, na verdade é uma escravidão e dependência das criaturas. O rico tem poder sobre as suas riquezas, mas não se sente independente delas. Acaba escravo do poder que tem. Jesus, ao não se apoiar em nenhuma criatura, é quem tem poder sobre todas. Essa libertação da dependência das criaturas é uma ação do Espírito Santo na alma da pessoa, que aí, pode falar de Deus, na linguagem de Deus, com autenticidade. Por isso, só Jesus conhece o Pai, pois só Ele O adora perfeitamente, em total independência das criaturas. Só para Jesus, e para quem Jesus O revelar – isto é, libertar da dependência das criaturas, pelo dom do Espírito – é que Deus é tratado como Deus mesmo, isto é, realiza-se a justiça, que é tratar Deus como Ele deve ser tratado na sua prerrogativa de Deus Infinito, Criador e Mantenedor Único de todas as criaturas.

O que dizemos já sobre a relação entre o Filho e o Pai, é confirmado se analisamos um grande trecho do capítulo 5 do Evangelho de São João.

“16… os judeus perseguiam Jesus, porque fazia esses milagres no dia de sábado. 17Mas ele lhes disse: Meu Pai continua agindo até agora, e eu ajo também. 18Por esta razão os judeus, com maior ardor, procuravam tirar-lhe a vida, porque não somente violava o repouso do sábado, mas afirmava ainda que Deus era seu Pai e se fazia igual a Deus. 19Jesus tomou a palavra e disse-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: o Filho de si mesmo não pode fazer coisa alguma; ele só faz o que vê fazer o Pai; e tudo o que o Pai faz, o faz também semelhantemente o Filho. 20Pois o Pai ama o Filho e mostra-lhe tudo o que faz; e maiores obras do que estas lhe mostrará, para que fiqueis admirados. 21Com efeito, como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, assim também o Filho dá vida a quem ele quer. 22Assim também o Pai não julga ninguém, mas entregou todo o julgamento ao Filho. 23Desse modo, todos honrarão o Filho, bem como honram o Pai. Aquele que não honra o Filho, não honra o Pai, que o enviou. 24Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não incorre na condenação, mas passou da morte para a vida. 25Em verdade, em verdade vos digo: vem a hora, e já está aí, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão. 26Pois como o Pai tem a vida em si mesmo, assim também deu ao Filho o ter a vida em si mesmo, 27e lhe conferiu o poder de julgar, porque é o Filho do Homem. 28Não vos maravilheis disso, porque vem a hora em que todos os que se acham nos sepulcros sairão deles ao som de sua voz: 29os que praticaram o bem irão para a ressurreição da vida, e aqueles que praticaram o mal ressuscitarão para serem condenados. 30De mim mesmo não posso fazer coisa alguma. Julgo como ouço; e o meu julgamento é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. 31Se eu der testemunho de mim mesmo, não é digno de fé o meu testemunho. 32Há outro que dá testemunho de mim, e sei que é digno de fé o testemunho que dá de mim. 33Vós enviastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade. 34Não invoco, porém, o testemunho de homem algum. Digo-vos essas coisas, a fim de que sejais salvos. 35João era uma lâmpada que arde e ilumina; vós, porém, só por uma hora quisestes alegrar-vos com a sua luz. 36Mas tenho maior testemunho do que o de João, porque as obras que meu Pai me deu para executar – essas mesmas obras que faço – testemunham a meu respeito que o Pai me enviou. 37E o Pai que me enviou, ele mesmo deu testemunho de mim. Vós nunca ouvistes a sua voz nem vistes a sua face… 38e não tendes a sua palavra permanente em vós, pois não credes naquele que ele enviou. 39Vós perscrutais as Escrituras, julgando encontrar nelas a vida eterna. Pois bem! São elas mesmas que dão testemunho de mim. 40E vós não quereis vir a mim para que tenhais a vida… 41Não espero a minha glória dos homens, 42mas sei que não tendes em vós o amor de Deus. 43Vim em nome de meu Pai, mas não me recebeis. Se vier outro em seu próprio nome, haveis de recebê-lo… 44Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros, e não buscais a glória que é só de Deus? 45Não julgueis que vos hei de acusar diante do Pai; há quem vos acusa: Moisés, no qual colocais a vossa esperança. 46Pois se crêsseis em Moisés, certamente creríeis em mim, porque ele escreveu a meu respeito. 47Mas, se não acreditais nos seus escritos, como acreditareis nas minhas palavras?” (Jo 5,16-47).

Aqui Jesus afirma a total dependência do Filho ao Pai (Jo 5,19.30) e a total doação do Pai ao Filho (Jo 5,20). Jo 5,21 significa, “assim como o Pai é fonte de vida e ressuscita o Filho Encarnado pela unidade do Espírito Santo que o une ao mesmo Filho, O qual ungiu com o Espírito Santo, assim concedeu ao Filho ungir as pessoas com o Espírito Santo e unindo-as a Si, ressuscitá-las”. Jo 5,22 significa, “o Pai não julga, pois o Filho faz a Sua vontade e não é julgado. Mas dando o Filho às pessoas, e Este se encarnando, entrando na unidade do gênero humano, (cf. Jo 5,27) e, tendo em sua carne, ungida pelo Espírito Santo, derrotado aquele que escraviza a pessoa humana (o diabo), se impõe um julgamento conforme os homens acolham ou não o Filho”. Como se percebe em outra pessagem joanina:

“17Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por ele. 18Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado; por que não crê no nome do Filho único de Deus. 19Ora, este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, pois as suas obras eram más. 20Porquanto todo aquele que faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. 21Mas aquele que pratica a verdade, vem para a luz. Torna-se assim claro que as suas obras são feitas em Deus” (Jo 3,17-21).

O versículo Jo 5,26 significa “que o Filho, tendo recebido a vida do Pai, também é fonte de vida e do Espírito Santo – tem a vida em si mesmo, significa ter a vida com o poder para dar a vida, transmiti-la, porque é óbvio que Deus é vivo e o Filho de Deus é vivo. Como o Filho afirma que depende do Pai, aqui só pode significar ‘a vida para transmitir’”. Os versículos Jo 5,31-34.41 mostram que o Filho não se apóia em si mesmo e nem em criatura alguma. Todo o seu ser é apoiado só no Pai (cf. Jo 5,36). Por isso ele pedirá a seus discípulos, sobre quem derramará seu Espírito Santo, a mesma atitude, uma renúncia total a todo apoio das criaturas, pessoas e coisas (cf. Jo 5,44; Mt 13,46; 16,24; Lc 14,33). E se as pessoas põem sua confiança nas criaturas não colocarão sua confiança nos homens através dos quais Deus fala, não reconhecerão os profetas que indicarão o verdadeiro culto a Deus (cf. Jo 5,45-47; Lc 16,31).
2.4. O agir de Jesus revela a Santíssima Trindade
Em continuação de nossa pesquisa sobre a relação entre o Filho e o Pai, meditemos todo o capítulo 14 do Evangelho de São João.

“1Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus, crede também em mim. 2Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou preparar-vos um lugar. 3Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais. 4E vós conheceis o caminho para ir aonde vou.
5Disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho? 6Jesus lhe respondeu: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por Mim. 7Se me conhecêsseis, também certamente conheceríeis meu Pai; desde agora já o conheceis, pois o tendes visto.
8Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta. 9Respondeu Jesus: Há tanto tempo que estou convosco e não me conheceste, Filipe! Aquele que me viu, viu também o Pai. Como, pois, dizes: Mostra-nos o Pai… 10Não credes que estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que vos digo não as digo de mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, é que realiza as suas próprias obras.
11Crede-me: estou no Pai, e o Pai em mim. Crede-o ao menos por causa destas obras.
12Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas, porque vou para junto do Pai. 13E tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, vo-lo farei, para que o Pai seja glorificado no Filho.
14Qualquer coisa que me pedirdes em meu nome, vo-lo farei. 15Se me amais, guardareis os meus mandamentos. 16E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco. 17É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece, mas vós o conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós. 18Não vos deixarei órfãos. Voltarei a vós.
19Ainda um pouco de tempo e o mundo já não me verá. Vós, porém, me tornareis a ver, porque eu vivo e vós vivereis. 20Naquele dia conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim e eu em vós. 21Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é que me ama. E aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e manifestar-me-ei a ele.
22. Pergunta-lhe Judas, não o Iscariotes: Senhor, por que razão hás de manifestar-te a nós e não ao mundo?
23Respondeu-lhe Jesus: Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada. 24Aquele que não me ama não guarda as minhas palavras. A palavra que tendes ouvido não é minha, mas sim do Pai que me enviou. 25Disse-vos estas coisas enquanto estou convosco. 26Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito.
27Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize! 28Ouvistes que eu vos disse: Vou e volto a vós. Se me amardes, certamente haveis de alegrar-vos, que vou para junto do Pai, porque o Pai é maior do que eu. 29E disse-vos agora estas coisas, antes que aconteçam, para que creiais quando acontecerem. 30Já não falarei muito convosco, porque vem o príncipe deste mundo; mas ele não tem nada em mim. 31O mundo, porém, deve saber que amo o Pai e procedo como o Pai me ordenou. Levantai-vos, vamo-nos daqui” (Jo 14,1-31).

Nos versículos 7, 9, 10, 11, 20 e 24 temos o que a Teologia trinitária chama de “pericorese”, a característica de uma Pessoa Divina “estar” em outra. Mas em outros versículos (6, 13, 16, 23, 24, 26, 28, 31) vemos claramente a distinção das Pessoas Divinas do Pai e do Filho e do Espírito Santo. O Pai está no Filho, quem vê o Filho vê o Pai, e o Filho está no Pai. Como pode uma Pessoa “estar” na outra? Essa resposta é fundamental para entendermos o agir de Jesus e o nosso. Vemos, nos versículos 20 e 23, preparados pelo versículo 12, que o crente também passa a participar da comunhão da “pericorese” das Pessoas Divinas, pela virtude do Espírito Santo, que, não só é o Espírito da Verdade, mas também é o Espírito da Unidade. As Pessoas Divinas “estão” no crente e este “está” no Filho.
Temos, aqui, a Revelação do que a Igreja depois chamou a Santíssima Trindade, com a unidade de Três Pessoas distintas. E podemos, sabendo que quem vê o Filho vê o Pai (Jo 14,9), conhecer o Pai pelo Filho. É o que buscaremos a seguir.
2.5. A Santíssima Trindade e a Natureza Humana
Para definir o reto agir da pessoa humana, é necessário conhecer a pessoa humana. Esta, segundo a Revelação, que é a fonte que nos interessa, é criada, no início, do ‘nada’, e à imagem e semelhança de Deus. Então devemos ir buscar no divino Modelo o nosso conhecimento da natureza humana.
Deus é infinito e não poderemos descrevê-lo plenamente em nossos raciocínios. Nem a eternidade toda esgotará a riqueza de Deus na contemplação dos Eleitos. Mas d’Ele, pela meditação sobre a Revelação, podemos ter uma idéia bem mais exata do que é comum as pessoas terem na vida prática e, por essa idéia, entender melhor a pessoa humana, criada à imagem de Deus. E entendendo melhor a pessoa humana, entender melhor o agir conveniente à sua verdadeira natureza, que ela deve apresentar.
A revelação mais surpreendente de Deus em Jesus Cristo não é nem mesmo a Ressurreição. Esta poderia ser imaginada pelos homens, sedentos de vida plena. Os judeus, antes de Jesus Cristo, já acreditavam nela (cf. 2Mc 7,9;12,44; Jo 11,24). A revelação mais surpreendente é a Santíssima Trindade. A revelação de que há um só Deus – até aí os judeus com seu Iahweh e os muçulmanos com o seu Alah também chegaram – mas que nesse Deus Único há Três Pessoas, e não apenas uma, como imaginam judeus e muçulmanos e muitos outros. Aí ninguém chegara antes. Só Jesus Cristo o revelou (cf. Jo 14,7-11.26; Mt 28,19).
A revelação da Santíssima Trindade deve estender-se à compreensão da pessoa humana, pois esta foi criada à imagem das pessoas divinas e para viver, como elas e com elas, uma vida de comunhão pessoal.
A revelação da Santíssima Trindade renova em nós o conceito de vida. O senso comum está acostumado a admitir que cada pessoa tenha a sua vida, separada da vida dos outros, pois quando um morre o outro continua vivo. A revelação da Santíssima Trindade mostra Três Pessoas vivendo uma só Vida, uma só Essência Divina nas Três. Então não devemos mais admitir que a vida de cada pessoa humana é própria e não tem a ver com a vida de outra pessoa humana. Os antigos Padres da Igreja não concebiam a criação da pessoa humana como de pessoas separadas, mas como a criação em conjunto de todo o gênero humano, como uma unidade, na qual Deus quer cada pessoa que dele participa com a sua personalidade própria. Ouçamos o que nos diz o grande teólogo francês Henri de Lubac: “A dignidade sobrenatural da pessoa batizada, sabemo-lo bem, repousa, mesmo superando-a infinitamente, sobre a dignidade natural do homem: agnosce, christiane, dignitatem tuam. Deus qui humanae substantiae dignitatem mirabiliter condidisti… Assim a unidade do Corpo Místico de Cristo, unidade sobrenatural, supõe uma primeira unidade natural, a unidade do gênero humano. Os Padres da Igreja também, que ao tratar da graça e da salvação tinham constantemente em vista este Corpo de Cristo, tinham igualmente o costume, quando tratavam da Criação, de não fazer menção apenas da formação dos indivíduos, primeiro homem e primeira mulher: amavam contemplar Deus no ato de criar a humanidade como um só todo. Deus, diz por exemplo, Santo Irineu, planta no início dos tempos a vinha do gênero humano; Ele predilige esse gênero humano, propõe-se derramar sobre ele o Espírito Santo e conferir-lhe a adoção filial (Adversus Haereses, passim. Cirilo de Alexandria, in Joannem 1.11,c.11 (P.G. 74, 761)). Ainda segundo o próprio Irineu, segundo Orígenes (In Genesis, Rom. 2,5; 9,3; 13,2 (Beahrens, p. 34, 92, 114)), segundo Gregório Nazianzeno e Gregório de Nissa, Cirilo de Alexandria, Máximo o Confessor, Hilário de Poitiers etc. a ovelha perdida do Evangelho, que o Bom Pastor conduz ao abrigo do ovil, não é senão a única natureza humana, cuja miséria comove a tal ponto o Verbo Divino que Ele abandona as imensas multidões dos anjos para correr em seu socorro. Esta natureza humana, os Padres a indicavam com toda uma série de expressões equivalentes, todas tendo uma significado concreto, mostrando, assim, que a seus olhos a natureza humana era uma realidade concreta (não uma abstração). Assistiam, em certa maneira, ao seu nascimento, viam-na viver, crescer, desenvolver-se como um ser único. No primeiro pecado viam cair este ser como um todo; era o gênero humano que era expulso do Paraíso e condenado a um duro exílio na esperança da própria redenção. E quando enfim Cristo veio como o único Esposo, a sua Esposa era ainda ‘toda a raça humana’” .
Em linguagem mais simples pode-se entender, sem erro, que se Deus é Santíssima Trindade, é Três Pessoas numa só essência divina, um só Ser, uma só Vida, e criou o homem à Sua Imagem e semelhança (cf. Gn 1,26-27), criou o homem também na unidade de vida (“uma só carne” cf. Gn 2,24). O pecado original é que faz-nos sentir como tendo cada pessoa uma vida separada, mas a Revelação nos ensina a Verdade: todos somos pessoas distintas, mas participamos de uma só vida. Por isso a queda de Adão e Eva é nossa e a vitória de Jesus Cristo, que assumiu a comunhão de vida com os homens é nossa também (cf. Rm 5,14-19). Essas duas realidades convivem em cada pessoa. Se assim entendermos, veremos facilmente que, submetidos ao pecado em Adão e Eva, era-nos absolutamente impossível viver a vida na Verdade de que Deus é que nos criou e nos mantém. O medo da morte e de suas manifestações (dor, sofrimento, humilhação, pobreza etc.) (cf. Hb 2,14-15) faz-nos sempre agir na sensação de que são nossas ações e providências que nos salvam e dão vida, e que a vida de uma pessoa é dela e não de outra. Era necessário que Jesus Cristo nos redimisse, isto é, morresse na Cruz em plena graça, sem nenhum gesto de auto-defesa, esperando a Vida só do Pai, e, sendo uma só Vida conosco (cf. Jo 15,1) nos fizesse participantes dessa sua redenção. A graça santificante é essa participação de toda a humanidade na vitória de Jesus Cristo sobre a morte. A Fé é o conhecimento voluntário dessa participação e o batismo, “que nos confere a graça santificante” é o Sacramento da Aceitação da Fé, da participação na Sua Morte sem auto-defesa. Vemos assim claramente o primado da Graça (a Encarnação, Paixão e Morte Redentora de Nosso Senhor Jesus Cristo que nos faz participantes dela = derrama o seu Espírito Santo sobre nós) e a nossa participação livre, que é aceitar a Verdade de depender, como criatura que somos, totalmente de Deus para viver e nunca colocar a nossa confiança em nossas próprias ações, inteligência, ciência, força etc. Assim, todas as pessoas humanas vivem uma participação em uma só vida. A Igreja, como um só Corpo, o Corpo de Cristo, é a restauração da humanidade, fragmentada pelo pecado, na unidade (cf. Ef 2,14-18).
2.6. Modo como se dá a unidade das Pessoas Divinas.
Como se dá essa unidade das Pessoas Divinas? Da mesma forma que se dá a unidade das Pessoas Divinas, dar-se-á a unidade das pessoas humanas, criadas à imagem d’Aquelas.
Jesus Cristo é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Encarnou-se, assumindo a natureza humana criada e mortal, mas mostra na sua relação com o Pai, a Primeira Pessoa, em sua vida humana o mesmo dinamismo do relacionamento eterno entre as Pessoas Divinas, e, assim, nos revela a Vida íntima de Deus. O Pai Se dá ao criar (cf. 1Jo 4,8.16; Mt ,17; 35,45; Lc 11,13; 17,5), ama e o Filho acolhe o dom do Pai incondicionalmente, sem reparos ou condições. Quando Se encarnou, o Filho aceitou a vida e a morte humanas, Ele, que era Pessoa Imortal, na sua condição divina (cf. Fl 2,5-11).

“21Desde então, Jesus começou a manifestar a seus discípulos que precisava ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; seria morto e ressuscitaria ao terceiro dia. 22Pedro então começou a interpelá-lo e protestar nestes termos: Que Deus não permita isto, Senhor! Isto não te acontecerá! 23Mas Jesus, voltando-se para ele, disse-lhe: Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um escândalo; teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!” (Mt 16,21-23).

Jesus não permite a intervenção natural de Simão Pedro que quer fazê-Lo, como as pessoas humanas, aceitar a vida dada por Deus, mas não a morte. Ao aceitar incondicionalmente o dom do Pai, o Filho coloca-se em total disponibilidade em relação ao Pai e isto é, precisamente, uma auto-doação. Acolher a condescendência do Pai é dar-se também a Ele. De forma que cada Pessoa tem a sua Vida, realmente na Outra. O Pai esvazia-Se de Si no Seu Amor pelo Filho, e vive no Filho e pelo Filho. O Filho acolhe o dom do Pai em plena disponibilidade e absoluta dependência, de modo que a Vida do Filho não está n’Ele, mas no Pai. Quando uma pessoa, no relacionamento com outra, a acolhe inteiramente, sem fazer nenhuma reserva, sem colocar um “não” a nenhum aspecto do ser e do querer da outra pessoa está se disponibilizando totalmente para essa pessoa. Isso Jesus revela em Sua Encarnação. O Pai envia então o Seu Filho, que assume a natureza humana, aceita a natureza humana com sua vida e sua morte, a convivência com o pecado dos seus semelhantes e todas as demais circunstâncias terrenas. Aceita a vida humana de forma incondicional, em total disponibilidade. Na Sua vida humana, o Filho de Deus Se dá às pessoas humanas de maneira semelhante àquela pela qual o Pai Se dá a Ele. E revela aí a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o Espírito Santo, o Espírito de unidade do Pai e do Filho. O Filho estabelece com as pessoas humanas a mesma relação que tem com o Pai, ou seja, o Espírito Santo. Assim a pessoa humana criada para participar da comunhão de vida das pessoas divinas realiza isto ao acolher plenamente o dom de Deus, como Jesus Cristo acolheu, isto é, seguindo-O, acolhendo a vida e a morte, e todas as circunstâncias da sua personalidade, todos os seus dons, sem compará-los nunca com os dons de outras pessoas. E acolhendo o próprio Jesus Cristo, vivendo d’Ele, que é a Palavra criadora que Se fez carne e que Se faz o Seu Alimento, na Santa Eucaristia. Tendo só n’Ele toda a esperança. Vivendo, por isso, numa plena dependência de Deus, sem nunca pensar ou sonhar em bastar-se a si mesma, ou depender de si mesma, mas vivendo tendo o Pai como seu Criador e Mantenedor a cada momento de sua vida.
2.7. A Natureza, com suas cadeias ecológicas, traz uma semelhança divina.
De todos os seres vivos na natureza, não há nenhum que não precise, para conservar a vida, alimentar-se de matérias provenientes de outros seres vivos. Essa alimentação pode ser o respirar ou o comer. Os vegetais verdes consomem, pela fotossíntese, o dióxido de carbono e produzem oxigênio. Os animais fazem a operação inversa, uns, portanto, alimentando os outros. Um animal cresce consumindo matérias de outros seres vivos, suas fezes e urina são fonte de alimentação para outros seres vivos e depois pode ser até devorado por um outro animal, formando assim as cadeias ecológicas alimentares. É preciso prestar atenção neste fato, de todo ser vivo ter sua fonte de vida biológica, permanentemente fora de si mesmo, sendo um ser vivo o alimento de outros. Não é difícil entender então que cada ser vivo, na natureza, é um organismo vivo próprio, mas a biosfera, como um todo, é também um ser vivo, formado por muitos seres vivos que compartilham uma só “vida”. Há uma unidade de vida e percebe-se quando se extingue um animal como seus predadores também morrem até que haja novas adaptações e se forme novas cadeias alimentares. Isso pode ser encarado como um “sacramento” (sinal visível da realidade invisível) do Deus Uno e Trino que criou essa natureza. Há uma só vida, mas vivida por Três Pessoas Distintas. A humanidade criada por Deus também é um conjunto de inúmeras pessoas, mas há uma unidade de vida, e cada pessoa deve fazer-se alimento para a outra, como acontece na sucessão das gerações humanas em que uma geração cuida da seguinte até que esta cresça e se dê pela que a segue. Jesus deu sua vida e afirmou que sua carne doada e seu sangue derramado eram verdadeiramente uma comida e uma bebida. Se cada pessoa se dá assim, no mesmo Espírito de Jesus, da morte voluntária por amor brotará a vida. Do egoísmo, em que cada pessoa, ao invés de dar-se em alimento no serviço ao próximo, se apossa do semelhante explorando-o brotará a morte, pelas revoltas, pelas guerras, pelo ódio.
3. Os Princípios Fundamentais da Vida Cristã
Podemos agora esquematizar todo o pensamento exposto em nossa reflexão sobre o Mistério Revelado em alguns Princípios, que nortearão toda a compreensão da vida e da moral cristãs.
3.1. A Graça, o primeiro princípio da vida e da moral cristã.
Quem é o Homem? Esta pergunta já encheu muitos grossos volumes. Para nós, fiéis ao nosso método, iremos buscar a resposta nas nossas fontes. A Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes indaga “Que é o homem?” ou “Que pensa a Igreja acerca do homem?” e busca uma resposta, do n.º 10 até o n.º 22. O n.º 22 abre-se com estas palavras:

“Na realidade, só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente o mistério do homem. Adão, o primeiro homem, era efetivamente figura daquele futuro (cf. Rm 5,14), isto é, de Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime”.

Nós iremos buscar, justamente nas figuras de Adão e de Cristo, a compreensão da natureza humana segundo a Revelação.
A Bíblia abre-se com o relato da Criação e a Igreja define claramente que esta criação é ex-nihilo, do nada, e absolutamente livre por parte de Deus. Deus não era obrigado a criar nada e criou por soberana e livre vontade.

“O eterno Pai, por decisão inteiramente livre e insondável da sua bondade e sabedoria, criou o universo, decretou elevar os homens à participação da sua vida divina…” .

Diz o Catecismo da Igreja Católica, trazendo doutrinas definidas no Concílio Vaticano I:

“Cremos que Deus não precisa de nada preexistente nem de nenhuma ajuda para criar. A criação também não é uma emanação necessária da substância divina. Deus cria livremente ‘do nada’” .

Como ser criado o ser humano não existe desde sempre. Criado por livre desígnio de bondade, e sendo a existência um bem, aparece o primeiro elemento da relação do homem com Deus: a GRAÇA. Conhecendo essa característica de sua origem, o homem deve “ação de graças” a Deus pela existência e deve ter em Deus a fonte e garantia de sua existência. Esta é a atitude básica da moral, que deverá pervadir todos os sentimentos e ações livres do homem. “Eu nada era e agora sou”. A Sagrada Escritura testemunha pela voz da mãe dos sete filhos martirizados sob Antíoco Epífanes:

“22Ignoro, dizia-lhes ela, como crescestes em meu seio, porque não fui eu quem vos deu nem a alma, nem a vida, e nem fui eu mesma quem ajuntou vossos membros. 23Mas o criador do mundo, que formou o homem na sua origem e deu existência a todas as coisas, vos restituirá, em sua misericórdia, tanto o espírito como a vida, se agora fizerdes pouco caso de vós mesmos por amor às suas leis. … 28Eu te suplico, meu filho, contempla o céu e a terra; reflete bem: tudo o que vês, Deus criou do nada, assim como todos os homens” (2Mc 7,22-23.28).

A atitude de ação de graças se estende também ao fato de que toda a criação está ordenada para o homem, para o bem do homem, ápice da obra da Criação, e única criatura na terra que Deus quis por si mesma .
Tudo que o homem tem, recebeu de graça.

“O que há de superior em ti? Que é que possuis que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se o não tivesses recebido?” (1Cor 4,7).

Tudo o que temos, a vida, os membros do corpo, os afetos e os bens, tudo é pura graça divina e a nada a pessoa tem direitos diante de Deus. Quando foram dizer a João Batista que Jesus fazia mais discípulos do que ele, a resposta de João foi de extrema sabedoria e conforme o princípio que estamos expondo, afastando João todo espírito de competição ou comparação:

“26Foram e disseram-lhe: Mestre, aquele que estava contigo além do Jordão, de quem tu deste testemunho, ei-lo que está batizando e todos vão ter com ele… 27João replicou: Ninguém pode atribuir-se a si mesmo senão o que lhe foi dado do céu. 28Vós mesmos me sois testemunhas de que disse: Eu não sou o Cristo, mas fui enviado diante dele. 29Aquele que tem a esposa é o esposo. O amigo do esposo, porém, que está presente e o ouve, regozija-se sobremodo com a voz do esposo. Nisso consiste a minha alegria, que agora se completa. 30Importa que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3,26-30).

Pela resposta de São João Batista, tudo de que a pessoa se apossa na sua ganância não chega a ser dela. Só é realmente nosso o que nos é dado pela graça de Deus. De certa forma todas as coisas são nossas, se não nos apegamos e não nos escravizamos a elas. O avarento não possui a riqueza. Não a recebe do Alto. Conquista-a com os meios deste mundo e não a coloca a serviço do corpo da humanidade. É a riqueza que o possui e o escraviza.
A vida segundo a Verdade é, portanto aquela em que o homem sabe que não tem em si próprio, nem em nenhuma criatura sob o seu poder ou fora dele, a garantia de sua vida e existência, mas só em Deus mesmo. E que depende a cada instante de Deus, que o mantém na vida e na existência. Aceita, pois a sua vida e todos os dons recebidos – aqueles que conhece e também os que ainda não tomou consciência de que recebeu – e também a falta de algum dom – como coisa querida por Deus, que é Amor. Submete-se assim inteiramente a Deus, tendo só n’Ele a fonte do seu ser. Nisto consiste também a adoração de Deus. Este é também, podemos dizer, o primeiro princípio da vida e da moral cristã.
3.2. A Unidade na Diversidade de Pessoas – o segundo princípio da vida e da moral cristã.
Como vimos ao meditar sobre a Santíssima Trindade, na interpretação dos Padres da Igreja, Deus não cria pessoas individualizadamente, mas as cria, distintas, irrepetíveis, numa unidade, a do gênero humano que Ele criou “para ser uma só carne” (cf. Gn 2,24). Esta semelhança do gênero humano com Santíssima Trindade, que é uma só Vida, uma só Essência divina em Três Pessoas distintas, não é suficientemente explicitada geralmente. Mas é essa unidade que dá base metafísica para muitos comportamentos morais aos quais a consciência da humanidade aspira e neles percebe o Bem. Hoje há um clamor por solidariedade, mas se imagina a solidariedade só no nível moral. “Eu me faço solidário com o meu semelhante porque eu quero”. Parece tratar-se de uma questão de boa vontade. Este segundo princípio revela que se há este clamor é porque não agir solidariamente faz mal ao gênero humano, porque a sua natureza própria é ser uma só vida da qual participam bilhões de pessoas. Há, antes da solidariedade moral, uma solidariedade metafísica, que faz parte da natureza da pessoa e do gênero humano. A solidariedade moral faz a pessoa agir segundo a natureza humana e é por isto que “faz bem” à humanidade o agir solidário.

“E o segundo, semelhante a este, é: Amarás teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18)” (Mt 22,39).

Este preceito básico da moral cristã ganha também um significado mais profundo quando o entendemos de acordo com o segundo princípio da moral cristã. Devo amar o próximo como a eu mesmo, não numa perspectiva subjuntiva, “como se fosse eu mesmo”, para não fazer a ele o que eu não gostaria que me fizessem (cf. Mt 7,12). Devo amar numa perspectiva indicativa, isto é, o meu bem está no bem do meu próximo, ele e eu somos pessoas distintas, mas que participamos de uma só vida.
Todos os dons que cada pessoa recebe, devem ser entendidos como dados para o gênero humano inteiro por meio dessa pessoa, como os órgãos do corpo humano ou de um animal tem função própria, mas são para benefício da totalidade do corpo (cf. 1Cor 12). Se Caim tivesse entendido isso, partilharia a bênção de seu irmão Abel, alegrar-se-ia com ele, e não teria inveja nem ódio dele, não o matando, mas unindo-se a ele (cf. Gn 4,3-8). Este pensamento reforça o caráter metafísico da solidariedade das pessoas humanas, segundo a Verdade.
Toda comparação de dons e condições entre as pessoas, segundo este princípio, não convém à vida cristã. Os dons de uma pessoa, na verdade, pertencem ao conjunto das pessoas. Se o meu irmão é muito agraciado por Deus, isso enriquece a minha vida e se meu irmão tem pouco talento, ou se fecha à graça de Deus isso me empobrece. Assim o bem ou o mal do meu semelhante é bem meu ou mal meu. Por outro lado, se tudo o que pertence a um por graça divina é para o bem de todos, Deus é livre de dar dons muito diferentemente a uns e a outros e nenhuma pessoa pode questionar Deus quanto a isso. Cada um só tem a agradecer as suas graças, e procurar que sejam úteis a todos, sem comparar com os dons de outros . A responsabilidade do que recebeu mais dons, diante de Deus é maior também. Do que recebeu menos é menor.

“48(…). Porque, a quem muito se deu, muito se exigirá. Quanto mais se confiar a alguém, dele mais se há de exigir” (Lc 12,48).

As pessoas querem ser umas maiores do que as outras. Por esse princípio, o mais capaz, o que recebeu mais talentos, devendo coloc-a-los a serviço de todos, torna-se o servo de todos:

“33Em seguida, voltaram para Cafarnaum. Quando já estava em casa, Jesus perguntou-lhes: De que faláveis pelo caminho? 34Mas eles calaram-se, porque pelo caminho haviam discutido entre si qual deles seria o maior. 35Sentando-se, chamou os Doze e disse-lhes: Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos” (Mc 9,33-35).

Neste sentido também é que São Paulo diz que os fortes devem carregar os fardos dos mais fracos.

“1Nós, que somos os fortes, devemos suportar as fraquezas dos que são fracos, e não agir a nosso modo” (Rm 15,1).

“19Embora livre de sujeição de qualquer pessoa, eu me fiz servo de todos para ganhar o maior número possível” (1Cor 9,19).

A mentalidade atual é individualista, não admite que todos sejam um só, coloca as pessoas em concorrência, umas contra as outras, em busca da “vitória” (cf. Mt 16,25-26). Nasce daí também a idéia de que a justiça é a igualdade. Não se aceita a liberdade de Deus de dar dons diferentes a pessoas diversas. Perde-se assim, por exemplo, a noção das legítimas diferenças entre o homem e a mulher. Tende-se a assimilar o homem e a mulher masculinizando a mulher e afeminando o homem, com prejuízo para todos, especialmente os filhos. Se os dons de cada um são para o bem do conjunto, não precisamos mais do falso senso de justiça que perde a visão das diferenças legítimas entre masculino e feminino. As particularidades da diferença de cada sexo humano enriquecem o conjunto: o homem e a mulher complementam-se maravilhosamente . O senso de igualdade acentuado da mentalidade moderna acaba sendo uma cegueira. O cego é o que não percebe as distinções das coisas.
A relação da pessoa com o conjunto da humanidade não se dá imediatamente, mas segundo grupos naturais, a família, o clã, a tribo, a cidade, a nação etc. Assim é moralmente impossível a pessoa se relacionar diretamente com a humanidade inteira. Mas ela participa de uma comunidade na unidade, as comunidades se relacionam entre si em comunidades de comunidades e assim até chegar ao concerto das nações, em que cada nação ou comunidade é uma espécie de “pessoa jurídica”, onde a lei da unidade permanece. Cada pessoa (pessoal ou jurídica) existe para ser para as outras pessoas.
A unidade do Corpo de Cristo, que invocamos na Santa Missa:

“E nós vos suplicamos que, participando do Corpo e Sangue de Cristo, sejamos reunidos pelo Espírito Santo num só Corpo” – Missal Romano, Oração Eucarística II),

é a restauração da unidade original do gênero humano fragmentado pelo pecado que fez a pessoa humana desconhecer sua própria natureza. A humanidade reencontra sua unidade no Corpo Místico de Cristo. Toda a vida e a moral cristãs devem ser entendidas de acordo com este segundo princípio da moral cristã.
3.3. A relação dialógica interpessoal da pessoa humana com Deus, que substitui a lei – terceiro princípio da vida e da moral cristã.
Quando se pensa em vida cristã, ou em moral cristã, surge, quase espontaneamente uma idéia de lei. As Pessoas Divinas, Deus mesmo, é rapidamente substituído por uma lei. A idéia de pecado surge simultaneamente com a idéia de Deus na mente da maioria das pessoas. Deus acaba sendo a grande dor de consciência da humanidade. Por isso desde o princípio do pecado, o homem se afastou, fugiu mesmo, de Deus (cf. Gn 3,8). A árvore da ciência do bem e do mal, que era o símbolo de que a criatura humana fora criada já dentro de uma ordem estabelecida por Deus, onde o bem era simplesmente ser criatura e se relacionar como criatura dependente e amada por Deus, transformara-se numa lei, pior, numa proibição, numa limitação da liberdade da pessoa humana. Surge imediatamente a tentação de não limitar a liberdade, pois, criada para a plena comunhão com Deus, que é Infinito, a vontade e a liberdade humanas não se submetem facilmente a limitações. O destino da criatura humana, que é a comunhão de vida com Deus Infinito, o único que pode dar-lhe vida plena e eterna, é substituído, em sua mente pecadora por uma liberdade infinita. Deus lhe parece uma lei limitadora de sua liberdade, quase um inimigo, do qual é preciso libertar-se. Essa tendência da mente pecadora da pessoa humana é uma das maiores responsáveis pela falta de amor a Deus no mundo. Diziam vários santos: “O Amor não é amado!”. Para que servirá a liberdade infinita? Poderá ela satisfazer a pessoa humana? Claro que não. É uma tendência forte da civilização atual ter a liberdade como um fim em si mesma, o mais ampla possível. Deus, nosso Fim último, é substituído pela liberdade, meio, não fim, meio de que Ele nos dotou para nos unirmos a Ele.
Conhecedor do coração humano, Deus, em sua pedagogia, antes de revelar-Se plenamente em Jesus Cristo, estabeleceu com o povo de Israel uma Aliança baseada na Lei. Mas, na prática, como se pode perceber desde Moisés e passando pelos profetas, Deus nunca quis substituir-Se pela Lei, procurando estabelecer sempre uma relação pessoal de amor com seu povo de Israel.
Foi o povo de Israel, principalmente no período pós-exílico, depois de Esdras, que centrando muito fortemente a Aliança na Lei, no intuito de evitar as corrupções que levaram a ocorrer o exílio babilônico, especialmente com o estabelecimento dos grupos fariseu e saduceu, que acabou, na prática, substituindo Deus pela Lei, pela Torá. Esta acabou se tornando uma estrutura de dominação e de poder, de fiscalização permanente do comportamento do povo, como se pode perceber facilmente na leitura dos Evangelhos. A Lei, de instrumento de Aliança com Deus, acabou transformada em instrumento do instinto pecaminoso de poder da pessoa humana, instrumento de opressão. Jesus Cristo, que veio para estabelecer uma nova e eterna Aliança, de amor pessoal entre Deus e a pessoa humana, não poderia deixar de entrar em conflito com os grupos responsáveis por essa desfiguração da Lei divina. Esse conflito foi uma das causas principais que levaram à condenação do Filho de Deus.
São Paulo dá este testemunho:

“1Irmãos, o desejo do meu coração e a súplica que dirijo a Deus por eles [os judeus] são para que se salvem. 2Pois lhes dou testemunho de que têm zelo por Deus, mas um zelo sem discernimento. 3Desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus. 4Porque Cristo é o fim da lei, para justificar todo aquele que crê” (Rm 10,1-4).

“Desconhecendo a justiça de Deus”, que é o que Jesus veio testemunhar e ensinar. Todo aquele que se colocar na dependência plena de Deus, renunciando ao poder e não tentando se salvar pelas sua próprias forças, mas atribuindo a Deus todo poder e se submetendo inteiramente à Sua vontade, será salvo pela ação amorosa divina, que vai levar tudo à plenitude. “Procuraram estabelecer sua própria justiça”: arrogando-se a autoridade divina, deram vazão ao orgulho humano sedento de poder e condenaram o Justo.
Deste modo é indispensável que não mais se substitua a Deus pela Sua Lei. Por mais santa que a Lei de Deus seja, a relação de Deus com a Sua criatura humana transcende a Lei. Deus não é escravo de Sua própria Lei, nem Se identifica com ela. A Lei é uma linguagem humana do desígnio divino. Todos os mandamentos são uma linguagem humana, uma estrutura da mente humana. Em Deus não há Lei, mas Ele é a Verdade.

“Pois a lei foi dada por Moisés, a Graça e a Verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1,17).

A Verdade é Deus, Uno e Trino, e a dependência absoluta das criaturas ao Criador, n’O qual “vivemos, nos movemos e somos” (cf. At 17,28). Deus que não é escravo de Sua Lei, instrumento humano de que Se serviu em sua pedagogia reveladora, pode salvar a quem quiser, inclusive ao pecador, que infringiu a Lei. É isto que está no cerne do Evangelho e provocava a revolta dos fariseus. Ao ver Jesus comer e conviver com corruptos e meretrizes, não O aceitavam como profeta de Deus (cf. Mt 9,11; Lc 7,39; Jo 7,52). E, no entanto, Jesus dizia:

“31(…) E Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo: os publicanos e as meretrizes vos precedem no Reino de Deus! 32João veio a vós no caminho da justiça e não crestes nele. Os publicanos, porém, e as prostitutas creram nele. E vós, vendo isto, nem fostes tocados de arrependimento para crerdes nele” (Mt 21,31-32).

