Roteiros Homiléticos

Roteiro Homilético – Sexta-feira Santa

CELEBRAÇÃO DA PAIXÃO DO SENHOR

Hoje e amanhã, segundo uma tradição antiquíssima, a Igreja não celebra a Eucaristia.

O altar deve estar totalmente despido: sem cruz, sem candelabros, sem toalhas.

Na tarde deste dia, por volta das três horas (a não ser que razões de ordem pastoral aconselhem outra hora mais tardia), faz-se a celebração da Paixão do Senhor, que consta de três partes: liturgia da palavra, adoração da cruz e sagrada comunhão.

Neste dia, a sagrada comunhão só pode ser distribuída aos fiéis dentro da celebração da Paixão do Senhor. Aos doentes que não podem tomar parte nesta celebração pode levar-se a comunhão a qualquer hora.

O sacerdote e os ministros sagrados, revestidos de paramentos vermelhos como para a Missa, dirigem-se ao altar e, feita a devida reverência, prostram-se de rosto por terra, ou, se parecer mais conveniente, põem-se de joelhos; e todos oram em silêncio durante um breve espaço de tempo.

RITOS INICIAIS

Introdução ao espírito da Celebração

Todos nós aqui presentes: sacerdote, ministros e assembleia, em respeitoso silêncio, perante este altar completamente despido de adornos e toalha, relembraremos a desonrosa morte de Jesus, contemplando a sua entrega voluntária na Cruz.

Ele entregou-se livremente à morte por amor, para nos restituir à vida.

A verdadeira natureza deste nosso exercício espiritual consistirá, pois, em reflectir no amor do Senhor como o mais precioso objecto do nosso desejo.

Escutaremos primeiramente a Palavra de Deus, recordaremos depois a Paixão de Jesus e adoraremos a cruz; finalmente, participaremos da sagrada comunhão.

Associemo-nos a este silêncio para melhor podermos interiorizar esta celebração, a fim de mais intensamente a vivermos.

Depois o sacerdote, com os ministros, dirige-se para a sua cadeira e dali, voltado para o povo, diz, de mãos juntas, uma das orações seguintes:

 

Oração (Não se diz Oremos)

Lembrai-Vos das vossas misericórdias, Senhor; santificai e protegei sempre os vossos servos, para os quais Jesus Cristo vosso Filho instituiu no seu Sangue o mistério pascal. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

ou:

Deus de infinita misericórdia, que pela paixão de Cristo Nosso Senhor destruístes a morte, herança do antigo pecado transmitida a todo o género humano, fazei que, renovados à imagem do vosso Filho, assim como, pela nossa natureza, levamos a imagem do homem terrestre, levemos também, pela vossa graça, a imagem do homem celeste. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LITURGIA DA PALAVRA

Todos se sentam e faz-se a primeira leitura, do livro do profeta Isaías (52, 13-53, 12), com o respectivo salmo.

Segue-se a segunda leitura, da Epístola aos Hebreus (4, 14-16; 5, 7-9) e o cântico de aclamação ao Evangelho.

Depois lê-se a história da Paixão do Senhor segundo São João (18, 1-19, 42), na forma indicada no domingo anterior.

Depois da leitura da Paixão do Senhor, é oportuno fazer uma breve homilia; ao fim da homilia, o sacerdote pode convidar os fiéis a permanecerem em oração silenciosa durante um breve espaço de tempo.

Primeira Leitura

Monição: Nesta primeira leitura, o profeta Isaías reflecte sobre a inocência e paciência do Servo Sofredor oferecido em expiação e que, por tal motivo, justificará e atrairá multidões humanas. Todos os pormenores coincidem com a vida e morte de Jesus.

Isaías 52, 13-15 – 53, 1-12

13Vede como vai prosperar o meu servo: subirá, elevar-se-á, será exaltado. 14Assim como, à sua vista, muitos se encheram de espanto, tão desfigurado estava o seu rosto que tinha perdido toda a aparência de um ser humano, 15assim se hão-de encher de assombro muitas nações e, diante dele, os reis ficarão calados, porque hão-de ver o que nunca lhes tinham contado e observar o que nunca tinham ouvido. 1Quem acreditou no que ouvimos dizer? A quem se revelou o braço do Senhor? 2O meu servo cresceu diante do Senhor como um rebento, como raiz numa terra árida, sem distinção nem beleza para atrair o nosso olhar nem aspecto agradável que possa cativar-nos. 3Desprezado e repelido pelos homens, homem de dores, acostumado ao sofrimento, era como aquele de quem se desvia o rosto, pessoa desprezível e sem valor para nós. 4Ele suportou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores. Mas nós víamos nele um homem castigado, ferido por Deus e humilhado. 5Ele foi trespassado por causa das nossas culpas e esmagado por causa das nossas iniquidades. Caiu sobre ele o castigo que nos salva: pelas suas chagas fomos curados. 6Todos nós, como ovelhas, andávamos errantes, cada qual seguia o seu caminho. E o Senhor fez cair sobre ele as faltas de todos nós. 7Maltratado,humilhou-se voluntariamente e não abriu a boca. Como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda ante aqueles que a tosquiam, ele não abriu a boca. 8Foi eliminado por sentença iníqua, mas, quem se preocupa com a sua sorte? Foi arrancado da terra dos vivos e ferido de morte pelos pecados do meu povo. 9Foi-lhe dada sepultura entre os ímpios e um túmulo no meio de malfeitores, embora não tivesse cometido injustiça nem se tivesse encontrado mentira na sua boca. 10Aprouve ao Senhor esmagá-lo pelo sofrimento. Mas, se oferecer a sua vida como sacrifício de expiação, terá uma descendência duradoira, viverá longos dias e a obra do Senhor prosperará em suas mãos. 11Terminados os sofrimentos, verá a luz e ficará saciado na sua sabedoria. O justo, meu servo, justificará a muitos e tomará sobre si as suas iniquidades. 12Por isso, Eu lhe darei as multidões como prémio e terá parte nos despojos no meio dos poderosos; porque ele próprio entregou a sua vida à morte e foi contado entre os malfeitores, tomou sobre si as culpas das multidões e intercedeu pelos pecadores.

Temos aqui o 4.° canto dos Poemas do Servo de Yahwéh, os quais formam no seu conjunto uma grande unidade literária, embora apareçam dispersos pela segunda parte do Livro de Isaías. Todos os quatro cânticos encerram um sentido messiânico e aparecem citados no Novo Testamento como tendo tido a sua realização em Jesus Cristo. Este é o último, o mais longo, mais denso e o mais belo, que chegou a ser chamado o 5º Evangelho, pois nele se pode entrever uma imagem muito pormenorizada da missão redentora de Jesus, através da sua Paixão e glorificação. Compõe-se de três estrofes: 52, 13-15; 53, 1-11a; 53, 11b-12); na primeira e na última, temos Yahwéh a falar-nos do seu servo; na segunda, é o Profeta que toma a palavra. O texto coloca-nos perante um impressionante paradoxo que se verificou em Jesus: do cúmulo da dor e da humilhação o servo chega ao auge do êxito e da exaltação; a sua vida e missão é de molde a encher de espanto e de assombro as multidões e os próprios reis da terra (52, 13-15), porque o que se passa com ele é absolutamente inaudito e humanamente incrível (53, 1). Por outro lado, é a primeira vez que na tradição bíblica aparece a expiação vicária.

53, 2 «Um rebento»: Esta é uma imagem corrente nos profetas para designarem o Messias (cf. Is 11, 10; Jer 23, 5-6; Zac 3, 8; 6, 12).

