Apologética

Sobre o livro: “Jesus: Aproximação histórica”

Um livro de J. A. PAGOLA

Acaba de publicar-se Jesus: aproximação histórica (Petrópolis: Vozes, 2010, 656 pp.). Na capa traseira do número 279 da Revista Eclesiástica Brasileira (julho de 2010) se apresenta o livro do Prof. Pagola da seguinte maneira: “Nesta obra de 650 páginas, José Antônio Pagola, professor há sete anos se dedica exclusivamente a pesquisar e tornar conhecida a pessoa de Jesus, oferece um relato vivo e apaixonante da atuação da mensagem de Jesus de Nazaré, situando-o em seu contexto social, econômico, político e religioso a partir das mais recentes pesquisas”.

Apesar dessa apaixonante apresentação, acho oportuno informar ao leitor que o livro de Pagola – espanhol-basco, mestre em teologia e em Sagrada Escritura, autor de vários escritos – foi muito criticado na Espanha por teólogos e bispos. A versão original do livro foi editada com o título “Jesús. Aproximación histórica” (Madrid: PPC, 2007). Um dos teólogos espanhóis mais conhecidos, José Antônio Sayés, se enfrentou com as ideias de Pagola dando lugar à polêmica Pagola-Sayés. Finalmente, a Conferência Episcopal Espanhola publicou, através de sua Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé, uma “Nota de clarificación sobre el libro de José Antonio Pagola, Jesús. Aproximación histórica, PPC (Madrid 2007, 544 pp.)”, a nota saiu no dia 18 de junho de 2008. Seria interessante que o leitor não começasse a sua leitura de Pagola sem antes ter conhecimento – de alguma maneira – da Nota de Clarificação que, pode ser lida em sua versão original no seguinte enlace http://www.conferenciaepiscopal.es/doctrina/documentos/pagola.pdf.

A citada nota tem 21 pontos e analisa o livro desde os aspectos metodológico e doutrinário. A Nota começa dizendo que a leitura do livro tem causado muita confusão e, é por isso, que se fez necessária o esclarecimento de alguns aspectos. É verdade que o autor resolveu fazer uma revisão do livro e, no entanto, ainda assim a Comissão julgou necessário divulgar a Nota. De fato, depois da revisão da obra pelo Autor, o teólogo e bispo emérito Fernando Sebastián, lamentou que o livro não fosse retirado desde a sua primeira edição já que a obra de Pagola, contendo um erro de método, não podia ser corrigida a não ser escrevendo-se outro livro. Acrescente-se a isso que PPC pediu às livrarias que lhe devolvessem a edição corregida, isto é, que a obra fosse retirada do mercado.

O citado Documento encontra três deficiências na obra do teólogo basco enquanto à sua metodologia: ruptura entre fé e história, desconfiança da historicidade dos Evangelhos e a existência de pressupostos equivocados à hora de entender a história de Jesus. Desde o ponto de vista doutrinal, outras deficiências: Jesus aparece como mero profeta, nega-se a consciência filial de Cristo e o sentido redentor dado por Jesus à sua morte, ofusca-se a realidade do pecado e o sentido do perdão, nega-se a intenção de Jesus de fundar a Igreja como comunidade hierárquica, não deixa claro o carácter histórico e transcendente da ressurreição de Jesus (a ressurreição teria acontecido no coração dos discípulos). Além do mais, o Documento diz que os pressupostos principais que estão por detrás dos pontos de vista supracitados são, basicamente, dois: ruptura entre a investigação histórica sobre Jesus e a fé nele, por um lado; interpretação da Bíblia à margem da Tradição viva da Igreja, por outra. A Nota termina afirmando que “tendo em conta tudo o que se disse, pode-se afirmar que o Autor parece sugerir indiretamente que algumas propostas fundamentais da doutrina católica não têm fundamento histórico em Jesus. Este modo de proceder é prejudicial, pois acaba deslegitimando o ensino da Igreja que – segundo o Autor – não tem enraizamento real em Jesus e na história” (n. 19).

Como se pode observar, as posições de Pagola são as mesmas da teologia liberal e do modernismo teológico, só que repetidas no ano 2007. Por outro lado, qual é o teólogo que não conhece as antigas discussões entre o Jesus histórico e o Cristo da fé, assim como a afirmação do Magistério da Igreja de que Jesus é o Cristo? Quando o Autor cita – sem diferenciar – os livros da Sagrada Escritura e os livros apócrifos, quando segue o critério liberal de que a fé e a sua formulação expressada nos dogmas alterariam os fatos históricos, quando faz a sua análise horizontal e marxista com o velho esquema de luta de classes ou, ainda, quando afirma que Jesus é o homem no qual Deus se encarnou, pergunto: afirma algo novo em relação aos antigos erros já conhecidos? Quem for, portanto, à procura de alguma novidade na apresentação do Jesus de Pagola ficará decepcionado. Eu, no entanto, gostaria de poupar o leitor.

Pe. Françoá Costa
Mestre em Teologia pela Universidade de Navarra
Doutorando em Teologia (sistemática) pela Universidade de Navarra (Espanha)


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