O “crer” (que implica viver de acordo com o que se crê) na Verdade que descrevemos acima nos coloca numa relação mais autêntica com Deus do que o praticar as obras da Lei. Pela prática das obras da Lei a pessoa atribui a si mesmo, pelo seu “fazer” uma espécie de “direito” à salvação, o que a afasta da plena e completa dependência criatural que tem em relação a Deus. Deus fica menor do que a Lei, nesse caso. Deus, nesse caso, tem que obedecer à Lei. Teria que forçosamente salvar alguém porque essa pessoa cumpriu determinações da Lei. Deus, na Verdade, é Absoluto, maior que qualquer Lei. Podemos ver isso na parábola do fariseu – o que cumpria a Lei – e do publicano – corrupto, que não cumpria a Lei.

“10Subiram dois homens ao templo para orar. Um era fariseu; o outro, publicano. 11O fariseu, em pé, orava no seu interior desta forma: Graças te dou, ó Deus, que não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como o publicano que está ali. 12Jejuo duas vezes na semana e pago o dízimo de todos os meus lucros. 13O publicano, porém, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador! 14Digo-vos: este voltou para casa justificado, e não o outro. Pois todo o que se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado” (Lc 18,10-14).

São Paulo explica o endurecimento do povo eleito em relação ao Messias de Deus baseando-se na total liberdade de Deus de dar Sua graça a quem Ele quiser.

“14Que diremos, pois? Haverá injustiça em Deus? De modo algum! 15Porque ele disse a Moisés: Farei misericórdia a quem eu fizer misericórdia; terei compaixão de quem eu tiver compaixão (Ex 33,19). 16Dessa forma, a escolha não depende daquele que quer, nem daquele que corre, mas da misericórdia de Deus. 17Por isso, diz a Escritura ao faraó: Eis o motivo por que te suscitei, para mostrar em ti o meu poder e para que se anuncie o meu nome por toda a terra (Ex 9,16). 18Portanto, ele tem misericórdia de quem quer, e endurece a quem quer. 19Dir-me-ás talvez: Por que ele ainda se queixa? Quem pode resistir à sua vontade? 20Mas quem és tu, ó homem, para contestar a Deus? Porventura o vaso de barro diz ao oleiro: Por que me fizeste assim? 21Ou não tem o oleiro poder sobre o barro para fazer da mesma massa um vaso de uso nobre e outro de uso vulgar? 22(Onde, então, está a injustiça) em ter Deus, para mostrar a sua ira e manifestar o seu poder, suportado com muita paciência os objetos de ira preparados para a perdição, 23mostrando as riquezas da sua glória para com os objetos de misericórdia, que de antemão preparou para a glória? 24(Esses somos nós, que ele chamou não só dentre os judeus, mas também dentre os pagãos.) É o que ele diz em Oséias: 25Chamarei meu povo ao que não era meu povo, e amada a que não era amada” (Rm 9,14-25).

Estando claro, portanto, que Deus é Absoluto e maior que sua própria Lei, a realação entre a pessoa humana e Deus é um diálogo, não de palavras, mas de atos. Em todo o seu agir, mesmo nas ações aparentemente mais humildes e insignificantes, mesmo nos movimentos internos de sua sensibilidade, nos desejos de sua mente (cf. Mt 5,28; 6,2.5.16), a pessoa humana está dialogando com Deus. Em tudo isso há uma relação com Deus.

“21Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. 22Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não pregamos nós em vosso nome, e não foi em vosso nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres? 23E, no entanto, eu lhes direi: Nunca vos conheci. Retirai-vos de mim, operários maus! 24Aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática é semelhante a um homem prudente, que edificou sua casa sobre a rocha. 25Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela, porém, não caiu, porque estava edificada na rocha. 26Mas aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática é semelhante a um homem insensato, que construiu sua casa na areia. 27Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela caiu e grande foi a sua ruína” (Mt 7,21-27).

“19Mas brevemente irei ter convosco, se Deus quiser, e tomarei conhecimento não do que esses orgulhosos falam, mas do que são capazes. 20Porque o Reino de Deus não consiste em palavras, mas em atos ” (1Cor 4,19-20).

No sublime diálogo que nunca se interrompe entre a criatura humana e Deus, a criatura deve apenas ser o que ela é, criatura de Deus, nunca pretendendo ser mais que isso. Assim viverá a Verdade e a ação de Deus é que a salvará, pois Ele quer a salvação de todas as suas criaturas humanas. A consciência deste diálogo vivo, que inclui o arrependimento e a penitência e que transcende a Lei é o que apresentamos aqui como o terceiro princípio da vida e da moral cristã.
3.4. A Ordenação das Coisas em Função de Deus e das Pessoas – o quarto princípio da moral cristã

“21Portanto, ninguém ponha sua glória nos homens. Tudo é vosso: 22Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, o presente e o futuro. Tudo é vosso! 23Mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (1Cor 3,21-23).

Nestes versículos, em que São Paulo conclui sua resposta para a divisão da comunidade coríntia, em grupos de simpatia pessoal, está contido um princípio fundamental da vida e da moral cristã. O fim último, a “glória” da pessoa humana é Deus e só Ele. Todas as coisas que circundam uma pessoa, mesmo as outras pessoas (Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, o presente e o futuro) são para o bem da pessoa em questão. Mesmo as pessoas que não lhe fazem o bem, se a pessoa conserva sua orientação para Deus, a oposição dessas pessoas ressalta a opção por Deus, como Jesus Cristo foi glorificado no Pai com a intervenção de seus algozes. Todas as coisas são para a pessoa, mas a pessoa é para Deus só e não para outra pessoa.

“21Outra vez um dos seus discípulos lhe disse: Senhor, deixa-me ir primeiro enterrar meu pai. 22Jesus, porém, lhe respondeu: Segue-me e deixa que os mortos enterrem seus mortos” (Mt 8,21-22).

Neste caso, os pais são para o bem daquele que quer seguir Jesus, mas a presença do pai não deve ser impecilho na destinação do filho para Deus. As riquezas são para a pessoa, mas não as pessoas são para as riquezas:

“21Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe: Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me. 22Ele entristeceu-se com estas palavras e foi-se todo abatido, porque possuía muitos bens. 23E, olhando Jesus em derredor, disse a seus discípulos: Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os ricos!” (Mc 10,21-23).

Aqui o moço rico se escravizou às suas riquezas e por elas desviou a destinação de sua pessoa, que era para Deus. Por este princípio, todas as coisas estão em relação para o bem de cada pessoa considerada isoladamente, mas a pessoa mesma tem a sua destinação, a sua razão de ser, não em desfrutar as outras criaturas, mas somente em Deus, em entrar em comunhão eterna com o Pai, pelo Filho, na unidade do Espírito Santo. São Paulo invoca a liberdade da pessoa em relação às realidades desse mundo e sua destinação para Deus, relacionando-as com a brevidade da figura deste mundo:

“29Mas eis o que vos digo, irmãos: o tempo é breve. O que importa é que os que têm mulher vivam como se a não tivessem; 30os que choram, como se não chorassem; os que se alegram, como se não se alegrassem; os que compram, como se não possuíssem; 31os que usam deste mundo, como se dele não usassem. Porque a figura deste mundo passa” (1Cor 7,29-31).

Este princípio parece contradizer o princípio da unidade ao afirmar a destinação de cada pessoa, isoladamente, em Deus. Mas está em relação orgânica com aquele princípio. A pessoa recebe tudo de Deus pela unidade do corpo da humanidade, por participar dessa unidade. Deve também dar seus dons para o bem de toda a humanidade, segundo os grupos naturais, mas nesse receber e dar, participando da unidade da humanidade, reconhece que recebe de Deus, através de outras pessoas e dá às outras pessoas em nome de Deus, sendo instrumento da Providência divina em todos os seus dons. A relação social e visível é com as pessoas. A relação espiritual e invisível é com Deus, recebendo e se dando a Ele. Assim a relação com os outros é sacramento, sinal tangível, da relação invisível com Deus.
Este terceiro princípio está em relação com os outros dois princípios, porque destinando a pessoa para Deus afirma que a nenhuma criatura deve prender-se como seu gozo e razão de ser. Assim a pessoa, movida pelo mesmo Espírito de Jesus, é livre em relação a todas as coisas e, não se desviando “como seta de arco frouxo” (cf. Sl 77,57) de sua meta divina, dá a verdadeira destinação às demais criaturas. Isto é considerado essencial pela Constituição Pastoral Gaudium et Spes:

“Um duro combate contra os poderes das trevas atravessa, com efeito, toda a história humana; começou no princípio do mundo e, segundo a Palavra do Senhor (cf. Mt 24,13; 13,24-30.36-43), durará até ao último dia. Inserido nesta luta, o homem deve combater constantemente, se quer ser fiel ao bem; e só com grandes esforços e a ajuda da graça de Deus conseguirá realizar a sua própria unidade.
Por isso, a Igreja de Cristo, confiando no desígnio do Criador, ao mesmo tempo que reconhece que o progresso humano pode servir para a verdadeira felicidade dos homens, não pode deixar de repetir aquela palavra do Apóstolo: ‘não vos conformeis a este mundo’ (Rm 12,2), isto é, com aquele espírito de vaidade e malícia que transforma a atividade humana, destinada ao serviço de Deus e do homem, em instrumento de pecado.
E se alguém quiser saber de que maneira se pode superar essa situação miserável, os cristãos afirmam que todas as atividades humanas, constantemente ameaçadas pela soberba e amor próprio desordenado, devem ser purificadas e levadas à perfeição pela cruz e ressurreição de Cristo. Porque, remido por Cristo e tornado nova criatura no Espírito Santo, o homem pode e deve amar também as coisas criadas por Deus. Pois recebeu-as de Deus e considera-as e respeita-as como vindas das mãos do Senhor. Dando por elas graças ao Benfeitor e usando e aproveitando as criaturas, em pobreza e liberdade de espírito, é introduzido no verdadeiro senhorio do mundo, como quem nada tem e tudo possui (cf. 2Cor 6,10). ‘Todas as coisas são vossas; mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus’ (1Cor 3,22-23)” (GS 37).

Neste trecho se condensam os quatro princípios descritos acima.
3.5. A Teoria da Potenciação, como ilustração dos quatro princípios da vida e da moral cristã.
Toda a realidade matrimonial, familiar e sexual se assenta sobre a existência de duas realizações da espécie homo sapiens, que são o varão e a mulher.
Em cada ambiente cultural em que a pessoa humana vive ela só pode avaliar as realidades segundo os valores que preza. Assim a sociedade moderna, marcada pelo desenvolvimento tecnológico, pela economia de mercado, pela civilização de consumo e pela produtividade, se faz cega para as legítimas diferenças entre a mulher e o varão. Tem-se a tendência a considerar os dois gêneros da espécie homo sapiens como iguais para todas as atividades, diferenciando-se mecanicamente apenas quanto ao aparelho genital e alguns outros elementos físicos do corpo, que não condicionariam nem seriam sinais de outras diferenças mais profundas entre varão e mulher. As diferenças de atuação presentes na história humana são consideradas elementos culturais, devidas ao patriarcalismo, à dominação do varão sobre a mulher etc. Pouco se preocupa de ir mais além para compreender as raízes do próprio patriarcalismo, da cultura machista, da prevalência do varão sobre a mulher. Critica-se esta prevalência, sem examinar até que ponto é real, como preconceituosa e injusta, fruto da ignorância e da força bruta e nada mais. Os valores que ressaltam a riqueza da variedade “varão e mulher” na espécie humana não são valores expressivos na sociedade materialista de produção e consumo. Perde-se a riqueza da diferença para se ressaltar a igualdade. Há também um grande temor da diferença porque na sociedade de produção e concorrência a competitividade condiciona todos os pensamentos e os reduz a uma consideração linear de superiores e inferiores. Se dois seres são diferentes, necessariamente são considerados, na sociedade de produção, de concorrência e competição, um superior e outro inferior. Por se rejeitar como indigna a inferioridade de um ser humano em relação a outro, num igualitarismo estático acaba-se por rejeitar e não querer aceitar quaisquer diferenças, quaisquer desigualdades. A natureza, porém, não é linear, é pluridimensional. O diferente não impõe, necessariamente, o superior e o inferior. Cada ser é bom – tudo é bom – no seu lugar, na ordem metafísica estabelecida pela inteligência amorosa do Criador. A concorrência entre seres é uma categoria da mente humana em luta contra a morte, que pode ter influenciado toda a natureza. Sobre isso temos as teorias de Charles Darwin, em “A Origem das Espécies”, que interpreta toda a natureza viva como uma concorrência pela vida. Preferimos admitir, se assim é, que de algum modo, “toda a natureza espera ser libertada da escravidão da corrupção para participar da liberdade dos filhos de Deus” (cf. Rm 8,21). E que a interpretação de concorrência e competição entre os seres “mais capazes” não passa de um condicionamento da mente humana ao observar os fenômenos naturais das espécies vivas, fenômenos estes que admitem outra interpretação diferente desta de concorrência e da competição. A competição e concorrência entre os seres pela vida não é uma realidade natural criada. Deus não criou nada para a concorrência, para a competição, mas tudo criou na harmonia. Esta harmonia é um concerto em que toda criatura tem a ver com as outras e umas vivem pela existência das outras, umas vivem para fazer as outras viverem e para alcançarem todo o significado do seu ser, da sua razão de ser, por essa missão. Assim como Deus é comunhão de Pessoas que vivem umas para as outras e de tal forma que as Três vivem uma só Vida, chamou os seres à participação de seus atributos – o mais patente de todos é o próprio SER – não só isoladamente, mas sendo os seres uns para os outros. Assim os minerais são respirados, comidos, bebidos, e alimentam, e sustentam mecânica e plasticamente, e são de diversas maneiras, instrumentos, dos vegetais e dos animais. Ao participarem da vida dos animais e vegetais alcançam a razão do seu ser mineral. Os animais e vegetais “potenciam”, isto é, levam a ato as maiores potências do ser mineral, que é, de certa forma, participar da vida. Assim também desde os seres unicelulares até o homem, todos os seres vivem em profunda relação e a vida de cada ser se alimenta da vida de outros seres, que encontram nessa missão a sua razão de ser. E todo esse concerto encontra no homem, criado à imagem do Criador e chamado a participar de Sua Vida Divina a sua razão última e sua dignidade máxima: ser para Deus, participar da Vida das Pessoas Divinas, que também são para Deus, para as outras Pessoas e não para si mesmas.
Quando um gato mata e se alimenta de um rato, quando um leão caça e se alimenta de uma corça , a luta desesperada do bicho caçado nos dá uma imagem de crueldade e poder impiedoso, despertando em nossas mentes as imagens semelhantes de dominações e crueldades humanas. Vê-se aí um sofrimento do animal caçado que não participa disto de boa vontade, segundo o seu instinto. Isto gerou até a imagem paradisíaca de Isaias, do leão que comerá grama ao lado do cordeiro sem comer o cordeiro (cf. Is 11,6-8; e a grama? Continua a ser comida, o cordeiro não mais? A grama não sofre? Pode-se hoje constatar, com aparelhagem científica, sintomas de sofrimento nas plantas como aqueles dos animais que se percebe sem instrumentos…). A Revelação Divina no Evangelho, com a apresentação do Filho Encarnado de Deus como o “Pão Vivo que desceu do céu”, para a vida do mundo e a Santíssima Trindade, nos permitem perceber que os seres vivos têm uma certa unidade de ser e todos vivem por que são alimentos uns dos outros. A biosfera se apresenta assim, no seu conjunto como um só organismo mineral-vegetal-animal, uma só vida, constituída de muitas outras vidas particulares, que vivem umas para as outras, numa belíssima imagem da Trindade Santa e mais ainda do Corpo de Cristo participado por milhares de pessoas humanas vivendo em Cristo, pelo Espírito Santo. A biosfera é uma imagem da Eucaristia, do Corpo do Cristo Total. Assim na hierarquia de participação na perfeição divina, o mineral – que de divino só tem o ser e não a vida – tem a potencia de participar da vida dos vegetais e dos animais, potencia que se faz ato pela ação dos vegetais – que tem de divino o ser e a vida – e dos animais – que tem ainda de divino a animação e várias outras autodeterminações instintivas. Os animais potenciam os minerais e os vegetais. O gênero humano potencia todos os outros seres, que encontram sua dignidade máxima em ser para o homem sacramento da grandeza e da bondade de Deus. Além desse aspecto fisiológico, os seres, pela sua beleza, falam da bondade e sabedoria de Deus, alimentando a alma humana também (cf. Sl 8; 18). Assim os seres se dignificam ao participar biológica e psicologicamente do corpo humano e ao serem sustento de Deus para o corpo e a alma do homem.
3.6. A Transfiguração. Corolário da vivência da moral cristã
Toda a vida cristã na terra tem um significado que transcende as aparências visíveis. O Evangelho traz constantemente uma contradição entre a situação da pessoa aos olhos dos homens e a consideração divina sobre a mesma situação. Basta lermos as bem-aventuranças (cf. Mt 5,3-12; Lc 6,20-26), ou ouvirmos o Cântico de Maria (cf. Lc 1,46-55). Jesus declara que os últimos serão os primeiros (cf. Mt 19,30; 20,16; Mc 10,31; Lc 13,30) e quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado (cf. Mt 23,12; Lc 14,11; 18,14; 2Cor 11,7; Tg 4,10). Essa realidade “transfigura” o significado das situações humanas.
Os próprios relatos da ‘transfiguração de Jesus’ (cf. Mt 17,1-9; Mc 9,2-9; Lc 9, 28-36; 2Pd 1,16-18) podem ser considerados uma ‘transfiguração’ da agonia de Jesus no Getsemani. As semelhanças são muitas: os mesmos três discípulos, o sono dos discípulos, Jesus em oração e diante das Escrituras e de sua Paixão. A mesma cena, dolorosa do Getsemani, é uma cena de luz aos olhos do Pai, que pelo sofrimento glorifica o seu Filho. Como se fossem dois diferentes olhares da mesma realidade.
Ao afirmarmos isso, não queremos negar a realidade histórica da transfiguração. É tristemente comum, hoje, exegetas quererem negar a verdade histórica das passagens dos Evangelhos com base em seus próprios raciocínios. O Catecismo da Igreja Católica, 126, afirma, sem hesitação, a historicidade dos Evangelhos. A realidade da passagem da transfiguração é como uma revelação daquilo que estamos defendendo aqui.
As realidades da vida de Jesus são todas transfiguradas pela sua glorificação. O nascimento num curral inspira belos presépios de Natal, ao invés de nos enojar, como aconteceria pela simples consideração de uma mulher grávida ser obrigada a dar à luz seu filho num curral, como os animais. A cruz, de instrumento de crueldade e suplício, se ‘transfigurou’ em sinal de amor e esperança. Assim também os instrumentos dos suplícios dos mártires, como as pedras de Santo Estevão, as flechas de São Sebastião, adquirem um significado transfigurado. Sem tal significado, muitas expressões da arte sacra cristã, ao invés de expressão de beleza seria um espetáculo de exposição de sofrimentos, beirando o sadismo.
A submissão a Deus transfigura o significado negativo das experiências dolorosas. O cristão transfigura a situação de pecado em glória divina. Quando o cristão perdoa de coração, transfigura uma história de maldade e pecado em uma história de perdão e misericórdia, como a mãe que, tendo seu filho assassinado por outro jovem, ia visitar o assassino, no cárcere, como se fora a mãe dele, adotando-o, na prática como um novo filho.ho. Essa senhora transfigurou uma história de assassinato numa história de raro amor. As vidas dos santos são, frequentemente, histórias de transfiguração dos pecados em atos de amor. “Sobreveio a lei para que abundasse o pecado. Mas onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20). Isso o Filho de Deus realiza não somente em sua encarnação em Jesus Cristo, mas também nos membros do Seu Corpo. O cristão crê que a morte é caminho de vida e por ele Deus transfigura as trevas deste mundo em luz.
3.7. Resumo dos princípios da vida moral cristã
A vida cristã tem seus horizontes na vida de Deus, que é relação íntima das Três Pessoas da Santíssima Trindade. Deus é Amor e amor-doação-de-si, e amor-acolhimento-incondicional-da-doação. O cristão recebe de Deus, neste mundo uma vida mortal. Pelo medo da morte, a tendência da pessoa é buscar a conservação de si mesma, contra todo sinal de morte: doença, humilhação, perdas, solidão etc. Isso gera os movimentos da alma que no Evangelho são descritos como “desejos da carne”. Tais desejos levam à comparação e à concorrência com as outras pessoas, ao desejo de dominá-las ou, pelo menos controlá-las (sede de poder) e ao ódio. Levam a pessoa a colocar sua segurança no poder humano sobre as criaturas, pessoas e coisas. Numa palavra, levam à morte. Por mais que a pessoa tenha poder sobre as criaturas, só Deus criou tudo o que existe e só Deus pode dar a vida a qualquer ser. Nunca a vida brota de outra criatura em si mesma. Mas Deus quer dar vida a cada pessoa através da doação livre de outra pessoa. A pessoa que não se doa para se apoiar no seu poder sobre as criaturas não terá vitória sobre a morte, porque Deus, a Vida Subsistente, é amor-doação-de-si. Então vence-se a morte não tentando evitá~la através do poder sobre as criaturas, mas morrendo a cada dia na entrega de si, vivendo a mesma vida das Pessoas Divinas, que vivem se doando umas às outras e se acolhendo incondicionalmente. A pessoa que acolhe plenamente o dom de Deus (“de graça recebestes”) ao se dar gratuitamente (“de graça daí”) torna-se instrumento da graça divina e entra em comunhão com o próprio Deus, comunhão que é, por definição, a própria vida eterna. Então, podemos resumir toda a vida moral cristã com a sentença final do versículo Mt 10,8:

“8De graça recebestes, de graça dai” (Mt 10,8c).

E isto está de acordo com os ditos mais “radicais” de Jesus no Evangelho:

“Quem não está comigo está contra mim; e quem não ajunta comigo, espalha” (Mt 12,30). “Quem não está comigo, está contra mim; quem não recolhe comigo, espalha” (Lc 11,23).

Aqui Jesus declara vãos todos os esforços dos que não seguem a sua orientação de vida, o seu Espírito. “Espalha”, aqui, é o mesmo que “desperdiça, joga fora”.

“Em seguida, Jesus disse a seus discípulos: Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24).

Renunciar a si mesmo é deixar de buscar salvar-se por suas próprias forças e poder. É atribuir só a Deus todo o poder e se fazer dependente dele. A cruz é muitas vezes associada aos sofrimentos da vida. Mas é mais profundo considerar que a cruz é o conjunto de circunstâncias pessoais, sociais etc. que Deus permite a cada pessoa viver. Carregar a cruz cada dia corresponde ao primeiro princípio da moral cristã, isto é, a “viver em ação de graças” (cf. 1Ts 5,18), recebendo o dom da vida com alegria, pois a tristeza e a revolta significam uma não-aceitação do dom e algo como colocar condições diante de Deus. Isso corresponde exatamente ao que Santo Inácio de Loyola colocou como “Princípio e Fundamento” de seus famosos “Exercícios Espirituais”:

(1) PRINCÍPIO E FUNDAMENTO

(2) O ser humano é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor
e, mediante isto, salvar a sua alma.
(3) As outras coisas sobre a face da terra são criadas para o ser humano e
para o ajudarem a atingir o fim para o qual é criado.
(4) Daí se segue que ele deve usar das coisas
tanto quanto o ajudam para atingir o seu fim,
e deve privar-se delas tanto quanto o impedem.
(5) Por isso, é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas,
em tudo o que é permitido à nossa livre vontade e não lhe é proibido.
(6) De tal maneira que, de nossa parte, não queiramos
mais saúde que enfermidade,
riqueza que pobreza,
honra que desonra,
vida longa que vida breve,
e assim por diante em tudo o mais,
(7) desejando e escolhendo somente
aquilo que mais nos conduz ao fim para o qual somos criados.

A vida espiritual e moral cristã pode ser medida como com um termômetro. No extremo salutar está a ação de graças pela vida, independente de suas circunstâncias. No extremo “doente” estão os sentimentos de revolta e insatisfação em relação à vida, o dom de Deus.

“Aquele que tentar salvar a sua vida, perdê-la-á. Aquele que a perder, por minha causa, reencontrá-la-á” (Mt 10,39).
“Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á” (Mt 16,25).
“Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, salvá-la-á” (Mc 8,35).
“Porque, quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem sacrificar a sua vida por amor de mim, salvá-la-á” (Lc 9,24).
“Todo o que procurar salvar a sua vida, perdê-la-á; mas todo o que a perder, encontrá-la-á” (Lc 17,33).

Em três evangelhos sinóticos temos a mesma frase repetida cinco vezes, sinal de sua importância. É morrendo que se vive para a vida eterna. E morrer a cada dia é amar e servir. E nisso fazer unidade de vida com Deus e com o semelhante. Viver em Deus e no semelhante.
4. A criação da pessoa humana como imagem de Deus e realidade boa
Analisamos as razões do agir de Jesus. Cumpre mostrar agora, para ficar mais claro, que Jesus age como a pessoa no Paraiso – embora tenha vivido vida mortal neste mundo agressivo e pecador – na plena graça de Deus. E que a lógica de seu agir moral é o contrário da lógica da pessoa humana decaída em conseqüência do pecado original.
Segundo Gn 1-2, iluminado pela doutrina da Igreja, temos as verdades:

a) Deus criou tudo livremente, a partir “do nada”, por meio da Palavra (cf. Gn 1,3; Jo 1,3).
b) Deus criou a pessoa humana à sua imagem. A primeira semelhança destacada (cf. Gn 1,27) é que Deus a criou homem e mulher (diversidade de pessoas) para serem “uma só carne” (cf. Gn 2,23-24; unidade de vida).
c) A pessoa humana não foi tirada imediatamente “do nada”, mas criada a partir do pó da terra. A pessoa ‘adam’ vem do solo ‘adamah’. Tem, pois, um corpo material, mortal (cf. Gn 3,19), e para mantê-lo respira (cf. Gn 2,7) e se alimenta dos frutos e animais da terra (cf. Gn 1,28-30).
d) O homem e a mulher estavam nus e não se envergonhavam (cf. Gn 2,25).

A pessoa humana é criada à imagem de Deus, que cria livremente, podendo, se o quisesse, não criar. Isto fundamenta a certeza de que também a pessoa humana é dotada de liberdade para agir, apesar de muitos condicionamentos influenciarem o seu agir. Esses condicionamentos não destroem totalmente a liberdade humana. Os credos extremo-orientais não professam a existência de Deus Pessoal e O substituem por uma energia inicial da qual emana necessariamente a multiplicidade dos seres da natureza. Com tal concepção, onde nem a origem dos seres foi um ato livre, os orientais tendem a negar a liberdade e a explicar todos os acontecimentos de forma determinista e fatalista.
Ao criar “do nada”, expressão também da extrema liberdade de Deus, Deus não tem compromisso com nenhuma criatura, nem mesmo os anjos ou as pessoas humanas, todas devendo tudo a Ele e Ele nada devendo a nenhuma delas. Portanto Deus pode dar dons diferentes a distintas pessoas, não devendo submeter-se a nenhum critério humano de justiça. Deus não deve explicações às suas criaturas. Há religiões, como o espiritismo de Kardec e outros, que mostram sua origem humana ao tentar submeter o Criador a critérios de justiça humanos.
Ao criar a pessoa humana à Sua imagem e criar homem e mulher, embora ambos sejam criados na unidade, tendo uma igualdade de valor como criaturas de Deus. Deus os cria com diferenças fundamentais. O pensamento moderno, condicionado pelo igualitarismo iluminista rejeita diferenças entre pessoas humanas, mas Deus não se submete aos critérios ou aos pensamentos humanos. Sua Sabedoria é infinitamente superior a toda sabedoria humana.
Ao criar a pessoa humana à Sua imagem e, simultaneamente, corpórea e no mundo visível, Deus dá uma estrutura sacramental à Criação. As coisas visíveis serão sinais eficazes das realidades invisíveis. Assim, a pessoa transcende seu corpo, mas o corpo é o ‘sacramento’, o sinal visível da pessoa, através do qual ela se expressa e se comunica com as outras pessoas. Isto posto, a diferença mais universal que se pode observar entre homem e mulher, que independe de qualquer condicionamento cultural, é que fisicamente o homem fecunda a mulher pelo seu sêmen e a mulher concebe e dá à luz uma nova pessoa humana. Admitindo que o corpo seja ‘sacramento’, expressão visível da pessoa, esse elemento corporal mostra a característica diferenciada da pessoa do homem e da mulher. Assim, o masculino tem um caráter próprio de fecundar. O feminino em um caráter próprio de ser fecundado.
Se examinarmos a característica masculina ou feminina do gênero humano, tomado como um todo, verificaremos que, diante de Deus, o gênero humano tem uma característica feminina. De fato, Deus fecunda, com seus dons, dos quais o maior é o Seu próprio Espírito Santo, a pessoa humana e esta produz frutos agradáveis a Deus. Por isto, na Sagrada Escritura, o povo de Israel é figurado como a esposa de Iahweh e a Igreja como a Esposa de Cristo.
Em confronto com a natureza, o gênero humano apresenta uma característica masculina, pois fecundada com seu espírito, a natureza produz frutos de poder e beleza que não se manifestariam sem a pessoa humana, como são as obras da arte e da tecnologia humanas.
Se o gênero humano é masculino em relação à terra e feminino em relação a Deus, e a masculinidade ou feminilidade do corpo humano são da pessoa inteira, sendo o corpo ‘sacramento’ da pessoa, então a mulher, imagem da terra, desejosa de ser fecundada, é mais voltada para Deus, mais espiritual, e o homem, imagem de Deus, desejoso de fecundar é mais voltado para a terra, mais materialista e prático, menos espiritual do que a mulher.
Além disso, na diferenciação antropológica entre homem e mulher há uma semelhança divina. O Pai, no Mistério da Santíssima Trindade, Se dá, e gera eternamente o Filho, consubstancial ao Pai, transmitindo-lhe a vida divina, fecundando-o divinamente, de certa forma. Algo como o Pai sendo um princípio masculino e o Filho, a Palavra, um princípio feminino. O Filho, ao Se encarnar, é ungido pelo sêmen divino, o Espírito Santo, e dá os frutos da redenção. Em relação ao Pai, o Filho recebe o Espírito de Vida – o Sêmen que fecunda – e apresenta, por isso um caráter feminino. Em relação ao gênero humano, o Filho derrama o Espírito e é o Esposo. Apresenta caráter masculino. Assim como a Palavra Eterna apresenta aspectos de feminilidade – ser fecundado – e de masculinidade – fecundar, conforme sua relação seja considerada em relação ao Pai ou à humanidade, a pessoa humana apresenta os mesmos aspectos, em relação a Deus ou à terra. No conceito terra, aqui, se inclui também as outras pessoas humanas. A diversidade, homem e mulher, da pessoa humana é um dos mais belos sinais da semelhança divina na natureza humana.
A nudez original (Gn 2,25) se compreende mais facilmente a partir do pecado original, em que a pessoa humana se envergonha de sua nudez e busca vestir-se.
5. A queda original como origem da escravidão das pessoas humanas e a libertação na Páscoa de Jesus Cristo
5.1. A alienação da pessoa humana
Em Gn 3 se narra a queda original da pessoa humana de sua condição criada boa. O anjo maligno – que Jesus, no Evangelho de São João, chama de “príncipe deste mundo” – é representado pela serpente, talvez pelo aspecto traiçoeiro de suas picadas e pela forma de seu corpo (cf. Gn 3,14). A Sagrada Escritura ao atribuir o pecado original da pessoa humana à sugestão de outro ser mostra o caráter relacional da pessoa humana. Sua vida é sua relação de dependência absoluta a Deus, mas ela tem a capacidade de substituir essa relação autêntica por uma relação inautêntica – mentirosa (cf. Jo 8,44) – com outro ser, que não lhe pode dar vida. Toda ação da pessoa humana configura uma relação pessoal seja com Deus, seja com as criaturas. Mesmo quando quer se isolar a pessoa humana está se relacionando e não pode deixar de se relacionar. Por isso é “pessoa”, semelhança das hipóstases divinas, que são intensamente relação, e relação tal que constituem na sua distinção, uma unidade de vida.
O maligno rompe a relação da pessoa humana com seu Criador minando sua confiança n’Ele, sugerindo que Deus mente e tem ciúme da pessoa humana, que não quer verdadeiramente o bem da pessoa humana. Esta sugestão se instalará na alma da pessoa humana e será a razão da sua desgraça. Escreve o famoso diretor de consciências Henri Nouwen:

“Quando João estava batizando as pessoas no rio Jordão, Jesus também foi para ser batizado. ‘E estando em oração, abriu-se o Céu, e desceu sobre ele o Espírito Santo em forma corpórea como uma pomba; e ouviu-se do Céu esta voz: Tu és o meu Filho amado; em Ti pus as minhas complacências» (Lc 3,21-22).
Como cristão, tenho a firme convicção de que o momento decisivo da vida pública de Jesus foi o seu batismo, quando ouviu a afirmação divina «Tu és o meu Filho amado; em Ti pus as minhas complacências». Nessa experiência essencial, Jesus é lembrado sobre quem realmente é de forma muito, muito profunda. (…) As palavras de Deus «Você é o meu amado» revelam a mais íntima verdade sobre todos os seres humanos, pertençam eles ou não a qualquer tradição em particular. A extrema tentação espiritual é duvidar dessa verdade fundamental sobre nós mesmos e crer em identidades alternativas” .

O texto do Gênesis fala da “árvore que está no centro do jardim”, que é a “árvore da ciência do bem e do mal”. Deus proibiu a pessoa humana de comer do fruto dessa árvore sob pena de morte. O fato de estar no “centro” pode significar que a posição em relação a essa árvore define a situação da pessoa humana. Essa árvore é um ponto de orientação que define a posição da pessoa. A posição da pessoa em relação à árvore da ciência do bem e do mal define a relação da pessoa com Deus. O bem é a ordem estabelecida pela própria Criação. Deus é o único Criador e Mantenedor de tudo o que criou. As coisas são criadas, não como as imaginou o grego que engendrou o Demiurgo, um organizador das coisas que transforma o caos, dá ordem às coisas e depois as abandona como se elas pudessem continuar a existir por seu próprio poder. Não! As coisas são criadas a partir do nada e tudo é feito em virtude do Filho (cf. Cl 1,16-17), e, como o Filho é gerado eternamente do Pai (cf. Credo Niceno-Constantinopolitano), as coisas permanecem no tempo pela ação mantenedora de Deus. Jesus até corrige a concepção hebraica do repouso de Deus após a Criação, que sustentava a instituição do “shabbat” (cf. Gn 2,1-3; Ex 20, 8-11) e afirma que seu Pai, o Deus dos hebreus (cf. Jo 8,54) “trabalha sempre” (cf. Jo 5,17). Tudo o que existe depende continuamente da ação mantenedora divina. “Nele vivemos, nos movemos e somos” (cf. At 17,28; 1Cor 8,6; Prefácio dos Domingos do Tempo Comum VI).
Comer da árvore da ciência do bem e do mal é, pois, adquirir poder sobre o bem e sobre o mal. O saber, a ciência, é, tradicionalmente, fonte de poder. Já o afirmava a mitologia grega, com o mito de Prometeu, por exemplo, entre outras mitologias, e a busca atual de pesquisa científica não tem outro motivo maior do que alcançar mais poder. Como o bem verdadeiro é um só, a ordem da Criação, a Verdade, outro bem qualquer, escolhido pela pessoa humana é uma mentira e viver segundo a mentira é uma alienação para a pessoa humana, é desconhecer a si mesma e a seu Criador e Mantenedor. É perder a própria identidade. E desligar-se da única fonte de manutenção da sua vida, que é o seu Criador. Nouwen continua:
“Às vezes respondemos à pergunta ‘quem sou eu?’ com ‘sou o que faço’. (…) Ou podemos dizer ‘Eu sou o que os outros dizem ao meu respeito’ (…) Você também pode dizer ‘Sou o que tenho’. (…) Quanto de nossa energia é empregada na definição de nós mesmos através da decisão de ‘ser o que faço’, ‘ser o que os outros dizem ao meu respeito’ ou ‘ser o que tenho’? Quando é o caso, a vida costuma seguir um movimento repetitivo de altos e baixos. Quando falam bem de mim, quando faço coisas boas e quando tenho muito, fico para cima e feliz. Mas quando começo a perder, quando, de repente, descubro não poder mais cumprir alguma tarefa, quando fico sabendo que os outros falam mal de mim, quando perco meus amigos, então resvalo para o buraco. O que quero dizer a Você é que essa postura em ziguezague é um equívoco. Eu não sou aquilo que faço, nem você é aquilo que faz ou aquilo que os outros dizem sobre Você, nem aquilo que possui. «Você é o amado de Deus!» (…) Certamente não é fácil ouvir essa voz em um mundo cheio de vozes que gritam ‘Você não é bom; você é feio; você é imprestável; você é desprezível; você não é ninguém, a não ser que demonstre o contrário’”.

O pecado original, fonte da alienação da pessoa humana, é, portanto, um ato de poder. A pessoa ao desejar adquirir poder sobre o bem e o mal, faz uma usurpação e passa a viver uma mentira. É criatura dependente, mas toma posse de si mesma, como se não tivesse sido criada livremente por um Outro e tivesse dado origem a si mesma. Não atribui mais todo o poder a Deus, mas vive como se tivesse poder em si mesma, como se dependesse só de suas forças e inteligência para viver. Passa a viver em um supremo orgulho e grande prepotência.
Como, na verdade, a criatura humana não se basta a si mesma – a sugestão maligna convidava a querer ser como Deus, que é o único Ser que se basta a si mesmo – a criatura humana vai buscar a sua subsistência no poder sobre as outras criaturas. Isso cria um permanente estado de luta por poder na alma da pessoa humana. Um permanente estado de defesa pessoal, um conflito permanente. A primeira reação da pessoa humana após o pecado original é cobrir-se com folhas de figueira, fazer para si uma vestimenta rudimentar. Ora, a pessoa humana vivia nua antes. Isto significa um estado de transparência pessoal. Nada tinha a esconder nem defender, pois Deus era sua garantia. Ao cobrir-se, a pessoa humana sinaliza que perdeu sua transparência, passa a ser opaca, desconhecida, em seu interior por si mesma e pelas outras pessoas, e a necessidade de cobrir-se denuncia sua permanente atitude de autodefesa, a perda da percepção da vida recebida totalmente de um Outro – vida em estado de Graça – e o medo permanente de ver a sua própria realidade, de encarar a sua alienação. Por isso, a segunda atitude da pessoa humana após o pecado original é fugir de Deus. A pessoa humana resiste a voltar à verdade do seu ser. Tornou-se escrava de sua alienação, escrava daquele que sugeriu seu pecado, do demônio, e do seu próprio pecado (cf. Jo 8,34). Não poderá libertar-se por si mesma, se não receber um Redentor que a liberte.
As condenações do pecado original em Gn 14.16-24 não devem ser vistas como ações destrutivas de Deus em relação à obra da Criação como que para castigar a pessoa humana que criara. Devem ser interpretadas como descrição da nova situação da pessoa humana após o pecado, descrição das conseqüências do pecado, que por si mesmo já condena a pessoa humana. A idéia de um deus castigador, que destrói o que criou para prejudicar ainda mais a pessoa humana que pecou é antropomórfica – a pessoa humana quando exerce o poder, age contra aquela que vai contra o seu poder – e não resiste ao exame do Deus que Jesus revela em seu Evangelho.
A pessoa humana é corpórea, ainda que a sua pessoa transcenda o seu corpo, pelo seu elemento espiritual. Com a perda da percepção da graça de Deus que a sustenta, a pessoa sente-se dependente só de si mesma, e na sua impotência começa a temer a morte. Como a morte é a destruição do seu corpo – não da sua pessoa – aparece uma fratura interna na pessoa humana. O corpo luta para viver e faz a vontade da pessoa reagir de forma conflituosa com o seu elemento espiritual, munido de razão. Aparece o conflito entre o espírito e a carne, grave divisão interna da pessoa humana, que inutiliza muito do que a sua razão ainda conserva da percepção da verdade. Este é um dos temas centrais da vida moral e espiritual cristã. Não basta que a razão seja iluminada pela verdade, se a pessoa não for libertada do medo da morte, da dor, do sofrimento, da solidão, da ingratidão, da injustiça e de todas as manifestações morais e físicas da morte. E só o acolhimento do Espírito de Deus liberta a pessoa desses medos.