4-6 A razão de tanta dor e humilhação do «homem de dores» (v. 3) não são culpas próprias, pois é inocente, mas é porque o Senhor fez cair sobre ele as faltas de todos nós: a sua expiação é uma expiaçãovicária (cf. vv. 5.6.8.11.12); porque ele era inocente e justo e podia oferecer a Deus uma satisfação condigna e obter-nos o perdão.

10-12 O êxito da sua missão expiatória é aqui descrito: O servo do Senhor terá uma descendência duradoira (v. 10); verá a luz e ficará saciado (v. 10); justificará multidões de homens (v. 11); terá em posse as multidões como prémio (v. 12; cf. Salm 2, 8). Assim sucede com Jesus, que, através da sua obra redentora consumada no Calvário, alcança para si «um povo adquirido em propriedade» (cf. 1 Pe 2, 9; Ex 19, 5; Is43, 21), a quem justifica tornando-nos seus filhos «uma descendência duradoira» (v. 10), e chega à luz da glória da Ressurreição.

Salmo Responsorial Sl 30 (31), 2.6.12-13.15-16.17.25 (R. Lc 23, 46)

Monição: Deus é o único apoio que o justo encontra para continuar fiel perante as perseguições, o abandono, a zombaria, os boatos e o perigo de vida. As últimas palavras pronunciadas por Jesus são as que recitamos na primeira estrofe deste salmo.

Refrão: PAI, EM VOSSAS MÃOS ENTREGO O MEU ESPÍRITO.

Em Vós, Senhor, me refugio, jamais serei confundido,

pela vossa justiça, salvai-me.

Em vossas mãos entrego o meu espírito,

Senhor, Deus fiel, salvai-me.

Tornei-me o escárnio dos meus inimigos,

o desprezo dos meus vizinhos e o terror dos meus conhecidos,

todos evitam passar por mim.

Esqueceram-me como se fosse um morto,

tornei-me como um objecto abandonado.

Eu, porém, confio no Senhor:

Disse: «Vós sois o meu Deus,

nas vossas mãos está o meu destino».

Livrai-me das mãos dos meus inimigos

e de quantos me perseguem.

Fazei brilhar sobre mim a vossa face,

salvai-me pela vossa bondade.

Tende coragem e animai-vos,

vós todos que esperais no Senhor.

Segunda Leitura

Monição: A Paixão é vista aqui como a mais solene prece de intercessão e o mais sublime acto de obediência. Os cristãos não devem temer Jesus, mas aproximar-se d’Ele confiadamente, certos do Seu acolhimento misericordioso.

Hebreus 4, 14-16; 5, 7-9

Irmãos: 14Tendo nós um sumo sacerdote que penetrou os Céus, Jesus, Filho de Deus, permaneçamos firmes na profissão da nossa fé. 15Na verdade, nós não temos um sumo sacerdote incapaz de Se compadecer das nossas fraquezas. Pelo contrário, Ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, excepto no pecado. 16Vamos, portanto, cheios de confiança, ao trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno. 5,7Nos dias da sua vida mortal, Ele dirigiu preces e súplicas, com grandes clamores e lágrimas, Àquele que O podia livrar da morte, e foi atendido por causa da sua piedade. 8Apesar de ser Filho, aprendeu a obediência no sofrimento. 9E, tendo atingido a sua plenitude, tornou-Se, para todos os que Lhe obedecem, causa de salvação eterna.

O texto da leitura é duma notável beleza e expressividade, tão bem adaptado ao dia de hoje. Na estrutura do escrito, corresponde ao início da exposição do seu tema central (4, 14 – 7. 28): o sacerdócio de Cristo.

4, 14 «Temos nós um sumo sacerdote». Jesus não se limita, como o sumo sacerdote dos judeus, a penetrar no Santo dos Santos no dia da expiação (Yom qipur) para expiar os pecados do povo; Ele penetra no próprio Céu e abre-nos o caminho para lá. E faz isto, não com o sangue de animais, mas com o seu próprio sangue (9, 12), com grande sofrimento da sua parte: «com lágrimas» (v. 7), pois, apesar de ser o Filho de Deus, quis experimentar quanto custa obedecer e sofrer (cf. v. 8). Assim, Jesus tem mais um título para se compadecer de nós, das nossas dores e fraquezas: é que possui a experiência concreta de todas as provações a que pode um homem ser sujeito nesta vida, com excepção do pecado (cf. v. 15). Só nos resta ter a fé, a confiança e a humildade de recorrer à sua infinita misericórdia – «trono da graça» (v. 16) – para obter a ajuda de que precisamos.

5, 7-9 Há quem considere que estes três expressivos versículos possam ser um extracto de um antigo hino a Cristo.

7 Este versículo parece evocar o relato da agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras (cf. Mt 26, 36-44). «Preces e súplicas»: estas duas palavras sinónimas correspondem a uma expressão grega da época usada nos pedidos a uma alta autoridade; o uso do plural sugere a insistência na oração, segundo o «prolixius orabat» de Lc 22, 43. «Com um grande clamor e lágrimas»: os ensinos rabínicos sobre a oração referem três graus ascendentes: a prece (em silêncio), os gritos,as lágrimas (como a forma mais elevada da oração). Os Evangelhos só falam de um forte brado de Jesus, na Cruz (Lc 23, 46), mas é de supor que se conhecessem pela tradição oral, pormenores da oração no horto que justificariam tão impressionante expressão.

«Foi atendido», em quê? É difícil de dizer, a tal ponto que Harnack pensa numa corrupção do texto original: «não foi atendido»; limitamo-nos a referir as explicações mais viáveis. Jesus não obteve a libertação do cálice de amargura, mas foi atendido porque alcançou a coragem para enfrentar a sua Paixão identificando-se plenamente com a vontade do Pai. Ou então, como pensam outros, Jesus foi atendido ao ser livre da morte pela sua ressurreição, o que lhe permite exercer o seu sacerdócio eterno (cf. 7, 24; 10, 10), com efeito, «a sua morte era essencial para o seu sacerdócio, mas se Ele não fosse salvo da morte pela ressurreição, não seria agora o sumo sacerdote do seu povo» (J. H. Neyrey).

8 «Aprendeu a obediência no sofrimento», ou, melhor, «por aquilo que sofreu», ou também, «aprendeu de quanto sofrera, o que é obedecer». Trata-se de uma aprendizagem não teórica, mas experimental, existencial. Aprender através do sofrimento era um lugar comum na literatura grega, e até havia esta máxima: «os sofrimentos são lições». O que aqui há de particular é a aplicação à aprendizagem da obediência. No entanto, a obediência de Jesus na sua Paixão só é referida em mais dois lugares do N. T.: Rom 5, 19 e Filp 2, 8. Não se pense que a Jesus, por ser Deus, Lhe custava menos o sofrimento, antes pelo contrário, pois o sofrimento é directamente proporcional à dignidade da pessoa que sofre.

9 «Tendo atingido a sua plenitude». Esta tradução não deixa ver uma das ideias centrais da epístola, que é a de «perfeição», pelo que seria preferível a tradução do Cón. Falcão, «chegado à perfeição» ou a da Difusora Bíblica, «tornado perfeito». Note-se que a perfeição de que aqui se fala não é a do amadurecimento na virtude, mas a que advém a Jesus pelo exercício do seu sumo sacerdócio com a consumação da obra salvadora pela oferta do sacrifício da nova aliança: «a obediência de Jesus leva-O à sua consagração sacerdotal, que, por sua vez, O torna apto para salvar aqueles que Lhe obedecem» (The new Jerome BiblicalCommentary, p. 929).

Aclamação ao Evangelho

Filip 2, 8-9

Monição: A Paixão e morte voluntária de Jesus, oferecida como resgate da humanidade, são a Sua glorificação.

Cristo obedeceu até à morte e morte de cruz.

Por isso Deus O exaltou

e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes.