“14Porquanto os filhos participam da mesma natureza, da mesma carne e do sangue, também ele participou, a fim de destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio, 15e libertar aqueles que, pelo medo da morte, estavam toda a vida sujeitos a uma verdadeira escravidão” (Hb 2,14-15).

“12Por conseguinte, a lei é santa e o mandamento é santo, e justo, e bom… 13Então o que é bom tornou-se causa de morte para mim? De certo que não. Foi o pecado que, para se mostrar realmente pecado, acarretou para mim a morte por meio do que é bom, a fim de que, pelo mandamento, o pecado se fizesse excessivamente pecaminoso. 14Sabemos, de fato, que a lei é espiritual, mas eu sou carnal, vendido ao pecado. 15Não entendo, absolutamente, o que faço, pois não faço o que quero; faço o que aborreço. 16E, se faço o que não quero, reconheço que a lei é boa. 17Mas, então, não sou eu que o faço, mas o pecado que em mim habita. 18Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita o bem, porque o querer o bem está em mim, mas não sou capaz de efetuá-lo. 19Não faço o bem que quereria, mas o mal que não quero. 20Ora, se faço o que não quero, já não sou eu que faço, mas sim o pecado que em mim habita. 21Encontro, pois, em mim esta lei: quando quero fazer o bem, o que se me depara é o mal. 22Deleito-me na lei de Deus, no íntimo do meu ser. 23Sinto, porém, nos meus membros outra lei, que luta contra a lei do meu espírito e me prende à lei do pecado, que está nos meus membros. 24Homem infeliz que sou! Quem me livrará deste corpo que me acarreta a morte?…
25Graças sejam dadas a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor! 26Assim, pois, de um lado, pelo meu espírito, sou submisso à lei de Deus; de outro lado, por minha carne, sou escravo da lei do pecado” (Rm 7,12-26) .

“5Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus. 6O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito. 7Não te maravilhes de que eu te tenha dito: Necessário vos é nascer de novo. 8O vento sopra onde quer; ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito” (Jo 3,5-8).

“63O espírito é que vivifica, a carne de nada serve. As palavras que vos tenho dito são espírito e vida” (Jo 6,63).

Com a luta contra a morte aparece na pessoa humana a busca de segurança. Essa segurança que não preocupava a pessoa antes da queda original, pois ela descansava plenamente em sua fonte, que é Deus, ela vai buscar no poder sobre as criaturas, poder que o próprio Deus lhe deu (cf. Gn 1,28). A diferença é que antes a pessoa era chamada a ser senhora das criaturas como sinal visível, sacramento, de Deus, e agora ela busca um poder próprio sobre elas e não um poder sacramental e delegado. Usará as suas capacidades divinas, a razão e a vontade, para ter um poder próprio sobre as criaturas, esperando nelas uma segurança, mas nenhum poder fora de Deus lhe poderá garantir a vida plena nem uma vida que permaneça sempre. Isto também é um sinal da alienação dos homens: crer que podem alcançar vida e glória plenas por meio do poder sobre as criaturas.
5.2. Análise das condenações do pecado original – descrição da situação da humanidade
Analisemos então as condenações como se encontram em Gn 3,14.16-24.
Em Gn 3,14 há a condenação da serpente. Obviamente não pode ser a condenação do animal irracional, nem do diabo, criatura espiritual, mas referindo à forma do corpo desse animal descreve a situação da pessoa humana escrava do pecado original. Arrasta-se sobre o seu ventre, ou seja, será condicionado pelas necessidades corporais, em particular a alimentação. Como já vimos, a resposta de Jesus à primeira tentação no deserto foi uma rejeição dessa escravidão: “Não só de pão vive o homem” (cf. Dt 8,3; Mt 4,4; Lc 4,4). E come pó todos os dias, isto é, seus meios são pó, são ineficazes para a realização de seus desejos e reais necessidades.
Em Gn 3,16 há a previsão das dores do parto. Ao invés de acreditar que Deus inventou as dores do parto natural nesse momento para castigar ainda mais a pessoa já castigada pelas conseqüências de seu pecado, preferimos ver na mulher, aqui, todo gênero humano, que, já vimos tem uma característica feminina nas suas relações com Deus, que agora só com muitas dores poderá gerar vida, dar frutos de vida que agradem a Deus. Por essa razão o Salvador, que veio “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (cf. Jo 10,10) será “o homem das dores” (cf. Is 53,3; Mt 8,17; Lc 24,26; Gl 4,19; Hb 2,10; Ap 12,2). Há também a previsão de que a mulher terá desejos de unir-se ao homem e isso servirá para o homem dominá-la. Aqui está a denúncia de que com a perda da percepção da graça de Deus a criatura humana sofrerá carências em relação às criaturas e que essas carências serão ocasiões de dominação por parte daqueles que puderem oferecer lenitivo a essas carências. As carências podem ser sexuais, como parece aludir essa passagem, mas podem ser de muitas outras naturezas. O mundo moderno, por exemplo, cria uma série de carências dos produtos industriais que inventa e torna as pessoas escravas do consumismo. Uma das ações do Espírito Santo nas pessoas redimidas será exatamente libertá-las de suas carências para torná-las livres.
Em Gn 3,17-18, não devemos crer que Deus tenha retirado propositalmente a fertilidade do solo para punir sua criatura humana, mas que, dada a insegurança da pessoa humana que nunca estará tranqüila por causa de sua morte, sempre os bens que tira da terra parecerão finitos e insuficientes a ela que foi criada para ser saciada apenas com o Infinito, com Deus. Em Gn 3,19 temos um resumo das condenações e a declaração de inutilidade das ações da pessoa humana sem a graça de Deus. A sua vida se tornará uma luta inglória para viver no corpo, segundo a carne, mas a morte corporal prevalecerá (cf. Jo 15,5c; Mt 12,30; Lc 11,23). É preciso ressaltar esse caráter de luta que caracteriza a vida da pessoa decaída, que se contrapõe à paz da pessoa redimida por Jesus Cristo. A vida na graça de Deus pode ser uma vida de trabalhos, mas não será de luta movida por nenhuma necessidade, nenhum medo, nenhum pavor. A obra dos redimidos é, antes de ser uma ação deles, uma ação de Deus. Daqui que, mesmo convidando à cruz libertadora (cf. Mt 10,38; 16,24; Mc 8,34; Lc 9,23; 14,27), Jesus anuncia que o fardo de quem O segue é mais leve (cf. Mt 11,28) do que a luta dos que querem ganhar a vida neste mundo.
Gn 3,21, afirmando que Deus vestiu as pessoas humanas, Ele que as tinha criado nuas, na transparência da graça de Deus, quer significar que Deus reconhece uma nova economia da criatura humana decaída. Essa nova economia é o reino de César, que Jesus reconhecerá (Mt 22,21; Mc 12,17; Lc 20,25; Jo 19,10-11; Rm 13,1-7; 1Tm 2,1-3; Tt 3,1; 1Pd 2,13), mas que prevalece legitimamente apenas sob o Reino de Deus, e apenas nos limites deste mundo mortal. Com o reino de César surge uma “justiça deste mundo”, legítima nos limites deste mundo mortal, e que nunca deve ser confundida com a justiça do Reino dos Céus, de natureza muito diferente. Quando o Novo Testamento, especialmente os Evangelhos se referem à justiça, é sempre a justiça do Reino dos Céus, e não a justiça do reino de César.
Gn 3,22-24 afirma, em linguagem simbólica, que a pessoa humana não terá nunca capacidade de viver eternamente por seus próprios esforços, mas somente com a graça de Deus que lhe dará o Redentor, Jesus Cristo, e o Santificador, o Espírito.
A história das condenações da pessoa humana continua nos capítulos subseqüentes do Livro do Gênesis, até o capítulo 11. Comentemos os aspectos mais salientes.
Em Gn 4 temos a famosa história de Caim e Abel, com o primeiro homicídio, um fratricídio. Deus dá um dom a Abel – a preferência de Deus pelos menores, pelos mais fracos, percorrerá toda a tradição bíblica – e não o dá igual a Caim. Hb 11,4; 1Jo 3,12 e Jd 1,11 colocam no mérito humano a causa dessa diferença de tratamento que Deus estabelece entre Caim e Abel. Mas referem-se a um fato que ocorreu depois da ação divina, o assassinato de Abel. Numa perspectiva evangélica, em que Deus é livre de distribuir seus dons como quiser (cf. Mt 20,15; 25,15) não julgamos Caim por antecipação, apenas Deus quis dar dons diferentes a Caim e a Abel. A pessoa de Caim e tudo o que ele tinha era graça de Deus. Ao abençoar Abel, Deus nada retirara de tudo o que tinha dado a Caim. Caim, porém, sob o efeito do pecado original está em permanente luta para prevalecer e é-lhe insuportável a comparação com seu irmão, abençoado por Deus. Na sua insegurança, provocada pela comparação, não resiste à tentação, mesmo advertido por Deus (cf. Gn 4,6-7) e mata seu irmão Abel. Na parábola dos trabalhadores da vinha (Mt 20,1-16) é também a comparação que provoca a revolta dos primeiros trabalhadores contra o dono da vinha. Na justiça de César, na economia do homem decaído, temos que todos devem ter direitos iguais e a justiça só se realiza na igualdade. Mas Deus, o Criador de tudo não tem que se submeter a César e continua sempre livre de dispensar suas graças a quem quer, de escolher Jacó e rejeitar Esaú (cf. Ml 1,3; Rm 9,13) e assim por diante. A volta do caminho de alienação em que fomos colocados pelo pecado original exige esse encontro consigo mesmo como criatura de Deus, reconhecendo-se como única nos dons que Deus fez nos fez e as comparações com os dons do próximo só reforça essa alienação. O princípio de ação de graças exclui toda comparação com os irmãos, para reconhecermos o nosso caminho pessoal para Deus e o princípio de unidade nos diz que na diferença de dons entre uma pessoa e outra, todos os dons, mesmo dados a esta ou àquela pessoa são para o bem da comunidade humana em seu conjunto. Caim, por estes princípios deveria se alegrar com as bênçãos dadas ao seu irmão Abel e fazer unidade espiritual e pessoal com ele, para participar de sua bênção.
Ainda em Gn 4-6 pode-se observar:
a) a crescente vingança presente entre os homens. Caim será vingado sete vezes. Já Lamec, seu descendente, será vingado setenta e sete vezes. As causas de homicídio também se diversificam. No caso de Caim foi a inveja; no caso de Lamec foi a violência, matando covardemente o mais fraco, um menino (cf. Gn 4,15.23-24).
b) a lei natural começa a ser desconhecida; Lamec toma duas mulheres, não podendo dar-se inteiro a nenhuma delas.
c) o desenvolvimento das cidades e das técnicas e artes humanas é atribuído aos descendentes de Caim, chamados “filhos dos homens” (cf. Gn 4,17.20-22) ; a pessoa humana, no pecado, tende a se apoiar nas obras de suas mãos que se tornam para ela instrumentos de poder. Das obras dos “filhos de Deus”, descendentes de Set, só se diz que a partir da descendência de Set, após o nascimento de seu filho Enós, o nome do Senhor passou a ser invocado (cf. Gn 4,26). Os “filhos dos homens” fazem recurso às suas criações. Os “filhos de Deus” invocam o nome do Senhor.
d) a humanidade é dividida entre os “filhos de Deus”, descendentes de Set, e os “filhos dos homens”, descendentes de Caim. Mas a concupiscência da carne faz os “filhos de Deus” se misturarem com os “filhos dos homens” e isso leva à corrupção de toda a humanidade (cf. Gn 6,1-5). Jesus faz uma nítida distinção de seus discípulos, que “não são do mundo” e os outros, que “são do mundo” (cf. Mt 13,38; Lc 12,30; 16,8; Jo 7,7; 8,23; 10,3-5.27; 14,17.19; 15,18-19; 17,14.16; 18,36; 1Jo 2,15; 3,1; 4,5). Embora os seguidores de Jesus estejam no mundo – onde o joio foi misturado com o trigo – não são deste mundo e não podem entrar em acordo com ele. A identidade do cristão exige que seja sinal de contradição (cf. Lc 2,34) como a luz e as trevas se contradizem. A mistura dos “filhos do Reino” com “os do mundo” sempre corrompe os “filhos do Reino”, como já está em Gn 6. A vida moral cristã depende de uma forte consciência de identidade cristã. Assistimos à corrupção seja do clero, seja do laicato católico, pela mistura com o espírito do mundo nos tempos atuais, influenciados por uma mentalidade igualitária, que rejeita as diferenças. Essa é, certamente, uma das maiores fontes de corrupção da Igreja em nossos tempos e em todos os tempos.
e) Em aparente contradição com o que acabamos de afirmar temos em Gn 6,6-9,17 a história do dilúvio universal. Além de todas as interpretações tipológicas em relação ao batismo e à Igreja que essa passagem bíblica já recebeu, podemos perceber aí também uma separação entre “bons” e “maus”. “Bons” são Noé e sua família. Maus são todos os demais. Deus elimina os maus da face da terra (cf. Sl 20,11; 33,17; 100,8; 103,35) mas, afinal de contas nada muda na face da terra (cf. Gn 9,25; 11,4), e o pecado e a corrupção continuam. Este é um sinal de que a humanidade é una na condenação, e a justiça dos pais não passa automaticamente para os filhos. Não se pode culpar uma parte da humanidade pelos males e inocentar a outra. Também aqui se verifica o princípio da unidade de toda a humanidade. Todos são uma só vida, solidários no bem e no mal. Esta mentira também é apregoada pelo mundo atual quando se acusa os nazistas alemães de todos os males, sem querer ver que a sociedade que os eliminou é abortista, manipuladora da vida humana, racista, cruel e também condena à morte milhares de pessoas.
Os seguidores de Jesus são da mesma carne e sangue da humanidade pecadora e não devem considerar-se superiores aos demais pecadores. O que os faz distintos é a fé, a esperança e a caridade (cf. Jo 13,35) e o que os sustenta é a graça divina. A abertura a esta graça deverá fazê-los produzir os frutos do Reino, mas a glória é de Deus e não dos “filhos do reino” (cf. Lc 17,10). Não há, portanto contradição entre as reflexões expostas em (d) e (e).
f) Gn 11,1-9 traz a famosa história da Torre de Babel. Colocada no final da história da corrupção da humanidade (Gn 3-11) é a parábola do orgulho humano. Os homens querem construir uma cidade (cf. reflexão (c) acima) com uma torre que alcance o céu. É o desejo da salvação pelas técnicas e artes humanas, o homem salvando-se a si mesmo, ignorando Deus. A confusão das línguas se impõe, destruindo a unidade, pois só a ação do Espírito Divino que faz a pessoa esvaziar-se de si mesma e dar sua vida pelas outras pessoas é que pode realizar a unidade. No orgulho, as pessoas sempre se dividirão e dispersarão. Os construtores da Torre de Babel queriam não ser dispersos, mas numa perspectiva orgulhosa – ficarem célebres aos olhos das pessoas humanas, aos seus próprios olhos, sendo seus próprios juízes. Na economia da salvação a única grandeza que vale é aquela que o é diante de Deus (cf. Lc 16,19-31; 18,9-14; 1Cor 2,15; 4,3). O resto é vaidade. O mundo atual, com o orgulho da ciência e da tecnologia desenvolvidas principalmente nos últimos três séculos tornou-se extremamente orgulhoso e confiante nos recursos da inteligência humana, tornando-se praticamente ateu. A confusão das línguas é visível em nosso tempo. Estamos vivendo dentro do mito da Torre de Babel. Mito? Ou fato? Jo 15,5: “Sem Mim, nada podeis fazer”. Quando nos convenceremos disto?
5.3. O proto-evangelho
Inserido entre as condenações do pecado original, temos o chamado proto-evangelho, primeira boa nova de salvação.

“15Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu ferirás o calcanhar (Gn 3,15).”

Podemos perguntar: se o pecado foi do homem e da mulher, por que a inimizade é estabelecida entre o demônio e a “mulher” e não com o homem também. Vemos aqui um símbolo. A pessoa humana pecou porque aceitou a sugestão de “ser como Deus” (cf. Gn 3,5). Vimos que, na semelhança divina da distinção dos sexos, o masculino tem um caráter divino, isto é, é fecundador, e o feminino tem um caráter terreno, é fecundado. Então a humanidade, no pecado original, rejeitou a sua característica feminina, a sua relação com Deus como fonte de sua vida, e privilegiou sua própria característica masculina, que a assemelha à potência divina, voltando-se para a terra, esperando alcançar a vida por dominá-la. Então, quando Deus diz que coloca inimizade entre o demônio e a mulher, esta inimizade existe apenas enquanto a humanidade aceita sua característica feminina e espera de Deus a fecundação – o Espírito – que lhe dará vida. Não sendo assim, a humanidade não é inimiga do demônio, aliás, é sua amiga e se faz até filha dele (cf. Jo 8,44). Maria Imaculada é o ícone dessa humanidade feminina, que se coloca sob a dependência exclusiva de Deus, a “serva do senhor” (cf. Lc 1,38), a “cheia de graça” (cf. Lc 1,28), pronta para ser fecundada por ele, a ponto de gerar em seu ventre o Filho de Deus Encarnado. A Igreja também é esta mulher que gera os membros de Jesus Cristo (cf. 1Cor 4,15; Ef 2,10; Fm 1,10). A picada no calcanhar quer mostrar que a auto-entrega da pessoa a Deus nunca é isenta de tentações. A humanidade, na relação do Filho com o Pai, este Filho que se deixa ungir pelo Pai e conduzir pelo Espírito do Pai – isto é, em sua característica feminina deixa-se fecundar pelo Pai – “esmagará a cabeça da serpente”. Diz Jesus preparando Sua Paixão:

“31Agora é o juízo deste mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo (Jo 12,31; cf. Jo 14,30; 16,11).

Cremos que a nossa resposta é coerente aos questionamentos e também à realidade de que muitas pessoas se comportam não como inimigas, mas como servas do demônio.
5.4. A justiça divina e a justiça humana
Já vimos que após o pecado original, Deus mesmo estabelece uma economia terrena da humanidade decaída e estabelece o que depois pode ser chamado “o reino de César”, isto é, o poder temporal das autoridades humanas sobre as sociedades. Ao estabelecer esse poder, é gerada uma justiça humana, muito distinta da justiça do Reino de Deus. A confusão ou identificação dessas duas justiças leva a muitos equívocos.
O serviço de César, para o qual é investido de autoridade é principalmente a defesa e a proteção dos bons contra o abuso dos maus. Tradicionalmente se diz que é a manutenção da paz social, que é identificada com a “tranqüilidade da ordem”. As duas definições coincidem. O estabelecimento da ordem se faz pelo estabelecimento de leis, regras de convivência, e a conseqüente punição daqueles que infringem as leis. A relação entre a gravidade das infrações e a pena aplicada varia muito, segundo os diversos sistemas de exercício de poder. Já vimos como, no início, aumentou a sede de vingança dos homens. Se Caim seria vingado sete vezes (cf. Gn 4,15), Lamec já seria vingado setenta e sete vezes (cf. Gn 4,24). A lei do talião, estabelecendo a proporção “olho por olho, dente por dente” (cf. Ex 21,24; Lv 24,20; Dt 19,21), embora a nós pareça dura demais, em sua época foi uma regulação da vontade de vingar desproporcionalmente. Seja qual for o sistema, é preciso, na justiça de César, punir e cercear a liberdade daquele que já demonstrou seus maus intentos, em vista da defesa dos bons e da manutenção da ordem das relações sociais. Isto porque os bens da terra, que sustentam a vida das pessoas são de ordem finita e o que é tirado de alguém, deve, na medida do possível ser devolvido, a pessoa deve ser ressarcida de seus prejuízos. Na economia da humanidade decaída a segurança da vida das pessoas está na posse dos bens da terra, e esses bens são finitos.
O Antigo Testamento, embora conste das Sagradas Escrituras veneradas pelos cristãos, não constitui a religião dos cristãos. A religião dos cristãos não se baseia na Antiga Aliança (=Antigo Testamento), mas na Nova e Eterna Aliança (cf. Mt 26,28; Lc 22,20; 1Cor 11,25; 2Cor 3,6; Gl 4,24-31; Hb 7,22). O Antigo Testamento, estabelecido antes do anúncio do Reino de Deus, refere-se constantemente à justiça dos bens deste mundo. Por isso é muito utilizado seja pela Teologia da Libertação, que recebe sua força da indignação diante das injustiças sociais de nosso tempo, como pelas seitas pentecostais e sua Teologia da Prosperidade, que também não aceita a Nova Aliança e visa aos bens deste mundo.
Jesus Cristo veio estabelecer entre os homens uma Nova Aliança com Deus, o Reino de Deus, que é baseada não nos bens finitos deste mundo, que podem quando muito sustentar uma vida mortal, mas no Dom Infinito de Deus que dá uma Vida Infinita e Eterna. É essa Aliança que estamos estudando. E nossa busca é de uma Teologia Moral que se baseie estritamente na Nova Aliança. A nossa rejeição a algumas outras propostas de textos de Teologia Moral é que esses textos se baseiam na economia dos bens deste mundo e acabam por desconhecer e mesmo anular o anúncio da Nova Aliança, como uma palavra para “pessoas muito santas”, mas não a substância mesma da vida segundo o Espírito.
A justiça do Reino de César baseia-se no fato das pessoas serem dependentes dos bens deste mundo para viver a vida mortal e terem direito ao desfrute desses bens. A vida mortal se nutre dos bens deste mundo. E a pessoa tem direito à vida. Então deve-se justiça às pessoas, respeitando seus bens materiais e morais.
A Justiça do Reino dos Céus baseia-se no fato de que toda vida depende única e exclusivamente de Deus, que é o Criador e o Mantenedor da existência das suas criaturas, e dá vida além da morte, tornando a pessoa humana livre da dependência aos bens deste mundo. Então a Justiça do Reino de Deus é considerar Deus na Sua prerrogativa de Fonte de Vida e esperar d’Ele a graça infinita, a doação de seus bens em quantidade infinita. Ora, o infinito não pode ser contido neste mundo finito. Daí a esperança dos cristãos ter de ser, necessariamente, de um dom transcendente, não imanente.
Quando a pessoa não perdoa um prejuízo finito que seu próximo lhe impôs, está colocando-se como necessitada desse bem finito, desconhecendo a Fonte infinita de bens que é Deus. Por isso, embora seja dever da autoridade civil ressarcir na medida do possível a pessoa prejudicada, no que tange ao Reino de Deus cabe à pessoa prejudicada perdoar a que a prejudicou, esperando na Fonte infinita de bens que é Deus e considerar que o bem que lhe foi tirado era graça de Deus e não posse inalienável sua. Se não faz assim, pratica uma injustiça para com Deus, não esperando em sua bondade e sua Infinitude.
Entre os atos de respeito às autoridades civis que a Nova Aliança pede, está então o de respeitar sua natureza própria e não tentar fazer justiça com as próprias mãos. Esperar a administração da justiça daquele que recebeu de Deus a missão de exercer a justiça humana (cf. Jo 19,11). E na sua liberdade, agir como “filho do Reino de Deus” exercendo a justiça do Reino de Deus, que é considerar tudo como graça de Deus e Deus como Fonte Infinita da qual todo o bem se pode esperar.
Por isso Jesus substitui a justiça dos bens finitos, simbolizada pela lei do talião, pela justiça do Reino de Deus:

“38Tendes ouvido o que foi dito: Olho por olho, dente por dente. 39Eu, porém, vos digo: não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra. 40Se alguém te citar em justiça para tirar-te a túnica, cede-lhe também a capa. 41Se alguém vem obrigar-te a andar mil passos com ele, anda dois mil. 42Dá a quem te pede e não te desvies daquele que te quer pedir emprestado.
43Tendes ouvido o que foi dito: Amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo. 44Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem. 45Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos. 46Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos? 47Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isto também os pagãos?
48Portanto, sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,38-48).

Às vezes as pessoas não entendem como Deus é Justo e ao mesmo tempo é Misericordioso. Pensam que às vezes Ele age com justiça e outras vezes com misericórdia. Há até orações pedindo a Deus forças para acolher a Sua Misericórdia enquanto é tempo, para depois não ter que enfrentar Sua Justiça. Outras pessoas invocam a Justiça de Deus para realizar suas esperanças de vingança contra seus inimigos. Todas essas concepções baseiam-se em uma confusão entre o agir de Deus e administração da justiça neste mundo. Deus é Amor Infinito, é eternamente auto-doação de Si mesmo, sempre desejoso de transmitir Sua Vida divina. Só encontra obstáculo na liberdade que deu às suas criaturas racionais e livres, que não acolhem essa auto-doação divina. Ser justo para com Deus é abrir-se para receber essa auto-doação permanente de Amor e Vida. Então não há a menor contradição entre a Justiça e a Misericórdia de Deus. A Justiça de Deus é a Sua Misericórdia. Toda ofensa a Deus é apagada instantaneamente quando alguém se abre à acolhida do Dom da Vida que brota de Deus.

“39Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra ele: Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós! 40Mas o outro o repreendeu: Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício? 41Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum. 42E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino! 43Jesus respondeu-lhe: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 39-43).

Não há a menor punição ao segundo ladrão. Ele passa por um processo espiritual. Reconhece o fracasso de suas buscas de felicidade por meio da aquisição – lícita ou não – de bens da terra (“recebemos o que mereceram nossos crimes”), e se coloca na dependência absoluta da misericórdia divina. Esta não se faz esperar. No mesmo dia o ex-ladrão está no Paraíso. E as vítimas do ladrão? Não são ressarcidas por uma condenação divina, mesmo temporária ao seu agressor? Não. A punição foi só a de César, a crucifixão. Da parte de Deus não há nenhuma punição, só salvação, àquele que para ela se abriu. E o primeiro ladrão, a quem nada se prometeu? Deus o puniu? Não. Teria o mesmo destino do segundo se tivesse a mesma atitude. Mas não se abriu à recepção do amor de Deus, esperando de Jesus não o Reino Eterno, o que Jesus quisesse lhe dar, mas impondo a Jesus a sua vontade, cobrando d’Ele o poder neste mundo, como os que debaixo da cruz desafiavam Jesus (cf. Lc 23,35-37). Ficou na mesma lógica que o levou a se tornar ladrão: a busca de poder neste mundo para viver a partir das criaturas, pelo poder sobre elas. Não esperou nada de Deus, não se abriu à auto-doação divina, nada pode receber. Não foi Deus que o condenou, mas ele mesmo, o seu pecado mesmo, o seu orgulho.
É preciso distinguir e colocar em dois planos bem diferentes a justiça do Reino de Deus e a justiça dos magistrados terrenos. São de naturezas diferentes e sua confusão acaba por ignorar a Nova Aliança.
5.5. O Reino de Deus não é deste mundo
Como conseqüência da substituição da justiça do Reino de Deus, na consciência de muitos, até teólogos, pela justiça dos bens finitos deste mundo, e a apelação, para isto, aos profetas do Antigo Testamento, substituiu-se a noção correta, escatológica, do Reino de Deus, pregado por Jesus, por uma noção terrena. Figurou-se nas últimas décadas uma imagem do Reino de Deus como uma sociedade justa e fraterna, plena de solidariedade, construída pelas pessoas de boa-vontade. Apareceu, inclusive, a expressão, que não tem respaldo nas Escrituras nem nos Padres da Igreja, “construir o Reino de Deus”, que chega a estar presente até em prefácios e orações eucarísticas aprovadas para a Igreja no Brasil.

“Deles recebemos o exemplo
Que nos estimula na caridade,
E a intercessão fraterna,
Que nos ajuda a trabalhar
pela realização do vosso Reino”.
(Prefácio dos Santos II)

“Neles, chamais novamente os fiéis à santidade original
e a experimentar,
já aqui na terra, construindo o vosso Reino,
os dons reservados para o céu”.
(Prefácio das santas Virgens e Religiosos)

“E a nós, que agora estamos reunidos
e somos povo santo e pecador,
daí força para construirmos juntos
O vosso reino que também é nosso”.
(Oração Eucarística V)

Vossa Igreja seja testemunha viva
da verdade e da liberdade,
da justiça e da paz,
para que toda a humanidade
se abra à esperança de um mundo novo.
Ajudai-nos a criar um mundo novo!”
(Oração Eucarística VI-D)

Esta expressão é, obviamente, herética. O Reino de Deus não é construído por mãos humanas, assim como a justiça das sociedades humanas não é a Justiça do Reino de Deus. Também não é a criatura que cria um mundo novo, pois tudo é graça de Deus. Uma sociedade terrena é sempre sujeita ao pecado e a fé não nos ilude com sonhos utópicos. Sabemos que as pessoas serão tentadas ao mal e pecarão até ao fim do mundo. A esperança de uma futura sociedade estavelmente justa e fraterna não tem respaldo nas Escrituras, especialmente os Evangelhos, que apontam para a Igreja sempre muita perseguição que aumentam ainda mais nos últimos tempos.

“3Indo ele assentar-se no monte das Oliveiras, achegaram-se os discípulos e, estando a sós com ele, perguntaram-lhe: Quando acontecerá isto? E qual será o sinal de tua volta e do fim do mundo? 4Respondeu-lhes Jesus: Cuidai que ninguém vos seduza. 5Muitos virão em meu nome, dizendo: Sou eu o Cristo. E seduzirão a muitos. 6Ouvireis falar de guerras e de rumores de guerra. Atenção: que isso não vos perturbe, porque é preciso que isso aconteça. Mas ainda não será o fim. 7Levantar-se-á nação contra nação, reino contra reino, e haverá fome, peste e grandes desgraças em diversos lugares. 8Tudo isto será apenas o início das dores.
9Então sereis entregues aos tormentos, matar-vos-ão e sereis por minha causa objeto de ódio para todas as nações. 10Muitos sucumbirão, trair-se-ão mutuamente e mutuamente se odiarão. 11Levantar-se-ão muitos falsos profetas e seduzirão a muitos. 12E, ante o progresso crescente da iniqüidade, a caridade de muitos esfriará. 13Entretanto, aquele que perseverar até o fim será salvo. 14Este Evangelho do Reino será pregado pelo mundo inteiro para servir de testemunho a todas as nações, e então chegará o fim” (Mt 24,3-14).

A esperança de uma sociedade perfeita no futuro faz parte da mentalidade orgulhosa da humanidade, especialmente no Ocidente, condicionada pelo extraordinário progresso técnico dos últimos quatro séculos, que gerou uma filosofia evolucionista, onde tudo tende a melhorar e aperfeiçoar-se pela própria força do tempo, filosofia que obviamente não tem provas na realidade. A humanidade pode regredir moralmente, e em muitos aspectos observa-se isso em nossos dias. O pecado existirá até o fim do mundo e a ação do demônio entre os homens também. Se uma geração consegue um relativo progresso moral, isto não significa que as gerações seguintes manterão esse progresso. Aliás, uma regra oposta é que se impõe, segundo a história. Um progresso moral em uma sociedade tende a criar um progresso material também. Com o tempo, a abundancia material, com a fraqueza da carne humana, leva a um relaxamento dos costumes que vai deteriorando moralmente aquela sociedade. Santo Agostinho, diante da acusação de muitos de que foi a difusão do Cristianismo que causou a queda do Império Romano, mostra, n’”A Cidade de Deus”, que Roma cresceu devido à prática das virtudes em seus primeiros tempos. Essa prática levou a um crescente poder, com vitórias e dominações sobre outros povos. Nessa abundancia, provinda da exploração de outros povos, os romanos caíram cada vez mais nos vícios e isso levou à queda de seu poderoso império. A ilusão de um progresso moral inexorável e de um Reino de Deus construído pela pessoa humana na terra desconhece a realidade do demônio, do pecado original, e da luta do espírito contra a carne, luta que se instaurou no íntimo da pessoa humana a partir do pecado original. É verdade que, influenciados por uma filosofia iluminista, que vê a pessoa humana como o “bon sauvage” de Rousseau, muitos negam, hereticamente, em nossos dias, a realidade da existência do demônio e do pecado original. O “Catecismo da Igreja Católica”, nn. 388-389, afirma categoricamente que não se pode negar a existência do pecado original sem atentar também contra a obra redentora de Jesus Cristo. Ele deixou claro:

“36Respondeu Jesus: O meu Reino não é deste mundo. Se o meu Reino fosse deste mundo, os meus súditos certamente teriam pelejado para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36).

O Reino de Cristo não é deste mundo porque se realiza na imortalidade e na divinização da pessoa humana. Não é o Reino do poder que peleja e se impõe. É o Reino onde se domina sobre tudo porque não se é dependente de nada. Como já vimos Deus reconheceu uma “economia da pessoa humana decaída pelo pecado”. Essa economia é a da dependência da criatura dos bens finitos deste mundo, para viver. Isso gera a idéia de poder como domínio sobre as coisas necessárias para manter a vida. Mas se as coisas são necessárias, não só se as domina, mas também se é dominado por elas. No Reino de Cristo, que não é nem pode ser deste mundo, domina-se sobre tudo porque não se tem necessidade de nada. Usa-se de tudo com plena liberdade e nenhuma carência. Isso é antecipado nesta vida por aquelas pessoas libertadas que não considerando nada como indispensável, de nada são escravos, nada tem mas tudo possuem, porque tudo podem dar, a nada se apegam.
6. A Redenção, Obra de Jesus Cristo e fonte da Moral Cristã
Interessa muito à Teologia Moral Cristã compreender a lógica verdadeira da relação entre a morte de Jesus Cristo na Cruz e a salvação dos que n’Ele crêem. Isto implica entender a morte de Jesus e o que significa crer em Jesus Cristo.
6.1. A idéia pagã de “sacrifício”
Uma idéia muito recorrente a respeito da morte de Jesus Cristo é a de que Jesus teria oferecido ao Pai, com o seu sofrimento, um sacrifício expiador, em vista de “pagar” pelos pecados das pessoas humanas. Algo como uma compensação, uma multa, que aplacaria a justiça divina ofendida (e, de certa maneira, prejudicada) pelos pecados humanos. Este modo de pensar é extremamente antropomórfico. Confunde a justiça divina com a justiça humana. Como se Deus perdesse alguma coisa com pecados dos homens e a recuperasse com o castigo e o sofrimento de alguém.
A idéia de sacrifício é muito co-natural à concepção de religião. Isto vem dos costumes da pessoa decaída pelo pecado. Quando uma tribo primitiva mais forte vencia outra, a saqueava, estuprava ou raptava suas mulheres e fazia outros atos de exploração e destruição. Se a tribo vencida se reconstituía com o tempo, ficava submissa à tribo mais forte. Para evitar novas destruições a tribo dominante impunha tributos, em forma de bens agrícolas, ouro e outras riquezas, animais, mulheres e até homens para aumentar o efetivo do exército ou ser escravo da tribo dominante. Caso não pagasse o tributo, a tribo dominante vinha tomá-lo à força, com novas violências. Ora, o tributo aparecia como um “amansador” da violência do mais forte. Era natural, para as pessoas primitivas associar entidades míticas às forças da natureza e, diante das violências das forças naturais, como relâmpagos, inundações pelas cheias dos rios ou pelas chuvas etc. oferecer tributos a essas entidades imaginárias para acalmá-las, torná-las favoráveis ou propícias. Assim surgiu o costume de oferecer sacrifícios aos “deuses”, para “amansá-los”, agradá-los, e obter favores e benefícios. A pessoa humana decaída, carente das criaturas para manter sua vida, criou seus “deuses” à sua imagem e semelhança, e lhes ofereceu sacrifícios. Estes sentimentos e costumes arraigaram-se tão profundamente na alma humana que podem ser observados até hoje e até muitos cristãos não chegaram a compreender que o Deus verdadeiro não se encaixa nessa imagem humana dos “deuses”.
6.2. A evolução da idéia de “sacrifícios” no Antigo Testamento
No Antigo Testamento, Deus, ao se revelar, parte da concepção dos “deuses” criados à imagem e semelhança da pessoa humana e vai paulatinamente purificando essa concepção até à plenitude de Sua auto-Revelação em Jesus Cristo, o Filho de Deus: “Quem Me vê, vê o Pai” (Jo 14,9).
Antes do dilúvio Deus “se arrepende” de ter criado a pessoa humana (cf. Gn 6,6) num claro antropomorfismo. Se Deus tudo sabe, como pode “se arrepender”, admitir que errou?
Abraão, em Gn 22,2 cogita matar seu filho Isaac para o oferecer a Deus e esse sacrifício é apresentado como exigido pelo próprio Deus; em Jz 11,30-39, Jefté sacrifica, de fato, sua filha, para pagar um voto a Deus.
Moisés estabelece uma religião em que se proscreve os sacrifícios humanos dirigidos ao culto direto de Deus, mas ainda há uma série enorme de sacrifícios de animais, para diversas finalidades humanas e uma série também grande de condenações à morte – sacrifícios de expiação? – para os que ousam infringir as ordens divinas.
De início há uma idéia politeísta, sendo Iahweh o Deus de Israel, mas admitindo que os deuses dos outros povos também existiam. Só aos poucos cresce a convicção monoteísta de que há um só Deus verdadeiro.
Com o passar dos séculos os profetas vão denunciando os costumes dos sacerdotes como insuficientes. Deus é o “dono” de todos os animais do mundo. De que lhe servem os sacrifícios de animais? O que Ele quer é justiça e misericórdia. O processo em direção ao Evangelho vai se aproximando mais da concepção evangélica de sacrifício.

“… porque eu quero o amor mais que os sacrifícios, e o conhecimento de Deus mais que os holocaustos” (Os 6,6).

“21Aborreço vossas festas; elas me desgostam; não sinto gosto algum em vossos cultos; 22quando me ofereceis holocaustos e ofertas, não encontro neles prazer algum, e não faço caso de vossos sacrifícios e animais cevados. 23Longe de mim o ruído de vossos cânticos, não quero mais ouvir a música de vossas harpas; 24mas, antes, que jorre a eqüidade como uma fonte e a justiça como torrente que não seca” (Am 5,21-24).

“10Ouvi a palavra do Senhor, príncipes de Sodoma; escuta a lição de nosso Deus, povo de Gomorra: 11De que me serve a mim a multidão das vossas vítimas?, diz o Senhor. Já estou farto de holocaustos de cordeiros e da gordura de novilhos cevados. Eu não quero sangue de touros e de bodes. 12quando vindes apresentar-vos diante de mim, quem vos reclamou isto: atropelar os meus átrios? 13De nada serve trazer oferendas; tenho horror da fumaça dos sacrifícios. As luas novas, os sábados, as reuniões de culto, não posso suportar a presença do crime na festa religiosa. 14Eu abomino as vossas luas novas e as vossas festas; elas me são molestas, estou cansado delas. 15Quando estendeis vossas mãos, eu desvio de vós os meus olhos; quando multiplicais vossas preces, não as ouço. Vossas mãos estão cheias de sangue, 16lavai-vos, purificai-vos. Tirai vossas más ações de diante de meus olhos. 17Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem. Respeitai o direito, protegei o oprimido; fazei justiça ao órfão, defendei a viúva” (Is 1,10-17).

“20Que me importam o incenso de Sabá e as canas aromáticas de longínquos países? Não me agradam vossos holocaustos, nem me comprazem os sacrifícios” (Jr 6,20).

21Eis aqui o que diz o Senhor dos exércitos, o Deus de Israel: Amontoai holocaustos sobre sacrifícios, e deles comei a carne; 22porquanto não falei a vossos pais e nada lhes prescrevi a respeito de holocaustos e sacrifícios, no dia em que os fiz sair do Egito. 23Foi esta a única ordem que lhes dei: escutai minha voz: serei vosso Deus e vós sereis o meu povo; segui sempre a senda que vos indicar, a fim de que sejais felizes. 24Eles, porém, não escutaram, nem prestaram ouvidos, seguindo os maus conselhos de seus corações empedernidos; voltaram-me as costas em lugar de me apresentarem seus rostos. 25Desde o dia em que vossos pais deixaram o Egito até agora, enviei-vos todos os meus servos, os profetas. Todos os dias sem cessar os mandei. 26Eles, porém, não os escutaram, nem lhes deram atenção; endureceram a cerviz e procederam pior que os pais. 27Quando tudo isso lhes transmitires, também a ti não escutarão. Chamá-los-ás e não obterás resposta. 28Dir-lhes-ás então: Esta é a nação que não escuta a voz do Senhor, seu Deus, e não aceita suas advertências. A lealdade desapareceu, tendo sido banida de sua boca” (Jr 7,21-28).

“5 … e ergueram o lugar alto a Baal para, em honra dele, queimarem os seus filhos em holocausto. Tais coisas não as prescrevi, delas não falei e nem ao pensamento me vieram” (Jr 19,5).

Já vimos que a própria justiça que os profetas exigem no Antigo Testamento corresponde à justiça dos bens finitos deste mundo, é uma “justiça social”. Só no Novo Testamento Deus revela, em Jesus Cristo, a Justiça do Reino dos Céus, em que a pessoa humana não é mais dependente das criaturas deste mundo, mas só de Deus, em absoluta liberdade em relação aos bens que lhe garantem a vida mortal do corpo. Nesta Revelação, Deus se mostra como Amor incondicional, que não precisa de nenhuma oferta humana para ser propício e favorável às suas criaturas humanas. Deus ama até os ingratos e maus. A pessoa humana nada precisa fazer para que Deus lhe seja favorável, pois Ele o é por sua própria natureza. O Deus verdadeiro não é condicionado pela ação dos homens, mas é Fonte de Vida por sua própria natureza divina. È totalmente perfeito e não sofre perdas por causa dos pecados humanos.
Por isso não é possível interpretar a crucificação de Jesus como um “tributo” em compensação – segundo uma justiça de bens finitos – das perdas e danos causados a Deus pelos pecados humanos.
6.3. A idéia pagã de sacrifício está presente no cristianismo atual
É triste constatar que milhares de pessoas que se pretendem cristãs pensam assim. A teologia protestante se baseia nessa concepção. Não crêem que a pessoa humana possa viver a perfeição, para eles irremediavelmente perdida com o pecado original. Crêem que Jesus, pela Sua Paixão e Morte na Cruz carregou os castigos dos pecados que deveriam recair sobre os pecadores. Tendo Ele assim pago o nosso castigo, ao crer n’Ele, ou “aceitar Jesus como Salvador pessoal” – que equivale a admitir essa “verdade” – a pessoa não sofre mais castigo pelos seus pecados porque Jesus já o sofreu, e é assim salva, mesmo que continue pecadora, ambiciosa etc. Que deus é esse que cobra castigo pelos pecados senão um inventado pela mente humana, condicionada pela miséria que a pessoa humana vive neste mundo de bens finitos? Pode ser um Deus Infinito e ser menor que a pessoa humana que muitas vezes sabe perdoar gratuitamente, sem cobrar compensação? É evidente que esse deus é decalcado dos costumes dos poderosos deste mundo que punem, muitas vezes de forma desproporcional, os que colocam obstáculos ao seu poder. É um deus criado à imagem e semelhança do homem pecador. E o que é essa “salvação” que não salva a pessoa das suas falhas morais e da escravidão de seus apegos neste mundo, de sua dependência às criaturas inferiores a ela? Assim como vimos que a pessoa humana é escrava do pecado por medo da morte corporal, essa “salvação protestante” é mais um medo da condenação do inferno, do qual quer escapar, do que um verdadeiro amor a Deus. Como pode a pessoa estar “salva” se ainda sua alma se apóia nas criaturas e não apenas no Criador, única Fonte de Vida e existência de tudo o que existe? Que criatura pode por si mesmo dar existência a outra criatura viva? Pode-se adorar a Deus, idolatrando os bens deste mundo e as criaturas a que se apega neste mundo o coração humano decaído do estado de graça original?
Também no âmbito do catolicismo está presente a idéia pagã de sacrifício nos costumes de promessas para obter essa ou aquela graça que a sabedoria humana julga necessária, quando o Evangelho nos leva a acolher a vontade de Deus.

“28Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena. 29Não se vendem dois passarinhos por um asse? No entanto, nenhum cai por terra sem a vontade de vosso Pai. 30Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. 31Não temais, pois! Bem mais que os pássaros valeis vós” (Mt 10,28-31; cf. Lc 12,4-7).

“7Nas vossas orações, não multipliqueis as palavras, como fazem os pagãos que julgam que serão ouvidos à força de palavras. 8Não os imiteis, porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós lho peçais. 9Eis como deveis rezar: PAI NOSSO, que estais no céu, santificado seja o vosso nome; 10venha a nós o vosso Reino; seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6,7-10).

Se não devemos multiplicar as palavras, quanto mais os atos e as promessas. Devemos aceitar confiantemente a amorosa vontade do Pai, expressa na realidade dos fatos, mesmo que isso ultrapasse a nossa capacidade de compreensão.
6.4. O significado redentor da Paixão e Morte de Jesus Cristo
Se a Paixão e a Morte de Jesus Cristo não são um “sacrifício expiatório”, qual o verdadeiro entendimento da Paixão e Morte de Jesus Cristo na Cruz que corresponde a todas as revelações do Novo Testamento?
Os escritores inspirados do Novo Testamento, por falta de vocabulário mais apropriado, continuam a usar os termos religiosos tradicionais de “sacrifício”, e também “compra” e “resgate”, que sugerem uma idéia de “pagamento a alguém”.

“Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei, pelo sacrifício do corpo de Cristo, para pertencerdes a outrem, àquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos frutos para Deus” (Rm 7,4).

“Porque fostes comprados por um grande preço. Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo” (1Cor 6,20).

“Por alto preço fostes comprados, não vos torneis escravos de homens” (1Cor 7,23).

“Progredi na caridade, segundo o exemplo de Cristo, que nos amou e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor” (Ef 5,2).

” … e por seu intermédio reconciliar consigo todas as criaturas, por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus” (Cl 1,20).

“Do contrário, lhe seria necessário padecer muitas vezes desde o princípio do mundo; quando é certo que apareceu uma só vez ao final dos tempos para destruição do pecado pelo sacrifício de si mesmo” (Hb 9,26).

“Cristo ofereceu pelos pecados um único sacrifício e logo em seguida tomou lugar para sempre à direita de Deus” (Hb 10,12).

“Assim como houve entre o povo falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos doutores que introduzirão disfarçadamente seitas perniciosas. Eles, renegando assim o Senhor que os resgatou, atrairão sobre si uma ruína repentina” (2Pd 2,1).

“Cantavam um cântico novo, dizendo: Tu és digno de receber o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste imolado e resgataste para Deus, ao preço de teu sangue, homens de toda tribo, língua, povo e raça” (Ap 5,9).

Essas dificuldades de linguagem para descrever o significado do ato redentor de Jesus Cristo contribuíram para difundir nos ambientes cristãos duas idéias erradas:
a) que Jesus Cristo “pagou” ao Pai um “sacrifício” aplacador da sua ira pelos pecados das pessoas humanas.
b) que o sofrimento por si mesmo purifica espiritual e moralmente a alma humana.

Essas idéias ficaram muito arraigadas e parecem muito naturais. O espiritismo kardecista, de larga difusão, se apóia nelas. As pessoas, segundo o espiritismo, sofrem para “pagar” pelos pecados cometidos em outras “vidas” neste mundo e serem purificadas pelo sofrimento. Querem assim explicar o sofrimento dos bons e as diferenças de sorte entre as pessoas. Não se observa, porém, que as pessoas que se possa considerar menos sofredoras – saudáveis, ricas, etc. – sejam as de espírito mais evoluído espiritualmente. As pessoas mais santas são freqüentemente muito sofredoras.
Para entender o significado do ato redentor de Jesus Cristo devemos, portanto, evitar esses dois erros. Fica evidente então que Jesus Cristo nos salva porque se aplica ao seu ato redentor os princípios da moral cristã que vimos acima.

a) Ao encarnar-se a Segunda Pessoa Divina, o Filho ou Logos Divino, entra na unidade do gênero humano (segundo princípio). A sua vitória sobre a tentação e o demônio é uma vitória que é participada por todo o gênero humano.

“11Ainda mais: nós nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, por quem desde agora temos recebido a reconciliação! 12Por isso, como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todo o gênero humano, porque todos pecaram… 13De fato, até a lei o mal estava no mundo. Mas o mal não é imputado quando não há lei. 14No entanto, desde Adão até Moisés reinou a morte, mesmo sobre aqueles que não pecaram à imitação da transgressão de Adão (o qual é figura do que havia de vir). 15Mas, com o dom gratuito, não se dá o mesmo que com a falta. Pois se a falta de um só causou a morte de todos os outros, com muito mais razão o dom de Deus e o benefício da graça obtida por um só homem, Jesus Cristo, foram concedidos copiosamente a todos. 16Nem aconteceu com o dom o mesmo que com as conseqüências do pecado de um só: a falta de um só teve por conseqüência um veredicto de condenação, ao passo que, depois de muitas ofensas, o dom da graça atrai um juízo de justificação. 17Se pelo pecado de um só homem reinou a morte (por esse único homem), muito mais aqueles que receberam a abundância da graça e o dom da justiça reinarão na vida por um só, que é Jesus Cristo! 18Portanto, como pelo pecado de um só a condenação se estendeu a todos os homens, assim por um único ato de justiça recebem todos os homens a justificação que dá a vida. 19Assim como pela desobediência de um só homem foram todos constituídos pecadores, assim pela obediência de um só todos se tornarão justos” (Rm 5,11-19).

b) Jesus Cristo não ofereceu um “pagamento” ao Pai pelos pecados humanos, mas, ao contrário dos filhos de Adão e Eva, aceitou plenamente o dom do Pai, a sua vida encarnada, com morte e sofrimento, sem colocar condições, permanecendo até à morte “em ação de graças”. Não achou que devesse defender-se como se de sua auto-defesa viesse a sua salvação, mas esperou somente na ação d’Aquele que o gerara eternamente e o gerara humanamente no ventre de Maria Santíssima. Esta é a vivência do primeiro princípio da moral cristã. Ao ter tal atitude, Jesus revela também a relação eterna que existe entre o Pai e o Filho. O Pai esvazia-se de Si e se dá ao Filho. Este O acolhe incondicionalmente e neste acolhimento Se dá ao Pai. Receber sem condições é colocar-se em plena disponibilidade diante do Doador.

c) Jesus não nos salvou por causa de seu sofrimento, em si mesmo. Mas porque, no meio dos sofrimentos, que representavam tentações, conservou-se fiel à ação vivificadora que só poderia vir do Pai. O que nos salvou, não foi exatamente o sofrimento de Jesus, mas a sua fidelidade, plena de Amor, ao Pai na extrema dificuldade criada pelos sofrimentos. O sofrimento em si mesmo não purifica ninguém. A fidelidade a Deus, a esperança só em Deus, no meio dos sofrimentos, esta, sim, é que purifica o espírito humano.

d) Jesus rejeitou todo o poder neste mundo e aqui não se prendeu a nenhuma criatura. Na relação com todas recebeu do Pai e serviu ao Pai, tendo só n’Ele a origem, a razão e a meta de sua existência humana. Nisto viveu o que descrevemos como o terceiro princípio da moral cristã.

e) Fomos remidos pela vivência, de Jesus Cristo, daquilo que chamamos os três princípios da moral cristã. Não temos que viver outra coisa na vida terrena, senão a vida de Jesus Cristo, nós, ungidos pela mesma unção d’Ele. Por isso dissemos desde o início deste trabalho que a moral cristã é a vida de Jesus Cristo em nós.

Há também, no Novo Testamento, passagens que sugerem a superação da noção antiga de sacrifício:

“Eis por que, ao entrar no mundo, Cristo diz: Não quiseste sacrifício nem oblação, mas me formaste um corpo” (Hb 10,5).

“Ora, onde houve plena remissão dos pecados não há por que oferecer sacrifício por eles” (Hb 10,18)

O “sacrifício” cristão não é oferecer nada a Deus. É aceitar plenamente toda a auto-doação de Deus a nós, que se manifesta em todas as circunstâncias da vida, aquelas internas à pessoa e aquelas externas a ela. Isto leva a uma plena identificação da pessoa consigo mesma, libertada de todo espírito de comparação.

a) O dom da vida mortal é também o dom da morte. Identificar-se totalmente consigo mesmo, acolhendo o que Deus criou em si é aceitar a idéia da própria morte e das realidades que levam a ela: a fraqueza do corpo, a doença etc. Se há uma aceitação prévia, quando essas realidades acontecem, não há um senso de perda ou de derrota. Renunciar a si mesmo (cf. Mt 16,24) não é causa de tristeza, mas realidade e fonte de alegria e paz, de vitória contra a tentação e a própria morte.

b) a aceitação de si mesmo como dom de Deus conduz ao equilíbrio psicológico e à paz, pois a pessoa se aceita na diferença de dons com outras pessoas, não nutrindo complexos de inferioridade ou superioridade, libertando-se da exigência de afirmar o seu ego para ser valorizado pelos outros. Escapa aos padrões de “feio” e “bonito” aceitando seu corpo, sua sexualidade, suas limitações, sem perder nunca o senso do próprio valor pessoal, acreditando plenamente que o que Deus lhe deu – mesmo diferente, menos ou mais do que parece que deu a outros – é o suficiente para realizar tudo o que Deus quer que a pessoa realize nesta vida. Essa percepção é que levará a pessoa a dar os frutos que Deus espera dela.

c) a pessoa aceita a própria história, anterior ao seu nascimento, aceita sua “raça”, país, condição social, família, e outras circunstâncias, sem nenhum sentimento de comparação nem competição com os outros – condição para a fraternidade – e isto também leva ao equilíbrio de sua personalidade.

Ao aceitar-se desta forma como dom de Deus para si mesmo e para os outros a pessoa está se dando a Deus, segundo o que já percebemos: quem aceita incondicionalmente a auto-doação de um outro se disponibiliza totalmente para esse outro, ou seja, se dá a esse outro. Assim, liberto, pela unção do Espírito Santo – a mesma unção de Jesus Cristo – da “luta para viver” instaurada no espírito do homem pelo pecado original, a vida do cristão é uma morte a cada dia pela auto-doação de si mesmo “para que os outros tenham vida” (cf. Jo 10,10). Por isso São Paulo diz que o culto racional cristão – o mesmo culto “em espírito e verdade” descrito por São João (cf. Jo 4,21-24) – é oferecer o próprio corpo mortal como uma hóstia viva, santa e agradável a Deus (cf. Rm 12,1). É um morrer permanentemente. Isso dá um sentido novo à morte corporal. Ao invés de ser, como parece, a destruição da pessoa humana, é o momento que totaliza a auto-doação da pessoa a Deus, é o “fim” que significa um amor total.

“1Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai, como amasse os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1).

“13Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15,13).

“22Sereis odiados de todos por causa de meu nome, mas aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt 10,22; 24,13; Mc 13,13).

“12Se soubermos perseverar, com ele reinaremos” (2Tm 2,12).

Como Jesus Cristo deu-se ao Pai – e a nós – totalmente só em sua morte, assim a morte do cristão é glorificação também pois sendo o têrmo de uma doação total assemelha a pessoa humana a Deus e a introduz na vida definitiva da Santíssima Trindade.
7. A Fonte dos atos humanos
Estudamos a fonte da moral cristã na Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Agora reflitamos sobre as razões que levam uma pessoa humana a agir deste ou daquele modo. A ética costuma distinguir os atos humanos de atos “de homem”. Os atos “de homem” seriam todos os atos praticados por um homem, mesmo independentes do seu caráter decisório, como a contragosto urinar nas calças ou digerir um alimento. Os atos humanos seriam aqueles que a pessoa pratica com sua capacidade deliberativa.
Quais são as fontes do agir humano? Por que uma pessoa age de um modo e não de outro? Essa pergunta pede uma resposta complexa e grande parte da psicologia busca essa resposta. Como já vimos, a ciência tende a tratar a pessoa humana como objeto e não como pessoa. Por essa razão quando buscamos a razão dos atos de uma pessoa humana, queremos sempre encontrar causas e tendemos a desprezar a liberdade. É o que faz o estruturalismo moderno, considerando os atos todos da pessoa humana como sempre condicionados pelas estruturas culturais e sociais nas quais ela vive.

“Paralelamente à exaltação da liberdade, e paradoxalmente em contraste com ela, a cultura moderna põe radicalmente em questão a própria liberdade. Um conjunto de disciplinas, agrupadas sob o nome de «ciências humanas», chamou justamente a atenção para os condicionamentos de ordem psicológica e social, que pesam sobre o exercício da liberdade humana. O conhecimento desses condicionantes e a atenção que lhes é prestada são conquistas importantes, que encontraram aplicação em diversos âmbitos da existência, como, por exemplo, na pedagogia ou na administração da justiça. Mas alguns, ultrapassando as conclusões, que legitimamente se podem tirar destas observações, chegaram ao ponto de pôr em dúvida ou de negar a própria realidade da liberdade humana” (João Paulo II, Carta Encíclica Veritatis Splendor, n. 33).

É difícil para o método científico, que trabalha com causas e efeitos, e com os determinismos dos seres não-racionais e não-livres, lidar com a liberdade humana. Essa, no entanto, não pode ser negada completamente porque sem ela a pessoa humana não mais seria uma pessoa moral e não poderia ser questionada em sua responsabilidade. É indubitável também que a pessoa sofre fortes condicionamentos do meio ambiente e social em que vive, além de impedimentos internos que diminuem sensivelmente a sua liberdade. Por não sabermos até onde uma pessoa é livre, até que ponto é condicionada externa e internamente é que se torna tão difícil e arriscado julgar quem quer que seja. A justiça de César, no exercício de seu ministério, julga pelos atos externos sem se preocupar pelo foro íntimo da pessoa e age no seu âmbito. O julgamento moral, porém, atinge o foro íntimo e carece de saber até que ponto a pessoa é livre. Informação que não está à disposição de quem julga. Não apenas por essa razão, mas principalmente porque a lógica do verdadeiro Deus não é classificar as pessoa humanas pelo seu perfil moral, mas salvar a todos os que, independentemente de seu perfil moral, se colocarem na total dependência da misericórdia – ou ação vivificante divina – vale a palavra de Jesus:

“1Não julgueis, e não sereis julgados. 2Porque do mesmo modo que julgardes, sereis também vós julgados e, com a medida com que tiverdes medido, também vós sereis medidos” (Mt 7,1-2).

Assim sendo, temos que as fontes do agir humano são a liberdade do agente e os condicionamentos internos e externos que limitam essa liberdade. O pecado original fez com que a pessoa humana perdesse a percepção da graça de onde brota a sua vida e vivesse a sensação de que sua vida depende de seus atos e seguranças materiais. Isso colocou o mais forte de todos os condicionamentos: o medo da morte, representada por todas as situações de insegurança e sofrimento que a pessoa experimenta.

“31E Jesus dizia aos judeus que nele creram: Se permanecerdes na minha palavra, sereis meus verdadeiros discípulos; 32conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. 33Replicaram-lhe: Somos descendentes de Abraão e jamais fomos escravos de alguém. Como dizes tu: Sereis livres? 34Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: todo homem que se entrega ao pecado é seu escravo. 35Ora, o escravo não fica na casa para sempre, mas o filho sim, fica para sempre. 36Se, portanto, o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres” (Jo 8,31-36).

“14Porquanto os filhos participam da mesma natureza, da mesma carne e do sangue, também ele participou, a fim de destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio, 15e libertar aqueles que, pelo medo da morte, estavam toda a vida sujeitos a uma verdadeira escravidão” (Hb 2,14-15).

A Verdade é o amor e o poder de Deus. Conhecendo esse amor e esse poder, mais fortes que a morte, a pessoa perde o medo da morte, dos sofrimentos e inseguranças da vida mortal, e assim fica libertada desse condicionamento, que, como diz Jesus, é uma escravidão. Tornada verdadeiramente livre, o espaço da sua liberdade é aumentado e os condicionamentos internos a essa liberdade são praticamente cancelados.
É preciso compreender que as ambições de poder, de riquezas e glórias terrenas são também condicionamentos do medo da morte. A necessidade da pessoa humana se afirmar e demonstrar força e segurança são também reflexos da sua insegurança vital devida à morte do corpo. Também desses apegos a Verdade de Cristo liberta.
7.1. A Teologia Moral, o agir humano livre e racional e o agir cristão – colocação das questões
A Teologia Moral estuda a ação humana segundo a Revelação do Criador em Jesus de Nazaré. Qual é a especificidade do agir cristão? Esta é uma questão fundamental que a Teologia Moral deve responder. Podemos, para chegar a essa resposta, tentar responder a uma outra questão: qual é a especificidade do agir humano livre e racional? Veremos logo que a especificidade do agir humano livre e racional – o agir que interessa à filosofia moral – é agir em vista de um fim articulado racionalmente com a ação por meio de uma idéia.
7.2. A pessoa humana age geralmente em vista de uma necessidade
Na condição humana mortal, a pessoa tem sempre como fim a satisfação de uma necessidade percebida; a idéia é a associação da coisa querida como eficaz para remediar a necessidade sentida: aparece o apetite da vontade. Se perguntarmos sobre a ação humana em um terreno específico de atividade que é a atividade religiosa, podemos perguntar: por que as pessoas vão à Igreja? Para obter consolações, paz, alívio para o ‘stress’, curas, sucesso, bênçãos etc. Podemos ver que todas essas metas correspondem a necessidades sentidas de uma ou outra forma. O fim que se busca, até no campo religioso, é a resposta a necessidades sentidas, a satisfação das necessidades, e o ser humano vai sempre agindo pressionado por uma carência que parece não ter fim. Não só agindo, mas pensando e vivendo num universo que tende para o utilitarismo, para o pragmatismo. Neste caso, as coisas só têm sentido se ‘servem’ à satisfação de uma necessidade percebida. Todo o resto tende a ser desprezado e ignorado, totalmente desvalorizado.
7.3. As necessidades humanas são um critério de ação caótico, não racional, e nunca realizado
As necessidades percebidas como reclamando solução imediata são necessidades ligadas à garantia da estabilidade do desfrute da vida humana: conservação do corpo, segurança financeira, aceitação social da pessoa etc. As necessidades são percebidas pela mente de cada pessoa. Nem sempre correspondem ao verdadeiro bem da pessoa. Deve-se observar ainda, que as necessidades são percebidas, em boa parte, no nível do relacionamento humano, na comparação entre as pessoas e o que elas têm. Se alguém tem algo mais prático do que o que eu tenho, o que o outro tem passa a ser uma necessidade para mim, mesmo que eu me tenha servido do meu meio até aqui com muito bom proveito. Uma vez satisfeito certo nível de necessidades, como, por exemplo, a segurança corporal, surgem sempre novos sentimentos de necessidade, como sentir-se amado, admirado, satisfazer curiosidades etc., numa progressão infinita. Satisfazendo umas necessidades, surgem outras e assim por diante.
Isto concorda com o famoso dito de Santo Agostinho: “Vós o incitais a que se deleite nos vossos louvores, porque nos criastes para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousar em Vós” (Confissões 1,1).
7.4. O critério de agir para satisfazer as necessidades surge do pecado original e da perda da Sabedoria e da Graça
A pessoa humana não foi criada nessa situação de sentir necessidade, e viver assim, com o coração inquieto. Segundo o Gênesis, a pessoa humana, homem e mulher, foi criada e colocada no Paraíso, ou seja numa situação de saciedade. A pessoa humana não sentia a alimentação como se sente hoje, uma necessidade, porque não fazia a experiência da fome, alimentar-se não era ‘uma luta pela vida’, mas era uma experiência gozosa de receber um deleite de seu Criador. A necessidade surge com o pecado. Pelo pecado, o homem e a mulher não mais repousam no seu Criador, mas desejam fazer a experiência de “serem como Deus”, isto é, se bastarem a si mesmos. Como isto não corresponde à sua realidade, pois são, na verdade, criaturas e dependentes, perdem a experiência de receber a vida continuamente por graça de Deus e passam a fazer a experiência de “lutar para viver”, na verdade colocando sua vida como dependente das criaturas, do alimento do solo, do poder sobre as coisas e os outros seres humanos, etc. em vista de desfrutar a vida, a qual, no entanto, é mortal. Surge, assim, a necessidade. Impossibilitado de superar a morte, que seria sua ‘necessidade’ fundamental, a pessoa humana vai buscar o desfrute da vida mortal como sucedâneo de sua verdadeira necessidade, a vida imortal. Vai tentar sempre satisfazer necessidades que surgem infinitamente por não imaginar como superar a escravidão da necessidade, não cogitar como alcançar a imortalidade.
7.5. A satisfação das necessidades e a paz interior.
A pessoa humana neste mundo é carente, cheia de necessidades. Quando dizemos que agir só em vista de necessidades torna a pessoa humana escrava e nunca satisfeita, temos em vista a perfeição. Mas, na terra não temos ainda a perfeição, embora tendamos para ela. Os grandes educadores e formadores de comunidade são os que buscam atender as necessidades das pessoas em suas fraquezas, mas paulatinamente, na medida em que a graça divina o permite, tentam libertá-las delas no mais alto grau possível, aceitando, no entanto, suas fraquezas. Aqui recorremos a São Bento, um dos grandes sábios formadores de comunidades da História da Igreja.
“Para Bento, a paz surge numa comunidade quando cada um reconhece seus próprios desejos e necessidades e quando o abade decide, com o dom da distinção (discretio) até onde se deve levar em conta as necessidades individuais de cada um.

‘Devemos ater-nos à frase da Escritura: «A cada um foi dado de acordo com suas necessidades» (At 4,35). Com isso, não queremos dizer que alguém deva ser privilegiado, o que está fora de cogitação. Mas devemos considerar as fraquezas (infirmitates) de cada um. Aquele que precisa de menos deve agradecer a Deus e não ficar triste. Aquele que precisa de mais deve ser humilde diante de suas fraquezas e não se tornar arrogante por causa da generosidade dos outros. Assim, todos os membros da comunidade ficarão em paz’ (Regra de São Bento 34,1-5).

Nessas frases está contido todo um programa de paz. A condição para a paz numa comunidade é que cada um consiga lidar corretamente com suas necessidades. Essas necessidade não devem ser reprimidas, mas também não podem ser justificadas por razões as mais diversas, ou até apresentadas como uma exigência. A necessidade é sempre a confissão de uma fraqueza. Mesmo assim a necessidade tem seu direito. E Bento concorda que ela deve ser satisfeita. Mas sempre com consciência: ‘Eu preciso disso, porque sou fraco demais para renunciar’. Como ainda não chegamos lá, ao que se refere ao nosso autocontrole, para nosso equilíbrio emocional precisamos de uma boa comida. Como ainda não amamos a Deus o suficiente, precisamos de muita dedicação humana, para manter nossa saúde psíquica. Quando levamos em conta nossas necessidades desse modo, e também as aceitamos, em função de nossa fraqueza, sentimo-nos em paz conosco mesmos, e elas não se tornam uma agressão para aqueles que não as têm. Inversamente, aqueles que têm menos necessidades, que se satisfazem com menos comida, não devem sentir-se orgulhosos e elevar-se acima dos mais fracos. Isso apenas provocaria uma comparação estéril, que em síntese é a causa de toda intranqüilidade. Eles devem agradecer a Deus precisar menos, mas sem se colocar acima dos outros. Então a renúncia os tornará alegres, internamente. Satisfazer necessidades agradecendo e conseguir renunciar agradecendo constituem-se num caminho à paz individual, e assim também à paz numa comunidade. Essa postura evita a queixa, que paralisa qualquer progresso espiritual. Bento enfrenta a queixa tão enfaticamente, porque esse vício ameaça a paz na comunidade.

“É, sobretudo, o vício da queixa que não deve aflorar em nenhuma palavra e em nenhuma menção, pois isso pode constituir-se num estímulo. (…) (Regra de São Bento 34,6s).

A queixa mostra que estamos insatisfeitos conosco mesmos. Mas em vez de aceitarmos nossa insatisfação, transferimos a causa à comunidade e com isso produzimos insatisfação e confusão. Achamos que devemos criticar sempre tudo e todos. Sempre buscamos os motivos para as condições insatisfatórias nos outros (…). Não temos coragem de reconhecer que por trás de nossa ânsia de crítica existe em nós um mal-estar inconsciente. Muitas vezes nosso desejo de sempre querer melhorar tudo surge a partir de uma rejeição inconsciente de nós mesmos. Como não conseguimos suportar nós mesmos e nossas fraquezas, recusamo-nos a aceitar as fraquezas dos outros. Mas uma melhoria autêntica só é possível quando ocorre a partir do amor, isto é, da aceitação das próprias fraquezas assim como mas dos outros” .
Neste texto então condensados os princípios da vida cristã que enunciamos.
7.6. O critério de agir para satisfazer as necessidades é limitado à dimensão da vida mortal e rejeita a oferta da Vida Eterna
Podemos lembrar o prólogo do Evangelho segundo São João:

“4Nele havia a vida, e a vida era a luz dos homens. 5A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. 9[O Verbo] era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem. 10Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu. 11Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam” (Jo 1,4-5.9-11).

Vemos aqui um desencontro de dois que caminham, um na direção do outro. O homem, nas suas trevas, busca a luz, ameaçado, busca satisfazer as necessidades que sente em vista de garantir a sua vida (v. 4). A Luz, que criou o mundo, e é, também, a Vida, vem ao encontro do homem, mas este, que busca a vida, não A acolhe. Por que não A acolhe?
Para responder a essa pergunta precisamos perceber que a criatura humana tem sede de vida (por isso quer satisfazer suas necessidades) mas coloca a sua busca de vida no nível inferior desta vida mortal. Todos os sonhos humanos são o de tornar esta vida mortal melhor, mas não ousando sair do círculo fechado da mortalidade.
O Verbo, que se fez carne, nosso Senhor Jesus Cristo, trouxe a Vida, Vida real, que não se situa nos limites da mortalidade, mas a supera, e nisso revela a natureza de Deus, que é o Vivente. Deus é Amor que Se doa, relação de Pessoas que vivem para as outras e não para Si mesmas. A vida de Deus na carne humana faz da mortalidade o sinal do amor que se doa e, por isso, sacrifica a sensação de desfrute da vida mortal (que é sempre passageira) em vista de divinizar a vida humana e alcançar a VIDA, no nível superior que é a imortalidade. Não querendo o homem sacrificar a sua sensação de desfrute da vida mortal, a oferta que Deus faz não é aceita pelo homem, pela humanidade como um bloco, mas pode ser aceita por cada pessoa humana em sua liberdade.
“Mas aos que O receberam deu-lhes a capacidade de se tornarem Filhos de Deus” (Jo 1,12). Tal aceitação exige a renúncia ao desfrute da vida mortal como meta de felicidade. Tal renúncia é, ao mesmo tempo, a libertação do homem da necessidade, da obrigatoriedade de satisfazer às necessidades sentidas.
7.7. As necessidades de defender-se e a necessidade de comunicar-se não podem ser satisfeitas simultaneamente
No nível das necessidades, os anseios do homem, em sua ‘luta pela vida’, tendem a levá-lo a fechar-se em si mesmo, a guardar para si, segundo um impulso de auto-defesa, de segurança. Isto que leva à não-comunicação com o outro. A natureza humana porém é de pessoa criada à imagem e semelhança de Deus, para comunicar-se a ponto de entrar em comunhão com as Pessoas Divinas e com as outras pessoas humanas. O homem sente necessidade de comunicar-se, pois isso faz parte de sua natureza, mas essa comunicação lhe custa, é difícil, ameaça o seu desejo de desfrutar a vida mortal e a sua sensação de estabilidade. Estas duas estradas, segurança ou comunicação não podem ser seguidas simultaneamente. A pessoa ou tende para a comunicação e coloca em risco a segurança, ou privilegia a segurança e recalca a sua comunicação, a sua capacidade de entrar em comunhão com o outro. Ou se guarda para si, ou se dá. Jesus Cristo, conduzido pelo Espírito Santo, Espírito de Comunhão Unitária com Seu Pai Celestial viveu para a comunicação e nada guardou para Si, não se preocupando com a sua segurança, não retendo para Si uma vida mortal, mas buscando a vida imortal. O acolhimento do Verbo que Se fez carne faz prevalecer a comunicação e sacrifica a estabilidade e o desejo de desfrute.
7.8. O caminho da segurança é o da carne e o caminho da comunicação é o do Espírito
Estes dois caminhos marcam toda a vida da pessoa. A percepção de dois caminhos opostos para a vida humana é muito antiga. Já o Salmo 1 a apontava, opondo o caminho dos justos ao dos ímpios. A Didaché, documento cristão do século I, também inicia assim: “Há dois caminhos: um da vida e outro da morte. A diferença entre ambos é grande” (1,1). Identificamos esses dois caminhos da seguinte forma.
7.9. O caminho da vida
O caminho da vida é o da comunicação, que se abre à fé de que o anseio do homem para o amor e a comunicação será realizado e que se é preciso sacrificar a vida mortal para realizar plenamente esse anseio, é porque há uma outra vida, sem inseguranças, sem morte, em que essa opção realizada nesta vida mortal atinge a plenitude e a pessoa humana atinge a plena comunhão com Deus e com seus semelhantes realizando seu anseio mais nobre, o amor. É um caminho de fé, guiado pelo conhecimento revelado, de esperança, fundamentado na confiança de que nada perde se tudo perde neste mundo mortal para amar, e de caridade, que nada antepõe ao amor de Deus. A pessoa não busca segurança, nem gozo da carne nem poder. É o caminho do Espírito, de quem “nasceu do Alto” (cf. Jo 3,3-7). Nesse caminho, por não defender-se, a pessoa pode ser autêntica, não precisa agradar aos homens, vive segundo a verdade e alcança a plenitude da sua personalidade, sem alienar-se para conseguir objetivos terrenos. Vive uma inocência, simbolizada pela nudez dos primeiros pais nos Paraíso.
7.10. O caminho da morte
O caminho da morte é o caminho da segurança da vida mortal. A pessoa sente inconsciente ou conscientemente sua vida ameaçada. O sentimento inconsciente de insegurança a leva a uma permanente ‘luta’ na qual ela busca satisfazer as suas necessidades de estabilidade. Busca então aumentar seu poder sobre a natureza, sobre as outras pessoas e até sobre Deus, segundo um sentimento religioso pagão. A pessoa quer poder para conquistar, para ter, para dominar e quer conquistar para poder sempre mais. Rejeita a comunicação autêntica com o outro pois essa comunicação abre brechas na sua segurança, na sua dinâmica de ‘sempre levar vantagem’ segundo a lógica da segurança. As relações pessoais tendem a ser marcadas pela mesma lógica de conquista o que leva a pessoa a se artificializar para agradar, para conquistar a benevolência de outros e obter vantagem, num caminho de carência que aliena a pessoa, que, aos poucos não conhece mais a sua verdadeira personalidade. Acaba completamente mascarado. A posse do poder, e do ter o leva a colocar seu prazer no desfrute dessas conquistas. É um caminho fechado à superação da morte e que não questiona a perda, por causa da morte, de tudo o que foi conquistado. Este caminho não é só o dos ambiciosos e gananciosos, que chegam muitas vezes a ser ousados, mas é também o dos covardes, dos tímidos, dos carentes, que colocam no julgamento dos outros a sua segurança. É o caminho da carne (cf. Rm 8,5-6) que leva à morte, da qual tanto fugiu.
7.11. A busca da necessidade leva a tentar manipular o próprio Deus e adorar a ciência
A humanidade, porém, em suas trevas, não só rejeita o Verbo, não só não recebe o Verbo, mas tenta fazer o Seu Nome servir aos objetivos humanos de mais vida no nível da mortalidade. Os ídolos dos pagãos e as falsas imagens do Deus dos cristãos sempre estão a serviço desses objetivos ao nível da mortalidade. Por isso os judeus querem um messias que seja um vitorioso político e militar e pedem milagres sempre dentro do nível da mortalidade. Até as ‘ressurreições’ de Lázaro, da filha de Jairo e do filho da viúva de Naim, são no nível da mortalidade, pois são reanimações para esta vida mortal. Os gregos querem sabedoria eficaz ao nível da vida terrena mortal. A ciência moderna também é a panacéia, sempre encontrando soluções dentro do nível da vida mortal, da satisfação das necessidades terrenas dos homens. Todos, judeus, gregos e modernos, querem um messias que sirva aos objetivos deles mesmos. Um messias ‘útil’ ao nível da sabedoria mortal. Jesus, porém, não aceita pressões, se ausenta quando querem fazê-Lo rei (cf. Jo 6, 15) e não se deixa manipular. “Nós pregamos Cristo Crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os pagãos, mas que é sabedoria de Deus” (cf. 1Cor 1,17-25).
7.12. A caridade cristã é dar a vida para que outros tenham vida
A clareza desses conceitos nem sempre está presente na consciência dos cristãos, membros de Jesus Cristo, Jesus Cristo presente realmente no hoje da história. Um dos sinais ou meios pelos quais nos é possível viver a auto-doação divina é justamente a caridade e a compaixão para com o próximo em suas necessidades.

“11Quem tem duas túnicas dê uma a quem não tem e quem tiver comida faça o mesmo” (cf. Lc 3,11).

É um dos sinais mais concretos e compreensíveis pelos homens em suas trevas, fechados em suas carências e necessidades. Para o cristão esclarecido, a doação de sua vida – ao doar coisas deve estar doando a si mesmo (cf. Lc 21,2-4) – no nível das necessidades da vida mortal é um sacramento da vida divina onde será como Deus, uma kenose permanente de Amor.
7.13. A caridade se perverte em luta para satisfazer necessidades mortais
O mundo moderno, marcado por grandes conquistas no nível das respostas às necessidades humanas (tecnologia moderna em todos os âmbitos de atividade), através da ciência e da tecnologia, passa a prezar cada vez mais a eficiência e a utilidade prática, sempre dentro do nível da necessidade. Tudo deve servir no nível da satisfação das necessidades humanas. Os cristãos querem, por sua vez, anunciar e testemunhar o Amor de Deus, e o canal é a sua caridade, o seu sacrifício de suas próprias necessidades, o que lhes permite suprir a muitas necessidades dos pobres e dos deserdados. O terreno fica, assim, preparado. O mundo vai cobrar que a Igreja seja ‘útil’. Vem, por exemplo, o marxismo, proclamando que a religião, ao apontar para uma vida eterna, que se alcança com o recalque das satisfações desta vida, está servindo à injustiça, à dominação e à exploração dos pobres. Muitos cristãos, perdendo a consciência da transcendência do Reino de Deus e da motivação cristã deixar-se-ão cooptar por esta crítica e com um certo complexo de inferioridade – como que colocando a carapuça que o marxista lhe apresenta – passarão a militar no nível político e social sem perspectiva transcendente, nível das necessidades e da luta contra a morte corporal, inevitável, proclamarão que estão “construindo o Reino de Deus”, a verdadeira proclamação do Reino de Deus será sempre mais relativizada e incompreendida e o serviço da caridade ao próximo mudará de sentido.
a) Na lógica evangélica é muito menos importante o que recebe o auxílio para uma necessidade do que aquele que dá. O que recebe o auxílio recebe sempre um dom finito, no nível da vida mortal. O que dá torna-se membro divino, pelo qual o Criador age e, por isso, ‘participa’ do Criador, está em comunhão com Ele. O centro é Jesus que dá, cura etc. e não os doentes e sofredores que imploram. Da mesma forma, no agir cristão, o centro é o agente, não o receptor. Não se busca, em primeiro lugar satisfazer necessidades, mas divinizar pessoas humanas. Se as necessidades são atendidas por um esquema racional de produção e distribuição de bens, mas não há auto-doação, não há um agir especificamente cristão. A ação cristã distingue-se da eficiência humana (cf. Lc 12,41-44). Na perspectiva das necessidades humanas que estamos examinando, ao invés de ser uma expressão do sujeito que o pratica com a renúncia de si mesmo e, assim, anuncia o Reino dos Céus, o ato de caridade tem a sua expressão no receptor que, tendo suas necessidades mortais satisfeitas, torna-se, para o homem fechado no imanente, sinal de esperança de um mundo futuro no qual todas as necessidades mortais serão satisfeitas, mundo esse identificado erroneamente com o Reino de Deus, que passa a ser “deste mundo” (cf. Jo 18,36).
b) a caridade como serviço de um ou mais sujeitos a um ou mais receptores será identificada com um paliativo, uma ação localizada e pequena, incapaz de realizar uma grande transformação que nos aproxime do ideal do mundo em que todas as necessidades serão satisfeitas. Almejar-se-á, por isso, a uma mudança das estruturas do mundo e, portanto, a uma crescente valorização do poder político – que Jesus Cristo rejeitou – como meio “cristão” de apostolado, ou de “construir o Reino de Deus”, concebido como uma realidade humana, fruto de um esforço humano, o que é evidente heresia.
Mas não só o marxismo, com a sua crítica à religião transcendente, conduz a Igreja a caminhos que não são os de Jesus Cristo. Também o capitalismo e o liberalismo, com suas grandes conquistas na área do bem-estar e sua dinâmica interna que gera “ricos cada vez mais ricos à custa de pobres cada vez mais pobres” conduz a Igreja no mesmo sentido. Os avanços dos meios de bem-estar se tornam sempre novas necessidades – coisas que antes nem existiam passam a ser indispensáveis – fazendo daqueles que não as desfrutam “pobres cada vez mais pobres”. Isso induz também a uma idealização de um suposto mundo igualitário a ser ‘construído’ como sinal indispensável do Reino de Deus. E a Igreja sente-se omissa, no mesmo complexo de inferioridade já mencionado, se esse suposto mundo igualitário não se torna meta de sua missão.
Vai, então, a Igreja por um caminho que Jesus Cristo rejeitou, o caminho de que a Igreja (ou Jesus Cristo mesmo!) tem que “servir para alguma coisa”, tem que ter uma relevância histórica. É uma grande tentação, já multissecular, do Ocidente cristão.
A Igreja não deve deixar-se julgar pelo mundo (cf. 1Cor 4,3), não precisa ‘servir’ para nada, segundo o julgamento do mundo. Assim como a dignidade de uma pessoa humana não depende de ela ‘servir’ para algo, mas de sua própria natureza, a importância da Igreja vem do Alto e não da consideração dos homens, ainda mais condicionados pela miséria do seu imanentismo.
7.14. A Missão da Igreja
Qual é, então, a missão da Igreja? Jesus não mudou, nem mandou mudar, as estruturas da sociedade de seu tempo. Ao menos de forma direta, como etapa da “construção do Reino de Deus”. Mas viveu e morreu de forma irrelevante para a transformação da história, ao menos segundo os padrões da força política direta, de qualquer capacidade de exercer violência e impor a própria vontade. Assim deve ser a Igreja, seu Corpo (cf. Mc 4,26-29). Anúncio da Palavra, distribuição criteriosa dos sacramentos da graça de Deus em vista da libertação de cada pessoa do nível da necessidade mortal para o nível da imortalidade, que possibilitará a ela o dom-de-si. Esta transformação interna das pessoas segundo o Espírito e o exemplo de Jesus Cristo age como um fermento historicamente imperceptível na massa humana trazendo benefícios de diversas ordens, não só econômicos, mas culturais e espirituais, mais possibilidades de haver mais vida humana e menos destruição da espécie humana, benefícios esses que são conseguidos de modo totalmente alheio à atividade política, ou seja, sem nenhuma colaboração e até contra a oposição do poder político.