Evangelho

São João 18, 1-40; 19, 1-42

N Naquele tempo, 1Jesus saiu com os seus discípulos para o outro lado da torrente do Cédron. 2Havia lá um jardim, onde Ele entrou com os seus discípulos. Judas, que O ia entregar, conhecia também o local, porque Jesus Se reunira lá muitas vezes com os discípulos. 3Tomando consigo uma companhia de soldados e alguns guardas, enviados pelos príncipes dos sacerdotes e pelos fariseus, Judas chegou ali, com archotes, lanternas e armas. 4Sabendo Jesus tudo o que Lhe ia acontecer, adiantou-Se e perguntou-lhes:

J «A quem buscais?»

N 5Eles responderam-Lhe:

R «A Jesus, o Nazareno».

N Jesus disse-lhes:

J «Sou Eu».

N Judas, que O ia entregar, também estava com eles. 6Quando Jesus lhes disse: «Sou Eu», recuaram e caíram por terra. 7Jesus perguntou-lhes novamente:

J «A quem buscais?»

N Eles responderam:

R «A Jesus, o Nazareno».

N 8Disse-lhes Jesus:

J «Já vos disse que sou Eu. Por isso, se é a Mim que buscais, deixai que estes se retirem».

N 9Assim se cumpriam as palavras que Ele tinha dito: «Daqueles que Me deste, não perdi nenhum». 10Então, Simão Pedro, que tinha uma espada, desembainhou-a e feriu um servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O servo chamava-se Malco. 11Mas Jesus disse a Pedro:

J «Mete a tua espada na bainha. Não hei-de beber o cálice que meu Pai Me deu?»

N 12Então, a companhia de soldados, o oficial e os guardas dos judeus apoderaram-se de Jesus e manietaram-n’O. 13Levaram-n’O primeiro a Anás, por ser sogro de Caifás, que era o sumo sacerdote nesse ano. 14Caifás é que tinha dado o seguinte conselho aos judeus: «Convém que morra um só homem pelo povo». 15Entretanto, Simão Pedro seguia Jesus com outro discípulo. Esse discípulo era conhecido do sumo sacerdote e entrou com Jesus no pátio do sumo sacerdote, 16enquanto Pedro ficava à porta, do lado de fora. Então o outro discípulo, conhecido do sumo sacerdote, falou à porteira e levou Pedro para dentro. 17A porteira disse a Pedro:

R «Tu não és dos discípulos desse homem?»

N Ele respondeu:

R «Não sou».

N 18Estavam ali presentes os servos e os guardas, que, por causa do frio, tinham acendido um braseiro e se aqueciam. Pedro também se encontrava com eles a aquecer-se. 19Entretanto, o sumo sacerdote interrogou Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina. 20Jesus respondeu-lhe:

J «Falei abertamente ao mundo. Sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde todos os judeus se reúnem, e não disse nada em segredo. 21Porque Me interrogas? Pergunta aos que Me ouviram o que lhes disse: eles bem sabem aquilo de que lhes falei».

N 22A estas palavras, um dos guardas que estava ali presente deu uma bofetada a Jesus e disse-Lhe:

R «É assim que respondes ao sumo sacerdote?»

N 23Jesus respondeu-lhe:

J «Se falei mal, mostra-Me em quê. Mas, se falei bem, porque Me bates?»

N 24Então Anás mandou Jesus manietado ao sumo sacerdote Caifás. 25Simão Pedro continuava ali a aquecer-se. Disseram-lhe então:

R «Tu não és também um dos seus discípulos?»

N Ele negou, dizendo:

R «Não sou».

N 26Replicou um dos servos do sumo sacerdote, parente daquele a quem Pedro cortara a orelha:

R «Então eu não te vi com Ele no jardim?»

N 27Pedro negou novamente, e logo um galo cantou. 28Depois, levaram Jesus da residência de Caifás ao Pretório. Era de manhã cedo. Eles não entraram no pretório, para não se contaminarem e assim poderem comer a Páscoa. 29Pilatos veio cá fora ter com eles e perguntou-lhes:

R «Que acusação trazeis contra este homem?»

N 30Eles responderam-lhe:

R «Se não fosse malfeitor, não t’O entregávamos».

N 31Disse-lhes Pilatos:

R «Tomai-O vós próprios e julgai-O segundo a vossa lei».

N Os judeus responderam:

R «Não nos é permitido dar a morte a ninguém».

N 32Assim se cumpriam as palavras que Jesus tinha dito, ao indicar de que morte ia morrer. 33Entretanto, Pilatos entrou novamente no pretório, chamou Jesus e perguntou-Lhe:

R «Tu és o Rei dos judeus?»

N 34Jesus respondeu-lhe:

J «É por ti que o dizes, ou foram outros que to disseram de Mim?»

N 35Disse-Lhe Pilatos:

R «Porventura sou eu judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes é que Te entregaram a Mim. Que fizeste?»

N 36Jesus respondeu:

J «O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que Eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui».

N 37Disse-Lhe Pilatos:

R «Então, Tu és Rei?»

N Jesus respondeu-lhe:

J «É como dizes: sou Rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz».

N 38Disse-Lhe Pilatos:

R «Que é a verdade?»

N Dito isto, saiu novamente para fora e declarou aos judeus:

R «Não encontro neste homem culpa nenhuma. 39Mas vós estais habituados a que eu vos solte alguém pela Páscoa. Quereis que vos solte o Rei dos judeus?»

N 40Eles gritaram de novo:

R «Esse não. Antes Barrabás».

N Barrabás era um salteador. 1Então Pilatos mandou que levassem Jesus e O açoitassem. 2Os soldados teceram uma coroa de espinhos, colocaram-Lha na cabeça e envolveram Jesus num manto de púrpura. 3Depois aproximavam-se d’Ele e diziam:

R «Salve, Rei dos judeus».

N E davam-Lhe bofetadas. 4Pilatos saiu novamente para fora e disse:

R «Eu vo-l’O trago aqui fora, para saberdes que não encontro n’Ele culpa nenhuma».

N 5Jesus saiu, trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Pilatos disse-lhes:

R «Eis o homem».

N 6Quando viram Jesus, os príncipes dos sacerdotes e os guardas gritaram:

R «Crucifica-O! Crucifica-O!».

N Disse-lhes Pilatos:

R «Tomai-O vós mesmos e crucificai-O, que eu não encontro n’Ele culpa alguma».

N 7Responderam-lhe os judeus:

R «Nós temos uma lei e, segundo a nossa lei, deve morrer, porque Se fez Filho de Deus».

N 8Quando Pilatos ouviu estas palavras, ficou assustado. 9Voltou a entrar no pretório e perguntou a Jesus:

R «Donde és Tu?»

N Mas Jesus não lhe deu resposta. 10Disse-Lhe então Pilatos:

R «Não me falas? Não sabes que tenho poder para Te soltar e para Te crucificar?»

N Jesus respondeu-lhe:

J 11«Nenhum poder terias sobre Mim, se não te fosse dado do alto. Por isso, quem Me entregou a ti tem maior pecado».

N 12A partir de então, Pilatos procurava libertar Jesus. Mas os judeus gritavam:

R «Se O libertares, não és amigo de César: todo aquele que se faz rei é contra César».

N 13Ao ouvir estas palavras, Pilatos trouxe Jesus para fora e sentou-se no tribunal, no lugar chamado «Lagedo», em hebraico «Gabatá». 14Era a Preparação da Páscoa, por volta do meio-dia. Disse então aos judeus:

R «Eis o vosso Rei!»

N 15Mas eles gritaram:

R «À morte, à morte! Crucifica-O!»

N Disse-lhes Pilatos:

R «Hei-de crucificar o vosso Rei?»