“33Buscai antes o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo” (cf. Mt 6,33; Lc 12,31; Cl 3,1-3).
7.15. O específico do agir cristão
Após refletir sobre esses elementos, voltemos à questão original: qual é a especificidade do agir cristão? Respondamos: é um agir não condicionado, em primeiro lugar, por nenhuma necessidade ou carência em vista da capacidade de desfrute da vida mortal, mas um agir motivado pela certeza do dom gratuito desta vida e da vida futura e que transmite, no nível desta vida mortal, a própria vida. A natureza da vida cristã não é da ordem deste mundo fechado nos limites da mortalidade, lutando sempre contra uma morte corporal que é implacável. A vida cristã não consiste em satisfazer carências ao nível da mortalidade mas de viver já neste mundo no nível divino da imortalidade (cf. Cl 3,1-3). Esse nível divino se dá pelo esvaziamento de si mesmo e pela conseqüente auto-doação da pessoa.

“Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria!” (1Cor 13,3).

“Recebestes de graça, de graça dai!” (Mt 10,8).
7.16. Só a verdade escapa às estruturas de significado criadas pelo homem nas suas necessidades
Em grande parte a necessidade dos homens decorre de sentirem-se dependentes dos juízos dos outros homens. Os fariseus faziam muitas ações “só para serem vistos pelos homens” (cf. Mt 6,1.5;23,5). É uma necessidade de ser valorizado pelos outros. O dinheiro e o ouro só tem poder porque há quem os valorize. Assim, todo poder humano é uma estrutura de troca de apoios segundo um esquema e quem está no topo, no fundo depende de quem o apóia. Qual é a única instância que tem valor em si mesmo, mesmo que ninguém valorize? Que não depende de nenhuma estrutura de significado criada pela mente humana? A Verdade.
7.17. Recapitulação
Recapitulando: é fácil perceber que as pessoas agem pressionadas por uma necessidade; mas também não é difícil perceber que é vivendo os valores da amizade, do sacrifício, do amor gratuito, que a pessoa humana realmente se realiza; a necessidade do desprendimento de si se opõe à sede de satisfação das outras necessidades. De onde surgem as necessidades: do corpo mortal, que pede alimentação, conforto, etc.; da mente humana, que criada à imagem de Deus para amá-Lo, perverte a sua grandeza em orgulho e vaidade, de ser alguém fora da comunhão divina; da sociedade, que impõe modelos de comportamento e hábitos; das comparações e do medo de não ser aceito por outrem; necessidades artificiais dos supérfluos da tecnologia moderna. E muitas outras fontes. Aonde leva o desejo de satisfazer as necessidades? Aonde levaria a satisfação plena de todas as necessidades terrenas, se é que é possível? O universo das necessidades é infinito, pois a pessoa humana foi criada para o infinito, para Deus. Mesmo satisfeitas as necessidades terrenas a mente cria novas, através do orgulho e a pessoa humana pode realmente imaginar-se, apesar de frágil e mortal, como um deus, no infinito de sua insensatez. Daí ser muito importante a aceitação de si mesmo, da própria personalidade, dos dons que se recebeu de Deus, sem nenhuma comparação com nenhuma outra pessoa humana; toda comparação, poderíamos dizer, ‘vem do maligno’ (cf. Mt 5,36). A pessoa humana precisa dar o ‘sim’ à sua própria personalidade, à verdade do seu ser, semelhante a todas as outras pessoas humanas e única, diferente de todas. E tudo isso será o reconhecimento da sabedoria de Deus, a Inteligência criadora, a Causa primeira, a única fonte de existência de todos os seres do universo. A pessoa humana alcança a sua perfeição e a perfeita adoração de Deus quando se apóia existencialmente, psicologicamente, afetivamente, fisicamente só em Deus e em nenhuma das criaturas pelas quais Deus age para lhe manter na vida e na existência. Todas as criaturas são para o bem de cada pessoa humana, mas esta não deve apoiar-se em nenhuma criatura, mas só em Deus mesmo. Esta é a Verdade.
7.18. A Ordem divina das coisas
Na fé cristã deve-se sempre pensar segundo a ordem seguinte: Tudo é para cada pessoa humana considerada e a pessoa humana é para Deus.

“21Portanto, ninguém ponha sua glória nos homens. Tudo é vosso: 22Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, o presente e o futuro. Tudo é vosso! 23Mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (1Cor 3,21-23).

Destarte, na ação moral o agente é mais importante, sempre, que o receptor da ação. Isto porque o que Deus quis, ao criar o mundo e o ser humano nele à sua imagem foi apenas fazer com que criaturas racionais, criadas à sua imagem, participassem da sua vida divina, no seio da Santíssima Trindade. Assim, o agente, ao agir segundo a razão e a verdade está exercendo uma capacidade divina, está doando-se na ação moral e, assim, o plano de Deus está se realizando nele, ele está “recebendo de graça e dando de graça”, a vida da Trindade está acontecendo nele. Quanto ao receptor, por melhor que seja a ação do agente, este só pode transmitir elementos de vida mortal, não pode criar no outro a vida imortal. Sua doação é uma graça que o receptor só pode divinizar se, por sua vez ele agir, na medida de seus dons, transmitindo graciosamente o que recebeu. Então a importância da doação só atinge seu ápice quando o receptor se torna agente. Até o próprio Deus, ao derramar a Sua graça sobre o homem, se o homem receptor não a acolhe transmitindo por sua vez a graça, torna infrutífera a graça de Deus. Então o que se faz segundo o Espírito de Deus, a ação moral realmente cristã beneficia sempre mais o agente do que o receptor da ação. Por isso, nas comunidades religiosas é comum encontrar em suas regras que o seu fim primário é a santificação de seus membros e só secundariamente a ação caritativa da comunidade segundo seu carisma.
7.19. O critério da ação divina
Em vista de que Deus age? Sempre em vista de criar seres capazes de participar de Sua Vida divina e conduzi-los a essa Vida. Deus “o Vivente” e é “o que É” (cf. Ex 3,14). Na sua Unidade é “o que É” – tem em Si mesmo toda a sua consistência metafísica – e na sua Trindade Vive, isto é, é relacionamento de Pessoas que não têm em Si mesmas a sua consistência metafísica, mas sim na relação de dom-de-si – Amor – com as outras.
7.20. A pessoa humana é chamada à Comunhão Divina com o Filho
Deus criou seres à Sua Imagem e Semelhança: os seres humanos e os anjos. À semelhança do Deus Uno, tem em si mesmos a sua consistência metafísica, isto é, são. À semelhança das Pessoas divinas são pessoas, isto é, tem em sua natureza a vocação de comunicar-se e entrar em comunhão com outras pessoas. Os outros seres vivos que Deus criou, as plantas e os animais, tem também o ser e se relacionam, vivem por uma relação de vida com o meio ambiente que as alimenta e faz delas também alimento para outros seres. Mas não são pessoas porque não participam conscientemente desse processo, não o vivem segundo a liberdade, e, mesmo realizando todo o desígnio divino a seu respeito, não amam. O ser humano é pessoa porque é capaz de livre relacionamento de vida. A vocação do homem é tornar-se divino na relação unificante com a 2.ª Pessoa Divina. Essa relação unificante se dá pela livre doação das Pessoas Divinas. O Pai Se dá ao Homem dando o Seu Filho, e assim amando o homem. O Filho Se dá, encarnando-Se e entrando na unidade da carne humana (cf. Gn 2,24). Ao não proteger sua vida mortal, mas dá-la completamente no serviço aos outros homens e na Sua Paixão, o Filho vive em relação aos homens a mesma relação de dom-de-si absoluto que caracteriza as Pessoas Divinas, ou seja, derrama sobre a carne humana o Espírito Santo, a 3. ª Pessoa da Trindade. Cada pessoa, acolhendo esse Espírito, dado por graça, torna-se capaz de superar o movimento de auto-preservação da carne humana e de viver o dom-de-si, o Amor, divino. O Filho estabelece assim entre Ele e os homens a mesma relação unificante que existe entre o Pai e Ele próprio, a unidade do Espírito Santo. Isso constituirá a Igreja, o Corpo do Filho, reunindo na unidade os homens que O acolheram.
7.21. Esvaziar-se do ser em si para ser pessoa na unidade divina do Ser
Deus criou o homem como um ser próprio, distinto do de Deus, para ele poder aderir a Deus livremente, não por uma natureza já divina, como as Pessoas Divinas, o Filho, gerado eternamente do Pai e o Espírito Santo que procede do Pai e do Filho. O homem não é divino porque a sua substância não é a substância única do Deus Uno. É outro ser. Mas é pessoa, para entrar livremente no relacionamento divino. Para entrar no relacionamento divino devem esvaziar-se de si (cf. Fl 2,7) aniquilando o seu ser e afirmando a sua personalidade, a sua relacionalidade, para unificarem o seu ser como o Ser Único de Deus e participarem da comunhão divina, pela participação-comunhão na Pessoa do Filho. Este é o culto em espírito e verdade (cf. Jo 4,20-24; Rm 12,1): aniquilar seu ser mortal para entrar na comunhão do Ser Único de Deus, na comunhão da vida do Pai, pelo Filho, na unidade do Espírito Santo.
Esta foi a missão de Jesus Cristo, que assumiu a nossa natureza mortal para redimir-nos. Aniquilou-Se, fez-Se oferenda para o Pai, na sua humanidade, no Seu Corpo, divinizando-O. Quem com Ele se aniquila torna-se membro do seu Corpo, participa da Sua relação divina com o Pai no Espírito Santo, isto é, se torna santo. A Igreja é o Corpo de Cristo. Por isso, a Igreja é chamada a aniquilar-se também e desse modo divinizar-se. É desse nível a missão da Igreja.
Os homens, criados no ser, para viver plena e eternamente, mas mortais, lutam contra a morte corporal, o que os retém na vida mortal que quereriam eterna; por isso resistem a aniquilar-se na relação de amor-dom-de-si. Querem buscar a afirmação do seu ser na conservação de sua vida mortal e isto os coloca como carentes de uma série de necessidades sentidas: justiça humana, vitória sobre as doenças e a fome etc. que são buscadas como suportes, em si mesmas da vida humana. No nível das necessidades o acento é colocado no efeito da ação e no receptor da ação e não no agente. A pergunta é: para que serve?
A intenção de Deus visa sempre a santificação do agente, isto é, por meio de seus atos a pessoa se aniquila, se oferece, se une a Deus.
7.22. A tentação moral e temporal da Igreja
A tentação da Igreja é, portanto, querer servir aos objetivos imanentes dos homens, que não são os fins transcendentes de Deus. É querer ser historicamente relevante, na história que os homens escrevem, não percebendo a história de Deus. É colocar o acento no efeito imanente das ações humanas, construir o que é mortal e será destruído pela morte, e não na santificação do agente livre, que permanece para sempre. Assim fazendo a Igreja trai a sua missão; Jesus Cristo só fez a vontade do Pai, e não a do mundo. Afirmou claramente não pertencer a este mundo (cf. Jo 8,23; 17,14.16) e que o seu Reino também não é deste mundo (cf. Jo 18,36).
7.23. A inconsistência do mundo dos homens
O mundo criado em função das necessidades da vida mortal é um mundo “virtual”, montado sobre valores criados pelo homem. O dinheiro e o ouro só tem valor porque há quem os valorize. Os títulos de nobreza, de profissão etc. também. Os homens criam uma hierarquia de títulos e poder conforme a capacidade que cada pessoa adquire de satisfazer necessidades suas ou de outrem, segundo o saber, a posse etc., numa palavra, segundo o poder humano que lhe é reconhecido. Esses valores acabam inoculados na pessoa e esta confunde o seu ser com valorações que possui na sociedade, alienando-se da verdade sobre si mesma. Nós somos o que somos diante de Deus, que vê a verdade e é a Verdade. Não somos o que os homens nos consideram presos aos condicionamentos da sua condição mortal e sua sede de satisfazer suas necessidades ‘virtuais’. Por isso Jesus, nos Evangelhos, aconselha a não fazermos as obras “diante dos homens, só para ser vistos por eles”. Há até sacerdotes que prezam muito seus títulos de ‘doutor’… Todo esse mundo dos valores segundo os homens não tem consistência. Jesus Cristo nos diz: “Os chefes das nações as tiranizam. Entre vós não deverá ser assim. Entre vós, o que quiser ser grande seja o servo de todos”. Ou seja, todo o poder e capacidade de uma pessoa deve ser atribuído a Deus como graça recebida para ser transmitida servindo ao próximo, e nunca para a própria segurança e importância (necessidade inata de sentir-se forte e valorizado pelo próximo). A verdade de uma pessoa humana é o seu ‘nada’. Nesse ‘nada’ as obras de Deus são atribuídas a Deus, tudo é graça pura d’Ele, as obras, as ações, são d’Ele e a pessoa humana, na sua liberdade, se faz instrumento dessa ação divina de transmitir sua Vida distribuindo graças. Maria santíssima realiza isso perfeitamente. Nela o Senhor fez maravilhas, porque viu o ‘nada’ de sua serva. Por isso ela é a “cheia de graça”.
O mundo virtual da necessidade é onipresente em nossa mente e em torno a nós. Por exemplo, as comunidades religiosas são muito procuradas por pessoas carentes de afeto, de carinho, inseguras. Muitas vezes, para se inserirem, e por sentimentos de caridade natural, tais pessoas mostram muita disposição para o trabalho, o serviço, e por serem assim dedicadas tais pessoas são tidas por exemplares e santas. Na realidade, porém, o que determina muitas dessas pessoas é sempre a sua carência, a sua dependência de afeto e da aceitação humana, que ‘compram’ com o seu serviço. Os que as julgam santas também são condicionados pelas necessidades que os serviços dessas pessoas satisfazem e o alívio que sentem por se verem servidos. Observa-se a pouca independência e carência dessas pessoas e a fragilidade de sua relação com Deus ao se verificar como sofrem não se conformando com perdas, doenças, dores em geral, ingratidão em relação a esses serviços prestados; por isso, às vezes, são consideradas ‘sensíveis’. Na verdade ainda não superaram o nível das necessidades dos mortais para se abrir ao Espírito Santo imortal, que faz superar quaisquer necessidades pela renúncia absoluta a si mesmos. Ainda não são santas, por mais generosas, prestativas e sensíveis que pareçam.
A missão dos sacerdotes é contribuir para que as pessoas vivam a vida na graça de Deus, como a descrevemos acima. Mas também os sacerdotes estão no nível das necessidades e podem cair na tentação de, ao invés de libertar as pessoas para viver a liberdade evangélica da renúncia e superação do nível das necessidades, criarem máquinas eficientes de pessoas que servem e satisfazem necessidades de outras pessoas também buscando, como mostramos, satisfazer as suas, mas que não chegam nunca a realmente superar suas necessidades e viver livres, segundo a Verdade (cf. Jo 8,32). E essa carência e fraqueza é entendida como sendo ‘humana’ e chega-se a não entender a verdadeira liberdade e esvaziamento de si e achar que é utopia e impossível. Ou seja, os homens, buscando satisfazer suas necessidades criam um mundo ‘virtual’ e acusam a verdade de ser utópica, impossível e não existir. Para eles só existe o que é a fantasia humana. A verdadeira missão da Igreja e do padre é considerada impossível, utópica, inútil. As necessidades são tantas e as cobranças levam muitos a pensar que então a Igreja e os padres devem ser ‘úteis’, devem servir segundo as necessidades humanas e cai-se na tentação de passar a criar também o mundo ‘virtual’ das necessidades humanas. O clero passa então a valorizar mais a atividade política ou profissional do que o sacerdócio e perde sua identidade. Alguns abandonam o sacerdócio, outros continuam oficialmente no ministério mas não sabem mais o que é ser sacerdote católico.
Muitos carismas na Igreja passam da liberdade à necessidade. Ao surgir um carisma, pessoas se libertam, aparecem bons frutos, vem o desejo de continuar o carisma para colher frutos continuamente. Isto leva a estabelecer instituições, como uma ordem religiosa, um instituto ou algo assim. A instituição entra no mundo da necessidade, adquirindo, por exemplo, ao longo do tempo um patrimônio, o que faz aparecer sempre mais necessidades. Perde-se a liberdade inicial e a instituição tende a viver para satisfazer as suas necessidades. Surge o clamor de ‘voltar às origens’. Essa ‘volta às origens’ não significa só ‘atualizar’ o fundador, fazer uma re-leitura do fundador no novo contexto histórico em que se encontra, mas exige uma conversão, uma nova passagem da necessidade à liberdade, o que pode implicar a liquidação do patrimônio da instituição em vista da absoluta liberdade do início do carisma. Por que não?
7.24. Figura bíblica da necessidade e da verdadeira Vida
O diálogo de Jesus Cristo com a mulher samaritana junto ao Poço de Jacó, em Sicar, na Samaria, é particularmente esclarecedor do conflito entre o mundo da verdade e da liberdade e o mundo da necessidade (cf. Jo 4,5-38). A cena se desenrola no mundo da necessidade. Os discípulos de Jesus tinham ido comprar alimentos – denunciando uma das necessidades mais básicas, a necessidade paradigmática que, dominando o homem o afasta dos caminhos de Deus. A primeira fala de Jesus adulto no Evangelho é justamente:

“4Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4,4; Lc 4,4; Dt 8,3).

Jesus está com sede e pede de beber, revelando em sua humanidade o condicionamento humano pela necessidade. Diante da resposta da mulher, fruto das concorrências entre judeus e samaritanos e das dominações do homem sobre a mulher, tudo isso resultado dos condicionamentos que a necessidade deixou na civilização humana, Jesus fala de uma água viva que elimina para sempre a sede, isto é, fala não da satisfação constante da necessidade, perseguida pela ciência humana, mas da superação do nível da necessidade. E diz ainda que quem passa da necessidade para a liberdade torna-se fonte dessa mesma transformação para outros:

“14A água que eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna” (Jo 4,14).

Isto traz como conseqüências:
a) a pessoa libertada do nível da necessidade é capaz de satisfazer a necessidade de outros com mais facilidade;
b) a pessoa libertada ainda é capaz de libertar outros do nível da necessidade, o que significa que a pessoa que faz apostolado, que é enviada a libertar os outros da escravidão da carne, do nível da necessidade, deve ela mesma estar libertada sob pena do seu apostolado ser só aparente;
c) a liberdade que alguém goza por receber a ‘água viva’ que Jesus lhe deu já é antecipação da vida eterna, e vai crescendo na pessoa, impelindo-a num impulso crescente em direção à comunhão divina e a vida eterna.
A samaritana, sem entender o sentido simbólico da água viva, pede então da água viva para libertar-se do peso da necessidade (v.15). Jesus volta ao tema da necessidade, que é fruto do pecado original (cf. Gn 3,16b) que faz a mulher carente e dominada pelo marido. A mulher é conduzida por Jesus em direção ao mundo da verdade e da liberdade pelo reconhecimento e aceitação da miséria de sua condição. Confessa seus cinco maridos e seu concubinato. Jesus confirma que é verdade que ela não tem marido (v.17). Aquilo que satisfaz nossa necessidade não entra em comunhão conosco. A mulher não tem marido. “Ter marido” é ter uma relação de amor gratuito, livre e verdadeiro, que leva à comunhão de vida (cf. Gn 2,22-24). A mulher, representando a humanidade inteira, não tem marido, não vive a comunhão divina, porque sua relação é no nível das necessidades mortais, que é voltada para o ‘eu’ e impede o verdadeiro amor-dom-de-si livre. É preciso “falar a verdade” e a primeira verdade é reconhecer que no nível das necessidades mortais não amamos, dele não saímos se não formos socorridos pela graça do que dá a ‘água viva’, que devemos pedir essa libertação a Quem pode nos libertar, nos dar a ‘agua viva’, o Espírito Santo, que propicia o novo nascimento, do Alto (cf. Jo 3,3-6).
O relato passa então a considerar a construção humana e a construção divina no âmbito da relação humana com Deus. A samaritana pergunta se é no Monte da Samaria (Garizim) ou no Templo de Jerusalém, no Monte Sião, que se deve adorar Deus. Ambos são santuários construídos pela mão do homem nos quais se oferece sacrifícios, obras humanas que imploram a Deus atender às necessidades mortais dos homens. Jesus rejeita as duas alternativas (v.22) como adoração verdadeira a Deus e proclama uma nova:

“23Vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja. 24Deus é espírito, e os seus adoradores devem adorá-lo em espírito e verdade” (Jo 4,23-24).

Em Espírito: segundo o Espírito, que liberta o homem da carne, da escravidão das necessidades da vida mortal; em verdade: segundo a ação criadora de Deus que é verdadeira e não segundo o mundo ‘virtual’ que os homens constroem sob escravidão de suas necessidades. Este culto é o mesmo que São Paulo explica em Rm 12,1. Não sendo mais escravo, pelo novo nascimento no Espírito Santo, da necessidade do corpo que luta contra a morte, o corpo é oferecido no serviço ao próximo e o cansaço, a dor e a morte ‘voluntária’ de um é fonte de vida para o outro, realizando a nível dos corpos mortais o mistério de amor-dom-de-si que rege entre as Pessoas Divinas e as unifica numa só Vida.
Os discípulos de Jesus voltam e querem que Jesus coma, ou seja, satisfaça suas necessidades humanas. Jesus fala de um outro alimento que lhe dá Vida, que é seu Pai Celestial. A resposta de amor ao Pai na obediência à sua missão ‘alimenta’ Jesus (v.34). Jesus tem fome dos homens (v.35-38) que quer resgatar para a vida divina, comparados com os trigais que fornecem o alimento da necessidade mortal de que os homens tem fome. Jesus tem sede (cf. Jo 19,28) de homens também. Ele se vai fazer alimento e bebida, dando seu Corpo e seu Sangue (cf. Jo 6), realizando assim o culto em espírito e verdade, o dom-de-si, para que os que “recebem de graça, dêem também, de graça” (cf. Mt 10,8) e vivam a Vida Divina. “Um é o que semeia, outro é o que colhe” (cf. Jo 4,37-38): os discípulos, oferecendo seus corpos na obra divina, formam uma unidade, como se fossem um só agricultor, embora sejam pessoas diversas.
8. Nossa Vocação à Bem-Aventurança
8.1. As bem-aventuranças em Mateus correspondem aos princípios da moral cristã
A pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, foi criada para participar da vida divina. Assim como as Pessoas da Santíssima Trindade são Pessoas distintas, mas constituem uma só essência divina, uma só Vida, pelas relações entre elas, A pessoa humana foi criada para estabelecer com Deus, através da Segunda Pessoa da Trindade, a mesma relação de unidade e assim viver a vida eterna das pessoas da Santíssima Trindade. Esta é a vocação fundamental de toda pessoa humana.
Isto é uma felicidade muito acima da imaginável pelos homens na terra. Como já tivemos oportunidade de meditar, os projetos de felicidade das pessoas humanas situam-se ao nível desta vida mortal. O desencontro entre as esperanças dos filhos de Israel e o dom que Jesus, o Messias de Israel veio trazer é exatamente este. Jesus Cristo veio trazer uma vida imortal que se vive a partir de um despojamento, por amor, das seguranças e necessidades da vida mortal e os filhos de Israel, como todas as pessoas queriam satisfazer as necessidades de conservação da vida mortal. O que Deus quis nos dar é tão grande, tão maior que as esperanças cotidianas das pessoas, que estas não entenderam e não acolheram o Dom divino.
As Bem-aventuranças, proclamadas por Jesus Cristo e constantes dos Evangelhos, são descrições da participação antecipada da pessoa humana, já neste mundo, por causa da esperança, na vida divina que viveremos por toda a eternidade. O elemento central das bem-aventuranças é a idéia, contida no que denominamos “primeiro princípio da moral cristã”, de que a pessoa humana deve apoiar sua vida somente em Deus e não nas criaturas, que são apenas instrumentos de que Deus se serve para manter a sua criatura humana e não as verdadeiras seguranças da pessoa humana. Em outras palavras uma vida em que nunca se substitui Deus como fonte e segurança da vida humana pelas criaturas que sustentam a vida humana como instrumentos de Deus. Como se a bem-aventurança básica fosse a seguinte: «Bem-aventurados os que se apóiam só em Deus e tem todas as demais coisas como sinais e graças da benevolência de Deus e não desejam nada mais do que Deus só».
Nesta chave de leitura podemos interpretar todas as bem-aventuranças constantes nos Evangelhos. Podemos até classificar as bem-aventuranças constantes do Sermão da Montanha, na versão mateana, segundo ressaltem mais um ou outro dos três princípios da moral cristã. Assim, entre as que se relacionam mais ao terceiro princípio, que é a destinação divina da pessoa humana, temos:

“3Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos céus!” (Mt 5,3).

Quem tem o coração de pobre, ou é pobre em espírito? Aquele que, mesmo tendo todas as coisas neste mundo sente-se pobre por não ter a única coisa necessária, que deseja acima de todas as outras, que é a visão de Deus. Tendo tudo, mas não tendo o que mais quer sente-se pobre em seu íntimo, coração ou espírito. Esta bem-aventurança se assemelha a outra:

“8Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!” (Mt 5,8).

O “coração”, na linguagem bíblica é o centro da pessoa, é também o centro de suas relações com as coisas, as outras pessoas e com Deus. É por isso o centro dos desejos da pessoa.

“Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração” (Mt 6,21; Lc 12,34).
“O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração, e o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro, porque a boca fala daquilo de que o coração está cheio” (Mt 12,35; Lc 6,45).

Um coração puro é um coração sem desejos contraditórios, assim como a água pura é água sem mistura de outras substâncias. O puro de coração é o que deseja, acima de tudo, Deus e subordina todos os demais desejos a esse desejo fundamental. Assim, não será escravo de nenhuma necessidade mortal, mas abrirá mão de todas as “necessidades”, em vista de seu objetivo fundamental, que é Deus.
Entre as que se relacionam mais ao segundo princípio da moral cristã, à unidade entre as pessoas, temos:

“9Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus! (Mt 5,9).

No Evangelho a condição de filho de Deus não é uma propriedade inalienável da natureza humana. É uma condição adquirida pelo acolhimento da comunhão com o Filho Unigênito de Deus.

“9O Verbo era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem. 10Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu. 11Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. 12Mas a todos aqueles que o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, 13os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus” (Jo 1,9-13).

João fala de um novo nascimento, que não é “da carne”, mas “de Deus”, que nos torna filhos de Deus. Também em Mateus, a filiação divina depende de uma abertura pessoal a Deus:

“43Tendes ouvido o que foi dito: Amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo. 44Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. 45Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos. 46Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos? 47Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isto também os pagãos? 48Portanto, sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,43-48).

O novo nascimento, de que fala João, é uma convicção, dom do Espírito Santo, da unidade das pessoas humanas em Deus, mais forte do que as lutas terrenas que fazem as pessoas inimigas umas das outras. Se, acolhendo a cruz, uma pessoa sofre a inimizade de outra, sofre até injustiças por parte dela, mas não deixa de fazer bem a ela, alcança transfigurar um conflito em paz, e é bem-aventurada, é filha do Altíssimo.
Outra bem-aventurança que se refere ao segundo princípio é:

“6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!” (Mt 5,6).

Em geral, o Evangelho, quando refere-se à justiça, refere-se à justiça, não de César, mas à justiça do Reino de Deus, a justiça dos bens infinitos. Aqui, porém, podemos nos referir, na palavra “justiça” a ambas acepções deste termo, se a sede da justiça de César é uma vivência da justiça do Reino de Deus. Tanto pode ser fome de que Deus seja glorificado nos atos cheios de caridade das pessoas humanas, seja a fome, cheia de auto-doação pessoal, de que os pobres sejam respeitados e os fracos tenham seus direitos humanos considerados. Ao lutar pela justiça humana, não em favor próprio, mas em favor de outros e com doação pessoal, a pessoa está vivendo a justiça divina e é bem-aventurada, vivendo a unidade, colocando seus dons a serviço dos outros e “vivendo nas outras pessoas humanas”, constituindo unidade com elas. Na transição deste segundo princípio para o primeiro temos ainda:

“7Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia!” (Mt 5,7).

Esta bem-aventurança toca no mesmo tema que acabamos de desenvolver em relação à “fome e sede de justiça”, mas refere-se mais diretamente à gratuidade da doação. Misericórdia é “fusão de corações”, referindo-se à unidade, ao segundo princípio, mas é um ato de auto-doação gratuito, referindo-se também ao primeiro princípio. Misericordioso é quem dá de graça. A bem-aventurança diz que quem dá de graça, receberá de graça, na inversão comum no Evangelho, como se a ação da pessoa precedesse a ação de Deus. Na verdade, para dar de graça, a pessoa já está admitindo que recebeu de graça. Assim também, no Pai-Nosso parece que Deus perdoará se nós perdoarmos, mas a parábola em Mt 18,23-35 esclarece que o perdão divino é que tem a precedência.
Referindo-se mais diretamente ao primeiro princípio da moral cristã temos:

“4Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados!” (Mt 5,4).

“Os que choram” ou, em outras traduções “os aflitos”, são aqui os que perderam todas as esperanças dos apoios humanos, dos apoios nas criaturas, e não lhes resta outra alternativa que esperar em Deus. O ladrão à direita de Jesus, no Calvário, é uma boa ilustração destes “aflitos”. Vimos que o pecado original faz a pessoa perder a percepção da graça de Deus e, em vez de apoiar-se n’Ele, passa a apoiar-se no poder sobre as criaturas. A desilusão desse caminho de mentira traz a pessoa, mesmo por uma experiência dolorosa, para a verdade e isso constitui uma bem-aventurança.

“5Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra!” (Mt 5,5).

Os mansos são os que não conquistam pelo seu próprio poder os bens deste mundo para apoiar sua segurança neles, mas os que recebem seus bens de Deus. A resposta de João Batista em Jo 3,27 é um belo exemplo da pessoa mansa, que não quer usurpar o que não lhe é dado por Deus. Também em Nm 13-14, o episódio do envio dos doze homens para explorar a terra de Canaã, nos ajuda a compreender essa bem-aventurança. Deus os havia libertado do Egito, uma grande potência militar da época, demonstrando que seu poder é muito superior ao dos impérios humanos. Dez dos doze enviados à terra de Canaã, porém, raciocinaram não segundo a graça, a promessa de Deus de que Ele é que lhes daria a terra de Canaã. Pensaram que os israelitas é que deveriam conquistá-la com suas forças. E, por isso, se atemorizaram. É muito comum a pessoa esquecer que tudo é graça de Deus e considerar que tudo é conquista da força da pessoa humana. Daí vem muitos pecados, fraudes e ódios, para conquistar a terra. Esta bem-aventurança nos diz que se não é Deus que dá algo a alguém, a usurpação será vã e, na verdade, a pessoa não possuirá o que pensa ter conquistado. Toda posse verdadeira é pela graça de Deus.

“10Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus!” (Mt 5,10).

A vida na graça de Deus faz com que, muitas vezes, a pessoa não colabore com os interesses daqueles que querem usurpar pelo poder terreno os bens da terra, o prestígio diante de outras pessoas e os interesses mais diversos. Há aí um clima de mentira, também. A pessoa que caminha na graça e na verdade pode acabar atraindo sobre si a perseguição, que autentica sua fidelidade a Deus. Se presta culto ao poder humano para evitar a perseguição, não é mais dela o Reino de Deus, ou seja o reino em que só Deus é que exerce o poder. Ela reconheceu aí o poder humano e se apoiou nele. A pessoa que caminha no reino de deus apóia-se exclusivamente no poder de Deus. Então é dela o Reino de Deus. Ela não crê que o poder humano transmita vida, só o poder divino. Então prefere a morte dada pelo poder humano, apoiando-se no poder de Deus que dá vida. Não confia na conservação de sua vida à custa de se dobrar ao poder humano, como se esse poder fosse capaz de criar alguma coisa. Por isso, nessa bem-aventurança a pessoa atribui só a Deus toda vida e toda graça. Refere-se, portanto, ao primeiro princípio da moral cristã.
A vida cristã é vivência da vida de graça santificante. É vivência antecipada da vida bem-aventurada eterna. É vivência das bem-aventuranças. Por isso, como mostramos, é a vivência dos três princípios da moral cristã que apresentamos.
8.2. As bem-aventuranças na visão realista de Lucas
Na versão lucana, as bem-aventuranças referem-se menos a um estado espiritual da pessoa que se apóia em Deus, e referem-se mais diretamente à situação social que induz a pessoa a esperar em Deus, na linha da bem-aventurança dos aflitos, de Mateus. Para isso Lucas apresenta também, além de bem-aventuranças, também mal-aventuranças.

“20Então ele ergueu os olhos para os seus discípulos e disse: Bem-aventurados vós que sois pobres, porque vosso é o Reino de Deus! 21Bem-aventurados vós que agora tendes fome, porque sereis fartos! Bem-aventurados vós que agora chorais, porque vos alegrareis! 22Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos ultrajarem, e quando repelirem o vosso nome como infame por causa do Filho do Homem! 23Alegrai-vos naquele dia e exultai, porque grande é o vosso galardão no céu. Era assim que os pais deles tratavam os profetas.
24Mas ai de vós, ricos, porque tendes a vossa consolação! 25Ai de vós, que estais fartos, porque vireis a ter fome! Ai de vós, que agora rides, porque gemereis e chorareis! 26Ai de vós, quando vos louvarem os homens, porque assim faziam os pais deles aos falsos profetas!” (Lc 6,20-26).

Para Lucas é muito teórico e pouco real que alguém tenha tudo mas seja desapegado e tenha no desejo de ver Deus a sua verdadeira esperança, como descrevemos na bem-aventurança dos pobres em espírito, de Mateus. Para Lucas, a pobreza e o sofrimento real condicionam a pessoa à desilusão em relação a esperar nos bens da terra e induz à esperança em Deus. A riqueza real acaba, para Lucas, fazendo seu possuidor apoiar-se nela e não fazer a experiência da graça de Deus.
8.3. A vida cristã toda é uma vida bem-aventurada
Há outras declarações de bem-aventuranças nos Evangelhos. Reforçando a bem-aventurança dos perseguidos por causa do Reino de Deus, temos:

“11Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim” (Mt 5,11).
“14E até sereis felizes, se padecerdes alguma coisa por causa da justiça!” (1Pd 3,14).
“14Se fordes ultrajados pelo nome de Cristo, bem-aventurados sois vós, porque o Espírito de glória, o Espírito de Deus repousa sobre vós” (1Pd 4,14).

É bem-aventurança ver e ouvir Jesus Cristo Salvador e compreender e praticar a Sua Palavra.

“16Mas, quanto a vós, bem-aventurados os vossos olhos, porque vêem! Ditosos os vossos ouvidos, porque ouvem!” (Mt 13,16).
“28Mas Jesus replicou: Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam!” (Lc 11,28).
“17Se compreenderdes estas coisas, sereis felizes, sob condição de as praticardes” (Jo 13,17).

E é mais feliz ainda quem não viu, mas n’Ele crê:

“29Disse-lhe Jesus: Creste, porque me viste. Felizes aqueles que crêem sem ter visto!” (Jo 20,29).

A bem-aventurança definitiva, que contém todas as outras, é a perseverança final:

“37Bem-aventurados os servos a quem o senhor achar vigiando, quando vier! Em verdade vos digo: cingir-se-á, fá-los-á sentar à mesa e servi-los-á” (Lc 12,37).
“38Se vier na segunda ou se vier na terceira vigília e os achar vigilantes, felizes daqueles servos!” (Lc 12,38).
“13Eu ouvi uma voz do céu, que dizia: Escreve: Felizes os mortos que doravante morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, descansem dos seus trabalhos, pois as suas obras os seguem” (Ap 14,13).
“9Ele me diz, então: Escreve: Felizes os convidados para a ceia das núpcias do Cordeiro. Disse-me ainda: Estas são palavras autênticas de Deus” (Ap 19,9).
“7Eis que venho em breve! Felizes aqueles que põem em prática as palavras da profecia deste livro” (Ap 22,7).
“7Bem-aventurados aqueles cujas iniqüidades foram perdoadas e cujos pecados foram cobertos!” (Rm 4,7).
“14Felizes aqueles que lavam as suas vestes para ter direito à árvore da vida e poder entrar na cidade pelas portas” (Ap 22,14).

A experiência da antecipação da felicidade eterna é fundamental na vida cristã, autenticando a vivência da moral cristã. Segundo um velho adágio, atribuído a São Francisco de Sales, “um santo triste é um triste santo”. A vida cristã não é uma vida de facilidades. Mas é a vida mais feliz que uma pessoa humana pode viver. Não se vive verdadeiramente como cristão se não se faz a experiência da felicidade. Da bem-aventurança. Todo cristão é vocacionado a essa experiência.
9. A Liberdade cristã
9.1. O livre-arbítrio e a natureza da liberdade cristã
A pessoa humana, decaída pelo pecado original não é livre. Por isso, precisa ser libertada. Mas goza de livre-arbítrio. Parece uma contradição, mas não é. O livre-arbítrio é a capacidade, “baseada na razão, de agir ou não agir, de fazer isto ou aquilo, portanto, de praticar atos deliberados” . O livre-arbítrio é uma capacidade divina do homem. É parte integrante da imagem divina segundo a qual foi criada pessoa humana. Para entrar na comunhão divina requer-se o amor. O amor só acontece quando há a possibilidade de amar ou não amar. De todos os seres vivos do mundo visível a pessoa humana é a única capaz de não fazer a vontade de Deus. Os outros seres vivos fazem sempre a vontade de Deus e não podem não fazê-lo. Essa sua obediência, não tendo livre-arbítrio, não é amor. Para a pessoa humana poder amá-Lo, Deus a criou à sua imagem, dotada de livre-arbítrio. E a pessoa humana usou o seu livre-arbítrio contra o amor de seu Criador cometendo o pecado original. A partir daí, todas as pessoas, participantes do único gênero humano, se tornaram escravas do mal, com um forte condicionamento para agirem de forma pecaminosa e muita dificuldade, ou mesmo uma impossibilidade, sem uma intervenção divina, de viverem segundo a verdade, segundo a graça de Deus. Por isso a pessoa humana não é livre. Só por uma intervenção divina a pessoa pode reconquistar a liberdade e na sua condição decaída o exercício da liberdade comporta sempre sofrimento – cruz – e simultaneamente uma paz vinda de Deus. Uma das metas da vida moral e espiritual da pessoa é a recuperação da liberdade interior. Recuperando-a a pessoa torna-se capaz de amar a Deus, realizando o destino para o qual foi criada. A liberdade é exatamente a capacidade de sempre agir segundo a verdade, escolhendo sempre o bem e nunca o mal, assim amando o Criador.
A intervenção divina que torna a pessoa capaz de viver segundo a verdade é o fruto da Redenção realizada por Jesus Cristo. É o Dom do Espírito Santo. Envolve a Revelação da Verdade e um novo nascimento, do Alto (cf. Jo 3,3.7), pelo qual a pessoa não mais permanece no medo da morte ou do sofrimento, tornando-se capaz de aceitar todo acontecimento que a realidade lhe apresenta quando vive segundo a Verdade, a vontade de Deus:

“14Porquanto os filhos participam da mesma natureza, da mesma carne e do sangue, também ele participou, a fim de destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio, 15e libertar aqueles que, pelo medo da morte, estavam toda a vida sujeitos a uma verdadeira escravidão” (Hb 2,14-15).

Este é o texto mais explícito do Novo Testamento, que associa a nossa escravidão (falta de liberdade) ao medo da morte corporal. É claro que a morte, aqui, vai acompanhada de todos os seus sinais, que são insegurança, pobreza, humilhação, solidão, injustiça e todas aquelas situações desagradáveis que queremos sempre evitar e que levam a pessoa a temer por si mesma. Pelo medo de sofrer – morrer – a pessoa “luta” para ter vida e nessa “luta”, como vimos no estudo do pecado original, se torna escrava de inúmeras necessidades e escrava do pecado, sem nenhuma percepção da graça divina que, esta sim, lhe dá vida.

“3Jesus replicou-lhe: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo (= do Alto) não poderá ver o Reino de Deus. 4Nicodemos perguntou-lhe: Como pode um homem renascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no seio de sua mãe e nascer pela segunda vez? 5Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus. 6O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito. 7Não te maravilhes de que eu te tenha dito: Necessário vos é nascer de novo (= do Alto). 8O vento sopra onde quer; ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito” (Jo 3,3-8).

Pelo acolhimento do dom do Espírito Santo, a pessoa não está mais “na carne”, ou seja, na “luta” contra a morte corporal e seus sinais descritos acima, mas nasceu do Alto, ou seja, tem a fonte de sua vida na ação criadora de Deus (= na graça divina) e não mais na “luta para viver”. Isto a torna mais forte do que a tentação, a torna livre, não mais escrava do pecado. O que nasce da carne é o instinto carnal que movendo a pessoa a se defender, a move ao pecado, e com toda essa luta, buscando segurança, riqueza, glórias humanas, não alcança a plenitude da vida. Esses bens nunca saciam a pessoa humana, pois dependem das criaturas e só Deus é fonte de vida e pode dar vida.

“28Jesus então lhes disse: Quando tiverdes levantado o Filho do Homem, então conhecereis quem sou e que nada faço de mim mesmo, mas falo do modo como o Pai me ensinou. 29Aquele que me enviou está comigo; ele não me deixou sozinho, porque faço sempre o que é do seu agrado. 30Tendo proferido essas palavras, muitos creram nele. 31E Jesus dizia aos judeus que nele creram: Se permanecerdes na minha palavra, sereis meus verdadeiros discípulos; 32conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. 33Replicaram-lhe: Somos descendentes de Abraão e jamais fomos escravos de alguém. Como dizes tu: Sereis livres? 34Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: todo homem que se entrega ao pecado é seu escravo. 35Ora, o escravo não fica na casa para sempre, mas o filho sim, fica para sempre. 36Se, portanto, o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres” (Jo 8,28-36).

Jesus fala de sua liberdade, que é obedecer sempre ao Pai, Ele que é o Ungido (Messias, Cristo) pelo Espírito do Pai. A liberdade é poder agir de acordo com a natureza do próprio ser. Jesus é o Filho, que recebe todo o seu ser do Pai. Então a liberdade de Jesus é viver de acordo também com a sua fonte de vida:

34Disse-lhes Jesus: Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e cumprir a sua obra (Jo 4,34).

E refere-se à sua crucificação (“quando tiverdes levantado o Filho do Homem”) de onde derramará o Espírito para a libertação dos homens, realizando a Redenção do gênero humano. A obediência a Deus (“permanecer na Palavra”) leva ao conhecimento experimental da verdade e à consciência do caminho da libertação da pessoa humana, não mais escrava do pecado, porque não mais temerosa da morte ou de seus sinais. A experiência voluntária da Cruz é a experiência da liberdade humana.
9.2. A liberdade cristã nos libera dos imperativos da lei pela lei
A liberdade cristã é tratada no Novo Testamento em um contexto de ruptura com o judaísmo baseado na observância estrita da lei mosaica. Isto se observa nos Evangelhos, na questão do sábado, do jejum, dos alimentos impuros etc. e nas Cartas, especialmente as de São Paulo.
Na pedagogia divina, Deus revela-se gradativamente aos homens. No Antigo Testamento ainda estão presentes muitos elementos das religiões pagãs, ou seja, das religiões onde a pessoa humana criou os deuses à sua imagem. Assim, a presença dos sacrifícios. Já vimos que os sacrifícios antigos surgem da projeção ao nível divino dos tributos pagos aos poderosos deste mundo para “amansá-los” e “torná-los propícios”. Outros elementos dos poderosos deste mundo que o Antigo Testamento projeta para Deus é a Lei e o castigo pela infração da Lei. A Lei era a realidade mais sagrada da religião mosaica. Era colocada acima do bem da pessoa humana. Jesus Cristo vem estabelecer a verdadeira vida da pessoa humana com seu Criador e para tal deve libertar a consciência da pessoa humana da sujeição à lei só enquanto lei. A verdadeira “lei” de Jesus Cristo é a realidade da Santíssima Trindade e as relações pessoais a ela inerentes, e a realidade da semelhança divina da pessoa humana, chamada a viver a comunhão trinitária por meio do Filho, pela unidade do Espírito Santo, como ser criado e absolutamente dependente de Deus. Aqui entra também todo o significado sacramental da realidade visível da pessoa humana, homem e mulher, imagem do mistério de Deus. Ou seja, a “lei” é a própria realidade de Deus e da pessoa humana. Tudo o que estiver fora disto é, para Jesus Cristo, arbitrariedade e capricho e não tem mais sentido. A circuncisão, os alimentos impuros, as abluções rituais, as ofertas, os dízimos, tudo perde seu significado depois que se passa da penumbra do Antigo Testamento à plena luz do Novo Testamento.

“1A lei, por ser apenas a sombra dos bens futuros, não sua expressão real, é de todo impotente para aperfeiçoar aqueles que assistem aos sacrifícios que se renovam indefinidamente cada ano” (Hb 10,1).

“5O culto que estes celebram é, aliás, apenas a imagem, sombra das realidades celestiais, como foi revelado a Moisés quando estava para construir o tabernáculo: Olha, foi-lhe dito, faze todas as coisas conforme o modelo que te foi mostrado no monte (Ex 25,40)” (Hb 8,5).

O texto mais claro sobre essa ruptura, parece-nos ser o que se encontra no segundo capítulo da Carta aos Colossenses:

“8Estai de sobreaviso, para que ninguém vos engane com filosofias e vãos sofismas baseados nas tradições humanas, nos rudimentos do mundo, em vez de se apoiar em Cristo. 9Pois nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade. 10Tendes tudo plenamente nele, que é a cabeça de todo principado e potestade. 11Nele também fostes circuncidados com circuncisão não feita por mão de homem, mas com a circuncisão de Cristo, que consiste no despojamento do nosso ser carnal. 12Sepultados com ele no batismo, com ele também ressuscitastes por vossa fé no poder de Deus, que o ressuscitou dos mortos. 13Mortos pelos vossos pecados e pela incircuncisão da vossa carne, chamou-vos novamente à vida em companhia com ele. É ele que nos perdoou todos os pecados, 14cancelando o documento escrito contra nós, cujas prescrições nos condenavam. Aboliu-o definitivamente, ao encravá-lo na cruz. 15Espoliou os principados e potestades, e os expôs ao ridículo, triunfando deles pela cruz. 16Ninguém, pois, vos critique por causa de comida ou bebida, ou espécies de festas ou de luas novas ou de sábados. 17Tudo isto não é mais que sombra do que devia vir. O Corpo é Cristo. 18Ninguém vos roube a seu bel-prazer a palma da corrida, sob pretexto de humildade e culto dos anjos. Desencaminham-se estas pessoas em suas próprias visões e, cheias do vão orgulho de seu espírito materialista, 19não se mantêm unidas à Cabeça, da qual todo o corpo, pela união das junturas e articulações, se alimenta e cresce conforme um crescimento disposto por Deus. 20Se em Cristo estais mortos aos princípios deste mundo, por que ainda vos deixais impor proibições, como se vivêsseis no mundo? 21Não pegues! Não proves! Não toques! 22proibições estas que se tornam perniciosas pelo uso que delas se faz, e que não passam de normas e doutrinas humanas. 23Elas podem, sem dúvida, dar a impressão de sabedoria, enquanto exibem culto voluntário, de humildade e austeridade corporal. Mas não têm nenhum valor real, e só servem para satisfazer a carne” (Cl 2,8-23).

Este texto da Carta aos Colossenses é de importância capital para a compreensão da liberdade e de toda a moral cristã. São Paulo inicia com uma nítida oposição entre a sabedoria de Jesus Cristo e as filosofias e tradições humanas, compreendendo aí inclusive os rituais hebraicos. E afirma, de forma aparentemente paradoxal (cf. Jo 4,24) que, sendo Deus Espírito, em Cristo a divindade está corporalmente.

9Respondeu Jesus: Há tanto tempo que estou convosco e não me conheceste, Filipe! Aquele que me viu, viu também o Pai. Como, pois, dizes: Mostra-nos o Pai… (Jo 14,9).

Então, vendo Jesus Cristo compreendemos o modo de ser das pessoas divinas. O Pai se esvazia de si mesmo e Se dá ao Filho, como Jesus se esvazia de si mesmo (cf. Fl 2,5-11), se encarna e Se dá a nós até à morte de cruz. Assim entendemos que n’Ele habita corporalmente Deus. O seu Corpo revela o modo de ser de Deus.
Em seguida, São Paulo substitui a antiga circuncisão – retirada do prepúcio ao oitavo dia do nascimento – pelo mesmo esvaziamento de Cristo praticado pelo cristão, o despojamento de seu ser carnal. É a mesma doutrina que expõe em outros lugares, ao afirmar que pelo batismo o cristão participa da morte de Jesus Cristo e está sepultado com Ele (cf. Rm 6,3-5) e que o culto racional do cristão é oferecer o próprio corpo mortal como hóstia viva, santa e agradável a Deus (cf. Rm 12,1). Em seguida afirma que a Lei era um instrumento de condenação que Jesus Cristo aboliu cravando-a na cruz. Quem peca contra a Lei, uma vez que pecou, este ato pecaminoso permanece sempre no passado da pessoa acusando-a. Isto é causa de muito sofrimento por falta de compreensão do mistério de Jesus Cristo. Há pessoas que vivem décadas de remorsos de consciência por faltas cometidas. A perda da virgindade por um pecado contra a castidade, especialmente pelas mulheres foi, durante muito tempo, uma chaga incurável. São Paulo então afirma que as observâncias da lei – proibições de comidas, bebidas, festas religiosas e sábados – eram uma sombra, dizemos nós, uma pedagogia para conduzir ao Mistério. A realidade da relação das pessoas humanas com Deus não consiste na Lei, mas no Corpo de Cristo, esta realidade de despojamento pessoal para dar vida ao próximo, que, na unidade do gênero humano constitui com o sujeito uma só vida. Uma vez alcançado este Mistério, o pedagogo pode ser abandonado:

23Antes que viesse a fé, estávamos encerrados sob a vigilância de uma lei, esperando a revelação da fé. 24Assim a lei se nos tornou pedagogo encarregado de levar-nos a Cristo, para sermos justificados pela fé. 25Mas, depois que veio a fé, já não dependemos de pedagogo, 26porque todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo. 27Todos vós que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo.

Acontece que na progressão moral do cristão é necessário, por causa da fraqueza humana, como o povo de Israel, passar pela etapa da Lei para chegar à maturidade de Jesus Cristo. Por isso, a Igreja, como Mãe e Educadora, orienta os seus fiéis, através dos Mandamentos da Igreja a uma prática ascética que os conduza paulatinamente em direção à liberdade da vivência plena do Mistério. É importante, por isso, valorizar esses mandamentos, mas não colocá-los como parte imprescindível da maturidade cristã, caso em que voltaríamos ao regime da Lei e negaríamos a liberdade cristã.
A liberdade cristã é, em resumo, a vivência da Páscoa de Jesus Cristo, livres da Lei, de qualquer lei, e da escravidão dos instintos de segurança e prazer corporais. Por isso, podemos dizer que o agir cristão se baseia em duas realidades, uma natural e uma sobrenatural. A realidade natural é a natureza humana como criada por Deus – a chamada “lei natural” – e a realidade sobrenatural é a Páscoa de Jesus Cristo, o fato de que é esvaziando-se de si e dando-se para dar vida ao semelhante que entramos em comunhão com Deus e temos a vida divina, que é eterna.
9.3. A moral e a liberdade cristãs são interiores. A subjetividade do agir cristão.
Na insegurança que a vida mortal – a vida que a pessoa humana herdou fora do Paraíso – tudo é interpretado no prisma de uma “luta ” intensa para evitar a morte e os males que são sinais dela, como os sofrimentos e a doença. Isto gerou muitos comportamentos e proibições que dão “a impressão de sabedoria, enquanto exibem culto voluntário, de humildade e austeridade corporal. Mas não têm nenhum valor real, e só servem para satisfazer a carne” (Cl 2,23). Algumas dessas proibições, no judaísmo, eram de origem higiênica, como a proibição de ingerir carne de porco ou as abluções rituais antes das refeições. Verificando que o consumo da carne de porco – mais facilmente corruptível – provocava doenças e morte, e atribuindo isso a um “castigo divino” deduziu-se, provavelmente, que Deus não queria que se comesse este tipo de carne. Daí, em Israel, a carne de porco provocar impureza legal (cf. Lv 11,7; Dt 14,8). As abluções também eliminavam muitas impurezas que poderiam provocar infecções, evitando-se doenças. Daí se tornarem costumes “desejados por Deus” e não serem mais uma regra higiênica só, mas uma observância religiosa (cf. Mc 7,2-5). O medo do castigo divino levou também a enrijecer a observância do sábado (cf. Mt 12,2; Mc 2,24; 3,2; Lc 6,2.7; 13,14; Jo 5,10.16). Assim como em Israel, em todo o paganismo há muitas ações exteriores proibidas por desagradarem aos deuses, provocando “castigos” da parte deles, ou por a elas se atribuírem fontes de males ou de “azar”. Jesus, que vem justamente libertar a pessoa humana do medo da morte e da escravidão do demônio (cf. Hb 2,14-15), liberta de todas essas leis e traz uma moral baseada somente na “lei natural” – a realidade das coisas como elas são como criadas por Deus através de seu “Logos” – e na Páscoa – a verdade de que é dando de graça a vida que se recebeu de graça que a pessoa participa da vida divina. Jesus traz, então uma moral interior, em que não é o ato exterior que define moralmente o perfil da pessoa, mas a atitude interior do coração.

18… Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode tornar impuro, 19porque não lhe entra no coração, mas vai ao ventre e dali segue sua lei natural? Assim ele declarava puros todos os alimentos. E acrescentava: 20Ora, o que sai do homem, isso é que mancha o homem. 21Porque é do interior do coração dos homens que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos, assassinatos, 22adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez. 23Todos estes vícios procedem de dentro e tornam impuro o homem (Mc 7,18-23).

Isto aumenta tremendamente a liberdade interior do cristão. Nenhum preceito é puramente exterior, mas é na atitude do coração que a pessoa se relaciona com a Verdade, com Deus. As observâncias exteriores sem atitude interior não agradam a Deus.

37Enquanto Jesus falava, pediu-lhe um fariseu que fosse jantar em sua companhia. Ele entrou e pôs-se à mesa. 38Admirou-se o fariseu de que ele não se tivesse lavado antes de comer. 39Disse-lhe o Senhor: Vós, fariseus, limpais o que está por fora do vaso e do prato, mas o vosso interior está cheio de roubo e maldade! 40Insensatos! Quem fez o exterior não fez também o conteúdo? 41Dai antes em esmola o que possuís, e todas as coisas vos serão limpas (Lc 11,37-41).

Aqui a esmola é sinal da oferta que purifica, ou seja, a atitude de doação gratuita segundo o que já havíamos afirmado antes: o agir cristão tem o seu centro no “de graça recebestes, de graça, daí” (Mt 10,8). Esta atitude também é aplicada por São Paulo ao caso dos alimentos “proibidos”, como as carnes imoladas aos ídolos.

23Tudo é permitido, mas nem tudo é oportuno. Tudo é permitido, mas nem tudo edifica. 24Ninguém busque o seu interesse, mas o do próximo. 25Comei de tudo o que se vende no açougue, sem indagar de coisa alguma por motivo de consciência. 26Do Senhor é a terra e tudo que ela encerra. 27Se algum infiel vos convidar e quiserdes ir, comei de tudo o que se vos puser diante sem indagar de coisa alguma por motivo de consciência. 28Mas se alguém disser: Isto foi sacrificado aos ídolos, não o comais, em atenção àquele que o advertiu e por motivo de consciência. 29Dizendo consciência, refiro-me não à tua, mas à do outro. Com efeito, por que razão seria regulada a minha liberdade pela consciência alheia? 30Se eu como com ações de graças, por que serei eu censurado por causa do alimento pelo qual rendo graças? (1Cor 10,23-30).

O critério de Jesus Cristo é interpretado por São Paulo como uma liberdade em relação a todas as coisas, buscando somente o que é oportuno e convém para a edificação em Cristo da pessoa que age. Ora, comer ou deixar de comer alguma coisa não muda o coração de ninguém. Então pode-se comer de tudo, até carne imolada aos ídolos, uma vez que os ídolos, na verdade, não existem e tudo só tem um Criador, que é Deus. Quem tem essa consciência e vê tudo como graça de Deus, em total submissão e dependência a Ele é puro e interpreta de forma pura todas as coisas, recebendo-as todas, até a morte corporal, como sinais do amor de Deus:

“15Para os puros todas as coisas são puras. Para os corruptos e descrentes nada é puro: até a sua mente e consciência são corrompidas. 16Proclamam que conhecem a Deus, mas na prática o renegam, detestáveis que são, rebeldes e incapazes de qualquer boa obra” (Tt 1,15-16).

Mortificar-se para não agredir a consciência do próximo cria unidade e é um ato de liberdade que nos assemelha a Jesus Cristo, que nos suportou nas nossas ignorâncias. Então, não porque a carne fora imolada aos ídolos, mas para ser sinal de Jesus Cristo para o próximo a pessoa deixa de comer a tal carne. Isto é exercício de plena liberdade. Posso comer e posso não comer. Nem uma atitude nem a outra dominam a pessoa agente, mas o bem do outro, do próximo.
Aqui nós temos um aspecto bem subjetivo da liberdade do agir cristão. É a consciência individual que examina a conveniência da atitude para ser fiel ao Espírito Santo que nos leva a viver segundo Jesus Cristo. O agir cristão, porém não é baseado na subjetividade, mas tem uma visão bem objetiva da realidade e os critérios do agir cristão são muito objetivos, como veremos a seguir.
9.4. Os critérios de moralidade dos atos humanos e o debate moral. A objetividade do agir cristão.
Aqui, para avançarmos na compreensão dos problemas e contestações que o ensino moral cristão sofre no mundo contemporâneo, é mister recorrermos a alguns elementos de filosofia moral. Não que sejam imprescindíveis para a compreensão da moral cristã, mas o são para compreender as contestações modernas à moral cristã.
Para julgar a moralidade de um ato humano – ato decidido pela razão e aprovado pela vontade da pessoa – os filósofos morais estabeleceram o julgamento de três elementos do ato, que são o objeto do ato – a “coisa” em si do ato – as finalidades ou intenções que se busca no ato e as circunstâncias em que é realizado. Se um dos três elementos – objeto, intenções e circunstâncias – não é bom ou conveniente, o ato não é moralmente bom. É necessário que os três elementos sejam considerados bons ou convenientes para que o ato seja considerado bom.
Justamente porque é necessário que os três elementos sejam considerados bons surge a questão do critério pelo qual determinar-se-á se um determinado objeto é bom ou não, se uma determinada intenção é boa ou não, se determinadas circunstâncias são boas ou não. Estes critérios é que dividem as correntes de pensamento moral. Dependem da filosofia que a pessoa vive, da visão da realidade que ela tem. Depende da sabedoria que guia a consciência da pessoa.
A filosofia cristã parte da realidade de que tudo foi criado por Deus, por meio de seu “Logos” (cf. Jo 1,3). Que a razão foi dada à pessoa humana como atributo indispensável à sua semelhança com as Pessoas Divinas, para participar desse “Logos”. Por isso, a verdade sobre a Criação é acessível à razão humana. Assim também o conhecimento da natureza das coisas, ou seja, da bondade ou maldade dos objetos das ações morais. A formação da consciência é justamente a informação sobre a bondade e a maldade dos objetos das ações morais. Quanto mais informada sobre a verdade, mais a consciência cumpre seu papel de levar a pessoa humana a agir segundo a verdade, que é, portanto, cognoscível. O principal dever da consciência moral humana é exatamente buscar conhecer o quanto possível a verdade sobre o bem e sobre o mal. A filosofia moral cristã afirma, portanto, o conhecimento do ser, do objeto das coisas e de sua bondade ou maldade intrínseca.
A filosofia moderna, ao contrário, valoriza a subjetividade da pessoa e a interpretação que cada um dá no seu íntimo aos objetos reais. Então a verdade sobre o objeto das coisas não é realçada, e algumas correntes negam claramente que se possa conhecer a verdade das coisas, a bondade ou maldade intrínseca dos objetos das ações. Assim o que vai dar a conotação de bom ou mal ao ato humano, no modo de pensar contemporâneo, não será, em primeiro lugar, o objeto do ato, mas a intenção subjetiva da pessoa que age.
Essa diferença de perspectiva causará um enorme abismo entre a consciência cristã e a consciência chamada “laica” no mundo contemporâneo, gerando as discussões sobre muitos temas como aborto, eutanásia, contracepção, sexo livre ou seguro etc.
Pode-se perguntar que se a verdade moral sobre o objeto é incognoscível, segundo as correntes de pensamento contemporâneas, que critério julga a bondade ou maldade das intenções, tornadas o critério básico de avaliação moral? Se não se pode conhecer a verdade sobre o objeto, como se pode conhecer a verdade sobre as intenções? Este critério será determinado pela convenção social, o sentimento variável, sujeito às propagandas e pressões publicitárias. Esta é uma das características do mundo contemporâneo. Deixando de basear-se na verdade perene e igual em toda época e lugar, passa a guiar-se por campanhas de “conscientização”, e a consciência é que vai criando os valores morais, ao sabor das paixões do momento. Como a maioria das pessoas não tem liberdade interior para criar seus próprios valores e o caráter social da pessoa humana exige uma certa uniformidade de valores para se viver em sociedade, a moral vai sendo determinada pelos que tem o poder sobre os meios de comunicação social, persuadindo sobre valores – frequentemente contra-valores – morais, e a ditadura do poder humano sobre as pessoas atinge as suas próprias consciências. Aqui César, o poder terreno, usurpa o lugar de Deus e se dá a César o que é de Deus. O cristianismo, proclamando que a verdade moral sobre as coisas é cognoscível, afirma que ela não está sob o poder de nenhuma potência terrena e revela o seu caráter libertador. A autoridade terrena não deve dominar as consciências individuais. Deve-se obedecer antes a Deus do que aos homens (cf. At 4,19).
Assim como o pensamento contemporâneo reconhece que o mundo material tem leis universais, válidas em todos os tempos e lugares, e pesquisa tais leis através da física, da química e da biologia, além de outras ciências, deve reconhecer que o corpo e a alma humanas foram criados pelo mesmo Deus, por meio de seu “Logos”, e por isso tem leis igualmente perenes e universais, não dependentes das paixões do momento. Essa lei é a chamada “lei natural”, dependente da “lei eterna” que está na própria “natureza” do Ser Divino. O não acolher essa verdade é uma reprodução fiel do pecado original tal como narrado no Gênesis, em que a pessoa humana pensa ser “como Deus” atribuindo-se a faculdade de determinar o que é bom e o que é mal.
O agir cristão baseia-se, portanto, na objetividade da natureza das coisas e da pessoa humana e na objetividade da realidade de Jesus Cristo, que é o que É (cf. Ex 3,14) e não o que cada um quer considerar n’Ele. A subjetividade na ação cristã não está em mudar o que é imutável, mas no discernimento dos caminhos pelos quais, respeitando esses dados objetivos que citamos, realizamos nossa semelhança com Jesus Cristo e, assim, com Deus, a cuja imagem fomos criados. A liberdade sempre supõe uma certa subjetividade, mas a subjetividade cristã é bem diferente da subjetividade agnóstica do mundo contemporâneo. É subjetividade, é liberdade, mas nunca é relativismo.
9.5. A Moralidade das Paixões
As paixões e sentimentos são movimentos da sensibilidade humana que não derivam diretamente da razão, nem da vontade iluminada pela razão, mas movem a vontade por meio de outros elementos do psiquismo humano. Assim, não é só a razão que move a vontade, mas também outras pulsões do psiquismo humano: amores, atrações, medos, repulsões, simpatias e antipatias, ódios e fixações da mente, instintos e desejos vários, inclinações etc.
A condição mortal e a perda da percepção da graça de Deus Criador leva a pessoa humana a fixar seu coração nas criaturas pela sua beleza, pela sua capacidade de proporcionar algum bem ao qual ela é sensível: segurança, prazer, força, emoção etc.
Deste modo não apenas a razão da pessoa humana precisa ser reconduzida à Verdade, mas também a sua sensibilidade. Isto é um tema muito pertinente à vida moral porque a sensibilidade move a vontade humana à ação com mais freqüência do que a razão. Pouca coisa do que a pessoa faz é decidido por um ato reflexo, racional, pesando conveniências e inconveniências. Ela faz muito mais coisas movida por suas inclinações e atrações.
A Teologia Moral pode esclarecer plenamente a razão da pessoa sobre a Verdade, mas se os seus sentimentos não se modificam segundo a Verdade, o seu coração continua com os mesmos impulsos de apego e medo em relação às criaturas, embora sua consciência moral, sua razão, esteja bem esclarecida de que deve amar a Deus acima de todas as criaturas e confiar plenamente n’Ele liberando-se dos medos. Como aquele que diz: “Eu não creio em bruxas, mas que elas existem, existem”. Ou aquele professor que descrevia todos os imensos males do tabagismo e tinha sempre um cigarro na mão, dando suas tragadas com gosto. Assim, nada adianta o esclarecimento da razão sem o exercício espiritual que leva a fazer a experiência prática do amor de Deus. A fé é um conhecimento de Deus, conforme foi revelado por Jesus Cristo. Mas de que serve a fé, esse conhecimento que ilumina a razão e é acolhido pela vontade, se não se desdobra em esperança – que faz a pessoa repousar na paz de Deus – e em caridade, o amor ao Deus no qual se crê, e que leva a pessoa a viver para Deus? De que serve conhecer a Deus intelectualmente, se o coração não espera n’Ele e não O ama? Não O experimenta? É muito triste ver um teólogo que discursa perfeitamente sobre todos os atributos divinos, mas não revela esperança e caridade, mas se enche de orgulho no seu conhecimento intelectual, fazendo da Teologia mais causa de queda do que de ascensão para Deus. O conhecimento da Teologia Moral sem a vida espiritual não vale nada. Aqui coloca-se um importante tema que é o da importância da oração na vida moral do cristão. Pela oração e orientação espiritual orientam-se os afetos do coração e paixões segundo a reta razão e a fé, inclinando-se a personalidade para a realização da vontade divina.
Aqui é importante distinguir também “paixões” de “temperamento”. O temperamento é a configuração da expressão natural de cada pessoa, às vezes também chamado caracter, e é estudado pelo ramo da psicologia aplicada que justamente se chama caracterologia. Uma pessoa pode ser colérica, externar com muita facilidade suas emoções, enquanto a outra é fleumática, e não externa quase nada do que sente. A diferença de temperamento não define moralmente a pessoa. Pode-se ser santo com qualquer dos temperamentos ou caracteres. Não devemos confundir a expressão externa dos sentimentos com a ira, por exemplo. Uma pessoa fleumática pode ter uma ira maior do que uma colérica e, a julgar pela aparência externa, parecer o contrário. O temperamento é apenas uma forma de canalizar a energia interior da pessoa, faz parte da personalidade. A perfeição moral, que exige a mudança das paixões más e o crescimento das paixões boas, não exige a mudança do temperamento, do caracter da pessoa.
10. A Consciência Moral e a Verdade
A pessoa humana, criada à imagem de Deus, é dotada de razão. Isto a distingue dos animais. Estes sabem diversas coisas, mas não sabem que sabem, não são capazes de pensar sobre seus conhecimentos. Tem certa ciência, mas não tem co-scientia, consciência, como a tem a pessoa humana que sabe que sabe ou que não sabe, isto é, reflete sobre seus conhecimentos e busca deliberadamente novos conhecimentos, questiona seus conhecimentos e os aperfeiçoa. Quando esta capacidade reflexiva da consciência ilumina sobre as decisões da pessoa sobre o seu agir estamos falando de consciência moral. Esta deve colher informações sobre a realidade na qual se vive, sobre o bem a buscar, e assim iluminada indicar à vontade as ações possíveis a realizar e aquelas que se deve evitar. A grandeza moral da pessoa está intimamente ligada a essas duas atividades da consciência. A primeira é a busca da Verdade sobre a realidade humana, sobre o bem a fazer e o mal a evitar, rejeitando os apegos das conveniências do egoísmo, da vaidade e do prazer, com toda imparcialidade, e sobre os males a evitar. Esta atividade da consciência é sumamente importante, a ponto de Jesus Cristo fazer dela a estrada que conduz a pessoa a Ele:

37Perguntou-lhe então Pilatos: És, portanto, rei? Respondeu Jesus: Sim, eu sou rei. É para dar testemunho da verdade que nasci e vim ao mundo. Todo o que é da verdade ouve a minha voz (Jo 18,37).

Uma pessoa que vive essa característica tende a ter uma consciência verídica, isto é, que dita à vontade a verdade sobre Deus e sobre a realidade.
A segunda é a fidelidade da vontade ao ditame da consciência. Mesmo que alguém, sem culpa própria, não tenha alcançado ainda o conhecimento da Verdade, mas é fiel ao ditame da consciência em todas as circunstâncias, está, de certo modo, sendo fiel a Deus, dentro dos dons que recebeu. “Quanto mais se confiar a alguém, dele mais se há de exigir” (Lc 12,48). Estas duas atividades da consciência, cada uma a seu modo, são as que mais dignificam moralmente a pessoa humana: busca imparcial da verdade e fidelidade à verdade conhecida como tal. É este o campo onde o Espírito Santo pode mais fecundamente produzir seus frutos de salvação. A negação prática da verdade conhecida como tal pela consciência é exatamente um dos pecados contra o Espírito Santo, que, perdurando na vida da pessoa, “não tem perdão” (cf. Mt 12,31-32; Mc 3,29; Lc 12,10). A pessoa que tem essa segunda característica, diz-se que tem uma consciência reta.
Uma consciência bem formada é verídica e é reta . A consciência moral compreende, portanto, a percepção da Verdade, na qual estão contidos os princípios da moralidade. Esta percepção dos princípios da moralidade chama-se “sinderese”. Daí parte para a aplicação desses princípios às circunstâncias determinadas na qual a pessoa é chamada a agir, tomando decisões e agindo de acordo com essas decisões. Esse processo determina na pessoa a virtude da prudência, que pode-se chamar a virtude do reto uso da consciência moral.
A consciência, agindo segundo os processos que vimos, unida à liberdade, possibilita à pessoa assumir a responsabilidade pelos atos que pratica. Por isso, uma das principais liberdades que se deve conceder a toda pessoa humana é a liberdade de consciência – respeitados os limites do bem comum. Ninguém deve ser forçado a agir contra a própria consciência nem, respeitado o bem comum, impedido de agir de acordo com a própria consciência. Esses são “direitos” da pessoa em relação à sua consciência. O dever da pessoa em relação à sua consciência seria buscar sempre e imparcialmente a Verdade .
10.1. A busca da Verdade e a busca da Vida.
A pessoa humana, dispersa, após o pecado original, sobre a face da terra, peregrina, como vimos, numa “luta” permanente contra a morte e seus sinais, como a fome, a insegurança, a solidão etc. A pessoa humana busca instintivamente a vida e isso está de acordo com a sua natureza pois ela foi criada para viver plenamente a vida divina. Jesus Cristo veio para conferir essa vida divina à pessoa humana, mas esta o rejeitou, porque a busca pela vida é marcada na terra pela conservação da vida mortal e não tanto pela busca da vida imortal. Isso é mostrado no Evangelho desta forma:

1No princípio era o Logos, e o Logos estava junto de Deus e o Logos era Deus. 2Ele estava no princípio junto de Deus. 3Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito. 4Nele havia a vida, e a vida era a luz dos homens. 5A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. 9[O Logos] era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem. 10Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu. 11Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. 12Mas a todos aqueles que o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus (Jo 1,1-5.9-12).

A vida é a luz dos homens. As pessoas buscam vida melhor, sentirem-se bem. São, na verdade, poucas as pessoas que tem capacidade para buscar a Verdade como tal. Pode-se dizer que é um talento divino a capacidade de reconhecer a Verdade, no meio de tantos sofrimentos e na ânsia por uma vida mais tranqüila. Jesus proclama que Ele é a Verdade e a Vida (cf. Jo 14,6). Mas que quem o escuta é o que é da Verdade (cf. Jo 18,37). O fato é que nas comunidades cristãs o que mais atrai as pessoas não é tanto a proclamação da verdade, mas a caridade que acolhe. As pessoas permanecem nas comunidades por experiências de vida que incluem curas interiores ou físicas, superações de sofrimentos etc. Poucos são os que permanecem por uma convicção doutrinal, ou seja, pela fé mesma. Até mesmo Jesus fez essa experiência, como Ele mesmo afirma:

48Disse-lhe Jesus: Se não virdes milagres e prodígios, não credes… (Jo 4,48).

Por causa dessa diferença de capacidade para alcançar a Verdade é que Jesus Cristo, segundo o desígnio do Pai, constituiu pastores e ovelhas, isto é, que uns os que vêem a Verdade, guiem os que não vêem, mas querem caminhar na Verdade. Isso também é um sinal da unidade do gênero humano, que caminha para a Vida quando os que têm o dom o colocam a serviço dos que não o têm. Como a fé – o conhecimento da Verdade – opera pela caridade (cf. Gl 5,6) e sem ela nada é, porque a fé é o conhecimento das Pessoas Divinas e, como vimos no início deste nosso tratado, a pessoa só pode ser conhecida se é abordada com amor, Jesus coloca o amor a Ele mesmo, o amor a Deus, a caridade, como critério do apascentar as ovelhas.

15Tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes? Respondeu ele: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta os meus cordeiros. 16Perguntou-lhe outra vez: Simão, filho de João, amas-me? Respondeu-lhe: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta os meus cordeiros. 17Perguntou-lhe pela terceira vez: Simão, filho de João, amas-me? Pedro entristeceu-se porque lhe perguntou pela terceira vez: Amas-me?, e respondeu-lhe: Senhor, sabes tudo, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas (Jo 21,15-17).

É pelo amor a Deus que se pode conhecer a Deus. Por isso, a Teologia deve ser feita com amor a Deus, objeto do conhecimento da Teologia. Quem ama, tem mais condições de conhecer e de guiar outros no conhecimento de Deus. Foi este o critério pelo qual Jesus Cristo escolheu Simão para confirmar seus irmãos na fé (cf. Lc 22,31-32). Mas o contrário pode ocorrer também. O que exerce a função de guiar não ama e não conhece a Verdade.

12Então se aproximaram dele seus discípulos e disseram-lhe: Sabes que os fariseus se escandalizaram com as palavras que ouviram? 13Jesus respondeu: Toda planta que meu Pai celeste não plantou será arrancada pela raiz. 14Deixai-os. São cegos e guias de cegos. Ora, se um cego conduz a outro, tombarão ambos na mesma vala (Mt 15,12-14).