N Replicaram-lhe os príncipes dos sacerdotes:

R «Não temos outro rei senão César».

N 16Entregou-lhes então Jesus, para ser crucificado. E eles apoderaram-se de Jesus. 17Levando a cruz, Jesus saiu para o chamado Lugar do Calvário, que em hebraico se diz Gólgota. 18Ali O crucificaram, e com Ele mais dois: um de cada lado e Jesus no meio. 19Pilatos escreveu ainda um letreiro e colocou-o no alto da cruz; nele estava escrito: «Jesus, o Nazareno, Rei dos judeus». 20Muitos judeus leram esse letreiro, porque o lugar onde Jesus tinha sido crucificado era perto da cidade. Estava escrito em hebraico, grego e latim. 21Diziam então a Pilatos os príncipes dos sacerdotes dos judeus:

R «Não escrevas: ‘Rei dos judeus’, mas que Ele afirmou: ‘Eu sou o Rei dos judeus’».

N 22Pilatos retorquiu:

R «O que escrevi está escrito».

N 23Quando crucificaram Jesus, os soldados tomaram as suas vestes, das quais fizeram quatro lotes, um para cada soldado, e ficaram também com a túnica. A túnica não tinha costura: era tecida de alto a baixo como um todo. 24Disseram uns aos outros:

R «Não a rasguemos, mas lancemos sortes, para ver de quem será».

N Assim se cumpria a Escritura: «Repartiram entre si as minhas vestes e deitaram sortes sobre a minha túnica». Foi o que fizeram os soldados. 25Estavam junto à cruz de Jesus sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas e Maria Madalena. 26Ao ver sua Mãe e o discípulo predilecto, Jesus disse a sua Mãe:

J «Mulher, eis o teu filho».

N 27Depois disse ao discípulo:

J «Eis a tua Mãe».

N E a partir daquela hora, o discípulo recebeu-a em sua casa. 28Depois, sabendo que tudo estava consumado e para que se cumprisse a Escritura, Jesus disse:

J «Tenho sede».

N 29Estava ali um vaso cheio de vinagre. Prenderam a uma vara uma esponja embebida em vinagre e levaram-Lha à boca. 30Quando Jesus tomou o vinagre, exclamou:

J «Tudo está consumado».

N E, inclinando a cabeca, expirou.

N 31Por ser a Preparação, e para que os corpos não ficassem na cruz durante o sábado, – era um grande dia aquele sábado – os judeus pediram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados. 32Os soldados vieram e quebraram as pernas ao primeiro, depois ao outro que tinha sido crucificado com ele. 33Ao chegarem a Jesus, vendo-O já morto, não Lhe quebraram as pernas, 34mas um dos soldados trespassou-Lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água. 35Aquele que viu é que dá testemunho e o seu testemunho é verdadeiro. Ele sabe que diz a verdade, para que também vós acrediteis. 36Assim aconteceu para se cumprir a Escritura, que diz: «Nenhum osso Lhe será quebrado». 37Diz ainda outra passagem da Escritura: «Hão-de olhar para Aquele que trespassaram». 38Depois disto, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, embora oculto por medo dos judeus, pediu licença a Pilatos para levar o corpo de Jesus. Pilatos permitiu-lho. José veio então tirar o corpo de Jesus. 39Veio também Nicodemos, aquele que, antes, tinha ido de noite ao encontro de Jesus. Trazia uma mistura de quase cem libras de mirra e aloés. 40Tomaram o corpo de Jesus e envolveram-no em ligaduras juntamente com os perfumes, como é costume sepultar entre os judeus. 41No local em que Jesus tinha sido crucificado, havia um jardim e, no jardim, um sepulcro novo, no qual ainda ninguém fora sepultado. 42Foi aí que, por causa da Preparação dos judeus, porque o sepulcro ficava perto, depositaram Jesus.

Os quatro desenvolvidos relatos da Paixão do Senhor que nos propõem todos os quatro evangelistas não são um mero relato. Têm um quê de reflexão e meditação sobre tão assombrosos acontecimentos, feita à luz do Antigo Testamento. Também nós não devemos passar apressadamente os olhos por estas páginas, mas meditá-las, metermo-nos dentro destas cenas e renovar frequentemente a sua lembrança: quem sofre, quanto sofre, para que sofre e porque sofre, por quem sofre? Esta meditação tem feito muito santos ao longo de todos os tempos, pois não pode deixar ninguém indiferente: um tão grande amor só com amor se paga (sic nos amantem quis non redamaret?).

É neste relato onde o paralelismo com os Sinópticos é maior, embora apareçam muitos pormenores específicos e sobretudo uma profunda visão teológica muito própria do IV Evangelho, que põe em relevo a serena majestade de Jesus que caminha livremente para a Cruz como para um trono de glória e uma fonte de vida para os seus; mesmo quando é esbofeteado e feito rei de comédia, aparece com toda a dignidade real que Lhe compete; assim, João evita descrever a agonia, embora a não ignore (cf. v. 11; 12, 27-28).

18, 1-2 «A torrente do Cédron» era uma corrente de água invernal; há muitas na Palestina a que os árabes chamam wadi. Só é nomeada aqui em todo o N. T. (cf. 2 Sam 15, 23); corre para o Mar Morto no profundo vale que separa Jerusalém do Monte das Oliveiras, onde ficava a propriedade em que Jesus é preso; só João diz que é um «jardim», como o lugar onde é sepultado, talvez para se ver uma alusão ao jardim do Éden: onde teve ruína a humanidade, aí o novo Adão obtém a salvação. Este «jardim» é o Getsemani, Gath-Xemani, isto é, «lagar de azeite», (nomeado nos Sinópticos) um sítio venerado de há muito tempo, onde se encontram os restos duma basílica de finais do século IV, e hoje a bela e recolhida «Basílica das Nações», bem como o «Horto», com restos de oliveiras antiquíssimas a lembrar as que foram testemunhas da Agonia de Jesus.

3-12. Apenas João fala da intervenção de soldados romanos: seria apenas um destacamento duma coorte, pois esta tinha 600 homens. A prisão de Jesus não se deve à violência exercida mas à sua entrega soberana e consciente (Eu Sou!); preso, exige a liberdade dos seus (v. 8). Só João revela os nomes de Pedro e de Malco na cena do golpe de espada.

«Recuaram e caíram por terra». Jesus, contra o que esperavam os atacantes entrega-se serenamente. Podemos imaginar que os que iam à frente tenham ficado tão impressionados com a superior dignidade da atitude de Jesus e com a sua serena majestade que, perturbados, recuam instintivamente, tropeçam e caem por terra: a sua agressividade fora desarmada e dominada pela atitude divinamente superior de Jesus. S. João põe o acento neste pormenor para que vejam como o Senhor caminha livremente para a morte. Jesus não padece e morre porque não havia outra saída humana; Jesus padece e morre porque era essa a única saída divina.

11 «O cálice que Meu Pai Me deu…»: Estas palavras de Jesus parecem conter uma discreta alusão de S. João ao cálice da agonia. Mas S. João não quer fixar-se na agonia do horto, por isso não a relata. É que nos quer apresentar Jesus na sua Paixão sempre como vencedor e sem a aparência de vencido: Jesus aparece-nos numa atitude hierática, mesmo quando sofre a maior dor humana. A cruz é um trono donde o Salvador reina salvando os seus, atraindo a si e reconciliando, é o regresso ao Pai, a consumação do sacrifício do novo cordeiro pascal com cujo sangue somos redimidos e libertados (cf. Jo 19, 30.36).

13-14. S. João é o único que nos conta que Jesus foi levado ao influente Anás que fora sumo sacerdote entre os anos 6 e 15 e a quem vieram a suceder cinco dos seus filhos e, nesta data, o seu genro, JoséCaifás (cf. 11, 49.50).