Também na Igreja, atualmente, se o Evangelho de Jesus escandaliza teremos guias cegos guiando outros cegos para o abismo. O caráter eminentemente espiritual da salvação e o Reino “que não é deste mundo” (cf. Jo 18,36) infelizmente escandalizam muitos na Igreja que sofre o influxo de um mundo sob influência de doutrinas materialistas que colocam a realização da pessoa humana mais na justiça social do que na perfeição do amor a Deus. Daí termos hoje muitos guias cegos na Igreja.
11. O Cristianismo e as Virtudes Humanas
A Vida Moral Cristã não é construída simplesmente numa aquisição de virtudes morais. O Cristianismo, porém, sempre incentivou os que ouviram sua mensagem à aquisição das virtudes morais.
Podemos dizer que a virtude é a capacidade que uma pessoa possui de assumir comportamentos convenientes à consecução de determinado fim. Quando o fim é a coerência interior da pessoa ou a harmonia social a virtude é considerada virtude moral. Por exemplo, a honestidade, a veracidade, a generosidade. Quando o fim é a comunhão com Deus em Si mesmo pela graça, temos as virtudes infusas ou teologais: a Fé, a Esperança e a Caridade. Quando o fim é a perfeição profissional temos as virtudes profissionais: a competência, a laboriosidade, a pontualidade, a assiduidade etc. As virtudes teologais têm uma natureza diversa das virtudes humanas. São geradas no homem a partir da autocomunicação de Deus ao homem e não de um esforço de desenvolvimento da pessoa. Por isso podemos dizer, mesmo se o cristianismo, como dissemos, usou sempre um discurso de virtudes, que a vida cristã em si mesma não se desenvolve como uma aquisição progressiva de virtudes, mas como uma iluminação que a Revelação Divina provoca, fazendo a pessoa reconsiderar a sua pessoa, o mundo, o seu destino, a partir de Deus e aí passa a viver segundo essa que é a realidade verdadeira que conheceu pela Revelação e acolheu pela fé, pela esperança e pela caridade. O caminho da aquisição progressiva das virtudes provém das filosofias grega, oriental etc. e não do cristianismo mesmo. Este absorveu esse caminho, não sem prejuízo de sua compreensão, de sua pureza e natureza original.
11.1. As virtudes como forma de progresso moral pagão
Essa assimilação da vida moral brotada da filosofia fez com que o cristianismo aparecesse, para a grande maioria das pessoas como um difícil aperfeiçoamento moral e não como uma iluminação sobre a Verdade, deformando o próprio conceito de fé, que se afastou do acolhimento e conhecimento da Verdade revelada, para se confundir com certa confiança em Deus, confundindo-se com o conceito de esperança e, em muitos casos, deturpando-o. Isto também está na origem da atual separação entre fé (sentimentos religiosos) e vida (comportamento moral) e na pouca valorização do conhecimento religioso, concebido secularmente como algo necessário somente para pessoas especiais, ministros ordenados etc. Para que conhecer detalhes sobre a Revelação se a pessoa pode sentir confiança (confundida com a fé) em Deus, mesmo sem conhecê-lo em detalhes, sem conhecer o que Ele revela sobre a natureza divina, a natureza humana e a realidade? A ignorância religiosa abre espaço também para o sincretismo religioso, pelo uso da linguagem e dos símbolos cristãos para um culto que, em sua lógica interna, é fundamentalmente pagão. A pessoa humana, decaída do estado de graça pelo pecado original, perdeu o conhecimento do Deus verdadeiro e passa a imagina-lo a partir de si mesma, fazendo inúmeras representações de um “deus criado à imagem da pessoa humana poderosa”. Por isso, não é conhecedora do deus verdadeiro, nem atéia, mas pagã. O paganismo, em todas as suas formas, é a expressão religiosa da pessoa humana mortal em luta para conservar-se e atingir de uma ou outra forma uma segurança material ou psicológica. É como uma religiosidade natural que está no íntimo das pessoas e corresponde a sentimentos que, numa linguagem joanina e paulina, são carnais.
11.2. As virtudes e a lei são etapas intermediárias para alcançar a vivência do Mistério
Por que o discurso sobre as virtudes cresceu tanto no ensino da fé cristã?
Mesmo que a vida cristã seja, em sua natureza própria, a vida segundo a Verdade revelada, e a visão da Verdade mude o homem, o cristão é um homem encarnado, inserido em seu contexto vital, sua cultura, e sofre diversos condicionamentos que lhe vem desse ambiente onde vive. Certamente foi pela denúncia contra os ambientes moralmente corrompidos que influenciavam os fiéis e a necessidade de fortalecê-los nos bons costumes, unida à natural dificuldade dos convertidos de viver a partir somente do Espírito, que levou a Igreja a acentuar o caminho da aquisição das virtudes morais.
Outra “pedagogia” que a Igreja utiliza é a da lei. Deus mesmo, antes de revelar a Graça e a Verdade (cf. Jo 1,17), a Sua Vida íntima de Santíssima Trindade, para participar da qual a pessoa humana foi criada, dirigiu sua comunicação à pessoa humana no seu paganismo e estabeleceu com ela, em Israel, uma Aliança baseada na Lei. Só depois de um grande amadurecimento e muitos profetas Deus revelou a Verdade de Sua Vida Divina. Este processo se dá não apenas com Israel, mas com cada pessoa. A pessoa tem em sua carne, latente, o paganismo. Passa a ser educada na fé e, no terreno moral é educada pela Lei. Só depois de um crescimento e amadurecimento pode deixar a dependência da Lei para viver a maturidade da Graça. Nessa pedagogia, ao lado da Lei, a Igreja usou também a moral das virtudes. Por isso, a Igreja, mesmo pregando que o Espírito supera a Lei e o cristão não está mais sob a Lei (cf. Rm 6,14; Gl 4,5; 5,18), devido à fraqueza de seus filhos estabeleceu os “mandamentos da Igreja” e numerosas disciplinas em relação aos sacramentos e à vida moral em geral. São necessárias por causa da fraqueza humana. A pessoa, porém, é chamada a crescer, para viver no Espírito de Cristo a sua Páscoa, a sua “kenosis” pessoal é nela comunhão divina e antecipação da vida eterna. Não é mais por causa da lei que o cristão vive a lei, os dez mandamentos, mas os supera pelo Espírito de Jesus Cristo que vive nele. No Evangelho de Mateus, no Sermão da Montanha, Jesus dá uma interpretação superior dos mandamentos, usando as expressões: “Ouvistes o que foi dito aos antigos…” e “Eu, porém, vos digo…” (cf. Mt 5,21-22.27-28.31-32.33-34.38-39.43-44). As atitudes que Jesus Cristo determina nos “Eu, porém, vos digo…” são as atitudes da semelhança divina que a pessoa humana é chamada viver e ser para ser “filho de Deus” (cf. Mt 5,45) filho no Filho, na comunhão divina.
11.3. As virtudes no mundo moderno
A atual crise moral que abrange as sociedades no mundo inteiro tem sua razão de ser no condicionamento que o ambiente exerce sobre cada pessoa. Mas esse condicionamento tem raízes em transformações profundas que, mudando a civilização, afetaram profundamente a alma humana.
Uma dessas transformações foi o extraordinário progresso tecnológico com o uso de novas energias e a descoberta da origem das doenças com a conseqüente cura, que caracterizou as idades moderna e contemporânea. O ser humano, que era refém da natureza, sentiu-se poderoso sobre ela. A impotência diante da natureza, levava as pessoas a uma busca de recurso no mundo sobrenatural. A descoberta das curas e o domínio de novas energias (vapor, elétrica, combustíveis fósseis, solar, nuclear) fizeram diminuir muito o impulso à busca de salvação sobrenatural e aumentou o sentimento de auto-suficiência, ou seja, o orgulho do homem. Enfraquecendo o impulso sobrenatural, atrofiou também o temor de Deus, que era uma das colunas mestras que sustentava o exercício da virtude. O impacto do progresso do domínio sobre a natureza foi tal que as filosofias atéias, que em Demócrito jamais haviam conseguido ser populares, começaram a encontrar acolhimento no meio popular em muitos países, junto com um cientificismo ingênuo.
Outra grande transformação foi a implantação dos meios de comunicação social eletrônicos, o desenvolvimento da imprensa e o surgimento da cultura de massas, provinda, não da alma popular, mas das minorias materialistas e atéias, mas poderosas financeiramente, que controlam esses meios. Criou-se uma cultura sem Deus e foi se perdendo de vista, paulatinamente, as razões que sustentavam o comportamento virtuoso, que, animando a razão humana, levavam o espírito humano a controlar e dominar os impulsos da carne. Os valores morais passaram a ser considerados ‘tabus’ a serem derrubados e foi implantada uma cultura de satisfação dos instintos da carne, na qual a razão tem pouco espaço. Os lemas dessa ‘revolução’ eram, por exemplo, “É proibido proibir”, “Não se reprima” etc.; essa cultura enfraqueceu a vontade das pessoas, tornando-as incapazes de se controlarem a si mesmas, descendo a níveis sub-animalescos de que é sinal a enorme quantidade de dependentes de drogas, com um exorbitante índice de consumo e violência pública em todos os lugares. O ser humano, orgulhoso de ser senhor da natureza, percebeu que não era senhor nem de si mesmo e se tornou incapaz de conviver socialmente em harmonia. Tornou-se um homem sem virtude.
Concomitantemente com essa evolução dos fatos, a cultura tornou-se também performática. O importante passou a ser superar metas, alcançar maiores índices, seja no caso de um atleta que busca estabelecer novo recorde, seja no caso de uma empresa que quer conquistar uma fatia sempre maior do mercado. Esta busca de objetivos e auto-superação leva a pessoa a desenvolver em si determinadas virtudes, submeter-se a uma verdadeira ascese, em vista de aumentar sua capacidade de alcançar tais ‘performances’. Isto mostra que a busca de virtudes não é algo do passado, mas é muito exigida pelo mundo moderno, haja vista, por exemplo, o rigor das exigências que se faz na seleção de candidatos para um emprego. E quanto mais excelente o emprego, maiores virtudes se exige. A busca da excelência e da produtividade nas empresas fez desenvolver ciências como a psicologia do trabalho, as relações humanas no trabalho e fez redescobrir, através dessas ciências, que a pessoa humana que trabalha mais e melhor a médio e longo prazos é a que for mais equilibrada emocionalmente, afetivamente etc. Isso levou a redescobrir, embora com objetivos materialistas e não de perfeição humana, muito menos pela glória de Deus Criador, o caráter espiritual da pessoa humana e da verdadeira liderança e ação humanas. Levou a redescobrir que toda pessoa tem uma contribuição a dar – tem dons a partilhar – se se descobre o lugar e a função correta para cada pessoa. Por causa destas descobertas se faz uma releitura das fontes cristãs e, repetimos, embora com objetivos imanentes, não deixam de manifestar a riqueza humana do caminho cristão. Por exemplo, títulos de livros bem vendidos como ‘Jesus, o maior líder que já existiu’, ‘Jesus, o maior psicólogo que já existiu’, ‘O Monge e o Executivo’, procuram em Jesus e na Regra de São Bento uma perfeição humana que possibilitará alcançar as melhores performances hoje. Muitas outras publicações na área de auto-ajuda vão na mesma direção. Mesmo para o sucesso terreno é necessária a virtude humana. O vicioso, o não-virtuoso, não está preparado para realizar-se nem neste mundo nem no próximo.
Esta constatação leva-nos, porém, a perceber que toda a grandeza da capacidade humana pode ser canalizada para alcançar metas bem abaixo das verdadeiras metas que, só elas, podem realizar plenamente o homem. “De que vale ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a si mesmo?” (Lc 9,25), diz o Senhor.
11.4. O que determina a perfeição não é só a virtude, mas o destino que a pessoa assume.
Dissemos, no início desta reflexão, que a idéia de virtude moral, em si mesma, não é de origem cristã. Pode haver mesmo um discurso moral cristão que a dispense, como os próprios quatro Evangelhos canônicos. Ao final, constatamos que não falta ao homem moderno o apelo à virtude. Há bastante até. O que falta é aquilo que é específico do cristianismo: a primazia da destinação divina da pessoa humana, a sabedoria divina, a afirmação, pela pessoa humana, da Presença e do Reino de Deus. Sem isso, mesmo a virtude moral humana se torna ambígua e hipócrita. Toda virtude humana, usada só no nível da justiça humana apenas, não tem valor salvífico. Uma pessoa pode ser honesta e corajosa e usar essas virtudes só no nível da “luta” da pessoa para conservar sua vida mortal sobre a terra. A generosidade que leva a “lutar pelos direitos” de uns, mas sem misericórdia pelos seus opositores, não constrói a unidade do Reino dos Céus. Um advogado que defende os interesses de uma pessoa, mas tem por inimigos seus opositores, e não se preocupa que seja feita justiça em seu favor também, pode ser útil no nível da justiça humana, mas não sobe ao nível divino, pascal. Se a Igreja faz uma opção pelos pobres, mas a exerce, na prática, como uma luta de classes, simplesmente, não sendo justa com os proprietários também, como tem acontecido, trai a sua missão divina. Isto quando se procura fazer o bem. Mas a virtude é necessária para se fazer o mal também. Um verdadeiro malandro vigarista só o é, com sucesso, se reunir em si uma série de virtudes humanas muito apreciadas como a tranqüilidade diante da adversidade, a capacidade de comunicação e persuasão, certa prudência e auto-contrôle, e assim por diante. O que caracteriza o cristão não é exatamente já possuir a perfeição da virtude moral humana, mas a sua meta, que é Deus. O verdadeiro perfil moral da pessoa humana não depende tanto da sua virtude moral humana, mas do rumo que dá à sua vida, o Deus verdadeiro, ou ídolo a que serve.
11.5. As virtudes teologais
As virtudes teologais são desenvolvidas na alma pela não-resistência à ação do Espírito Santo. Acolhendo a Revelação, a pessoa desenvolve a fé. A fé é o conhecimento da verdade revelada por Deus. Para esse conhecimento intervém a razão, que intelige os dados revelados e a vontade que “quer crer”. Como já vimos no início deste nosso tratado, até para aceitar dados científicos, é preciso “querer crer”, dar o assentimento da vontade. Jesus diz que se a vontade da pessoa não aceita a Palavra reveladora de Deus, também não aceitará os sinais ou milagres mais evidentes.

29Abraão respondeu: – Eles lá têm Moisés e os profetas; ouçam-nos! 30O rico replicou: – Não, pai Abraão; mas se for a eles algum dos mortos, arrepender-se-ão. 31Abraão respondeu-lhe: – Se não ouvirem a Moisés e aos profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite algum dos mortos (Lc 16,29-31).

Deus revela, por meio de Jesus Cristo, a Verdade (cf. Jo 1,17) mas a pessoa por causa de interesses ligados à situação de pecado, querendo apoiar-se em seu próprio poder e não em Deus, fecha-se à Verdade e assume a mentira. Por isso, Jesus, que fazia sinais portentosos para mostrar que o Pai dava testemunho de Ele ser o seu Filho, chama os judeus que não querem dar seu assentimento, de filhos do diabo, o pai da mentira.

17Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por ele. 18Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado; por que não crê no nome do Filho único de Deus. 19Ora, este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, pois as suas obras eram más. 20Porquanto todo aquele que faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. 21Mas aquele que pratica a verdade, vem para a luz. Torna-se assim claro que as suas obras são feitas em Deus (Jo 3,17-21).

“Aquele que pratica a verdade” é aquele que se abre à Verdade revelada por Deus e essa Verdade, conhecida pela razão e acolhida pela vontade, modela sua ações. É aquele que tem fé. Para acolher a Verdade é necessário que a pessoa tenha um grau mínimo de imparcialidade, de desapego de si. Se uma pessoa é por demais apegada ao que quer que seja (dinheiro, poder, fama, prestígio etc.) que é a sua segurança, e não se desliga dessa falsa segurança, não dará o assentimento interior à fé. Às vezes poderá dar um assentimento exterior, que não muda nada no seu interior, sendo até uma hipocrisia. Porque a fé cristã nos leva a não colocar a nossa segurança a não ser em Deus, única fonte ativa de nossa existência e nossa vida, e capaz de nos dar vida eterna. “As suas obras são feitas em Deus” significa que são realizadas segundo a Verdade de que a nossa segurança não está nas coisas, mas sim em Deus. A pessoa usa de todas as coisas, mas não se apega a nenhuma, em total liberdade, não se escravizando a nenhuma realidade, a nenhum dinheiro, a nenhum poder nem prestígio, mas sá a Deus. É a perfeita adoração a Deus, “em espírito e verdade” (cf. Jo 4,24; Rm 12,1) onde não há nenhuma idolatria. A fé está, desta forma, ligada à perfeita adoração ao Deus único. Por isso é necessária para a salvação que é ter a vida segundo a Verdade.
O dinamismo prático da fé é a esperança, virtude teologal mais existencial, que faz a pessoa repousar sua segurança em Deus. No meio das incertezas deste mundo e da instabilidade das seguranças na vida mortal, a pessoa tem uma rocha firme que se apóia na fé, mas é já um dinamismo próprio, a que chamamos esperança, de que o amor de Deus prevalecerá sobre o mal e a morte, como Bem e Vida. Em momentos de “noite escura” (cf. Obras de São João da Cruz) da fé, em que as verdades da fé também sofrem provação em nosso espírito, é a esperança que nos sustenta. Referindo-se à esperança, o Padre Louis Evely tem uma frase muito significativa: “Ter fé é ser fiel nas trevas ao que se viu na luz”. Nas trevas, a clareza da fé se desfaz, mas resta a esperança que fica confiante no reaparecimento da luz e tem certeza de que Deus dará a salvação aos sofredores que se conservem à esperança n’Ele. A esperança é, assim um dinamismo em que a pessoa sabe que nem tudo o que a sua mente lhe sugere é verdadeiro. Vence as tentações contra a fé sabendo que sua mente vê segundo aparências e condicionada por paixões como o medo, o ódio, a vergonha etc. Não se deixa levar pela impressão momentânea sugerida pelas aflições e espera. A esperança é um dinamismo mais profundo e interior do que a fé esclarecida e é esse dinamismo que aproxima de Deus a maior parte das pessoas.

4Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados! (Mt 5,4).

39Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra ele: Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós! 40Mas o outro o repreendeu: Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício? 41Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum. 42E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino! 43Jesus respondeu-lhe: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso. 44Era quase à hora sexta e em toda a terra houve trevas até à hora nona (Lc 23,39-44).

O malfeitor que fala primeiro, nesta perícope, não tem esperança, pois quer que Jesus – Deus – faça a sua vontade. O segundo malfeitor espera a ação de Deus segundo a mente de Deus. Apenas pede um “lembra-te de mim”. Era uma hora de trevas. É a esperança, mais do que a fé esclarecida que move o coração do segundo malfeitor. A esperança faz com que, mesmo não tendo toda a clareza da fé, diante da miséria das desilusões da vida, da doença e da morte, muitas pessoas, que antes colocavam suas seguranças em si mesmas, em suas posses, títulos e poderes, acabem colocando-se sob a dependência de Deus, às vezes muito pouco conhecido por elas, mas buscado pela esperança. No ladrão crucificado estão representadas muito mais pessoas que serão salvas do que na fé explícita de um São Pedro, São Paulo ou Santo Estevão. Deus não deixará de satisfazer a pessoa que tem um fio de esperança.

“18Esperando, contra toda a esperança, Abraão teve fé e se tornou pai de muitas nações, segundo o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência” (Rm 4,18; cf. Gn 15,5).

Pode-se dizer que a fé de Abraão em Deus, tão louvada na Sagrada Escritura era uma certeza do cumprimento de suas promessas. Abraão não conhecia tão bem a Deus, sua fé era rudimentar; ele é o primeiro ao qual Deus começa a revelar-Se. Mas teve esperança no cumprimento das promessas. É por esse prisma que São Paulo aborda a fé de Abraão, para basear a primazia da fé sobre as obras da Lei (Rm 4,13-14.16.20; 15,8). Abraão esperou o cumprimento da promessa. É não tanto o pai da fé, mais ainda o pai da esperança.

“21Em seu nome as nações pagãs porão sua esperança” (Is 42,1-4; Mt 12,21).

Este versículo confirma que é mais pela esperança que pela fé esclarecida que muitos serão salvos.

25Pois dele diz Davi: Eu via sempre o Senhor perto de mim, pois ele está à minha direita, para que eu não seja abalado. 26Alegrou-se por isso o meu coração e a minha língua exultou. Sim, também a minha carne repousará na esperança, 27pois não deixarás a minha alma na região dos mortos, nem permitirás que o teu santo conheça a corrupção. 28Fizeste-me conhecer os caminhos da vida, e me encherás de alegria com a visão de tua face (Sl 15,8-11; At 2,25-28).

Este trecho do Salmo 15, utilizado por São Pedro em sua pregação no dia de Pentecostes revela que Jesus Cristo nos salvou porque não confiou em sua própria auto-defesa (“desça da cruz e acreditaremos”, diziam os judeus), mas esperou no Pai que lhe havia dado a natureza humana mortal e pelo qual é gerado eternamente no seio da Trindade.

A Carta aos Romanos se apresenta como exaltação da salvação pela fé e não pelas obras da Lei, mas pode ser vista também como exaltação da virtude teologal da esperança. Eis algumas passagens entre outras presentes nessa carta que aludem à importância da esperança.

“Por ele é que tivemos acesso a essa graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança de possuir um dia a glória de Deus” (Rm 5,2). “E a esperança não engana. Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). “Porque pela esperança é que fomos salvos. Ora, ver o objeto da esperança já não é esperança; porque o que alguém vê, como é que ainda o espera?” (Rm 8,24). “Nós que esperamos o que não vemos, é em paciência que o aguardamos” (Rm 8,25).

Assim como em Rm 5,5 São Paulo associa a esperança à caridade, também na Primeira Carta aos Coríntios faz o mesmo.

“[A caridade] tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13,7). “Por ora subsistem a fé, a esperança e a caridade – as três. Porém, a maior delas é a caridade” (1Cor 13,13).

Também São João faz essa associação entre caridade e esperança. E dá um sentido ativo à esperança esclarecida pela fé. Quem vive a esperança purifica-se e torna-se semelhante a Jesus Cristo. A esperança dos bens eternos nos liberta do apego dos bens temporais que não podem dar vida eterna, embora dêem às pessoas a ilusão de uma segurança terrena.

1Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato. Por isso, o mundo não nos conhece, porque não o conheceu. 2Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é. 3E todo aquele que nele tem esta esperança torna-se puro, como ele é puro (1Jo 3,1-3).

A esperança tem um componente de confiança no amor do Criador, mesmo numa fé pouco esclarecida, como tentamos mostrar. É, portanto associada à caridade de Deus. E é a caridade de Deus que conquista o nosso coração para que possamos também nós termos caridade e amarmos a Deus acima de todas as coisas. São João associa a caridade também à fé, o conhecimento de Deus.

7Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. 8Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. 9Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em nos ter enviado ao mundo o seu Filho único, para que vivamos por ele. 10Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em ter-nos ele amado primeiro, e enviado o seu Filho para expiar os nossos pecados (1Jo 4,7-10).

Para São João quem não tem caridade não conhece a Deus. Em outras palavras, não tem fé, se essa é justamente o conhecimento de Deus. Aqui vemos a limitação das profissões de fé. Podemos admitir as verdades da fé que a Igreja nos ensina. Mas não interpretarmos toda a realidade a partir da fé e continuarmos a colocar nossa segurança em atitudes egoístas, não reconhecendo que o caminho mais seguro é o que Jesus Cristo percorreu doando-se por inteiro e nada guardando para si. Conhecer o amor com que Deus nos amou e não amá-Lo é, segundo São João, impossível. Para São João o amor de Deus nos atrai e nos imerge n’Ele inexoravelmente.
Há uma busca de salvação que não inclui o amor de Deus. É aquela busca do jovem rico (cf. Mc 10,17-22). Queria alcançar a vida eterna, mais como um medo de condenação do que por amor a Deus. Na lógica do “sola fides” protestante também está esse medo da condenação. Professam que a natureza humana ficou irremediavelmente marcada pelo pecado e que ninguém pode alcançar a santidade, isto é, a perfeição da caridade. Que Jesus Cristo, recebendo sobre si o castigo que recairia sobre o pecador o justifica e salva. Este, então, não é condenado mas se salva. Como salvar-se se não tem a caridade? Como viver com Deus por toda a eternidade sem amá-Lo totalmente? Claro está que essa “salvação” está mais em oposição à condenação eterna do que uma verdadeira comunhão de amor com Deus, na vida da Santíssima Trindade. É verdade que o temor da condenação já é um passo no sentido da salvação, é melhor que a descrença e a indiferença. Mas a caridade supera simplesmente esse medo da condenação e deseja amar a Deus por Deus mesmo e não por medo da condenação, que, em última análise, tem em si por base um egoísmo.
As três virtudes teologais, virtudes infusas pelo Espírito Santo em nós, são nobilíssimas. A fé é voltada para Deus, pois tem no conhecimento de Deus a sua realização. O desejo de conhecer a Deus, que é a Verdade, leva a pessoa humana a Jesus Cristo, que revela Deus (cf. Jo 19,37). A esperança é voltada para a pessoa, no seu anseio de plenitude. E, como vimos pelas passagens bíblicas, se a fé e a esperança são autênticas nos levam à caridade, que é voltada para Deus, é renunciar a si mesmo para amar totalmente e ter toda a vida em Deus. Assim as virtudes teologais tendo seus pólos na pessoa humana e em Deus realizam o caminho que leva da pessoa humana, que anseia por vida plena, para Deus que é o Único no Qual a Vida Plena se realiza. Deus Se revela, a pessoa acolhe tal revelação (fé), passa a esperar nas promessas da revelação a realização de seus anseios mais profundos de plenitude de vida (esperança), daí passa a desejar sempre mais ver Deus, purificando seu coração do amor do mundo e suas concupiscências (cf. Mt 5,8; 1Jo 2,15-17).
11.6. As virtudes cardeais
As virtudes morais são de uma natureza diversa daquelas teologais, pois estas são infusas, são dons sobrenaturais e as virtudes morais são de ordem natural, adquiridas com o auxílio das virtudes teologais, mas com o desenvolvimento dos dons divinos naturais na pessoa.
Desde antes de Jesus Cristo todas as virtudes morais, que são muitas, percebeu-se que giravam em torno de quatro virtudes que, por causa disso, passaram a ser chamadas de virtudes cardeais (de cardo=eixo de dobradiça, eixo em torno do qual e apoiado ao qual uma coisa gira). Estas virtudes são a prudência, a temperança, a fortaleza e a justiça. Elas já são citadas no Livro da Sabedoria, último livro do Antigo Testamento a ser escrito, no ambiente helenístico de Alexandria, no Egito.

“7E se alguém ama a justiça, seus trabalhos são virtudes; ela ensina a temperança e a prudência, a justiça e a força: não há ninguém que seja mais útil aos homens na vida” (Sb 8,7).

A prudência é a virtude da consciência. Dita a reta norma do agir, aplicando ao caso concreto que se apresenta na vida da pessoa os princípios morais gerais conhecidos pela consciência. É iluminada pelo dom do Espírito Santo chamado Conselho à escolha da melhor opção de ação em cada circunstância, aquela ação que seja mais de acordo com a vontade de Deus. No seu exercício prático a prudência se desdobra em duas outras virtudes: a temperança e a fortaleza.
A temperança é a liberdade em relação aos bens que se apresentam ao sujeito, a fim de servir-se deles na justa medida, sem escravizar-se aos bens segundo as inclinações da carne. Evita-se assim a gula, a avareza, a preguiça e muitos outros males que são o apego excessivo a alguns bens. Os alimentos, as posses, o descanso são, respectivamente, em si mesmo, bens, mas o seu excesso é danoso moralmente ao bem da pessoa. A temperança, sendo liberdade em relação aos bens, preserva a pessoa dos vícios, que são males morais.
A fortaleza é a liberdade em relação aos males que se apresentam ao sujeito. Ameaças, tentações, subornos e outros males contra a pessoa não devem levá-la a agir moralmente mal. A confiança em Deus, a coragem, o amor à verdade e ao Bem, a imparcialidade, a veracidade e outras virtudes são preservados pela fortaleza. A fortaleza, sendo liberdade em relação aos males, conserva na pessoa as virtudes, que são bens morais.
Possuindo pela prudência, a temperança e a fortaleza, constrói-se na pessoa a virtude da justiça, que engloba todas as virtudes morais. A justiça consiste em uma relação correta da pessoa com Deus, em primeiro lugar, e também com todas as outras pessoas e todas as outras criaturas, segundo a ordem estabelecida pelo Criador. A justiça traz a harmonia das relações que, nesta vida, deve ser sempre construída, a cada momento, não estando nunca garantida para o futuro, pois o justo é constantemente tentado na virtude da justiça, por causa da presença dos pecadores sobre a terra. A harmonia das relações não é sempre uma paz externa, uma ausência completa de conflitos (cf. Mt 11,12), mas uma paz interna de quem no mundo pecador faz a vontade de Deus.
Citemos, por exemplo, dois homens justos. José era um homem justo (cf. Mt 1,19). Mesmo assim teve conflitos quando da concepção virginal de Maria (cf. Mt 1,19-20), que fugir à noite para o Egito (cf. Mt 2,13-15), e evitar Arquelau (cf. Mt 2,22). Embora tenha tido esses conflitos devido aos pecados dos homens sua relação com Deus e com todas as pessoas foi perfeita, segundo a prudência e a justiça. João Batista também foi um homem justíssimo (cf. Mt 11,11). E não faltaram conflitos em sua vida, seja com os fariseus a quem teve de chamar de “raça de víboras” (cf. Mt 3,7; Lc 3,7), seja com Herodes e Herodíades, conflito que causou sua gloriosa morte (cf. Mc 6,17-29). Mas a relação de João Batista com Deus e todas as pessoas foi perfeita, segundo a prudência, a sinceridade, a coragem e a justiça, falando e agindo sempre em vista do bem de todos.
Assim, a prudência se abre em temperança e fortaleza e essas se unem formando a justiça, completando como que um quadrilátero, mostrando a íntima relação entre as virtudes cardeais.
11.7. As virtudes cardeais na perspectiva evangélica.
Deus tudo criou por meio de Sua Palavra e tudo mantém, em vista de tudo levar à plenitude (cf. Jo 1,3; 5,17; Rm 8,19-23). A única criatura do mundo visível a poder colocar um obstáculo a essa ação divina é, exatamente, a criatura criada à imagem e semelhança de Deus: a criatura humana. Por essa prerrogativa divina, é a única criatura a poder resistir à ação criadora divina. Crer em Jesus Cristo é submeter-se à autoridade e à ação divina, o que é o mesmo que converter-se ao Reino de Deus, aceitar a sabedoria Deus, não mais resistir ao poder e à autoridade de Deus. A ação criadora divina sendo realizada por meio da Palavra de Deus, a resistência à ação criadora é resistência à Palavra de Deus. Jesus Cristo aborda o tema da reação da pessoa humana em relação à ação criadora divina, a resistência ou acolhimento à Palavra de Deus, portanto, na parábola do semeador.

“4Disse ele: Um semeador saiu a semear. E, semeando, parte da semente caiu ao longo do caminho; os pássaros vieram e a comeram. 5Outra parte caiu em solo pedregoso, onde não havia muita terra, e nasceu logo, porque a terra era pouco profunda. 6Logo, porém, que o sol nasceu, queimou-se, por falta de raízes. 7Outras sementes caíram entre os espinhos: os espinhos cresceram e as sufocaram. 8Outras, enfim, caíram em terra boa: deram frutos, cem por um, sessenta por um, trinta por um” (Mt 13,4-8).

“18Ouvi, pois, o sentido da parábola do semeador: 19quando um homem ouve a palavra do Reino e não a entende, o Maligno vem e arranca o que foi semeado no seu coração. Este é aquele que recebeu a semente à beira do caminho. 20O solo pedregoso em que ela caiu é aquele que acolhe com alegria a palavra ouvida, 21mas não tem raízes, é inconstante: sobrevindo uma tribulação ou uma perseguição por causa da palavra, logo encontra uma ocasião de queda. 22O terreno que recebeu a semente entre os espinhos representa aquele que ouviu bem a palavra, mas nele os cuidados do mundo e a sedução das riquezas a sufocam e a tornam infrutuosa. 23A terra boa semeada é aquele que ouve a palavra e a compreende, e produz fruto: cem por um, sessenta por um, trinta por um” (Mt 13,18-23).

Segundo a parábola, a resistência à Palavra de Deus se faz:

a) pela ignorância, certa ausência de horizonte mental para sintonizar com o pensamento divino, o que impede de compreender a Palavra de Deus. A pessoa é incapaz de perceber a relatividade dos objetivos terrenos e o absoluto da salvação eterna. Isto configura uma ausência da virtude cardeal da prudência. É o primeiro terreno da parábola do semeador, a semente que caiu ao longo do caminho.
b) pelo medo do sofrimento e da perseguição que os filhos do Reino de Deus passam neste mundo É a falta da virtude cardeal da fortaleza, segundo terreno da parábola do semeador, o solo pedregoso.
c) pelas preocupações geradas pelos desejos de possuir e gozar os bens deste mundo. É a falta da virtude cardeal da temperança, o terceiro terreno descrito na parábola do Semeador, o terreno cheio de espinhos.

Se não há esses três empecilhos a acolher a Palavra de Deus, a ação criadora de Deus, a pessoa vive as três primeiras virtudes cardeais e estas constroem nela a Justiça, virtude cardeal. É o quarto terreno, a terra boa, da parábola do Semeador. Por essa aproximação entre as virtudes cardeais e uma parábola evangélica podemos perceber melhor a importância das virtudes cardeais.

A primeira virtude cardeal, a prudência, adquire um sentido superior. Para entender o Evangelho, de fato temos que perceber o absoluto da salvação eterna, a pedra preciosa, o tesouro escondido no campo, pelo qual vale a pena se desfazer de tudo o mais (cf. Mt 13,44-46). Não entender isso configura uma imprudência, uma cegueira, uma limitação da consciência que não percebe a parte mais importante da realidade na qual a pessoa está envolvida. Se a prudência é a virtude da consciência, a consciência da pessoa não pode perder a perspectiva eterna para ter a prudência evangélica (cf. Mt 7,24; 10,16 (compare com Rm 16,9); 24,45; 25,1-13; Ef 5,17; 2Tm 4,5; 1Pd 4,7). A estes, marcados pela ignorância das coisas transcendentes, mas muito capazes no terreno imanente diz Jesus:

“54Dizia ainda ao povo: Quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, logo dizeis: Aí vem chuva. E assim sucede. 55Quando vedes soprar o vento do sul, dizeis: Haverá calor. E assim acontece. 56Hipócritas! Sabeis distinguir os aspectos do céu e da terra; como, pois, não sabeis reconhecer o tempo presente? 57Por que também não julgais por vós mesmos o que é justo?” (Lc 12,54-57).

Interessante é notar que, apelando para a prudência em relação aos sinais divinos, Jesus faz a ligação da prudência com a justiça, o discernimento do que é justo, mostrando a unidade das virtudes cardeais. Aqui a prudência é a capacidade de discernir o que é justo para agir com justiça.

A segunda virtude cardeal, pela ordem da parábola do semeador, é a fortaleza. A fortaleza evangélica está intimamente ligada à capacidade de sofrer pelo Reino de Deus e manter a paz de espírito. O Evangelho coloca a fortaleza na fraqueza de meios humanos, para que se manifeste a ação de Deus: Rm 15,1;

“22Os judeus pedem milagres, os gregos reclamam a sabedoria; 23mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos; 24mas, para os eleitos – quer judeus quer gregos -, força de Deus e sabedoria de Deus. 25Pois a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. 26Vede, irmãos, o vosso grupo de eleitos: não há entre vós muitos sábios, humanamente falando, nem muitos poderosos, nem muitos nobres. 27O que é estulto no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e o que é fraco no mundo, Deus o escolheu para confundir os fortes; 28e o que é vil e desprezível no mundo, Deus o escolheu, como também aquelas coisas que nada são, para destruir as que são. 29Assim, nenhuma criatura se vangloriará diante de Deus” (1Cor 22-29).

A fortaleza evangélica é, portanto, diferente da fortaleza humana. Não é treino humano, psicologia humana, mas ação do Espírito Santo na pessoa. Esta, do ponto de vista terreno, é muito fraca, mas sustentada pela fé, esperança e caridade não se dobra a nenhuma ameaça que lhe façam, permanecendo fiel à verdade divina. Temos um outro exemplo na vida de São Paulo.

“7Demais, para que a grandeza das revelações [que o Senhor fez a São Paulo] não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para me esbofetear e me livrar do perigo da vaidade. 8Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim. 9Mas ele me disse: Basta-te minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força. Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo. 10Eis por que sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo. Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,7-10).

A fortaleza cristã, portanto, está muito longe de nutrir orgulho ou auto-suficiência. Vemos aqui, claramente a relação entre a virtude cardeal da fortaleza e o dom do Espírito Santo denominado também fortaleza. No cristão não estão nunca dissociados.

A terceira virtude cardeal, pela ordem da parábola do semeador é a temperança. Também a temperança evangélica está ligada à opção radical pelo Reino de Deus, pelo qual vale a pena se desfazer de tudo o mais. E, como a fortaleza, também a temperança evangélica está destinada a manifestar a ação do Espírito Santo nos discípulos de Jesus Cristo. A ação do Espírito Santo nos faz livre de todo apego e necessidade humana. Os exemplos evangélicos são muitos. Citaremos só alguns, ligados ao chamado ao seguimento de Jesus e à missão evangelizadora.

“57Enquanto caminhavam, um homem lhe disse: Senhor, seguir-te-ei para onde quer que vás. 58Jesus replicou-lhe: As raposas têm covas e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça. 59A outro disse: Segue-me. Mas ele pediu: Senhor, permite-me ir primeiro enterrar meu pai. 60Mas Jesus disse-lhe: Deixa que os mortos enterrem seus mortos; tu, porém, vai e anuncia o Reino de Deus. 61Um outro ainda lhe falou: Senhor, seguir-te-ei, mas permite primeiro que me despeça dos que estão em casa. 62Mas Jesus disse-lhe: Aquele que põe a mão no arado e olha para trás, não é apto para o Reino de Deus” (Lc 9,57-62).

Vemos aqui três casos de vocação. No primeiro o Senhor exige a temperança em relação às coisas necessárias para o conforto e a segurança pessoal. No segundo e terceiro, em relação aos afetos do coração. Quando envia os Doze em missão, o Senhor também exige temperança em relação às coisas que poderiam representar segurança para o discípulo:

“9Não leveis nem ouro, nem prata, nem dinheiro em vossos cintos, 10nem mochila para a viagem, nem duas túnicas, nem calçados, nem bastão; pois o operário merece o seu sustento” (Mt 10,9-10).

A quarta virtude cardeal é a justiça. É a síntese e o fruto das demais virtudes cardeais. Como pode-se perceber consiste em deixar Deus ser Deus e comportar-se plenamente como criatura, dependente de Deus para atingir a plenitude.

“12Porque, quem ousará dizer-vos: Que fizeste tu? E quem se oporá a vosso julgamento? Quem vos repreenderá de terdes aniquilado nações que criastes? Ou quem se levantará contra vós para defender os culpados? 13Não há, fora de vós, um Deus que se ocupa de tudo, e a quem deveis mostrar que nada é injusto em vosso julgamentos; 14nem um rei, nem um tirano que vos possa resistir em favor dos que castigastes. 15Mas porque sois justo, governais com toda a justiça, e julgais indigno de vosso poder condenar quem não merece ser punido. 16Porque vossa força é o fundamento de vossa justiça e o fato de serdes Senhor de todos, vos torna indulgente para com todos” (Sb 12,12-16).

Este trecho do Livro da Sabedoria nos faz perceber que toda a Criação, as pessoas inclusive, são absolutamente dependentes de Deus e Deus não tem que dar justificativas de nenhum de seus atos a ninguém. Tudo pertence a Ele, que deu existência a tudo o que existe e a Sua sabedoria excede infinitamente a de quaisquer de suas criaturas. O último versículo nos ensina que a justiça em relação a Deus é aceitar atribuir só a Ele todo o poder e colocar-se inteiramente dependente d’Ele, totalmente confiantes na sua indulgência, ou misericórdia. A prudência, como vimos, é aceitar e buscar de todo o coração o destino eterno para o qual Deus nos criou. É aceitar os Seus desígnios, acima dos nossos instintos e interesses. A fortaleza e temperança evangélicas, como vimos, exigem que a pessoa se coloque totalmente sob o patrocínio de Deus e não das criaturas, de nada que possa ser possuído ou dominado pela pessoa humana. Assim a justiça evangélica, síntese e fruto das outras virtudes cardeais, evangelicamente compreendidas, é colocar-se inteiramente sob o patrimônio divino.
12. O Pecado
12.1. A realidade onipresente do pecado no mundo decaído da graça.
A realidade do pecado é aquela que se opõe à realidade da graça. Todo pecado tem o seu paradigma no pecado original. A tentação de “ser como Deus”, isto é, auto-suficiente, não dependendo de ninguém. A sugestão diabólica que está sempre diante de cada pessoa é a de viver buscando a vida por sua própria força e inteligência, sem se submeter a Deus, sem a esperar de Deus, sem a receber a cada momento de Deus, verdadeira fonte e mantenedor de toda existência e toda vida.
Um perfeito paradigma do significado do pecado nos é dado pelo profeta Jeremias:

“13Porque meu povo cometeu uma dupla perversidade: abandonou-me, a Mim, fonte de água viva, para cavar cisternas, cisternas fendidas que não retêm a água” (Jr 2,13).

Temos os dois termos da frase, significando a ‘dupla perversidade’ do pecado. “Abandonou-me a Mim”: pelo pecado a pessoa humana abandona a sua fonte de vida, o seu Criador. E pensa viver pela obra das suas mãos (as ‘cisternas’); mas as obras das mãos humanas (os ídolos, a tecnologia, o dinheiro etc.) não é capaz de dar vida à pessoa (são ‘cisternas fendidas que não retêm a água’).
A Verdade é que a pessoa humana é criatura e recebeu a existência pela graça de Outro, Deus, e depende d’Ele sempre.

“16Porque o justo cai sete vezes, mas ergue-se, enquanto os ímpios desfalecem na desgraça” (Pr 24,16).