15-27. O outro discípulo (v. 15) é provavelmente João. O interrogatório de Anás (vv. 19ss) versa sobre duas coisas públicas e sabidas: a doutrina e os discípulos de Jesus, mas os inimigos suspeitam de planos secretos e sinistros, por se negarem a ver e a crer (cf. 9, 39-41; 10, 37-38); e uma doutrina do reino e uns discípulos galileus (zelotas?) forneceriam a base da denúncia aos romanos. Jesus defende-se, mas sem perder a serenidade. Note-se como as três negações de Pedro, embora contadas de forma resumida e discreta, assumem um aspecto dramático pelo facto de se introduzir no meio delas (vv. 19-24) o interrogatório de Anás, a quem Jesus declara: «pergunta aos que Me ouviram…» (v. 21); e é mesmo o ouvinte privilegiado de Jesus quem O nega, ficando patente o contraste entre a afirmação de Mestre, «Eu sou» (vv. 5.8) e a repetida negação do discípulo, «não sou» (vv. 17.25). Nos Sinópticos, as negações são no pátio da casa de Caifás (cf. Mt 26, 57ss; Mc 14, 53ss; Lc 22, 54ss), uma contradição sem importância, talvez só aparente, pois o pátio bem poderia ser comum à casa de ambos. João limita-se a dizer que Jesus foi enviado a Caifás (v. 24), sem relatar a sessão do Sinédrio que na manhã de sexta-feira O condenou (cf. Lc 22, 66-71; Mc14, 55-64; Mt 26, 59-66); com isto pretenderia sublinhar que a condenação já estava decretada (cf. Jo 11, 47-53). É notável a discrição e delicadeza com que o Discípulo amado relata a tríplice negação do chefe dos Apóstolos. O relato mais pormenorizado do pecado de Pedro que temos nos Sinópticos pode dever-se muito bem à tradição oral que procedia do próprio Pedro, que teria a humildade de contar frequentemente as suas negações com todo o realismo.

28ss. S. João dá ao processo diante de Pilatos uma grande importância; a narrativa põe em contraste a serenidade e a segurança de Jesus com a agitação e ansiedade dos inimigos; é um relato em sete cenas que se desenrolam alternadamente no exterior e na sede do governador romano, o «pretório», pois os acusadores evitam entrar em casa dum gentio para não contraírem uma impureza legal que os obrigaria a adiar a celebração da ceia pascal; com efeito, os príncipes dos sacerdotes, o único grupo a ser nomeado (18, 35; 19, 6.15.21) no processo de Jesus, eram do partido dos saduceus, que naquele ano atrasaram um dia a celebração da Páscoa. As actas do processo de Jesus ainda se conservariam nos arquivos do império por meados do século II, pois S. Justino, escrevendo ao imperador Antonino Pio, apela para as Actas de Pilatos (I Apologia 35, 9; 48, 3). «E poderem comer a Páscoa» (v. 28): Jesus tinha comido a páscoa, ou cordeiro pascal, mas seguindo um calendário diferente (sobre esta divergência de datas há muitas tentativas de solução, mas nenhuma definitiva). Entrar em casa dum gentio (o pretório) era contrair uma impureza e, contraída no dia em que pertencia celebrar a ceia pascal, levava a ter de se adiar a sua celebração para o mesmo dia do mês seguinte, o que normalmente ninguém desejava. Note-se o cúmulo do formalismo hipócrita: tem-se escrúpulo de entrar em casa dum gentio, mas não se receia condenar o inocente à morte!

18, 28 – 19, 16processo de Jesus diante Pilatos é descrito com todo o pormenor em S. João: Jesus é trazido a Pilatos, que não se convence da culpa de Jesus (33-38a). O primeiro expediente de Pilatos para evitar tomar a decisão que lhe competia foi o de entregar o poder de julgar aos acusadores, que preferem Barrabás (38b-40); o expediente da flagelação visava ver se os inimigos de Jesus já ficavam satisfeitos no seu ódio (19 1-7). Em seguida há um segundo interrogatório (8-11) e Pilatos cede à pressão das autoridades judaicas e lavra a sentença de morte (12-16a). S. João só não conta um outro expediente relatado por S. Lucas, o de enviar Jesus a Herodes, e que teria sido o primeiro recurso de que o procurador romano lançou mão.

33-37. As razões para eliminarem Jesus eram de natureza religiosa, mas é denunciado à autoridade romana como um conspirador político: «rei dos judeus». A resposta de Jesus com uma pergunta (v. 34) não é um subterfúgio, mas um meio de esclarecer qual o ponto de vista para falar de Si como rei; descartado o ponto de vista pagão (v. 35), Jesus, que não podia negar a sua realeza, distancia-se igualmente da expectativa nacionalista judaica, afirmando o carácter transcendente do seu reino (ver Rom 14, 17), o que colocava a sua missão ao abrigo de qualquer suspeita: não é deste mundo (v. 36) e visa manifestar a verdade(v. 37).

19, 1-7 «E O açoitassem»: flagelação era uma das penas mais duras previstas no Direito, jamais aplicável a um cidadão romano; os golpes, sem conta prevista, eram aplicados nas costas nuas da vítima atada a uma coluna, com chicotes de tiras de couro munidas de peças de metal ou osso nas extremidades, uma tortura suficiente para causar a morte. Em Mateus e Marcos a flagelação aparece depois da sentença de condenação, como habitualmente sucedia, para debilitar as forças dos condenados à cruz; em Lucas é anunciada como um castigo prévio; em João, que parece reproduzir com mais rigor o que se passou na realidade, tem o carácter de mais um expediente para evitar a sentença de morte contra um inocente: um rei tão abatido e esfacelado não constituía perigo para ninguém. No ecce homo, a troça não poderia ser mais humilhante, mas o Evangelista quer que o leitor descubra o verdadeiro Messias-Rei, o mistério de quem é esse homem (cf. Jo 5, 12). A contemplação deste mistério doloroso não pode deixar de nos tocar a alma profundamente.

7 «Porque se fez Filho de Deus»: Como observa F. Dreyfus, trata-se do único caso, em toda a história do povo hebreu, em que uma pessoa foi acusada e condenada por se fazer filho de Deus! A blasfémia era suficiente para se aplicar a pena de morte, segundo o Levítico 24, 16.

9 «Donde és Tu?» A pergunta de Pilatos assustado não é sobre a naturalidade de Jesus (já antes o mandara a Herodes: Lc 23,2-6), mas sobre a sua verdadeira natureza: acusado de se dizer Filho de Deus,não será Ele um ser divino? Esta questão sobre a origem de Jesus é fulcral e inevitável, também para o leitor (cf. Jo 7, 27-28; 8, 14; 9, 29-30). «Mas Jesus não lhe deu resposta», não para se esquivar, mas é que o céptico Pilatos (18, 38) não busca a verdade; falta-lhe rectidão.

13 «Sentou-se no tribunal»: O texto grego permite outra tradução: Pilatos trouxe Jesus para fora e fê-lo sentar numa tribuna; com efeito, não parece que S. João queira dizer que foi Pilatos que se sentou, pois a cena passa-se no exterior do tribunal e não há uma sentença. Esta ambiguidade parece intencional, para exprimir que o prefeito romano só na aparência é que é juiz, pois o que ele faz é entronizar Jesus, que é quem faz o decisivo julgamento (cf. Jo 12, 31). Há quem pense que com esta entronização Pilatos visava pôr a ridículo as autoridades judaicas (vv. 14.19-22), coisa bem ao jeito de prefeito romano, que não perdia qualquer ocasião para humilhar os judeus. «Gabbatá» significa antes lugar elevado, mais provavelmente na Torre Antónia (um pavimento de pedra identificado arqueologicamente), embora outros considerem que ficaria na zona do palácio de Herodes, na cidade alta.