A experiência do pecado é tão universal que o sábio anotou nos Provérbios que o justo cai sete vezes (ao dia?), mas se ergue. O ímpio peca mais ainda e não se ergue do pecado. É mais a experiência de arrepender-se e penitenciar-se do que a experiência de não pecar que faz a diferença diante do Senhor. Isto percebe-se ao ler o Evangelho. Dá a impressão que para os fariseus a humanidade se dividia entre justos e pecadores. Jesus Cristo pergunta aos que acusam a mulher adúltera:

7Como eles insistissem, ergueu-se e disse-lhes: Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra. 8Inclinando-se novamente, escrevia na terra. 9A essas palavras, sentindo-se acusados pela sua própria consciência, eles se foram retirando um por um, até o último, a começar pelos mais idosos, de sorte que Jesus ficou sozinho, com a mulher diante dele (Jo 8,7-9).

Todos se reconheceram pecadores. Para Jesus Cristo, a humanidade se divide entre pecadores que fazem penitência e pecadores que não fazem penitência. A penitência é o sinal de submissão ao Reino de Deus, que predispõe ao perdão, pois embora a pessoa não consiga abster-se plenamente do pecado, devido à fragilidade da vida humana corporal e mortal sobre a terra, ela se coloca sob a dependência da misericórdia de Deus. O anúncio inicial de João Batista, que praticava um batismo exatamente de penitência (cf. Mc 1,4), e de Jesus Cristo é o mesmo e convida a essa submissão ao Reino de Deus decretado.

2Dizia ele [João Batista]: Fazei penitência porque está próximo o Reino dos Céus (Mt 3,2).

15Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; fazei penitência e crede no Evangelho (Mc 1,15).

O Evangelho é justamente a salvação da pessoa humana “de seus pecados”, das conseqüências de perdição que se deve ao pecado, por causa da graça misericordiosa de Deus ao pecador que se submete à autoridade divina, à dependência da misericórdia divina.

18Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava desposada com José. Antes de coabitarem, aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo. 19José, seu esposo, que era homem de bem, não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente. 20Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo de seus pecados (Mt 1,18-21).

O próprio nome de Jesus significa “Javé salva” e o Anjo do Senhor declara a José que Jesus salvará o povo dos seus pecados. Aqui está em germe toda a passagem do regime da Lei, que condenava o pecador, para o regime da graça que é o da Verdade, que é a pessoa humana se colocar sob a total dependência de seu Criador divino.
12.2. O Pecado, a morte, o sofrimento e a destruição do potencial de vida da criação divina.
A graça divina criou tudo o que existe e é sempre promotora de vida. O pecado tem como característica a “luta” da pessoa humana para viver sem a graça, para ter a vida por seus trabalhos, sua força e sua inteligência, numa dependência da criatura. Esta “luta” traz sempre uma insegurança que leva a buscar segurança no acúmulo e no armazenamento dos bens. Este acúmulo e armazenamento torna esses bens estéreis, tirando deles o potencial de geração de vida que está em tudo o que Deus criou. Todas as coisas subsistem no Logos (cf. Cl 1,17) e o Logos de Deus é Vida e transmissão de vida. Pensemos num casal que por medo de passar privações acumula bens e evita filhos. Quanta vida foi rejeitada, nos milhares de casais que vivem essa insegurança. Pensemos nas habitações vazias, adquiridas só para especulação imobiliária, quando há tantos desabrigados. Pensemos no capital imobilizado para fins especulativos e que nada gera de vida. Pensemos nos gastos com arsenais que ficam parados e se tornando obsoletos, justificados só pela insegurança das populações. Quanta energia gasta em atividades egoístas e que não geram vida, mas morte como a produção de tóxicos, de armas, e de supérfluos, que nada acrescentam à vida na terra. A confiança na ciência humana como fonte de felicidade, não segundo os critérios do Criador, mas segundo os caprichos da criatura, leva a congelar uma quantidade imensa de pessoas humanas em estado embrionário; depois a matar essas pessoas como se fossem coisas em pesquisas de utilização de células-tronco para a formação de tecidos em busca de saúde para outros seres humanos. Enquanto alguns seres humanos alimentarem esperanças para si através da morte de outros seres humanos, a morte vai imperar na humanidade e o potencial de vida que a terra pode produzir será desperdiçado pelo pecado da pessoa humana. Pense-se no desperdício das sociedades opulentas dos países chamados “desenvolvidos” que esbanjam e desperdiçam porque tem demais porque exploram as sociedades de outros países, sub-desenvolvidos. Quanta morte é produzida. Quanta gente pensa que come, se veste e se diverte inocentemente, mas esses bens custam a vida dos povos oprimidos. Tudo isso vem da insegurança da pessoa humana após o pecado original, querendo uma “felicidade” na vida mortal que necessariamente é efêmera e ilusória. A população viva do mundo é menos de um terço do que poderia ser se houvesse um verdadeiro amor à vida e as pessoas vivessem na graça de Deus, voltadas para agradecer pela vida e transmitir a vida que receberam. São bilhões e bilhões de pessoas que não chegaram a existir e outras que morreram precocemente na imensa destruição e não-construção da vida devida ao pecado.
Tal insegurança pode ser vista também como medo do sofrimento. Este é uma enorme causa de pecado. Não só a morte, mas também os sofrimentos aumentam no mundo pelo medo de sofrer.
Parece à pessoa humana que o ouro é raro. Tal raridade vem de esse metal ser muito desejado e valorizado. Tudo o que é muito procurado pelas pessoas escasseia. A regra acima vale para o ouro, o dinheiro, como vale também para o sofrimento. O mundo tem muito sofrimento porque as pessoas evitam os sofrimentos, não os valorizam, não os procuram. Ao evitarem os sofrimentos e buscarem os prazeres as pessoas aumentam os sofrimentos pois deixam de cumprir responsabilidades e “empurram” os sofrimentos para os outros. Se todos amassem os sofrimentos, assumiriam as responsabilidades, nisso aliviariam os fardos dos outros e o sofrimento escassearia. O mundo e a vida seriam, paradoxalmente, muito mais agradáveis.
E o que nos pode fazer amar os sofrimentos? O amor a Deus e a esperança de vê-Lo eternamente: a sede de Deus em nossa alma (cf. Sl 41). Quanto mais a tivermos, mais teremos vontade de nos sacrificarmos e sofrermos, aumentando a nossa liberdade, a nossa coragem e diminuindo o amor-próprio, o egoísmo e a preguiça. Evitaremos muitos sofrimentos dos outros, e seremos instrumentos de Deus para Ele, através de nós, gerar muita vida. Por isto Jesus Cristo quis carregar os nossos fardos e as nossas dores.
Além desse aspecto direto de como a busca do sofrimento, alimentada pela esperança e pelo amor a Deus, faz diminuir e escassear o sofrimento, a Fé nos diz que, pelo mistério da comunhão dos santos com Jesus Cristo, a pessoa que assim procede intercede pela salvação eterna de toda a humanidade. Assim escasseia até o sofrimento eterno de muitas pessoas. Paradoxalmente, o amor ao prazer, impulso da carne, gera sofrimento; e o amor a Deus, que se realiza também no amor ao sofrimento, impulso do Espírito, gera alegria, paz e vida, gera o verdadeiro prazer.
12.3. Pecado venial, pecado mortal, opção fundamental e penitência.
Da distinção entre pecador penitente e pecador impenitente, que faz a verdadeira diferença entre os que se salvam e os que não se salvam podemos entender melhor o que é pecado mortal (que leva à morte eterna, à condenação) e pecado venial (que não leva diretamente à condenação).
A distinção tradicional diz que o pecado mortal é o pecado em que o objeto da ação é de matéria grave, cometido com pleno conhecimento dessa matéria e com plena liberdade, sem coação. O Catecismo da Igreja Católica, n. 1858, identifica a matéria grave pelos Dez Mandamentos, especialmente aqueles citados por Jesus Cristo no diálogo com o jovem rico:

19Conheces os mandamentos: não mates; não cometas adultério; não furtes; não digas falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe (Mc 10,19).

Se faltar um desses três elementos, a gravidade de matéria, a advertência ou a plena liberdade, o pecado seria venial. Essa distinção parece não considerar tanto a pessoa em sua história espiritual. Permanece válida e foi reafirmada pelo Papa João Paulo II na Carta Encíclica Veritatis Splendor, n. 70, repetindo a definição da Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia, n. 17. Se levarmos em conta a história espiritual de cada um podemos supor, ao menos numa consideração externa (pois só Deus vê a intenção e a sinceridade dos corações), que não há plena liberdade na recaída no pecado do pecador que está buscando sinceramente deixar determinada atitude de pecado que ficou bastante arraigada nos seus hábitos. A busca sincera de obedecer a Deus não muda a pessoa, a não ser em casos extraordinários, de uma hora para a outra. Muitas vezes a luta contra o pecado é bastante dramática. O pecado venial, segundo a definição tradicional, sem penitência leva, segundo todos os mestres espirituais, ao pecado mortal. Parece-nos, portanto, que a diferença é marcada pela sinceridade da penitência do sujeito. Isto corresponde a um anseio dos teólogos morais de nosso tempo, sensíveis à história espiritual da pessoa em sua luta contra o pecado. Nessa sensibilidade alguns teólogos propuseram a teoria da opção fundamental. Segundo essa teoria a pessoa decide sobre si mesma, em relação ao Bem, a Verdade, a Vida e a Deus, não apenas em seus atos particulares, mas através de algumas decisões atuadas por uma “liberdade fundamental”, que dão forma a toda a sua vida moral, e fora das quais não se poderia compreender nem julgar seus atos. Essa “opção fundamental” é que definiria de forma transcendental o perfil moral da pessoa. Os atos particulares constituiriam só tentativas parciais e nunca definitivas de exprimi-las, seriam sinais ou “sintomas” dela. Um ato particular, dizem se refere sempre a bens particulares e nunca, isoladamente, ao Bem Absoluto, que só poderia ser objeto de uma “opção fundamental” de toda a vida da pessoa. A Igreja condenou esta teoria (cf. Carta Encíclica Veritatis Splendor, n. 65) porque introduz uma distinção entre a “opção fundamental” do sujeito e as escolhas deliberadas dos comportamentos concretos. Isso leva a não considerar o conteúdo moral do objeto dos atos, caindo na tentação da filosofia moderna de desconhecer a verdade (também a bondade ou maldade) objetiva das coisas, para colocar o julgamento moral do ato no sentido subjetivo que a pessoa dê ao ato. E já vimos que a realidade de Deus Criador, e da dependência de todos os seres a Ele, dá aos seres um valor que não nos permite dar, nós mesmos, um sentido a cada um. O valor dos seres está intrínseco neles mesmos pela ordem que Deus deu ao universo. A tentação de a pessoa dar, ela mesma, um sentido às coisas, a partir das situações, é também a tentação de ficar no lugar de Deus, de “ser Deus”, como no pecado original. Pensamos que a nossa proposta de respeitar o elemento subjetivo ao julgar a liberdade do pecador conforme a sinceridade de sua penitência, valoriza a história espiritual do pecador, auxilia o uso do critério tradicional adotado pela Igreja, e não separa o julgamento moral do sujeito da escolha deliberada de seus atos humanos. E traz uma carga de misericórdia para o penitente sincero.
O critério da sinceridade da penitência é o critério evangélico. O “Convertei-vos” de Mc 1,15 ou Mt 3,2 é muitas vezes traduzido por “fazei penitência”. A penitência é a submissão do pecador ao Reino de Deus, ao senhorio de Jesus Cristo. João Batista, para preparar o caminho do Senhor, prega a penitência.

“1Naqueles dias, apareceu João Batista, pregando no deserto da Judéia. 2Dizia ele: Fazei penitência porque está próximo o Reino dos céus. 3Este é aquele de quem falou o profeta Isaías, quando disse: Uma voz clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas (Is 40,3). 4João usava uma vestimenta de pêlos de camelo e um cinto de couro em volta dos rins. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. 5Pessoas de Jerusalém, de toda a Judéia e de toda a circunvizinhança do Jordão vinham a ele. 6Confessavam seus pecados e eram batizados por ele nas águas do Jordão. 7Ao ver, porém, que muitos dos fariseus e dos saduceus vinham ao seu batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera vindoura? 8Dai, pois, frutos de verdadeira penitência. 9Não digais dentro de vós: Nós temos a Abraão por pai! Pois eu vos digo: Deus é poderoso para suscitar destas pedras filhos a Abraão. 10O machado já está posto à raiz das árvores: toda árvore que não produzir bons frutos será cortada e lançada ao fogo. 11Eu vos batizo com água, em sinal de penitência, mas aquele que virá depois de mim é mais poderoso do que eu e nem sou digno de carregar seus calçados. Ele vos batizará no Espírito Santo e em fogo (Mt 3,1-11).

Em outras passagens Jesus também recomenda a penitência.

“13Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e Sidônia tivessem sido feitos os prodígios que foram realizados em vosso meio, há muito tempo teriam feito penitência, cobrindo-se de saco e cinza” (Lc 10,13).

“32Os ninivitas levantar-se-ão no dia do juízo para condenar os homens desta geração, porque fizeram penitência com a pregação de Jonas. Ora, aqui está quem é mais do que Jonas” (Lc 11,32).

“7Digo-vos que assim haverá maior júbilo no céu por um só pecador que fizer penitência do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento” (Lc 15,7).

“46Assim é que está escrito, e assim era necessário que Cristo padecesse, mas que ressurgisse dos mortos ao terceiro dia. 47E que em seu nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém” (Lc 24,46-47).

1Neste mesmo tempo contavam alguns o que tinha acontecido a certos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com os seus sacrifícios. 2Jesus toma a palavra e lhes pergunta: Pensais vós que estes galileus foram maiores pecadores do que todos os outros galileus, por terem sido tratados desse modo? 3Não, digo-vos. Mas se não fizerdes penitência, perecereis todos do mesmo modo. 4Ou cuidais que aqueles dezoito homens, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, foram mais culpados do que todos os demais habitantes de Jerusalém? 5Não, digo-vos. Mas se não fizerdes penitência, perecereis todos do mesmo modo (Lc 13,1-5).

O esquema tradicional de pecado mortal e pecado venial fora da consideração da penitência da vida inteira da pessoa, ao considerar só os momentos das ações encontra uma série de dificuldades. Se uma pessoa adquiriu um hábito vicioso pode ser responsável por tê-lo adquirido. Mas mesmo já tendo se arrependido e recebido o Sacramento da Penitência, conserva em si a tendência viciosa. Está perdoada das ações que inocularam nela o vício. Assim, por ser viciada, tem sua liberdade afetada e, ao cometer a falta levada pelo vício não poderá ser acusada de pecado mortal, porque não goza de plena liberdade interior. E continuará pecando. O que fará a diferença? A sua penitência, a sincera busca de meios que a libertem desse vício, a sincera vontade de readquirir a liberdade que a torne capaz de não mais pecar.
O critério da penitência inclui uma relação dialógica com Deus por parte da pessoa, que, mesmo sem conseguir libertar-se totalmente do poder do pecado sobre ela, de sua vontade se submete ao Reino de Deus, quer sinceramente obedecer a Deus. O critério pontual do pecado mortal ou venial realiza o confronto não tanto com Deus que estabelece o seu Reino e convida à submissão a ele, mas com a Lei em si mesma, e só indiretamente, através da Lei, a pessoa estará se submetendo a Deus. Deve-se levar em conta a história espiritual da pessoa (de penitência ou impenitência) e não apenas o ato isolado para poder-se conhecer o perfil moral da pessoa.
Consideremos uma determinada pessoa recebeu uma educação esmerada, inclusive reliogiosa católica, e sabe controlar-se bastante bem. É honesta, dentro dos padrões sociais, e tem uma série de qualidades e virtudes. Seu horizonte de ação, porém, é a busca do sucesso profissional, a vitória na carreira que escolheu e busca tal objetivo com atitudes moralmente aceitáveis. Consideremos também o caso de uma pessoa que nasceu num ambiente moralmente corrompido e adquiriu na infância e na juventude uma série de vícios, aliada à carência de meios materiais, o que a levou a praticar diversos furtos. Esta pessoa, mal-educada e, cheia de pecados, recebeu o anúncio da Palavra de Deus e luta desesperadamente para libertar-se dos males morais que lhe vieram das suas origens. Busca ajuda para libertar-se dos vícios, mas às vezes tem suas recaídas. Quer a conversão, mas carrega o peso de um passado de dores. Qual dos dois agradará mais a Deus? O primeiro que não pratica ações moralmente condenáveis, mas cujo horizonte de vida é materialista e imanente ou o segundo, que teme a Deus, mas se vê vítima da fraqueza humana e de uma educação viciosa?

“48Mas aquele que, ignorando a vontade de seu senhor, fizer coisas repreensíveis será açoitado com poucos golpes. Porque, a quem muito se deu, muito se exigirá. Quanto mais se confiar a alguém, dele mais se há de exigir” (Lc 12,48).

Consideramos também aqui, como no capítulo sobre as virtudes, que o que mais determina a pessoa não é tanto sua correção moral em si mesma, mas a direção à qual dirige sua vida. Parece-nos que no exemplo acima, a segunda pessoa, embora moralmente menos desenvolvida, caminha melhor para o Reino de Deus do que a primeira, tal como na parábola do fariseu e do publicano (cf. Lc 18,9-14), o publicano que, moralmente, tinha uma vida mais censurável do que a do fariseu voltou justificado para sua casa e não assim o fariseu. O publicano se colocou sob a dependência de Deus. O fariseu apoiou-se em sua própria moral.
12.4. Os pecados capitais
A experiência cristã, recolhida por São João Cassiano e São Gregório Magno , identificou sete vícios como capitais, ou seja, as “cabeças”, que eliminados evitariam todos os outros pecados. Nós dissemos neste tratado que a moral cristã se apóia em quatro princípios, que observados também levariam a conduta humana à perfeição. Convém, pois, relacionar os princípios que citamos com os pecados capitais mostrando a plena harmonia entre os princípios da moral cristã e os pecados capitais, na unidade da sabedoria cristã.

Os vícios capitais são a soberba, ou orgulho, a avareza, a luxúria, a inveja, a gula, a ira e a preguiça.

Os princípios da moral cristã são:
a) A criação ex nihilo, “do nada”, pela qual toda criatura deve agradecer por tudo a Deus e nunca “julgar” a sua existência, pois Deus não cria nada para o mal. É o princípio da ação de graças.
b) A unidade fundamental de todos as pessoas humanas, criadas na unidade de vida, à imagem das Pessoas da Santíssima Trindade, que formam uma perfeita unidade de vida, uma só Essência divina.
c) A relação dialógica pessoal do Criador com a criatura racional segundo a Verdade que é o poder absoluto do Criador e a absoluta dependência da criatura em relação a Ele.
d) A destinação de todas as coisas, inclusive as outras pessoas para o bem de cada pessoa humana e a destinação de cada pessoa humana só para Deus, nunca colocando sua glória nas outras pessoas humanas, conforme 1Cor 3,21-23: “21Portanto, ninguém ponha sua glória nos homens. Tudo é vosso: 22Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, o presente e o futuro. Tudo é vosso! 23Mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus”.

O primeiro princípio coloca a pessoa totalmente em ação de graças a Deus, mesmo que sua vida apresente sofrimentos e morte, coisas que Deus permite em vista de um bem maior para a pessoa, que é a vida eterna e o não apoiar-se nas realidades criadas como sua fonte, mas só em Deus. Este “saber receber” toda a existência sem julgá-la elimina toda soberba e orgulho. Elimina também a ira, que é uma manifestação da soberba pessoal em oposição ao semelhante. A pessoa sabe-se dependente totalmente de Deus, não se imagina nunca auto-suficiente. A pessoa também vivendo da graça não usurpa para si algo que não lhe seja dado por graça de Deus, num modo socialmente honesto, e isto a separa da avareza (sob o aspecto de ganância), da gula e da luxúria, que são usurpação do que é agradável à carne. Este princípio também faz a pessoa se aceitar diante de Deus com seus dons e características, em ação de graças, evitando toda comparação com outra pessoa, admitindo a liberdade de Deus de dar seus dons como Lhe aprouver, e isto elimina toda inveja. A ação de graças leva a acreditar na potencialidade dos dons que Deus deu à pessoa e isto cria um princípio ativo, de esperança que elimina a preguiça. Deste modo o primeiro princípio da moral cristã elimina os sete pecados capitais.
O segundo princípio da moral cristã faz a pessoa uma só vida com seu semelhante segundo a unidade de vida das Pessoas da Santíssima Trindade. Assim a pessoa se alegra pelo bem da outra, sabendo que o bem da outra pessoa, de certo modo, é bem para si também. Isto já elimina a soberba, a inveja e a ira, que separam as pessoas. Na unidade os meus dons são para o bem de todos, não só meu, e isto leva a um impulso de generosidade que elimina toda avareza (sob o aspecto de egoísmo) e gula, pois o meu excesso pertence ao meu semelhante. Elimina também a preguiça, pois meu impulso me leva a querer fazer bem ao semelhante, pois este é meu bem também. O desenvolvimento de meus dons faz bem ao meu próximo e por meio dele a mim mesmo. E, finalmente, como a unidade das pessoas tem seu paradigma na unidade do homem e da mulher, uma só carne, no matrimônio, isto me preserva da luxúria também. Deste modo o segundo princípio da moral cristã elimina também os sete pecados capitais.
O terceiro princípio libera a pessoa da soberba de tentar ser independente do seu Criador e de tentar se salvar por seus atos de fidelidade à Lei. Desvia a segurança da pessoa de seus bens para a dependência de seu Criador, libertando-a da avareza. Principalmente, substituindo a Lei pelo relacionamento pessoal segundo a Verdade, com o Criador que a ama e quer salvá-la, liberta a pessoa do desespero de haver pecado, restituindo-a à dependência da misericórdia de Deus. Mesmo que o conhecimento da sabedoria divina, expressa nos princípios da vida cristã, liberte a pessoa de muitas escravidões, permanece sempre a fraqueza e por isso precisa-se sempre contar com a misericórdia divina (cf. Rm 7,14,25).
O quarto princípio coloca-me diretamente destinado a Deus e libera-me de toda idolatria de qualquer criatura, que está em cada pecado capital. Tudo é para o bem da pessoa, mas esta não deve se tornar dependente de nenhuma criatura, nunca perdendo de vista que seu único fim é Deus.
13. Os dons e os frutos do Espírito Santo
13.1. Os dons do Espírito Santo: escada de Jacó para a pessoa humana.
Os dons do Espírito Santo são disposições da alma da pessoa cheia do espírito de comunhão com Deus, na vivência das virtudes teologais infusas. São a sabedoria, o entendimento, ou inteligência, o conselho, a fortaleza (que se aproxima da virtude cardeal, mas como dom divino), a ciência, a piedade e o temor de Deus. Seis destes dons estão descritos como atributos do Messias:

1Um renovo sairá do tronco de Jessé, e um rebento brotará de suas raízes. 2Sobre ele repousará o Espírito do Senhor, Espírito de sabedoria e de entendimento, Espírito de prudência e de coragem, Espírito de ciência e de temor ao Senhor. 3Sua alegria se encontrará no temor ao Senhor. Ele não julgará pelas aparências, e não decidirá pelo que ouvir dizer (Is 11,1-3).

Completando o número de sete, a Igreja incluiu o dom da piedade, citado em inúmeras passagens bíblicas em relação com a Sabedoria. Citamos duas.

“37O Senhor fez todas as coisas: ele dá sabedoria àqueles que vivem com piedade” (Eclo 43,37).

“9Quanto aos que a honram, a Sabedoria os liberta de sofrimentos; 10foi ela que guiou por caminhos retos o justo que fugia à ira de seu irmão; mostrou-lhe o reino de Deus, e deu-lhe o conhecimento das coisas santas; ajudou-o nos seus trabalhos, e fez frutificar seus esforços; 11cuidou dele contra ávidos opressores e o fez conquistar riquezas; 12ela o protegeu contra seus inimigos e o defendeu dos que lhe armavam ciladas; e no duro combate, deu-lhe vitória, a fim de que ele soubesse quanto a piedade é mais forte que tudo” (Sb 10,9-12).

Santo Agostinho afirma que em Isaías a ordem vai da sabedoria ao temor porque a Palavra de Deus vem do céu para a terra, e os dons do Espírito Santo são como degraus de uma “escada de Jacó” para nos levar da terra ao céu. Então devemos principiar pelo temor de Deus, que é o princípio da sabedoria (cf. Pr 1,7; 9,10).

“Para estimular-te por alguns degraus de doutrina, desceu Isaias da sabedoria até o temor, isto é, do lugar da eterna paz até o vale do pranto temporal: para que tu, na confissão da penitência, nas dores, sofrendo, gemendo, chorando, não permaneças na dor, no gemido e no pranto: mas alçando-se deste vale até o monte espiritual, onde a cidade santa de Jerusalém, nossa mãe eterna, tem os fundamentos, gozes de alegria imperturbável.
Por isso ele, ao colocar em primeiro lugar a sabedoria, vale dizer, o lume inextinguível da mente, ajuntou-lhe a inteligência: como para responder aos que perguntassem de onde chegaríamos à sabedoria: a partir da inteligência: de onde chegaríamos à inteligência, do conselho; ao conselho, da fortaleza: à fortaleza, da ciência: à ciência, da piedade; à piedade pelo temor.
Por conseguinte, atingimos a sabedoria a começar do temor: porque o início da sabedoria é o temor do Senhor. Do vale do pranto até o monte da paz.” (Santo Agostinho, Sermão 347,2).

Os dons do Espírito Santo se deve procurar. A Igreja está sempre invocando o Veni Creátor Spiritus, pedindo a vinda do Paráclito que Jesus prometeu.

“7Eis o princípio da sabedoria: adquire a sabedoria. Adquire a inteligência em troca de tudo o que possuis” (Pr 4,7).

Deve-se desejar a sabedoria divina acima de todos os bens terrenos. Com ela nos vem todas as coisas (cf. Mt 6,33; Lc 12,31).

“11Com ela [a Sabedoria] me vieram todos os bens, e nas suas mãos inumeráveis riquezas” (Sb 7,11).

“11Com efeito, ela [a Sabedoria] sabe e conhece todas as coisas; prudentemente guiará meus passos, e me protegerá no brilho de sua glória” (Sb 9,11).
13.2. Os frutos do Espírito Santo e as virtudes humanas
Os frutos do Espírito Santo são:

“22 … o fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, 23brandura, temperança. Contra estas coisas não há lei” (Gl 5,22-23).

Completando o número doze, baseada em outras passagens bíblicas, a Igreja acrescentou ainda: humildade, longanimidade e castidade. Os frutos do Espírito Santo não são procurados em si mesmos, mas como o nome diz, devem ser frutos, efeitos da ação dos dons do Espírito Santo em nós.
Alguns podem se colocar contra este ponto de vista. Como não deve-se procurar a humildade, a castidade, a paciência e outros frutos do Espírito Santo, que são também virtudes morais? Respondemos com a nossa visão da moral de virtudes, que já expusemos acima. O cristianismo não é uma coleção de virtudes, como a ascese grega ou chinesa. É uma relação pessoal, dialógica, entre as Pessoas Divinas e a pessoa humana. Deus revela a Verdade e a Verdade nos liberta (cf. Jo 8,32). Por isso, achamos que a reta consideração de Deus e da condição dependente da pessoa humana, levará ao temor de Deus e daí aos outros dons do Espírito Santo, até à Sabedoria, numa relação viva da pessoa, não com uma lei, mas com Deus, por meio da realidade. As virtudes aparecerão no comportamento da pessoa mais como frutos desse relacionamento que é realizado pelo Espírito Santo do que como um esforço para ser fiel a uma lei ou uma proibição. A vida moral de muitos cristãos é árdua por falta desse relacionamento de amor pessoal a Deus. Confrontam-se com uma lei que a Igreja propõe e buscam obedecê-la para assim agradar a Deus. Deus aí aparece mais como quem propõe uma lei do que alguém que se encarna para entrar num relacionamento pessoal com a pessoa humana. Muitas vezes é difícil para a fraqueza humana passar da aliança antiga da lei para a nova aliança do Espírito. O cristão maduro vive o relacionamento com Deus invisível como se fosse visível (cf. Hb 11,27).
14. Os conselhos evangélicos e as obras de misericórdia.
A tradição catequética católica, inspirada no Evangelho, propôs sempre a vivência dos chamados “conselhos evangélicos” e das “obras de misericórdia”. Um tratado de moral católica ficaria incompleto se não incluísse uma consideração sobre esse tema.
14.1. Os conselhos evangélicos, caminhos para a liberdade.
Os conselhos evangélicos, que caracterizam a consagração religiosa, são a pobreza, a castidade virginal (que se distingue da castidade matrimonial) e a obediência. A vivência desses três conselhos é vivência da liberdade evangélica que brota da Verdade. A Verdade é que Deus é o nosso Criador e único Mantenedor de nossa existência e de nossa vida, mesmo para além da morte corporal.
A pobreza é a vida livre em relação à dependência de todas as criaturas, não só coisas, dinheiro ou propriedades, mas também pessoas, que apóiam, que aplaudem e que alimentam com afetos a nossa sensibilidade. A pobreza testemunha a Verdade de que Deus só é o sustento da vida da pessoa humana.
A castidade virginal antecipa a realidade de nossa divinização. Somos criados em vista de entrar na comunhão divina na participação da vida da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade pela unidade do Espírito Santo (cf. Ef 1,5; Cl 1,18). Isto é como um “casamento” com Jesus Cristo, uma comunhão eterna de vida com Ele. Todo cristão batizado é, assim, “casado” com Jesus Cristo, para viver essa comunhão de vida na terra e depois, por toda a eternidade. O matrimônio cristão é um sacramento em que um membro de Jesus Cristo é dado a outro como sinal visível do Esposo invisível nesta terra (cf. Ef 5,25-32). Por isso se diz que o matrimônio vigora até que a morte os separe. Após a morte, o Esposo invisível não estará mais invisível e não haverá mais necessidade do sacramento. O Esposo Divino será a comunhão de todos, que viverão “como os anjos no Céu” (cf. Mt 22,30). O estado de castidade virginal antecipa a união definitiva, dispensando o sinal sacramental do matrimônio, e amando o Esposo Divino em todo o seu corpo, que é a Igreja (cf. Cl 1,18). Assume assim a realidade eterna para a qual a pessoa humana foi criada, libertando da dependência do amor humano, e seguindo o exemplo da vida terrena do Salvador. São Paulo afirma que a castidade virginal mantém a unidade do coração (cf. 1Cor 7,32-34), ou seja, do projeto de vida da pessoa. Isto também é liberdade.
A obediência faz a pessoa confiar os seus caminhos terrenos à Providência Divina, que atua através de outras pessoas, encarregadas pelas comunidades. Isto é expressão da Verdade de Deus como Mantenedor das criaturas e liberta a pessoa da tentação de prover a si mesma pela sua própria vontade, poderes e inclinações.
14.2. As obras de misericórdia: a pessoa como instrumento da graça de Deus e o método da Encarnação.
Além dos conselhos evangélicos, a tradição catequética cristã propõe as obras de misericórdia. São quatorze, ao todo, sendo sete chamadas corporais e sete chamadas espirituais.
As obras de misericórdia são expressão do princípio da unidade (segundo princípio da moral cristã) em que a pessoa transmite os dons de Deus que lhe foram dados para o benefício do gênero humano e não para vanglória individual e também do princípio da graça (primeiro princípio da moral cristã): “De graça recebestes, de graça dai” (Mt 10,8).

As obras de misericórdia corporais são:
1. Dar de comer a quem tem fome.
2. Dar de beber a quem tem sede.
3. Vestir os nus.
4. Dar pousada aos peregrinos.
5. Visitar os enfermos e encarcerados.
6. Remir os cativos.
7. Enterrar os mortos.

As de números 1, 2, 3, 4 e 5 são diretamente sacadas do julgamento final na versão mateana (Mt 25,31-46).

“34Então o Rei dirá aos que estão à direita: – Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, 35porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; 36nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim” (Mt 25,34-36).

A sexta obra de misericórdia, “remir os cativos”, quisemos colocá-la na sua redação mais antiga e tradicional. Antigamente algumas ordens religiosas, como os mercedários, tinham na remissão dos escravos seu carisma principal. Hoje, pensando banida a escravidão, esta obra de misericórdia é omitida nos catecismos atuais e a quinta é desmembrada em duas, uma só para os enfermos e outra só para os encarcerados, para manter o número total de sete. Discordamos e preferimos a versão mais antiga, pois nos parece que a escravidão continua, sob outras formas na concorrência da sociedade materialista onde as pessoas se aceitam muito tranqüilamente em classes sociais distintas. No nosso caso, remir os cativos é aumentar os ganhos materiais e as oportunidades culturais das pessoas das classes inferiores da sociedade, como fazem professores que dão aulas gratuitamente para alunos pobres buscando possibilitar seu ingresso na universidade e o desenvolvimento de seus dons, que foram dados por Deus para o bem do gênero humano. Também os que defendem a vida não-nascida, seja no útero materno, sejam as pessoas humanas em estado embrionário que se encontram congeladas e muitos usam e desejam usar como material disponível para pesquisas científicas. Os que libertam os reféns de grupos terroristas e guerrilheiros, ou mesmo pessoas seqüestradas. Há pessoas cativas da fome, da doença, da falta de habitação e instrução. Os exemplos podem se multiplicar. Há muitos cativos a serem remidos no mundo de hoje. O fato da escravidão como tal não ser mais reconhecida como instituição no mundo atual, não significa que não há mais cativos a serem remidos no mundo atual. Há e em número enorme.
A sétima obra de misericórdia, “enterrar os mortos”, faz considerar a pessoa mesmo já morta para este mundo como objeto de consideração e caridade. A matéria do corpo humano morto continua associada à pessoa falecida e merece consideração não sendo simplesmente matéria disponível. No mundo atual surgiu a possibilidade de doação de órgãos para transplantes e a cremação. A cremação não deve ser sinal de negação do valor do corpo humano morto nem sinal de negação da fé na ressurreição. Num mundo que tem dificuldade em aceitar a morte corporal, por falta de fé na vida eterna, a cremação pode se tornar popular como uma forma da morte não deixar sinais sociais, o que seria um empobrecimento e reforçaria a alienação, a vontade da pessoa de não considerar a sua realidade, mas procurar uma experiência virtual, longe da realidade que inclui a morte. A doação de órgãos é nobre e está na linha do que apresentamos neste tratado de que o que se recebe de graça deve-se dar de graça. Doar órgãos é um ato de caridade póstumo que a pessoa pode pedir para fazer em vida. E cremos não ser contra a consideração para com os restos mortais da pessoa falecida o sepultamento diretamente na terra, afim de que o seu corpo, alimentado pelos frutos da terra torne-se alimento da terra numa reciclagem total de seus elementos, numa doação não apenas de alguns órgãos, mas de todo o corpo à natureza, coisa impedida nos túmulos de pedra, cimento e tojolos. Achamos que, numa época que valoriza tanto a ecologia e a reciclagem dos elementos naturais, a popularização da cremação é absolutamente anti-ecológica.

As obras de misericórdia espirituais são:
1. Dar bom conselho.
2. Ensinar os ignorantes.
3. Castigar os que erram.
4. Consolar os aflitos.
5. Perdoar as injúrias.
6. Sofrer com paciência as fraquezas do próximo.
7. Rogar a Deus pelos vivos e defuntos.

Os bens espirituais recebidos são também graças recebidas que devem ser, por sua vez, dadas ao próximo. Quem tem luz, deve iluminar quem não tem. Naturalmente que, para isso, é preciso conhecer profundamente a lógica da Encarnação. A pessoa humana aceita com mais facilidade a obra de misericórdia corporal do que a espiritual. Quem tem fome, aceita bem a comida oferecida e quem tem frio aceita logo a roupa e o agasalho. Mas quem erra, não é com facilidade que aceita a correção. A Encarnação de Jesus Cristo nos ensina que Ele, para nos corrigir e trazer do pecado para a graça, nos amou e suportou o nosso pecado, descendo ao nosso nível humano decaído, sofrendo as nossas tentações, para nos elevar ao nível divino. Ele praticou com perfeição todas as obras de misericórdia espirituais, oferecendo-se inteiramente no Seu ensino – era o Mestre – e na Sua Paixão, perdoando os que o torturavam e suportando a fraqueza e malícia humanas em Sua Carne adorável. Para ensinar os ignorantes e admoestar os que pecam (formulação moderna da terceira obra de misericórdia espiritual) é preciso conquistar o coração da pessoa pecadora e isso é fruto de uma caridade encarnada, que aceita a pessoa antes de tentar corrigi-la, tal como Jesus Cristo fez para conosco. Aqui entra o primeiro princípio da moral cristã, que nos ensina a aceitar toda a realidade que nos circunda como dom amoroso de Deus, e nessa realidade está a presença dos ignorantes e dos pecadores. Só aceitando-os e convencendo-os de serem amados é que conquistaremos seus corações para que acreditem que nossas correções não são um ato de poder e dominação, de superioridade sobre eles, mas o amor em ato.

“Ele não quebrará o caniço rachado, nem apagará a mecha que ainda fumega, até que faça triunfar a justiça” (Mt 12,20).

“Que os mestres amem o que agrada aos jovens e os jovens amarão aquilo que agrada aos mestres … Que os jovens não somente sejam amados mas que possam saber que são amados” (São João Bosco, Carta de 10 de maio de 1884).

O conhecimento do método da Encarnação é indispensável à realização das obras de misericórdia espirituais, que são aquelas que levam à salvação da pessoa humana. A sua prática exige a vivência de um pleno despojamento de si. É sinal da comunhão do próprio Jesus Cristo que vive na pessoa que pratica tais obras, pela virtude do Espírito Santo.
14.3. As obras de misericórdia como Páscoa e Divinização da Pessoa Humana
As obras de misericórdia, tanto corporais como espirituais, são em nós a ação divinizadora que nos insere na vida divina e eterna. Em ambas, eu realizo uma páscoa, uma ‘passagem da vida para a morte e de novo para a vida’, morro a eu mesmo para transmitir vida para outros e re-encontro a vida que dei. A nossa páscoa pessoal tem a sua fonte e modelo na Páscoa de Jesus Cristo. Vimos que para compartilhar bens espirituais é preciso encarnar-se na realidade do outro, amar o que o outro ama. Ora, para amar o que o outro ama eu preciso renunciar ao meu gosto, ao meu “eu”. Preciso morrer a eu mesmo para viver no outro, de alguma forma viver ‘o outro’. Daí o nome “mortificação” para esse tipo de atitude. Para eu transmitir a vida para outra pessoa preciso morrer em mim e passar a viver na outra pessoa. Este é o sentido da Encarnação e também da Paixão de Jesus Cristo. Na Encarnação, o Filho de Deus ‘morreu’ para a Divindade para viver no Homem (cf. a unidade do gênero humano). Na Paixão, morreu em Sua Humanidade para viver em cada pessoa que O acolher, re-unindo em Si o gênero humano individualizado pelo pecado. Na unidade das Pessoas está a Vida. Para realizar essa unidade, o Caminho é a Morte. A Unidade das Pessoas Divinas é a Vida, mas cada Pessoa Divina é uma Fonte, eternamente morrendo a Si mesma e vivendo nas Outras Pessoas. O caminho da Vida é a mortificação da carne: morte voluntária decidida pelo espírito, conduzido pelo Espírito Santo. Assim, a vida moral cristã é uma permanente Páscoa. Eu morro para eu mesmo, passo a viver no próximo e nessa comunhão eu recupero a vida que dei, porque o meu próximo é o sacramento, o sinal visível, de Deus, a Quem me dou na verdade quando amo e busco a comunhão de vida com o próximo. Para entrar em comunhão com Deus, o Único que tem Vida Eterna, eu morro para eu mesmo (cf. Rm 6,3-10) para viver em Deus. O sacramento, sinal visível de Deus, pelo qual me dou a Deus, é o próximo (cf. Mt 25,40). Morrendo a eu mesmo e vivendo no próximo, praticando as obras de misericórdia corporais e espirituais, eu vivo em Deus e a Vida de Deus me ressuscitará para a vida eterna, e me fará participante da Vida Divina (cf. 2Pd 1,4). Pelo caminho da vida moral, vivida na docilidade à graça terrena e à graça do Espírito Santo, alcançamos a vida divina que não terá fim.


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