14 «Por volta do meio dia», era o final da hora terceira (das 9 às 12) dos romanos (nomeada em Mc 15, 25) e o início da hora sexta (o meio dia).

17-18 «Levando a cruz»: só João diz claramente que Jesus carrega a cruz às costas; com este pormenor visaria uma alusãoGn 22, 6: Isaac carregando a lenha do sacrifício (um rémez tão usado na exegesemidráxica dos rabinos); mas não fala do Cireneu ajudando a levar a Cruz para o «Calvário»; esta é uma palavra latina que traduz a hebraica Golgothá, caveira ou crânio, a forma que tinha o penhasco; não era propriamente um monte, mas uma elevação rochosa já fora dos muros de então, a uns 400 metros a oeste do adro do Templo, uma pedreira identificada pela Arqueologia.

18 «E lá O crucificaram». A crucifixão era o suplício mais doloroso e o mais infamante. Por isso se empenhavam os inimigos de Jesus em que tivesse este género de morte. Era a melhor maneira de acabar com a memória de Jesus na gente que O seguia, a maior prova de falsidade do seu messianismo! Ninguém mais se atreveria a falar dum messias tão miseravelmente derrotado e tendo sofrido a morte dos maiores criminosos. Cícero testemunha a infâmia deste horrendo suplício: «Que um cidadão romano seja atado é um abuso; que seja golpeado, é um delito; que se lhe dê morte, é um quase um parricídio; que direi eu, então, se é suspenso numa cruz? A uma coisa tão horrível como esta não se pode aplicar de modo algum um apelativo suficientemente adequado!» (In Verrem, II, 5, 66). A morte dum crucificado sobrevinha após uma dolorosíssima agonia, com uma sede terrível, consequência da perda de sangue pelas feridas abertas, com dolorosas cãibras que provocavam o horrível estertor duma asfixia lenta.

19-22 «Esse letreiro»,títulum do Direito romano, era o resumo da acta da sentença a ser enviada para os arquivos do tribunal de César, por isso já não podia ser modificada depois de ditada e executada a sentença, apesar das insistências dos judeus, que consideravam este letreiro mais um vexame do procurador romano ao povo. João, ao sublinhar que estava escrito em hebraico, latim e grego, parece querer sugerir a realeza universal de Jesus.

23-24 «Tomaram as suas vestes»: A divisão da roupa pelos soldados era um facto banal e corrente, um direito reconhecido aos carrascos; esta só ficou referida em virtude do seu significado, pois assim se cumpriam as Escrituras (cf. Salm 22, 19) citadas explicitamente apenas por João, que fala das vestes divididas em quatro lotes; as roupas de Jesus, mesmo sem excluir a túnica, não podiam dar quatro lotes, mas disto não há que concluir que se trata duma mera criação literário-teológica, pois havia as roupas de mais dois condenados, que no conjunto fariam os quatro lotes. Também era supérfluo dizer que não rasgaram a túnica, pois não iriam inutilizá-la e, com o que já estava dito, as Escrituras apareciam plenamente cumpridas; por isso, há exegetas que, partindo da norma de o sumo sacerdote usar uma túnica sem costura, vêem na insistência neste pormenor (v. 23) a intenção de apresentar Jesus como o Sumo Sacerdote da Nova Aliança, e o seu despojamento simbolizaria a abolição do sacerdócio antigo. Os Padres vão ainda mais longe e chegam a ver na túnica sem costura uma imagem da unidade da Igreja.

25-27. Repare-se na solenidade deste relato: é uma cena central entre as cinco passadas no Calvário; a Virgem Maria é mencionada 5 vezes em 3 versículos; há o recurso a uma fórmula solene de revelação (ao ver… disse… eis…). Isto deixa ver que não se trata dum simples gesto de piedade filial de Jesus para com sua Mãe, para não a deixar ao desamparo, mas que o Evangelista lhe atribui um significado simbólico profundo. Assim, chegada a hora de Jesus, é a hora de Ela assumir (cf. Jo 2, 4) o seu papel de nova Eva (cf. Gn 3, 15) na obra redentora; por outro lado, Ela é a mulher que simboliza a Igreja (cf. Apoc 12, 1-18), a mãe dos discípulos de Jesus representados no discípulo amado, o qual a acolheu como coisa sua. Preferimos esta tradução à mais corrente: acolheu-a em sua casa, pois a expressão grega, usada mais quatro vezes em S. João, nunca aparece neste Evangelho com esse sentido. Notar que Jesus não se dirige às mulheres junto à Cruz, que são 4, ou apenas 3 conforme se contar por 2 ou por 1 pessoa a irmã de sua Mãe, Maria, a mulher de Cléofas. S. Mateus fala de muitas mulheres no Calvário, à distância (Mt 27, 35-36; cf. Mc 15, 40-41; Lc 23, 49).

28-30 «Tenho sede!»: Aquele que viera para nos matar a sede (Jo 4, 14; 7, 37) queixa-se de sede! Deveria ser um dos grandes tormentos de Jesus, sem sangue, cansado, sem tomar alimento… Mas sempre se tem visto nesta sede de Jesus algo mais: a sua ânsia pela salvação do mundo. João omite o grito de Mt 27, 46 e Mc 15, 34, referindo uma exclamação mais de acordo com a imagem de serena majestade do Senhor da vida e com o seu gosto pelos paradoxos (cf. Jo 4, 14; 7, 37) e em que parece ver também o cumprimento do Salm 22, 16. O vinagre diluído em água era um refresco, a posca romana, usado pela gente humilde e pelos soldados; os três Sinópticos também falam deste vinagre dos soldados (Mt 27, 48; Mc 15, 36; Lc 23, 36), além do vinho com mirra (Mc 15, 23), de efeito analgésico e oferecido antes da crucifixão; Mt 27, 34 dá-lhe o nome de vinho com fel para o leitor ter mais facilidade em recordar o Salmo segundo a versão dos LXX (Salm 68) que então se cumpria e que todos se dispensaram de citar (cf. Salm 69, 22). Pode-se ver no «ramo de hissopo» uma alusão ao sacrifício do novo cordeiro pascal (cf. Ex 12, 22, onde se diz que era com um ramo de hissopo que as portas dos hebreus deviam ser tingidas com o sangue do cordeiro); como o ramo deste arbusto, de folhas bastas, é curto e parece demasiado flexível para fixar a «esponja» (que serviria de tampa à vasilha do refresco), há autores que pensam ter havido uma corrupção do texto original (a palavra hyssopos, seria a corrupção de hyssós: «dardo», o que não tem qualquer espécie de apoio textual) e traduzem, como fez a tradução litúrgica, simplesmente por vara, empobrecendo o profundo significado teológico da passagem.

30 «Tudo está consumado» corresponde a um verbo grego que encerra a ideia da perfeição que atinge algo realizado – «cumprido e finalizado com toda a perfeição». «Inclinando a cabeça»: um gesto que João refere, certamente pela impressionante imagem que lhe ficou gravada para sempre, mas também por querer sublinhar o perfeito domínio de si (cf. Jo 10, 18) com que Jesus se entrega até ao fim, ao empregar a forma activa do verbo, quando era de esperar a forma média ou passiva, pois um crucificado, ao morrer, não inclina a cabeça, mas esta é que se lhe inclina… Por outro lado, «entregou o espírito» – a tradução litúrgica adoptou uma versão mais pobre: «expirou» – é uma fórmula que nunca se usa para dizer que alguém expirou; por isso, pode ver-se aqui sugerido o Espírito Santo como dom de Jesus, fruto da árvore da Cruz (cf. Jo7, 39; 16, 6).

33-34 «Não quebraram as pernas» a Jesus, por estar já morto; tratava-se do chamado crurifrágio aplicado aos ladrões e destinado a apressar-lhes a morte, que se dava por asfixia lenta: estes, ao não poderem apoiar-se nas pernas, deixavam-se asfixiar mais rapidamente. O golpe da lança dado a Jesus, com que se cumpria a profecia de Zacarias 12, 10, confirma a morte real do Senhor. Mas João, no golpe da lança, vê muito mais do que uma confirmação da morte de Jesus; ele contempla o cumprimento das Escrituras e o sacrifício do verdadeiro cordeiro pascal (cf. Ex 12, 46; Nm 9, 12; Salm 34, 21; Zac 12, 10; Apoc 1, 7), e parece insinuar – para além do dom da vida eterna (o sangue: cf. Jo 6, 53-54) e do Espírito Santo (a água: cf. Jo 4, 14; 7, 38-39; 3, 5) –, os Sacramentos da iniciação cristã, a Eucaristia (o sangue) o Baptismo (a água), a própria Igreja, a nossa Mãe na ordem da graça (cf. Gal 4, 26), a nova Eva, a sair do lado novo Adão (cf. Gn 2, 22). Estes ricos simbolismos já eram vistos pelos Padres da Igreja. «E logo saiu sangue e água», um facto incontestável, mais provavelmente de ordem natural: a água que seria soro do pericárdio, ou exsudação pleural (consequência da flagelação); de qualquer modo, como Jesus estava morto, não seria um derramamento abundante.

35 «E ele sabe que diz a verdade»: há quem queira ver aqui uma espécie de juramento, a saber, o apelo a uma segunda testemunha abonatória, o próprio Cristo glorioso, ou mesmo o Pai (que sabe que o evangelista diz a verdade), não faltando quem pense numa glosa. De qualquer modo, uma afirmação tão solene faz apelo a factos reais, que excluem uma simbologia desvinculada da história. E, de facto, uma história como a da Paixão e Morte do Senhor não se inventa, é mesmo verdadeira. A testemunha privilegiada foi certamente o discípulo amado de Jesus, que garante a verdade dos factos narrados.

38 «José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, embora oculto por medo dos judeus, «homem rico» (Mt 27, 57), «membro do Sinédrio» (Mc 15, 43), «pessoa recta e justa, que não estava de acordo com a decisão e o procedimento dos outros» (Lc 23, 50-51). A sua grande coragem, dedicação e lealdade levam-no a que, quando as circunstancias o exigem, apesar de estas serem as mais infamantes e delicadas, ali esteja pronto para cumprir o seu dever de piedade para com o Mestre, na hora da fuga e do estonteamento dos próprios Apóstolos.

39 «Nicodemos… trazia uma mistura de quase 100 libras de mirra e aloés». eram 32,7 Kg de matéria aromática, uma resina moída, em tal quantidade que fica patente, não só a generosidade daqueles amigos escondidos (cf. Jo 3, 1; 7, 50), que não receiam declarar-se quando é preciso, mas também a Ressurreição como algo fora do horizonte de todos, pois estes produtos usavam-se para abafar os maus odores da putrefacção que se previa para o cadáver. Não fora a decisão e a coragem destes homens notáveis, o corpo de Jesus teria ido parar a uma vala comum.

40 «Segundo o costume dos judeus», os panos de linho da mortalha incluíam um lençol mortuário (em grego síndone: Mt 27, 49 par.), que envolvia todo o corpo, umas faixas para ligar os braços e as pernas e aconchegar o lençol, e um lenço, ou sudário propriamente dito, para envolver a cabeça.

Sugestões para a homilia

A Cruz, contemplação da morte

A Cruz de Cristo, alegria para o mundo

A Cruz, porta para Deus

A Cruz, contemplação da morte

Este é o dia em que adoramos de modo particular a Cruz.

Instrumento de morte infame, este sinal nasceu diante de nós, desde a aurora, e atravessa as horas de Sexta-Feira Santa, durante as quais nos encaminhamos, atenciosos, para seguir, com o pensamento e o coração, a paixão do Senhor: o caminho que vai desde a sua prisão no Monte ao lado da torrente do Cédron, passando pelo Pretório de Pilatos até ao Calvário. A morte.

As horas deste dia, atravessadas de religioso silêncio, fazem-se sentir na significativa liturgia desta tarde: a adoração da Cruz. A contemplação da morte.

A Cruz de Cristo, alegria para o mundo

Adoramos a Vossa Cruz, Senhor.

Sim. Na Cruz, Cristo manifestou-se como Senhor: aceitou a morte e deu a vida.

Não foi simplesmente «morto», mas «deu a vida». Aceitou a morte e deu a vida. Deu a Sua vida por nós. Por todos os homens. «Nós» somos apenas uma pequena parte daqueles pelos quais Cristo deu a vida. Não há um único homem, desde o início até ao fim do mundo, por quem Ele não tenha dado a vida.

Ele deu a vida por todos. Redimiu a todos. A Cruz é o sinal da redenção universal: eis que mediante o madeiro – da Cruz – se difundiu a alegria em todo o mundo.

A Cruz, porta para Deus

A Cruz é a porta, através da qual Deus entrou definitivamente na história do homem. E nesta história permanece.

A Cruz é a porta, através da qual Deus não cessa de entrar na nossa vida.

Por isso é que nós nos persignamos com o sinal da cruz e dizemos simultaneamente «em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo».

Tais palavras são um convite a Deus, para que venha a nós. E unimo-las com o sinal da Cruz, para que Deus entre no coração do homem mediante a cruz. E, assim, Ele passa a estar presente em todas as actividades, pensamentos e palavras: em toda a vida do homem e do mundo.

A Cruz abre-nos para Deus. A Cruz abre o mundo para Deus.

Que esta Sexta-Feira Santa, dedicada ao mistério da Cruz, que nós meditamos neste dia, nos aproxime cada vez mais de Deus vivo: Pai, Filho e Espírito Santo.

Que o sinal da morte de Cristo vivifique em nós a Sua presença e a Sua força.

A liturgia da palavra termina com a oração universal, que se faz do seguinte modo: o diácono, do ambão, diz a exortação com que é indicada a intenção da oração; todos oram em silêncio durante uns momentos; finalmente, o sacerdote, da sua sede, ou, conforme as circunstâncias, do altar, diz, de braços abertos, a oração.

Durante todo o tempo da oração universal, os fiéis podem estar de joelhos ou de pé.

As Conferências Episcopais podem determinar uma aclamação do povo para antes da oração do sacerdote, ou decidir que se mantenha o tradicional convite do diácono: Flectamus genua – Levate (Ajoelhemos – Levantemo-nos), com um espaço de tempo de oração em silêncio, que todos fazem de joelhos.

Em caso de grave necessidade pública, pode o Ordinário do lugar autorizar ou até decretar que se junte uma intenção especial.

De entre as orações que se propõem no Missal, é permitido ao sacerdote escolher as que melhor se acomodam às condições locais, respeitando contudo a série de intenções indicadas para a oração universal (cf. Instrução Geral sobre o Missal Romano, n. 46, p. 29).

ADORAÇÃO DA SANTA CRUZ

Terminada a oração universal, faz-se a adoração solene da Santa Cruz.

 

Monição: A Cruz é o sinal do amor universal de Deus, símbolo do nosso resgate. Nela nós adoramos Jesus Cristo, Aquele que é a salvação do mundo.

Vamos exprimir-Lhe o nosso reconhecimento, beijando o instrumento da nossa reconciliação e peçamos-Lhe a força para conseguirmos levar a nossa própria cruz.

 

Das duas formas da apresentação da Cruz, que a seguir se propõem, escolha-se a que parecer mais conveniente, segundo as exigências pastorais.

APRESENTAÇÃO DA SANTA CRUZ

PRIMEIRA FORMA

A Cruz, coberta com um véu, é levada para o altar. Acompanham-na dois ministros com velas acesas. O sacerdote, de pé, diante do altar, pega na Cruz, descobre-a um pouco na parte superior, levanta-a e (ajudado, se for preciso, pelos ministros sagrados ou pelos cantores) convida os presentes à adoração, dizendo as palavras: Ecce lignum crucis (Eis o madeiro da Cruz). Todos respondem: Venite, adoremus (Vinde, adoremos). Terminado o canto, todos se prostram de joelhos durante alguns momentos em adoração, enquanto o sacerdote se mantém de pé, com a Cruz levantada.

Seguidamente, o sacerdote descobre o braço direito da Cruz e, levantando-a de novo, repete o convite: Ecce lignum crucis (Eis o madeiro da Cruz), como acima.

Finalmente, descobre toda a Cruz e, levantando-a pela terceira vez, repete o convite: Ecce lignum crucis (Eis o madeiro da Cruz), como da primeira vez.

Em seguida, acompanhado por dois ministros com velas acesas, o sacerdote leva a Cruz para a entrada do presbitério ou outro lugar adequado, ou então entrega-a a dois ministros para a sustentarem levantada, depois de colocarem as velas à direita e à esquerda da Cruz.

Faz-se então a adoração da Cruz, na forma indicada adiante.

SEGUNDA FORMA

O sacerdote, ou o diácono, acompanhado dos ministros – ou então outro ministro idóneo – encaminha-se para a porta da igreja e aí recebe a Cruz descoberta; os ministros tomam velas acesas e organiza-se a procissão através da igreja em direcção ao presbitério, como se indica atrás.

Aquele que leva a Cruz pára, primeiro junto à porta, depois no meio da igreja, finalmente à entrada do presbitério. Em cada uma destas paragens, levanta a Cruz e faz o convite à adoração com as palavras: Ecce lignum crucis (Eis o madeiro da Cruz) e todos respondem: Venite, adoremus (Vinde, adoremos). Depois de cada resposta, todos se prostram de joelhos e fazem uma breve adoração em silêncio. Aquele que leva a Cruz, mantém-se de pé, com a Cruz levantada.

Em seguida, coloca-se a Cruz, com as velas acesas, à entrada do presbitério.

Convite na apresentação da Cruz

V. Eis o madeiro da Cruz, no qual esteve suspenso o Salvador do mundo.

R. Vinde, adoremos.

ADORAÇÃO DA SANTA CRUZ

Para a adoração da Cruz, o ministro e os fiéis aproximam-se processionalmente e fazem reverência à Cruz com uma simples genuflexão ou por meio de outro sinal apropriado, conforme os costumes locais, p. ex., beijando a Cruz.

Entretanto canta-se a antífona Crucem tuam (Adoramos, Senhor, a vossa Cruz), os Impropérios ou outros cânticos apropriados. À medida que adoram a Cruz, todos se sentam.

 

A Cruz exposta à adoração deve ser uma só. Se não puderem ir todos adorar a Cruz um por um, devido à grande afluência do povo, o sacerdote, depois de uma parte dos fiéis ter feito a adoração, toma a Cruz e, de pé, diante do altar, com breves palavras convida o povo à adoração da santa Cruz; em seguida, sustenta-a levantada durante algum tempo e os fiéis adoram-na em silêncio.

Terminada a adoração, a Cruz é colocada no seu lugar sobre o altar. As velas acesas dispõem-se aos lados do altar ou junto da Cruz.

LITURGIA EUCARÍSTICA

Sagrada Comunhão

Depois de termos contemplado o mistério da Cruz e de termos adorado Jesus Cristo crucificado, iremos participar no mais íntimo do mistério Pascal: o contacto com o próprio «Cordeiro Pascal». Comungaremos o «Pão que dá a Vida», consagrado em Quinta-feira Santa.

Peçamos ao Senhor a força para passarmos da morte do pecado à vida da ressurreição e ficarmos, deste modo, unidos ao Seu Corpo Místico, isto é, a Cristo que sofre e morre nos Seus membros.

Estende-se uma toalha sobre o altar e colocam-se nele o corporal e o Missal.

Depois o diácono, ou, na falta dele, o sacerdote, leva o Santíssimo Sacramento do lugar da reserva para o altar; entretanto, todos estão de pé, em silêncio. Dois ministros com velas acompanham o Santíssimo Sacramento e colocam as velas junto do altar ou sobre ele.

Quando o diácono tiver colocado o Santíssimo Sacramento sobre o altar e descoberto a píxide, o sacerdote aproxima-se, faz a genuflexão e sobe ao altar. Então, de mãos juntas, diz em voz alta:

Fiéis aos ensinamentos do Salvador, ousamos dizer:

O sacerdote, de braços abertos, diz juntamente com o povo:

Pai nosso, que estais nos céus, santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso reino; seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; e não nos deixeis cair em tentação; mas livrai-nos do mal.

O sacerdote, de braços abertos, continua:

Livrai-nos de todo o mal, Senhor, e dai ao mundo a paz em nossos dias, para que, ajudados pela vossa misericórdia, sejamos sempre livres do pecado e de toda a perturbação, enquanto esperamos a vinda gloriosa de Jesus Cristo nosso Salvador.

Junta as mãos. O povo conclui a oração, aclamando: Vosso é o reino e o poder e a glória para sempre.

Em seguida, de mãos juntas, o sacerdote diz em silêncio:

A comunhão do vosso Corpo e Sangue, Senhor Jesus Cristo, não seja para meu julgamento e condenação, mas, pela vossa misericórdia, me sirva de protecção e remédio para a alma e para o corpo.

O sacerdote genuflecte, toma uma partícula e, levantando-a um pouco sobre a píxide, diz em voz alta, voltado para o povo:

Felizes os convidados para a Ceia do Senhor. Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.

E juntamente com o povo, diz:

Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo.

Voltado para o altar, comunga com reverência o Corpo de Cristo.

Em seguida, distribui a comunhão aos fiéis. Durante a comunhão, pode cantar-se um cântico apropriado.

Terminada a distribuição da comunhão, um ministro idóneo leva a píxide para o lugar previamente preparado fora da igreja ou, se as circunstâncias o exigirem, coloca-a no sacrário.

Então o sacerdote, depois de um conveniente espaço de silêncio sagrado, diz a seguinte oração:

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO: Deus eterno e omnipotente, que nos renovastes pela gloriosa morte e ressurreição de Jesus Cristo, confirmai em nós a obra da vossa misericórdia, a fim de que, pela comunhão neste mistério, Vos consagremos toda a nossa vida. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Para despedir a assembleia, o sacerdote, de pé, voltado para o povo e com as mãos estendidas sobre ele, diz a seguinte oração:

ORAÇÃO SOBRE O POVO: Derramai, Senhor, a vossa bênção sobre este povo que celebrou a morte do vosso Filho na esperança da sua ressurreição; concedei-lhe o perdão e o conforto, aumentai a sua fé e confirmai-o na esperança da salvação eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco, na unidade do Espírito Santo.

Todos se retiram em silêncio e, em tempo oportuno, desnuda-se o altar.

Os que tiverem tomado parte na solene acção litúrgica vespertina não são obrigados a celebrar as Vésperas.

Celebração e Homilia:   ANTÓNIO ELÍSIO PORTELA

Nota Exegética:       GERALDO MORUJÃO

Sugestão Musical:    DUARTE NUNO ROCHA

Fonte: Celebração  Litúrgica


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